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	<title>DOMINUS EST &#187; Gustavo Corção</title>
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	<description>FIÉIS CATÓLICOS DE RIBEIRÃO PRETO (FSSPX) - SOB A PROTEÇÃO DE NOSSA SENHORA CORREDENTORA E MEDIANEIRA DE TODAS AS GRAÇAS</description>
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		<title>“…OS IDIOTAS AMANHECERAM NOVOS E CONFIANTES…”</title>
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		<pubDate>Sat, 07 Feb 2026 13:00:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Dominus Est]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Espiritualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Textos e Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Gustavo Corção]]></category>

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		<description><![CDATA[&#8220;&#8230;Meu amigo não me explicou se se tratava do Homo Sapiens, do Everlasting Man &#8211; de Chesterton, ou do HOMO POSTCONCILIARIUS&#8230;&#8221; ************************** Um amigo que se julga ateu ou não-católico telefonou-me outro dia, e logo me atirou pelos fios esta pergunta aflita: &#8230; <a href="http://catolicosribeiraopreto.com/os-idiotas-amanheceram-novos-e-confiantes-2/">Continuar lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><img class=" aligncenter" src="https://opusmaterdeiblog.files.wordpress.com/2017/02/gustavo-corccca7acc83o-628x400.jpg?w=529" alt="Resultado de imagem para gustavo corÃ§Ã£o" width="319" height="206" /></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><strong>&#8220;&#8230;Meu amigo não me explicou se se tratava do Homo Sapiens, do Everlasting Man &#8211; de Chesterton, ou do <span style="text-decoration: underline;"><em>HOMO POSTCONCILIARIUS</em></span>&#8230;&#8221;</strong></span></p>
<p style="text-align: center;">**************************</p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Um amigo que se julga ateu ou não-católico telefonou-me outro dia, e logo me atirou pelos fios esta pergunta aflita: &#8220;<em>Meu caro C. me diga uma coisa: a Igreja antigamente era ou não era uma coisa muito inteligente?</em>&#8220;<span style="font-weight: inherit; font-style: inherit;"><br />
</span></span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">Ia responder-lhe com ênfase: &#8220;Era!&#8221; Mas enquanto vacilei alguns segundos meu amigo desenvolveu a idéia: &#8220;Olhe aqui. Eu bem sei que antigamente existiam padres simplórios, freiras tapadíssimas, leigos ainda mais simplórios e tapados. <strong>A burrice não é novidade, é antiqüíssima</strong>. Garanto-lhe que ao lado do artista genial que pintava touros nas cavernas de Espanha, anunciando há quarenta mil anos a brava raça de toureiros, havia dois ou três idiotas a acharem mal feita a pintura.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit;">— Mas, calavam-se, disse eu.</span><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit;"> </span></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">E logo o meu amigo uivou uma exclamação que trazia na composição harmônica de suas vibrações todas as explosões da alma: a alegria, a angústia, a aflição de convencer, a tristeza de um bem perdido e até a cólera&#8230;</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">— Pois é! CALAAAVAM-SE!!!</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">Contei-lhe então uma história de antigamente. Teria eu dezoito ou dezenove anos, e meu heróis dezessete ou dezoito. Ele era o aluno repetente de uma escola qualquer, e eu seu &#8220;explicador&#8221; de matemática. Eu sentia a resistência tenaz que, dentro dele, se opunha às generalizações matemáticas. Ficava rubro, vexado e alagado de suor.</span><span id="more-31214"></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit;">Recomeçava eu a explicar certo problema quando ele, numa decisão brusca, me deteve e suplicou:</span><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit;"> </span></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit;">— Explica devagar, devagarzinho, porque eu sou burro.</span><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit;"> </span></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">Na outra ponta do fio meu amigo de hoje explodiu:</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit;">— Que gênio! QUE GÊNIO!!</span><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit;"> </span></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit;">Era efetivamente genial aquele moço de antigamente. Não segui sua trajetória e não sei se ele hoje amadureceu e desabrochou aquele botão de sabedoria em flor, ou se virou idiota e portanto intelectual. <strong>O que pude garantir ao meu amigo não-católico é que antigamente a atitude média dos idiotas era tímida, modesta e respeitosa. E isto que se observava nas ruas, nas aulas particulares, nos salões de bilhar e nos clubes de xadrez, observava-se também na Igreja. De repente, em certo ângulo da história, mercê de algum gás novo na atmosfera, ou de algum fator ainda não deslindado, os idiotas amanheceram novos e confiantes.</strong> Já ouvi e li muitas vezes o termo &#8220;mutação&#8221; surrupiado das prateleiras da genética e aplicado à história, à Igreja, ao dogma e aos costumes. Dois ou três bispos franceses não sabem falar dez minutos sem usar o termo &#8220;um mundo em mutação&#8221;.</span><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit;"> </span></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">Se mutação houve, estou inclinado a crer que foi naquele ponto a que atrás aludimos: <strong>os idiotas que antigamente se calavam estão hoje com a palavra, possuem hoje todos os meios de comunicação. O mundo é deles.</strong> Será genético o fenômeno e por conseguinte transmissível?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">— &#8220;Receio muito&#8221;, gemeu a voz de meu amigo, &#8220;você não leu os jornais da semana passada?&#8221;</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">— O quê? — perguntei com a aflição já engatilhada.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">— A descoberta do capim!</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">Não tinha lido tão importante notícia, e o meu amigo explicou-me: um sábio, creio que dinamarquês, chegou à conclusão de que o capim é um dos melhores alimentos do homem. <strong>Meu amigo não me explicou se se tratava do Homo Sapiens, do Everlasting Man &#8211; de Chesterton, ou do Homo postconciliarius. </strong>Seja como for, dentro de quatro ou cinco anos teremos a humanidade de quatro e espalhada nos pastos.</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #000000;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit;">*</span>************</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">Estas reflexões amaríssimas, como diria o &#8220;agregado&#8221; de Machado de Assis, vieram-me hoje ao espírito depois da leitura de <em>La Documentation Catholique</em>, e principalmente depois da casual leitura de um volume encontrado entre outros livros de vinte anos atrás: <em>O personalismo</em>, de Emmanuel Mounier.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">Nunca lera nada desse personagem que fundou a revista Esprit e que fez escola. Abri a página 42 da tradução editada pela Livraria Duas Cidades e li: &#8220;O homem é um ser natural&#8221;. Detenho-me nesta proposição seguida desta outra: &#8220;Será somente um ser natural?&#8221; E depois: &#8220;Será, inteiramente, um joguete da natureza?&#8221; Ora, é fácil de ver que nenhuma dessas proposições têm sentido, e nenhuma conexão se percebe entre elas. Ou então, se o leitor quiser ser mais exato, diremos que todo aquele fraseado joga com a polivalência te termos equívocos pretendendo com essa confusão transmitir ao desavisado adepto do &#8220;personalismo&#8221; um sentimento de profundidade ou de rara acuidade. O que quer dizer &#8220;um ser natural&#8221;? Dotado de natureza própria todos os seres o são, desde o átomo de hidrogênio até Deus. Tenho diante dos olhos o dorso de um livro de Garrigou-Lagrange: <em>Dieu, son existance et sa nature</em>. Logo, Deus é um ser natural. Se por natural se entende tudo o que pertence ao Universo criado, todos os seres, exceto o Incriado, serão seres naturais: a água, um gato, São Miguel Arcanjo. Se o termo natural se contrapõe a artificial, todos nós sabemos que um homem não é montado como um rádio de pilha, ou como uma máquina de costura. Logo, é um ser natural. Mas não se entende por que razão foi preciso fundar Esprit, lançar o progressismo, atirar-se nos braços do comunismo, comprometer Jacques Maritain, excitar tanta gente em torno de tão óbvia proposição.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">Emmanuel Mounier já morreu coberto de glória há mais de dez anos. Podemos tranqüilamente dizer que era burro, apesar de tudo o que foi escrito em francês a seu respeito, como já podemos dizer tranqüilamente que Teilhard de Chardin era meio tantã. Dentro de cinqüenta anos ninguém mais saberá em que consistiu o &#8220;personalismo&#8221; de Mounier, ou o &#8220;phenomène humain&#8221; de Teilhard de Chardin. Essas obras foram o consolo e a volúpia de muitos leitores que, não entendendo nada do que liam, ao menos se aliviavam com este pensamento balsâmico: todos os livros são escritos para ninguém entender. E assim os idiotas do mundo tiveram um decênio ou dois de júbilo.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">Passarão esses autores, mas se é verdadeira a descoberta das propriedades do capim, muitos novos autores surgirão a perguntar &#8220;se o homem é um ser natural&#8221;. Já se houve o tropel&#8230; Mas — quem sabe — talvez o próprio capim, entre suas virtudes estudadas em Estocolmo ou Copenhague, entre duas Pornôs, traga uma espécie de calmante que nos devolva o genial tipo clássico do burro que se conhecia e que não fundava revistas católicas nem rasgava novos horizontes para a Igreja.</span></p>
