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	<title>DOMINUS EST &#187; Pe. Garrigou Lagrange</title>
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	<description>FIÉIS CATÓLICOS DE RIBEIRÃO PRETO (FSSPX) - SOB A PROTEÇÃO DE NOSSA SENHORA CORREDENTORA E MEDIANEIRA DE TODAS AS GRAÇAS</description>
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		<title>PRINCIPAIS MANIFESTAÇÕES DA MISERICÓRDIA DE MARIA SANTÍSSIMA</title>
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		<pubDate>Sun, 08 Feb 2026 18:29:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Dominus Est]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Espiritualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Fé]]></category>
		<category><![CDATA[Santíssima Virgem Maria]]></category>
		<category><![CDATA[Pe. Garrigou Lagrange]]></category>

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		<description><![CDATA[Pe. Garrigou Lagrange Maria é a Mãe de Misericórdia na medida em que é “a saúde dos enfermos, o refúgio dos pecadores, a consoladora dos aflitos, o auxílio dos cristãos”. Essa gradação de títulos que aparece nas litanias é belíssima; &#8230; <a href="http://catolicosribeiraopreto.com/principais-manifestacoes-da-misericordia-de-maria-santissima/">Continuar lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="alignright" src="https://1.bp.blogspot.com/--sdb_ZhJKD8/UGBXckO3J0I/AAAAAAAABHM/4GDPUR4znko/s320/nsmerces002a.png" alt="Resultado de imagem para santíssima virgem" /></p>
<p style="text-align: right;"><span style="color: #0000ff;"><strong><a style="color: #0000ff;" href="http://permanencia.org.br/drupal/node/5604">Pe. Garrigou Lagrange</a></strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Maria é a Mãe de Misericórdia na medida em que é “<em>a saúde dos enfermos, o refúgio dos pecadores, a consoladora dos aflitos, o auxílio dos cristãos</em>”. Essa gradação de títulos que aparece nas litanias é belíssima; mostra que Maria exerce sua misericórdia sobre aqueles que sofrem no corpo, para curar sua alma, e que em seguida os consola em suas aflições e os fortalece em meio a todas as dificuldades que devem suportar. Nenhuma criatura é mais elevada que Maria, e ainda assim nenhuma é mais acessível, mais experiente e mais doce para nos reanimar (1).</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><strong><em>Saúde dos enfermos</em></strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Maria é a saúde dos enfermos pelas inumeráveis curas providenciais ou mesmo verdadeiramente milagrosas obtidas por sua intercessão nos vários santuários da cristandade ao longo dos séculos e em nossos dias. O número incalculável dessas curas é tal que se pode dizer que Maria é um mar insondável de curas miraculosas. Mas só cura os corpos para levar o remédio às enfermidades da alma.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Ela cura, sobretudo, as quatro feridas espirituais, que são as consequências do pecado original e de nossos pecados pessoais: a ferida da concupiscência, da fraqueza, da ignorância e da maldade(2).</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Maria cura da <em>concupiscência </em>ou da cobiça, que se radica na sensibilidade, mitigando o ardor das paixões e aniquilando os hábitos imorais; ela faz com que o homem comece a querer fortemente o bem para rejeitar os maus desejos e permanecer também insensível à embriaguez das honras ou ao atrativo das riquezas. Cura assim a “<em>concupiscência da carne e a dos olhos</em>”.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Remedia também as feridas da <em>fraqueza,</em> que é a debilidade da busca pelo bem, a preguiça espiritual. Maria dá à vontade a constância para aplicar-se à virtude e desprezar os atrativos do mundo lançando-se nos braços de Deus. Ela fortalece os que vacilam e reanima os caídos.</span><span id="more-19011"></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Dissipa as trevas da <em>ignorância</em> e proporciona os meios para abandonar o erro; recorda as verdades religiosas ao mesmo tempo muito simples e profundas, expressas no <em>Pai Nosso</em>. Ilumina com isso a inteligência e a eleva até Deus. Santo Alberto Magno, que recebeu de Maria a luz para perseverar em sua vocação e superar as ciladas do demônio, disse muitas vezes que ela nos preserva dos desvios que impedem a retidão e a firmeza do julgamento, que nos cura da lassidão e do cansaço na busca da verdade, e nos faz chegar a um conhecimento calmo e agradável das coisas divinas. Ele mesmo, em seu <em>Mariale,</em> fala de Maria com uma espontaneidade, uma admiração, uma delicadeza e exuberância que raramente se encontram nos homens de estudo.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Cura, enfim, da ferida espiritual <em>da malícia, </em>dirigindo para Deus as vontades rebeldes, seja por ternos avisos, seja por severas admoestações. Por sua doçura, modera os arrebatamentos da cólera; por sua humildade, extingue o orgulho e afasta as tentações do demônio. Ela inspira o colérico a reconciliar-se com seus irmãos e renunciar à vingança, e o faz vislumbrar a paz que reina na casa de Deus. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Numa palavra, Maria cura o homem das feridas do pecado original, agravadas pelos nossos pecados pessoais.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Algumas vezes essa cura espiritual é milagrosa por sua rapidez, como aconteceu na conversão do jovem Afonso de Ratisbone, israelita muito afastado da fé católica que visitava por curiosidade a igreja de <em>Santo Andrea delle Frate</em>, em Roma, onde lhe apareceu a Santíssima Virgem como está representada na Medalha Milagrosa, com raios de luz que saíam de suas mãos. Ela pediu-lhe bondosamente que se ajoelhasse; ele assim o fez e ficou sem sentidos; quando recuperou a consciência, expressou o fervoroso desejo de receber o batismo o mais cedo possível. Posteriormente, fundou junto com seu irmão convertido antes dele os Padres de Sião e as Religiosas de Sião para rezar, sofrer e trabalhar pela conversão dos judeus, dizendo todos os dias na Missa: <em>“Perdoai-os, Pai, pois não sabem o que fazem</em>”.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Em tudo isso, Maria tem manifestado o amor pela conversão dos pecadores e pela saúde dos enfermos. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><strong><em>Refúgio dos pecadores</em></strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Maria é o refúgio dos pecadores precisamente porque é sua Mãe e uma Mãe Santíssima. Justamente porque detesta o pecado que corrompe as almas, longe de odiar os próprios pecadores, acolhe-os e convida-os ao arrependimento; livra-os das correntes dos maus hábitos pelo poder de sua intercessão e obtém-lhes a reconciliação com Deus pelos méritos de seu Filho, do qual os faz relembrar.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Prontamente protege os pecadores convertidos contra o demônio e contra tudo o que acarretaria novas quedas. Exorta-os à penitência e encaminha-os à contrição.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">É a ela, depois de Nosso Senhor, que todos os pecadores que se salvam devem sua salvação. Tem convertido inúmeras pessoas, especialmente nos lugares de peregrinação como em Lourdes, onde disse: “<em>Orai e fazei penitência</em>”; e mais recentemente em Fátima, onde desde 1917 é incalculável o número de conversões.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Muitos criminosos, no momento do último suplício, devem a ela sua conversão <em>in extremis</em>.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Ela tem suscitado a criação de ordens religiosas voltadas à oração, à penitência e ao apostolado para a conversão dos pecadores: a ordem de São Domingos, a de São Francisco, dos Redentoristas, Passionistas e muitas outras.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Quais são os pecadores que ela não protege? Somente aqueles que desprezam a misericórdia de Deus e atraem sobre si a maldição divina. Não é refúgio dos que se obstinam em perseverar no mal, na blasfêmia, no perjúrio, na magia, na luxúria, na inveja, na ingratidão, na avareza, no orgulho do espírito. Mas, não obstante, como Mãe de Misericórdia, envia-lhes de tempos em tempos graças de luz e de atração, e se não oferecem resistência, serão conduzidos de graça em graça até a graça da conversão. Sugere a alguns dentre eles que digam todos os dias pelo menos uma <em>Ave Maria</em> por sua mãe moribunda; e muitos, sem mudar de vida, têm dito essa oração, que não expressa neles mais que uma debilíssima intenção de conversão; e tem acontecido que nos últimos momentos são recolhidos a um hospital onde lhes é perguntado: quereis receber a absolvição e que chamemos o sacerdote? E assim a recebem como os trabalhadores chamados no último momento da última hora, sendo salvos por Maria(3). Depois de quase dois mil anos, Maria é ainda o refúgio dos pecadores.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><strong><em>Consoladora dos aflitos</em></strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Consoladora dos aflitos ela o foi já durante sua vida terrena em relação a Jesus, sobretudo no Calvário; após a Ascensão, também foi Consoladora em relação aos Apóstolos, em meio às imensas dificuldades que encontravam para a conversão do mundo pagão. Ela lhes obtinha de Deus o espírito de fortaleza e uma santa alegria nos sofrimentos. Durante o apedrejamento de Santo Estevão, o primeiro mártir, deve tê-lo auxiliado espiritualmente por suas orações. Animava os infelizes de seu abatimento e lhes obtinha a paciência para sofrer as perseguições. Ao contemplar todos os males que ameaçavam a Igreja nascente, Maria permaneceu firme, mantendo sempre um semblante sereno, expressão da tranqüilidade de sua alma e de sua confiança em Deus; não deixou jamais a tristeza dominar seu coração. O que sabemos sobre a força de seu amor por Deus faz pensar, dizem os autores piedosos, que ela estava alegre nas tribulações, que não se queixava da pobreza ou das privações, e que as injúrias não poderiam obscurecer as graças de sua doçura; mas ao contrário, por seu exemplo, confortava muitos dos miseráveis agoniados de tristeza.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A Santíssima Virgem freqüentemente tem feito surgir santas que, como ela, foram consoladoras dos aflitos; por exemplo, Santa Genoveva, Santa Isabel, Santa Catarina de Sena e Santa Germana de Pibrac.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">O Espírito Santo é chamado <em>consolador</em> sobretudo porque faz derramar as lágrimas da contrição, que lavam nossos pecados e nos trazem a alegria da reconciliação com Deus. Pela mesma razão, a Santíssima Virgem é consoladora dos aflitos, levando-os a chorar santamente as suas faltas.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Não só consola os pobres pelo exemplo de sua pobreza e por seus auxílios, mas também está particularmente solícita com a nossa pobreza oculta; ela compreende a miséria secreta do nosso coração e nos assiste. Conhece todas as nossas necessidades e fornece o alimento do corpo e da alma aos indigentes que lhe imploram.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Maria tem consolado muitos cristãos nas perseguições, livrado muitos possessos ou almas tentadas, e salvo da angústia a muitos náufragos; tem amparado e fortificado muitos moribundos recordando-lhes os méritos infinitos de Seu Filho.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Ela vem assim ao encontro das almas após a morte. São João Damasceno diz no seu Sermão da Assunção: “<em>Não foi a morte, ó Maria, que vos tornou bem-aventurada, mas fostes vós que a embelezastes e a tornastes graciosa, despojando-a de tudo o que tinha de lúgubre”</em>.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Maria mitiga os rigores do Purgatório e oferece àqueles que ali sofrem as orações dos fiéis, aos quais orienta mandar rezar Missas pelos defuntos.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Enfim, como Consoladora dos aflitos, Maria, soberana absoluta, faz sentir de certo modo sua misericórdia até mesmo no inferno. Santo Tomás diz que os danados são menos punidos do que merecem, “<em>puniuntur citra condignum</em>”(4), porque a misericórdia divina une-se sempre à justiça, mesmo nos rigores desta. E esse alívio provém tanto dos méritos do Salvador quanto dos de sua Mãe Santíssima. Segundo São Odilon de Cluny5, o dia da Assunção é no Inferno menos penoso que os outros.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Maria tem sido Consoladora dos aflitos ao longo dos séculos nas formas mais variadas, segundo a extensão do conhecimento que tem da aflição das almas nos seus diversos estados da vida. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><strong><em>Auxílio dos cristãos</em></strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">É, finalmente, auxílio dos cristãos, porque o socorro é efeito e conseqüência do amor, e Maria tem a plenitude absoluta da caridade, que supera a de todos os santos e anjos reunidos.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Ela ama as almas redimidas pelo Sangue de seu Filho mais do que não saberíamos dizer, assiste-as em seus padecimentos e ajuda-as na prática de todas as virtudes.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Daí a exortação de São Bernardo em sua segunda homilia sobre o <em>Missus est</em>: “Se o vento da tentação se elevar contra ti, se a torrente das tribulações tentar te arrastar, olha para a estrela, invoca Maria. Se as ondas do orgulho, da ambição, das calúnias e da inveja te sacudirem para te engolirem nos seus turbilhões, olha para a estrela, invoca a Mãe de Deus. Se a cólera, a avareza ou os furores da concupiscência da carne sacudirem o navio do teu espírito e ameaçarem de o quebrar, torna a olhar para Maria. Que a sua lembrança não se afaste do teu coração e que seu nome se encontre sempre em tua boca&#8230;  Mas para aproveitares do benefício de sua oração, não te esqueças que deves caminhar sob seus rastros”.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Maria tem sido freqüentemente o auxílio, não só das almas individuais, mas dos povos cristãos. Barônio nos conta que Narsés, chefe dos exércitos do Imperador Justiniano, com a ajuda da Mãe de Deus, libertou a Itália, em 553, da escravidão dos godos de Totila. Segundo o mesmo testemunho, em 718, a cidade de Constantinopla foi libertada da mesma maneira dos Sarracenos, que, em muitas ocasiões semelhantes, foram derrotados com a ajuda de Maria.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">No século XIII, igualmente, Simão, Conde de Montfort, derrotou perto de Toulouse um exército considerável de albigenses, enquanto São Domingos rezava para a Mãe de Deus.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A cidade de Dijon, em 1513, foi da mesma maneira milagrosamente libertada. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Em 1517, no dia 7 de outubro, em Lepanto, na entrada do Golfo de Corinto, pelo auxílio de Maria obtido por meio do santo Rosário, uma frota turca muito mais numerosa e poderosa que a dos cristãos foi completamente destruída.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">O título de Nossa Senhora das Vitórias recorda-nos freqüentemente que a sua intervenção tem sido decisiva nos campos de batalha para libertar os povos cristãos oprimidos.</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #000000;">*</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #000000;">*   *</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Nas litanias lauretanas, estas quatro invocações: Saúde dos enfermos, Refúgio dos pecadores, Consoladora dos aflitos e Auxílio dos Cristãos recordam incessantemente aos fiéis como Maria é a Mãe da Divina Graça e, por conseguinte, Mãe de Misericórdia.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A Igreja canta que Maria é também a nossa esperança: <em>“Salve Rainha, Mãe de Misericórdia, vida, doçura e esperança nossa, salve</em>”. Ela é nossa esperança enquanto nos tem merecido com seu Filho e por Ele o socorro de Deus, que no-lo obtém por sua intercessão sempre atual e que no-lo transmite. É, assim, a expressão viva e o instrumento da Misericórdia auxiliadora; o motivo formal de nossa esperança. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A confiança, ou a esperança consolidada, possui uma “<em>certeza de tendência para a salvação</em>”6 que não cessa de aumentar e que deriva da nossa fé na bondade de Deus Onipotente, sempre fiel no cumprimento de suas promessas; de onde nasce, nos santos, o sentimento quase sempre atual de sua Paternidade divina, que incessantemente vela por nós. A influência de Maria, silenciosamente, inicia-nos progressivamente nessa confiança perfeita e manifesta-nos cada vez mais claramente o motivo para ela.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A Santíssima Virgem é também chamada de “<em>Mater sanctae laetitiae</em>” e “<em>causa nostrae laetitiae</em>”, Mãe da santa alegria e causa da nossa alegria. Ela obtém, com efeito, para as almas mais generosas, esse tesouro escondido que é a alegria espiritual mesmo em meio aos sofrimentos. Ela lhes obtém às vezes a graça de carregar sua cruz com alegria, seguindo Nosso Senhor; inicia-lhes no amor à Cruz, e embora nem sempre as faça sentir essa alegria, concede-lhes o poder de comunicá-la aos outros.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="text-decoration: underline;"><strong><span style="color: #000000; text-decoration: underline;">Notas:</span></strong></span></p>
<ol>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Essa doutrina é admiravelmente desenvolvida pelo dominicano polonês justino de miechow em sua obra <em>Collationes in Litanias B.</em><em>Mariae Virginis,</em> traduzida para o francês pelo pe. a. ricard com o título de <em>Conférences sur les litanies de la Très Sainte Vierge,</em> 3ª ed., Paris, 1870. Inspiramo-nos nessa obra para escrever as páginas seguintes..</span></li>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Cf. santo tomás, Iª II<sup>ae</sup>, q. 85, a. 3..</span></li>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Esse foi o caso que aconteceu na França com um infeliz e licencioso escritor chamado Armando Silvestre..</span></li>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Iª, q. 21, a. 4, ad 1..</span></li>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><em>Sermão sobre a Assunção.</em>.</span></li>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Cf. Santo Tomás, IIª II<sup>ae</sup>, q. 18, a. 4: “A esperança <em>tende com certeza </em>para o seu fim, como participando da certeza da fé”..</span></li>
</ol>
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		<title>A PLENITUDE FINAL DE GRAÇAS EM MARIA</title>
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		<pubDate>Wed, 31 Jul 2024 13:56:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Dominus Est]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Fé]]></category>
		<category><![CDATA[Santíssima Virgem Maria]]></category>
		<category><![CDATA[Pe. Garrigou Lagrange]]></category>
		<category><![CDATA[Permanencia]]></category>

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		<description><![CDATA[Para considerar essa plenitude final em todos os seus diversos aspectos, é preciso dizer primeiro qual foi essa plenitude no momento da morte da Santíssima Virgem, recordar o que nos ensina o magistério ordinário da Igreja sobre a Assunção e &#8230; <a href="http://catolicosribeiraopreto.com/a-plenitude-final-de-gracas-em-maria/">Continuar lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img class=" aligncenter" src="https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn%3AANd9GcSdMUJoHzfMAgvcVK8jyCQjfPV_M8yQlcuXIeMAkVvOIWQc-q7d" alt="Resultado de imagem para virgem santíssima&quot;" width="510" height="190" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Para considerar essa plenitude final em todos os seus diversos aspectos, é preciso dizer primeiro qual foi essa plenitude no momento da morte da Santíssima Virgem, recordar o que nos ensina o magistério ordinário da Igreja sobre a Assunção e finalmente falar da plenitude final de graça tal qual aparece completamente desenvolvida no Céu.</span></p>
<ul>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #0000ff;"><a style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #0000ff;" href="http://permanencia.org.br/drupal/node/5574">Artigo 1: Qual foi a plenitude de graças no momento da morte da Santíssima Virgem</a></span></li>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #0000ff;"><a style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #0000ff;" href="http://permanencia.org.br/drupal/node/5575">Artigo 2: A Assunção da Santíssima Virgem</a></span></li>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #0000ff;"><a style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #0000ff;" href="http://permanencia.org.br/drupal/node/5576">Artigo 3: A plenitude final de graças no céu</a></span></li>
</ul>
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		<title>AS SETE LEIS SUPERIORES DA VIDA DA GRAÇA</title>
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		<pubDate>Sat, 08 Jun 2024 14:00:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Dominus Est]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Espiritualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Fé]]></category>
		<category><![CDATA[Textos e Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Pe. Garrigou Lagrange]]></category>
		<category><![CDATA[Permanencia]]></category>

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		<description><![CDATA[Garrigou-Lagrange, Réginald , O.P. De modo geral, não prestamos atenção suficiente às leis superiores da vida da graça. É uma consolação espiritual conhecê-las e vivê-las. Conhecemos as leis da energia física, as da vida vegetal, da vida animal e as &#8230; <a href="http://catolicosribeiraopreto.com/as-sete-leis-superiores-da-vida-da-graca/">Continuar lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class=" alignright" src="https://wp.pt.aleteia.org/wp-content/uploads/sites/5/2014/06/qzknnn9sczxs-ujhu3zbfyx9n8clsypatl5li8fxajls3mrfpkqfcv_gzhzyavp3ijcyigmz4aybdkn6xffpicvghoy4.jpg?resize=512,310" alt="O verdadeiro significado do ato de ajoelhar-se para rezar" width="373" height="229" /></p>
