CONFERÊNCIA DE MONS. LEFEBVRE EM ANNECY (1987): EU VI PADRES CHORAREM”

lef

Em uma conferência realizada em Annecy em 1987, Mons. Lefebvre expõe a terrível situação em que se encontraram, após o Concílio, “as cabeças mais fiéis à Tradição“, aqueles que guardaram a antiga missa, a batina, etc. Ele afirma que houve perseguições reais e que alguns bispos e padres morreram de tristeza e até nos dá exemplos.

Fonte: La Porte Latine – Tradução: Dominus Est

TRECHOS

Como eles (os liberais) venceram o Concílio (Vaticano II) – é preciso dizer: eles venceram – eles assumiram os lugares imediatamente. Como em um Estado: quando os socialistas assumem o governo, imediatamente demitem todos aqueles que não são a favor do socialismo e outros socialistas são colocados nesses lugares, é claro. Isso é o que foi feito no Vaticano.

Assim que os liberais venceram, todos os conservadores foram imediatamente eliminados da cúria romana e, em todos os bispados onde havia cabeças mais fiéis à tradição, todos eles foram eliminados; muitos deles se demitiram. Vendo o que estava acontecendo na Igreja, eles ficaram tão perturbados, tão agoniados, que pediram demissão.

Uma verdadeira guerra contra todos os bispos tradicionais

Dou-lhes um exemplo: o do Arcebispo de Dublin, que conheci muito bem, que era meu amigo porque também era membro da Congregação dos Padres do Espírito Santo, da qual fui superior geral durante 6 anos: Mons. McQuaid[1] . Ele renunciou e quinze dias depois, morreu. Ele morreu de tristeza, este Arcebispo! Eu o conhecia bem: ele morreu de desgosto. Ele estava ligado a Roma, ao Santo Padre, com todas as fibras de sua alma. Recusar que pudesse ver o Santo Padre, sentir-se de certa forma como se tivesse sido expulso de Roma…ele não pôde suportar, sua saúde não resistiu. E quantos, quantos e quantos bispos como este!

Posso citar um outro caso, o de Mons. Morcillo[2], Arcebispo de Madrid. Mons. Morcillo era um dos secretários do Concilio (não eram numerosos, eram 5 ou 6 secretários ao todo). Todos esses secretários foram feitos cardeais depois do Concílio, exceto Mons. Morcillo, Arcebispo de Madri. Ele também poderia ter sido nomeado cardeal, por que não foi? Porque era conservador, porque era muito firme em suas idéias. Bem, ele morreu de tristeza também, por sentir que havia se tornado persona non grata, que ele havia se tornado uma pessoa repudiada e rejeitada, e que ele não poderia ser cardeal enquanto os outros todos já haviam sido feitos. Não que ele estivesse interessado em ter o chapéu cardinalício, ele era um homem muito humilde – mas isso tudo é inadmissível! Então a resposta a isso (às pessoas que levantaram objeções, aos espanhóis que não entenderam por que todos os secretários do Concílio foram nomeados cardeais e seu Arcebispo de Madri não foi, por quê?) foi: “Ah, mas Madrid é não uma cidade cardinalícia. A primazia da Espanha é Toledo, não Madrid!”

De fato, havia um cardeal em Toledo. Mas um cardeal foi feito em Lille, no meu país, onde nunca houve cardeal…cardeais podem ser feitos, não há necessidade de um título especial. E então, a melhor prova é que quando ele se ausentou, o arcebispo[3] que foi nomeado depois dele foi imediatamente feito cardeal em Madrid! Um falso motivo, vejam. E que cardeal o sucedeu: ele era a favor do casamento duplo na Espanha, casamento civil para aqueles que o quisesse, depois casamento religioso para quem também o quisesse, para os católicos: eles poderiam escolher. Eis o que o Cardeal de Madrid, sucessor de Mons. Morcillo apresentou como projeto à assembleia de cardeais e arcebispos de Espanha!

Ou seja, foi uma verdadeira guerra contra todos aqueles que eram tradicionais. Portanto, não devem se surpreender por eu ainda estar sendo perseguido e que tenha sido perseguido rapidamente após o Concílio, isso é claro! Se eu tivesse tido uma cadeira naquela época, é claro que também teria sido eliminado rapidamente. Mas como eu era Superior Geral dos Padres do Espírito Santo, Superior de uma Congregação, era mais difícil

Eu vi padres chorarem

A situação após o Concílio foi terrível para aqueles que eram da Tradição, que mantiveram a Tradição. Foi uma perseguição e ainda é agora. Todos os senhores conhecem casos de padres, não conhecem, nas dioceses, que são perseguidos: por quê? – Porque guardam a missa antiga, porque usam a batina, porque ainda falam um pouco de latim. Eles são perseguidos até nos menores vilarejos. Assim que um padre quer manter a tradição, é imediatamente perseguido pelo seu Bispo, perseguido pelo clero local, é horrível, sabe! Já vi padres chorarem, chorarem de dor.

