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	<title>DOMINUS EST &#187; Kant</title>
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	<description>FIÉIS CATÓLICOS DE RIBEIRÃO PRETO (FSSPX) - SOB A PROTEÇÃO DE NOSSA SENHORA CORREDENTORA E MEDIANEIRA DE TODAS AS GRAÇAS</description>
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		<title>A FILOSOFIA DO &#8220;PODE SER&#8221; DE KANT</title>
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		<pubDate>Fri, 05 Feb 2021 14:10:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Dominus Est]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Espiritualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Liberalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Textos e Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Kant]]></category>
		<category><![CDATA[Pe. Dominique Bourmaud]]></category>

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		<description><![CDATA[Pe. Dominique Bourmaud, FSSPX Temos tido o cuidado de sublinhar como o luteranismo entra em contradição com os princípios de Lutero. Lutero, a princípio, desprezou todo o passado racional, histórico e dogmático. Pretendia deixar que a liberdade individual fosse expressa &#8230; <a href="http://catolicosribeiraopreto.com/a-filosofia-do-pode-ser-de-kant/">Continuar lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><img class=" alignright" src="https://miro.medium.com/max/1024/1*w8LNqncLcD2U6TFQYQUpPw.jpeg" alt="Kant e seu guia ético do imperativo categórico | by Marco Brito | Marco  Brito | Medium" width="354" height="201" /></p>
<p style="text-align: right;"><strong><span style="color: #000000;"><a href="https://permanencia.org.br/drupal/node/5888">Pe. Dominique Bourmaud, FSSPX</a></span></strong></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Temos tido o cuidado de sublinhar como o luteranismo entra em contradição com os princípios de Lutero. Lutero, a princípio, desprezou todo o passado racional, histórico e dogmático. Pretendia deixar que a liberdade individual fosse expressa abertamente, com todo seu séquito de desordem e anarquia. Mas como essa doutrina não é viável, encheu de defesas e dificuldades o seu sistema e fundou a Igreja luterana, que é diametralmente o oposto do seu conceito de liberdade de pensamento e de fé. O luteranismo, juntamente com todas as seitas que dele saíram, é um sistema incoerente que oscila entre dois polos contraditórios: o livre exame e a autoridade religiosa, a salvação por si mesmo e a necessidade de uma Igreja. Durante dois séculos, o protestantismo dogmático fez um grande esforço para esconder pudicamente esta deficiência congênita, pondo em relevo principalmente o aspecto moral ou o aspecto político e antipapista; mas esses subterfúgios não faziam mais que retardar o aparecimento de uma crise que, cedo ou tarde, teria que explodir com grande violência.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Os verdadeiros sucessores de Lutero tirarão todas as conclusões lógicas da doutrina do livre exame. Por meio de sua nova filosofia, de sua nova religião e de sua nova Revelação, eles fundamentarão tudo no homem e somente no homem, sem fé e sem lei, sem razão e sem Revelação exterior, sem Deus e sem nada. Essa será, respectivamente, a obra de Kant, Strauss e Schleiermacher, que estudaremos nos próximos capítulos. Indiscutivelmente, o primeiro deles e o verdadeiro fundador da escola é Kant, a quem devemos associar o filósofo Hegel.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A filosofia eterna, segundo Aristóteles, ensina que as coisas existem e que podemos conhecer sua natureza. Para fazê-lo, ela supõe três coisas: 1) que a inteligência humana pode conhecer a verdade; 2) que ela é capaz de conhecer a realidade exterior;  3) que ela conhece o elemento estável do ser, sua natureza e sua essência. Com Descartes, já há uma mudança de perspectiva: o <em style="font-weight: inherit;">cogito </em>cartesiano — «Penso, logo existo» — parte do sujeito para terminar no real. O germe cartesiano, junto com o idealismo kantiano, produzirá frutos amargos. Kant vangloria-se de ter feito a «revolução copernicana» em filosofia. Durante muito tempo<strong>,</strong> acreditou-se que o Sol girava ao redor da Terra, e Copérnico demonstrou o oposto, que era a Terra que girava ao redor do Sol. Do mesmo modo, sempre foi aceito que o espírito se adequava às coisas com o fim de conhecê-las, mas Kant, ao contrário, pretende demonstrar que é o objeto que se adequa ao pensamento, e que o pensamento é de fato o centro de gravidade do conhecimento. Kant sustenta que o homem não pode conhecer a verdade das coisas e que a inteligência está confinada em si mesma sem nenhuma referência externa. Por isso, professa abertamente o agnosticismo <em style="font-weight: inherit;">ignorantista</em> e o imanentismo <em style="font-weight: inherit;">egologista</em>, limitado a conhecer somente o seu <em style="font-weight: inherit;">eu</em>. Hegel ataca principalmente o terceiro ponto, a estabilidade do ser, por meio de sua dialética da evolução <em style="font-weight: inherit;">revolucionista</em>. Ainda que, à primeira vista, pareça que Hegel encarna melhor o espírito modernista, entendido como a evolução da Revelação a partir da consciência, na verdade, é Kant quem lhe dá sua expressão mais profunda.</span></p>
<p style="font-style: inherit; text-align: center;"><span style="color: #000000;"><strong>1. Kant e sua época</strong></span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">O século XVIII foi a época da <em style="font-weight: inherit;">Aufklärung</em> — o Iluminismo. Kant descreve perfeitamente a <em style="font-weight: inherit;">Aufklärung</em> como o esforço do homem para se liberar de sua imaturidade culpável, vale dizer, de sua incapacidade de raciocinar sem a ajuda de outro(1). Para isso, é necessário deixar de lado Deus e a religião e substituí-los pela religião do homem. O maçom Lessing, em sua obra <em style="font-weight: inherit;">A Educação do gênero humano</em>, propunha a religião da razão pura, emancipada de Deus:</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">«Por que não ver simplesmente, em todas as religiões positivas, esta ordem em que a inteligência humana desenvolve-se e segue desenvolvendo-se só e por si mesma, em vez de criticar ou escarnecer essa ou aquela?» (2).</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Essa declaração deveria inspirar todo o desenvolvimento ou, melhor dito, toda a revolução teológica do século XIX. Seu principal agente e propulsor não foi propriamente um teólogo, mas um filósofo da <em style="font-weight: inherit;">Aufklärung</em>, Immanuel Kant.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Kant nasceu em Könisgberg em 1724. Era o quarto filho de pais honrados, a quem sempre admirou, principalmente sua mãe:</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">«Minha mãe era de temperamento doce, afetuosa e piedosa, uma mulher direita e uma mãe terna, que educou seus filhos no temor de Deus segundo uma doutrina piedosa e um exemplo virtuoso»(3).</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A educação recebida de sua mãe, que era fiel de uma seita protestante pietista, contribuiu muito para fazê-lo aceitar sem contestação o valor da moral e da religião. Ao mesmo tempo, na universidade, instruiu-se nas ciências modernas, especialmente no sistema astronômico de Newton, que o impressionou até o ponto de proporcionar-lhe um segundo fato, tão evidente e inquestionável aos seus olhos quanto o fato moral: a existência de uma ciência positiva necessária e universal. Com exceção de uma curta ausência, passou toda a vida em sua cidade natal, como professor de lógica e metafísica na universidade. De acordo com o poeta Heine, é muito difícil escrever a história da vida de Immanuel Kant, porque não teve nem vida nem história. Levou uma vida de solteiro metodicamente ordenada e abstraída, em uma tranquila avenida de Könisgberg, antiga cidade do nordeste da Alemanha(4). Sua vida é a caricatura da vida de um professor. Tudo tinha seu tempo regulado: levantar-se, tomar café da manhã, lecionar, comer, dar um passeio; a tal ponto que, quando Immanuel Kant saía de sua casa, com seu casaco cinza e sua bengala espanhola na mão, para caminhar ao longo da avenida, logo rebatizada de <em style="font-weight: inherit;">O passeio do filósofo</em>, os vizinhos sabiam que eram exatamente quatro e trinta da tarde. Apesar da saúde frágil, Kant alcançou, desse modo, uma longa carreira, repleta de trabalhos intelectuais, frutos de suas reflexões um tanto lentas, mas profundas e perseverantes. Não começou a ruminar seu sistema, que haveria de revolucionar toda a filosofia, senão nos anos de 1770. Embora desfrutasse de uma natureza mais sociável do que a descrita por Heine, visto que sua presença era muito solicitada nos alegres salões da cidade, é certo que a moral do dever desse celibatário haveria de influenciar imensamente o espírito calvinista e puritano.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Quanto à sua obra filosófica, podemos dizer que gira em torno de duas estrelas de sua juventude: a evidência da ciência física newtoniana e a certeza da lei moral no fundo do coração, inspirada em Rousseau. Toda sua ambição intelectual, todo seu sistema filosófico, foi construído para defender esses dois pontos cardeais contra todos os problemas e obstáculos, a tal extremo que desejou que fosse escrito em sua tumba: «O céu estrelado sobre mim e a lei moral dentro de mim». O epitáfio poderia servir de epígrafe a suas obras, pois as resume perfeitamente. De fato, o sistema filosófico de Kant articula-se para conciliar essas duas verdades intangíveis, a física newtoniana e a moral rousseauniana, e, ao mesmo tempo, confiná-las em dois domínios distintos, com o propósito de evitar qualquer conflito entre elas.