DE MITOS E MALDIÇÕES. O “MITO” CRISTÃO

 Les 50 ans de la nouvelle messe : la fabrication du nouveau missel | FSSPX  Actualités

O sacerdote modernista não é mau sujeito, está tentando “chegar” com a “mensagem” da melhor forma que encontra, porque já perdeu a ideia de que está “renovando um “fato” que tem efeitos em e por si mesmo.

por Dardo Juan Calderón

Não creio que restem muitos que não pensem que o relato evangélico e muito mais o do antigo testamento não seja um “mito” que tem uma “mensagem” a decifrar, à maneira do mito grego ou de outras religiões. O Mito Bíblico. Que não é algo histórico que ocorreu realmente e que, captando o sentido oculto, este nos ajudará a entender algo de nossa existência. E então me pus a pensar que este assunto da fé nesse conjunto de histórias que foram reveladas ao cristão para que cresse, conselhos para que seguisse e leis para que obedecesse, na medida em que passam a ser entendidas como mitos não necessitam de fé, mas de interpretação (hermenêutica), porém… como os outros mitos, atenção, pois devem necessariamente conter uma maldição!

O que se nos quer dizer com isso de que Deus se encarnou em Jesus de Nazaré? Se é um mito, devemos explicá-lo, extrair a “mensagem”. A missa passaria a ser a teatralização do mito, uma atualização dos símbolos desse mito do Deus encarnado que, com a liturgia da palavra, há que ir esclarecendo para os simples. O sacerdote faz um pouco de teatro e o explica. Isso é a nova teologia e a nova liturgia, e isso explica o porquê da suma importância que tem a “liturgia da palavra”, a explicação do mito, a interpretação do mito. A hermenêutica. Quanto ao que corresponde à “teatralização” do mito, é possível que para a melhor interpretação seja necessário fazer uma “versão adaptada” ao novo público e ao novo tempo, utilizando uma simbologia mais adequada a esse público e a esse tempo, como o filme da Odisseia e como as mil versões adaptadas de “Shakespeare” que há no cinema. E essa “adaptação” depende da perícia e das condições do “adaptador”, que consegue que a “mensagem” chegue de melhor maneira. Ratzinger dizia que a crucificação era o símbolo perfeito para a mensagem do sacrifício pelos outros naquela época do século I, mas hoje se pode dizer o mesmo com a ideia do “trabalho” e se entenderia melhor. E algo parecido com a ressurreição, que naqueles tempos significava que despertou da morte, mas que a mensagem é que “hoje vive em nós” e podemos prescindir daquele símbolo pelo de que o amor torna presente aquele que morreu (“A estranha teologia de Ratzinger”, dizia em sua obra Monsenhor Tissier).

A fé nos diz que não há nenhuma mensagem oculta, mas um fato expresso que aconteceu: Deus Se Encarnou e Padeceu por nós, obtendo Ele a Redenção com sua morte, e depois Ressuscitou. Não quis “dizer” nada com isso, quis Encarnar-Se, padecer e ressuscitar para “fazer” algo Ele mesmo com esse fato, além de que nós tirássemos ou não conclusões e mensagens edificantes. Esse “fato” histórico e sobrenatural haveria de ter “efeitos” reais e concretos, na história e nas almas, independentemente de que o entendêssemos ou não, de que o interpretássemos corretamente ou não. Como vimos, o mito serve para algo se tiro as conclusões correspondentes, e se não, pois não serve para nada. Ao entender a missa nesse sentido mitológico e não como um “fato” que efetivamente acontece, entende-se que há que esclarecê-lo e que toda a ritualidade e o simbolismo não só é conveniente que sejam interpretados e esclarecidos, mas que mais cedo do que tarde, e ainda a despeito de que se entende a importância pedagógica do simbolismo, vá diminuindo sua importância e vá desaparecendo em prol da interpretação da mensagem.

O que a fé nos diz é que o “rito” produz um “fato”. Realiza-o, não o simboliza. Por isso o sacerdote o faz ainda que esteja sozinho, e a nova liturgia não tem sentido se não há um público ao qual se esclarece na inteligência e na emoção pela participação no rito simbólico, mas deve compreender os símbolos! E há que adaptá-los.

