UMA REFLEXÃO SOBRE A OCIOSIDADE

“QUEM NÃO QUER TRABALHAR, É JUSTO QUE NÃO COMA”

Fonte: FSSPX México – Tradução: Dominus Est

Neste artigo do Revmo. Pe. Lethu, da FSSPX, falaremos sobre a “ociosidade”, coisa muito perigosa que abre a porta ao demônio e a inúmeros pecados. Aprendamos, então, como combatê-la para não nos tornar “irmãos moscas” como São Francisco de Assis chamava os ociosos.

Caro fiéis:

O mundo moderno realmente não me conhece, mas muito me ama, a tal ponto que me oferece gratuitamente técnicas que permitam me desenvolver para que as pessoas, sem perceberem, desperdicem seu tempo. O mundo moderno quase nunca fala de mim, mas bebe de minhas águas viciosas dia a dia. Comigo, as virtudes e as obras de misericórdia desaparecem da face da terra e os piores vícios se multiplicam todos os dias. O mundo moderno me quer unanimemente porque satisfaço o egoísmo de cada um. Pior ainda, a juventude moderna se casou comigo e me abraça tanto que não podem viver sem mim. Quem sou? Sou um pecado pouco conhecido, mas muito comum. A Sagrada Escritura me chama “a mãe de todos os vícios”. Eu sou a ociosidade!

Quem são os ociosos?

Se podem chamar ociosos:

  1. Aqueles que negligenciam sua salvação, vivendo como se não tivessem uma alma para salvar. Uma coisa é necessária: nossa salvação, e eles não se importam.
  2. Aqueles que seguem suas paixões deixando-se dominar por elas, como na parábola do filho pródigo (Lc 15, 11-32).
  3. Aqueles que se deixam devorar pelas coisas temporais, esquecendo os assuntos eternos.
  4. São ociosos aqueles que não fazem nada no dia, consumindo seu tempo em conversas inúteis, brincando, dormindo … chateando, navegando como internautas em águas turvas, pendurados no celular, divertindo-se ao invés de trabalhar … São Francisco de Assis chama os religiosos ociosos de “Irmãos Moscas”, porque a única coisa que fazem é irritar aqueles que trabalham. Como a mosca, eles têm uma vida sem obras, inútil, preguiçosa, indigna de um homem.
  5. Aqueles que fazem outra coisa ao invés do seu dever, seguindo seus caprichos; por exemplo, praticar ou assistir esportes antes das tarefas e/ou antes da convivência em família. Cuidado, se a Igreja condena a ociosidade, não condena os esportes e diversões saudáveis ​​e oportunas. Um dia, um estrangeiro que estava armado, com arco e flechas, surpreendeu a São João Apóstolo, evangelista e Bispo de Éfeso, brincando em um momento de descanso com uma perdiz domesticada. Ele a tinha em uma mão, e o pequeno animal ia subindo em suas costas, até empinar-se sobre sua cabeça. Este estrangeiro manifestou ao apóstolo a sua estranheza diante desse espetáculo e San Juan perguntou por que ele portava o arco desarmado? O estrangeiro respondeu: “Porque o arco sempre armado perde sua força“. E São João respondeu: “Assim também acontece com homens muito afetados em sua fadiga e cuidados; para que estas não destruam a força do espírito, devem buscar um passatempo honesto em diversões inocentes”. Muitas vezes, de fato, os passatempos são mais do que um prazer, são uma necessidade do espírito. É por isso que se diz: “Bem é relaxar, depois de trabalhar“.
  6. Aqueles que trabalham sem pureza de intenção, isto é, sem oferecer seu trabalho a Deus. Essas pessoas podem fazer boas e santas obras em si mesmas, mas buscam sua própria satisfação ou os louvores das criaturas, em vez de se referi-las a Deus.

Gravidade da ociosidade

A ociosidade é a violação de um preceito divino: “com o suor do seu rosto ganharás seu pão“, disse Deus diz a Adão depois do pecado original. E São Paulo ressalta: “ Nem de graça comemos o pão de homem algum, mas com trabalho e fadiga, trabalhando noite e dia, para não sermos pesados a nenhum de vós. Não porque não tivéssemos autoridade, mas para vos dar em nós mesmos exemplo, para nos imitardes. Porque, quando ainda estávamos convosco, vos mandamos isto, que, se alguém não quiser trabalhar, não coma também. Porquanto ouvimos que alguns entre vós andam desordenadamente, não trabalhando, antes fazendo coisas vãs. A esses tais, porém, mandamos, e exortamos por nosso Senhor Jesus Cristo, que, trabalhando com sossego, comam o seu próprio pão. E vós, irmãos, não vos canseis de fazer o bem. Mas, se alguém não obedecer à nossa palavra por esta carta, notai o tal, e não vos mistureis com ele, para que se envergonhe. Todavia não o tenhais como inimigo, mas admoestai-o como irmão.” (2 Tes. 3, 8-15).

Permanecer ocioso é abrir a porta para ao demônio e todos os vícios. A água, quando corre, mantém sua nitidez, mas quando ela deixa de correr ela fica turva, prejudicial, fétida, pantanosa. Da mesma forma, quando Sansão luta contra os inimigos do seu povo, é invencível, mas quando ele dorme sobre os joelhos de uma mulher, perde sua força, suas virtudes e sua glória. Davi quando está encabeçando o exército é casto, doce e justo, mas ocioso em seu palácio torna-se impudico, injusto e cruel … “uma ocupação prudente – diz Jerônimo – é o escudo do coração“.

Permanecer ocioso é perder duas coisas que têm um preço infinito: o tempo e a graça. Sem o tempo e sem a graça, como conquistar o céu? Perdê-los em coisas inúteis é expor-se a perder a alma por toda a eternidade. O que o Senhor não sofreu em sua paixão por todo esse tempo desperdiçado? É por isso que Deus odeia tanto a ociosidade. “Quando penso em como usei o tempo“, diz San Francisco de Sales, “receio que Deus não me dê sua eternidade, porque ele só dá àqueles que usaram bem seu tempo“.

Remédios para ociosidade

  1. Olhemos sem cessar a Nosso Senhor. Depois de ter dado o exemplo, Nosso Senhor envia seus apóstolos ao trabalho. E nós, pecadores, permaneceríamos ociosos, confortavelmente?
  2. Mantenhamo-nos na presença de Deus colocando todo nosso coração no cumprimento de Sua Vontade. “Vontade de Deus, és meu paraíso“, exclamava Santa Teresa.
  3. Julguemo-nos e castiguemo-nos quando perdemos tempo e assim Deus não nos julgará. 
  4. Obriguemo-nos a obedecer regras, horários fixos, tanto quanto possível. Há uma hora católica para deitar-se. Há uma hora católica para levantar-se, para fazer as orações da manhã, para tomar café da manhã, para trabalhar, para comer, para fazer as tarefas, para jogar/brincar … para voltar do trabalho, para recitar o rosário em família, para jantar juntos e fazer o oração da noite juntos.
  5. O céu sofre violência e são os violentos que o ganham“, diz Nosso Senhor. Deixemo-nos então ser exigentes para com nós mesmos, antes de tudo encontrando a energia necessária na oração freqüente e nos sacramentos bem recebidos.

Que o demônio os encontre sempre ocupados“, diz São Jerônimo, “e assim não poderá vencê-los“.

Padre Donatien Lethu, FSSPX +

SERÁ O CANTO GREGORIANO EM BREVE A REGRA EM VEZ DA EXCEÇÃO?