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Em consonância com o empirista inglês David Hume, Kant reconhece que as coisas existem realmente, mas também assente que não é possível conhecê-las tal como são. A única ciência verdadeiramente certa é a física experimental de Newton, que não capta a realidade em si mesma, mas só os fenômenos, isto é, as coisas tais como aparecem sob as lentes da inteligência humana. Há algo sob essas lentes que informam e deformam, mas não se pode saber se transmitem verdadeiramente o que está além do vidro. As substâncias, o eu e Deus, a realidade além do sujeito que conhece, tudo isto pertence à ordem da <em style="font-weight: inherit;">terra incognita</em>, terra desconhecida e <em style="font-weight: inherit;">no man´s land(5)</em>. Por esta razão a metafísica, que trata das «coisas em si», é incerta e frequentemente falsa. Disto trata seu primeiro livro: <em style="font-weight: inherit;">A crítica da razão pura</em>. Mas, no segundo livro, <em style="font-weight: inherit;">A crítica da razão prática</em>, defende a moralidade pietista e devolve à metafísica o valor de conhecimento que retira da própria física. Como ele próprio explica: «Destruí a razão para dar lugar à fé»(6). A metafísica, inválida no campo científico, pode chegar a ser válida quando é utilizada em proveito da vida moral, reduzida que foi a uma fé cega. As «coisas em si» do mundo real são falsas do ponto de vista científico, mas verdadeiras do ponto de vista moral, posto que são úteis para viver. Aquilo que, na realidade, é duvidoso, converte-se em certeza prática, mediante a varinha mágica da moral do dever. O mais além, Deus, o mundo e o «eu» com sua liberdade, não são objetos do conhecimento físico e científico, mas devem existir, uma vez que são moralmente necessários. Pertencem à ordem do «pode ser», mas<strong>, </strong>é preciso viver «como se» eles fossem. O homem nega todo conhecimento razoável do mundo das coisas, mas deve agir como se soubesse muito a respeito deste mundo. Nunca se sabe com segurança o que há para além das lentes da inteligência, mas devemos viver como se estivéssemos seguros dessas coisas. À custa de semelhante dualismo, que separa hermeticamente a ordem prática da ordem especulativa, Kant consegue preservar as duas estrelas fixas de sua vida. Falta-nos ver com mais detalhes de que modo um sistema como esse é fundamentalmente <em style="font-weight: inherit;">ignorantista</em> e <em style="font-weight: inherit;">egologista</em>.</span></p>
<p style="font-style: inherit; text-align: center;"><span style="color: #000000;"><strong>2. O ser é? Pode ser!</strong></span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Heine queixava-se que Kant era um comerciante mesquinho que a natureza havia criado para pesar chá e açúcar. Desgraçadamente, Kant, ultrapassando seus limites naturais, se fez pensador, e seu pensamento acabou destruindo um mundo.  Na Prússia dos primeiros anos da vocação de escritor de Kant, a caça aos hereges estava aberta. O pequeno professor de lógica de Könisgberg já havia publicado alguns trabalhos de estilo confuso, que só poderiam interessar a alguns intelectuais específicos, quando veio à luz sua <em style="font-weight: inherit;">Crítica da razão pura,</em> em 1781. Seu estilo complexo e enfadonho o salvou da censura do Ministério de Educação prussiano. O inquisidor que, em Berlim, quisera condenar sua obra, se viu em apuros para extrair do livro uma única heresia contra a fé luterana; ele teria muito pouco sucesso, pouca gente o leria e certamente ninguém o compreenderia. Esse livro, embora ignorado de início, foi sendo descoberto pouco a pouco. Tornou-se o manifesto do idealismo, porque nega à inteligência o poder de conhecer a realidade. É o agnosticismo subjetivo, a filosofia do incompreensível. Kant sofreu a influência de seus contemporâneos, e seu sistema pretende conciliar o ceticismo do inglês Hume com a ciência física de Newton. Para ilustrar como Kant compreende o mistério do conhecimento, imaginemos um diálogo entre os dois filósofos durante uma partida de petanca(7):</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> — Caro Hume, minha primeira bocha ficou a dois dedos do bolim. Cabe a ti deslocá-la!</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> — Aqui vai, caro Kant. Veja! Tenho a impressão de afastar tua bocha com a minha, mas é só uma ilusão. Desde minha mais tenra infância<strong>,</strong> aprendi a associar o antes e o depois como a causa e o efeito, de maneira que o primeiro movimento da bocha seria causa do segundo. Na realidade, não é nada disso. Há duas manchas de cor de aço, dois movimentos, um antes e outro depois, isso é tudo. É a mesma coisa que dizia nosso amigo Descartes, que reduzia os corpos a sua simples extensão. Além disso, as substâncias que chamamos bochas e o primeiro movimento entendido como causa do segundo, tudo isso é fruto de nossa imaginação e dos erros de nossa infância.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> — O que diz, caro Hume, é muito profundo e me leva a sair de minha ilusão realista. Temos a certeza de apreender alguma vez as coisas e suas causas? Não, isso é impossível. Não obstante, veja! Quando lanço minha segunda bocha, não há dúvida de que estou consciente da lei da gravidade que Newton descobriu. O problema, então, é saber de onde vem esta lei evidente, universal e necessária. Concedo-te que não vale a pena dizer que procede da experiência recebida do exterior. Portanto, há de proceder do interior, do sujeito. Tal como o entendo, o conhecimento é obra do meu espírito que produz suas próprias ideias a partir dos fatos brutos, da mesma forma que o escultor produz a estátua ao trabalhar a pedra.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">O ponto de partida da crítica de Kant é eliminar das coisas sua natureza e essência. Desta forma, nem o pinheiro e nem o carvalho compartilham a natureza comum de árvore. Além disso, a natureza humana não é comum a Pedro e a Paulo, de modo que uma inteligência possa compreendê-los sob o conceito de «homem». Para ele, as coisas são um plasma informe e incognoscível, e a inteligência nada aprende da realidade. O ser é? Pode ser, mas as coisas são impermeáveis à inteligência, e, se delas inteligência há, só pode ser de si mesma que ela as tira. Assim, o pensamento, acreditando apreender e contemplar um objeto desconhecido, não capta e contempla senão a si mesmo. Esta é a essência do idealismo: o pensamento não alcança a coisa em si mesma, mas só a ideia. No idealismo, o espírito humano, ao desprezar desde o início os fatos da experiência, tem de, no fundo, dar forma àquilo que conhece. E, ao término do percurso, só chega a conhecer suas próprias ideias, e não as coisas exteriores. Da perspectiva idealista, sobretudo segundo os discípulos radicais de Kant, as coisas são postas pelo espírito humano e se reduz ao conhecimento que o sujeito tem delas, ao contrário do realismo.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Que ilusão colossal é este conhecimento idealista! Conhece seu pensamento — o <em style="font-weight: inherit;">fenômeno</em> — mas não a realidade — a<em style="font-weight: inherit;"> coisa em si</em>. É um divórcio completo entre a inteligência e a realidade. Kant proclama deste modo a autonomia total da inteligência humana frente à realidade exterior. As consequências são trágicas. Kant, por exemplo, não vê nenhuma contradição entre dizer que uma coisa que aparece está sujeita a leis e que essa mesma coisa é independente, pois a pessoa tem de se observar das duas maneiras(8).</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">O kantismo, ao aceitar a existência de um pensamento de nada, de uma representação sem coisa representada, chega à conclusão de que a contradição é possível. E vai ainda mais longe: arruina a eterna noção de verdade. A verdade kantiana define-se como a conformidade do pensamento consigo mesmo: é verdade tudo aquilo que é coerente. Nestas condições, é desnecessário dizer que um kantiano nunca se equivoca; é infalível em todo lugar e em todo momento, porque as ideias que seu cérebro produz são a verdade. Seus sonhos mais rocambolescos tornam-se <em style="font-weight: inherit;">ipso facto</em> verdadeiros pelo simples fato de serem pensados. E, não obstante, esse pensamento que não sabe sair de si mesmo é a definição de verdade professada por todos os modernistas, a exemplo de seu mestre. Em matéria de iluminismo, esta filosofia moderna assina um pacto com as trevas e faz aberta profissão de ignorantismo. Em matéria de sabedoria, desaba em um obscurantismo declarado.</span></p>
<p style="font-style: inherit; text-align: center;"><strong><span style="color: #000000;">3. O egologismo fideísta</span></strong></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Diz-se em tom de gracejo que a <em style="font-weight: inherit;">Crítica da razão pura</em>, que desdenhou de todas as coisas e da religião, encheu de desespero ao criado de Kant. Por isso, dez anos depois, o mestre decidiu escrever a <em style="font-weight: inherit;">Crítica da razão prática</em> para reabrir espaço à moral. O segundo volume segue a mesma linha que o precedente: a melhor maneira de destruir algo é substituí-lo por outra coisa. Kant chegara à conclusão de que a razão pura nada pode conhecer. Agora, ia provar que a razão prática, que se ocupa das questões morais, pode conhecer as verdades metafísicas sobre o homem e sobre Deus pela única via ainda resta aberta: o <em style="font-weight: inherit;">eu pensante</em>. Essa segunda obra foi objeto de uma investigação mais profunda por parte dos inquisidores de Berlim. É que o autor tratava de questões religiosas como a existência de Deus, a imortalidade da alma e a liberdade, já expostas em seu primeiro volume, mas que passaram despercebidas naquele denso conjunto. Mas, ali também, Kant, que provara a existência delas por um caminho original e obscuro, conseguiu ocultar-se das redes da censura. Os berlinenses, embora lamentassem que o professor não pusesse os pés na igreja, estavam satisfeitos com suas conclusões corretas, apesar de seu raciocínio manco.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Para Kant, com efeito, as três grandes ideias metafísicas — Deus, a alma, o mundo — não são mais que preconceitos na ordem da razão especulativa. Deus é da ordem do «pode ser», é uma «coisa em si» desconhecida. Porém, Kant herdara de sua mãe pietista a convicção indubitável de que a vida moral é uma necessidade, um dever que funda o bem-viver. E o dever — <em style="font-weight: inherit;">o imperativo categórico</em> — reivindica certas condições, como a existência de Deus, da alma humana e da liberdade. Da mesma forma, a ideia de Deus é uma consequência da ordem moral e não seu fundamento, porque, segundo Kant, a moralidade é mais importante que Deus. Deus existe porque é útil. Esta maneira kantiana de ver as coisas, não é tomar os desejos por realidades?