<p style="text-align: right;"><span style="color: #0000ff;"><strong><a style="color: #0000ff;" href="https://permanencia.org.br/drupal/node/227">Garrigou-Lagrange, Réginald , O.P.</a></strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">De modo geral, não prestamos atenção suficiente às leis superiores da vida da graça. É uma consolação espiritual conhecê-las e vivê-las.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Conhecemos as leis da energia física, as da vida vegetal, da vida animal e as leis naturais da vida humana, mas não conhecemos o suficiente as leis da vida da graça.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Conhecemos, por exemplo, a lei da <em>conservação da energia física</em>, segundo a qual a quantidade de energia física permanece a mesma em suas diferentes transformações; assim, o movimento local produz calor, como verificamos ao esfregarmos as mãos; o calor produzido é uma forma de energia equivalente ao movimento que a engendrou. Quando a energia desaparece sob uma forma, reaparece sob outra: movimento, calor, luz, eletricidade etc.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Conhecemos também a <em>lei da degradação da energia</em>, segundo a qual a energia, cuja quantidade se conserva, perde qualidade ou se degrada. É por isso que a água das fontes quentes se resfria. É ainda por isso que os astros pouco a pouco se apagam e se resfriam. Assim também a energia dos seres vivos se torna mais lenta e se resfria na velhice.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Todos conhecemos as <em>leis da vida vegetal</em>, por exemplo, as da germinação, segundo as quais uma boa semente de trigo em uma terra boa produz uma espiga de 30 grãos, por vezes de 60 e mesmo de 100, como está dito no Evangelho (Mc 4, 8). Não prestamos suficiente atenção a isto, é uma das maravilhas da natureza que o trigo possa dar 60 e mesmo 100 por um. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Quem deu esta força vital, este poder germinativo ao grão de trigo? É o Criador, o Autor da vida, e é este, diz o Evangelho, o símbolo do que a graça santificante pode produzir e de fato produz numa alma perfeitamente fiel.</span><span id="more-21857"></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Conhecemos também as l<em>eis do desenvolvimento das faculdades</em> naturais da criança, de sua inteligência, de sua vontade, de tudo o que contribui para a formação do caráter moral ou das virtudes adquiridas da prudência, previdência, justiça, coragem, paciência, temperança. Podemos ainda facilmente conhecer as <em>leis da geração dos vícios que se opõem às virtudes</em>. Assim, o amor desregrado de si mesmo ou o egoísmo, por vezes demasiadamente acentuado, gera a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, como diz São João (1 Jo 2, 16). Em seguida, destas três concupiscências derivam, como mostra S. Tomás (Ia IIae, q. 77, a. 4, 5; q. 84, a. 4) os sete pecados capitais e, destes, provém pecados ainda mais graves como a apostasia, o desespero, o ódio de Deus e do próximo. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Porém, o que é particularmente instrutivo e reconfortante, é o que ensina a teologia quando fala das leis da vida da graça.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Quais são as principais? Eis aqui sete, das quais muitas outras resultam.</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #000000;">* * *  </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A primeira é que <em>somente Deus pode produzir a vida sobrenatural da graça santificante</em> em nossa alma espiritual e imortal. Apenas Ele a pode produzir pois ela é <em>uma participação de sua vida íntima, o germe da vida eterna</em>, pela qual nós veremos Deus face à face, como Ele se vê, e pela qual nós o amaremos eternamente, sem que nada possa nos fazer perdê-lo. A vida da graça — <em>semen gloriae </em>— é como o germe da visão beatífica e do amor sobrenatural de Deus e dos justos, visão e amor que não cessarão jamais.</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #000000;">* * *  </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A segunda lei se pode formular assim: <em>Desta vida sobrenatural da graça derivam em nossa alma as virtudes infusas teologais e morais e os sete dons do Espírito Santo</em>. É esta a razão pela qual a graça santificante ou habitual é chamada: &#8220;graça das virtudes e dos dons&#8221; (S.T. IIIa, q. 62, a. 2). Ela é, sobretudo, o princípio radical das virtudes teologais da fé, da esperança e da caridade<a style="color: #000000;" href="https://permanencia.org.br/drupal/node/227#footnote1_5id1595">1</a>. E quando a fé e a esperança desaparecerem (para dar lugar à posse de Deus pela visão beatífica) a caridade, amor sobrenatural de Deus e do próximo, durará eternamente. </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #000000;">* * *</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Uma terceira lei que deriva das duas precedentes é assim formulada por S. Tomás: &#8220;<em>o menor grau da graça santificante na alma de uma pequena criança batizada vale mais que o bem natural de todo o universo</em>&#8221; — &#8220;<em>bonum gratiae unius majus est quam bonum naturae totius universi</em>&#8221; (Ia IIae, q. 113, a. 9, ad 2). Do mesmo modo, uma ervinha, pelo fato de ser vivente, vale mais que todo o reino mineral; a menor sensação vale mais que todo o reino vegetal e o menor pensamento humano, que todo o reino animal. Por mais forte razão, o menor grau da graça e o menor movimento de caridade infusa mais valem que o bem natural de todo o universo, e até mais do que todas as naturezas angélicas criadas e passíveis de criação tomadas em conjunto, pois as naturezas angélicas as mais altas são muito inferiores à vida <em>essencialmente sobrenatural </em>da graça, que é, propriamente falando, uma participação <em>da vida íntima de Deus</em>. Os anjos, tanto quanto nós, necessitaram do dom gratuito da graça santificante para que tivessem neles o germe da vida eterna.  </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #000000;">* * *</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Uma quarta lei da vida sobrenatural pode se formular assim: <em>a graça santificante, uma vez produzida em nossa alma pelo batismo, deveria durar para sempre em nós</em>, e de fato ela duraria para sempre se o <em>pecado mortal</em>, que nos desvia de Deus e que é inconciliável com ela, não nos fizesse perdê-la. Esta lei nos mostra o valor desta vida sobrenatural e a gravidade de todo pecado mortal. Em certas regiões ainda muito cristãs, como nas melhores partes do país basco e do Canadá, não é raro, asseguram os padres destas regiões, ver excelentes cristãos morrerem em idade avançada com a inocência batismal. Vê-se, por isso, o valor do batismo (batismo de água ou batismo de desejo) e também o valor da absolvição que perdoa o pecado mortal suscitando em nós uma verdadeira contrição que supõe o amor de Deus acima de tudo. </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #000000;">* * *</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Uma quinta lei da vida sobrenatural é que <em>a graça santificante e a caridade</em> deveriam não apenas durar para sempre em nós, mas <em>deveriam crescer sempre em nós até nosso último suspiro</em>. Elas deveriam crescer sempre pela Santa Comunhão &#8220;ex opere operato&#8221;, por nossos méritos &#8220;ex opere operantis&#8221; e também por nossas preces. É por isso que se diz no Evangelho de São Marcos (Mc 4, 8), na parábola do semeador: &#8220;E outra parte caiu em boa terra; e deu fruto que vingou, e cresceu e <em>um grão dava trinta, outro sessenta e outro cem</em>&#8220;. É isto o que nós vemos nas vidas dos santos, em particular por sua aceitação das contrariedades quotidianas que eles oferecem imediatamente ao Senhor, e que assim se tornam ocasião de crescer constantemente na caridade; cada uma destas contrariedades é assim como um degrau de escada que os aproxima de Deus.                                    </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Os Padres da Igreja dizem sobre este assunto, e esta é uma outra formula da mesma lei, que: &#8220;<em>Na via que leva a Deus, quem não avança, recua</em>&#8220;, pois há um dever de avançar, e não de quedar-se estacionário <em>in via</em>. Do mesmo modo, a criança que não cresce tanto quanto deveria, não continua criança, mas se torna um anão disforme.  Uma alma cristã que não avança, torna-se uma alma retardada. Assim, S. Tomás ensina que quando nossos atos de caridade são fracos, remissos (<em>remissi</em>), a ponto de serem inferiores em intensidade ao grau em que se encontra esta virtude em nós, eles não obtêm logo o aumento de caridade que merecem; eles não o obterão a não ser que façamos um ato mais intenso ou mais generoso (cf. IIa IIae, q. 24, a. 6, ad 1): &#8220;<em>Quilibet actus caritatis meretur caritatis augmentum non tamen statim augetur</em>,<em> sed quanto aliquis conatur ad huiusmodi augmentum</em>&#8220;. Se temos uma caridade de cinco talentos e durante um mês agirmos como se nós não tivéssemos senão dois talentos, nós não obteremos tão logo um sexto talento, e nós não o obteremos senão quando, fiéis a uma nova graça atual, fizermos um ato mais generoso. </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #000000;">* * *</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Uma sexta lei é que a <em>graça santificante e a caridade deveriam crescer em nós de uma maneira uniformemente acelerada</em>. É isto o que diz S. Tomás em seu Comentário à Epístola aos Hebreus (10, 25), lá onde se diz que: &#8220;Devemos nos exortar uns aos outros, tanto mais quanto virdes que se aproxima o dia final&#8221; — &#8220;<em>tanto magis quanto videritis appropinquantem diem</em>&#8220;. S. Tomás diz a este propósito: &#8220;<em>O movimento natural</em> (por exemplo, o da pedra que se aproxima do centro da terra) <em>é tanto mais rápido quanto se aproxima de seu termo</em>. Ora, a graça nos inclina como uma segunda natureza. Portanto, aqueles que estão em estado de graça devem <em>tanto mais </em>crescer <em>quanto</em> <em>mais</em> se aproximarem de Deus&#8221;.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">O Santo Doutor entreviu confusamente aqui <em>a lei da gravitação universal</em> e da aceleração da queda dos corpos, e ele imediatamente a aplicou ao movimento das <em>almas justas que gravitam em direção de Deus</em>: &#8220;Como a pedra tende para o centro da terra com velocidade tanto maior quanto mais dele se aproxima, assim as almas em estado de graça devem seguir em direção a Deus com tanto maior velocidade quanto mais Dele se aproximam e quanto mais são atraídas por Ele&#8221;. S. Tomás o confirma com estas palavras do livro dos Provérbios (4, 18): &#8220;A vereda dos justos é como luz que resplandece, cujo brilho cresce até o dia pleno&#8221;.   </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Com efeito, a caridade dos santos cresce muito mais nos últimos anos de suas vidas que nos dez ou vinte primeiros considerados em conjunto.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Esta <em>lei do crescimento</em> foi freqüentemente lembrada por S. Paulo, cf. Ef 4, 15; Col 1, 10; e por S. Pedro, 1 Pd 2, 2; 3, 18. Ela se verificou perfeitamente em Maria e, de modo menos perfeito, na vida dos santos: sua velhice os aproxima cada dia, apesar das enfermidades de uma idade mais ou menos avançada, da juventude eterna do céu. </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #000000;">* * *</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Uma sétima lei da vida da graça diz respeito ao fim de nossa vida terrestre, e pode se formular assim: &#8220;<em>A ordem radical da vida da graça seria a de desabrochar em vida eterna imediatamente após a morte, se não tivéssemos pecados a expiar</em>&#8220;. A razão é que o purgatório é uma justa pena que Deus só pode infligir em virtude de um pecado que se poderia evitar e reparar antes da morte. Assim se explica que o principal sofrimento das almas do purgatório não é o dos sentidos, mas o da privação da posse de Deus visto face à face. Estas almas sofrem muito mais desta privação que durante sua vida terrestre. Por que? Porque, imediatamente após a morte, seria da <em>ordem radical da vida da graça</em> gozar imediatamente da visão beatífica. As almas do purgatório têm uma fome e uma sede de Deus da qual não temos nenhuma experiência; elas faltaram ao encontro com Deus e sabem bem que <em>a culpa é delas</em>. Nós não possuímos senão uma débil imagem disso na experiência da fome: se não comemos há 5 ou 6 horas, não sofremos fome; mas se não comemos há três dias, <em>será da ordem radical</em> da vida de nosso organismo se restaurar pela alimentação. Há qualquer coisa de similar na fome espiritual de Deus, uma vez chegada a hora de O ver e de O possuir para sempre. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Esta sétima lei, que é de ordem muito elevada, se realizou nos mártires, e deve também se realizar naqueles que generosamente se submeteram ao martírio do coração para a expiação de seus pecados e para a salvação dos pecadores. Mas não se deveria esquecer que foi revelado à Santa Teresa que, entre todos os religiosos que ela tinha conhecido e que estavam mortos, três apenas tinham evitado o purgatório.</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #000000;">* * *</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Estas sete leis da vida da graça são esplêndidas, elas são objeto da contemplação dos santos; existem muitas outras, que são como que corolários destas:</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Pensemos nas principais: </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">— A vida da graça que apenas Deus pode produzir em nós, deveria sempre durar em nós, sem jamais ser interrompida pelo pecado mortal.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">— A vida da graça deveria crescer em nós como a velocidade de um movimento natural uniformemente acelerado.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">— A vida da graça, imediatamente após nossa morte, deveria desabrochar em nós em vida eterna.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Mas há o pecado e suas tristes leis que freqüentemente impedem a aplicação das leis da vida da graça. Por que? Porque, enquanto estamos sobre a terra &#8220;carregamos este tesouro da vida sobrenatural em um vaso frágil&#8221;. A graça santificante, participação da vida íntima de Deus, é como uma água muito límpida que se conservaria sempre pura, se o vaso que a contém não viesse a se rachar. Então, é preciso lutar contra nossa natureza decaída, para não escorregar por sua ladeira; esta luta, nos dizem os santos, deve ser inspirada pelo <em>espírito de sacrifício</em> que é uma das formas mais belas, mais frutuosas, freqüentemente mais escondidas, do amor de Deus.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Uma outra lei superior da vida da graça é que, pelo progresso no amor de Deus e do próximo, <em>Nosso Senhor nos incorpora cada vez mais em Si mesmo</em>, como membros cada vez mais vivos de seu Corpo místico. Ora, por esta progressiva incorporação, Ele nos associa primeiramente <em>à sua infância, depois à sua vida escondida, depois à sua vida apostólica e, enfim, à sua vida dolorosa, antes de nos associar à sua vida gloriosa no céu</em>. Esta oitava lei, que lembra a oitava beatitude evangélica, realiza-se na vida dos santos e das almas muito generosas que aspiram à uma progressiva configuração ao Cristo Jesus, crucificado por nossa salvação, que se ofereceu como vítima por amor de seu Pai e por amor de nós.</span></p>
<p style="text-align: right;"><strong><span style="color: #000000;">(<em>Angelicum 32, pp. 117-123. Tradução: </em><span style="color: #0000ff;"><a style="color: #0000ff;" href="https://permanencia.org.br/drupal/node/227">PERMANÊNCIA</a></span><em>)</em></span></strong></p>
<ol style="text-align: justify;">
<li><span style="color: #000000;">Ademais, sendo todas as virtudes infusas e os sete dons conexos com a caridade, &#8220;crescem juntos como os cinco dedos da mão&#8221; diz S. Tomás (Ia IIae, q. 66, a. 2 e q. 68, a. 5). Deste ponto de vista, não se pode ter uma <em>alta caridade</em>(para a qual o preceito supremo do amor de Deus e do próximo nos obriga a tender) <em>sem ter os dons do Santo Espírito a um grau proporcionado, por ex., os dons da inteligência, da sabedoria, da piedade</em>, ainda que, em alguns justos, apareçam estes dons sob uma forma mais contemplativa e em outros, sob uma forma mais ativa.</span></li>
</ol>
<p style="text-align: justify;">
]]></content:encoded>
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		<title>PECADOS DE IGNORÂNCIA, FRAQUEZA E MALÍCIA</title>
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		<pubDate>Tue, 28 May 2024 14:18:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Dominus Est]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Espiritualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Textos e Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Pe. Garrigou Lagrange]]></category>

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		<description><![CDATA[Garrigou Lagrange, O.P. Espalha-se, em alguns lugares, a opinião de que apenas o pecado de malícia é mortal, e que os pecados de ignorância e fraqueza jamais o são. É importante recordar, acerca deste ponto, o ensinamento da teologia, tal &#8230; <a href="http://catolicosribeiraopreto.com/pecados-de-ignorancia-fraqueza-e-malicia/">Continuar lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignright" src="http://permanencia.org.br/drupal/sites/default/files/imagens/Clero_eventos_pessoas/G-Lagrange_small.jpg" alt="" /></p>
<p style="text-align: right;"><strong><span style="color: #000000;"><em><a href="http://permanencia.org.br/drupal/node/5527">Garrigou Lagrange, O.P.</a></em></span></strong></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Espalha-se, em alguns lugares, a opinião de que apenas o pecado de malícia é mortal, e que os pecados de ignorância e fraqueza jamais o são. É importante recordar, acerca deste ponto, o ensinamento da teologia, tal como se encontra formulado por Santo Tomás de Aquino na sua <em style="font-weight: inherit;">Suma Teológica </em>(Ia-IIae, q. 76, 77, 78).</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">O pecado de ignorância é o que provém de ignorância voluntária e culpável, chamada ignorância vencível. O pecado de fraqueza é o que provém de forte paixão, que diminui a liberdade e obriga a vontade a dar seu consentimento. Quanto ao pecado de malícia, é o que se comete com plena liberdade “<em style="font-weight: inherit;">quasi de industria”</em>, com aplicação e frequentemente com premeditação, sem paixão, nem ignorância. Recordemos o que Santo Tomás nos ensina sobre cada um deles. <a style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;" href="http://permanencia.org.br/drupal/node/5527">(Continue a ler)</a></span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><strong>Os pecados de ignorância</strong></span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">No que diz respeito à vontade, a ignorância pode ser antecedente, consequente ou concomitante.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A <em style="font-weight: inherit;">ignorância antecedente</em> é a que não é absolutamente voluntária, ela é dita “<em style="font-weight: inherit;">moralmente invencível”. </em>Por exemplo, acreditando atirar em um animal numa floresta, um caçador mata um homem que não havia dado sinal algum de sua presença e que de modo algum se poderia supor estar onde estava. Neste caso, não há falta voluntária, mas somente pecado material.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A <em style="font-weight: inherit;">ignorância consequente</em> é a que é voluntária, ao menos indiretamente, por efeito da negligência em instruir-se acerca daquilo que se pode e deve saber; é chamada ignorância <em style="font-weight: inherit;">vencível</em>, pois seria possível, com aplicação moralmente possível, libertar-se dela; ela dá causa a uma falta formal, desejada, ainda que indiretamente. Por exemplo, um preguiçoso estudante de medicina que não se aplica aos estudos e consegue, de algum modo, colar grau como doutor, apesar de ignorar as coisas mais elementares de sua arte. Se lhe ocorre de acelerar a morte de alguns de seus pacientes, ao invés de lhes curar, não há nisso pecado diretamente voluntário, mas há certamente uma falta indiretamente voluntária, que pode ser grave e pode ir até o homicídio por imprudência ou grave negligência.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A <em style="font-weight: inherit;">ignorância concomitante </em>é a que não é voluntária, mas acompanha o pecado de tal modo que, independente de existir ou não, ainda haveria pecado. É o caso do homem mui vingativo que deseja matar seu inimigo, e, um dia, por ignorância, mata-o de fato, julgando atirar num animal na floresta; este caso é manifestamente diferente dos dois precedentes.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Segue-se que a ignorância involuntária ou invencível não é pecado, mas que a ignorância voluntária ou vencível daquilo que devemos e podemos saber é pecado mais ou menos grave, conforme a gravidade das obrigações que contrariamos.</span><span id="more-17331"></span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A ignorância voluntária ou vencível não pode escusar totalmente o pecado, pois houve negligência; ela apenas diminui a culpabilidade.