Em artigo publicado neste Natal por Crux, a tendência orgânica para a atração dos jovens católicos pela beleza do canto gregoriano foi enaltecida com otimismo.

Fonte: SSPX -USA (Agradecemos ao nosso amigo Sr. Adolfo J. G. Correa pela tradução)

O artigo menciona o experimento realizado em St. John the Beloved Catholic Church, localizada em McLean, Virginia, onde o Canto Gregoriano tornou-se uma genuína atração. A princípio, o retorno ao canto gregoriano foi perturbador para alguns dos paroquianos. Mas, recentemente, começou a atrair mais e mais fiéis e provoca a curiosidade por parte dos recém-chegados.

Para o diretor musical de St. John the Beloved, James Senson, a principal razão da crescente popularidade do canto gregoriano consiste no fato de que ele “é uma parte da Igreja. É o texto da Igreja”.

O artigo publicado em Crux cita ainda o seminarista do Colégio Teológico, Gabe Bouck, dizendo que «a liturgia deve falar para a glória de Deus» e:

“…a liturgia é o ápice de qualquer tipo de experiência de adoração que jamais encontraremos deste lado da eternidade. Então, se eu sei que não há nada maior nessa terra que eu possa fazer do que adorar a Deus, então tudo o que se passa naquela liturgia precisa ser o melhor e o mais belo do que pudermos transmitir“. Continuar lendo

A VERDADEIRA HUMILDADE – PALAVRAS DE MONS. MARCEL LEFEBVRE

Fonte: FSSPX México – Tradução: Dominus Est

Acima do conceito da obediência, da vida comunitária, do apostolado e da própria santidade, ressalta agora a vocação pessoal, o carisma e a dignidade da pessoa humana, exigindo respeito pelas ideias e pelas orientações pessoais. Como conciliar essa concepção com a humildade? 

A alma humilde – diz nosso Venerável Padre François Libermann – é doce na obediência e obedece sem dificuldade e sem contestar, porque não se apega a sua própria vontade. A humildade é a mãe da regularidade, o apoio da união interna e a mais forte garantia de subordinação.

É evidente que Nosso Senhor nos ensinou a mesma doutrina: “Aprenda comigo, que sou manso e humilde de coração“. “Todo aquele que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado“.

Quantos textos poderiam ser citados da parte dos Apóstolos e, em particular, o exemplo de Nosso Senhor, do qual fala São Paulo na segunda Epístola aos Filipenses: “Se humilhou fazendo-se obediente até a morte … pelo qual também Deus o exaltou acima de todas as coisas“. É também a lição da Santíssima Virgem, quando cantou as bondades que Deus tivera com ela: “Porque olhou a humildade de sua serva“. 

Todos os santos deram um exemplo vivo dessa virtude, que é condição indispensável para a presença de Deus em uma alma. Santo Tomás de Aquino disse que esta virtude “remove obstáculos e nesse sentido ocupa o lugar principal na medida em que elimina o orgulho, na qual Deus resiste, e torna o homem obediente e sempre submisso para receber o influxo da graça divina eliminando o inchaço do orgulho.” Continuar lendo

BRASIL CATÓLICO

Resultado de imagem para brasil católicoO Brasil, durante muito tempo, foi considerado o maior país católico do mundo. Parece que houve épocas em que mais de 90% dos brasileiros eram católicos. Não é para espantar. Os países colonizados pelos portugueses e espanhóis foram fundados por homens que tinham uma preocupação grande com a salvação das almas. Apesar de muitas mentiras contadas para as nossas crianças nos livros escolares onde o papel civilizador e santificador da Igreja Católica é enegrecido e brutalizado por calúnias, a verdade límpida e pura é evidente: houve abusos, houve comércio, enriquecimento de alguns, ganância e crimes, certamente, porque em todo empreendimento humano sempre será desta forma; houve sim porque nem sempre os portugueses ou espanhóis que vieram para cá foram homens católicos ou, pelo menos, que vivessem o catolicismo de modo puro e sincero. Ao contrário, havia até condenados pela justiça que encontraram nos riscos de tal aventura um meio de escapar da prisão. Mas o que faziam os missionários dentro daquelas cascas de noz que atravessavam o Atlântico? O que queriam? Possuir terras e riquezas? Ouro? É curioso como se inverte a realidade. Se assim fosse, não seria mais lógico que primeiro deixassem que o ouro fosse descoberto para depois vir participar da “divisão”? Porque os padres e religiosos viriam sem saber se ouro havia? Porque eles sabiam de uma só coisa, e era suficiente: havia gente. Havia povos pagãos que precisavam do Evangelho para conseguir ir para o céu. E os mentirosos como o sr. Mário Smith, autor nefasto de livros de História envenenam grande quantidade de crianças brasileiras com carimbos e chancelas dos nossos ministérios. Gente como este senhor precisava responder a processos judiciais por envenenamento de almas. Ele faz o contrário do que faziam os missionários, ele corrompe, mente, debocha, destruindo nas consciências dóceis das crianças o amor por nosso passado, por nossa cultura católica, por nossa Pátria.

Onde estão os católicos do nosso país para denunciar esta corrupção da verdade? Onde estão os bispos brasileiros para proibir aos seus fiéis o uso de tal medíocre e mentiroso livro?

O Brasil era um país católico. Chamou-se Terra da Santa Cruz porque foi batizado próximo da festa da Invenção da Santa Cruz, no dia 3 de maio, que celebra a descoberta da verdadeira Cruz de Nosso Senhor, por Santa Helena, em Jerusalém. A sociedade brasileira, apesar de seus governos liberais, maçônicos, anti-católicos, manteve sempre acesa a luz da Fé e chegou aos meados do século XX como essa grande nação católica, que causava admiração a tantos, pela simplicidade e pela convicção do seu povo. Continuar lendo

A REVELAÇÃO DO HOMEM

Resultado de imagem para gustavo corçãoNão, caro leitor, não creio que possamos convenientemente definir e caracterizar as graves perturbações do mundo católico com as expressões condoídas que você usou em sua carta, tais como “lamentáveis divisões”, “dolorosas divergências”, “dissenções e polêmicas entre católicos”. Tentarei expor aqui meu pensamento com a mesma objetividade e isenção de ânimo que sempre pus nas minhas obras de engenheiro: receptores de ondas curtas, amplificadores de freqüências acústicas, sistemas eletrônicos de ondas portadoras etc. etc. Essas pequenas obras que deixei esparsas e que me sobreviverão por algum tempo, como ainda sobrevivem, em funcionamento, aparelhos que construí para a Companhia Telefônica Brasileira em 1937, são meu obscuro testemunho de uma docilidade ao real com que quero viver e morrer. O título com que dou aulas de religião aos que para isto ainda me procuram é também uma docilidade ao que aprendi com os apóstolos e seus descendentes. Melhor coisa não possuo senão esta capacidade de bem identificar o evangelho deixado pelos evangelistas e difundido por Paulo.

Não tinham grau de doutor em teologia os gálatas humildes a quem o apóstolo Paulo escrevia: “Mas ainda que nós mesmos ou até um anjo do céu vos anuncie um outro evangelho (…), anátema seja. Já vos disse antes e agora repito: se alguém pregar outro evangelho, diferente do que recebestes, seja anátema.” (Gal. 1, 8-9.)