</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Essa via de fuga, a exigência moral, que pretende provar o que a razão engenhosamente negara, é, na verdade, um eco das teorias de Lutero e Siger. De Lutero, porque é a expressão mais perfeita de sua fé-confiança cega. O dever moral kantiano não apreende jamais o racional e a verdade. É um ato de fé cega em nossos instintos morais e na existência de Deus, da alma imortal e do mundo. Ao mesmo tempo, é um fideísmo ao estilo de Siger. Tanto para Kant quanto para Siger, existem duas verdades completamente separadas que podem se contradizer tranquilamente: a verdade como conhecimento científico dos fenômenos e a verdade como crença cega nas coisas. Entre as duas, o jogo é desigual. A verdade científica não tarda em humilhar sem piedade a verdade fideísta, limitada ao domínio dos dogmas pietistas e sentimentais de sua religião materna. Daí provém a tese comum entre os modernistas, de que aquilo que é falso especulativamente pode ser verdadeiro na prática(9).</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Para aplicar seus princípios utilitaristas à religião, Kant publicou um terceiro livro, ainda mais audacioso que os anteriores, <em style="font-weight: inherit;">A religião nos limites da razão pura</em>, que continha uma minuciosa análise das doutrinas luteranas mais sensíveis, cujo fundamento histórico ele nega. Os <em style="font-weight: inherit;">credos</em> protestantes têm um valor puramente «simbólico». Pouco importa que o homem tenha cometido historicamente o pecado original, pois a consciência é suficiente para revelar nossas más inclinações. Jesus Cristo, historicamente, era só um homem, mas resultava útil apresentá-lo como Deus aos fiéis, para que entendessem, dessa forma, que também eles são, de algum modo, filhos de Deus. Toda a Revelação fica reduzida <strong>à</strong> razão pura. Por exemplo, os milagres não precisam ser provados, pois o único testemunho que vale é o da alma, e, seja como for, o único Deus possível de se conhecer é aquele que está dentro de nós. Esse Deus é tão somente uma quimera, e uma quimera não pode mandar ninguém para o Paraíso ou  para o inferno. Tamanha abstração da divindade corresponde ao que pensavam os deístas de seu tempo, que lançaram o desafio blasfemo: «Façamos Deus à nossa imagem!». E tal ideia abstrata de Deus, imagem de uma humanidade abstrata, imagem da unidade do gênero humano, era a única maneira de promover a paz na terra. Longe dos <em style="font-weight: inherit;">credos</em> que dividem, Kant erigia assim a religião da consciência, que logo será reivindicada por seu discípulo, Schleiermacher.</span></p>
<p style="font-style: inherit; text-align: center;"><strong><span style="color: #000000;">4. Hegel e o puro devir</span></strong></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Kant fez com que tudo procedesse da consciência humana perfeitamente autônoma. Como passar deste fundamento estático à revolução das ideias? Era preciso acrescentar um elemento dinâmico. Essa foi a obra de Hegel, que haveria de proporcionar novos recursos <strong>ao</strong> idealismo. O modernismo então fecha o círculo com a teoria evolucionista, que transforma a evolução e a torna verdadeiramente revolucionista. O evolucionismo radical é o ponto nuclear do sistema modernista, pelo qual os modernos justificam sua revolução, que se estende desde a filosofia até o dogma, a moral, a História e a exegese bíblica. Não se trata da evolução das espécies segundo Darwin, mas da hipótese mais sutil e estendida do devir universal, que é a base da «nova» filosofia de Hegel, e que procede diretamente do velho Heráclito: o ser não é, tudo é puro devir.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Hegel não é um autor fácil de ler. Na Alemanha, um filósofo só é levado a sério quando é obscuro. Entretanto, se adota um estilo mais denso do que o de seu compatriota, Hegel tem sobre Kant a grande vantagem de apresentar princípios claros, porque, para ele, o racional é o real e o real é o racional, ou, em outras palavras, o pensamento é a realidade. A filosofia se define como o saber absoluto, a ciência que Deus tem de si mesmo e de todas as coisas. A obra filosófica de Hegel consiste em construir e encadear metodicamente os conceitos para apreender o processo de geração do universo. Os conceitos — ainda que para ele os conceitos sejam as coisas — encadeiam-se por meio do <em style="font-weight: inherit;">método dialético</em>, que supera as contradições fazendo progredir o pensamento até as ideias superiores. Toda sua <em style="font-weight: inherit;">Lógica</em>, que pretende descrever o universo bem ordenado segundo seu sistema, é uma verdadeira valsa de conceitos que funciona em três tempos: tese-antítese-síntese.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Para chegar ao ápice da consciência de si mesma, a religião deve passar, como qualquer outra ideia, por uma cascata de formas inferiores graduadas em grupos de três: a religião naturalista do Oriente de um Deus impessoal (magia, budismo, zoroastrismo); a religião do Deus individual e espiritual (judaica, grega, romana ou prática); ambas se fundem para produzir o Cristianismo, religião de um Deus infinito unido a humanidade finita (também com sua tríade: encarnação, Paixão, história da Igreja), tudo unificando-se na Santíssima Trindade. A religião cristã, resumo das riquezas contraditórias do passado, não é, porém, o cume da consciência do Espírito. Assim, a história das religiões mostra a evolução das crenças primitivas inferiores às religiões superiores, que as reúne em uma síntese mais rica, para desembocar na filosofia hegeliana, pináculo da religião da razão.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">É necessário sublinhar alguns pontos desse gigantesco palácio de ideias. Em Hegel, Deus — a quem chama de o Absoluto — não existe ainda, e só existirá ao término de sua própria evolução. Com efeito, antes de ser plenamente Ele mesmo como termo final, o Absoluto é o processo de geração do universo; logo, parte integrante do universo e de todo espírito. Ademais, tudo o que é posterior a outra coisa é necessariamente superior ao que o precede. Este é um dos postulados modernistas da História necessariamente progressiva, um dogma muito prático porque permite jogar para debaixo do tapete as crenças anteriores pelo simples fato de serem anteriores, pois, tudo o que é anterior é <em style="font-weight: inherit;">a priori</em> inferior.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Para Hegel, o homem torna-se pouco a pouco divino por suas próprias forças. Passa do conhecimento sensível ao conhecimento inteligível até alcançar a consciência absoluta divina. Este movimento ininterrupto para a divinização das criaturas, tese panteísta por excelência, é um dogma constante entre os modernistas radicais, particularmente em Teilhard de Chardin e Karl Rahner. Rahner restaura por sua conta a tese hegeliana de que o conceito de Deus, e Deus mesmo, é a projeção da consciência humana. Em vez de existir antes do homem, Deus é fruto do espírito humano.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Como vemos, a fé do filósofo Hegel pretende mover muitas montanhas. Mas crer que os próprios conceitos são a medida do mundo é divinizar o homem e rebaixar a Deus. No fundo, o hegelianismo é um panteísmo ateu, onde a pura matéria parte do não-ser, e progressivamente, pela lei dos contrários, termina no cérebro humano. Então, refletindo sobre si mesma, toma consciência de sua divindade sem tê-la ainda, posto que é só um <em style="font-weight: inherit;">Deus in fieri</em> — um Deus em potência — um Deus que ainda não é e que jamais poderá chegar a ser. Nunca o panteísmo havia sido formulado com tanto rigor.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: center;"><span style="color: #000000;">*</span><br />
<span style="color: #000000;"> *    *</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Ao considerarmos de perto os filósofos das Luzes do outro lado do Reno, é surpreendente notar um fato que, infelizmente, os historiadores da filosofia normalmente deixam de lado. Todos estes idealistas alemães atacam a religião. Seu combate é, em última instância, teológico. Com efeito, qual é a grande tentação do pensamento alemão? Em Kant, Fichte, Schelling, Hegel, Nietzsche, mesmo em Feuerbach e Marx, a filosofia se engaja em um combate titânico contra o Deus transcendente, que ela procura conduzir ao interior do homem. De Kant, que faz de Deus um guardião da moral, passando por Feuerbach, que faz d’Ele um produto do homem, até Nietzsche, que proclama sua morte, os mais ilustres pensadores alemães se esforçaram para apagar a irrupção de Cristo-Deus na história, e, em seguida, liquidar com a supremacia divina. Esses supostos filósofos são abertamente ignorantistas e egologistas. Os filósofos iluministas são mais obscuros, e o fato de que desprezem verdades tão claras como a luz do dia prova-nos que são movidos por um preconceito: o ódio à religião e à autoridade que ela representa. Manter um preconceito naturalista como esse custa caro, pois é preciso lhe sacrificar a razão e seu objeto: a verdade. Eles se assemelham aos alquimistas da Idade Média que pretendiam transformar os metais em ouro por meio da pedra filosofal. Do mesmo modo, nossos filósofos modernos pretendem transformar a natureza de Deus e da religião por meio da pedra filosofal do momento, a pedra ignorantista e egologista. Atacam ao Deus de seus pais para substituí-lo por um deus «feito em casa», na medida do eu-ego, princípio e fim de tudo.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">São Pio X, ao condenar o modernismo, não duvida em atribuir a Kant toda a culpa: o kantismo é a heresia moderna. Kant é o teórico e o príncipe do modernismo. Depois dele, seus discípulos não produziram nada mais que variações da melodia de seu mestre. Nada falta a seu sistema. Tudo já foi preparado, tudo já foi dito. Seus sucessores, Strauss em Sagrada Escritura e Schleiermacher em teologia, não farão mais que explorar as ideias emitidas por seu mestre. O dueto Kant-Hegel marca um acorde final na sinfonia modernista, ponto de encontro de seus princípios fundamentais. Estes filósofos defendem todos os princípios de onde brota a religião do homem, onde a Revelação é um produto da imaginação e da consciência do crente. Com semelhantes princípios, estamos já no coração do modernismo.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: right;"><strong><span style="color: #000000;">(100 anos de modernismo, Tradução: Ricardo Bellei)</span></strong></p>