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A ignorância absolutamente involuntária ou invencível escusa totalmente o pecado, suprime a culpabilidade. </span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Quanto à ignorância concomitante, não escusa o pecado, pois ainda que não houvesse, o pecado ocorreria. </span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A ignorância invencível é chamada “boa fé”; para que seja verdadeiramente invencível ou involuntária, é preciso não ser possível moralmente libertar-se dela, pela aplicação em conhecer os deveres. Ela não pode aplicar-se sobre os preceitos primeiros da lei natural: “é preciso fazer o bem e evitar o mal”; “não faça ao próximo o que não quer que faça contigo mesmo”; “não matarás”; “não furtarás”; “adorarás a um só Deus”. Ao menos pela constatação da ordem do mundo, pela contemplação do céu estrelado e do conjunto da criação, o homem tem facilmente uma probabilidade da existência de Deus, ordenador e legislador supremo; e quando tem essa probabilidade, deve buscar esclarecer-se mais e pedir luz; de outro modo, não está mais na verdadeira <em style="font-weight: inherit;">boa fé </em>ou ignorância absolutamente involuntária e invencível. É preciso dizer o mesmo de um protestante, a quem se torna seriamente provável que o catolicismo é a verdadeira religião; deve buscar esclarecer-se pelo estudo e pedir a Deus luz; sem isso, como diz Santo Afonso, peca contra a fé pela negligência em tomar os meios necessários para chegar a ela.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Frequentemente, pessoas piedosas não prestam a devida atenção aos pecados de ignorância, que por vezes cometem, ao não considerar, como podem e devem, seus deveres religiosos ou seus deveres de estado, ou ainda os direitos e qualidades das pessoas, superiores, semelhantes ou subalternos com que se relacionam. Somos responsáveis não apenas pelos nossos atos desordenados, mas ainda pela omissão de todo o bem que deveríamos fazer e que de fato haveríamos de fazer, se não nos faltasse o verdadeiro zelo pela glória de Deus e salvação das almas. Uma das causas dos males atuais da sociedade está no esquecimento desta palavra do Evangelho: “os pobres são evangelizados”, na indiferença daqueles que têm mesmo o supérfluo pelos que carecem do necessário.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><strong>Pecados de fraqueza</strong></span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Chama-se pecado de fraqueza ao que provém de forte paixão, que força a vontade a dar seu consentimento. Neste sentido, o que está escrito no salmo (6, 3): “<em style="font-weight: inherit;">Miserere mei, Domine, quoniam infirmus sum</em>”<span style="font-weight: inherit; font-style: inherit;"> (1). A alma espiritual é enferma quando sua vontade cede à violência dos movimentos da sensibilidade. Perde, assim, a retidão do julgamento prático e da eleição voluntária ou da escolha, por causa do medo, da raiva ou do desejo. Assim, durante a Paixão, São Pedro, por medo, deixa-se levar até negar Cristo três vezes.</span></span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit;">Quando, após viva emoção ou paixão, nos inclinamos a um objeto, a inteligência é levada a julgar o que nos convém, e a vontade a consentir de modo contrário à lei divina(</span>2)<span style="font-weight: inherit; font-style: inherit;">. </span></span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">No entanto, é preciso distinguir aqui a <em style="font-weight: inherit;">paixão </em>dita <em style="font-weight: inherit;">antecedente</em>, que precede o consentimento da vontade, e aquela dita <em style="font-weight: inherit;">consequente, </em>que se segue ao consentimento. A <em style="font-weight: inherit;">paixão antecedente diminui a culpabilidade</em>, pois diminui a liberdade do julgamento e da escolha voluntária; é particularmente visível nas pessoas mui impressionáveis. Ao contrário, <em style="font-weight: inherit;">a paixão consequente</em> ou voluntária não diminui a gravidade do pecado, mas a <em style="font-weight: inherit;">aumenta</em>, ou antes, é sinal de que o pecado é muito voluntário, visto que a vontade suscita, ela mesma, este movimento desordenado da paixão, como ocorre com quem quer encolerizar-se para melhor manifestar seu desejo mau(3). Ora, assim como uma boa paixão consequente, como o foi a santa cólera de Nosso Senhor expulsando os vendilhões do templo, <em style="font-weight: inherit;">aumenta</em> o mérito, uma má paixão consequente aumenta o demérito.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">O pecado de fraqueza do qual falamos aqui é aquele pelo qual a vontade cede ao impulso de uma paixão antecedente e, por isso, sua gravidade é diminuída; mas isso não quer dizer que jamais se trate de pecado mortal. É verdadeiramente mortal quando a matéria é grave, unida à advertência e ao pleno consentimento que cede à paixão; é o caso do homicídio cometido sob o impulso da cólera(4).</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Pode-se resistir, sobretudo no início, ao movimento desregrado da paixão; e se, no início, não o resistimos como deveríamos, se não rezamos como seria preciso para obter o socorro de Deus, a paixão não é mais simplesmente antecedente, mas torna-se voluntária.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">O pecado de fraqueza, mesmo grave e mortal, é mais perdoável, porém, “perdoável”, não é absolutamente sinônimo de “venial” no sentido corrente da palavra(5).</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Mesmo os fiéis piedosos devem atentar para esse ponto, pois pode ocorrer entre eles movimentos de ciúmes não reprimidos, que podem lhes conduzir a faltas graves, por exemplo, a graves julgamentos temerários e a palavras e atos externos que sejam causa de divisão profunda, contrários tanto à justiça e à caridade.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Seria erro grosseiro sustentar que somente o pecado de malícia pode ser mortal, que só ele comportaria advertência suficiente e pleno consentimento, necessários, com a gravidade da matéria, para o pecado que dá a morte à alma e torna-a digna da morte eterna. Erro semelhante seria resultado de uma deformação da consciência, e contribuiria a aumentar essa deformação. Recordemos que podemos com facilidade resistir no início ao movimento desregrado da paixão, e que é nosso dever fazê-lo, bem como rezar para isto, conforme as palavras de Santo Agostinho, retomadas no Concílio de Trento: “Deus não pede jamais o impossível, mas, no que nos pede, adverte-nos a fazer o que podemos, e pedir-lhe o que não podemos”(<span style="font-weight: inherit; font-style: inherit;">6)</span>. </span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><strong>Pecado de malícia</strong></span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Contrariamente aos pecados de ignorância e de fraqueza, o pecado de malícia é aquele no qual se escolhe o mal conscientemente; diziam os latinos <em style="font-weight: inherit;">de industria</em>, isto é, de propósito deliberado, com cálculo, intenção e resolutamente, sem ignorância e mesmo sem paixão antecedente. Frequentemente, é premeditado. </span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Não quer isso dizer que se queira o mal pelo mal; pois, sendo o bem o objeto adequado da vontade, não pode esta querer o mal senão sob o aspecto de um bem aparente.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Ora, quem peca por malícia, com conhecimento de causa e má vontade, quer <em style="font-weight: inherit;">conscientemente</em> um mal espiritual (por exemplo, a perda da caridade ou amizade com Deus) para possuir um bem temporal. Claro está que esse pecado, assim definido, difere, no grau de gravidade, do pecado de ignorância ou de fraqueza.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Não se deveria concluir, contudo, que todo pecado de malícia seja pecado contra o Espírito Santo, que é dos mais graves dos pecados de malícia, e que se verifica quando alguém rejeita, por desprezo, aquilo mesmo que o poderia salvar ou livrar do mal, por exemplo, quando se combate a verdade religiosa conhecida (<em style="font-weight: inherit;">impugnatio veritatis agnitae) </em>ou quando, por ciúmes, deliberadamente, entristece-se das graças e do progresso espiritual do próximo.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Frequentemente, o pecado de malícia procede de vício engendrado por múltiplas faltas; mas pode dar-se mesmo na ausência desse vício; assim, o primeiro pecado do demônio foi pecado de malícia, não de malícia habitual, mas de malícia atual, de má vontade, da exaltação do orgulho.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Claro está que o pecado de malícia é mais grave que os de ignorância ou fraqueza, ainda que, por vezes, estes últimos sejam já mortais. É por isso que as leis humanas punem mais gravemente o homicídio premeditado do que o crime passional.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A gravidade maior dos pecados de malícia provém de serem mais voluntários que os demais, de normalmente procederem de um vício engendrado por faltas reiteradas, de se preferir com conhecimento um bem temporal à amizade divina, sem a escusa parcial de certa ignorância ou de forte paixão.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Nessas questões, há dois enganos possíveis. Uns inclinam-se a pensar que somente o pecado de malícia pode ser mortal; não percebem a gravidade de certos pecados de ignorância voluntária, e de certos pecados de fraqueza, nos quais há, contudo, material grave, suficiente advertência e pleno consentimento. Outros, ao contrário, não compreendem a gravidade de certos pecados de malícia executados friamente, com moderação afetada e um simulacro de bondade ou de tolerância. Assim, aqueles que combatem a verdadeira religião e afastam as crianças do pão da verdade divina podem pecar mais gravemente do que quem blasfema e mata outrem sob o impulso da cólera.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">O pecado é tanto mais grave quanto mais voluntário, esclarecido e procedente do amor desregrado de si mesmo – que chega por vezes até o desprezo de Deus, como diz Santo Agostinho.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Por outro lado, o ato virtuoso é tanto mais meritório quanto mais voluntário, livre e inspirado pelo amor de Deus e do próximo – amor que chega por vezes até o santo desprezo de si mesmo, como diz Santo Agostinho.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">É assim que quem reza com muito apego às consolações sensíveis merece menos do que quem persevera na oração sem consolação alguma, em contínua e profunda aridez; porém, no final dessa provação, seu mérito não terá diminuído, se sua oração proceder de igual caridade, que possuirá então uma feliz relação com a sensibilidade. Um ato interior de puro amor é mais valioso aos olhos de Deus que muitas obras exteriores inspiradas por menor caridade.</span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Em todas essas questões, trate-se do bem ou do mal, é preciso sobretudo estar atento ao que procede de nossas faculdades superiores: a inteligência e a vontade. Ou seja, ao ato da vontade realizado com pleno conhecimento de causa. Deste ponto de vista, se um ato mau, plenamente deliberado e consentido, como um pacto formal com o demônio, tem consequências formidáveis, um ato bom, como a oblação de si mesmo a Deus, feita de modo plenamente deliberado, consentido e frequentemente renovado, pode ter ainda maiores consequências na ordem do bem, pois o Espírito Santo é infinitamente mais poderoso que o espírito do mal, e pode fazer mais pela nossa santificação do que este para nossa perda. É bom refletir nessas coisas perante a gravidade dos acontecimentos atuais, em particular os que se passam em Espanha(7) nesse momento. Assim como o amor de Cristo, morrendo por nós na Cruz, mais agradava a Deus do que todos os pecados reunidos o desagradavam, assim também o Salvador é mais poderoso para salvar-nos que o inimigo do bem para perder-nos. Neste sentido, disse Jesus: “<em style="font-weight: inherit;">Não temais os que matam o corpo, e não podem matar a alma; mas temei antes aquele que pode lançar na geena a alma e o corpo</em>” (Mt 10, 28). O inimigo do bem não pode, se não lhe abrirmos a porta de nosso coração, penetrar no íntimo da nossa vontade, enquanto Deus é mais íntimo a nós mesmos do que nós o somos, e pode levar-nos, forte e suavamente, a realizar atos livres e meritórios os mais profundos e elevados, que serão o prelúdio da vida eterna (8).</span><span style="color: #000000;"> </span></p>
<p style="font-weight: inherit; font-style: inherit; text-align: right;"><strong><span style="color: #000000;">(<a href="http://permanencia.org.br/drupal/node/5527">La Vie Spirituelle, nº. 210.</a>)</span></strong></p>
<ol style="text-align: justify;">
<li><span style="color: #000000;">Salmo 6, 3: “<em style="font-weight: inherit;">tem piedade de mim, Senhor, porque sou enfermo”.</em></span></li>
<li><span style="color: #000000;"><em>Santo Tomás, Ia. IIae, q. 58, a. 5; 57, a. 5 ad 3; q. 77, a. 2, lembra, a propósito, o princípio aristotélico:  “<em style="font-weight: inherit;">Qualis unusquisque est talis finis videtur ei”. </em>Conforme cada um encontra-se disposto na sua sensibilidade, este ou aquele fim lhe parecerá conveniente. Donde o adágio: “<em style="font-weight: inherit;">Video meliora, proboque, deteriora sequor</em>”. Vejo o bem, aprovo-o, contudo, sigo a má inclinação.</em></span></li>
<li><span style="color: #000000;"><em>Ia. IIae, q. 77, a. 6.</em></span></li>
<li><span style="color: #000000;"><em>Ia. IIae, q. 77, a. 8.</em></span></li>
<li><span style="color: #000000;"><em>Ibid. ad 1um.</em></span></li>
<li><span style="color: #000000;"><em>Conc. Tridentinum, sess. VI, cap. II (Denzinger, 804) ex S. Augustino, <em style="font-weight: inherit;">De natura et gratia</em>, c. 43, nº. 50.</em></span></li>
<li><span style="color: #000000;"><em>Este artigo foi publicado no ano de 1937. O autor refere-se à Guerra Civil Espanhola. [N. do T.]</em></span></li>
<li><span style="color: #000000;"><em>Disto que, para haver pecado mortal, é preciso perfeito ou integral consentimento, muitos dizem hoje em dia: não há pecado mortal senão apenas quando queremos formalmente ofender a Deus, o que é raríssimo; outros questionam-se até mesmo se isso pode ocorrer. Não se trataria então de agir com deliberação contra um preceito em matéria tida como grave pela Igreja. Por isso, dizem não poder admitir que a obrigação de abster-se de carne às sextas-feiras seja imposta sob pena de pecado mortal e colocam os mais grosseiros pecados de sensualidade no mesmo nível do que a omissão das orações da manhã e da noite. Há nesse ponto ignorância religiosa grave e pecado de ignorância sobre pontos importantes, que se poderiam e deveriam conhecer.</em></span></li>
</ol>
<p style="text-align: justify;">
]]></content:encoded>
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		<title>PECADOS DA IGNORÂNCIA, FRAQUEZA E MALÍCIA</title>
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		<pubDate>Wed, 15 Nov 2023 14:00:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Dominus Est]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Espiritualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Fé]]></category>
		<category><![CDATA[Textos e Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Pe. Garrigou Lagrange]]></category>

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		<description><![CDATA[Garrigou Lagrange, O.P. Espalha-se, em alguns lugares, a opinião de que apenas o pecado de malícia é mortal, e que os pecados de ignorância e fraqueza jamais o são. É importante recordar, acerca deste ponto, o ensinamento da teologia, tal &#8230; <a href="http://catolicosribeiraopreto.com/pecados-da-ignorancia-fraqueza-e-malicia/">Continuar lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><strong><span style="color: #000000;"><em><img class=" alignright" src="https://permanencia.org.br/drupal/sites/default/files/imagens/Clero_eventos_pessoas/G-Lagrange_small.jpg" alt="" width="178" height="255" /><span style="color: #0000ff;"><a style="color: #0000ff;" href="https://permanencia.org.br/drupal/node/5527">Garrigou Lagrange, O.P.</a></span></em></span></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Espalha-se, em alguns lugares, a opinião de que apenas o pecado de malícia é mortal, e que os pecados de ignorância e fraqueza jamais o são. É importante recordar, acerca deste ponto, o ensinamento da teologia, tal como se encontra formulado por Santo Tomás de Aquino na sua <em>Suma Teológica </em>(Ia-IIae, q. 76, 77, 78).</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">O pecado de ignorância é o que provém de ignorância voluntária e culpável, chamada ignorância vencível. O pecado de fraqueza é o que provém de forte paixão, que diminui a liberdade e obriga a vontade a dar seu consentimento. Quanto ao pecado de malícia, é o que se comete com plena liberdade “<em>quasi de industria”</em>, com aplicação e frequentemente com premeditação, sem paixão, nem ignorância. Recordemos o que Santo Tomás nos ensina sobre cada um deles.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><strong>Os pecados de ignorância</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">No que diz respeito à vontade, a ignorância pode ser antecedente, consequente ou concomitante.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A <em>ignorância antecedente</em> é a que não é absolutamente voluntária, ela é dita “<em>moralmente invencível”. </em>Por exemplo, acreditando atirar em um animal numa floresta, um caçador mata um homem que não havia dado sinal algum de sua presença e que de modo algum se poderia supor estar onde estava. Neste caso, não há falta voluntária, mas somente pecado material.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A <em>ignorância consequente</em> é a que é voluntária, ao menos indiretamente, por efeito da negligência em instruir-se acerca daquilo que se pode e deve saber; é chamada ignorância <em>vencível</em>, pois seria possível, com aplicação moralmente possível, libertar-se dela; ela dá causa a uma falta formal, desejada, ainda que indiretamente. Por exemplo, um preguiçoso estudante de medicina que não se aplica aos estudos e consegue, de algum modo, colar grau como doutor, apesar de ignorar as coisas mais elementares de sua arte. Se lhe ocorre de acelerar a morte de alguns de seus pacientes, ao invés de lhes curar, não há nisso pecado diretamente voluntário, mas há certamente uma falta indiretamente voluntária, que pode ser grave e pode ir até o homicídio por imprudência ou grave negligência.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A <em>ignorância concomitante </em>é a que não é voluntária, mas acompanha o pecado de tal modo que, independente de existir ou não, ainda haveria pecado. É o caso do homem mui vingativo que deseja matar seu inimigo, e, um dia, por ignorância, mata-o de fato, julgando atirar num animal na floresta; este caso é manifestamente diferente dos dois precedentes.</span><span id="more-17435"></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Segue-se que a ignorância involuntária ou invencível não é pecado, mas que a ignorância voluntária ou vencível daquilo que devemos e podemos saber é pecado mais ou menos grave, conforme a gravidade das obrigações que contrariamos.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A ignorância voluntária ou vencível não pode escusar totalmente o pecado, pois houve negligência; ela apenas diminui a culpabilidade.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A ignorância absolutamente involuntária ou invencível escusa totalmente o pecado, suprime a culpabilidade. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Quanto à ignorância concomitante, não escusa o pecado, pois ainda que não houvesse, o pecado ocorreria. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A ignorância invencível é chamada “boa fé”; para que seja verdadeiramente invencível ou involuntária, é preciso não ser possível moralmente libertar-se dela, pela aplicação em conhecer os deveres. Ela não pode aplicar-se sobre os preceitos primeiros da lei natural: “é preciso fazer o bem e evitar o mal”; “não faça ao próximo o que não quer que faça contigo mesmo”; “não matarás”; “não furtarás”; “adorarás a um só Deus”. Ao menos pela constatação da ordem do mundo, pela contemplação do céu estrelado e do conjunto da criação, o homem tem facilmente uma probabilidade da existência de Deus, ordenador e legislador supremo; e quando tem essa probabilidade, deve buscar esclarecer-se mais e pedir luz; de outro modo, não está mais na verdadeira <em>boa fé </em>ou ignorância absolutamente involuntária e invencível. É preciso dizer o mesmo de um protestante, a quem se torna seriamente provável que o catolicismo é a verdadeira religião; deve buscar esclarecer-se pelo estudo e pedir a Deus luz; sem isso, como diz Santo Afonso, peca contra a fé pela negligência em tomar os meios necessários para chegar a ela.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Frequentemente, pessoas piedosas não prestam a devida atenção aos pecados de ignorância, que por vezes cometem, ao não considerar, como podem e devem, seus deveres religiosos ou seus deveres de estado, ou ainda os direitos e qualidades das pessoas, superiores, semelhantes ou subalternos com que se relacionam. Somos responsáveis não apenas pelos nossos atos desordenados, mas ainda pela omissão de todo o bem que deveríamos fazer e que de fato haveríamos de fazer, se não nos faltasse o verdadeiro zelo pela glória de Deus e salvação das almas. Uma das causas dos males atuais da sociedade está no esquecimento desta palavra do Evangelho: “os pobres são evangelizados”, na indiferença daqueles que têm mesmo o supérfluo pelos que carecem do necessário.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><strong>Pecados de fraqueza</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Chama-se pecado de fraqueza ao que provém de forte paixão, que força a vontade a dar seu consentimento. Neste sentido, o que está escrito no salmo (6, 3): “<em>Miserere mei, Domine, quoniam infirmus sum</em>” 1. A alma espiritual é enferma quando sua vontade cede à violência dos movimentos da sensibilidade. Perde, assim, a retidão do julgamento prático e da eleição voluntária ou da escolha, por causa do medo, da raiva ou do desejo. Assim, durante a Paixão, São Pedro, por medo, deixa-se levar até negar Cristo três vezes.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Quando, após viva emoção ou paixão, nos inclinamos a um objeto, a inteligência é levada a julgar o que nos convém, e a vontade a consentir de modo contrário à lei divina2. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">No entanto, é preciso distinguir aqui a <em>paixão </em>dita <em>antecedente</em>, que precede o consentimento da vontade, e aquela dita <em>consequente, </em>que se segue ao consentimento. A <em>paixão antecedente diminui a culpabilidade</em>, pois diminui a liberdade do julgamento e da escolha voluntária; é particularmente visível nas pessoas mui impressionáveis. Ao contrário, <em>a paixão consequente</em> ou voluntária não diminui a gravidade do pecado, mas a <em>aumenta</em>, ou antes, é sinal de que o pecado é muito voluntário, visto que a vontade suscita, ela mesma, este movimento desordenado da paixão, como ocorre com quem quer encolerizar-se para melhor manifestar seu desejo mau3. Ora, assim como uma boa paixão consequente, como o foi a santa cólera de Nosso Senhor expulsando os vendilhões do templo, <em>aumenta</em> o mérito, uma má paixão consequente aumenta o demérito.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">O pecado de fraqueza do qual falamos aqui é aquele pelo qual a vontade cede ao impulso de uma paixão antecedente e, por isso, sua gravidade é diminuída; mas isso não quer dizer que jamais se trate de pecado mortal. É verdadeiramente mortal quando a matéria é grave, unida à advertência e ao pleno consentimento que cede à paixão; é o caso do homicídio cometido sob o impulso da cólera4.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Pode-se resistir, sobretudo no início, ao movimento desregrado da paixão; e se, no início, não o resistimos como deveríamos, se não rezamos como seria preciso para obter o socorro de Deus, a paixão não é mais simplesmente antecedente, mas torna-se voluntária.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">O pecado de fraqueza, mesmo grave e mortal, é mais perdoável, porém, “perdoável”, não é absolutamente sinônimo de “venial” no sentido corrente da palavra5.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Mesmo os fiéis piedosos devem atentar para esse ponto, pois pode ocorrer entre eles movimentos de ciúmes não reprimidos, que podem lhes conduzir a faltas graves, por exemplo, a graves julgamentos temerários e a palavras e atos externos que sejam causa de divisão profunda, contrários tanto à justiça e à caridade.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Seria erro grosseiro sustentar que somente o pecado de malícia pode ser mortal, que só ele comportaria advertência suficiente e pleno consentimento, necessários, com a gravidade da matéria, para o pecado que dá a morte à alma e torna-a digna da morte eterna. Erro semelhante seria resultado de uma deformação da consciência, e contribuiria a aumentar essa deformação. Recordemos que podemos com facilidade resistir no início ao movimento desregrado da paixão, e que é nosso dever fazê-lo, bem como rezar para isto, conforme as palavras de Santo Agostinho, retomadas no Concílio de Trento: “Deus não pede jamais o impossível, mas, no que nos pede, adverte-nos a fazer o que podemos, e pedir-lhe o que não podemos”6. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><strong>Pecado de malícia</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Contrariamente aos pecados de ignorância e de fraqueza, o pecado de malícia é aquele no qual se escolhe o mal conscientemente; diziam os latinos <em>de industria</em>, isto é, de propósito deliberado, com cálculo, intenção e resolutamente, sem ignorância e mesmo sem paixão antecedente. Frequentemente, é premeditado. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Não quer isso dizer que se queira o mal pelo mal; pois, sendo o bem o objeto adequado da vontade, não pode esta querer o mal senão sob o aspecto de um bem aparente.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Ora, quem peca por malícia, com conhecimento de causa e má vontade, quer <em>conscientemente</em> um mal espiritual (por exemplo, a perda da caridade ou amizade com Deus) para possuir um bem temporal. Claro está que esse pecado, assim definido, difere, no grau de gravidade, do pecado de ignorância ou de fraqueza.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Não se deveria concluir, contudo, que todo pecado de malícia seja pecado contra o Espírito Santo, que é dos mais graves dos pecados de malícia, e que se verifica quando alguém rejeita, por desprezo, aquilo mesmo que o poderia salvar ou livrar do mal, por exemplo, quando se combate a verdade religiosa conhecida (<em>impugnatio veritatis agnitae) </em>ou quando, por ciúmes, deliberadamente, entristece-se das graças e do progresso espiritual do próximo.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Frequentemente, o pecado de malícia procede de vício engendrado por múltiplas faltas; mas pode dar-se mesmo na ausência desse vício; assim, o primeiro pecado do demônio foi pecado de malícia, não de malícia habitual, mas de malícia atual, de má vontade, da exaltação do orgulho.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Claro está que o pecado de malícia é mais grave que os de ignorância ou fraqueza, ainda que, por vezes, estes últimos sejam já mortais. É por isso que as leis humanas punem mais gravemente o homicídio premeditado do que o crime passional.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A gravidade maior dos pecados de malícia provém de serem mais voluntários que os demais, de normalmente procederem de um vício engendrado por faltas reiteradas, de se preferir com conhecimento um bem temporal à amizade divina, sem a escusa parcial de certa ignorância ou de forte paixão.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Nessas questões, há dois enganos possíveis. Uns inclinam-se a pensar que somente o pecado de malícia pode ser mortal; não percebem a gravidade de certos pecados de ignorância voluntária, e de certos pecados de fraqueza, nos quais há, contudo, material grave, suficiente advertência e pleno consentimento. Outros, ao contrário, não compreendem a gravidade de certos pecados de malícia executados friamente, com moderação afetada e um simulacro de bondade ou de tolerância. Assim, aqueles que combatem a verdadeira religião e afastam as crianças do pão da verdade divina podem pecar mais gravemente do que quem blasfema e mata outrem sob o impulso da cólera.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">O pecado é tanto mais grave quanto mais voluntário, esclarecido e procedente do amor desregrado de si mesmo – que chega por vezes até o desprezo de Deus, como diz Santo Agostinho.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Por outro lado, o ato virtuoso é tanto mais meritório quanto mais voluntário, livre e inspirado pelo amor de Deus e do próximo – amor que chega por vezes até o santo desprezo de si mesmo, como diz Santo Agostinho.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">É assim que quem reza com muito apego às consolações sensíveis merece menos do que quem persevera na oração sem consolação alguma, em contínua e profunda aridez; porém, no final dessa provação, seu mérito não terá diminuído, se sua oração proceder de igual caridade, que possuirá então uma feliz relação com a sensibilidade. Um ato interior de puro amor é mais valioso aos olhos de Deus que muitas obras exteriores inspiradas por menor caridade.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Em todas essas questões, trate-se do bem ou do mal, é preciso sobretudo estar atento ao que procede de nossas faculdades superiores: a inteligência e a vontade. Ou seja, ao ato da vontade realizado com pleno conhecimento de causa. Deste ponto de vista, se um ato mau, plenamente deliberado e consentido, como um pacto formal com o demônio, tem consequências formidáveis, um ato bom, como a oblação de si mesmo a Deus, feita de modo plenamente deliberado, consentido e frequentemente renovado, pode ter ainda maiores consequências na ordem do bem, pois o Espírito Santo é infinitamente mais poderoso que o espírito do mal, e pode fazer mais pela nossa santificação do que este para nossa perda. É bom refletir nessas coisas perante a gravidade dos acontecimentos atuais, em particular os que se passam em Espanha7 nesse momento. Assim como o amor de Cristo, morrendo por nós na Cruz, mais agradava a Deus do que todos os pecados reunidos o desagradavam, assim também o Salvador é mais poderoso para salvar-nos que o inimigo do bem para perder-nos. Neste sentido, disse Jesus: “<em>Não temais os que matam o corpo, e não podem matar a alma; mas temei antes aquele que pode lançar na geena a alma e o corpo</em>” (Mt 10, 28). O inimigo do bem não pode, se não lhe abrirmos a porta de nosso coração, penetrar no íntimo da nossa vontade, enquanto Deus é mais íntimo a nós mesmos do que nós o somos, e pode levar-nos, forte e suavamente, a realizar atos livres e meritórios os mais profundos e elevados, que serão o prelúdio da vida eterna 8.</span></p>
<p style="text-align: right;"><strong><span style="color: #000000;"><a href="https://permanencia.org.br/drupal/node/5527">(La Vie Spirituelle, nº. 210.)</a></span></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">1. Salmo 6, 3: “<em>tem piedade de mim, Senhor, porque sou enfermo”.</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><em>2. Santo Tomás, Ia. IIae, q. 58, a. 5; 57, a. 5 ad 3; q. 77, a. 2, lembra, a propósito, o princípio aristotélico:  “<em>Qualis unusquisque est talis finis videtur ei”. </em>Conforme cada um encontra-se disposto na sua sensibilidade, este ou aquele fim lhe parecerá conveniente. Donde o adágio: “<em>Video meliora, proboque, deteriora sequor</em>”. Vejo o bem, aprovo-o, contudo, sigo a má inclinação.</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><em>3. Ia. IIae, q. 77, a. 6.</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><em>4. Ia. IIae, q. 77, a. 8.</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><em>5. Ibid. ad 1um.</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><em>6. Conc. Tridentinum, sess. VI, cap. II (Denzinger, 804) ex S. Augustino, <em>De natura et gratia</em>, c. 43, nº. 50.</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><em>7. Este artigo foi publicado no ano de 1937. O autor refere-se à Guerra Civil Espanhola. [N. do T.]</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><em>8<a style="color: #000000;" href="https://permanencia.org.br/drupal/node/5527#footnoteref8_newh2zl">.</a> Disto que, para haver pecado mortal, é preciso perfeito ou integral consentimento, muitos dizem hoje em dia: não há pecado mortal senão apenas quando queremos formalmente ofender a Deus, o que é raríssimo; outros questionam-se até mesmo se isso pode ocorrer. Não se trataria então de agir com deliberação contra um preceito em matéria tida como grave pela Igreja. Por isso, dizem não poder admitir que a obrigação de abster-se de carne às sextas-feiras seja imposta sob pena de pecado mortal e colocam os mais grosseiros pecados de sensualidade no mesmo nível do que a omissão das orações da manhã e da noite. Há nesse ponto ignorância religiosa grave e pecado de ignorância sobre pontos importantes, que se poderiam e deveriam conhecer.</em></span></p>
]]></content:encoded>
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		<title>ALEGRIA DE SER FILHO DE DEUS</title>
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		<pubDate>Sat, 03 Dec 2022 14:00:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Dominus Est]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Espiritualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Fé]]></category>
		<category><![CDATA[Textos e Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Pe. Garrigou Lagrange]]></category>
		<category><![CDATA[Permanencia]]></category>

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		<description><![CDATA[Garrigou-Lagrange, O.P. [Nota da Permanência] Quando Garrigou-Lagrange escreveu estas linhas sobre a alegria que é preciso conservar no meio das tribulações, a sua França, “la douce France”, havia sido derrotada e ocupada pelos nazistas. Também a nós se aplicam estas &#8230; <a href="http://catolicosribeiraopreto.com/alegria-de-ser-filho-de-deus/">Continuar lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="" src="http://diocesedeapucarana.com.br/portal/userfiles/image/0.35432200%201599556706.jpg" alt="Artigo - Um Padre Rezando - D.A Online" width="238" height="295" /></p>
<p style="text-align: right;"><strong><span style="color: #000000;"><em>Garrigou-Lagrange, O.P.</em></span></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><strong>[Nota da <span style="color: #0000ff;"><a style="color: #0000ff;" href="https://permanencia.org.br/drupal/node/6218">Permanência</a></span>] Quando Garrigou-Lagrange escreveu estas linhas sobre a alegria que é preciso conservar no meio das tribulações, a sua França, “la douce France”, havia sido derrotada e ocupada pelos nazistas. Também a nós se aplicam estas reflexões, que vemos nossa Pátria na iminência de ser saqueada por revolucionários bolivarianos e nossa Igreja invadida por modernistas.</strong></span></p>
<p style="text-align: right;"><span style="color: #000000;"><em>“Disse-vos estas coisas, para que a minha alegria esteja em vós,<br />
e para que a vossa alegria seja completa” (Jo 15, 11)</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">As Sagradas Escrituras dizem-nos insistentemente que, nos tempos de provação, o verdadeiro católico deve tanto quanto possível confortar os aflitos, levar-lhes a paz e algo desta alegria divina que ergue os corações e lhes permite seguir viagem contra ventos e marés até o porto da salvação.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Convém, portanto, nas tristezas presentes, falar da alegria de sermos filhos de Deus e do dever de transmitir algo desta alegria aos que não a possuem.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Se, na tristeza comum, a alegria superficial é importuna, irritante, quando não exasperante, a alegria cristã, ao contrário, consola. Esta deveria ser a alegria do domingo, e o domingo a produz de fato quando, pela Missa, pela oração, torna-se verdadeiramente o dia do Senhor; ao contrário, para muitos, pela cessação do trabalho, torna-se o mais triste dos dias, porque não é santificado, porque não passa de um dia de distrações, dedicado a uma alegria puramente exterior, vazia e imbecil, da qual muitos não podem fazer parte, e que fatiga ao invés de repousar. Não sabem mais o que fazer de seu tempo, porque não o dão a Deus; eis uma prova pelo vazio ou em baixo relevo da necessidade de santificar o domingo.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Ao buscarmos tão-somente uma alegria inferior, nos privamos de outra singularmente mais preciosa.</span><span id="more-28690"></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Aprendamos com as Sagradas Escrituras e com os santos o que é a verdadeira alegria espiritual, vejamos como eles a conservaram em meio a sofrimentos, e então saberemos melhor o que fazer para transmiti-la aos demais.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Não se trata em absoluto da procura por consolações sensíveis, nem de sentimentalismo, que é a afetação de um amor que não se possui. O sentimentalismo está para a alegria espiritual da qual falamos como a bijuteria para o diamante.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><strong>O que é a verdadeira alegria espiritual?</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Compreenderemos sua natureza e valor se a compararmos com alegrias legítimas menos elevadas. Experimentamos uma alegria sensível diante de uma bela aurora ou, na primavera, diante do resplendor da natureza. Sentimos uma alegria superior ao considerarmos que somos os filhos de um homem de bem, de uma boa mãe, ao recordarmos as verdadeiras alegrias de uma família unida, alegria de irmãos que se amam, contentes por trabalhar juntos e por viver das mesmas tradições, dos mesmos pensamentos e afetos em vista de uma ação comum, verdadeiramente fecunda. Ainda nesta ordem, a alegria de sermos franceses, em meio às tristezas atuais, e de trabalhar para reerguer nossa pátria. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A alegria espiritual é de ordem ainda superior; é a alegria de ser filho de Deus pelo batismo, de ser amado por Ele como filho adotivo, que recebeu uma participação em sua vida íntima, e que tende a possuí-lo eternamente. É a alegria de estar na verdade, na verdade divina, de viver dela, de caminhar sob a direção da Providência de Deus, para que Ele reine cada vez mais em nós, no tempo e na eternidade.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Esta alegria espiritual não é precisamente uma virtude, mas fruto ou efeito da mais alta virtude, que é a caridade, ou o amor de Deus e das almas em Deus(1).</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">O amor de Deus nos regozija, em primeiro lugar, porque Deus é Deus, a própria Verdade, a Sabedoria, o Bem infinito, a Bondade suprema, a própria Santidade, a perfeita Beatitude.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">O amor de Deus nos regozija de Deus reinar nas almas, na nossa, na do próximo.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A caridade, enfim, nos faz possuirmos já a Deus na obscuridade da fé, pois está escrito: “quem permanece na caridade, permanece em Deus, e Deus nele” (1Jo 4, 16). Também o disse Nosso Senhor: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e nós viremos a ele, e faremos nele morada” (Jo 14, 23). E, no mesmo momento, Jesus nos prometeu o Espírito Santo, que efetivamente nos foi dado com a graça e a caridade no batismo, e mais ainda na confirmação. A Santíssima Trindade habita assim em toda alma em estado de graça, e ela se faz por vezes sentir como vida de nossa vida. Em certos momentos, como o diz São Paulo, “o mesmo Espírito dá testemunho ao nosso espírito, de que somos filhos de Deus” (Rom 8, 16). Dá testemunho inspirando em nós uma afeição toda filial, que é causa de uma santa alegria e nos faz dizer: “Pai!”. Não se trata de consolação sensível, nem de sentimentalismo, mas de uma alegria verdadeiramente divina pelo seu princípio e objeto.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">É tal a alegria espiritual, ao pensamento de que Deus é Deus, a Bondade mesma, que Ele reina em nós e nos justos, que se torna a vida de nossa vida, que nos chama a viver dele por toda eternidade.  Esta alegria surge do pensamento de que, exceção feita ao pecado, sob a direção da Providência, tudo vem do amor eterno.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A alegria espiritual é, de modo manifesto, fruto da caridade. Contrariamente, a tristeza desordenada e deprimente é efeito do amor desregrado de si mesmo, procede do egoísmo insatisfeito, do orgulho ferido, da vaidade ofendida. Quanto mais, numa alma, a caridade domina o egoísmo, mais desaparece esta tristeza perversa, mais a ela se substitui uma santa alegria.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Esta alegria não saberá, contudo, ser plena e perfeita como no céu, pois a caridade aqui embaixo se entristece ela mesma com o pecado que diminui o reino de Deus e conduz à perda das almas. Porém, apesar das tristezas da terra, os santos conservam, com a paz, uma desejada alegria espiritual, que transmitem aos outros, sem mesmo o perceberem.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">As Sagradas Escrituras nos falam diversas vezes desta alegria espiritual. Diz Jesus: “Disse-vos estas coisas para que a minha alegria esteja em vós, e para que a vossa alegria seja completa” (Jo 15, 11). São João Evangelista exorta seus discípulos para que tenham “a plenitude da alegria”, ao pensamento de que são filhos de Deus e que estão chamados a gozar dele eternamente(2). Os Salmos já diziam: “Laetamini in Domino et exsultate justi. – Justos, alegrai-vos no Senhor e exultai nele” (Sl 21, 11). São Paulo escreve aos Filipenses: “Gaudete in Domino semper, iterum dico vobis, gaudete – Alegrai-vos incessantemente no Senhor; outra vez vos digo, alegrai-vos” (Fl 4, 4).</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">O mesmo São Paulo chegará a ponto de dizer, “estou inundado de alegria no meio de todas as nossas tribulações” (2Cor 7, 4). Dizem os Atos dos Apóstolos de todos eles, “contentes por terem sido achados dignos de sofrer afrontas pelo nome de Jesus” (At 5, 41).</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Já se disse, como explicação destas palavras, “a alegria é o segredo gigantesco do católico”. Com efeito, não recua diante das maiores provas, quando, lembrando-se das promessas do seu batismo, diz a si mesmo: “Quero o que Deus Pai quer para mim, apenas o que quer, tudo o que quer, por mais duro que seja”. O católico conversa deste modo não consigo mesmo, mas com Deus, seu Pai e, como dizem as Escrituras, neste colóquio não há amargura: “In conversatione Dei non est amaritudo” (Sb 8, 16).</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A alegria cristã é pois a de possuir a Deus e de ser por Ele possuído. Por esta alegria, o verdadeiro católico dá aos demais o desejo de converter-se. Convém que repita amiúde esta palavra das Escrituras: “Eu também te ofereci alegre todas estas coisas, na simplicidade do meu coração” (1 Pr 29, 17). A verdadeira alegria é tender para a santidade do céu, com a certeza de que Deus, que jamais pede o impossível, nos oferece graças incessantes para lá chegar.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Os santos guardam esta alegria espiritual, sem contudo senti-la sempre de modo sensível, ou sequer de modo espiritual, mas guardam o bastante para transmiti-la aos outros, mesmo nas suas provações. Por quê? Porque o Espírito Santo, pela afeição filial que nas almas inspira por si, “dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus”. Recorda-lhes também “que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus” (Rom 8, 28), e para o bem dos que perseveram neste amor até o fim; tudo, mesmo as doenças, as contradições, os fracassos. Santo Agostinho acrescenta: mesmo as faltas, à condição de nos humilharmos por tê-las cometido, como o fez São Pedro após a terceira negação. Os santos entreveem cada vez mais nitidamente o bem superior pelo qual a Providência permite os males da vida presente. Este bem superior, que veremos a nu, nós o entrevemos progressivamente na medida de nossos méritos, e o merecemos cumprindo a palavra de Deus em vez de nos contentarmos em conhecê-la e admirá-la.