Nesta singela e severa passagem se condensa toda a praticabilidade do cristianismo. Se os mais humildes fiéis não fossem capazes desse discernimento inicial e fundamental, ou se outro evangelho se pudesse inculcar como o mesmo já anunciado, vão teria sido o Sangue derramado na Cruz, vãos os ensinamentos de Jesus, vão o testemunho dos mártires, dos doutores, dos heróis da santidade: O cristianismo seria uma tertúlia de intelectuais e, por conseguinte, não seria o cristianismo.

Baseado neste diploma universal, que tem o sinete dos primeiros princípios e o escudo do senso comum, ouso dizer uma coisa ensurdecedoramente visível e ofuscantemente audível: não há apenas divisões dentro da Igreja (se com esses termos queremos designar os escândalos provocados por religiosos, padres e bispos), não há dissensões e polêmicas. O que há, a entrar pelos olhos adentro, é outra “igreja” a anunciar estridulamente outro evangelho. Não há duas alas, a dos conservadores e a dos progressistas; há duas coisas distintas: a Igreja de Cristo, de Pedro e de Paulo e a outra Coisa. Posso admirar-me e entristecer-me pelo fato de não ouvir o Papa dizer a palavra liberadora — anátema seja aos falsificadores, aos fabricantes de um novo super-protestantismo feito com os vômitos do que já envelheceu e apodreceu; mas não posso, sem desrespeito e paranóia, pretender suprir com minha voz o silêncio do Papa. Continuar lendo

D. FELLAY: CARTA AOS AMIGOS E BENFEITORES – Nº 88

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Fonte: DICI – Tradução: Dominus Est

1517 – 1917: A REVOLTA DE LUTERO E A REVOLUÇÃO BOLCHEVISTA À LUZ DE FÁTIMA

Caros amigos e benfeitores,

Neste mês de outubro de 2017, coincidiram três aniversários que determinaram o curso da história dos homens e da Igreja: a revolta de Lutero, a revolução bolchevista e o milagre de Fátima.

Há quinhentos anos, em 31 de outubro de 1517, Martinho Lutero iniciou sua revolta contra a Igreja Católica. Há cem anos, no dia 7 de novembro, estourou a revolução na Rússia. Segundo o calendário juliano, ela recebeu o nome de “Revolução de Outubro”.

E há cem anos, alguns dias antes, em 13 de outubro, o Coração Imaculado selou com um milagre espetacular sua mensagem, anunciando os grandes eventos futuros da Igreja e do mundo, dos quais alguns já fazem parte do passado, como a Segunda Guerra Mundial, e outros ainda não chegaram, como o triunfo do Coração Imaculado e a conversão da Rússia.

A reforma lançada por Lutero apareceu, em um primeiro momento, como um acontecimento religioso. E, desde logo, o heresiarca alemão abalou em seus fundamentos a Igreja Católica, atacando o papado, a graça, a Santa Missa, o sacerdócio, a Santa Eucaristia … A fé e os meios concedidos por Deus aos homens para alcançarem a salvação eterna foram rejeitadas ou profundamente falsificados.

Mas, tendo em conta os inegáveis ​​vínculos entre a ordem sobrenatural da Igreja e da graça, por um lado, e a ordem temporal dos governos humanos e da sociedade civil, por outro, muito em breve a rebelião contra a Igreja se estendeu à sociedade humana, dividindo a Europa até hoje, abrindo séculos de perseguição contra a Igreja nos países reformados e marcando toda a Europa com terríveis guerras, das quais a mais dolorosa foi a Guerra dos Trinta Anos. Realmente, nossa incompreensão é total quando atualmente vemos que alguns prelados católicos celebram e até mesmo comemoram esse acontecimento tão triste e tão assustador para a cristandade. Continuar lendo

A REALEZA DE CRISTO NO CORAÇÃO DE NOSSO COMBATE

Fonte: La Porte Latine – Tradução: Dominus Est

Durante a apresentação da Fraternidade São Pio X, na edição anterior, foi observado o seguinte ponto: “Um outro elemento central da “espiritualidade” da Fraternidade São Pio X é indicado pelos Estatutos em duas discretas frases:

“Eles terão pelo Reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo uma devoção sem limites, compatível com a infinidade de Seu Reino: sobre as pessoas, as famílias e as sociedades. Se eles devem manifestar uma opção política, sempre será no sentido deste Reinado social de Nosso Senhor Jesus Cristo “.

Pareceu-me útil desenvolver este ponto pouco mencionado, por dois motivos principais: 

– O primeiro é o incrível mal entendimento atual da doutrina do Reinado de Cristo, de Cristo Rei, embora o Papa Pio XI, em particular, expôs longa e metodicamente essa doutrina, que é o coração da fé católica. Uma espécie de placa de chumbo caiu nesta parte da doutrina católica, transformando-a em um “buraco negro” na vida cristã. É por isso que esta questão é um pouco mais longa do que o habitual, de forma a dispor de tempo para explicar, mesmo que brevemente, esse elemento do dogma católico. Continuar lendo

HÁ 100 ANOS ATRÁS, O COMUNISMO ATACOU A IGREJA E O MUNDO

news-header-imageEm Março de 1917, Lênin vivia na pobreza em Zurique. Ele era o líder exilado de um pequeno, extremista e revolucionário partido. Oito meses depois, em Outubro de 1917, ele se tornaria o mestre da Rússia, um país com mais de 160 milhões de habitantes e superfície geográfica cobrindo um sexto das terras inabitadas da Terra. Ele estabeleceu neste país um dos piores regimes que o mundo já teve conhecimento.

Fonte: SSPX – USA — Tradução gentilmente cedida pelo nosso amigo Sr. Fernando Scorsin 

Antes de encontrar seu caminho de volta a Rússia, Vladimir Ilitich Oulianov estava vivendo uma vida medíocre em Zurique, gastando seu tempo em escrever artigos para publicações Marxistas obscuras e em desprender longos debates nas cafeterias.

Mas no meio da Primeira Guerra Mundial, com o apoio do governo do Kaiser Guilherme II, Lênin viajou pela Alemanha e Escandinávia para retornar a Rússia. Esta viagem de oito dias, de 27 de Março a 3 de Abril, 1917, mudou o aspecto do mundo.

Milhões de projéteis destrutivos foram atirados durante a guerra mundial”, escreveu Stefan Zweig no Le Wagon-pomblé (o vagão-guia que transportava Lênin e cerca de trinta bolcheviques pela Europa, nota da tradução), mas “nenhum voou mais longe, nenhum teve papel mais decisivo em toda a história recente que este trem saído da fronteira Suíça, carregado com os mais perigosos e determinados revolucionários do século, que atravessou a Alemanha e pousou em São Petersburgo, onde explodiu a ordem a reinante”.

Ele era um homem insignificante e preocupado quando chegou em Petrogrado, na noite de 16 de Abril de 1917; ele temia a possibilidade de ser preso por traição, assim que desembarcasse do trem, pelo governo temporário regido pelo Príncipe Georgy Lvov, que estava no cargo desde de abdicação do Czar. Durante esta jornada, ele escreveu suas Teses de Abril, advogando por uma revolução radical proletária, a qual não incluía a revolução da classe-média prescrita pela teoria Marxista. Continuar lendo

SUMMORUM PONTIFICUM 2017 – PODE O ENRIQUECIMENTO MÚTUO “CURAR A FERIDA”?

Procissão em direção à Basílica de São Pedro por ocasião da conferência Summorum Pontifcum.

Os adeptos ao chamado de Bento XVI para o «enriquecimento mútuo» destacaram-se proeminentemente na conferência e peregrinação Summorum Pontificum.