<p style="text-align: right;"><span style="color: #0000ff;"><a style="color: #0000ff;" href="https://permanencia.org.br/drupal/node/460"><strong><em>Conversa em Sol Menor</em> – Gustavo Corção</strong></a></span></p>
<p style="text-align: right;"><span style="color: #0000ff;"><strong><a style="color: #0000ff;" href="https://catolicosribeiraopreto.com/antigamente-calavam-se/">Publicado no Dominus Est em 2019</a></strong></span></p>
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		<title>A IMORTALIDADE</title>
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		<pubDate>Fri, 16 Jan 2026 15:18:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Dominus Est]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Espiritualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Fé]]></category>
		<category><![CDATA[Textos e Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Gustavo Corção]]></category>

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		<description><![CDATA[Gustavo Corção A imortalidade de que se fala nas academias, ou nos comentários tecidos em torno de um grande morto, como acontece agora com Hemingway, é aquela que Augusto Comte chamava de imortalidade subjetiva, e que consiste na sobrevivência, não &#8230; <a href="http://catolicosribeiraopreto.com/a-imortalidade/">Continuar lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><img class="n3VNCb alignright" src="https://permanencia.org.br/drupal/sites/default/files/imagens/Corcao/boina.jpg" alt="Resultado de imagem para GUSTAVO CORÇÃO" width="305" height="241" data-noaft="1" /></p>
<p style="text-align: right;"><strong><span style="color: #000000;"><em><a href="https://permanencia.org.br/drupal/node/5641">Gustavo Corção</a></em> </span></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A imortalidade de que se fala nas academias, ou nos comentários tecidos em torno de um grande morto, como acontece agora com Hemingway, é aquela que Augusto Comte chamava de imortalidade subjetiva, e que consiste na sobrevivência, não da pessoa, mas das obras e dos passos. Essa imortalidade comporta graus, conforme seja maior ou menor o rumor que o finado tenha feito em torno de si. Há nomes sonoros que ficam na lembrança dos povos por séculos e séculos, enquanto outras vidas mais leves, mais silenciosas e cinzentas logo se apagam, às vezes no próprio mundo familiar. Lembra-me aqui um amigo que morreu deixando um magro legado de ressonâncias. Tão obscuro, tão pouco conseqüente fora que até um dia aconteceu-me, encontrando a viúva, abrir a boca para perguntar notícias do Belmiro, já morto, mais morto do que um prego de caixão de defunto como dizia Dickens. Calei-me a tempo quando recapitulei rapidamente a história póstuma do amigo. Deixara filhos e viúva, mas por uma ironia da sorte a viúva recebeu uma herança, empregou-se num desses cargos em que se ganha muito e pouco se faz, como tantos há nesta República, e assim a família conheceu melhor padrão nos dias de luto. Um ano depois a viúva namorava um guapo peruano que acabou de apagar na memória de todos a lembrança fugaz do pobre Belmiro. Lembro-me de um pormenor curioso da história do apagamento do Belmiro: um dia, trazendo os filhos para o colégio, de automóvel, entrou de mau jeito, como aliás freqüentemente o fazia, e tirou um pedaço, um pequeno pedaço do pilar do portão. Ficou aquela marca discreta, de que, ao cabo de algum tempo, suponho, só eu conhecia a causa. E sempre que passava por ali, e que via o arranhão na alvenaria, evocava a figura de Belmiro. Um dia, veio um pedreiro, recompôs o pilar, e com essa pá de cal desapareceu o último vestígio interessante de uma vida vivida meio século.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Creio que a ninguém escapa o ridículo que sempre acompanha esta tal imortalidade subjetiva, mesmo quando a figura imortalizada é imponente e o traço deixado na casca do planeta é um pouco maior do que um risco na cal. Ainda outro dia estive a ruminar meditações deste tipo diante de uma estátua que o escultor concebera e realizara em atitude oratória e que, exposta ao aguaceiro, tinha um aspecto lamentável.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Entretanto, apesar dessa carga de ridículo, a humanidade se obstina em guardar as lembranças dos mortos, e nós mesmos, se nos sondarmos com lealdade, descobriremos um esquisito desejo de sobrevivência na memória dos outros. De que nos vale isto? De que me vale meu nome pronunciado aqui ou acolá, com tais ou quais atributos, se eu não estou aqui ou acolá, pessoalmente, sobrevivente?</span><span id="more-19243"></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">O fato é que apesar dessa pobreza de significação pessoal, desse caráter acidental, a sobrevivência pelas obras corresponde a um profundo desejo de nosso ser. Ninguém quer passar a vida em branca nuvem. Ninguém quer morrer como o poeta disse que morrem os pássaros. Mas a verdade é que é esse instinto de sobrevivência, digamos horizontal, que nos impede a visão da outra imortalidade, a vertical, a que tem dimensões de eternidade e não dimensões de história, à qual também corresponde um grande anseio de nossa alma, que tem horror à morte, à idéia do aniquilamento da pessoa, e que se insurge em cada caso, diante de cada defunto, como se estivesse vendo um espetáculo de espantosa raridade. O caso é que a alma humana tem profundidades de inconsciência em dois sentidos. Diria até dois hemisférios, um voltado para a terra e outro voltado para o céu. Num desses hemisférios a idéia de imortalidade da alma brilha como uma estrela; no outro, entretanto, levantam-se obstáculos erguidos pelas exigências da sensibilidade. É por isso que nos parece fria e distante a consideração filosófica em torno do asssunto. Disse Edgar Poe que não custou muito a ver que jamais se convenceria de sua própria imortalidade se tivesse de acei­tar as demonstrações filosóficas. Pagando o seu tributo ao empirismo triunfante na atmosfera cultural de seu tempo, Edgar Poe diz brutalmente: «&#8230; <em>he (the man) will never be so convinced by the mere abstractions which have been so long the fashion of the moralists of England, of France, and of Germany</em>».</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Que quer isto dizer? Será assim tão inoperante, tão pouco convincente a demonstração filosófica? Será a razão tão pobre ou tão fria diante da vida? Na verdade, estamos diante de um problema típico, ou melhor de um tratamento típico dado a um problema espiritual pelo empirismo, podendo ser este da espiritualidade e decorrente imortalidade da alma, ou o da existência de Deus. Quando alguém diz categoricamente que as demonstrações filosóficas não convencem intelectualmente, ele quer dizer que tais demonstrações não satisfazem à sensibilidade. Quer dizer que não sacia a fome, não apazigua o sexo, não tranqüiliza os nervos, não atende em suma a exigências que vêm de todo o dinamismo da sensibilidade. Seria pueril zombar de tais exigências e fazer parada de espiritualidade alambicada e inteiramente despreendida daqueles laços. Mas também é pueril pedir à inteligência um tipo de alimento que não lhe compete preparar. É claro, claríssimo, que ninguém se lembrará de ler uma página filosófica para o pai que chora diante do cadáver do filho. Mas também é claro que nesta mesma hora o pobre pai não entenderia uma demonstração de geometria. Será defeito da geometria? Ou será mais fácil pensar que a situação emocional, sensibilizada, responde pela mo­mentânea incapacidade?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A filosofia é mais difícil do que todas as geometrias juntas, e para se tornar operante e convincente numa alma é preciso que essa alma trabalhe longamente para se desobstruir do empirismo. Assim, a idéia de imortalidade da alma, que vale a pena ser desempatada, tem de ser apresentada ao espírito muito antes da emoção, da perturbação, para que na hora oportuna ela tenha algum valor vital.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Vale à pena desempatar esse problema, e procurar entrever, através de nossos obstáculos, as novas dimensões da eternidade. A imortalidade verdadeira, pessoal, essencial, não se distribui pelas pessoas em graus proporcionados ao sucesso da vida. É ao contrário um atributo da alma espiritual, e portanto um denominador comum de toda a humanidade. E se assim é, segue-se que a sorte do homem, referida aos eixos da eternidade, deveria dominar todas as cogitações da vida terrena, e não estar relegada à categoria de assunto que serve para consolo nas câmaras ardentes e logo em seguida é esquecido. Vale à pena desempatar este pro­blema que nada tem de relativo. Ou somos dotados de alma espiritual ou não somos. Ou somos criaturas com vocação de eternidade, ou não somos. Uma das mais inacreditáveis contradições da condição humana é justamente a do pouco caso com que tratamos as coisas mais relevantes; mas ainda mais espantosa atitude é a daquele que se alegra com a divisão de opiniões em todos os assuntos, inclusive nesses de máxima relevância. E ainda mais incompreensível, nessa progressão geométrica de disparates, é o fato de passar por muito inteligente quem relativiza todas as categorias intelectuais e alegremente desiste de pensar.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Vale à pena tirar a limpo o <em>x</em> da sorte do homem; mas para isto temos de seguir um caminho inteiramente diverso do experimentalismo procurado por Edgar Poe, no conto de onde tiramos a passagem acima transcrita. O caminho da descoberta dos valores de eternidade é o da purificação e o da ascensão da inteligência e da vontade espiritual, e até o da renúncia de qualquer perpetuidade na memória do mundo. Na mente do santo, o mais vertical dos homens, tudo se refere à vida eterna que por sua vez se refere a Deus. Nós outros, por nossos pecados, por nossa gulodice de instantes de vida, pela impureza de nossos critérios, temos apenas lampejos, e às vezes nem a isso damos uma pequena parte de nossa atenção.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">(Diário de Notícias 16/7/1961)</span></p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>PADRE ANTONIO</title>
