
No último dia 29 de setembro, tivemos a alegria de festejar São Miguel Arcanjo, padroeiro dos nossos Irmãos religiosos, que “têm como fim específico ajudar os sacerdotes em todo o seu ministério, não com a pretensão de substituílos nas funções sacerdotais, mas de facilitar-lhes de muitas maneiras em seu labor apostólico.” (Estatutos dos Irmãos da FSSPX)
Em 10 de outubro, no Seminário de La Reja, os seminaristas que se preparam para o sacerdócio receberam as ordens menores das mãos de Dom Galarreta. As ordens menores são como degraus que se sobem para se alcançar uma união particular com a união hipostática de Nosso Senhor, a fim de se participar de modo ativo de Seu Sacerdócio Eterno.
Neste mês, no dia 21 de novembro em particular, é o dia em que as jovens postulantes das Irmãs da Fraternidade São Pio X recebem o hábito religioso no Noviciado Santa Teresinha do Menino Jesus (no hemisfério sul), dando início, assim, ao noviciado. Receberão o hábito religioso e um novo nome, pois iniciam uma nova vida, deixando para trás o homem velho e todos os planos humanos, para começarem a vida do homem novo, com uma missão divina muito particular, tal como Deus fez aos seus escolhidos no Antigo Testamento: Abrão torna-se Abraão; Jacó passa a ser Israel; Simão recebe o nome de Pedro; e Saulo torna-se Paulo após sua conversão.
Sendo assim, parece-me muito oportuno trazer à tona algumas reflexões sobre o exemplo, a importância e a riqueza da vida religiosa para nós, católicos, e em particular para as nossas famílias — as famílias do nosso priorado e de suas capelas dependentes. Em particular para responder à pergunta enunciada por uma mãe por ocasião da reunião de famílias do último mês de julho: “O que se deve fazer na educação dos filhos para favorecer o ‘florescimento’ das vocações?” Digo “florescimento”, porque a vocação é como uma flor muito bela, que se abrirá se lhe proporcionarmos uma boa terra. «Eis que o semeador saiu a semear. Quando semeava, uma parte da semente caiu em boa terra e deu fruto, um grão cem, outro sessenta, outro trinta.» (Mt 13, 1-9).
A boa terra são as virtudes religiosas praticadas desde a mais tenra idade. É também uma vida de oração não sentimental, mas profunda e sincera; um coração que se apoia em Deus em suas provações e que O busca em suas alegrias.
Conta-se na vida de são Teófano Vénard, o grande apóstolo e mártir do Tonquim, que seu pai — chefe de uma família pobre e sacrificada — estava sempre de bom humor. Pobre professor de escola, ajudava constantemente os outros, e sempre com o terço nas mãos.
Por outro lado, Dom Columba Marmion define o religioso como um “católico profissional”. Portanto, já se nos vislumbra um começo de resposta para a grande pergunta introdutória.
É um círculo vicioso: se queremos favorecer as vocações,devemos buscar ser católicos autênticos e, para sermos verdadeiros católicos, devemos buscar imitar os religiosos.
De fato, o segredo está na prática dos votos religiosos, mutatis mutandis, no dia a dia de nossas famílias:
Uma família católica deve encarnar o espírito de pobreza em seu modo de viver, ensinando os filhos desde cedo a evitar o supérfluo e os desejos que nascem do famoso “eu quero”, próprio de uma criança mimada; aprender a cuidar das coisas da casa e a saber compartilhar. Um exemplo bem concreto são as roupas que, com o passar dos anos, permanecem as mesmas, mudando apenas de dono.
A castidade deve ser transmitida, em especial, pelo exemplo. A bela virtude deve ser vivida em nossas famílias nos mínimos detalhes: ensinando com simplicidade a modéstia no falar, no agir, no vestir e no brincar; e fazendo do grande amor dos pais o grande tesouro da família — tesouro do qual somente o papai e a mamãe têm a chave e conhecem o segredo.
A obediência é o fruto mais puro do espírito de abandono que reina, por definição, na vida religiosa. Aquele que entrega a Deus seus bens, seu direito de fundar uma família e sua tendência natural a tomar decisões próprias: este é um religioso. Desde pequenas, as almas puras e inocentes de nossos filhos podem ser religiosas. Eis o segredo do espírito de abandono: nada fazer porque “eu quero”, mas sim aprender a abandonar-se para fazer as coisas que meu pai ou minha mãe me pedem pela obediência, que o grupo de acólitos ou da Companhia Santa Joana D’Arc exige pelo compromisso, ou que as diferentes atividades da vida paroquial do nosso priorado nos propõem pela fidelidade. Naturalmente, a alma de nossas crianças se tornará uma alma religiosa. Sem esse espírito, o coração se amolda a uma certa ingratidão, à desconsideração das graças divinas e a um interesse calculista — o que torna a vida em comunidade insuportável e a vida religiosa impossível.
Pois sim, estimados fiéis: é de nossas famílias que sairão as nossas vocações. Elas virão de uma vida de oração sincera, não pela quantidade, mas pelo abandono, por uma pobreza não necessariamente austera, mas desapegada, e por uma pureza não forçada, mas almejada como um grande tesouro.
Deixo-os com uma bela frase de São João Maria Vianney:
«O sacerdócio é o amor do Coração de Jesus. Mas de onde vêm os sacerdotes e as almas consagradas? Vêm de mães e pais que rezam, que vivem da fé e que ensinam seus filhos, desde o berço, a preferir a vontade de Deus a qualquer glória do mundo.»
Que Deus os abençoe,
Padre João Maria Ferreira da Costa, Prior