<ol style="text-align: justify;">
<li><span style="color: #000000;">Kant, <em style="font-weight: inherit;">Was ist Aufklärung?,</em>em Fabro, <em style="font-weight: inherit;">La aventura progresista,</em> p. 197.</span></li>
<li><span style="color: #000000;">Lessing, prefácio a <em style="font-weight: inherit;">L’éducation de la race humaine</em>(1778), em Stewart, <em style="font-weight: inherit;">Modernism</em>, p. 195.</span></li>
<li><span style="color: #000000;">Em Nelly, <em style="font-weight: inherit;">Makers of the Modern Mind,</em>p. 197.</span></li>
<li><span style="color: #000000;"><em style="font-weight: inherit;">Ibíd.</em>, p. 197.</span></li>
<li><span style="color: #000000;">Literalmente, terra de ninguém. (Nota do Tradutor).</span></li>
<li><span style="color: #000000;"><em style="font-weight: inherit;">Ibídem</em>, p. 212.</span></li>
<li><span style="color: #000000;"><em style="font-weight: inherit;">Petanca</em>é um jogo antiqüíssimo, muito popular na França, Espanha e Portugal. No Brasil, este esporte é mais conhecido por <em style="font-weight: inherit;">bocha</em>. O jogo consiste em lançar uma série de bolas metálicas (no Brasil, as bolas são chamadas <em style="font-weight: inherit;">bochas </em>e são de madeira ou de resina) com a finalidade de colocá-las o mais perto possível de uma pequena bola de madeira, o <em style="font-weight: inherit;">boliche</em> (no Brasil, o <em style="font-weight: inherit;">bolim</em>), que foi previamente lançado por um dos jogadores. O outro oponente, por sua vez, procurará colocar as suas bochas mais próximas  ainda do bolim, ou então retirar as bochas do(s) seu(s) adversário(s). Para fins didáticos, usaremos a terminologia brasileira na citação dada. (Nota do Tradutor).</span></li>
<li><span style="color: #000000;">Kant, <em style="font-weight: inherit;">Principes fondamentaux de la métaphysique morale,</em>em Cooper, <em style="font-weight: inherit;">World of Philosophies,</em> p. 305.</span></li>
<li><span style="color: #000000;">Cf. os escritos de Tyrrell. Contra esta teoria, assinalaremos simplesmente que o conhecimento de uma cosa só pode ser prático e útil se é teórico, ou seja, se é conhecimento de uma coisa real. Assim, a fórmula 2 + 2 = 4 não poderia ser prática para saldar dívidas com os credores se não fosse certa teoricamente.</span></li>
</ol>
<p style="text-align: justify;">
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		<title>AGNOSTICISMO KANTISTA &#8211; CRITICISMO TRANSCENDENTAL</title>
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		<pubDate>Fri, 21 Jul 2017 15:00:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Dominus Est]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Mundo Moderno]]></category>
		<category><![CDATA[Textos e Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Kant]]></category>

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		<description><![CDATA[Do agnosticismo empírico nas suas diferentes modalidades passamos ao agnosticismo subjetivista que reconhece em KANT o seu iniciador nos tempos modernos. Com esta transição variam as razões fundamentais da atitude agnóstica, atenua-se notavelmente a rigidez das primeiras exclusões do positivismo &#8230; <a href="http://catolicosribeiraopreto.com/agnosticismo-kantista-criticismo-transcendental/">Continuar lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><img class=" alignright" src="http://www.filoinfo.net/sites/default/files/Immanuel-Kant.jpg" alt="Resultado de imagem para kant" width="188" height="253" />Do agnosticismo empírico nas suas diferentes modalidades passamos ao agnosticismo subjetivista que reconhece em KANT o seu iniciador nos tempos modernos. Com esta transição variam as razões fundamentais da atitude agnóstica, atenua-se notavelmente a rigidez das primeiras exclusões do positivismo ortodoxo, mas permanece ainda substancialmente idêntico o resultado final, a essência de todo o agnosticismo, constante em afirmar a impossibilidade insanável de chegarmos por via racional a uma certeza da existência de Deus.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Para o empirismo nominalista, os nossos conceitos não passam de simples imagens compósitas; os princípios racionais – e entre eles, o de causalidade – de meras associações de imagens formadas pela experiência dos indivíduos e organizadas biologicamente pela experiência da espécie (SPENCER). Axiomas de valor necessário e universal que nos permitam a certeza de conclusões transcendentes à ordem empírica, não as possuímos. A inteligência não é uma faculdade que pode elevar-se ao conhecimento do ser; seu alcance não ultrapassa o domínio dos fenômenos. Qualquer esforço para altear-nos acima do dado experimental é um querer voar no vazio: tentativa de movimento sem apoio. Esta teoria do conhecimento tolhe-nos pela raiz, com a liberdade soberana dos grandes vôos, a possibilidade de uma demonstração da existência de Deus; não chega, porém, a este resultado fatal sem haver antes destruído a própria razão e comprometido para sempre a possibilidade da própria ciência.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Bem o viu KANT, A ciência, observou ele, não pode viver sem princípios universais e necessários. É antes de tudo um fato: “é fácil mostrar que no conhecimento humano existem semelhantes juízos, necessários e universais, no sentido mais rigoroso”1. É ainda uma exigência a que nos não pudemos furtar sem aluir pela base a certeza dos próprios conhecimentos experimentais: “sem recorrer a exemplos poder-se-ia ainda &#8230; demonstrar que estes (princípios) são indispensáveis à possibilidade da própria experiência”2. Uma teoria como a de HUME que reduzisse esta necessidade a uma simples aparência ilusória, fruto do hábito, seria no dizer textual de KANT  “destrutiva de toda filosofia”3.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">E eis nitidamente delineada a primeira fronteira que separa o empirismo do kantismo. Não há princípios rigorosamente universais e necessários – proclama o positivismo de todos os matizes de HUME a SPENCER, de COMTE a MILL ou TAINE. Sem estes princípios, revida KANT, não pode haver conhecimento científico; a sua existência é tão certa quanto a da própria ciência.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Até aqui de acordo. A divergência começa na explicação da possibilidade, da natureza e do alcance objetivo destes princípios. A teoria do criticismo transcendental resolve-se, em última análise, no agnosticismo e, também ela, acaba destruindo a própria ciência, ou melhor ainda a razão como faculdade do conhecimento do ser. Para demonstrá-lo, não podemos prescindir de nossa exposição sumária do sistema de KANT. Omitiremos tudo quanto não se refere diretamente ao nosso assunto, e este mesmo, reduzi-lo-emos ao essencial, aliando, quanto possível, a exatidão à clareza.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A razão de ser fundamental da Crítica da Razão Pura é resolver o grande problema que acabamos de propor; a possibilidade e os limites do nosso conhecimento científico. E como não há nem pode haver ciência sem princípios universais e necessários, o fim que se propõe KANT é a explicação destes juízos que o empirismo inconsiderado de HUME comprometera com a sua teoria superficial do associacionismo. De modo geral podemos distinguir duas espécies de juízos: analíticos e sintéticos.</span><span id="more-9785"></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Os juízos analíticos são juízos de identidade; neles o predicado não exprime outra  coisa mais do que a essência do próprio sujeito. Basta<em>analisar </em>a idéia do sujeito para nele encontrar o predicado. Assim, por exemplo, os corpos são extensos; o atributo – <em>extenso</em> – nada mais acrescenta ao sujeito – o corpo – que, na sua natureza, já inclui a extensão. Estes juízos são, por isso mesmo, recíprocos; os seus termos podem inverter-se como os de uma identidade. São necessários e universais, imediatamente baseados no princípio de contradição; enquanto uma coisa é o que é não pode deixar de ser o que é; enquanto o corpo for corpo não poderá deixar de ser extenso. No ponto de vista científico, sua importância é somenos; estas preposições são apenas <em>explicativas</em> não <em>extensivas</em> do conhecimento; podem esclarecer uma idéia apresentando-a sob vários aspectos mas não ampliam nem enriquecem o tesouro do saber.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Outra é a natureza dos juízos <em>sintéticos.</em>. Aqui, o predicado acrescenta ao sujeito algo de novo; nenhuma análise é capaz de encontrar um termo no outro. A inteligência realiza uma verdadeira <em>síntese</em> dos dois. Qual a lei que explica e justifica esta síntese? Por que motivos atribuímos a um determinado sujeito um predicado que é estranho à sua natureza. Nos juízos analíticos o princípio de identidade é uma garantia de sua certeza absoluta; e, por isso, um juízo deste gênero não pode ser falso sem ser, ao mesmo tempo, contraditório. Qual a razão que justifica a síntese intelectual nos outros que podem ser falsos e não contraditórios? Examinemo-los mais de perto.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Alguns destes juízos são particulares e contingentes; esta pedra, exposta ao sol, está quente; doe-me a cabeça. Nestes casos, a experiência, a percepção externa ou interna, <em>Wahrnehmung</em>, constitui um motivo suficiente da afirmação. A síntese faz-se aqui em virtude de um motivo a posteriori; chamemo-los, por isto, juízos sintéticos a posteriori; Seu valor científico, porém, é nulo; não é de semelhantes afirmações particulares que só se verificam num determinado ponto do espaço e do tempo que se constitui a ciência.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Os princípios científicos apresentam outros caracteres; são necessários e universais, por um lado, e, por outro, não são analíticos, não são explicativos mas extensivos do saber. Porque neles o predicado se acrescenta por uma verdadeira justaposição ou composição de uma idéia que não se encontra na análise do sujeito, chamemo-los <em>sintéticos</em>; porque, universais e necessários, não podem ter, na experiência, particular e contigente, a razão desta síntese, denominemo-los <em>sintéticos a priori</em>.