Fonte: SSPX – USA — Tradução gentilmente cedida pelo nosso amigo Sr. Adolfo José Guimarães Correa 

O cardeal Robert Sarah, chefe da Congregação para o Culto Divino, esteve entre os oradores em Roma, de 14 a 17 de setembro de 2017, assim como o Arcebispo Pozzo, secretário da Pontifícia Comissão Ecclesia Dei, responsável pelos grupos ligados à Missa Tradicional como a Fraternidade São Pedro e o Instituto Cristo Rei.

O arcebispo Pozzo declarou em seu discurso:

«Penso que é necessário voltar a um aspecto fundamental do Summorum Pontificum, ou seja, o desejo de curar a ferida, não apenas litúrgica, mas eclesiológica, entre o antigo e o novo… Creio que o rito antigo, com o seu patrimônio de fé e santidade, pode enriquecer o novo; enquanto o novo, por sua vez, pode representar essa legítima aspiração para o desenvolvimento teológico e litúrgico em continuidade e fidelidade à tradição.»

O que é «Enriquecimento Mútuo»?

A expressão «enriquecimento mútuo» ocorre famosamente nas palavras do Papa Bento XVI em sua Carta aos Bispos do Mundo para Apresentar o «Motu Proprio» sobre o Uso da Liturgia Romana anterior à Reforma realizada em 1970, quando afirmou: «As duas Formas do uso do Rito Romano podem enriquecer-se mutuamente». Nesta carta, ele procurou dissipar os receios de que, em primeiro lugar, a liberação da Missa Tradicional poria em questão a autoridade do Concílio Vaticano II e, em segundo lugar, o receio de que o uso do rito tradicional causaria divisão dentro da Igreja.

Nessa mesma carta, Bento XVI forneceu exemplos do enriquecimento mútuo que ele previa: pequenos ajustes no antigo Missal, como inserções de «…novos santos e alguns dos novos Prefácios…» e maior sacralidade, reverência e obediência às rubricas na Celebração da Missa Nova: «na celebração da Missa segundo o Missal de Paulo VI, poder-se-á manifestar, de maneira mais intensa do que frequentemente tem acontecido até agora, aquela sacralidade que atrai muitos para o uso antigo».

A expressão rapidamente se tornou uma frase favorita, em particular para aqueles que desejavam a Missa Antiga, mas que, por razões várias, atenuaram a sua oposição aberta ao Novus Ordo ou ao Concílio Vaticano II. Isso encaixa bem com a noção de Bento XVI de «hermenêutica da continuidade», a ideia de que o Concílio Vaticano II e as ambiguidades nele contidas podem ser interpretadas à luz da tradição. Continuar lendo

COMO COLABORAR COM NOSSA CAMPANHA DE ARRECADAÇÃO?

CAPELAPrezados amigos, prezados leitores e benfeitores, louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.

Montamos esse post em virtude de alguns questionamentos que nos fazem sobre o Projeto de nossa Capela e as dúvidas sobre como colaborar.

Listamos, então, algumas perguntas e respostas sobre nossa Campanha para que, de uma forma mais prática e didática, entendam-a e possam nos ajudar.

1 – Do que se trata esse Projeto?

Há algum tempo iniciamos uma campanha de arrecadação de fundos para a futura construção de uma capela dedicada à Tradição, aqui em Ribeirão Preto (veja aqui), com o objetivo de edificar almas, expandir a verdadeira fé católica, lutar pela Santa Igreja, formar cidadãos capazes de lutar por suas ideias e, principalmente, pelo fim último de todo homem, a glória de Deus, no céu.

2 – Quantas fases terá o projeto?

Serão duas etapas:

Primeira (atual): refere-se à aquisição de um terreno

Segunda: diz respeito à elevação física da Capela.

3 – Quem pode ajudar?

Qualquer pessoa, independente de sua ciência sobre a crise de fé que passa a Igreja e que queira colaborar com a expansão da verdadeira doutrina católica, que lute pelo Reinado Social de Nosso Senhor e que queira fazer um gesto nobre de caridade…da verdadeira caridade.

4 – Há um valor mínimo ou máximo para doação?

Claro que não! Pedimos uma ajuda conforme a possibilidade de cada um.

Já tivemos benfeitores que colaboraram com R$ 5,00, outros que colaboram/colaboraram com valores bem mais altos. Há amigos que ajudaram apenas uma vez, outros colaboram/colaboraram esporadicamente e outros ainda colaboram mensalmente….vai da generosidade e das condições de cada um.

5 – Porque há de se ajudar a construção de uma capela que não está em minha cidade?

Por amor à Santa igreja, por amor às obras de caridade, por amor à verdadeira fé e à doutrina de sempre, pelo simples fato de fazer um bem à almas que talvez nunca venha a conhecer.

E como diz São Paulo: “A caridade é paciente, a caridade é benigna; não é invejosa, não é altiva nem orgulhosa; não é inconveniente, não procura o próprio interesse; não se irrita, não guarda ressentimento; não se alegra com a injustiça, mas alegra-se com a verdade; tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”. (1 Cor 13, 4)

6 – Como podemos acompanhar a evolução da campanha? Meu nome será exposto?

Todo mês atualizamos a porcentagem da meta em uma página dedicada (veja aqui), bem como inserimos, nessa mesma página, o nome do benfeitor para que possamos rezar por eles em nossos terços, que é a única forma de agradecer um gesto tão nobre. Muitos preferem doar no anonimato e nossas orações também são destinadas a eles. Aos empresários há a possibilidade de colocarmos a logomarca da Empresa na página, se desejarem.

7 – Como faço para colaborar?

Faça um depósito na seguinte conta:

ASSOCIAÇÃO RELIGIOSA E CULTURAL SÃO PIO X
CAIXA ECONÔMICA FEDERAL
Agência. 1374
Conta Poupança: 401124-3 (Operação: 013)

CNPJ: 09.385.198/0001-43

Obs: Percebam que nossa conta mudou. A agência anterior foi fechada e consequentemente tivemos que abrir outra.

Se quiser, escreva-nos (capela@catolicosribeiraopreto.com) para que possamos incluí-lo em nossa lista de benfeitores.

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Aproveitamos para agradecer a todos que que acessam e gostam do nosso blogtodos que acompanham as ações da FSSPX pelo mundo que nos ajudam ou ajudaram em algum momento nessa campanha, mesmo de forma anônima. Contem com nossas orações.

“Com sua ajuda, ainda que mínima, concluiremos mais uma obra pela Santa Igreja Católica e o restabelecimento do Reinado Social de Nosso Senhor Jesus Cristo”.

Ad Majorem Dei Gloriam

Mais uma vez obrigado e que Nossa Senhora os proteja e os conduza ao caminho da santificação.

RESPONDENDO À ALGUMAS DÚVIDAS SOBRE O COMPORTAMENTO DAS CRIANÇAS NA MISSA

Resultado de imagem para CRIANÇA REZANDO IGREJA VÉUFonte: FSSPX México – Tradução: Dominus Est 

Revmo. Padre, sou pai da família e me surgiram algumas dúvidas a respeito do comportamento de meus filhos ao assistirem o Santo Sacrifício da Missa. Formulei algumas perguntas que peço que me responda, assim poderei saber o que devo fazer. 

1 – Padre, as crianças pequenas e bebês aproveitam a Missa?

Claro que sim, todo fiel batizado, ainda que seja um bebê de peito, recebe as graças celestiais quando se aproximam do Santo Sacrifício com as devidas disposições. 

2 – Aproveitam da Missa os bebês que dormem durante a mesma?