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		<pubDate>Sat, 22 Nov 2025 13:58:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Dominus Est]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Crise na Igreja]]></category>
		<category><![CDATA[Textos e Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Gustavo Corção]]></category>
		<category><![CDATA[Permanencia]]></category>

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		<description><![CDATA[Fonte: Permanencia Numa cidadezinha perdida e esquecida, lá nos confins deste tão imenso Brasil, existe uma igreja quase sem existir. Em torno, mil ou duas mil almas mais ou menos desalmadas; dentro, um velho vigário a fazer contas intermináveis, e um padre &#8230; <a href="http://catolicosribeiraopreto.com/padre-antonio/">Continuar lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p class="Normal tm5 tm6" style="text-align: center;"><img class="" src="https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/8/82/Antiga_Capela_e_depois_Matriz_de_Santa_Rita_constru%C3%ADda_ainda_no_s%C3%A9culo_XIX.%2C%2C.jpg" alt="Ficheiro:Antiga Capela e depois Matriz de Santa Rita construída ainda no  século XIX.,,.jpg – Wikipédia, a enciclopédia livre" width="427" height="330" /></p>
<p class="Normal tm5 tm6" style="text-align: right;"><strong>Fonte: <span style="color: #0000ff;"><a style="color: #0000ff;" href="https://permanencia.org.br/drupal/node/508">Permanencia</a></span></strong></p>
<p class="Normal tm5 tm6" style="text-align: justify;"><span class="tm7" style="color: #000000;">Numa cidadezinha perdida e esquecida, lá nos confins deste tão imenso Brasil, existe uma igreja quase sem existir. Em torno, mil ou duas mil almas mais ou menos desalmadas; dentro, um velho vigário a fazer contas intermináveis, e um padre coadjutor, na sacristia, a olhar o morro, a linha férrea lá longe, o rio, talvez o céu.</span></p>
<p class="Normal tm5 tm6" style="text-align: justify;"><span class="tm7" style="color: #000000;">Já traz cinzas na cabeça e uma curvatura nas costas, mas naquele momento o que mais lhe pesa é a solidão que cerca a velhice que se aproxima. Está ali. Não é nada. Não sente forças para fazer nada pela vila indiferente que quer viver sua vida rotineiramente encaminhada para a morte. Sente-se inútil a mais não poder. Quer que ele celebre a única missa da féria, e com uma só porta apenas entreaberta. Precaução aliás inútil porque ninguém mais aparece nas missas dos dias da semana. O povo não gostou quando o vigário tirou os santos que há mais de cem anos povoavam a velha igrejinha. Diminuiu a assistência à missa, diminuíram as confissões. A conversa com o vigário, na hora do jantar, reduz-se a monossílabos.</span></p>
<p class="Normal tm5 tm6" style="text-align: justify;"><span class="tm7" style="color: #000000;">Padre Antônio torna a pensar nas coisas que se perderam: a água benta, a oração do terço à noite, os santinhos que dava aos moleques na rua com magnanimidade, e tudo o mais que fazia companhia, que cercava a alma da gente nas igrejinhas da roça. Por que esta devastação? O vigário não gosta de abordar o assunto. Sofre a seu modo, com a tenacidade obtusa dos animais feridos. Cerra os dentes. Não pensa. Não fala. Faz o que o bispo mandou fazer e encerra-se num mutismo quase vegetal. Às vezes parece ter gosto de transmitir seu sofrimento fazendo um outro sofrer. É seu modo de conversar, e quem paga é padre Antônio.</span><span id="more-33903"></span></p>
<p class="Normal tm5 tm6" style="text-align: justify;"><span class="tm7" style="color: #000000;">Um dia padre Antônio não encontrou sua velha batina e teve de pedir uma explicação a d. Ana e ao vigário. Explicaram-lhe que estava imprestável. Ganharia nova batina? Não. Clergy-man também é muito caro. Padre Antônio deveria comprar na loja do João Mansur umas calças de lonita e duas camisas esporte. E é com esta roupa pobre que padre Antônio agora se debruça na janela e consulta o infinito. Pobre, pobre padre Antônio. Ele nunca foi propriamente vaidoso e preocupado com a roupa que haveria de vestir, como aconselha Nosso Senhor. Mas essa história da batina doía-lhe ainda como se estivesse em carne viva, como se 1he tivessem arrancado a pele. E o pior é pensar que é com esta roupa por baixo, esta roupa de rua, esta roupa sem bênçãos que deve celebrar a Santa Missa. Disseram-lhe que era mais prático usar uma só alva por cima do traje esporte. E esta alva não era mais daquelas antigas, rendadas e compridas. Padre Antônio não queria as rendas para si, já que era desgracioso e escuro: queria-as para enfeitar o louvor de Deus. Mesmo porque, descontada alguma andorinha, nenhum ser vivo aparecia para assistir ao Sacrifício de nosso Salvador. Nem valia a pena bater a campainha. As novas alvas não têm rendas. São ordinárias e curtas, sim, curtas, porque o importante é aparecerem as calças para todo o mundo ver que o padre é homem, como outro homem qualquer.</span></p>
<p class="Normal tm5 tm6" style="text-align: justify;"><span class="tm7" style="color: #000000;">Está na hora de preparar a missa da tarde, e padre Antônio sente a tristeza aumentar. Está só. Está só. Não tem com quem falar. Poderá conversar na farmácia com a turma do gamão do Frederico, mas depois a volta para a casa é ainda mais pesada. Poderá perguntar a d. Emília se está melhor do reumatismo, e a d. Maria se o marido já voltou do Rio. Mas não tem ninguém com quem possa falar, com quem possa desabafar, a quem possa explicar a desmedida tristeza de vestir por cima das calças uma alva sem rendas, e a quem possa dizer a saudade que tem da batina preta, a batina bendita em que um dia amortalhara o homem velho para viver em Cristo Nosso Senhor. E não tem ninguém a quem possa perguntar tremendo: «O que é que está acontecendo em nossa Igreja? E o Papa?» Ou então alguém, um irmão, um padre, a quem possa dizer com medida indignação: «Não pode ser! Não pode ser! As portas do inferno não prevalecerão!»</span></p>
<p class="Normal tm5 tm6" style="text-align: justify;"><span class="tm7" style="color: #000000;">Padre Antônio olhou mais uma vez para o horizonte que a noite já escondia. O mundo começava além daquela serra&#8230; O mundo! Padre Antonio curvou a cabeça como um condenado. Estava preso! Estava preso! Abriu então as duas mãos grandes e magras que considerou com triste ternura: um dia elas tinham recebido o poder de consagrar o Pão e o Vinho, e de trazer assim ao mundo, como a Virgem Santíssima, o Corpo de Deus. Mãos grandes, mãos nervosas e escuras, mãos consagradas. Ao menos esta pele não lhe arrancam, esta marca não lhe tiram.</span></p>
<p class="Normal tm5 tm6" style="text-align: justify;"><span class="tm7" style="color: #000000;">Num desamparo infinito padre Antônio contemplava as duas mãos frementes, tão poderosas e tão inúteis. Turvava-se o espírito, vacilava a razão e a fé. Estão ali as mãos. E o resto. E a água benta? o Latim? as coisas da Igreja? As palmas inúteis não respondiam às suas indagações, e até pareciam pedir-lhe uma resolução, uma decisão, já que a mão foi feita mais para fazer do que para pensar&#8230; O que é isto? O que é isto nas palmas das mãos? Estará chovendo? Padre Antônio, padre Antônio, o senhor está chorando. Quem foi que falou? Ninguém. Ninguém. É o próprio padre Antônio que tomou o costume de falar com o padre Antônio.</span></p>
<p class="Normal tm5 tm6" style="text-align: justify;"><span class="tm7" style="color: #000000;">Juntam-se as mãos. E das profundezas dos abismos que todos trazemos, mesmo debaixo de uma camisa esporte, subiu um clamor de aflição: «Usquequo exaltabitur inimicus meus super me? Respice et exaudi me! Respice et exaudi me! Respice et exaudi me, Domine Deus meus&#8230;».</span></p>
<p class="Normal tm5 tm6" style="text-align: justify;"><span class="tm7" style="color: #000000;">E então, neste momento infinito, padre Antônio teve a incomparável certeza de que não estava só.</span></p>
<p style="text-align: right;"><span style="color: #000000;"><strong>Gustavo Corção</strong></span></p>
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		<title>MUNDO, MUNDO&#8230;</title>
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		<pubDate>Tue, 12 Aug 2025 14:00:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Dominus Est]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Crise na Igreja]]></category>
		<category><![CDATA[Espiritualidade]]></category>
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		<category><![CDATA[Mundo Moderno]]></category>
		<category><![CDATA[Textos e Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Gustavo Corção]]></category>
		<category><![CDATA[Permanencia]]></category>

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		<description><![CDATA[Gustavo Corção Entre os belos Cantos Eucarísticos do grande poeta místico que foi Santo Tomás de Aquino, vêm-nos à memória estes versos. Solum expertus potest scire quid sit Jesum diligere Traduzimos, sem sabermos traduzir o sabor original: “Somente aqueles que &#8230; <a href="http://catolicosribeiraopreto.com/mundo-mundo/">Continuar lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignright" src="https://promariana.files.wordpress.com/2012/05/gustavo-corcao.jpg?w=584" alt="Gustavo Corção – Conservador ardente | Pro Roma Mariana" /></p>