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Dificilmente poderia exagerar-se a importância capital destes juízos, que, pelos caracteres acima indicados, são os que constituem verdadeiramente a ciência. E, percorrendo as diferentes ciências, físicas e matemáticas, julga KANT haver demonstrado que todos os seus princípios são juízos sintéticos a priori.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Explicar-lhes a possibilidade é, pois, explicar a possibilidade da própria ciência. Para tão momentosa tarefa, o filósofo de Koenigsberg não julga demasiada a constituição de uma nova ciência, que ele fundou e a que deu por título: Crítica da Razão Pura4.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Já é conhecida a resposta dada pelo fundador do criticismo a esta questão fundamental. Conhecimento a priori, diz ele, é todo aquele que é necessário e universal, e, por isso, não tem sua explicação adequada na experiência que só nos oferece casos singulares. Estes caracteres, porém, que não têm sua origem no objeto conhecido, advêm-lhe do sujeito que conhece. Anterior a qualquer experiência, existem em nós umas tantas disposições que condicionam a experiência e a tornam possíveis e, por isso mesmo, se podem afirmar necessária e universalmente de todo o objeto experimentado, como de modo necessário e universal podemos afirmar que se acha na trajetória da bala a caça abatida, qualquer que seja, de pena ou de montaria. Estas condições KANT chamou-as <em>formas a priori</em> do conhecimento e num esforço ingente de sistematização deu-se ao trabalho de inventariar-lhes um catálogo completo, onde se estadeia todo o seu gosto pelas simetrias arquitetônicas. Duas formas na sensibilidade: o espaço e o tempo, a primeira da sensibilidade externa, a outra da sensibilidade interna; Doze no entendimento, as categorias, simetricamente dispostas em grupos de três segundo as diversas formas do juízo da tabela leibniziana; Três da Razão pura, as <em>idéias</em> de Deus, do Mundo e do Eu; Duas ainda na faculdade do juízo: a do belo e da finalidade.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Eis agora como se explica o mecanismo do conhecimento. A realidade externa, cuja natureza, em si, permanecerá sempre para nós uma incógnita impenetrável, impressiona a nossa sensibilidade que a esta matéria informe aplica a forma do espaço – não há objeto de experiência senão localizado no espaço – e a forma do tempo – toda a percepção para ser consciente vem inserir-se na continuidade sucessiva dos estados psíquicos. Desta primeira síntese resultam as <em>intuições</em> da sensibilidade, que legitimam a existência das matemáticas. Delas se ocupa a <em>Estética transcendental</em>.                              </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">As instituições da sensibilidade são, por sua vez, submetidas ao entendimento, <em>Verstand</em>, onde se encontram as doze formas a priori, chamadas categorias, não no sentido aristotélico de “subdivisões do ser”, mas na acepção etimológica de “modos de afirmar”. Graças às categorias, realizam-se as novas sínteses de causalidade, possibilidade, unidade, pluralidade, etc. A sua existência explica a possibilidade da física, no sentido amplo de ciências da natureza. O seu estudo constitui objeto da <em>Analítica transcendental</em>.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Com esta explicação, inverte-se completamente a noção de conhecimento que, de uma representação passa a ser uma construção do objeto. As coisas, não as conhecemos como são em si, mas através das formas que lhes aplicamos. A natureza é parcialmente criação do espírito. Pelo uso pré-consciente ou, na linguagem de KANT, transcendental das formas de conhecimento nós construímos o objeto, só assim construído, o tornamos suscetível de experiência. A necessidade e universalidade das afirmações científicas não resultam da realidade, mas apenas das condições subjetivas inseparáveis da nossa natureza. 2 + 2 = 4 não representa uma verdade objetiva, mas, tão-somente, para nós, uma impossibilidade física de pensarmos diversamente.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Quanto ao <em>alcance do nosso saber</em> são óbvias também as conseqüências. O mundo que nos é acessível é unicamente o dos fenômenos enquanto fenômeno diz o real na medida que se adaptou às nossas condições subjetivas de percepção. A realidade em si, o <em>noumenon</em> é e permanece sempre impérvio às possibilidades do conhecimento. Tudo o que não estiver no tempo e no espaço acha-se “fora das condições de uma experiência possível”. O princípio de causalidade é, para KANT, sintético <em>a priori</em>; vale, como necessário e universal no domínio da física; qualquer esforço para com este princípio, transcender a ordem dos fenômenos, está de antemão condenado à impotência sem remédio.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">No entretanto, no trabalho ascendente de unificação do saber não descansamos ainda nos juízos condicionados pelas categorias do entendimento. A razão tende naturalmente a ir além e a procurar a explicação derradeira do relativo no absoluto, do condicionado no incondicionado. A esta função sintética superior servem as “idéias” da razão, <em>Vernumft</em>. Assim, a idéia cosmológica do universo é a condição incondicionada dos fenômenos externos; a idéia psicológica da alma, a condição incondicionada dos fenômenos internos; a idéia teológica de Deus, o absoluto onímodo, condição incondicionada de toda a existência. O movimento do espontâneo da nossa razão leva-nos a conceber Deus como o primeiro dos seres, um ideal sem defeitos que vem dar o todo o edifício do conhecimento o seu remate natural e a sua suprema unidade. Esta demonstração metafísica, porém, é ilusória, não passa de um puro jogo dialético a que nenhuma realidade corresponde. As “idéias” da razão são, conceitos vazios, <em>Begriffe</em>, uma pura essência, sem existência, são como focos imaginários para os quais tendem todos os raios do pensamento, mas sem nenhuma realidade. Elas não se aplicam, como as categorias do entendimento, a<em>intuições</em> da sensibilidade. Onde, por hipótese, como precisamente no caso da razão, o objeto do saber se acha fora do espaço e do tempo, aí já não é possível nenhuma experiência e portanto as formas <em>a priori</em> ficam sendo puras formas do pensamento, sem nenhum conteúdo de realidade. As idéias do “mundo”, da “alma”, de “Deus” permanecem como supremos “princípios reguladores” que estimulam o espírito à unificação do saber. Sua função é reduzir à unidade sistemática a variedade dos nossos conhecimentos. Tudo de fato se passa para a nossa razão <em>como se</em> (als ob) atrás dos fatos de consciência existisse um eu, como se os fenômenos externos fossem parte de um todo determinado, como se acima dos seres finitos e contingentes existisse um Ser supremo e necessário. Esta, porém, é uma função puramente ideal. A razão não é faculdade capaz de atingir o absoluto. A suas “idéias”, formas puras, não podemos afirmar corresponda alguma realidade objetiva5. Assim Deus, realidade, se acha fora do alcance da razão pura, tão incapaz de provar-lhe, quanto de negar-lhe a existência. Como o teísmo racional, o ateísmo é uma tentativa ilusória.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Se, ultrapassando os seus limites naturais, a razão quiser atribuir às “idéias” uma realidade extramental, incorrerá em antinomias insolúveis. Achar-se-á diante de proposições contraditórias, acerca de um mesmo objeto, provadas com igual peso de razões. E KANT desenvolve aqui estas antinomias – teses e antíteses – nas quais vê mais uma confirmação dos resultados de sua crítica, mais uma prova da impossibilidade de atingir a Deus com a razão demonstrativa, impotente para as ressalvas6.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Conclusão da <em>Dialética Transcendental</em>: não é possível uma metafísica do futuro, cujos <em>prolegômenos</em> escreveu KANT será exclusivamente uma metafísica crítica, tendo por objeto determinar os limites naturais e intransponíveis das nossas possibilidades de saber.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Um agnosticismo sem esperanças no domínio especulativo, eis a conclusão da <em>Crítica da Razão Pura</em>.         </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A obra de KANT, porém, ainda não está completa. Ao agnosticismo especulativo vai suceder o dogmatismo moral. O que os olhos da razão pura não se afigurava senão como ideal, como hipótese inverificável e inafirmável, passa para a razão prática a ter uma existência real. É, na construção do mundo das realidades transcendentes, a afirmação do Primado da Vontade sobre a Inteligência.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">O dever é a grande realidade da nossa vida moral. O imperativo categórico impõe-se à consciência como um absoluto. Faze o teu dever. Um imperativo hipotético ou condicionado – faze isto se queres aquilo – destruiria o dever, substituindo-o ao meu bel-prazer. Tudo, portanto, o que condiciona a existência do dever, constitui um postulado indispensável da vida moral. Ora, não podemos conceber a virtude senão como unida indissoluvelmente à felicidade. O justo, o santo definitivamente infeliz repugna à nossa justiça. Por outro lado, porém, moralidade e felicidade são heterogêneas, pertencem a ordens distintas e irredutíveis. Agir em vista de uma recompensa, ser virtuoso para ser feliz, é imoral. A felicidade visada como fim de uma ação destrói-lhe a moralidade. O dever pelo dever: eis a fórmula austera da obrigação moral. Destarte, porém, como a ordem da virtude não pode, sem negar a si mesma, levar à ordem da felicidade, é mister que exista um Ser inteligente e onipotente, capaz de realizar a união definitiva da virtude e da felicidade. Este Ser não pode ser outro senão o Criador do homem: Deus. É portanto necessária e legítima a afirmação da existência de Deus7.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Por um processo análogo chega KANT a estabelecer também a liberdade e a imortalidade da alma. Existência de Deus, liberdade e imortalidade da alma constituem assim os três requisitos indispensáveis à nossa vida moral. A razão pura chegava apenas a <em>conceber</em> estas realidades metafísicas, como possíveis, sem as <em>conhecer</em>; a razão prática afirma-as não como objeto de ciência mas como exigência prática. A ordem das realidades transcendentes que para a razão especulativa ficava no domínio do problemático, passa a ter um valor objetivo, em face do uso prático da razão. O processo ético precisa destas realidades metafísicas e pede sua <em>afirmação</em> à razão especulativa que só as havia podido conceber8. <em>Afirmar</em> sem <em>saber</em>, eis o que para KANT se chama crer. Estas verdades fundamentais não são, pois, objeto de ciência mas de crença, e as proposições teóricas em que se enunciam estas afirmações chamam-se <em>postulados</em>9.