Mas há algo mais curioso, e é que todos os ritos, ainda os mais humanos como o da mesa, a cortesia, os bélicos e os nupciais, valem a pena ser sustentados não pelo que querem dizer, mas por aquilo que efetivamente “fazem” e realizam entre as pessoas. Quando um grupo de amigos se reúne todas as quintas-feiras no bar, não quer simbolizar a amizade, quer alimentá-la, mantê-la, reiterar o “fato”. As duas velhinhas que no filme Nagasaki se reúnem para tomar chá, com seus ritos ancestrais, em silêncio durante uma hora, não querem dizer nada, estão “fazendo” algo, estão renovando um fato, sua amizade forjada no drama. De outra maneira esses ritos, em breve, são apenas fanfarrices, divertidos enigmas ou hipocrisias. O ritual que se faz entre amigos ou acresce e renova a causa da amizade, ou é uma farsa em que umas velhas que se odeiam e criticam mantêm a hipocrisia do chá de canastra para obter fofocas.

O “rito” é por essência a renovação do “fato fundante” de uma relação, ainda os mais humanos, e o que o rito realiza é a repetição desse fato que, embora sob uma nova modalidade, é o mesmo em seu conteúdo, se reitera, não se “recorda”. Têm um valor em si mesmos e são um recurso mais que necessário para a subsistência das relações humanas. A perda do rito é uma das causas de um mundo que destruiu todas as relações humanas (Recomendo o livro de Byung-Chul Han sobre o tema).

Confirmemos o acerto: se se trata da reconsideração ou interpretação de um mito, o “rito” se perde, passa a ser a teatralização do mito que necessariamente deve ir adequando sua simbologia aos tempos e aos auditórios. O rito é por definição sempre o mesmo, ou não é rito.

Mas digamos que nossa religião parte de um mito e não de um “fato”, um mito fundante e até um riquíssimo mito pleno de significação, como o trata e considera toda a nova teologia. Então é lógico que não responda a um rito sempre igual, mas a uma encenação adequada com o uso de uma simbologia variável e adequada ao tempo e ao auditório. E isso é o que produziu a Reforma Litúrgica e em decorrência da qual todos os abusos litúrgicos se explicam. São esforços interpretativos do mito que dependem das circunstâncias já mencionadas. O sacerdote modernista não é mau sujeito, está tentando “chegar” com a “mensagem” da melhor forma que encontra, porque já perdeu a ideia de que está “renovando um “fato” que tem efeitos em e por si mesmo. O que importa é como chega a “mensagem” e não se se produz o “fato”. E a repetição igual de um “rito” é contraproducente à compreensão do mito, nem se fala se se faz em uma “língua ritual”. Agora se entende para que eu falava de mitos? (com suas consequentes maldições), o que não obedecia a uma pedanteria, mas a nos preparar para notar a diferença. E também se entenderá que me importa muito pouco comparecer a uma farsa (a Nova Missa) para a interpretação do mito que me faz um pobre sujeito, com escassa cultura na maioria das vezes, se eu estou muito melhor preparado do que ele para fazê-lo. O que pretendo é um verdadeiro Sacerdote, um Ungido, que mediante um Rito verdadeiro, respeitando a língua ritual, reproduza o FATO, renove aquele fato fundante da Relação Redentora de Deus com o Homem. Não me vendam ilusões.

E a maldição?! Se a Redenção do gênero humano pela Encarnação, Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo fosse um Mito, sua mensagem seria que, em seu exemplo, somos uma espécie de deuses encarnados em virtude da dignidade humana em que fomos criados, que devemos padecer generosamente nos trabalhos da vida pelos demais, para renascer dessa tomada de consciência como homens fraternais, pacíficos e solidários… sim, muito bonito… Mas nunca se produz, está como a cenoura na vara para produzir uma ansiedade interminável e uma frustração permanente, para sermos malamente surpreendidos por uma morte sem ver o fruto de nossa redenção humana.

Ora bem, voltemos ao mito e sua estrutura: se completamos o quadro de todo mito que se preze e que parte de um Deus que foi ofendido e quer cobrar-se, que como a Sísifo nos pôs numa tarefa que se desfaz a cada momento e que deve ser reiniciada para desfazer-se, tarefa para a qual nossas forças e tendências não servem, tudo com base em um “paradigma” falso e irrealizável que foi um engano e uma condenação, não nos daremos conta de que o relato evangélico não é o Mito! É A MALDIÇÃO.

Cristo é a maldição. Nietzsche soube adivinhar e não há judeu que não tenha se dado conta da verdadeira interpretação do mito cristão e não esteja seguro disso. E por mais tolos que sejam esses modernistas que estão indagando o mito, não tardarão em perceber, quando já há muitos que se deram conta, o erro. Se é um “Fato”, Cristo o realizou; se é um Mito, Cristo é a maldição. E esses patetas dos modernistas não estão se dando conta. Ou estão? E o estão desmontando com o cuidado com que se desmonta uma bomba…