Certamente que sim, pois os fiéis aproveitam cumprindo com suas boas disposições. No caso do bebê, seu dever de estado não parece ser outro além de comer, dormir e se comportar bem.

3 – Aproveitam a Missa as crianças maiores que brincam durante a Missa?

Não tanto, pois é claro que seu dever como um batizado é ter reverência ao culto divino e isso não é demonstrado jogando e fazendo caprichos. 

4.- Meus filhos devem aprender a se comportar e participar da Missa. Sei que sou obrigado a ensiná-los e corrigi-los se necessário, no entanto, por estar vigiando-os não assisto a Missa e sinto que não cumpro o preceito dominical. O que devo fazer?

Primeiro deve cuidar de seus filhos e tentar ensinar-lhes a se comportarem como pede o Deus bom. O senhor também deve cumprir o dever do seu estado para receber as graças do Santo Sacrifício. Se o senhor não cuida de seus filhos, não está cumprindo seu dever de estado, portanto, não recebe todas as graças que deveria do Santo Sacrifício e ademais, não deixa que os outros cumpram com o preceito. 

5.- O que devo fazer quando meu bebê, por mais que eu tente, não se cala durante a Missa e distrai os outros?

As crianças devem ser ensinadas a se comportarem durante a Santa Missa, preparando-as antecipadamente. O erro mais frequente dos pais é que, quando o bebê começa a incomodar, depois de tentar acalmá-lo, distraindo todos ao seu redor, terminam por leva-lo para fora. Há de preparar as crianças para a Santa Missa! Um lembrete para os pais: crianças pequenas ainda não entendem, simplesmente dependem muito de suas impressões sensíveis.

Pode-se ajudar um bebê a comportar-se bem na capela fazendo-o encontrar um lugar mais confortável dentro dela. Deixe-me explicar: os pais tiram seu bebê de um lugar confortável (sua casa), o cobrem como um esquimó para levá-lo para fora (a criança segue confortável) e o levam para a capela. Aqui lhes tiram o casaco e então a criança entende que é hora de brincar … Um pouco maiores, já sabem que bastam chorar ou fazer birra para que os pais o levem para o pátio (a um lugar mais cômodo) e alí pode brincar… Senhora Mamãe: Alguma vez já se perguntou por que quando está frio lá fora as crianças choram menos na capela?

Elementar, as crianças querem se sentir confortáveis ​​!!! Conheci uma mãe que entendendo esses princípios, tomou duas resoluções práticas, que foram altamente eficientes com seus filhos pequenos: Primeiro: o bebê era levado com pouco abrigo até a capela e o bebê chegava meio tremendo de frio ao átrio. Ao entrar na capela, a mãe o cobria devidamente, lhe dava um beijo e o acalmava. Oh surpresa, o bebê queria ficar lá dentro!!! E se o bebê começava a incomodar, essa mãe “sanguinária e desnaturada”, lhe tirava o abrigo e depois de uma palmada o castigava. Oh, surpresa, o bebê não queria mais sair! Essa mãe “bárbara e sanguinária” educou a várias crianças que são um batalhão de ordem quando estão na missa.  

Isso exige esforço e obediência. Uma criança caprichosa, na qual os pais não ensinaram a obedecer e se controlar (mesmo com um bom corretivo) é impossível entender de repente que deve ficar quieto e em ordem dentro da igreja. Infelizmente na capela só vemos uma parte do que os pais têm em suas casas … Continuar lendo

A IGREJA DO VATICANO II E MARTINHO LUTERO

Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa

É perfeitamente compreensível que haja tantos católicos da tradição chocados com as comemorações do 5º centenário da Revolução Luterana. De fato, é doloroso ver o Vigário de Cristo na Terra, o sucessor de Pedro, encabeçando e incentivando um ditirambo do asqueroso heresiarca.

A mim, pessoalmente, já beirando os 56 anos  de idade e tendo vivido cenas semelhantes nos tempos de João Paulo II, não me causa tanta surpresa ver a hierarquia empolgada com tudo isso. O que me causa mais revolta é ver nossas antigas igrejas, aquelas joias do gótico e do barroco, lugares sagrados e abençoados, ricos de tanto significado para os verdadeiros católicos, abrigando as orgias ecumênicas promovidas por hereges modernistas e luteranos mancomunados na perseguição contra os católicos, como se viu na expulsão de jovens belgas que rezavam o Rosário em desagravo contra a profanação de uma catedral sequestrada para uma esdrúxula cerimônia ecumênica  modernista-luterana.

Entretanto, é preciso dizer que é igualmente compreensível que a Igreja do Vaticano II celebre o 5º centenário da obra nefasta de Martinho Lutero. Afinal, sem Lutero e sua revolução, com todas as suas consequências, não se explica o Vaticano II, seus vários documentos e as múltiplas reformas que dele emanaram.

Com efeito, a nova eclesiologia conciliar (em contradição com a Satis Cognitum de Leão XIII e a Mystici Corporis de Pio XII), tal como está exposta na Lumen Gentium, com a famosa expressão “a Igreja de Cristo subsiste na Igreja Católica”, é de origem protestante. Está provado e documentado que essa horrível expressão, que tem o único objetivo de empanar  a perfeita identidade da Igreja de Cristo com a Igreja Católica, foi introduzida pelo Dr. Ratzinger, por sugestão de um pastor protestante.

Recorde-se, outrossim, a história da desastrada reforma litúrgica. O escritor Jean Guiton, amigo de Paulo VI, declarou que Paulo VI lhe disse que tinha a intenção de fazer uma reforma litúrgica que abolisse todos os elementos que eram do desagrado dos “irmãos separados”. Por isso mesmo, após o concílio convidou “peritos” protestantes para participar da comissão encarregada da  reforma do missal romano. Disto resultou uma liturgia ambivalente. E hoje não há ninguém com um mínimo de juízo crítico que não reconheça que a missa moderna, como celebrada na maioria das paróquias e tão apreciada pelos católicos renovados, não parece um arremedo do culto protestante. Continuar lendo

OS PRINCÍPIOS DA AÇÃO CATÓLICA – PARTE 4/4

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/0/08/Meeting_of_doctors_at_the_university_of_Paris.jpgPelo Pe. François-Marie Chautard

Fonte: Le Chardonnet nº 269 – Tradução: Dominus Est

Por mais pertinente que sejam os campos de ação do Apóstolo, e por mais elevado que esse campo seja na sociedade, sua eficácia depende necessariamente de algumas condições pessoais.

Ora, o católico que deseja ver o reino de Jesus Cristo intervém em dois tipos de esfera bem distintas: uma puramente espiritual e a outra puramente temporal. Além disso, o verdadeiro apóstolo deve ser dotado de qualidade espirituais e humanas.

Meios sobrenaturais

Um adágio filosófico extremamente simples ensina que a causa é proporcional ao efeito. Se o apóstolo pretende fazer uma obra sobrenatural, ele mesmo deve ser profundamente sobrenatural. Caso contrário, sua ação será humana e o fruto… humano. Se o apóstolo quer obter um fruto bem profundo e durável, ele mesmo deve ter um vida interior profunda.

O apóstolo deve, portanto, ter necessariamente como apoio uma profunda vida interior. Por isso é que os papas insistem tanto na vida de oração que deve dirigir toda a ação católica, que por sua vez é um prolongamento da ação salvífica de Cristo e dos Apóstolos. E, com efeito, trata-se de uma verdadeira vida de oração, e não do cumprimento de alguns exercícios de piedade. É uma vida de piedade, e não um verniz de piedade que não teria qualquer influência sobre a maneira de viver e julgar.