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">“Tive assim que destruir a ciência para substituir-lhe a fé”10. Nesta frase onde revê a doutrina luterana da oposição entre a razão e a fé resume-se todo o trabalho das duas Críticas. Tive que destruir a ciência – é o resumo da Crítica da Razão Pura. Deus não pode ser objeto de ciência: o conhecimento humano de sua natureza circunscreve-se à esfera da experiência atual ou possível. A metafísica, que por definição se priva de toda a intuição sensível, não é uma ciência, um conhecimento objetivo. As “idéias” de que se ocupa são puras formas sem matéria real. A razão especulativa julga atingir o ser, de fato, manipula apenas as suas “idéias” ou formas vazias num jogo dialético de perpétuas ilusões. “Para substituir-lhe a fé” – eis a função da Razão prática. O agnosticismo especulativo deve ser completado com o dogmatismo moral11. Aqui a existência de Deus é afirmada como uma exigência prática da ação. Esta adesão subjetiva reconduz-nos ao mundo do absoluto e das realidades transcendentes inacessíveis à razão pura.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Como se vê, o agnosticismo moderno no seu duplo aspecto: desconfiança dos argumentos racionais, supervalorização dos motivos alógicos e práticos – reconhece em KANT o seu verdadeiro indicador.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Não nos é possível fazer aqui uma crítica pormenorizada de toda esta grande sistematização filosófica. Uma discussão analítica cerrada mostraria facilmente como os noumenous e fenômenos, as categorias e as idéias, os <em>a</em> <em>priori </em>e os transcendentais – todas estas ilustres personalidades do kantismo não podem dar um passo sem tropeçar em contradições imanentes inelutáveis.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Em vez de uma ofensiva em todos os setores, limitar-nos-emos, para os fins que levamos em mira, a uma crítica de princípios e de fundamentos. Ver uma dificuldade até à raiz e resolvê-la integralmente, que prazer para a inteligência!  Que paz interior para a alma!</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">O ponto de partida da <em>Crítica</em> é a existência dos juízos sintéticos <em>a priori</em>. Daí inicia ele o exame das condições do conhecimento a priori em geral, para explicar-lhe a possibilidade por meio das formas subjetivas. KANT não desconheceu esta importância capital. “O que de mais desastroso poderia suceder a estas investigações é que alguém fizesse a descoberta inesperada que não existe nenhum conhecimento a priori. Mas deste lado não há nenhum perigo”12. Em outra obra confessa que se alguém demonstrasse a falsidade de sua concepção relativa aos juízos que ele chamou sintéticos a priori, com isto “poria fim a toda a sua crítica e o obrigaria a voltar aos antigos métodos”13.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Ora, estes juízos sintéticos a priori não existem. A descoberta inesperada que seria fatal ao sistema é uma realidade. A razão alegada pelo kantismo em seu favor é a existência de proposições que, por um lado, não são analíticas, não se podem explicar pela conexão interna entre o sujeito e o predicado e, por outro, por serem universais e sucessivas não têm ou não podem ter na experiência o motivo do assentimento do intelectual. Ora, se a experiência enquanto objeto apenas da sensibilidade não nos oferece mais que a sucessão de fatos particulares, submetida à abstração intelectual é capaz de fundar um juízo universal e necessário. A inteligência é dotada do poder de abstrair, isto é, de considerar num objeto alguns dos seus aspectos e omitir outros ou prescindir deles. Ante os objetos concretos e singulares podemos abstrair daquilo que os concretiza e individua e considera apenas o que os especifica, isto é, a sua natureza, prescindindo do modo por que ela aqui ou ali se realiza. Em face de vários triângulos, os sentidos percebem um e outro e outro, cada um com as suas características próprias pelas quais se distingue dos demais; a inteligência abstrai daquilo que é próprio de cada um e considera só o que pertence ao triângulo, como tal, a uma superfície limitada por três retas que se cortam. Nesta noção geral do triângulo vê, por exemplo, que equivale à metade de um paralelogramo da mesma base e da mesma altura e que, portanto, a sua área é dada pelo semiproduto da base pela altura. Este resultado é universal e necessário, verifica-se em todos os triângulos, atuais ou possíveis, porque é uma conseqüência que decorre da própria natureza do triângulo: verificar-se-á necessariamente onde quer que haja triângulos. Para elevar-se a este conhecimento necessário e universal bastou à inteligência abstrair a idéia, a noção de um objeto das condições de espaço e de tempo que a singularizam nos diferentes indivíduos. Destarte explicam-se perfeitamente os caracteres de universalidade e de objetividade do conhecimento científico. A objetividade resulta dos elementos sensíveis da realidade experimentada ou atingida em si mesma, a universalidade da purificação destes dados sensíveis pela inteligência que, prescindindo dos caracteres individuantes conserva a noção em sua pureza e generalidade específica.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Esta explicação tão simples e tão compreensiva, tão coerente e tão em harmonia com os dados da consciência, clássica na história da filosofia, KANT desconhece-a por completo. Todas as vezes que se lhe oferece o ensejo de confrontar a sua tese com outras doutrinas filosóficas só lhe ocorrem na pena o empirismo, de LOCKE ou de HUME, o inatismo de LEIBNIZ, ou o ontologismo de MALEBRANCHE. Aos seus olhos, num esquematismo excessivamente simplificador, PLATÃO personifica o apriorismo, ARISTÓTELES o empirismo. Esta ignorância quase completa da história do pensamento humano foi uma das lacunas mais sensíveis e mais prejudiciais na formação do solitário de Königsberg. Reconhecem-no os seus melhores biógrafos e mais entusiastas admiradores14. Consolam-se, porém, com a idéia de que esta ignorância salvou a sua originalidade.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Deste desconhecimento, porém, do estado a que já chegara historicamente a questão resultou o não levar ele em consideração mais que as duas teorias extremadas e insuficientes do empirismo e do idealismo, uma, pedindo unicamente aos dados sensíveis a chave de toda a vida do espírito, outra, vendo na atividade da inteligência a fonte única de todos os conhecimentos. A doutrina verdadeira, que recorre ao concurso harmonioso do espírito e da realidade, da inteligência e dos sentidos e explica assim a possibilidade de uma ciência real, sem lhe sacrificar nem a objetividade   com o idealismo, nem a necessidade e universalidade com o empirismo, esta, KANT nem a descobriu por um esforço pessoal nem a conheceu já descoberta por outrem.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A diferença de envergadura filosófica entre ARISTÓTELES e KANT ressalta aqui evidente. No século XVIII o pensador de Königsberg achava-se em face do problema da possibilidade do saber científico, comprometida pelo inatismo cartésio-leibniziano e pelo empirismo locke-humiano, em condições muito semelhantes às em que se achara, no século IV antes da nossa era, o filósofo de Estagira, entre o idealismo de PLATÃO e o empirismo fenomenista de HERÁCLITO. O grego, com o vigor de sua genialidade, pela primeira vez, na história do pensamento, deu a solução do problema, definitiva na suas linhas gerais; o alemão, não só não a encontrou por si – falta de originalidade criadora – ma nem sequer a conheceu já existente – lacuna imperdoável de erudição. Enveredou por um caminho novo que não devia nem podia levá-lo ao termo desejado.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Ora enquanto se não demonstrar a ineficácia da explicação por meio da abstração intelectual, evidentemente atestada pela nossa experiência psicológica, fica suspensa no ar, como construção sem alicerce, toda a teoria do criticismo transcendental. A impossibilidade de explicar por outra via a existência do conhecimento científico – título capital por ele apresentado à adesão da inteligência – é um falso suposto. Damos mais um passo e para rigor de metodologia científica observamos ainda quando se demonstrasse a insuficiência da teoria da abstração, nem por isso se seguiria a necessidade imediata de admitir a solução das formas a priori do criticismo. Semelhante solução não se imporia senão depois de demonstrada a impossibilidade de qualquer outra teoria explicativa. Esta demonstração imprescindível não só não a deu KANT, mas nem sequer tentou dá-la, nem mesmo suspeitou a necessidade lógica de dá-la. Toda a sistematização arquitetônica da Crítica da Razão Pura, é, pois, uma construção sem fundamento. O que ela supõe ou assume – a impossibilidade de explicar de outro modo os caracteres de necessidade e universalidade do conhecimento científico – é simplesmente falso; todo o esforço intelectual provocado por esta falsa suposição não tem razão de ser.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">KANT continua a sua tarefa e procura mostrar em concreto a existência dos juízos sintéticos a priori nas diferentes ciências. Tais são, diz ele, todas as proposições da matemática, da física e da metafísica.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Ora, nenhuma destas afirmações resiste à crítica. Ao caráter analítico do princípio de causalidade que mais de perto nos interessa consagraremos o parágrafo seguinte. Os princípios da física newtoniana são hoje universalmente reconhecidos como princípios sintéticos, obtidos por indução como as outras leis das ciências positivas. Os princípios matemáticos são simplesmente analíticos. Tomemos o exemplo e examinemos as considerações de KANT. 7 + 5 = 12, diz ele, não é um juízo analítico; não se baseia no princípio de contradição nem é possível obter-se o predicado pela simples análise do sujeito. Do sujeito encontramos apenas a idéia de uma soma 7 + 5, não a natureza desta soma; para obtê-la é mister recorrer a uma intuição no espaço15. Nada mais falso; analisemos o sujeito. 