<p style="text-align: right;"><span style="color: #0000ff;"><strong><em style="font-weight: inherit;"><span style="font-style: inherit;"><a style="color: #0000ff;" href="https://permanencia.org.br/drupal/node/5845">Gustavo Corção</a></span></em></strong></span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Entre os belos Cantos Eucarísticos do grande poeta místico que foi Santo Tomás de Aquino, vêm-nos à memória estes versos.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><em style="font-weight: inherit;">Solum expertus potest scire</em></span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><em style="font-weight: inherit;">quid sit Jesum diligere</em></span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Traduzimos, sem sabermos traduzir o sabor original: “<em style="font-weight: inherit;">Somente aqueles que o experimentaram podem saber o que seja o amor de Jesus</em>”. Ou, “<em style="font-weight: inherit;">somente os que por experiência sabem&#8230;</em>”.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Todos os mestres místicos ensinaram que a contemplação infusa é uma “quase experiência de Deus”. Por que “quase”? Este termo parece restritivo, e portanto impróprio para definir a mais alta de todas as aventuras da alma humana, a subida do Carmelo ou do Calvário, nas pegadas de um Deus que por nós se deixou crucificar. É por isso mesmo, aliás, que nunca poderemos encontrar termos próprios para exprimir a sobrenatural aventura. A linguagem dos místicos é inevitavelmente hiperbólica, antitética e metafórica; e é aqui, mais do que na poesia, que se aplica o que disse Rimbaud: que tentava dizer o indizível.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">No caso em questão, Santo Tomás ousa empregar o termo “experimentar” quando canta, mas seus discípulos, quando tentam explicar o canto de maior linguagem especulativa, recuam diante do termo que traz sobre si uma pesada carga de conotações empíricas e carnais. E até ensinam que na subida do Caminho da perfeição o desejo de experiências sensíveis, sejam elas embora feitas do mais piedoso afeto, constituem pedras de tropeço, e até às vezes atrasos e retrocessos, porque nelas a alma se demora e se compraz no sabor e nas consolações de tal afeto. Ora, não foi este o exemplo que Jesus nos deixou na subida do Calvário. A subida mística só se fará se deixarmos para trás o lastro de terra e de carne, e se, corajosamente, aceitarmos a purificação da noite dos sentidos. Daí se explica a reserva dos mestres quando falam mais na pauta especulativa do que naquela da “experiência” ou “superexperiência” vivida na união com Deus.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: center;"><span style="color: #000000;"><strong>* * *</strong></span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Mas agora, caído em mim de tais alturas que tanto desejara ter alcançado, e das quais só ouso falar com ciência de empréstimo e de desejo, imagino o leitor a interpelar-me: — A que vêm todas essas considerações em torno da experiência mística, e dos cantos eucarísticos de Santo Tomás, quando falávamos da agonia da Espanha, e esperávamos comentários das efervescências nacionais em torno da denúncia em boa hora levantada por Dom Sigaud sobre a infiltração comunista na CNBB?</span><span id="more-21631"></span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: center;"><span style="color: #000000;"><strong>* * *</strong></span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Na verdade, leitor, tudo o que toca nossa Santa Religião tem aquela marca antitética da Cruz. O belo canto eucarístico de Santo Tomás nos veio por antítese da matéria ingrata que se impõe à nossa consciência como dever de testemunho. O fato é que daquele canto de amor (somente quem o provou sabe o sabor que tem o amor de Jesus) veio-nos, num contraste abismal, a idéia horrível da “experiência” que o mundo vem fazendo, e a cujas infinitas conseqüências o mundo dia a dia se entrega com uma apavorante submissão: a experiência do mal erigido em sistema ou se quiserem, a experiência do ódio de Satã. É verdade que somente no inferno terão as almas perdidas a ciência mais exata do que seja o ódio de Satã. Mas o fato é que aqui, na terra, neste belo planeta azul que talvez seja o único habitado por seres racionais, capazes de louvar a Deus, e capazes de recusar seus dons, a humanidade já teve várias amostras daquele ódio, e várias vezes já assistiu ao espetáculo da maldade erigida da glorificação. O mundo encheu-se de saber, de saborear os horrores de que recentemente foram capazes os nazistas em torno de uma idéia; o mesmo mundo encheu-se de saber, de experimentar os horrores praticados pelos anarquistas e comunistas em torno de uma idéia.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Houve tempo em que, com raríssimas exceções, o mundo inteiro julgou que Hitler e seus companheiros tinham atingido a máxima crueldade jamais praticada oficialmente e sistematicamente por um regime; atrás da aparatosa e triunfal crueldade do nazismo, seu cúmplice monstruoso esteve agachado, eclipsado, taciturno e ignorado.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Tenho para mim que tais maldades organizadas e coletivas ultrapassam as forças humanas e não são praticáveis sem a ajuda de Satã; não dispondo, porém de um meio de medir, em unidades satanométricas, o grau de satanismo em cada caso, não sei qual dos dois monstros foi em si mesmo o pior, mas hoje não hesito em declarar que, para o mundo, e para o desenrolar do século o comunismo foi e continua a ser a pior das experiências políticas feitas e ainda descaradamente proposta aos homens. Como se explica então que tal hedionda evidência não seja reconhecida universalmente? A razão de tal cegueira, que é cômica numa nação rica, forte e engenhosa, como os Estados Unidos, e que é trágica sem deixar de ser cômica nas hierarquias eclesiásticas, talvez esteja nos quatro ou cinco séculos de humanismo liberal, mais ou menos integral, que afastou de Deus uma humanidade voltada e fechada sobre si mesma. Ora, os homens que se afastam e se tornam insensíveis às “experiências” do amor de Deus, no mesmo passo se tornam insensíveis àquelas do Demônio: e por isso serão capazes de abrir os braços ao comunismo com o entusiasmo que se observa nas Conferências Episcopais, e são capazes de aplaudir o humanismo ateu com a ardorosa e declarada simpatia que, para nossa infinita tristeza, ficou registrada entre os pontos notáveis deste brilhante século em que os homens demonstraram tão extraordinária faculdade nas experiências dos átomos&#8230; E é em nome dessa Ciência que dia a dia se acelera a desintegração de um mundo que já foi cristão.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: right;"><strong><span style="color: #000000;">O GLOBO — 23/04/1977</span></strong></p>
<p style="text-align: justify;">
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		<title>O MEDO E O SANTO TEMOR DE DEUS</title>
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		<pubDate>Thu, 16 May 2024 14:00:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Dominus Est]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Espiritualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Textos e Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Gustavo Corção]]></category>

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		<description><![CDATA[Gustavo Corção Os acontecimentos desses últimos dias marcados de violência levaram-me a pensar que têm muita razão os que já apontaram o predominante papel do medo na cultura moderna. No princípio deste século – quando a morte era vencida nas &#8230; <a href="http://catolicosribeiraopreto.com/o-medo-e-o-santo-temor-de-deus/">Continuar lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><img class=" alignright" src="https://www.comunicacaoepolitica.com/yfoaxyjy/2020/01/images-1.jpg" alt="Gustavo Corção e a certeza daquilo que não se vê | Comunicação &amp; Política" width="335" height="227" /></p>
<p style="text-align: right;"><span style="color: #0000ff;"><strong><em><a style="color: #0000ff;" href="https://permanencia.org.br/drupal/node/6041">Gustavo Corção</a></em></strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Os acontecimentos desses últimos dias marcados de violência levaram-me a pensar que têm muita razão os que já apontaram o predominante papel do medo na cultura moderna.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">No princípio deste século – quando a morte era vencida nas cidades pelo arco-voltaico, quando os recantos mais secretos da vida e do mundo eram vasculhados pela luz da ciência, e quando os fantasmas, os lobisomens e as assombrações, expulsos de seus últimos redutos, eram relegados às anedotas e ao folclore – muita gente certamente pensava que esta civilização científica e arejada iria progredindo de claridade em claridade, de descoberta em descoberta, até o dia confortável em que o Medo, esse anacrônico personagem, fosse definitivamente dominado pela Razão.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Era assim que pensava o cidadão otimista e comodista que se extasiava diante dos pavilhões iluminados na Exposição Universal em Paris, em 1900.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Ora, no meio-dia deste mesmo século desce uma sombra sobre o mundo. O prestígio da Razão, ainda alto no domínio das ciências e das técnicas, nunca esteve tão baixo na vida cotidiana. O racionalismo deu lugar ao instintivismo. A alma humana já não é procurada na linha da razão e sim na dos instintos. O homem tem como seu, propriamente seu, não o que vê e conhece, mas o que dele mesmo se esconde nos porões da memória trancada. E o comodismo tranquilo deu lugar a um comodismo inquieto; e o grande Medo expulso voltou sob a forma do medo do Terror.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Houve tempo em que o homem tinha um terrível medo religioso de perder sua alma; depois, no apogeu da moral leiga, o homem teve um medo supersticioso de perder sua honra; mas hoje ele tem medo do abismo que, de certo modo, advinha no itinerário de um mundo liberal que quer marchar para o socialismo.</span><span id="more-24692"></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Houve tempo, em nossa vida, em que tínhamos medo de almas do outro mundo e nos abrigávamos desse temor no regaço materno; depois tivemos medo de ladrões e púnhamos embaixo do travesseiro um apito para chamar a polícia; mas hoje há teorias que nos induzem a ter medo do regaço materno, campanhas de “slogans” que nos querem levar a ter medo dos policiais e não dos assassinos.