Essa vida de oração deve igualmente ser acompanhada de uma vida de fé sólida e instruída. E a formação doutrinal deve também ter uma importância de primeira ordem. Enfim, o apóstolo não deve poupar-se de um verdadeiro espírito de sacrifício.

Conforme escreveu São Pio X, «Antes de tudo, é preciso estar profundamente convencido de que o instrumento é inútil se ele não é apropriado ao trabalho que se quer executar. Conforme o que foi evidenciado acima, a ação católica, na medida em que se propõe a restaurar todas as coisas em Cristo, constitui um verdadeiro apostolado para a honra e glória do próprio Cristo. Para bem cumpri-lo é preciso que se tenha a graça divina e que o apóstolo só a receba se estiver unido a Cristo. Somente quando tivermos formado em nós Jesus Cristo é que podemos mais facilmente trazê-Lo às famílias e à sociedade. Todos aqueles que são chamados a dirigir ou que se consagram à promover o movimento católico, devem ser católicos à toda prova, convictos de sua fé, firmemente instruídos nos assuntos religiosos, sinceramente submissos à Igreja e especialmente à suprema Sé Apostólica e ao Vigário de Jesus Cristo sobre a terra; eles devem ser homens de piedade verdadeira, de varonil virtude, íntegros nos costumes e de uma vida de tal modo intemerata que eles sirvam a todos de eficaz exemplo. Continuar lendo

OS PRINCÍPIOS DA AÇÃO CATÓLICA – PARTE 3/4

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/a/a3/Leo_XIII.jpg/240px-Leo_XIII.jpgPelo Pe. François-Marie Chautard

Fonte: Le Chardonnet nº 268 – Tradução: Dominus Est

Cristianizar a sociedade em todos os seus elementos e fazer irradiar Cristo Rei: tal é o desejo caro a muitos corações católicos.

Ainda é preciso saber como se tomar uma decisão acerca dos meios. Por isso, após ter evocado os grandes princípios da Ação católica, resta-nos ver como aplicá-los: em quais campos de ação[1] e segundo quais condições.

«Ademais, importa — observa São Pio X — definir claramente as obras pelas quais as forças católicas devem se esforçar empregando toda sua energia e constância. Essas obras devem ser de uma tão evidente importância, responder de tal maneira aos desejos da sociedade atual, adaptar-se tão bem aos interesses morais e materiais — sobretudo os do povo e das classes mais pobres —, que, enquanto instiga nos promotores da ação católica a melhor atividade para obter os resultados importantes e certos que se devem esperar dessas obras, elas sejam também facilmente compreendidas e alegremente bem-vindas por todos»[2].

Privilegiar as estruturas

Além disso, mantidas inalteradas todas as outras coisas, parece necessário visar ainda mais as estruturas[3] que os indivíduos. O indivíduo afeta os demais indivíduos e desaparece em seguida. A estrutura permanece.

Privilegiar as estruturas já existentes

Essa atenção às instituições é dupla. Por um lado ela visa dar novamente um respiro às estruturas existentes, isto é, dar um verdadeiro espírito cristão; por outro lado ela visa fundar novas estruturas.

Esse apostolado pode então se ordenar em duas palavras: conservar e desenvolver. Antes de fazer melhor do que aquilo que existe, convém antes fazer bem aquilo que existe. Também vale mais proteger e desenvolver as obras existentes.

Infelizmente, esse princípio é frequentemente esquecido. Seduzido por uma idéia que lhe parece genial, o apóstolo se lança de cabeça numa obra que aos seus olhos parece indispensável: uma nova confraria, um novo círculo, um grupo de oração em torno de uma devoção esquecida há muito e que lhe parece imperativo ressuscitar[4]. Na Ação católica, assim como em tudo, é preciso desconfiar da tentação que tem aparência de bem.

Com efeito, frequentemente é preferível apoiar o que já existe. Além disso, é um meio certo de evitar o apego à uma obra pessoal e todos os inconvenientes humanos que ela traz consigo. Continuar lendo

OS PRINCÍPIOS DA AÇÃO CATÓLICA – PARTE 2/4

https://www.herodote.net/_images/8-papaute2-henri4-agenouille-gregoire7-vatican.jpgPelo Pe. François-Marie Chautard

Fonte: Le Chardonnet nº 260 – Tradução: Dominus Est

No artigo anterior foram evocados os objetivos assim como os três princípios da ação católica tais como o Magistério nos deu em seus ensinamentos:

O objetivo da ação católica é contribuir para a instauração do Reino de Jesus Cristo nos indivíduos, nas famílias e nas sociedades.

Esses três primeiros princípios[1] da ação católica são os seguintes:

A ação católica deve se adaptar à ordem natural e impregná-la da graça. Em poucas palavras, ela deve cristianizar a ordem das coisas.

Sendo a natureza do homem sociável, a ação católica deve impregnar sem destruir toda a vida social e política do homem, ou seja, cristianizar os corpos intermediários e, finalmente, todas as instituições sociais e políticas.

Sendo dupla a natureza das obras humanas — temporal e espiritual —, os princípios da ação católica variam de acordo com esses dois modos. E esses princípios engendram outros:

Quarto princípio: a ação católica deve estar submissa à autoridade eclesiástica

Se a ação católica visa instaurar o Reinado de Nosso Senhor na ordem puramente espiritual ou temporal, sua ação é eminentemente sobrenatural e diz respeito à ordem da graça. Ora, o que diz respeito à ordem da graça diz respeito à autoridade eclesiástica. Por conseguinte, a obediência condiciona o sucesso do apostolado, conforme ensina Pio XII:

«Essa estreita colaboração do laicato ao apostolado hierárquico, em uma inteligente e alegre obediência em relação aos chefes espirituais que o Espírito Santo colocou para reger a Igreja de Deus, é a garantia de sucessos sobrenaturais divinamente prometidos aos mensageiros do Evangelho (…)»[2].

Contrariamente a isso, afastar-se da tutela eclesiástica nas esferas que lhe pertencem equivale a se privar das bênçãos do Céu. Continuar lendo

OS PRINCÍPIOS DA AÇÃO CATÓLICA – PARTE 1/4

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/6/65/Chlodwigs_taufe.jpg/300px-Chlodwigs_taufe.jpgPelo Pe. François-Marie Chautard

Fonte: Le Chardonnet nº 260 – Tradução: Dominus Est

Conforme diagnosticou São Pio X na sua encíclica Notre charge apostolique de 25 de agosto de 1910, o «pecado original» do Sillon não consistia numa falta de generosidade, mas sim numa falta de formação.

Esse fato é importante: M. Sangnier e seus adeptos foram católicos piedosos e zelosos; infelizmente esse ardor foi desviado por uma cruel falta de conhecimento, e por se emanciparem da autoridade eclesiástica. É por isso que, antes de se lançar no campo da ação[1], é indispensável instruir-se.

Ademais, antes mesmo de buscar os princípios da ação católica, é importante conhecer a natureza da ação católica. Mas para aprender isso convém examinar o objetivo da ação católica.

I – OBJETIVO DA AÇÃO CATÓLICA: A CRISTANDADE

São Pio X forneceu uma descrição da natureza da Ação católica em sua magistral encíclica Il fermo proposito de 11 de junho de 1905:

«Com efeito, todos nós da Igreja de Deus somos chamados à formar um único corpo cuja cabeça é Cristo; corpo do qual, conforme ensina o Apóstolo Paulo, “coligado e unido por todas as juntas, por onde se lhe subministra o alimento, obrando à proporção de cada membro, toma aumento de um corpo perfeito para se edificar em caridade”.