7 = 1 + 1 + 1 + 1 + 1 + 1 + 1; 5 = 1 + 1 + 1 + 1 + 1. Desta simples análise da definição do sujeito resulta a idéia do predicado 12. A identidade é perfeita, e a inteligência a vê não mediante uma demonstração que compare os extremos com um termo médio distinto, mas pela simples análise imediata da noção dos termos. Enquanto o princípio de identidade A = A for a expressão fulgurante da evidência; enquanto o princípio de contradição “A não pode ser e não ser A ao mesmo tempo”, for a condição lógica de inteligibilidade das coisas e ontológica de sua existência, 7 + 5 = 1216. Estamos em presença de um princípio evidentemente analítico. KANT não conseguiu demonstrar a existência de um só juízo sintético a priori, existência que, por confissão sua, deveria constituir o objeto da nova ciência.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Não existem, pois, juízos sintéticos a priori; nem poderiam existir sem destruir pela raiz a própria natureza do conhecimento. O juízo é uma afirmação de identidade expressa pelo verbo ser; em ver uma coisa idêntica a si mesma sob dois aspectos diferentes consiste essencialmente o conhecimento. Conhecer um triângulo é saber que é esta determinada figura de três lados. Ora esta identidade não a pode afirmar a inteligência, sem vê-la – ou na análise das noções – juízos analíticos – ou na experiência das coisas existentes – juízos sintéticos. Afirmar uma identidade que se não vê, pela aplicação de formas subjetivas a priori, por uma síntese preconsciente ou inconsciente entre elementos que se não conhecem é destruir todo o conhecimento, fazendo de afirmações sem razão suficiente a própria condição da ciência. Instala-se assim o irracional na estrutura mais íntima da nossa vida racional. O juízo que se não legitimasse por uma das duas evidências objetivas – evidência analítica ou experimental – seria um ato inexplicável sem motivo suficiente, nem justificação crítica. Fazer destes juízos a condição da ciência não é explicar, é destruir a ciência. E este é na realidade o resultado final da Crítica da Razão Pura17.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A estrutura do conhecimento humano tal qual foi arquitetada pelo solitário de Königsberg não suporta a cúpula de uma demonstração racional da existência de Deus, mas não chega a esta conclusão agnóstica sem arruinar pela base toda a nossa vida intelectual. Ruiu a teodicéia racional, mas com ela, todo o edifício científico. Não conhecemos a Deus, mas também não conhecemos a nenhuma outra realidade. O mundo e o homem serão para sempre incógnitas indecifráveis; nega-se a inteligibilidade radical do ser, nega-se a inteligibilidade dos mesmos fenômenos. A própria existência de uma realidade extramental KANT não a pode afirmar senão a preço de uma contradição imanente. JACOBI, contemporâneo de KANT e um dos primeiros e mais atilados críticos de sua obra, escreveu com acerto: “Sem a suposição das coisas em si, não posso entrar no sistema; com esta suposição, nele não posso ficar”18. FICHTE, entre os contemporâneos do filósofo, COHEN em nossos dias, viram esta impossibilidade e, por isto, enveredaram para o idealismo absoluto como conseqüência lógica do kantismo. O solipsismo mais desesperador, que isolaria cada inteligência em si mesma sem possibilidade de entrar em contato com o mundo das coisas e no convívio com as outras inteligências, seria o paradeiro fatal desta filosofia destruidora. Um imenso polvo a bracejar no vazio os longos tentáculos em esforço eternamente estéril de aferrar uma consistência; eis a imagem da inteligência humana na filosofia nevoenta deste filho das nórdicas brumas.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Desta concepção da inteligência nascem todas as lutas e antinomias, todas as incompatibilidades e divórcios que desvirtuam a síntese kantista. A unidade harmoniosa, filha da sabedoria que sabe ordenar, sucedem os contrastes de dualismo inconciliáveis. Dualismo entre os sentidos e a inteligência; entre a razão teórica e a razão prática; entre o mundo interior do espírito e o mundo externo da matéria; entre a liberdade noumênica e o determinismo dos fenômenos; entre a virtude e a tendência à felicidade; entre a moralidade e a religião; entre a filosofia e a vida.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">As antíteses vão por vezes a dilaceração da ruptura ao que há em nós de mais profundo e inextirpável. Aspiramos irresistivelmente à felicidade que reside na perfeição da natureza, mas não podemos agir em vista da perfeição que felicita porque ofendemos a moral que é a lei do homem. As questões metafísicas impõem-se à razão com uma necessidade natural inevitável, mas resolve-las é emaranhar-se em contradições insolúveis. Deus é indispensável para a coroa da ordem moral mas agir por amor de Deus é uma heteronomia que torna imoral a ação e desvirtua a autonomia da vontade. Sem Deus, sem liberdade, sem imortalidade não podem viver as consciências, mas a razão pura declara que a afirmação objetiva destas realidades implica antinomias inextricáveis.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Nunca se fez à unidade, à harmonia, ao equilíbrio sadio da personalidade humana violência mais dolorosa nem mais funesta.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Pela sua teoria gnoseológica, pela separação entre a esfera do pensamento especulativo e as exigências da vida moral, KANT é talvez o filósofo que mais contribuiu para a difusão moderna do agnosticismo. Não é difícil estabelecer as transições dialéticas e o itinerário histórico entre o kantismo de um lado e de outro o protestantismo liberal, o pragmatismo e o modernismo. SCHLEIERMACHER e RITSCHL sentiram poderosamente a influência de KANT, SPENCER, LITTRÉ e os agnósticos ingleses mais recentes reportam-se às suas críticas da teodicéia racional como a resultados definitivamente adquiridos pela filosofia19. A desconfiança nas forças nativas da inteligência, a supervalorização dos motivos alógicos, sentimentais e pragmatistas – que encontramos como características de uma parte do moderno pensamento religioso – prendem as suas raízes mais profundas nas duas Críticas de E.KANT. “É absolutamente necessário que nos compenetremos da existência de Deus, mas não é tão necessário que a demonstremos”20. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><strong>Fonte: <a href="http://permanencia.org.br/drupal/node/595">Permanencia</a></strong></span></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><u>BIBLIOGRAFIA</u> – A. VALENSIN, S. J. , A travers la Métaphysique, Paris, 1925, kantiana, pp. 1-76; J. GEYSER, Einige Hauptprobleme der Metaphysik mit besunderer Bezugnahme auf die Kritik Kants, Freiburg i. B., 1923; J.MARECHAL, Le point de depart de la métaphysique, Cahier III, La critique de Kant, Paris, 1923; C. SENTROUL, L’Objet de la métaphysique selon Kant et selon Aristote, Louvain, 1905; B. JANSSEN, Le Philosophie religieuse de Kant, tr. Chaillet, Paris, 1934; KNULPE, Immanuel Kant, Leipzig, 1927; E. BOUTROUX, La Philosophie de Kant, Paris, 1926. Uma bibliografia copiosa sobre KANT em Ueberweg, Grundriss der Geschichte der Philosophie, III, Berlin, 1924, 709-758. </span></p>
<ol>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Crítica da Razão Pura, Introdução, II, p. 40 (trad.ital.).</span></li>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Crítica da Razão Pura, Introdução, II, pp. 40 (trad. ital.).</span></li>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Crítica da Razão Pura, Introdução, IV, p. 52.</span></li>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">“O problema próprio da razão está contido nesta pergunta: Como são possíveis os juízos sintéticos a priori?” “De tudo isto nasce a idéia de uma ciência especial que se pode chamar Crítica da Razão Pura.” Crítica da Razão Pura, Introdução, VI e VII, pp. 51 e 55.</span></li>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">BRÉHIER resume com clareza o pensamento de KANT. “Un objet peut répondre à un concept, à condition qu’il soit construit dans l’intuition sensible a priori de l’espace et du temps, comme la figure et le nombre; c’est le cas des objets mathématiques, et c’est pourquoi les jugements synthètiques à priori dês mathématiques sont possibles. Le concept peut encore avoir um objet quand il donne une régle a priori, selon laquelle est lié le divers de l’intuition sensible pour qu’un objet d’expérience soit possible; tels sont les concepts de substance, de cause, et ainsi sont possibles a priori les jugements synthètiques de la physique. Mais les jugements synthétiques a priori de la métaphysique ne rentrent ni dans l’un ni dans l’autre cas: leurs objets, l’âme, le monde ou Dieu, ne peuvent s’exposer dans une intuition sensible, et ils ne sont pas des conditions d’une experience possible; ce qui revient à dire qu’ils ne peuvent prétendre à aucune valeur objective”. E. BRÉHIER, Histoire de la Philosophie, t. II, II, P. 545.</span></li>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Das quatro antonomias propostas na Crítica, citemos as três, 1<sup>a</sup>, 3<sup>a</sup>, 4<sup>a</sup> , que interessam de perto a teodicéia: 1<sup>a</sup> – Tese: O mundo teve começo no tempo e é limitado no espaço; Antítese: o mundo não teve começo no tempo nem limite no espaço. 3<sup>a</sup> – Tese: Para explicar o mundo deve admitir-se uma causalidade livre; Antítese: a causalidade livre é inadmissível; 4<sup>a</sup> – Tese: Ao mundo sensível refere-se ou como parte, ou como causa um ser necessário; Antítese: em parte alguma existe um Ser absolutamente necessário. KANT julga que estas teses e antíteses se possam provar com argumentos de igual valor sem que a razão se possa desembaraçar das antinomias. E desta prova da importância da razão faz grande cabedal. (Cfr. Dialectica Transcendental, cap. II, sect. II. ) É realmente para lamentar que o autor da Crítica se deixasse assim emaranhar por paralogismos visíveis e ignorasse os resultados adquiridos na história do pensamento. Para uma solução breve das antonomias, cfr.  A. VALENSIN, A Travers la Métaphysique, Paris, 1925, pp. 15-17; 38-39.