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">E de todos os temores dispersos e difusos que hoje nos assaltam, filhos do comodismo otimista, o menor e mais numeroso, o básico, medo atômico fundamental, que supera os restos de amor pela justiça e pela verdade, é o medo de mudar de vida.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Agora chegados neste ponto, detenhamo-nos e procuremos adivinhar, prever, deduzir o que acontecerá nessa sociedade amolecida em que o santo temor de Deus foi substituído por esses medos pequenos, de meio quilo, de meio metro, que formam o traço mais característico desta civilização.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">É fácil prever: uns poucos, por uma série de circunstâncias, vão se encontrar em posição de paralisar essa sociedade de timoratos e vão agir simultaneamente em dois sentidos, prometendo segurança e espicaçando os pontos sensíveis da pusilanimidade, tranquilizando e metendo medo. E esses mesmos, cuja maior volúpia consiste em meter medo, esses mesmos viverão constantemente com medo. E então começa aí, nessa raiz de covardia, nesse germe de abdicações, o reino da violência procurado pelos terroristas.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Vejam bem que a lógica do erro é a contradição, e que não é de admirar que seja a violência a sucessora do comodismo. Examinem bem a precisão de nosso raciocínio quando anunciamos que numa sociedade em que todos têm medo de guerra haverá guerras atrozes. Se todos têm medo de incômodos haverá bombardeios atômicos e tiranias inauditas. Se todos têm medo da pobreza haverá miséria. E houve. Aconteceu isto nos países que se entregaram a formas totalitárias, por comodismo. E continua acontecendo um pouco em todo o mundo. A violência é a filha mal-educada do comodismo. O instintivismo é o único filho que se poderia esperar do racionalismo.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Estamos sob o império da violência. Mas por favor não comparem esses tumultos com o retinir de armas que encheu a Idade Média. Há violência e violência. Há violência que se organiza em cruzadas, há violência que toma de assalto o próprio Reino de Deus; mas há também essa outra convulsão telúrica, semi-voluntária: a violência dos mornos que só se traduz em pânico, em salve-se quem puder, em massacres de reféns inocentes e em gavetas onde se trancam, com o ódio dos fracos, a verdade e a justiça.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Andei ouvindo nesses dias o belíssimo livro, o último que Bernanos escreveu, <em>Dialogues des Carmelites</em>, e logo no frontispício o trecho transcrito de La Joie, do mesmo autor, que reza assim: “<em>En un sens, voyes-vous, la Peur est tout de même fille de Dieu, rachetée la nuit de Vendredi-Saint. Elle n´est pas belle à voir – non! – tantôt raillée, tantôt maudite, renoncée par tous&#8230; Et cependant, ne vous y trompez pas: elle est au chevet de chaque agonie, elle intercède pour l´homme”.</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Bernanos nos fala aqui do Medo, desta terrível paixão que abala os alicerces da alma, e no-la apresenta ora escarnecida, ora maldita e sempre repelida, mas também filha de Deus, resgatada na noite de Sexta-Feira Santa, essa mesma paixão que se debruça nos leitos de agonia e intercede pelos moribundos.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Deus quer de nós a inteligência e a vontade, mas quer também as paixões porque o homem, sem paixões, é menos homem. Quer o nosso amor, quer a nossa alegria, quer as nossas tristezas. Quer também o nosso temor.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Do amor, que Deus espera todo de nós, rendido, incondicional, Ele mesmo decretou que essa grande oferta seja profusamente espalhada por tudo e por todos. E assim, dispersa, solta aos quatro ventos que a grande paixão do amor obedece melhor à Caridade que é o Santo Amor, jovem capitão de um exército inumerável de afeições.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Da alegria, que Deus manda servir à Esperança (como às vezes também a tristeza a serve do seu modo) Deus espera d enós a mesma generosa profusão, porque “un saint triste est un triste saint”, e ele mesmo nos legou palavras de agradecimento para todas as criaturas de sua gloriosa mão.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Mas o caso do temor é diferente. Ainda se refrata nas criaturas, sendo bom que exista e condicione certas relações, mas eu diria que se refrata em ângulo apertado, sem muita dispersão, porque depende disso, dessa concentração, dessa economia, o equilíbrio do homem entre os homens. A Deus dizemos: “sanctum et terribile nomem ejus. Initium sapientiae timor Domini”. Santo e terrível é o seu nome. O início da sabedoria é o temor de Deus.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">E depois de termos assim temperada a nossa alma, nós podemos cantar o hino de nossa coragem perfeita, como na oitava da Ascensão a Igreja canta em seu intróito: “Dominus illuminatio mea, a quo trepidabo?” Senhor, luz minha e minha salvação, a quem temerei? Senhor, protetor de minha vida, o que me fará estremecer?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Eis aí, ó leitor, o segredo dessa paixão de nossa alma, que parece feia (<em>elle n´est pas belle à voir&#8230;)</em> que parece desprezível, que parece maldita, e que, entretanto, não duvide, ó leitor, está na cabeceira de cada agonia, intercedendo pelo homem. Eis aí, ó amigo, a antiga receita dos bravos, como Santa Joana D´Arc, como S. Luís de França, que só tinham medo de uma coisa: pecar contra Deus.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">E eia aí também a triste explicação das nossas fraquezas. Onde morre o temor de Deus pululam os vermes de todos os medos.</span></p>
<p style="text-align: right;"><span style="color: #0000ff;"><strong><a style="color: #0000ff;" href="https://permanencia.org.br/drupal/node/6041">(O Globo, 6/4/78)</a></strong></span></p>
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		<title>A COSMOVISÃO DA LAGARTIXA</title>
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		<pubDate>Thu, 07 Sep 2023 14:40:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Dominus Est]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Espiritualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Textos e Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Gustavo Corção]]></category>

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		<description><![CDATA[Fonte: Permanência Hoje, para variar e para descansar o leitor, vamos falar da lagartixa. Antes disso, devo dizer que, nas meias horas de descanso depois das refeições receitadas pelo Dr. Stans Murad, costumo esticar-me num sofá, perdão, num sofanete, para ser &#8230; <a href="http://catolicosribeiraopreto.com/a-cosmovisao-da-lagartixa/">Continuar lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="alignright" src="https://permanencia.org.br/drupal/sites/default/files/imagens/gcorcao_back_branco.gif" alt="" /></p>
<p style="text-align: right;"><strong>Fonte: </strong><span style="color: #0000ff;"><b><a style="color: #0000ff;" href="https://permanencia.org.br/drupal/node/529">Permanência</a></b></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Hoje, para variar e para descansar o leitor, vamos falar da lagartixa. Antes disso, devo dizer que, nas meias horas de descanso depois das refeições receitadas pelo Dr. Stans Murad, costumo esticar-me num sofá, perdão, num sofanete, para ser mais exato, e então, sem saber como e quando começou, costumo deixar correr a lembrança dos dias idos e vividos ou das pessoas idas e mortas. Entrego a memória a seus caprichos e ponho-me de camarote a assistir às avessas, e de surpresa, às cenas desse teatro de amadores mal ensaiados que se chama vida. É o meu luxo, é o último regalo que os ferozes deveres de estado me concedem. Desta maneira, misturando à água da memória o vinho da ficção, invento a vida que não tive, viajo, vejo terras e mares que não vi, revivo amores que não vivi</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: center;"><span style="color: #000000;"><em><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit;">Many and many years ago,</span></em></span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: center;"><span style="color: #000000;"><em><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit;">In a kingdom by the sea&#8230;</span></em></span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">Nem sempre é ameno este exercício. Às vezes, como cobra escondida na moita, salta-me diante dos olhos um quadro vivíssimo  que supunha morto ou dormido, ou vara-me o ouvido do coração uma palavra, um timbre, um grito, que me quebra o repouso com uma descarga elétrica de dor. Mas também muitas vezes logro repassar momentos de tão intensa doçura — ora no gosto fresco de um alvorecer, ora na suavidade silenciosa de um entardecer — que me dão esquecimento de todos os azedumes provados&#8230; Outras vezes, simplesmente cochilo até que toque um dos sete despertadores dos sete deveres de estado.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: center;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">*</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">Ora, ontem, quando me punha no decúbito dorsal aconselhado pela sábia e amiga solicitude do Dr. Stans Murad, que é meu amigo pessoal, e declarado inimigo pessoal da morte, especialmente da morte súbita (<em>A subitanea et improvisa morte libera nos, Domine</em>), no momento em que me preparava para desatar as amarras da fantasia, vi no teto uma lagartixa a andar desembaraçadamente no seus afazeres de lagartixa, movendo-se ao arrepio das leis da gravitação, mas certamente ao saber de outras leis que desconheço, mas respeito.