Mas o que temos feitos de bom? Fizemos apenas o que nos foi pedido desde que entramos no seminário, continuamos nossa Missa conforme aprendemos, como fomos ordenados, rezamos da mesma forma, ainda fazemos nosso apostolado, não mudamos nada .

Antes éramos bastante elogiados por nossos Bispos, éramos encorajados por eles, e de repente, agora, desde este Concílio, nos tornamos malfeitores, pessoas que devem ser perseguidas, pessoas que devem ser eliminadas das dioceses.

É horrível, horrível.

“O senhor não voltará ao Senegal”

Recentemente, um dos únicos padres africanos, Padre do Espírito Santo que só rezou a missa antiga [4], que jamais rezou a missa nova, disse:

Eu não, fui ordenado com a Missa antiga, guardo a missa antiga até a minha morte, não tenho nada a fazer, não mudo nada,

ele permaneceu na selva, um missionário que eu conhecia bem, que estava no Senegal, que tive como missionário quando era Bispo em Dakar: um excelente missionário, pobre, vivendo na pobreza, como os africanos da selva, magnífico missionário, conhecendo a língua, falando como um nativo.

Recentemente ele voltou para casar uma de suas sobrinhas, da região de Melun. Fez o casamento de sua sobrinha, estava no Senegal há 40 anos, então o provincial dos Padres do Espírito Santo lhe disse:

– “Não, o senhor não voltará mais para o Senegal, acabou.”
– “Mas por quê? O que eu fiz?”
– “Ah, porque o senhor reza a missa de São Pio V.”
– “Sim claro, eu rezo a missa de São Pio V! O que estou fazendo de errado? Meus Africanos estão muito contentes com a Missa que eu rezo, sempre rezei a mesma Missa, nada mudou, continuamos como antes, eles estão muito felizes”
– “Não, o senhor não voltará mais ao Senegal”.

Este missionário que estava ligado de corpo e alma a seus Africanos, a este povoado, e que gostaria de ter morrido lá, não pôde regressar, e soube que estava no Gard, na casa de um dos seus amigos, abandonado pelos Padres da Espírito Santo. Sinceramente, acho que ele teve câncer por causa da dor, pela dor de não poder voltar para a África. E ele morreu três semanas atrás.

Morreu rezando a Santa Missa

E recebi o anúncio funerário feito por suas duas irmãs e seus dois irmãos casados: tiveram a coragem de escrever neste anúncio fúnebre impresso: “Morreu por ter continuado a celebrar a missa de São Pio V ”. É a primeira vez que o vejo num anúncio impresso: “Morreu por ter continuado a celebrar missa”. Escrevi para sua irmã e disse:

Meu Deus, eu a parabenizo, a senhora pelo menos colocou a verdadeira razão pela qual este pobre missionário morreu.

Então ela me disse:

Monsenhor, eu não sabia que tinha um irmão tão santo. Cuidei dele dois dias antes de sua morte. Ele estava em seu leito de morte, já não me olhava mais, estava completamente levado por sua Missa. Celebrou o santa Missa deitado em sua cama, recitou todas as orações, do começo ao fim como sempre, consagrou uma hóstia, ele comungou em seu leito de morte porque ninguém veio ajudá-lo a morrer e na véspera de sua morte, repetiu as palavras da consagração, da Missa. Ele não me viu mais, foi levado, e partiu assim em sua missa, foi magnífico, não sabia que tinha um irmão tão santo.

Estes são exemplos, exemplos da vida real, de três semanas atrás, não são antigos. Perseguição! E durante esse tempo podemos falar de caridade, eles o abandonaram, o abandonaram, ninguém foi apoiá-lo para aliviá-lo, para ajudá-lo em sua morte santa…uma abominação, uma abominação!

† Marcel Lefebvre

Notas:

  1. Mons. John Charles McQuaid, CSSp. (1895-1973)
  2. Mons. Morcillo González (1904-1971)
  3. Cardeal Vicente Enrique y Taracón (1907-1994)
  4. Padre Pierre Bouvet (1919-1987)