</span></li>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">“O postulado da possibilidade do soberano bem derivado é ao mesmo tempo o postulado da realidade de um soberano bem primitivo, a saber da existência de Deus. Ora, é um dever para nós realizar o soberano bem e portanto não só um direito senão ainda uma necessidade, ligada como exigência com o dever, supor a possibilidade deste soberano bem que, uma vez não sendo possível senão sob a condição da existência de Deus, liga inseparavelmente a suposição desta experiência com o dever; por outra é moralmente necessária admitir a existência de Deus. “KANT, Gesammette Schriften, hsg. V. der Koeniglisch-Prussichen Akademie, Berlin, t. V, pp. 124 e sgs. Para uma exposição mais minuciosa deste dogmatism moral, que no texto, indicamos apenas em suas grandes linhas, cfr. B. JANSSEN, La Philosophie Religieuse de Kant, Paris, 1934, PP. 81-130.</span></li>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Numa fórmula feliz V. DELBOS resume o pensamento de KANT. A afirmação de Deus é “uma exigência ou um direito, ou uma fé, indicando aqui estes termos diferentes a necessidade de um ato que funda para o sujeito a necessidade de um objeto”.V. DELBOS, La Philosophie Pratique de Kant, Paris, 1905, p. 489.</span></li>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">O postulado “é uma proposição teórica (mas que não pode, como tal, ser provada) enquanto necessariamente depende de uma lei prática tendo a priori um valor incondicionado”. “Estes postulados não são dogmas teóricos, mas hipóteses num ponto de vista necessariamente prático; por isso não ampliam o conhecimento especulativo mas dão às idéias da razão especulativa em geral uma realidade objetiva.” KANT, Gesammette Schriften, t. V, pp. 122, 132.</span></li>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Crítica da Razão Pura, Pref. à 2<sup>a</sup>edição, p. 28. Deux mondes s’unissent et se complètent en quelque sorte, que la pensée de philosophe s’efforce d’embrasser dans l’unité d’un système total, le monde sensible et le monde intelligible. D’un cote c’est le monde de la nature suivant Newton, ou le déterminisme de la causalité mécanique ordonne les phénomènes, Cosmos réglé par des lois immanentes, c’est l’ordre de l’experience, le domaine de la science, le monde de l’entendement; de l’autre c’est le monde de la croyance,  le monde spirituel, le système des noumènes, le domaine de la liberté, dans lequel les ètres raisonnables se vouent de toute leur âme à la loi morale, le règne des fins, dont Dieu est le principe suprême, le souverain législateur et le plus haut achèvement. “Le ciel étoilé au dessus de moi, la loi morale en moi”. B. JANSEN, La Philosophie Religieuse de Kant, Paris, 1934, pp. 129-130.</span></li>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Alguns historiadores, influenciados pelo sarcástico H. HEINE, quiseram ver nas reconstruções da Crítica da Razão Prática, uma correção tardia às destruições da 1<sup>a</sup>Crítica. A obra de KANT não teria assim obedecido a uma unidade de plano e ter-se-ia desenvolvido um pouco à ventura. Um exame mais imparcial e objetivo permite estabelecer entre as duas Críticas relações mais harmoniosas e ligá-las na unidade de um pensamento que se desenvolve em continuidade consigo mesmo. Cfr. E.BOUTROUX, La Morale de Kant et les Temps Présents, em Etudes d’Histoire de la Philosophie Allemande, Paris, 1926, pp. 79-93. V. DELBOS, Les Harmonies de la Pensée Kantienne d’après la Critique de la Faculté de Juger, na Revue de Métaphysique et de Moral, XII, 1904; F. PICAVET, no Prefácio à trad. da Critique de la Raison Pratique; B. JANSEN, La Philosophie Religieuse de Kant, Paris, 1934, pp. 112-117.</span></li>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Critique de la Raison Pratique, tr. Picavet, p. 16.</span></li>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Critique de la Raison Pure, tr. Tremesaygues, p. 334.</span></li>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">KUNO FISCHER, HAMANN, RINK, NICOLAI, etc. DE PLATÃO e ARISTÓTELES possuía algumas idéias muito vagas, esquematizadas pelos compêndios escolares. LEIBNIZ conhecia S. TOMÁS e lera SUÁREZ. Para KANT toda a filosofia cristã era um livro fechado com 7 sigilos. Nem mesmo ESPINOSA ele estudara.</span></li>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Crítica da Razão Pura, Intr. V, p. 8 (italiano).</span></li>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">“Il n’y a pas non plus de construction dans l’intuition pure au sens kantien, car s’il est bien vrai que les mathématiques sont telles par nature que les jugements doivent y être vérifiables par l’imagination (deducibilia ad imaginationem, cf. In Boet. de Tim., p. 6. a 2), et que par suite elles supposent une construction dans l’espace, cependant cette construction n’est que pour l’établissement des concepts eux-mêmes: ce n’est pas à raison de cette construction, c’est à raison des exigences des concepts, et par une véritable déduction syllogistique, qu’on y lie progressivement les concepts les uns aux autres”. J. MARITAIN, Réflexions sur l’Inteligence, Paris, 1926, p. 72.</span></li>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Com sua ponta de humorismo habitual, a amenizar a expressão de um pensamento profundo disse PAPINI: KANT “si è perduto in quella vana selva del contradittorio e dell’inconcepibile ove tanti filosofi hanno trovato la morte e KANT è stato una guida che s’è smarrita, um confusionario fornito de metodo che s’è ingannato com gravità e s’è suicidato per vivere &#8230; Sulla sua tomba perduta tra le nebbie prussiane un ironico epigrafista potrebe screvere: qui dorme un architetto senza fortuna, che uccise coloro che doveva difendere.” G. PAPINI, Il crepuscolo dei filosofi, Milano, 1906, p. 44.</span></li>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">JACOBI, Werke, Leipzig, 1812, II, p. 303. Para demonstrar a existência da coisa em si, a agir sobre os sentidos, KANT admite o valor objetivo do princípio de causalidade, que depois declara sintético a priori, isto é, sem valor objetivo e extramental.</span></li>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Assim, o apelo para a autoridade de KANT dispensa a muitos modernos de um exame direto e sereno dos argumentos racionais. LITTRÉ: “Kant et les nominalistes ont fait table rase dês arguments metaphysiques”. Philosophie Positive, I, p. 238. “The fatal defects all these (das provas tradicionais) have, it is almost universally concedet, been clearly expressed once for all by KANT”, J. WARD, Pluralism and Theism, 1920, p. 406. “The bare fact that all idealists since KANT felt entitled to scant or neglect them, shows they are not solid enough to serve as religion´s: all sufficient foundation”. W. JAMES, Varieties of Religious Experience, p. 437.</span></li>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">L’Unique Fondement Possible d’une Dèmonstration de l’Existence de Dieu, tr. FESTUGIÈRE, p. 136. A questão da existência de Deus conservou sempre um lugar central nas preocupações de KANT. Costumam os historiadores distinguir 3 períodos na evolução de seu pensamento: o 1<sup>o</sup>, em que se acha ainda sob influência do racionalismo wolfiano, estende-se de 1740 a 1760; o 2<sup>o</sup>compreende o decênio seguinte (1760 – 1770) em que se fazem sentir mais poderosas as influências do empirismo inglês (LOCKE e HUME); o 3<sup>o</sup> abrange a elaboração e o desenvolvimento do seu sistema pessoal do criticismo. Em todas estas fases KANT tratou da existência de Deus. Na tese para obter a licença de ensinar: Principiorum cognitionis metaphysicae nova dilucidatio (1855), o jovem filósofo defende o valor dos primeiros princípios da metafísica, com todas as conseqüências. Em 1763 publica um estudo sobre o “único fundamento possível de uma demonstração da existência de Deus” (Der enizig mögliche Berveisgrund zu einer Demonstration des Daseins Gottes), em que rejeita outras provas e conserva como eficaz a baseada na exigência de um fundamento para a possibilidade das coisas. No ano seguinte, 1764, volta sobre o assunto num “Estudo sobre a evidência dos princípios da teologia natural e da moral” (Unterruchungen ueber die Deutlichkeit der Grundrätze der natürlichen Theologie und der Moral), onde afirma no § 1<sup>o</sup> da 4<sup>a</sup> consideração “os primeiros princípios da teodicéia natural são suscetíveis da maior evidência filosófica”. (Träume eines geistersehers, erläntert durch Träume des Metaphysik). Nos “Sonhos de um visionário esclarecidos pelos sonhos da metafísica (1766) já se anunciam mais acentuadas as tendências críticas, mas ainda na dissertação tese de 1770: “De mundi sensibilis atque intelligibilis forma et principiis” que é um prefácio remoto da Crítica ainda se afirma a possibilidade de atingir realmente o mundo inteligível. Com as duas Críticas (1781, 1788) a existência de Deus passa definitivamente do domínio especulativo para o prático: cessa de ser uma verdade demonstrada ou demonstrável para impor-se à crença, como postulado indispensável. Esta representa a atitude definitiva de KANT: agnosticismo especulativo, dogmatismo moral. Ainda em 1791 ele voltava a insistir no Fracasso de todas as tentativas filosóficas em teodicéia (Ueber das Misslingen aller philosophischen Versuche in der Theodicee). Nos último anos observa-se uma mudança sensível na apreciação do cristianismo. O racionalista frio e o estóico austero sente-se subjugado pelo seu poder de atração. Num opúsculo sobre o fim do mundo (Dans Ende aller Dnige), publicado em 1794, lêem-se expressões como estas: “Além do profundo respeito que lhe atrai irresistivelmente a santidade de seus preceitos, o Cristianismo tem ainda em si algo de amável. O amor, como livre aceitação da vontade de outrem a título de preceito, aparece, apesar de tudo, como auxiliar indispensável da imperfeição humana para obrigá-lo a cumprir o que a razão prescreve como lei &#8230;  O Cristianismo empreende de modo geral fazer amar o cumprimento do dever e o consegue”. Ainda hoje, continua KANT, “no século mais iluminado que a humanidade conheceu”, o Cristianismo “conserva sempre o seu prestígio”. Mas se o anticristo viesse a prevalecer, implantando o seu reino sobre o medo e o egoísmo, o “Cristianismo ao qual estava reservado tornar a religião universal, seria abandonado pelo destino: no ponto de vista moral, assistir-se-ia a um fim absurdo de todas as coisas”. La Fin de Toutes Choses, tr. FESTUGIÈRE, Paris, 1931, pp. 174-177</span></li>
</ol>
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