E assim nessa obra de “edificação do Corpo de Cristo” (…) Nosso primeiro dever é o de ensinar, de indicar o método a seguir e os meios a se empregar, de advertir e de exortar paternalmente; é também dever de todos Nossos caríssimos filhos ao redor do mundo ouvir Nossos conselhos e de aplicá-los antes em si mesmos e cooperar eficazmente para que eles também sejam comunicados aos demais, cada um conforme a graça que recebeu de Deus, conforme seu estado e suas funções e conforme o zelo que inflamar em seu coração.

Aqui Nós queremos somente relembrar essas múltiplas obras de zelo para o bem da Igreja, da sociedade e dos indivíduos — comumente designadas pelo nome de Ação Católica — que, pela graça de Deus, florescem em todos os lugares…». Continuar lendo

A PSICOLOGIA DA APOSTASIA

Resultado de imagem para homem cabisbaixoFoi incansável na tentativa de levar às almas a verdade, tanto natural quanto sobrenatural, o Pe. Leonel Franca, que ilustra o pensamento brasileiro com livros dignos de um mestre. Entre seus escritos, encontra-se um pequeno livro, A Psicologia da Fé, onde o grande jesuíta analisa os detalhes do ato de fé, aquilo que leva o homem a agir pela Fé, o que  falta na atitude daqueles que não têm Fé.

Inspirado neste trabalho, e assistindo já há alguns anos a tantas almas, perguntei-me o que levava os homens ao abandono da fé. Qual a mola interior que conduz a alma humana a passar de uma atitude de  docilidade diante da verdade revelada à oposição total e perda dos atos relativos à fé: oração, confissão freqüente, comunhão, e vida cristã.

Não analiso aqui a atitude dos que não têm Fé, mas sim a atitude e a dinâmica da perda da Fé.

A alma que vive da fé  

Consideremos, então, uma alma posta no sossego da fé: ela crê em Deus e em sua Igreja, ela obedece aos mandamentos, ela reza todos os dias e no domingo prepara a si e aos seus para assistir a Santa Missa. No dia a dia, esbarrando em tantas ocasiões de pecado, em tantas tentações, ela usa os critérios que a Igreja nos propõe para não se deixar levar, para não cair no pecado: fuga das ocasiões, atos de fé, aconselhamento com o sacerdote, e oração freqüente. Assim combate a alma cristã, assim busca a perfeição quem vive da graça. É claro que em diversas ocasiões virão lhe propor atitudes que são contrárias à sua fé. Ela, porém, saberá esquivar-se com prudência de todos os ataques. Aqui com gentilezas, ali com a força do combate, mas sempre protegendo o maior tesouro que recebeu. Saberá ter compaixão para com tantas amizades, tantos parentes que não vivem da Fé e se deixam levar pelas facilidades da vida. Saberá calar e rezar no silêncio do seu quarto, sem no entanto dar a entender que apóia os erros dos seus mais próximos amigos e parentes. As coisas relativas à vida da Igreja serão sempre, para tal alma, motivo de alegria, de estudos, de oração. E se acontecer que uma atitude lhe seja pesada, rapidamente se inclinará à confiança em Deus, no auxílio divino para resistir ao erro. Viverá na Esperança teologal. E como uma vida assim não existe sem que a alma esteja unida à Deus, sem que a alma ame a Deus e ao próximo, a Caridade será a coroa de sua existência.

Vivendo, então, da Fé, da Esperança e da Caridade, a alma verdadeiramente católica busca a perfeição na prática de todas as virtudes. Continuar lendo

INDIFERENTES À MISSA NOVA?

Dois ritos diferentes coexistindo para a celebração da Missa. Realmente devemos considerá-los como duas expressões de uma mesma coisa? Certamente isso não é uma questão de gosto: é a fé católica que está em jogo. Lembremo-nos de como devemos julgar a missa reformada de 1969.

Fonte: FSSPX/Distrito da América do Sul – Tradução: Dominus Est 

Muitos problemas seriam resolvidos se fossemos ao menos indiferentes à Nova Missa. De Roma não nos pedem outra coisa. De tantos católicos perplexos com a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II, muitos acreditaram que o mal do novo rito viria apenas da maneira de celebrá-lo e os peregrinam pelas paróquias buscando padres, sempre escassos, que celebrem com piedade e não deem a comunhão nas mãos. Outros, melhor informados, sabem que a diferença não está nos modos do sacerdote, senão no próprio rito e reivindicam a Missa tradicional argumentando, com alguma hipocrisia, o enriquecimento que implica a pluralidade de ritos: o novo é bom, mas o antigo também, melhor então ficar com os dois!

Embora não haja tolos em Roma, eles deixaram correr essa desculpa para os grupos tradicionais que se amparam na Comissão “Ecclesia Dei”. Além disso permitiram para os Padres tradicionalistas da diocese de Campos, no Brasil, que ficassem com seu rito tradicional mesmo dizendo que a Nova Missa é “menos boa”. Mas em Roma perturba nossa Fraternidade porque não só não se diz que é boa, mas que a combate como perversa, perturbando a perplexidade que depois de quarenta anos de Concílio tantos católicos não deixam de sofrer. Se, ao menos, fôssemos indiferentes – que os outros rezem como queiram – Roma nos deixaria em paz. 

Podemos ser indiferentes à Nova Missa?

Na véspera de sua Paixão, havendo chegado a hora de oferecer seu sacrifício redentor a seu Pai, Nosso Senhor fez uma aliança com Sua Igreja: Hæc quotiescumque feceritis, em mei memoriam facietis (Lembre-se de que morri por vossos pecados, que me lembrarei de vós na presença do Pai). E, sendo Deus, nos deixou o imenso mistério da Missa, pelo qual seu Sacrifício permanece sempre vivo, sempre novo, permitindo-nos assistir como ladrões arrependidos: Memento Domine, famulorum famularumque tuarum (Lembra-te Senhor de nós agora que estais em seu Reino).

A memória viva da Paixão que se renova pela dupla consagração graças aos poderes do Sacerdócio, a união misteriosa com a Vítima Divina que se realiza pela comunhão é a única maneira que tem o coração duro do homem para retornar ao amor de Deus, porque nada chama tanto ao amor como conhecer-se muito amado, e a Paixão de Nosso Senhor foi a maior demonstração de amor: ninguém ama mais do que aquele que dá a vida por seu amigo. É por isso que a obra da Redenção que Cristo realizada na Cruz não se faz eficaz para nós senão graças ao Sacrifício da Missa. Continuar lendo

A CASA

Só pode ser na casa. Na casa de família. Na casa que se fecha, não para isolar-se da cidade, mas para abrigar da chuva e do vento a boa sementeira da amizade.

Em relação aos muros da casa de família há porém um problema semelhante ao das fronteiras das nações. Há casas patrióticas e casas nacionalistas. Poderíamos também mencionar as casas internacionalistas, onde entra e sai quem quer, onde todo o mundo faz o que lhe passa pela cabeça, e onde, em suma, impera tamanha tolerância que não seria impróprio chamá-las casas de tolerância.

As nacionalistas são aquelas que mais abrigam uma quadrilha do que uma família. Não porque sejam os seus membros ferozmente desunidos; antes porque são unidos ferozmente. Unidos contra as outras casas.