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">Feliz animal! Lá no teto, com a maior naturalidade do mundo, a lagartixa vê tudo de pernas para o ar, vê pesados móveis grudados num teto sem nenhuma lei a favor de tal postura, e vê em decúbito dorsal uma grande pobre lagartixa humana, estendida no sofanete, imóvel, vivendo só pelo ardor dos olhos e pela angústia do semblante. <em>Lacerta agilis</em>, se tivesses nas tuas frias veias uma centelha daquilo que nos faz entender, e principalmente desentender, saberias lá no teu teto que o mundo cá embaixo anda ainda muito mais de pernas para o ar do que te parece. Tua tranqüilidade, ó <em>Lacerta agilis</em>, vem do fato de não seres absurda. És o que és, e moves-te em conformidade com o que és. Nós, não. Nós não sabemos exatamente o que somos, e quando o sabemos é para logo observarmos que certamente, certíssimamente, não vivemos segundo o que verdadeiramente somos.</span><span id="more-20986"></span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">Vou contar-te um segredo de homem, lagartixa, um segredo pesado. Um segredo triste. Muitos de nós, ó <em>Lacerta</em>, sem tua translúcida inocência, andam no teto deste século, nos seus ires e vires, sem se aperceberem que vivem num mundo de pernas para o ar. Sem sofrerem. Sem quererem trabalhar para viverem segundo o que principalmente são. Não desenvolvo esta parte de minhas meditações porque prometi hoje ao leitor um dia de descanso. E suponho que o leitor me permitiu que hoje só lhe falasse de lagartixa.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">Feliz devorador de insetos, não invejo tua tranqüilidade nem tua dieta; mas devo dizer-te, ó animal inocentemente subversivo, que muito menos invejo os meus iguais que andam no teto do século, na cúpula da atualidade, alegres de viverem num mundo de pernas para o ar, e de se nutrirem de insetos. Aqui onde me vês, deitado por obediência, já que hoje nem a fantasia me deixaste, prefiro esta postura, esta consciência afrontada, esta dor: é o nosso quinhão, ó lagartixa.</span><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;"> </span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: center;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">*</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">O mesmo compassivo amigo que me receitou os descansos depois das refeições, por um dos muitos paradoxos da ciência, manda-me andar 2 a 3 quilômetros por dia. O remédio é barato e agradável, só tendo a desvantagem humilhante de estar na moda. Como porém não me apraz andar pelas ruas duma cidade invadida por misteriosos inimigos que vieram não sei de onde, e vão não sei aonde (parece-me que a lugar nenhum) com uma incompreensível velocidade, inventei um estratagema simples que me permite andar os três quilômetros sem o inconveniente de afastar-me demais de meu pequeno mundo. <em>La bête blessée cherche son trou</em>. Tenho ao lado de minha casa uma nesga de terreno com trinta metros de fundo. Indo e vindo cem vezes tenho meus três quilômetros percorridos sem sair de casa. O método parecerá insípido às pessoas que gostem de ver coisas novas, ilhas, cidades, vulcões, ruínas e gostam de correr mundo. Tenho a impressão que este é o parecer de meu cão, um quarto ou dezesseis avos de sangue de perdigueiro. Escolhi a hora matinal, antes da missa, para meu exercício. E o fiel pseudoperdigueiro, quando me vê abrir a porta dos fundos às seis da manhã, com um bengala que para seus cromossomos seria uma espingarda, deve latir consigo mesmo: — Vamos à caça! E põe-se alegremente a andar a meu lado, o que atravanca às vezes os passos mas não deixa de alegrar o exercício.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">O que o pobre falso perdigueiro não pode compreender é a minha insólita atitude diante do portão. Em vez de abri-lo, e ganharmos a floresta próxima, eu volto à garagem, marco um ponto, e volto ao portão, para voltar à garagem, e assim por diante até cem. o pobre animal vai e vem, com entusiasmo decrescente. Mantém a fidelidade, uma fidelidade sem alegria, sem sonhos de tiros e perdizes caídas, e já lhe surpreendi mais de um olhar triste que parece falar: — Meu amo enlouqueceu.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: center;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">*</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">E agora, amado leitor, cumprido o descanso sob os olhos da lagartixa, e completada a marcha na companhia do cão, voltemos aos homens, às conferências episcopais, à atividade da Editora Vozes, inimiga de Deus e do homem. Voltemos aos sete deveres de estado que o bom Dr. Stans Murad não vê como um bom regime para um velho baleado.</span></p>
<p style="text-align: justify;">
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		<title>O CRISTIANISMO QUE NÃO MORRERÁ</title>
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		<pubDate>Thu, 27 Jul 2023 14:00:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Dominus Est]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Crise na Igreja]]></category>
		<category><![CDATA[Espiritualidade]]></category>
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		<category><![CDATA[Modernismo]]></category>
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		<category><![CDATA[Gustavo Corção]]></category>
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		<description><![CDATA[Gustavo Corção As reflexões que no artigo de quinta-feira andamos fazendo, despertadas pela releitura de uma página de Chesterton, levam-nos à conclusão de que haverá arrefecimento do cristianismo todas as vezes que os homens se afligirem, se envergonharem ou se &#8230; <a href="http://catolicosribeiraopreto.com/o-cristianismo-que-nao-morrera/">Continuar lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class=" alignright" src="https://media.gazetadopovo.com.br/2019/11/14161909/profcorcao-660x372.jpg" alt="Gustavo Corção: o Olavo de Carvalho (sem os palavrões) dos anos 1960" width="390" height="223" /></p>
<p style="text-align: right;"><span style="color: #0000ff;"><strong><em><a style="color: #0000ff;" href="https://permanencia.org.br/drupal/node/6054">Gustavo Corção</a></em></strong></span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">As reflexões que no artigo de quinta-feira andamos fazendo, despertadas pela releitura de uma página de Chesterton, levam-nos à conclusão de que haverá arrefecimento do cristianismo todas as vezes que os homens se afligirem, se envergonharem ou se cansarem de o sentir tão incôngruo em relação ao curso da história, e daí tirarem a intenção de afeiçoá-lo àquele andamento.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A crise de nossos dias, a mais ampla e profunda de toda a história da Igreja, começou por um propósito de aggiornamento. O cristianismo estava envelhecido, a Igreja esclerosada, e o bravo mundo moderno passou a interessar-se prodigiosamente por sua renovação. Reformas&#8230; reformas&#8230; reformas&#8230; O pastor anglicano John Robinson, que andou por aqui a fazer conferências, escreveu um volume inteiro para explicar que <em style="font-weight: inherit;">hoje</em>, na era espacial, não é possível ter a mesma idéia de Deus “fora de nós” tida e mantida pelos antigos. Eis o que diz na tradução portuguesa esse tipo bem representativo de nossa época: “Enquanto não tinham sido explorados, ou era possível explorar (por meio de radiotelescópios, se não com foguetões) os últimos recantos do Cosmos, ainda se podia localizar Deus mentalmente nalguma <em style="font-weight: inherit;">terra incógnita. </em>Mas agora parece não haver lugar para Ele, não apenas na estalagem, mas em parte alguma do universo: é que já não há lugares vazios.”</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">É difícil, em tão poucas linhas, dizer mais densa coleção de asneiras sobre a presença de Deus que, para esse notável anglicano, ao que se vê, sempre esteve no limbo das primeiras imagens infantis. O reverendo (que o Prof. Cândido Mendes Almeida importou quando por aqui é abundantíssimo o similar nacional), fascinado por leituras de vulgarizações, e esquecido da presença de Deus em todas as coisas como causa primeira, e como sustentador de todas as existências, pensa que o homem já explorou todos os recantos do universo!</span><span id="more-24999"></span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">O leitor encontrará no livro <em style="font-weight: inherit;">Progresso e Progressismo</em>, AGIR, p. 130, e seguintes, considerações mais desenvolvidas sobre o autor anglicano e sua obra <em style="font-weight: inherit;">Honest to God </em>que foi <em style="font-weight: inherit;">best-seller </em>em vários idiomas.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">No momento quero deter a atenção do leitor diante deste bonzo “a atualidade” que tem mais adoradores do que todos os Budas do oriente. Passou pelos seminários, pelas salas de capítulo, pelos claustros mais serenos e austeros um frenesi de atualização, um furor indecente de se prosternarem todos diante de um <em style="font-weight: inherit;">Hoje </em>tornado suprema divindade. Ninguém percebe, nem tenta demonstrar as vantagens da substituição de tais fórmulas por tais outras. Não são mais claras, não são mais belas, mas são reformadas e nisto consiste sua suprema nobreza.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: center;"><span style="color: #000000;">***</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Há mil maneiras de tentar banalizar o cristianismo. A mais ampla mas também mais humilde e mais triste é aquela produzida pelo fato de não sermos santos, ou de serem tão poucos os que realizam desde já, aqui e agora, ao menos em algumas cintilações, a maravilhosa e permanente novidade que é Cristo Jesus; mas a mais espessamente estúpida é aquela que, não vendo a supernal, a transcendental Novidade, quer submeter o cristianismo à tirânica frivolidade das pequeninas coisas novas com que o homem tece e borda sua frágil atualidade que já nasce em processo de envelhecimento.