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">São Francisco de Assis experimentava uma santa alegria quando se via menosprezado ou rechaçado. Também São Domingos, quando ridicularizado e maltratado pelos hereges do Languedoc, sentia-se mais semelhante a Nosso Senhor, que aceitou as humilhações da Paixão por amor a nós. Assim também São Bento-José Labre, Santo Cura D’Ars ou seu amigo, o padre Chevrier de Lyon, São João Bosco, que guardava em todas as suas provações essa santa alegria que levava às criancinhas pobres, que não tinham nenhuma.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A irmãzinha dos pobres lhes levava esta alegria, a irmãzinha da Assunção, todos os verdadeiros servidores e servas de Deus.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A Santíssima Virgem, nosso modelo, foi chamada “consolo dos aflitos”, “causa de nossa alegria”, e o coração de Jesus é chamado “delícia dos santos”.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><strong>Como transmitir esta alegria aos outros?  </strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Primeiro, é preciso cuidar de não os sobrecarregar com nossa própria tristeza e, se estamos abatidos, não os desencorajar. Importa dominar uma certa tristeza, assim como se resiste às tentações.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Evitemos também causar-lhes uma alegria enganosa, aprovando seus erros, seus desvios, suas omissões, sua falta de julgamento ou de energia. Isto seria uma falsa caridade, uma fraqueza, que lhes daria uma alegria mentirosa.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Levemos algo desta alegria espiritual aos que não têm o pão, a saúde, a vitalidade, aos detestados, aos mesquinhos, aos que não procuram Deus; façamos com que tenham vontade de procurá-lo. Demos Deus, aos que não o têm.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Então, Jesus nos dirá no último dia, “tive fome, e destes-me de comer; tive sede, estava enfermo, estava na prisão, e fostes visitar-me&#8230; todas as vezes que vós fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes”.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Demos algo desta alegria aos amargurados, lembrando esta palavra de São João da Cruz: “Lá, onde não há mais amor, semeai amor e colhereis amor”. Nas grandes trevas, uma voz nos diz: “Levanta e canta teu louvor na noite”.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Então, de nossas trevas bem suportadas, luz poderá brotar para outras almas.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">O bem-aventurado Henrique Suso, no seu livro “Sobre a Sabedoria Eterna” (3), escreveu belas páginas sobre os píncaros da alegria espiritual em meio a tribulações. Servindo-nos de suas próprias palavras – ou antes, das que ele põe na boca de Nosso Senhor – podemos resumi-la assim:</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">“Tanto mais duro o sofrimento, tanto mais doce o ter sofrido&#8230; O sofrimento, quando bem suportado, torna o homem amável, pois o faz semelhante a mim. A alegria do sofrimento (mesmo se não sentida, mas desejada) é tesouro escondido que jamais se poderá merecer. Se alguém se ajoelhasse diante de mim por cem anos pedindo-me a felicidade de sofrer, ainda não o teria merecido. De um homem terrestre, o sofrimento (suportado por amor) faz um homem celeste. Ao que sofre, o mundo torna-se estrangeiro, de sorte que minha ternura o envolve mais estreitamente. Os amigos do século afastam-se das provações, enquanto minhas graças o cercam mais e mais. É que tomo por amigos (íntimos) os que renegaram e abandonaram o mundo completamente&#8230; O sofrimento ressoará por toda a eternidade num dulcíssimo canto, em refrãos novos que não os poderão repetir os anjos, porque não sofreram.”</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Se Deus pudesse assombrar-se e admirar-se de algo, seria com alguns de seus filhos que, movidos por sua graça, chegam a ponto de carregar suas cruzes com alegria, conformando-se ao Senhor Jesus.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Isto deve nos levar a considerar de modo sobrenatural as faltas de respeito e mesmo o menosprezo a nosso respeito, se assim nos sucede(4). Conviria recebê-lo com uma alegria, se não sentida, ao menos desejada, e agradecer ao Senhor a graça que se encontra escondida nas humilhações a serem suportadas. Esquecemos amiúde de agradecer a Deus pelas cruzes que nos envia; são elas, contudo, bem necessárias ao nosso progresso. Vemo-lo em algumas que nos foram tão proveitosas.  Possamos nós não desperdiçar as que virão. O mundo, infelizmente, está cheio de cruzes perdidas, que não servem para nada, como foi a do mau ladrão. A verdadeira alegria espiritual é a de tender efetivamente para a santidade do céu, pelo caminho que o Senhor escolheu para nós, por penoso que seja em alguns momentos; é a alegria de tender para esta santidade com a certeza de que Deus não nos pede jamais o impossível, que Ele nos chama à vida eterna e que nos oferece incessantemente graças para lá chegarmos.</span></p>
<p style="text-align: right;"><strong><span style="color: #000000;">(La vie spirituelle nº. 262, fevereiro de 1942 &#8211; tradução: <span style="color: #0000ff;"><a style="color: #0000ff;" href="https://permanencia.org.br/drupal/node/6218">Permanência</a></span>)</span></strong></p>
<ol>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Cf. S. Tomás, IIa, IIae, q. 28.</span></li>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">1Jo 4.</span></li>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Ia. Parte, caps. 9 e 10 (Noutras edições e traduções, cap. 19)</span></li>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Quando São João da Cruz pedia a Nosso Senhor a recompensa “de sofrer e ser menosprezado por Ele” (no que foi prontamente ouvido), era uma graça muito grande a que desejava. Não é, com efeito, o menosprezo por si mesmo que desejava, mas a graça de suportá-lo com amor. Sem esta graça, o menosprezo, em si mesmo, não serviria em absoluto para fazê-lo crescer na caridade e glorificar a Deus.</span></li>
</ol>
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		<title>A OBRIGAÇÃO DE BUSCAR A PERFEIÇÃO DA CARIDADE</title>
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		<pubDate>Sat, 20 Aug 2022 14:00:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Dominus Est]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Espiritualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Fé]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Pe. Garrigou Lagrange]]></category>

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		<description><![CDATA[Pe. Garrigou-Lagrange, OP Estado e dificuldade da questão: não se está tratando da perfeição ínfima, que exclui apenas os pecados mortais, nem tão-somente da perfeição média, que exclui os mortais e os veniais plenamente deliberados, mas da perfeição propriamente dita, &#8230; <a href="http://catolicosribeiraopreto.com/a-obrigacao-de-buscar-a-perfeicao-da-caridade/">Continuar lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><span style="color: #000000;"><em><img class=" alignright" src="http://permanencia.org.br/drupal/sites/default/files/imagens/Piedade/garrigou-lagrange.jpg" alt="" width="210" height="292" /><span style="color: #0000ff;"><strong><a style="color: #0000ff;" href="http://permanencia.org.br/drupal/node/5456">Pe. Garrigou-Lagrange, OP</a></strong></span></em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Estado e dificuldade da questão: não se está tratando da perfeição ínfima, que exclui apenas os pecados mortais, nem tão-somente da perfeição média, que exclui os mortais e os veniais plenamente deliberados, mas da perfeição propriamente dita, que exclui imperfeições deliberadas e atos imperfeitos; logo, não é meramente o convite à perfeição propriamente dita pois, quanto a isso, não há dúvida: todos homens estão convidados à perfeição propriamente dita.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A questão versa sobre a existência de uma obrigação geral de todos católicos tenderem à perfeição da caridade. Não é, contudo, uma obrigação especial, cuja violação seria um pecado especial, como no estado religioso, mas de uma obrigação geral.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A dificuldade surge quando queremos conciliar certas sentenças de Nosso Senhor que, num primeiro momento, parecem contradizer-se.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Por um lado, Cristo aconselha o adolescente rico (Mt 19, 21): “<em>Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, e dá aos pobres&#8230; e vem e segue-me</em>”. Estas palavras – “<em>Se queres ser perfeito</em>” – parecem exprimir um conselho, não uma obrigação. Logo, todos os católicos não estão obrigados a buscar a perfeição; aparentemente, somente aqueles que já prometeram seguir os conselhos evangélicos estariam obrigados a buscar a perfeição (1). </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Por outro lado, declara Cristo a todos (Mt 5, 48): “<em>Sede pois perfeitos, como também vosso Pai celestial é perfeito”.  <a style="color: #000000;" href="http://permanencia.org.br/drupal/node/5456">(continue a ler)</a></em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">No <em>Comentário a S. Mateus</em>, São Tomás de Aquino explica essas palavras do Senhor dizendo: “à perfeição da excelência da vida estão mais obrigados os clérigos do que os leigos; à perfeição da caridade, porém, todos estão obrigados”, ou seja, estamos todos obrigados a buscá-la.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Além disso, na Suma Teológica (2), São Tomás de Aquino prova que, essencialmente, a perfeição consiste não nos conselhos evangélicos, mas nos Mandamentos, uma vez que o primeiro mandamento não tem medida: “<em>Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças, e com todo o teu entendimento” </em>(Lc 10, 27). E assim, segundo São Tomás, a perfeição da caridade recai sob o Mandamento como a um fim que se deve perseguir.</span><span id="more-14460"></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Santo Agostinho, São Tomás de Aquino e São Francisco de Sales sustentam que todos devem buscar a perfeição da caridade, cada um segundo a sua condição. Assim, a perfeição da caridade recai sob o Mandamento como a um fim. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Como, pois, conciliar estas palavras do Senhor: “<em>Se queres ser perfeito</em>” e “<em>Sede, pois, perfeitos”?</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A resposta verdadeira à questão assim apresentada, conforme o pensamento de São Tomás, parece foi respondida corretamente por Cajetano e Passerini na IIa IIae, q. 184, a. 3, por P. Barthier em seu livro, <em>De la perfection chrétienne et de la perfection religieuse</em>, e por P. A. Weiss, O. P., <em>Apologie des Christentums, </em>vol. 5, índex Vollkommenheit. Tratei dela longamente em <em>Perfection chrétienne et contemplation, t. I, </em>p. 215-244; e em <em>Les trois ages de la vie intérieure, </em>t. I, 267 sq.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><em>Solução: </em>a resposta está contida em quatro proposições:</span></p>
<ol style="text-align: justify;">
<li><span style="color: #000000;">Todos os católicos estão estritamente obrigados a amar a Deus apreciativamente sobre todas as coisas.</span></li>
<li><span style="color: #000000;">Todos devem buscar a perfeição da caridade, por força do supremo Mandamento, mas cada um conforme a sua condição: este no estado de matrimônio, aquele como irmão professo em uma ordem religiosa, e aquel’outro como sacerdote secular.</span></li>
<li><span style="color: #000000;">Ninguém, contudo, está obrigado a possuir em ato a caridade não-comum ou dos perfeitos.</span></li>
<li><span style="color: #000000;">Nem todos estão obrigados a buscá-la imediata e explicitamente pelo cumprimento dos conselhos evangélicos.</span></li>
</ol>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><strong>Primeira proposição</strong>: Todos os católicos estão estritamente obrigados a amar a Deus acima de tudo; é o Mandamento do Senhor (Mt 22, 37-39):”<em>Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu espírito. </em>Este é o máximo e o primeiro mandamento. O segundo é semelhante a este:<em> Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. </em>Assim também em Deuterônimo 6, 5; Lucas 10, 27 e Marcos 12, 30.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Logo, cada um está obrigado a amar a Deus <em>pelo menos apreciativa ou estimativamente</em>, se não intensivamente, acima de tudo, e mais do que a si mesmo. Nas palavras de São Tomás (IIa IIae, q. 184, a. 3 ad 2): “Não viola o preceito quem, de algum modo, atinge a perfeição do amor divino. O grau ínfimo do amor de Deus consiste em que não se ame nada acima, contra ou igualmente a Deus; quem faltar a este grau de perfeição, não cumpre o preceito de modo algum”.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Como nota o Pe. Barthier, I, 218, condenam-se neste preceito as liberdades modernas denominadas liberdade de consciência, liberdade de religião e liberdade de opinião, que atribuem os mesmos direitos à verdade e ao erro, ao bem e ao mal, como se Deus, que é a Verdade suprema e o Sumo Bem não tivesse direito estrito e imprescritível ao obséquio do nosso intelecto e da nossa vontade, e a ser amado acima de tudo. Por onde, reconhecer ou defender estas liberdades sem limite e sem subordinação a Deus é voltar as costas a Deus e agir contra Ele. E ainda, conservar-se neutro entre o liberalismo e o catolicismo equivale a amar algo tanto quanto a Deus. O amor de Deus, ainda que em grau ínfimo, deve dominar sobre todos os nossos afetos, como reza a fórmula de São Tomás de Aquino: “Não se ame nada acima, contra ou igualmente a Deus; quem faltar a este grau de perfeição, não cumpre o preceito de modo algum”.  </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Assim como se ama estimativamente a Deus acima de tudo, quando se quer evitar todo pecado mortal, assim a boa mãe católica, mesmo que ame intensivamente mais o seu filho que vê e toca, ama contudo estimativamente mais a Deus que ao seu filho.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><strong>Segunda proposição</strong>: <em>Todos devem buscar a perfeição da caridade, cada um conforme a sua condição </em>(Barthier, t. I, 419 e 315; cf. Passerini, <em>De Statibus hominum</em>, p. 758, n. 13; in IIa IIae, q. 184, a. 3).</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Esta proposição parece excessiva a muitos católicos que julgam erroneamente que apenas os sacerdotes ou os religiosos estão obrigados a progredir na caridade. Este é um erro muito difundido. Já outros estão prontos a admitir a veracidade desta proposição na teoria, mas não enxergam toda sua fecundidade na prática.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Vejamos: 1º. Qual o fundamento desta proposição na Escritura; 2º. Qual sua prova teológica. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">1º. Esta proposição aparece em termos equivalentes em diversas passagens das Sagradas Escrituras, por exemplo: “<em>Sede pois perfeitos, como também vosso Pai celestial é perfeito</em>” (Mt 5, 48); “<em>aquele que é justo, justifique-se mais</em>” (Ap 22, 11); assim em outros lugares do Novo Testamento, reunidos nas<em>Concordâncias</em> sob o verbete “crescer”: “<em>Crescei na graça e no conhecimento do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo</em>” (2 Pd 3, 18); “<em>Deixando pois toda a malícia&#8230; para, por meio dele, crescerdes para a salvação</em>” (1 Pd 2, 2); “<em>cresçamos em todas as coisas naquele que é cabeça, o Cristo</em>” (Ef 4, 15); “<em>frutificando em toda a boa obra e crescendo na ciência de Deus</em>” (Cl 1, 10); “<em>deixando de discorrer sobre os primeiro rudimentos acerca de Cristo, elevemo-nos a coisas mais perfeitas</em>” (Hb 6, 1).</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A partir destas diversas passagens, São Tomás elaborou esta fórmula, que expôs em seu <em>Comentário sobre a Epístola aos Hebreus</em>, cap. VI, 2: “No que toca o progresso à perfeição, deve o homem sempre esforçar-se por chegar ao estado perfeito”. E faz uma objeção a si mesmo: <em>A perfeição consiste nos conselhos, pois, está dito nas Escrituras: “</em>Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens,<em> etc.“ (Mt 19, 21). Ora, nem todos estão obrigados aos conselhos. Sendo assim, como diz S. Paulo: “</em>elevemo-nos a coisas mais perfeitas<em>”?</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">São Tomás responde no mesmo lugar: “Dupla é a perfeição: uma <em>exterior</em>, que consiste nos atos exteriores que são sinais das coisas interiores, como a virgindade ou a pobreza voluntária. Esta não obriga a todos. Outra é a perfeição <em>interior</em>, que consiste no amor de Deus e do próximo, segundo aquilo da Escritura: “<em>Sobretudo, porém, tende caridade, que é o vínculo da perfeição</em>” (1Cl 3, 14) e a esta perfeição (isto é, à perfeição da caridade) nem todos estão obrigados a tê-la, mas <em>todos estão obrigados a buscá-la, </em>pois <em>se alguém não quisesse amar mais a Deus, não faria o que a caridade exige”. </em>São Tomás cita a palavra de São Bernardo: “Na via que leva a Deus, quem não progride, regride”. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">2º. A proposição <em>pode ser provada teologicamente</em> de dois modos: a) tomando como ponto de partida o preceito da caridade; b) ou o estado da caridade no homem peregrino.<strong>a) Tomando como ponto de partida o preceito da caridade</strong> (3): Como o primeiro Mandamento não tem medida, “<em>Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu espírito</em>”, segue-se que a perfeição da caridade é preceituada como fim. Disto se deduz, diz São Tomás (4), que “todos, tanto seculares como religiosos, estão obrigados a fazer de algum modo tudo que podem fazer de bom; de fato, para todos vale aquela passagem: “<em>Faze com presteza tudo quanto pode fazer a tua mão</em>” (Ecle 9, 10). Há um certo modo de cumprir este preceito, pelo qual se evita o pecado: se o homem fizer o possível, conforme as exigências do seu estado, com a condição de que não despreze a excelência em suas ações, sem a qual a alma se levanta contra o progresso espiritual.”<strong> </strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Todo este artigo (art. 3 q. 184, IIa IIae) deve ser lido com grande atenção — contém virtualmente tudo o que em seguida diremos.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><strong>b) Também se pode provar tomando como ponto de partida o estado da caridade no homem peregrino</strong>. Ora, assim como a caridade do peregrino tende, por si mesma, à caridade da pátria, assim a graça é a semente da glória. Diz Santo Tomás: “A caridade, quando fortificada, aperfeiçoa-se” (5). Esta vida sobrenatural da caridade existe primeiro em estado de infância, depois, de adolescência e, finalmente, de adulto. Esta tendência, por si mesma, pertence à natureza da via, caso contrário, já não seria a via para um término, mas o próprio término. Como diz o Evangelho: “Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela.” (Mt 7, 13). Ora, caminhar espiritualmente é progredir (6). Do mesmo modo, no Evangelho, a caridade é comparada à semente ou grão de mostarda, que deve crescer, ou aos talentos. E nesta última Parábola (Mt 25, 25) diz o senhor daquele que recebera um talento e o escondera na terra: “Tirai-lhe pois o talento, e dai-o ao que tem dez talentos. Porque ao que tem, dar-se-lhe-á, e terá em abundância; mas ao que não tem, tirar-se-lhe-á até o que julga ter”. Ao que não dá fruto, se lhe subtrai. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Aplica-se isto de diversos modos aos iniciantes, aos aproveitados e mesmo aos perfeitos, dos quais diz São Tomás: “quanto mais se dirigem para o fim, mais devem crescer” (Heb. C. X, lect. 2)</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><em>Objeção</em>. Alguém poderá objetar: esta dedução não está certa, pois São Tomás diz: “Não é transgressor do Mandamento quem não o cumpre do melhor modo, desde que o cumpra de algum modo” (7). Assim, nem todos católicos estão obrigados a buscar caridade maior do que tem.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><em>A resposta a esta objeção</em> tira-se da própria consideração dos Mandamentos (8):</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">1º. A perfeição da caridade incide no Mandamento da caridade não como matéria, mas como fim a ser perseguido; por outro lado, este Mandamento não tem medida, por isso aquilo que é superior [ou seja, a perfeição da caridade], permaneceria apenas como conselho, o que vai contra a fórmula do Mandamento, como demonstrado por São Tomás (9). Logo, a perfeição da caridade é de preceito para todos, não como imediatamente adquirida, mas como o fim ao qual cada um, conforme sua condição, deve tender.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">2º. De modo algum dispor-se ao progresso da caridade significaria faltar a todo ato de caridade, o que seria contra o preceito, pois todos os católicos estão obrigados a fugir de todo pecado, seja mortal seja venial; isto não pode acontecer sem atos meritórios, com os quais a alma dispõe-se ao progresso ou mesmo cresce em caridade. Ao menos aos domingos, todos os católicos devem assistir a Missa e praticar atos de religião e de caridade para com Deus.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><strong>Terceira proposição</strong>: Ninguém está obrigado a possuir a caridade não-comum ou dos perfeitos (10).</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Basta que os iniciantes tendam à caridade dos aproveitados e os aproveitados, à dos perfeitos, cada um segundo a sua condição; em qualquer idade da vida espiritual existem muitas gradações.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Para a salvação basta certamente <strong>que se morra</strong> em estado de graça, ainda que no seu menor grau. Isto é dito de modo muito claro por São Tomas na Suma Teológica (11),  em que se diz que a perfeição necessária à salvação é a que exclui o pecado mortal. E noutro lugar, diz que existe “uma perfeição de <em>supererrogação</em>, quando alguém adere a Deus além do estado comum, o que se faz tirando o coração das coisas temporais” (12), isto é, observando efetivamente os três conselhos. Os conselhos não obrigam, os preceitos obrigam.