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Nunca se falou com tanto garbo no “mundo moderno” e em suas terríveis exigências, mas ninguém se dá ao cuidado de especificar essa modernidade, nem ao cuidado de esconder suas espetaculares misérias. Ninguém, evidentemente, contestará que os veículos hoje são muito mais rápidos do que o cavalo de Carlos Magno, ou o burrico que São Bernardo montou para ir aonde o chamavam, e onde confundiria o bom mas trêfego Abelardo. Eu não preciso fazer malabarismos de imaginação para rever a figura do Santo abade de Claraval, e para imaginar as santas cogitações com que se preparava para defender a Sagrada Doutrina enquanto o bom burrico o ia levando no mesmo doce ritmo com que um outro irmão burro mil anos atrás levara ao Egito, Nossa Senhora e o Menino Jesus. O que preciso fazer esforço para imaginar é o quadro atualizado de um São Bernardo a sair de seu mosteiro, num Fusca a 120 quilômetros por hora. Não digo que seja impossível. Metafisicamente é possível que um grande santo de hoje dirija um carro; mas tudo parece contraindicar que esse veículo possa proporcionar ao hipotético santo o mesmo lazer para a meditação, como também tudo leva a crer que a velocidade do veículo não possa modificar o bom fundamento da argumentação que venceria Abelardo.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Curioso progresso! O que hoje se vê todos os dias são revoadas de Abelardos, e de sub-Abelardos, que a mil quilômetros por hora atravessam os oceanos para se reunirem em congressos, sínodos, conferências, onde serão propostas mil pequenas e efêmeras renovações por dia. E é com esse frenético ativismo que querem atualizar o Cristianismo; e é com essa submissão ao século que querem vitalizá-lo. Depressa se desencantam de correr e voar, e então, para reduzir o Cristianismo a um puro humanismo, resolvem anunciar a morte de Deus.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Mas o menino Jesus, no mesmo ritmo lento de outrora, continua a nascer virginalmente todas as manhãs nas almas submissas, e continua a ressuscitar triunfalmente todas as manhãs para deixar em nós o anúncio de nossa própria ressurreição. E nisto pomos todo o fervor de nossa Fé: passarão os impérios, as máquinas do mundo, mas esse cristianismo sempre pequenino, manso, único e eterno não passará.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: right;"><span style="color: #0000ff;"><strong><a style="color: #0000ff;" href="https://permanencia.org.br/drupal/node/6054">(O Globo, 14/8/71)</a></strong></span></p>
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		<title>O VALOR DA VIDA</title>
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		<pubDate>Sat, 10 Jun 2023 15:00:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Dominus Est]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Espiritualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Textos e Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Gustavo Corção]]></category>

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		<description><![CDATA[O jornal de anteontem anunciava aos berros: ABOLIDA A PENA DE MORTE NOS ESTADOS UNIDOS, e logo após enumerava os grandes criminosos beneficiados pelo penúltimo espasmo de permissiveness da grande nação agonizante. Lá estava o assassino do Senador Robert Kennedy. &#8230; <a href="http://catolicosribeiraopreto.com/o-valor-da-vida/">Continuar lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><img class="irc_mi alignright" src="https://n.i.uol.com.br/licaodecasa/biografias/gustavo-corcao.jpg" alt="Resultado de imagem para gustavo corção" width="160" height="210" />O jornal de anteontem anunciava aos berros: ABOLIDA A PENA DE MORTE NOS ESTADOS UNIDOS, e logo após enumerava os grandes criminosos beneficiados pelo penúltimo espasmo de <em>permissiveness</em> da grande nação agonizante. Lá estava o assassino do Senador Robert Kennedy. E demais homicidas. Quinhentos.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">É fácil imaginar o dilúvio de pronunciamentos filantrópicos e humanitários que produzirão no mundo inteiro os amolecedores das consciências; como também é fácil imaginar o sagrado horror com que um deles leria, se as lesse, nossas mal traçadas linhas.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Na verdade não me parece muito difícil provar que os verdadeiros defensores do transcendental valor da vida humana são mais aqueles que reconhecem o direito que têm as sociedades de rejeitar com a máxima energia os homicidas de superlativa e intolerável crueldade do que esses outros que, em nome de uma gelatinosa complacência com os perversos, desarma e desprotege os inocentes.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Além disso cumpre notar as dimensões maiores do problema, tornadas hoje imperceptíveis por causa da universal depressão. A consciência católica, dirigida pelo Magistério, sempre aceitou a idéia de pena capital, e até sempre viu nela um recurso extremo graças ao qual os homens mais perversos recuperaram a dignidade perdida e o direito ao respeito de todos. Mais extremada ainda, dirá eu até mais provocante, parecerá aos amolecedores do mundo a idéia de que graças à pena de morte muitas almas perdidas se salvaram. E ainda mais extraordinária, para os humanitários de nosso tempo, é a coragem simples com que os santos vêem na pena de morte algo que misteriosamente os aproxima dos pobres monstros humanos que, por essa via extraordinária, ganharam infinitamente mais do que lhes oferece a filantropia.</span><span id="more-15524"></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Santa Catarina de Sena, doutora da Igreja e padroeira da Itália, tendo notícia da condenação do jovem Tuldo, que na prisão se revoltava e desesperava, corre à sua cela, senta-se no chão ao lado do moço e põe-se a falar de um céu que se abre, e de um palácio de amor, de fogo e sangue, onde a alma purificada corre ao encontro de seu Senhor e seu Pai, que corre também ao seu encontro e o cobre de beijos. Durante horas a moça Catarina Benincase, 25ª filha do tintureiro, ajuda o jovem Tuldo a desprender-se deste mundo e a desejar ardentemente ver a glória de Deus. Quando Catarina quer levantar-se suplica, como os peregrinos de Emaús: “Fica mais um pouco comigo <em>dolce mamma</em>, porque escurece”. E ela: “Amanhã cedo, filho, espero-te no santo lugar da Justiça”.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">No dia seguinte, de manhã, Catarina esperava o moço Tuldo no cadafalso. Quando ele a viu alegrou-se e correu a ajoelhar-se com a cabeça no cepo; Catarina, ajoelhada diante dele, estendeu sua veste de <em>mantellata</em>, e quando viu o braço do carrasco erguer no ar o machado, gritou para o céu: “Io voglio!” E recebeu no regaço a cabeça a jorrar sangue. E temos a certeza de que Jesus — “Gesù dolce, Gesú amore”, terá feito a vontade daquela que sempre seguira Sua santa vontade.</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #000000;"><strong>*********</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Menos medieval, mas não menos católica, é a história da menina Therèse Martin que um dia, aos 13 ou 14 anos, vê em cima da mesa um jornal com a notícia da execução do feroz e desumano Pranzini que degolara duas mulheres e matara uma criança com requintes de maldade. Teresa só pensa, instantaneamente, numa coisa, quando lê a notícia: o valor infinito de uma vida, sim, mas da vida eterna. E atira-se impetuosamente ao encontro de Jesus para reclamar, para apostrofar, quase para interpela-LO. Como, mais tarde, muitas vezes disse Gema Galgani em favor dos pecadores, Teresa não quer admitir que tenha sido em vão para aquele Pranzini o Sangue derramado desde o Jardim das Oliveiras até a Cruz. Nenhum de nós faz idéia do jato de amor, do ímpeto de misericórdia, da heróica generosidade com que Teresa se oferece como fiadora de tão graves e hediondos crimes; nenhum de nós faz idéia da explosão de fogo e da transfusão de sangue místico operada nesses instantes entre Teresinha e Jesus. O que sabemos, porque foi registrado, é que no trajeto da carreta Pranzini praguejava e blasfemava com furor. Chegou assim ao cadafalso, e era arrastado para a guilhotina quando subitamente acalmou-se, e de repente voltou-se para o padre que atrás trazia um crucifixo. Chorando ajoelhado, o pobre monstro humano beijou três vezes as santas chagas de Jesus, e nesse ato instantâneo e infinito tornou-se irmão ou afilhado primeiro de uma das mais belas santas do céu. Mais tarde a doce carmelita Teresinha aludiu uma vez a este primeiro filho que na terra andara praticando “<em>quelques mauvais tours</em>”.</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #000000;"><strong>*********</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Contei essas historias, amigo leitor, não para inculcar a idéia fantástica de querer que as instituições do bem comum temporal possam revestir-se de tão extraordinárias feições, mas apenas para dizer, aos filantropos que ousam falar no valor da vida, estas poucas e simples palavras: eles realmente — esses amolecedores de tudo — não fazem a menor idéia do verdadeiro e infinito valor da vida humana.</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #000000;"><strong>*********</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Agora acudiu-me à lembrança a figura de Léon Bloy, o peregrino do Absoluto. Em 1908 preparava-se Blériot para atravessar a Mancha. Entusiasmo. Euforia. O acadêmico Gabriel Hanotaux, traduzindo e condensando em bom francês o creme de mediocridade de todo um século que nascia, pronunciou um discurso que anunciava uma era de paz e concórdia, da qual aquele aeroplano, com um ramo de oliveira em suas rodas, seria o precursor. Lendo a notícia, Leon Bloy registrou no seu <em>Journal</em> o rugido profético: “Preparem os ataúdes”.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Diremos nós, hoje: Ampliem os necrotérios.</span></p>
<p style="text-align: right;"><span style="color: #000000;"><span style="color: #0000ff;"><a style="color: #0000ff;" href="https://permanencia.org.br/drupal/node/467"><strong><em>Conversa em Sol Maior &#8211; </em>Gustavo Corção</strong></a> (Fonte: Permanencia)</span><em><br />
</em></span></p>
<p style="text-align: right;">
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		<title>A TRAGÉDIA DA AUTORIDADE</title>
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		<pubDate>Tue, 09 May 2023 15:40:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Dominus Est]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Cristianofobia]]></category>
		<category><![CDATA[Jovens]]></category>
		<category><![CDATA[Liberalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Mundo Moderno]]></category>
		<category><![CDATA[Textos e Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Gustavo Corção]]></category>
		<category><![CDATA[Permanencia]]></category>

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		<description><![CDATA[Gustavo Corção Todos nós sabemos que o mundo moderno está envolvido numa guerra mais mundial, porque mais geral e mais penetrante, do que as duas anteriores. Uma torrente histórica vem de longe, recebendo afluentes, engrossando, para desaguar num estuário de &#8230; <a href="http://catolicosribeiraopreto.com/a-tragedia-da-autoridade/">Continuar lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="alignright" src="https://fratresinunum.files.wordpress.com/2008/06/gustavo-corcao.jpg" alt="Uma dupla homenagem: Corção e Santa Maria das Vitórias | Fratres in Unum.com" width="176" height="250" /></p>
<p style="text-align: right;"><span style="color: #0000ff;"><strong><em style="font-weight: inherit;"><a style="color: #0000ff;" href="https://permanencia.org.br/drupal/node/6085">Gustavo Corção</a></em></strong></span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Todos nós sabemos que o mundo moderno está envolvido numa guerra mais mundial, porque mais geral e mais penetrante, do que as duas anteriores. Uma torrente histórica vem de longe, recebendo afluentes, engrossando, para desaguar num estuário de anarquia e desordens com que os visionários pretendem contestar a obra de Deus e dos homens, pretende repelir a ideia de continuação e tradição, e até ousa pretender uma revolução mundial a fim de voltar à estaca zero para a recriação do mundo do homem a partir desse zero, <em style="font-weight: inherit;">ex nihilo.</em></span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Uma das peças essenciais do jogo é o princípio da autoridade que nunca esteve tão molestado e nunca foi tão contestado. E uma das consequências desse estado de coisas é o mau exercício da dita autoridade por todos que dela se acham investidos. Há uma razão profunda na raiz de tamanho mal: a autoridade, em seus variados níveis, é uma exigência da lei natural. Sem essa ideia é impossível a família, é impraticável a Cidade, é impensável uma Civilização.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Por outro lado, há na ideia de autoridade algo que parece soar falso, ou que parece antinatural: como poderemos admitir que um homem se torne rei ou chefe da multidão de homens feito do mesmo barro? A ideia de autoridade aparece logo como antagônica do ideal de igualdade que parece ser uma das metas do dinamismo da história: os séculos trabalham para produzir um nivelamento humano, dizem os vários seguidores do anarquismo revolucionário. A autoridade será então, no dizer deles, uma categoria anti-histórica. O senso comum, ao contrário, nos diz que o sucesso de qualquer obra humana exige unidade de ação, e essa unidade exige que uns mandem e outros obedeçam. Mas o senso comum é a primeira vítima das correntes revolucionárias. E o mundo moderno, desaguador de uma civilização que durante quatro séculos apostou tudo nas revoluções, está aí para nos oferecer uma amostra do que será o próximo mundo cada vez mais moderno, condenado a ser continuamente moderno.</span><span id="more-25466"></span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Já se disse mil vezes que a crise de civilização em que estamos imersos é uma crise de autoridade; mas é preciso acrescentar que a crise da autoridade tem dois lados: o primeiro consiste na agressão exterior e na contestação do princípio pelos anarquistas; o segundo consiste no mau exercício da autoridade.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">As pessoas investidas de algum superiorato sentem-se vagamente envergonhadas porque uma das coisas mais difíceis para o indivíduo é resistir de algum modo ao empuxo irracional que vem da massa em movimento histórico. E todos pensam que a autoridade será tanto melhor quanto mais benigna e suave, como todos também pensam que, democracia será tanto melhor quanto mais puramente democrática, isto é, quanto menos acentuado é o valor e o prestígio das elites, e quanto mais decapitado o corpo político.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A dificuldade do exercício das mais legítimas autoridades, a do Papa, a de um bispo, a de um abade, a de um pai de família e a de um chefe de Estado, começa na cercadura dos seus mais próximos auxiliares. E o que mais frequentemente se vê, nessa matéria, produz tais deformações, tamanhos disparates, que, em vez de falar na tragédia da autoridade, seria melhor dizer comédia da autoridade. A crise da hierarquia eclesiástica é hoje um dos mais graves e pungentes dramas de nossa história. Desde o papado, onde a suprema autoridade da Igreja é o sucessor de Pedro e, portanto, o “doce Cristo na Terra” como dizia Catarina de Sena, tem-se a penosa impressão de um cerco. Com o pretexto de melhor servir a Igreja, segundo critérios que vê mais dos trovões sísmicos da história do que dos trovões do Sinai, muitos bispos se levantaram para diminuir a autoridade do Papa, para contestar o primado de Pedro, ou para colocá-lo numa espécie de presidência, no mesmo nível do colegiado de Bispos.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Além disso há a cercadura, os assessores, os secretários, os peritos, que se movem em torno do Cristo-na-Terra pomposamente crucificado, como em torno da Cruz primeira se moviam os soldados romanos, os curiosos, enquanto junto à cruz se imobilizada <em style="font-weight: inherit;">Stabat,</em> a Mãe de Deus, Mãe da Igreja, Mãe dos homens.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: center;"><span style="color: #000000;">***</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">E de onde vem o fermento de des-Ordem que corrói no mundo todas as formas de autoridade? Respondo a essa interrogação com as palavras de São Pio X, que deveria ser considerado o patrono de todas as legítimas autoridades, porque soube levar a sua a um grau heroico.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">“Poderá alguém ignorar a doença grave e profunda que neste momento, mais do que nunca, mina as entranhas da sociedade, e dia a dia se agrava corroendo-a até a medula e arrastando-a à ruína total? Essa doença, que bem conheceis, é a atitude do homem diante de Deus: é o abandono, a apostasia (dos mais próximos e é a soberba e insensata indiferença de muitos), mas nós não duvidamos da palavra do profeta (Sl 72, 27): ‘Eis que perecerão todos os que se afastarem de Vós&#8230;’”</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">É o afastamento de Deus, que a parte do mundo mais cristianizada vem operando há quatro séculos, que torna absurda e inaceitável a ideia da autoridade, porque todas as situações humanas de superiorato só têm sentido, e só encontram verdadeiro apoio, não na confusa e irracional “vontade geral”, mas no temor de Deus que é o modelo perfeito de todas as autoridades. Na verdade – agora compreendemos melhor – toda a corrente revolucionária, que quer destruir o passado de pedra em favor de um futuro de névoa, é uma corrente parricida.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Dentro dela, as instituições de direito divino, como o Episcopado, oscilam, vacilam e dão espetáculos derrisórios de desmoralização da autoridade, de dentro para fora, deixando abandonado à perplexidade e às lágrimas o povo humilde dos fiéis que, em lugar da figura de um Pai, veem frequentemente um burocrata, quando não veem um acrobata ou uma vedeta.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: right;"><span style="color: #0000ff;"><strong><a style="color: #0000ff;" href="https://permanencia.org.br/drupal/node/6085">(O Globo, 10/2/72)</a></strong></span></p>
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		<title>GUSTAVO CORÇÃO E A CNBB</title>
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		<pubDate>Tue, 25 Apr 2023 14:00:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Dominus Est]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Crise na Igreja]]></category>
		<category><![CDATA[Modernismo]]></category>
		<category><![CDATA[Textos e Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[CNBB]]></category>
		<category><![CDATA[Gustavo Corção]]></category>

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		<description><![CDATA[Reflexões sobre as Conferências episcopais Reflexões sobre a CNBB O Cochilo da CNBB]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter" src="https://permanencia.org.br/drupal/sites/default/files/G-Corcao.png" alt="Gustavo Corção, onde tudo é amor | Permanência" width="443" height="207" /></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #0000ff;"><strong><span class="tm9"><a style="color: #0000ff;" href="https://permanencia.org.br/drupal/node/6184">Reflexões sobre as Conferências episcopais</a></span></strong></span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #0000ff;"><strong><span class="tm9"><a style="color: #0000ff;" href="https://permanencia.org.br/drupal/node/6185">Reflexões sobre a CNBB</a></span></strong></span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #0000ff;"><strong><span class="tm9"><a style="color: #0000ff;" href="https://permanencia.org.br/drupal/node/6183">O Cochilo da CNBB</a></span></strong></span></p>
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