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><strong>Quarta proposição</strong>: <em>Nem todos católicos estão obrigados a buscá-la explicitamente, isto é, lançando mão dos meios imediatamente proporcionais à perfeição da caridade</em>. Nem todos são convidados a ela individual ou imediatamente (13). Mas devem evitar todos os pecados veniais, crescer na caridade e, se assim o fizerem, serão chamados não apenas remota, mas proximamente, de modo ainda mais eficaz, a uma alta perfeição.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Ensina São Tomás que a perfeição da caridade recai sob o preceito, mas como um fim ao qual é preciso tender <em>de algum modo</em>, crescendo na caridade(14). Contudo, não é necessário a todos e a cada um tender a ela explicitamente, usando os <em>meios</em> <em>imediatamente proporcionados</em> à alta santidade, que suscitam a heroicidade das virtudes, ainda que todos devamos, surgida a ocasião, aceitar o martírio antes do que renegar a fé.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Ainda segundo São Tomás(15), os dons do Espírito Santo são necessários à salvação, mas não afirma o mesmo  sobre os graus mais altos dos dons, nem da alta contemplação infusa. Todos os cristãos devem aspirar não à prática efetiva dos três conselhos, mas ao <em>espírito dos conselhos –</em> ao espírito de abnegação.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><strong>De onde, pois, fica a conclusão principal</strong>: Todos os católicos, cada um segundo a sua condição, estão obrigados a tender a uma caridade maior, sempre agindo conforme o motivo sobrenatural da caridade, de acordo com as palavras do Apóstolo (Cl 3, 17): “<em>Tudo o que fizerdes, em palavras ou por obras (fazei) tudo em nome do Senhor Jesus Cristo, dando por ele graças a Deus Pai</em>.”</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Todavia, os que pecam contra os preceitos não cometem um pecado especial contra a perfeição, que é diferente dos demais pecados, pois esta obrigação é geral, e não especial.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><strong>Porventura cada católico em particular é convidado a observar alguns dos conselhos, conforme a sua condição? </strong>– Sempre: é muito difícil observar todos os preceitos sem seguir ao menos alguns dos conselhos, proporcionalmente à condição de cada um. Estes conselhos nos levam a evitar imperfeições que dispõem de modo imediato aos pecados veniais, e a abraçar o bem que a cada um convém. Assim, além de ouvir a Missa nos dias de domingo, que é de preceito, são muito úteis algumas orações que não são de preceito. No dizer do padre Barthier: “É raro encontrar um católico fiel a todos os preceitos secundários quando neglige toda prática dos conselhos evangélicos” (16).</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><strong>Porventura cada católico em particular é convidado a seguir os três conselhos em geral. </strong>– Não. Pois nem todos são chamados a vida religiosa. Cada um deve trabalhar, no entanto, para que tenha o espírito dos conselhos, isto é, o espírito de abnegação. Pois disse o Cristo (Mt 19, 12): “Nem todos compreendem esta palavra, mas (somente) aqueles a quem foi concedido. Porque há eunucos que nasceram assim do ventre de sua mãe; e há eunucos a quem os homens fizeram tais; e há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por amor do reino dos céus. Quem pode compreender (isto) compreenda.” Comenta São Tomás: “que não convenha casar-se é verdadeiro para alguns, mas não para todos, pois nem todos possuem tanta virtude para a vida de castidade; mas foi dado a alguns, não por si mesmos, mas pelo dom graça. Como aquilo das Escrituras (Sb 8, 21): ‘Sabia que não podia obter a sabedoria, se Deus ma não desse’, que o homem viva na carne mas não segundo a carne, não vem do homem, mas de Deus”(17). Assim, como diz São Tomás, comentando o Evangelho de São Mateus, todo homem está obrigado, cada um na sua condição, a buscar “o melhor pelo afeto” (não pelos atos); “pois, quem não quisesse ser sempre melhor, não o desejaria sem menosprezo”. Cf. Rm 6, 3-13.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><strong>De onde, pois, fica a conclusão principal</strong>: <em>Todos os católicos, cada um segundo a sua condição, estão obrigados a tender a uma caridade maior.</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><strong>Corolários:</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">1º Na via de Deus, não progredir é regredir, pois há o dever de progredir: para o menino há uma lei natural de crescimento, caso contrário, tornar-se-ia uma homenzinho disforme;  uma carroça que permanecesse demasiado nas postas se atrasaria.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">2º O progresso da caridade deve ser acelerado; como diz São Tomás: “o movimento natural (v. g. uma pedra que cai), quanto mais se aproxima do seu término, mais se torna veloz. Ora, a graça inclina ao modo da natureza, logo, quem vive na graça, quanto mais se aproxima do fim, tanto mais rapidamente deve crescer” (18). (Em outra obra, <em>L´amour de Dieu et la Croix de Jésus, </em>t. I 150-162, explicamos este corolário longamente, aplicando-o à santa comunhão e ao progresso da caridade na vida da Santíssima Virgem). </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">3º<em> </em>Se a caridade perfeita é o fim do preceito (ou recai sob o preceito como fim), oferecem-se a nós graças atuais sempre maiores, proporcionadas a este fim; pois Deus não pede o impossível. Cristo disse (Mt 5, 48): “<em>Sede pois perfeitos, como também vosso Pai celestial é perfeito</em>”. Do mesmo modo, São Paulo (Ts 4, 3): “<em>Porquanto esta é a vontade de Deus, a vossa santificação</em>”; (Ef 1, 4) “<em>nos acolheu antes da criação do mundo, por amor, para sermos santos e imaculados diante dele</em>” – Por isso, devemos esperar a obtenção desse fim, e jamais dizer que “a humildade nos proíbe almejar algo tão elevado”. Assim, a caridade perfeita, a qual se dá na união transformante, como disposição perfeita à visão beatífica, aparece como o auge do progresso normal da caridade ou da graça batismal.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Demonstramos de modo suficiente que a perfeição cristã consiste essencialmente nos preceitos e que a perfeição da caridade recai sob o supremo preceito, não como matéria nem como coisa a ser imediatamente conseguida, mas como fim ao qual todos devem tender, cada um segundo a sua condição; este no matrimônio, aquele na vida sacerdotal ou como religioso (19).</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Por isso, a perfeição cristã está apenas acidental e instrumentalmente nos conselhos evangélicos propriamente ditos, como meios para se atingir a santidade de maneira mais fácil e breve.. Porém, mesmo sem a prática efetiva dos conselhos, uma pessoa no estado de matrimônio, por ex., pode ser santo, desde que tenha o espírito dos conselhos e esteja pronto a observá-los, se necessário, v. g, para conservar a castidade absoluta após a morte do cônjuge, e a pobreza, em caso de ruína.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Para complementar esta doutrina notamos que, quando se compara o conselho com o preceito, diz-se que o conselho é “um bem superior”; isso não significa que seja um bem superior à obra do preceito, pois a caridade em grau elevado recai também sob o preceito como fim, e o martírio pode vir a ser de preceito, dada a ocasião. A expressão “um bem superior” contrapõe-se aos atos livres, logo: </span></p>
<ul style="text-align: justify;">
<li><span style="color: #000000;">É melhor a pobreza consagrada a Deus do que o uso legitimo das riquezas;</span></li>
<li><span style="color: #000000;">É melhor a castidade absoluta consagrada a Deus do que o uso legítimo do matrimônio;</span></li>
<li><span style="color: #000000;">É melhor a obediência religiosa do que o uso legítimo da nossa liberdade.</span></li>
</ul>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Isto é confirmado pela divisão dos conselhos dada por São Tomás na Suma Teológica (20). </span></p>
<p style="text-align: right;"><span style="color: #000000;"><strong>Tradução: <a href="http://permanencia.org.br/drupal/node/5456">Permanência</a></strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Fonte: <em>De Sanctificatione sacerdotum, secundum nostri temporis exigentias</em>.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">[Romae] Angelicum [1946]. 168 p., capítulo I.</span></p>
<ol style="text-align: justify;">
<li><span style="color: #000000;">Sobre esta dificuldade, ver <em>Suma Teológica</em>IIa IIae, q. 184, a. 3 ad 1.</span></li>
<li><span style="color: #000000;"><em>Ibidem</em>.</span></li>
<li><span style="color: #000000;">IIa IIae, q. 184, a. 3, argumento “em contrário” e  corpo do artigo.</span></li>
<li><span style="color: #000000;">IIa IIae, q. 186, a. 2 ad 2.</span></li>
<li><span style="color: #000000;">IIa IIae q. 24, a. 9.</span></li>
<li><span style="color: #000000;">S. Tomás, <em>Comentário à Epístola aos Efésios</em>, 4, 6.</span></li>
<li><span style="color: #000000;">IIa IIae, q. 184, a. 3 ad 2.</span></li>
<li><span style="color: #000000;">Barthier, op. cit., I, 317.</span></li>
<li><span style="color: #000000;">II<sup>a</sup>II<sup>ae</sup>, q. 184, a. 3.</span></li>
<li><span style="color: #000000;">Barthier, I, 279 sq.</span></li>
<li><span style="color: #000000;">IIa IIae, q. 184, a. 2.</span></li>
<li><span style="color: #000000;">Comm. supra Ep. I ad Phil. c. III, lect. 2 S.</span></li>
<li><span style="color: #000000;">Barthier, I, 281; Santo Tomas in Ep. ad Hebr. c. VII lect. 1</span></li>
<li><span style="color: #000000;">IIII, q. 184, a. 3.</span></li>
<li><span style="color: #000000;">III, q. 68, a. 2</span></li>
<li><span style="color: #000000;">Barthier, II, 219.</span></li>
<li><span style="color: #000000;">Cfr. III, q. 108, a. 4 ad 1.</span></li>
<li><span style="color: #000000;">Ep. ad Hebr X, 25.</span></li>
<li><span style="color: #000000;">II-II, 183, 3</span></li>
<li><span style="color: #000000;">I<sup>a</sup>II<sup>ae</sup>, q. 108, a. 4.</span></li>
</ol>
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		<title>COMO DEVEMOS NOS ABANDONAR À PROVIDÊNCIA</title>
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		<pubDate>Sat, 30 Oct 2021 13:00:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Dominus Est]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Espiritualidade]]></category>
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		<category><![CDATA[Textos e Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Pe. Garrigou Lagrange]]></category>
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		<description><![CDATA[Reginald Garrigou-Lagrange, O. P. Em outro momento, disséramos porque devíamos nos confiar e abandonar à Providência: por causa de sua sabedoria e bondade, temos de sempre nos dirigir a ela, de corpo e alma, sob a condição do cumprimento do deveres cotidianos &#8230; <a href="http://catolicosribeiraopreto.com/como-devemos-nos-abandonar-a-providencia/">Continuar lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><span style="color: #0000ff;"><strong><em><img class="aligncenter" src="http://1.bp.blogspot.com/-kz7bLeajQ7s/UZAoQ1BBYeI/AAAAAAAAATI/u1S3Wb9vQzg/s640/946635_583158598383837_791836890_n.jpg" alt="Resultado de imagem para ajoelhado igreja&quot;" width="383" height="286" /><a style="color: #0000ff;" href="https://permanencia.org.br/drupal/node/5448">Reginald Garrigou-Lagrange, O. P.</a></em></strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Em outro momento, disséramos porque devíamos nos confiar e abandonar à Providência: por causa de sua sabedoria e bondade, temos de sempre nos dirigir a ela, de corpo e alma, sob a condição do cumprimento do deveres cotidianos e da lembrança de que, se permanecermos fiéis nas pequenas coisas, obteremos a graça para o sermos nas grandes.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Vejamos agora como devemos nos confiar e abandonar à Providência, segundo a natureza dos acontecimentos que dependem ou não da vontade humana, do espírito desse abandono e das virtudes em que se deve inspirar.</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #000000;"><strong>DOS DIFERENTES MODOS DE SE ABANDONAR À PROVIDÊNCIA </strong></span><span style="color: #000000;"><strong>SEGUNDO A NATUREZA DOS ACONTECIMENTOS(</strong>1)</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Para entender esta doutrina da santa indiferença, convém notar, como amiúde o fazem os autores espirituais2, que o abandono não se deve exercer do mesmo modo em face dos acontecimentos que não dependem da vontade humana, das injustiças dos homens e das faltas e suas conseqüências.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Caso sejam fatos que não dependam da vontade humana, como acidentes de impossível previsão, doenças incuráveis, o abandono nunca seria demais. Seria inútil a resistência, e só serviria para nos infelicitar; por sua vez, a aceitação em espírito de fé, confiança e amor conferirá grandes méritos a esses sofrimentos inevitáveis3</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Em circunstâncias dolorosas, cada vez que se diga <em style="font-weight: inherit;">fiat</em>, haverá novos méritos; a verdadeira provação tornar-se-á santificante. Mais ainda, no abandono lucraremos as provações possíveis, que talvez não se abatam sobre nós, como lucrou Abraão ao se preparar com perfeito abandono para a imolação do filho, a qual o Senhor depois não mais exigiu. A prática do abandono modifica as provações atuais ou futuras em meios de santificação, e tanto mais quanto for tal prática inspirada por um imenso amor a Deus.</span><span id="more-18611"></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Caso sejam sofrimentos provindos da injustiça dos homens, da malícia, dos maus atos, das calúnias, que fazer? Falando acerca das injúrias, das admoestações imerecidas e afrontas, das detrações que atingem nossa pessoa, diz São Tomás4 que é mister estar preparado para suportá-las com paciência, segundo as palavras de Nosso Senhor: “Se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra” (Mt. 5, 39). Algumas vezes, acrescenta ele, convém responder, seja pelo bem de quem insulta, para reprimir sua audácia, seja para evitar o escândalo que poderia nascer das detrações ou calúnias. Se acreditamos no dever da resposta e assim no da resistência, façamo-lo recomendando-nos ao Senhor para a felicidade da empresa.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Em outras palavras, devemos lamentar e reprovar tais injustiças, não porque ferem o amor-próprio ou o orgulho, mas porque são ofensa a Deus e comprometem a salvação de culpados e escandalizados. No que respeita a nós, devemos vislumbrar na humana injustiça a justiça divina que nos deu ocasião de expiar outras faltas, reais, que ninguém nos reprova. Convém considerar nessa provação a misericórdia divina, que por isso quisera nos separar das criaturas, livrar das afeições desordenadas, do orgulho, da tibieza, defrontando-nos com a necessidade premente de recorrer à oração de súplica fervorosa. Por vezes, as injustiças são, no ponto de vista espiritual, como cortes de bisturi dolorosíssimos, mas libertadores. Os sofrimentos causados devem mostrar o preço da justiça verdadeira, para nos inclinar não apenas a praticá-la em face do próximo, mas engendrar a beatitude nos que tem sede e fome de justiça e serão saciados – como consta no Evangelho.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">O desprezo dos homens, em lugar de produzir a perturbação ou amargura, pode ser grandemente salutar, e revelar a vaidade da glória humana, em contraste com a beleza da glória divina, como bem entenderam os santos. Esse é o caminho que leva à verdadeira humildade, e faz aceitar e amar o ser tratado como pessoa digna de desprezo.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Finalmente, caso sejam inconvenientes de outros gêneros, resultados não da alheia injustiça contra nós, mas de nossas próprias faltas, imprudências ou fraquezas, que fazer?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Dentre as faltas e suas conseqüências, há de se distinguir o que existe de desordenado, de culpável e de humilhação salutar. A despeito do que diga o amor-próprio, não saberíamos penitenciar o bastante o desregramento da alma como injúria feita contra Deus e contra a mesma alma, não raro com prejuízo da alma do próximo. Quanto à humilhação salutar que daí resulta, devemos aceitá-la com total abandono, como se diz no Salmo 118, 71-75: “Bonum mihi, quia humiliasti me, Domine, ut discam justificationes tuas&#8230; Cognovi, Domine, quia aequitas judicia tua, et in veritate tua humiliasti me&#8230; – Foi-me bom ter sido afligido, para que aprendesse os teus estatutos. Melhor é para mim a lei da tua boca do que milhares de outro ou prata. As tuas mãos me fizeram e me formaram; dá-me inteligência para entender os teus mandamentos. Os que te temem alegraram-se quando me viram, porque tenho esperado na tua palavra. Bem sei eu, ó Senhor, que os teus juízos são justos, e que segundo a tua fidelidade, me afligiste”.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A humilhação que resulta das faltas é o verdadeiro remédio contra a estima exagerada de nós mesmos, estima conservada malgrado o desapreço ou desprezo que outrem nos manifesta. Sob a humilhação que vem de fora, podemos endurecer por orgulho, queimar-nos o incenso que nos é recusado. É uma das formas mais sutis e perigosas do amor-próprio e do orgulho. Quer corrigir-nos a misericórdia divina, por meio da humilhação oriunda das próprias faltas; em sua bondade, ele as faz se disputarem contra si, de modo a avançarmos; deste modo, enquanto nos aplicamos, é forçoso aceitar as humilhações com abandono perfeito. Bonum mihi, quia humiliasti me, Do­mine&#8230; Esta é a via que conduz à prática da palavra profunda da Imitação, tão fecunda para quem realmente a compreende. Amare nesciri et pro nihilo reputari: Amar ser ignorado e reputado como nada. Há de se viver dessa doutrina, segundo a natureza dos acontecimentos, dependam eles ou não de nós.</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #000000;"><strong>COMO SE DEVE ABANDONAR À PROVIDÊNCIA?</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Como dizem os quietistas, seria este um espírito que amesquinha a esperança de salvação, sob pretexto de alta perfeição?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Muito ao contrário, deve este ser um grande espírito de fé, de confiança e de amor.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A vontade de Deus, traduzida em seus mandamentos, é de que esperemos nele, obrando com confiança a nossa salvação, quaisquer que sejam os obstáculos; essa vontade está no domínio da obediência, e não no do abandono. A vontade de abandono respeita ao bel prazer da vontade de Deus, com relação ao futuro incerto e aos fatos que acontecem diariamente no curso da vida, como a saúde, a doença, o sucesso e os infortúnios5.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Sob o pretexto da perfeição, sacrificar a salvação, a beatitude eterna, seria algo absolutamente contrário à inclinação natural à felicidade, inclinação que, semelhante à nossa natureza, vem de Deus. Seria contrário à esperança cristã, não apenas àquela dos fiéis, mas a dos santos que, durante as maiores provações, heroicamente esperaram “contra toda esperança humana”, segundo aquilo de São Paulo, quando tudo parecia perdido. Enfim, tal sacrifício da beatitude eterna seria contrária a mesma caridade cristã, que nos faz amar a Deus por si mesmo, e desejá-lo possuir para glorificá-lo pela eternidade.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A inclinação natural, que vem de Deus e nos faz desejar a felicidade, não é desordenada, pois já ela impulsiona o amar a Deus, soberano bem, mais que a nós mesmos. Demonstrou-o São Tomás: Assim, disse ele, no organismo a mão está naturalmente inclinada para amar o todo acima de si, e caso seja necessário, para se sacrificar. Assim a galinha, por instinto, junta os pintinhos sob as asas, como disse Nosso Senhor, e caso seja necessário, se sacrifica para preservá-los do gavião; porque ama inconscientemente o bem da espécie, mais que a si mesma. Essa inclinação natural existe no homem, sob uma forma superior. Amando o bem do que é superior em si, o homem ama mais ainda o Criador; cessar de querer a perfeição e a salvação é desviar-se de Deus. Não há como sacrificar o desejo de salvação ou de beatitude eterna, sob o pretexto de alta perfeição, como pensaram os quietistas.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Longe disso, o abandono a Deus é exercício excelente das três virtudes teologais, da fé, da esperança e da caridade, por assim dizer mescladas uma nas outras.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">É verdade afirmar que Deus purifica o desejo de salvação, o amor-próprio que nele se mescla, por meio das incertezas que ele permite nos acometam, obrigando-nos a amá-lo mais à puridade.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">É preciso abandonar-se a Deus com espírito de fé, acreditando que, como diz São Paulo (Rm. 8, 28), tudo concorre para o bem na vida daqueles que amam a Deus e que perseveram no seu amor. Este ato de fé é o mesmo do santo homem Jó, que ao ficar privado dos bens e dos filhos, permaneceu submisso a Deus, ao declarar: O Senhor deu, o Senhor tirou, que seja louvado o nome do Senhor (Jó 1, 21).</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Foi desta forma que Abraão preparou-se para obedecer a Deus, que lhe ordenava a imolação do filho; e foi com grande fé e boa vontade que abandonava o devir de sua raça à vontade divina. Recorda-o São Paulo, ao escrever na Epístola aos Hebreus 11, 17: “Pela fé ofereceu Abraão a Isaque, quando foi provado; sim, aquele que recebera as promessas ofereceu o seu unigênito. Sendo-lhe dito: Em Isaque será chamada a tua descendência, considerou que Deus era poderoso para até dentre os mortos o ressuscitar”.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Claro, nossas provações são bem menores, apesar de parecer às vezes pesadas, por causa da fraqueza.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Pelo menos, a exemplo dos santos, acreditamos que o Senhor em tudo obra o bem, seja enviando a humilhação e a secura, seja nos cumulando de honrarias e consolações. Como nota o pe. Piny, não há fé maior e mais viva do que acreditar que Deus dispõe tudo para o bem das almas, mesmo que pareça destruí-las, e lhes desfazer os melhores desejos; mesmo que permita a calúnia, a degradação irreversível da saúde ou coisas ainda mais dolorosas. Eis uma grande fé, pois é acreditar no que parece menos crível: que Deus eleva ao rebaixar; e não somente de modo abstrato e teórico, senão que de modo prático e vivido. É experimentar o que diz o Evangelho: “Quem se eleva (como o fariseu) será humilhado; quem se humilha (como o publicano) será elevado” (Lc. 18, 14). É viver a palavra do Magnificat: “Deposuit potentes de sede, et exaltavit humiles; esurientes implevit bonis, et divites dimisit inanes – O Senhor abateu os orgulhosos, e elevou os humildes; encheude bens os famintos, e os ricos despediu-os com as mãos vazias” (Lc. 1, 52). Devemos todos ser pequenos pela humildade, e famintos dum vivo desejo pela verdade divina, que é o verdadeiro pão da alma.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Cumprindo os deveres cotidianos, devemos nos abandonar ao Senhor com espírito varonil de fé. É mister fazê-lo com confiança filial em sua paternal bondade. A confiança (<em style="font-weight: inherit;">fiducia</em> ou <em style="font-weight: inherit;">confidentia)</em> é, afirma São Tomás, a firme ou forte esperança que vem da grande fé na bondade de Deus, autor da salvação. O motivo formal da esperança é a bondade de Deus, sempre caridosa, segundo as promessas, <em style="font-weight: inherit;">Deus auxilians</em>.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">“Bem-aventurado, cantam os salmos, os que confiam no Senhor” (Sl. 2, 12). “Os que confiam nele são como a montanha de Sião; ela não se abala, porque permanece sempre sobre sua base” (Sl. 124, 1). “Conserva-me, Senhor, porque espero em vós” (Sl. 15, 1). “Vós sois o meu refúgio, jamais serei confundido” (Sl. 30, 1).</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Escrevendo sobre Abraão, que mau-grado a idade avançadíssima, acreditou na promessa divina, de que se tornaria pai de inumeráveis nações, diz São Paulo (Rm. 40 18): “Em esperança, creu contra toda esperança; &#8230;não duvidou da promessa de Deus por incredulidade, mas foi fortificado na fé, dando glória a Deus, e estando certíssimo de que o que ele tinha prometido também era poderoso para fazer”.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">De igual modo, cumprindo nosso dever cotidiano, devemos esperar de Nosso Senhor a realização de sua palavra: “As minhas ovelhas conhecem a minha voz, e eu conheço-as, e elas me seguem&#8230; ninguém as arrebatará da minha mão” (Jo. 10, 28). Como nota o pe. Piny: depois de cumprir com siso o dever, o abandonar-se confiadamente nas mãos do Senhor é ser de fato ovelha. Aquiescer sempre com suas ordens; rezar com amor para que tenha piedade de nós; arrojar-se confiante nos braços da misericórdia com faltas e remorsos – não é a melhor forma de escutar a voz do Bom Pastor? Depor em seu seio todos os temores do passado e do futuro, num santo abandono que, longe de se opor à esperança, constitui-se em sacratíssima confiança filial, unida ao amor purificante.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Consiste o amor puríssimo no alimentar-se da vontade de Deus, a exemplo de Nosso Senhor, que disse: O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e de cumprir sua obra” (Jo. 4, 34). “Não busco a minha vontade, mas a vontade do Pai que me enviou” (Jo. 5, 30). “Eu desci do céu, não para fazer a minha vontade” (Jo. 6, 38). Não existe modo mais nobre, mais perfeito, mais puro de amar a Deus, senão fazer da divina vontade a minha, cumprindo sua vontade positiva e abandonando-se em seguida a seu bel prazer. Para as almas que seguem esse caminho. Deus é tudo; no final, podem afirmar: Deus meus et omnia. Deus é o centro, e só nele estão em paz, ao submeter todas as aspirações a seu bel prazer, ao aceitar tranqüilamente tudo que ele faz. Nos momentos mais difíceis, Santa Catarina de Sena recordava-se desta palavra do Mestre: “Pensa em mim, que eu pensarei em ti”.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Raras são almas que chegam a tal perfeição. Mas é mister tentar. São Francisco de Sales escreve: “Nosso Senhor ama com amor delicadíssimo aqueles felizes que se abandonam à divina providência sem divagar em considerações acerca da natureza, aproveitável ou danosa, dos efeitos dessa providência; estão certos de que nada se enviaria do amantíssimo coração paternal, nem que tal seria permitido acontecer, de que não lucrassem o bem e a utilidade, uma vez que depositamos nele toda a confiança&#8230; Quando (no cumprimento do dever cotidiano) nos abandonamos de todo à providência divina, Nosso Senhor cuida de tudo e nos conduz&#8230; A alma está junto dele como um menino junto à mãe; quando ela o põe no chão para caminhar, ele o faz até que sua mãe o pegue novamente no colo; quando ela o quer carregar, ele se larga em seus braços: não diz nada nem pensa para onde vão, mas se deixa levar ou conduzir para onde praz à sua mãe. Igualmente para esta alma, que ama a vontade do bel prazer de Deus em tudo o que lhe acontece, e se deixa levar, e não obstante caminha, cumprindo denodadamente o que é da vontade de Deus positiva.” A exemplo de Nosso Senhor, pode dizer verdadeiramente: “O meu alimento é fazer a vontade de meu Pai”; é aí que ela encontra a paz, aquela paz que já mora em nós, como vida eterna começada, “inchoatio vitae aeternae”.</span></p>
<p style="text-align: right;"><span style="color: #000000;"><em style="font-weight: inherit;">La Vie Spirituelle Septembre 1931 n°143</em></span></p>
<p class="rtejustify" style="line-height: 19.2pt; background: white; margin: 0cm 0cm 18pt; text-align: right;"><span style="color: #000000;"><span style="font-size: 11.0pt;">Tradução: </span><span style="font-size: 11pt; color: #0000ff;"><a style="color: #0000ff;" href="https://permanencia.org.br/drupal/node/5448">Permanência</a></span></span></p>
<ol>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">São FRANCISCO DE SALES, L&#8217;Amour de Dieu, livro VIII, cap. v, e 1. IX, cap. I a VII.</span></li>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">São FRANCISCO DE SALES, L&#8217;Amour de Dieu, loc. cit., e Entretiens II e XV. &#8211; DE CAUSSADE, Abandon, t.11, p. 279. Apêndice, 2° p. Cf. Dom VITAL LEHODEY. Le Saint Abandon,&#8217; Paris, Amat, 1919, 3ª parte: O abandono no que respeita aos bens naturais do corpo (saúde e doença) e da alma (distribuição desigual dos dons naturais), aos bens da opinião (humilhações, perseguições), aos bens espirituais essenciais (graça e glória), às variedades espirituais da via comum (os insucessos e as faltas, as provações, as consolações), às variedades espirituais na via mística&#8230;</span></li>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Provações existiram que tranformaram vidas, como as que se vêem na biografia do pe. Girard, intitulada Vinte e Dois Anos de Martírio. Após seu diaconato, a tuberculose óssea acometeu esse santo padre, a qual o imobilizou por vinte e dois anos sobre uma cama, onde sofrera crudelissimamente e oferecera todos os dias tais sofrimentos aos padres de sua geração. Ele, que padecia a dor de nunca poder celebrar a missa, unia-se deste modo, diariamente, ao sacrifício de Nosso Senhor perpetuado no altar. A doença, em vez de destruir a vocação, transfigurou-a.</span></li>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">IIa IIae Q.72 a.3, et q.73, a. 3, ad 3um</span></li>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Cf. São FRANCISCO de SALES, Amour de Dieu, t. ils:, c. v, e B0SSUET, États d&#8217;oraison, 1. VIII, 9</span></li>
</ol>
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		<title>A VIA DA INFÂNCIA ESPIRITUAL</title>
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		<pubDate>Thu, 22 Apr 2021 15:00:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Dominus Est]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Espiritualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Fé]]></category>
		<category><![CDATA[Textos e Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Pe. Garrigou Lagrange]]></category>
		<category><![CDATA[Santa Teresinha do Menino Jesus]]></category>

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		<description><![CDATA[Nosso Senhor diz aos seus Apóstolos: Se vos não converterdes e vos não tornardes como meninos, não entrareis no reino dos céus1. São Paulo acrescenta: o Espírito Santo dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus2, e nos aconselha &#8230; <a href="http://catolicosribeiraopreto.com/a-via-da-infancia-espiritual/">Continuar lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignright" src="https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcT04x2D3yckerAzQQmABXj13BAhFsMNW6abOA&amp;usqp=CAU" alt="Santa Teresinha do Menino Jesus |" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Nosso Senhor diz aos seus Apóstolos: <em>Se vos não converterdes e vos não tornardes como meninos, não entrareis no reino dos céus</em>1. São Paulo acrescenta: <em>o Espírito Santo dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus</em>2, e nos aconselha freqüentemente uma grande docilidade ao Espírito Santo. Esta docilidade se encontra particularmente na via da infância espiritual, recomendada por muitos santos e, ultimamente, por Santa Teresa do Menino Jesus. Esta via, tão fácil e proveitosa para a vida interior, é muito pouco conhecida e seguida.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">Por que pouco seguida? Porque muitos imaginam erroneamente que esta é uma via especial, reservada às almas que se conservaram completamente puras e inocentes; e outros, quando lhes falamos desta via, pensam em uma virtude pueril, uma espécie de infantilidade, que não poderia lhes convir. Estas idéias são falsas. A via da infância espiritual não é nem uma via especial nem uma via de puerilidade. A prova é que foi Nosso Senhor, ele mesmo, quem a recomendou a todos, mesmo àqueles responsáveis pelas almas, como os Apóstolos formados por Ele3.</span><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;"> </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">* * *</span><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;"> </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">Para se ter uma visão de conjunto da via da infância espiritual, é preciso de início notar suas semelhanças e, em seguida, suas diferenças com a infância corporal.</span><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;"> </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">As semelhanças são patentes. Quais as qualidades inatas das crianças? Em geral, elas são simples, sem nenhuma duplicidade, são ingênuas, cândidas, não representam, mostram-se tais como são. Ademais, têm consciência de sua deficiência, pois precisam receber tudo de seus pais, o que as dispõe à humildade. São levadas a crer simplesmente em tudo o que dizem as suas mães, a depositar uma confiança absoluta nelas, e a amá-las de todo seu coração, sem cálculo.</span><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;"> </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">Quais as diferenças entre a infância ordinária e a infância espiritual? — A primeira diferença é notada por São Paulo: <em>Não sejais meninos na compreensão, mas sede pequeninos na malícia</em>4. A infância espiritual se distingue da outra pela maturidade do julgamento e de um julgamento sobrenatural inspirado por Deus.</span><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;"> </span><span id="more-20952"></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">Uma segunda grande diferença é indicada por São Francisco de Sales5: na ordem natural, quanto mais o filho cresce, mais ele tem de se tornar auto-suficiente, pois um dia seu pai e sua mãe lhe faltarão. Ao contrário, na ordem da graça, quanto mais o filho de Deus cresce, mais ele compreende que não poderá jamais se bastar e que dependerá sempre intimamente de Deus. Quanto mais ele cresce, mais ele deve viver da inspiração especial do Espírito Santo, que vem suprir por seus dons a imperfeição de nossas virtudes, de modo que, no fim, o filho de Deus torna-se mais passivo sob a ação divina do que entregue à sua atividade pessoal e no fim entra no seio do Pai, onde encontrará a beatitude por toda a eternidade.</span><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;"> </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">Os moços e as moças, quando chegam à idade adulta, deixam seus pais para viverem suas vidas; mais tarde, o homem de quarenta anos vem com bastante freqüência visitar sua mãe, mas ele não depende dela como antes; é ele agora que a sustenta. Ao contrário, o filho de Deus, ao crescer, se é fiel, torna-se mais e mais dependente de seu Pai, até que nada faça sem ele, sem suas inspirações ou seus conselhos. Então, toda a sua vida é banhada pela oração; é a melhor parte que não lhe será tirada. Santa Teresinha de Lisieux o compreendeu assim6. Ela, após ter atravessado a noite do espírito7, chegou desse modo à união transcendental nela.</span><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;"> </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">Tais são as características gerais da infância espiritual: suas semelhanças e suas diferenças com a infância corporal.</span><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;"> </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">* * *</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">Vejamos agora as principais virtudes que se manifestam nela.</span><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;"> </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">De início, a SIMPLICIDADE, a ausência total de duplicidade. Por que? &#8230; porque o olhar desta alma não procura senão a Deus e vai direito a ele. Assim, verifica-se aquilo que é dito no Evangelho: <em>O teu olho é a lucerna do teu corpo. Se teu olho for simples todo teu corpo será luz. Mas, se o teu olho for mau, todo o teu corpo estará em trevas</em>8. Do mesmo modo, se a intenção de tua alma é simples e direta, pura e sem duplicidade, toda a tua vida será iluminada como o rosto de uma criança.</span><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;"> </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">Então, a alma simples, que tudo sempre considera com relação a Deus, acaba por vê-lo nas pessoas e eventos; em tudo o que acontece, ela vê aquilo que é desejado por Deus, ou, ao menos, que é permitido por ele para um bem superior.</span><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;"> </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">HUMILDADE. Ao seguir esta via, a alma torna-se humilde. A criança tem consciência de sua deficiência, ela depende de sua mãe para tudo, e pede constantemente sua ajuda, ou se refugia perto dela à menor ameaça.</span><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;"> </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">Do mesmo modo, o filho de Deus sente que, deixado a si mesmo, ele não é nada; ele se lembra com freqüência das palavras de Jesus: <em>Sem mim, não há nada que possais fazer</em>. E assim, ele tem uma necessidade instintiva de se esquecer de si mesmo, de depender de Nosso Senhor, de se abandonar a Ele. A alma cessa de se estimar de modo vão, de querer ocupar um lugar no espírito dos outros; ela desvia seu olhar de si mesma.</span><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;"> </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">Por causa disso, ela combate muito eficazmente o amor próprio. E, com o sentimento de sua deficiência, ela experimenta a necessidade de se apoiar constantemente em Nosso Senhor e de ser em tudo guiada e dirigida por ele. Ela se lança em seus braços, como a criança nos braços de sua mãe. Por isso, o espírito de oração se desenvolve muito nela.</span><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;"> </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">FÉ. Assim como o filho crê sem hesitar e firmemente em tudo o que sua mãe lhe diz, o filho de Deus, acima de todo raciocínio, de todo exame, baseia-se totalmente na palavra de Nosso Senhor. “Jesus o disse”, seja por si mesmo, seja por sua Igreja, isto é suficiente para que ele não tenha nenhuma dúvida em seu espírito.</span><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;"> </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">Que se segue? Assim como a mãe fica feliz em poder instruir seu filho, tanto mais quanto ele se mostrar atento, Nosso Senhor se compraz em manifestar a profunda simplicidade dos mistérios da fé aos humildes que o escutam. Ele dizia: <em>Eu te dou graças, ó Pai, por ter escondido estas coisas dos prudentes e dos sábios e de as ter revelado aos pequenos</em>. A fé dessa alma torna-se então penetrante, saborosa, contemplativa, radiante, prática, fonte de mil conselhos excelentes. O espírito da fé leva a ver os mistérios revelados, as pessoas, os fatos como Deus os vê; vê-se Deus em tudo.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">Mesmo que o Senhor permita a noite escura, a alma a atravessa segurando sua mão, como o filho segura a mão de sua mãe, que a protege.</span><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;"> </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">A CONFIANÇA torna-se, desde então, mais e mais firme, inteira. Por que? &#8230; porque ela repousa no amor de Deus por nós, em suas promessas, nos méritos infinitos de Nosso Senhor.</span><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;"> </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">Como a criança está segura de sua mãe, porque se sabe amada por ela, a alma de que falamos está segura de Deus. Ela não pode duvidar de sua fidelidade em manter suas promessas: <em>pedi e recebereis</em>. Ela não se baseia em seus próprios méritos, em sua sorte pessoal, mas nos méritos infinitos do Salvador, que são para ela; do mesmo modo, os bens do pai são para seus filhos que ainda não possuem bens pessoais.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">A fragilidade a desencoraja? De modo algum. O filho não se desencoraja por causa de sua deficiência. Ao contrário, ele sabe que é por causa de sua impotência que sua mãe está sempre pronta para protegê-lo. Do mesmo modo, Nosso Senhor sempre protege os pequenos e os pobres que se fiam nele. O Espírito Santo, que ele nos enviou, é chamado “<em>Pater pauperum</em>”.</span><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;"> </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">Esta alma não confia senão em Deus, em Nosso Senhor e na Virgem, e naqueles que vivem de Deus, como a criança não confia senão em sua mãe e naquelas pessoas a quem sua própria mãe o confia por um momento.</span><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;"> </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">É uma confiança total, mesmo nas horas mais graves. Nós nos lembramos então do que dizia santa Teresinha: “Senhor, vós a tudo vedes, tudo podeis, e vós me amais”.</span><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;"> </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">O único temor desta alma é o de não amar o bastante a Nosso Senhor, de não se abandonar totalmente a Ele.</span><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;"> </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">A CARIDADE é o amor de Deus por ele mesmo, e das almas em Deus, para que elas o glorifiquem no tempo e na eternidade.</span><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;"> </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">A criança pequena ama sua mãe de todo seu coração, mais que os carinhos que recebe dela; ela vive de sua mãe.</span><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;"> </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><span style="color: #000000;"><span style="font-style: inherit; font-weight: inherit;">Do mesmo modo, o filho de Deus vive de Deus e o ama por si mesmo, por causa das infinitas perfeições que nele transbordam. O que este filho de Deus ama, não é a sua própria perfeição, mas o próprio Deus, sobre o qual ele se </span>apoia<span style="font-style: inherit; font-weight: inherit;">.</span></span><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit;"> </span></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">A este amor ele refere tudo, é um amor delicado, simples, que inspira a piedade filial e uma grande caridade pelo próximo, na medida em que este é amado por Deus e chamado a o glorificar eternamente.</span><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;"> </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">O filho de Deus, porém, é tão prudente como simples: simples com Deus e as almas de Deus, ele está sob a inspiração do dom de conselho e é prudente com aqueles em quem não podemos ter confiança.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">Ele é deficiente, mas é do mesmo modo forte, pelo dom de fortaleza que se manifestou nos mártires, e até nas jovens virgens e nos velhos.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">Um modelo impressionante de infância espiritual se encontra em uma alma santa, que atingiu, em meio das maiores dificuldades, uma grande intimidade com Nosso Senhor; a Venerável Madre Marie-Thérèse de Soubiran, fundadora da Sociedade de Maria Auxiliadora. Sua vida admirável nos mostra a enorme superioridade da vida sobrenatural plenamente abandonada a Nosso Senhor, acima da atividade natural das pessoas melhor dotadas e mais enérgicas, que se apóiam sobre elas mesmas, que se esquecem de pedir a benção de Deus9.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: inherit; font-style: inherit; color: #000000;">Sua vida é um comentário das palavras do Salvador: <em>Eu te dou graças, ó Pai, por ter escondido estas coisas dos prudentes e dos sábios e de as ter revelado aos pequenos</em>.</span></p>
<p style="text-align: right;"><span style="color: #0000ff;"><a style="color: #0000ff;" href="https://permanencia.org.br/drupal/node/260"><strong><span style="font-style: inherit;">(Publicado em <em>La vie spirituelle</em> n<sup>o</sup>. 302, dez. 1945. Tradução: PERMANÊNCIA)</span></strong></a></span></p>
<ol>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Mt 18,3;</span></li>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Rm 8, 16;</span></li>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Mt 18, 5-4; 19, 14; Mr 9, 32;</span></li>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">1 Cor 14, 20;</span></li>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><em>Tratado do Amor de Deus</em>, IX, e. 13,14;</span></li>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><em>História de uma Alma</em>; Lembranças e Conselhos, pág. 263;</span></li>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><em>Ibid</em>. c.9;</span></li>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Mt 6, 22;</span></li>
<li style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Maria Teresa de Soubiran (1834-1889) conoscinta dai suoi scritti, lettere e note spirituali, publicate dal P. Monier-Vinard, S. J. Roma, 1938, 2 vol.;</span></li>
</ol>
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		<title>DEVER DE REPARAÇÃO</title>
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		<pubDate>Sat, 29 Jun 2019 15:00:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Dominus Est]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Espiritualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Fé]]></category>
		<category><![CDATA[Textos e Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Pe. Garrigou Lagrange]]></category>

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		<description><![CDATA[Pe. Garrigou-Lagrange, OP “Alter alterius onera portate”. Levais os fardos uns dos outros (Gl 6.) Tratamos recentemente do dever do reconhecimento, convém falar agora do dever de reparação. A reparação da ofensa feita a Deus é geralmente chamada em teologia &#8230; <a href="http://catolicosribeiraopreto.com/dever-de-reparacao/">Continuar lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;"><strong><span style="color: #000000;"><em><a href="https://permanencia.org.br/drupal/node/5490"><img class=" alignright" src="https://permanencia.org.br/drupal/sites/default/files/imagens/cruc.jpg" alt="" width="294" height="294" />Pe. Garrigou-Lagrange, OP</a></em> </span></strong></p>
<p style="text-align: center;"><em><span style="color: #000000;">“Alter alterius onera portate”.</span></em></p>
<p style="text-align: center;"><em><span style="color: #000000;">Levais os fardos uns dos outros</span></em></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #000000;">(Gl 6.)</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Tratamos recentemente do dever do reconhecimento, convém falar agora do dever de reparação. A reparação da ofensa feita a Deus é geralmente chamada em teologia de “satisfação”. Os fiéis instruídos costumam conhecer suficientemente bem a doutrina do mérito; porém, é menos conhecida a doutrina da satisfação ou reparação, que, se lembra a do mérito, dela difere, contudo. Os fiéis crêem firmemente que Jesus satisfez por nós em estrita justiça, que a Santíssima Virgem satisfez por nós de uma satisfação de conveniência; mas conhecem menos o lugar que a satisfação deve ocupar nas nossas vidas.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Lembremos sobre esse ponto os princípios; veremos em seguida como o católico em estado de graça pode satisfazer ou reparar por si e pelo próximo.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><strong>Princípios desta doutrina</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Os princípios deste ensinamento expõem-se, em teologia, quando se trata do mistério da redenção e, em seguida, no tratado do pecado, da pena que lhe é devida e no tratado da penitência. Estes princípios foram revelados e todo fiel adere a ele firmemente pela fé; podemos assim resumi-los.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Se mérito é direito a recompensa, direito do justo à vida eterna, enquanto permanece em estado de graça, e à aumento da caridade, a satisfação é reparação a uma ofensa feita a Deus pelo pecado. Esta ofensa nada tira de Deus de sua glória essencial, de sua beatitude, mas da sua glória exterior, de sua influência, de seu reino sobre nós.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">O pecado mortal como ofensa nega na prática a dignidade infinita de Deus como fim último ou bem soberano, posto que prefere um mísero bem finito a Ele. Foi preciso a Incarnação do Verbo e seu ato de amor teândrico para que houvesse uma satisfação perfeita ou adequada da ofensa feita a Deus pelo pecado mortal. Jesus satisfez por nós em estrita justiça, oferecendo a Deus, sobre a cruz, como diz Santo Tomás: “Um ato de amor que lhe agradasse mais do que todos pecados reunidos lhe desagradam.” Reparou assim a ofensa feita a Deus, e aqueles a quem se aplicam seus méritos e sua satisfação, são reconciliados, justificados, o pecado lhes é apagado, bem como a pena eterna devida ao pecado mortal. A Santíssima Virgem satisfez por nós de uma satisfação de conveniência, fundada na caridade ou na mui intima amizade sobrenatural que a unia a Deus Pai e ao seu Filho. Todo bom católico conhece esta doutrina. Mas não se dá normalmente atenção o bastante à satisfação ou reparação que deve haver na vida do justo, a quem já foram perdoados os pecados.</span><span id="more-15894"></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">O Concílio de Trento ensina, e isto está muito relacionado com a doutrina revelada sobre o purgatório, que, mesmo quando o pecado mortal nos foi perdoado e, com ele, a pena eterna que lhe é devida, pode restar, e frequentemente resta, uma pena temporal que deve ser paga nesta vida ou depois desta vida, no purgatório. Se a não pagamos nesta vida, merecendo, tirando proveito das missas e indulgências, pagaremos no purgatório, sem mérito, sem crescer na caridade. Ademais, o purgatório é propriamente uma pena; não pode portanto ser infringida senão por uma falta, que poderia ser evitada e que poderia ter sido expiada na terra. Assim, os melhores católicos fazem boa parte do seu purgatório antes de sua morte.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Esta doutrina da reparação se funda, como o mostra santo Tomás, ao tratar da pena devida ao pecado, na definição mesma do pecado. Há no pecado, quando mortal, dois aspectos. Primeiramente, por ele desviamo-nos de Deus, nosso fim último, e, então, se morremos nesse estado, mereceremos ser eternamente privados de Deus. Em outros termos: se morremos nesse estado, a desordem habitual do pecado grave dura para sempre e a pena da privação de Deus que lhe é devida, também dura para sempre. Se, ao contrário, o pecado mortal é perdoado pela conversão que restitui o estado de graça, a pena eterna devida ao pecado também é perdoada!</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Mas há no pecado mortal um segundo aspecto: não apenas nos desviamos de Deus, mas nos voltamos para um bem perecível, e o preferimos a Deus.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Há, pois, dupla desordem moral, que pede dupla pena. O pecador não apenas se afasta de Deus, mas prefere algo a Deus, isto é, prefere seu gozo pessoal ao reino de Deus; esta segunda desordem pede, também ela, uma reparação. A justiça exige que o pecador que preferiu um bem temporal a Deus seja privado de um bem temporal ou padeça uma pena temporal.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">    O pecado venial que nos liga imoderadamente a um bem passageiro merece também uma pena temporal do mesmo gênero, porém mais ligeira.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">    Tudo isso se concebe muito facilmente: a vontade que se conforma demasiadamente consigo mesma, contra a ordem divina, deve reparar esta transgressão de modo a reconhecer o valor da ordem divina. Do mesmo modo, a vontade que viola a ordem da consciência é punida pelos remorsos de consciência. Ainda do mesmo modo, a vontade que viola a ordem social e suas leis deve ser submetida a uma pena que o magistrado guardião desta ordem social infringirá. É o que demonstra são Tomás1. Platão também, num de seus mais belos diálogos, <em>Górgias</em>, após ter demonstrado que é melhor sofrer uma injustiça que cometê-la, acrescenta que o maior dos males que pode ocorrer a um criminoso, após seu crime, é seguir impune, uma vez que, dessa maneira, não retorna à ordem da justiça. Ele deveria, diz Platão, vir acusar-se perante os juízes, e demandar a pena que mereceu para assim retornar à ordem da justiça, após a ter violado. Idéia sublime, inspirada por tradições religiosas que de longe anunciavam, por assim dizer, o que haveria de ser a reparação no mistério da Redenção e no sacramento da penitência.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Na vida do justo, a graça santificante possibilita satisfazer por si mesmo e pelos outros a pena temporal devida ao pecado já perdoado; quem o faz, abrevia em muito o seu purgatório. Ora, como pode o justo satisfazer por si mesmo, e pelos outros?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><strong>Como o justo pode satisfazer por si mesmo ?</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Ele o pode fazer de dois modos: primeiro, pela penitência sacramental, assistindo Missas, ganhando indulgências; segundo, por suas próprias boas obras (<em>ex opere operantis</em>), na medida em que tenham, em graus diversos, um aspecto penoso, necessário à satisfação, que se acrescenta ao mérito.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A penitência sacramental feita em estado de graça produz imediatamente seu efeito santificante, mas é proporcionado ao nosso fervor e, frequentemente, uma parte da pena temporal ainda resta a ser paga.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A missa a que assistimos ou que é dita por nós, obtém certamente a remissão total ou parcial da pena temporal devida aos pecados já remidos. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">O ganho de indulgências também é obra de satisfação, serve para pagar a dívida da pena temporal pelos pecados perdoados. Seu principal valor vem do poder de Chaves da Igreja.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Como podemos, ademais, satisfazer ou reparar nesta vida por meio da prática de boas obras (<em>ex opere operantis</em>)?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">É preciso, antes de mais nada, que estas sejam obras meritórias, ou seja, moralmente boas, livres, feitas em estado de graça e, como peregrino, por um motivo sobrenatural. Para que sejam satisfatórias, é preciso ainda que, além do mérito, elas tenham um aspecto mais ou menos penoso, isto é, que impliquem numa renuncia, num esforço, num sacrifício. Isto santo Tomás explica muito bem, quer se trate da satisfação que se junta aos méritos de Cristo, ou aos de Maria, ou que se junta aos nossos próprios méritos. Diz ele: “A satisfação, para reparar pelos pecados passados e obter a remissão da pena temporal que nos é devida, deve ser penosa. O pecador subtraiu de Deus a glória exterior que lhe é devida; a ordem e a justiça reclamam que, em troca, alguma coisa seja subtraída do pecador, que alguma pena lhe seja imposta”2. É preciso, portanto, para satisfazer, fazer algo de penoso, carregar sua cruz, morrer para alguma coisa; muitos esqueceram-se disso nestes últimos anos, antes da derrota; cuidava-se até mesmo para que a mortificação fosse reduzida estritamente ao mínimo, e até a fazer com que desaparecesse completamente. Foi então que Nosso Senhor impôs novos sofrimentos com a guerra: foi preciso tornar a virtude necessária, foi preciso sofrer muito3.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Assim como a caridade, a obra mais satisfatória será a mais penosa, a que mais se assemelhar à cruz do Salvador. Não obstante, se a diminuição da dificuldade provém precisamente de uma maior caridade, ela não diminui o valor da satisfação; neste caso, é uma dificuldade subjetiva que se diminui com o progresso da caridade; não uma dificuldade objetiva; esta provém do caráter mesmo do objeto, que exige uma grande generosidade, como ocorre no martírio.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Entre as obras penosas que a Igreja recomenda como satisfação ou reparação, deve-se contar o jejum, a abstinência, as vigílias, a paciência nas contrariedades e provações, suportar  sofrimentos, a aceitação da morte e das angústias que podem acompanhá-la. “Possuir sua alma na paciência”, é agir. São Tomás diz mesmo que o ato principal da virtude da fortaleza não é a ofensiva ou o ataque, mas suportar perseverante coisas penosas, a constância nas provações, como se vê nos mártires.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">As cruzes escondidas, suportadas em silêncio por longo tempo, muitas vezes são mais meritórias e satisfatórias que brilhantes ações heróicas de um momento. A este propósito, convém aconselhar a bela oração de São Pio X para a aceitação antecipada da morte e de todos os sofrimentos físicos e morais que a precederão e acompanharão4.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">As boas obras, mais ou menos penosas, diminuem nosso purgatório e, pelo mérito que implicam, aumentam em nós a vida da graça e a felicidade do céu. Quanto a isso, é preciso lembrar que um ato muito generoso de caridade, com o valor de dez talentos, vale mais que dez atos fracos de um talento; com efeito, estes últimos estão mais ou menos mesclados de tibieza; a qualidade aqui sobrepõe-se a quantidade. O santo cura d’Ars devia merecer e reparar mais que todos seus paroquianos juntos.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><strong>Como pode o justo satisfazer pelo próximo?</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Todos os fiéis conhecem esta doutrina de fé, que o justo pode fazer celebrar missas e ganhar indulgências pelos defuntos, e que pode também pagar por um outro justo a pena temporal devida aos pecados já remidos. Com efeito, diz são Paulo: “Levais os fardos uns dos outros”5. São Tomás explica6 e nota que, se os credores humanos admitem que uns paguem as dívidas de outros, ainda mais o admitirá o Senhor; sobretudo se consideramos que sofrer por outrém supõe maior caridade que sofrer por si mesmo. Sofrer por outrém grave dor de cabeça de três ou quatro horas satisfaz mais que sofrer por si mesmo algo mais penoso.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Se é a caridade que move, o justo pode portanto satisfazer pelo seu próximo.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Aqueles que confiam a Maria tudo o que se possa comunicar nas suas boas obras meritórias e satisfatórias e nas suas orações, encarregam-na de o distribuir a seu gosto. Ela o faz com muito maior sabedoria do que nós, pois vê, em Deus, quais de nossos parentes ou amigos, nessa vida ou no purgatório, mais precisam de socorro.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Se não fazemos este ato e se não designamos alguma pessoa, é provável que Deus aplique estas satisfações àqueles que nos são mais caros.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">É assim que os justos podem sofrer com proveito pelo próximo, e participam eles mesmos nas satisfações das almas mais generosas, nas almas vítimas que, nas mais trágicas horas, multiplicam-se pelo mundo, para pagar por seus pecados7. É o Senhor quem as suscita, quem lhes dá esta vocação sublime, quem lhes sustenta por vinte e trinta anos num leito de sofrimentos, como o demonstra a vida do santo padre Gérard, da diocese de Sées, escrita por Myriam de G., intitulada “Vinte dois anos de martírio”; este padre santo, torturado ao longo de tantos anos pela tuberculose dos ossos, oferecia cada dia seus sofrimentos pelos padres de sua geração e de sua diocese. Levaram-no seis vezes a Lourdes; ele compreendeu que a santa Virgem não o curaria, mas, apesar as grandes dores que a viagem lhe causavam, desejava retornar a Lourdes mais umas seis vezes, não para pedir sua cura, mas pela conversão dos pecadores. Almas vítimas, mais numerosas do que pensamos, trabalham neste momento, à exemplo de Nosso Senhor e de Maria, pela pacificação do mundo.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Os sofrimentos do justo devem assim mais e mais se assemelhar à cruz de Jesus. Há três tipos muito diferentes de cruzes: a cruz do mau ladrão foi uma cruz perdida; há muitos sofrimentos perdidos no mundo, pois não são padecidos cristianamente; a cruz do bom ladrão lhe foi útil, ele pôde ouvir: “Estarás comigo esta noite no paraíso”; a cruz de Jesus foi redentora, não para ele, mas para nós. E quanto mais os santos se aproximam do Salvador, mais as suas cruzes assemelham-se à dele, mais são fecundas e, nas horas de maior tribulação, como as de agora 8, são eles, por seus sofrimentos aceitos por amor, que carregam o mundo e lhe permitem durar.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A fecundidade da vida de reparação não cessou de se manifestar nos santos ao longo dos séculos. A exemplo de Nosso Senhor, os Apóstolos selaram seu testemunho com seu sangue e, durante os três primeiro séculos da Igreja, o sangue dos mártires não cessou de suscitar novos católicos. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Na Idade Média, são Francisco recebeu os dolorosos estigmas da Paixão do Salvador, são Domingos se flagelava três vezes a cada noite, pelos seus próprios pecados, pelos pecadores que iria evangelizar no dia seguinte e pelas almas do purgatório; ele quis que, na sua Ordem, além do estudo, da oração e do apostolado, fossem observadas práticas penitenciais.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Este mesmo espírito se verifica nos grandes reformadores do século XIV: são Carlos Borromeu, santa Teresa, santo João da Cruz, santo Inácio. São Vicente de Paulo, no meio de seus duros trabalhos, aceita sofrer para libertar um teólogo das dúvidas que o tormentavam e, ele mesmo, durante quatro anos tem de superar heroicamente uma forte tentação contra a fé, o que multiplicou suas forças e tornou sua união com Deus ainda mais firme.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">No século XVIII, são Paulo da Cruz funda a Ordem dos Passionistas, consagrada à reparação e, ele mesmo, ainda que já tivesse atingido uma união muito íntima com Deus com a idade de trinta anos, atravessa quarenta e cinco anos de sofrimentos interiores ininterruptos pela conversão dos pecadores. Na mesma época, são Geraldo Maggela, filho espiritual de santo Afonso, é prevenido, por uma inspiração, que receberá uma oportunidade de se tornar santo, e deve estar atento para não perdê-la; pouco após, é gravemente caluniado, o que lhe acarreta uma sanção muito severa: é privado da comunhão; ele tudo aceita por amor de Deus. Meses depois, a calunia é descoberta, seu superior lhe pergunta: “Por que o senhor não se defendeu?” Ele responde: “Meu padre, está dito na sua Regra que não devemos nos escusar quando somos injustamente repreendidos”. Na mesma época ainda, são Bento-José Labre é modelo completo de vida reparadora.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Por vezes, são as crianças que, movidas por uma inspiração divina, compreendem todo o preço do sofrimento aceito por amor. Nos últimos anos, em Roma, sob Pio XI, uma criança de seis anos e meio, Antonietta Meo, cuja vida já se publicou 9, com câncer na perna, aceita muito generosamente a amputação pelas grandes intenções da Igreja, e diz a seu pai, após a operação, no meio de muitas dores: “Papai, a dor é como o pano; quanto mais resistente, melhor; assim, quanto mais forte a dor, melhor se a aceitamos com amor pela conversão dos pecadores”.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Estes elevados exemplos nos são dados de tempos em tempos para nos tirar de nossa sonolência, e nos convidar a oferecer mais generosamente as contrariedades ou penas que se  nos apresentam para reparar as ofensas cometidas contra Deus por nossas próprias faltas, e trabalhar pela conversão das almas, na medida em que o Senhor de toda eternidade quis para cada um de nós 10.</span></p>
<p style="text-align: right;"><strong><span style="color: #000000;"><a href="https://permanencia.org.br/drupal/node/5490">(Tradução: Permanência &#8211; Fonte: La vie spirituelle 277)</a></span></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">1<a style="color: #000000;" href="https://permanencia.org.br/drupal/node/5490#footnoteref1_ban5c4f">.</a> I<sup>a</sup> II<sup>ae</sup>, Q. 87. <em>De poena peccato debita</em>.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">2. <em>Supp</em>., Q. 15, a. 1.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">3. Quanto a isso, os escoteiros da França, no dia 15 de agosto, deram um belo exemplo, ao fazer boa parte de sua peregrinação de Puy à pé e descalços, com uma perseverança e uma fé admirável, promissora.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">4. «Senhor, meu Deus, a partir de hoje, de coração tranqüilo e submisso, aceito de vossa mão o gênero de morte que vos agradará me enviar, com todas as suas angústias, todas as suas penas e todas as suas dores». Indulgência plenária na hora da morte a todos os que recitarem esta oração após a santa comunhão.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">5<a style="color: #000000;" href="https://permanencia.org.br/drupal/node/5490#footnoteref5_eb5fcha">.</a> Gl 6, 2.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">6. <em>Supp</em>., Q. 13, a. 2.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">7. Lembramo-nos da personagem Violaine, da peça <em>L’annonce fait à Marie</em>, de Paul Claudel, virgem contaminada com a lepra, que se oferece como vítima pela França na época do grande cisma.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">8. Nota do tradutor: Estava a França ocupada pela Alemanha nazista quando foi escrito o presente artigo.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">9. «<em>Fiaccola romana</em>» por Myriam de G., editora Berutti, Torino; prefácio do cardeal Piazza.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">10<a style="color: #000000;" href="https://permanencia.org.br/drupal/node/5490#footnoteref10_3ka8lg4">.</a> Ao término de sua peregrinação a Notre-Dame du Puy, os peregrinos diziam no seu Caminho da Cruz: “Senhor, por nossos pecados, aceitamos, a fome, o frio, a pobreza”.</span></p>
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