Nesse ambiente, por mais educados que sejam os hábitos, conspira-se contra a cidade. Nesse reduto, nesse covil, em lugar da sementeira cívica, o que se prepara é o favoritismo, o que se manipula é o pistolão. Nessa casa, o de que se cuida é de arranjar empregos e vantagens para todos, desde que um tio ou um cunhado logrem atingir uma altitude de poder que lhes permita a distribuição privada da coisa pública.

É também postulado nosso que uma sociedade é o que são suas famílias. Ora, é inútil disfarçar a situação em que hoje nos encontramos sob esse ponto de vista. De um lado vê-se a vertiginosa decomposição de nossas melhores tradições. As famílias se desmancham. Os casamentos são cada vez mais efêmeros. E as casas funcionam apenas como plataforma de estação, como ponto de baldeação entre as correrias do dia e as correrias da noite.

É de um importância capital a compreensão do estreito nexo entre os sentimentos familiares e os cívicos, e é essa compreensão que falta em todas as teorias, da direita e esquerda, que pretendem resolver o problema da reestruturação da sociedade sem a amizade cívica e portanto sem a casa que é a oficina dessa amizade.

Voltemos a nossa idéia de um mundo humano formado de zonas concêntricas. Em contrações sucessivas chegamos à casa de família que é (ou deve ser) o lugar onde se destila a amizade cívica. O ar da amizade está ali (ou deve estar) em densidade maior e mais alta pressão. Por isso a casa se fecha. Escola, sala de armas onde se exercita a difícil esgrimagem da justiça, a casa tem o recato necessário a esse aprendizado que não deixa de ter o seu ridículo, como todo aprendizado. Lá dentro entre as quatro paredes bem opacas — contra as idéias arquitetônicas do Sr. Niemeyer — a família aprende e exercita, entre as alegrias e aflições, as regras dos atritos humanos.
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14 DE SETEMBRO: EXALTAÇÃO DA SANTA CRUZ

Está página é extraída do Boletim de Nossa Senhora da santa Esperança, de Março de 1903 (reeditada em Le Sel de la Terre, no. 44, consagrado ao Pe. Emmanuel-André). O Padre Emmanuel pronunciou o seu último sermão na festa da Exaltação da Santa Cruz, no Domingo, 14 de Setembro de 1902, seis meses antes de morrer. Trata do espírito da Cruz, que é “a participação do próprio espírito de Nosso Senhor, levando a Cruz, pregado à Cruz e morrendo na Cruz”. 

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O ESPÍRITO DA CRUZ

O último sermão do Padre Emmanuel

Irmãos, há muito tempo que não me vedes aqui; não venho aqui com freqüência.

Vou falar-vos de uma coisa da qual nunca falei, nem aqui, nem algures. E essa coisa desejo-a a todos; sei bem que o meu desejo não chegará a todos. Vou falar-vos do espírito da Cruz.

Quando o Bom Deus cria um corpo humano, dá-lhe uma alma, é um espírito humano; quando o Bom Deus dá a uma alma a graça do batismo, ela tem o espírito Cristão.

O espírito da Cruz é uma graça de Deus. Há a graça que faz apóstolos, e assim por diante. O que é o espírito da Cruz?

O espírito da Cruz é uma participação do próprio espírito de Nosso Senhor levando a Sua Cruz, pregado à Cruz, morrendo na Cruz. Nosso Senhor amava a Sua Cruz, desejava-a. Que pensava Ele levando a Sua Cruz, morrendo na Cruz? Há aí grandes mistérios: quando se tem o espírito da Cruz, entra-se na inteligência destes mistérios. Existem poucos Cristãos com o espírito da Cruz, vêm-se as coisas de modo diferente do comum dos homens.

O espírito da Cruz ensina a paciência; ensina a amar o sofrimento, a fazer sacrifícios. Continuar lendo

AS DIFERENTES POSIÇÕES DO CATÓLICOS NO PÓS-CONCÍLIO

Devido ao grande número de questionamentos que recebemos – desde pessoas que querem, humildemente, entender a posição da FSSPX e crise de fé que abala a Igreja até alguns “grandes sábios de redes sociais” que nos acusam de coisas que, além de nos causar grandes risadas, mostram nitidamente que não entendem nada sobre a Tradição, relinchando jargões já refutados há décadas – republicamos um texto da década de 80, escrito pelos até então “Padres Tradicionalistas de Campos” e que permanece atual, para que cada um, de uma maneira simples, analise sua posição de católicos nessa crise pós conciliar.

AS VÁRIAS POSIÇÕES TOMADAS NA CRISE ATUAL

frame-crise-na-igreja1) PROGRESSISMOse subdivide em diversas categorias:

a) Obediência cega: aqueles que não admitem resistência às autoridades. É a posição mais cômoda na crise atual. Tem vários graus. Há até aqueles que dizem: “Prefiro errar com o Papa a acertar sem ele”“Se o Papa fosse para o inferno eu iria junto”. Peca por excesso: chama-se subserviência. Destes tais dizia São Bernardo: “Aquele que faz o mal, sob o pretexto de obediência, faz antes um ato de rebeldia do que de obediência”.

b) Ultra-progressismo: são aqueles que, seguindo os princípios do Concílio Vaticano II, são mais lógicos e vão até às últimas conseqüências, sendo mais avançados do que as próprias autoridades auto-demolidoras da Igreja, não respeitando os freios que estas, por receio de escândalo, tentam impor. São os que, por exemplo, promovem os cultos afros, na linha da inculturação preconizada por João Paulo II; são os que pregam o ecumenismo total, na linha do encontro ecumênico de Assis; são os que apóiam as invasões de terra e o socialismo, na linha da teologia da libertação, etc.

c) Oficialismo: é a posição daqueles que, talvez pelo receio de serem chamados cismáticos, procuram tranqüilizar a própria consciência dizendo que seguem as autoridades oficiais da Igreja, mesmo quando favorecem à autodemolição. É a tentação da oficialidade, que reconhecemos ser bastante forte e sedutora, como se viu na Paixão de Jesus, quando a grande maioria do povo preferiu ficar do lado das autoridades religiosas oficiais que condenavam injustamente a Jesus, que ficou com poucos amigos fiéis.

Os que defendem tal posição teriam ficado com Aarão, sumo sacerdote oficial escolhido por Deus, que levou o povo a adorar o bezerro de ouro; teriam ficado com Caifás, sumo sacerdote oficial, que condenou a Jesus, teriam ficado com o Papa Libério, que favoreceu ao semi-arianismo e excomungou Santo Atanásio; teriam ficado com o Papa Honório que foi anatematizado pela Igreja, após sua morte, por ter também favorecido à heresia.

d) Conservadorismo: são os tidos como “conservadores”, querem conservar os ritos antigos, sem resistir aos novos ritos e às novas doutrinas instaladas na Igreja. Subdividem-se em:

Bi-ritualismo, “ralliés”: São os que gostariam de conservar a Tradição (Liturgia tradicional) ao mesmo tempo que a obediência às autoridades atuais e aos seus princípios, sobretudo aos princípios inovadores do Concílio Vaticano II, aceitando a legitimidade e exatidão doutrinária do Novus Ordo. Calam-se sobre pontos da doutrina tradicional, como preço pago a serem reconhecidos na Igreja hoje. Neste grupo se incluem o Barroux, a Fraternidade São Pedro, o Instituto Cristo Rei. São os que pleiteiam a “missa do indulto” e o bi-ritualismo, isto é, a legitimidade dos dois ritos, o da Missa tradicional e o da Missa nova.

“Sirismo”: Posição do Cardeal Siri, e dos que se assemelham a ele: “Mesmo que Paulo VI seja um papa pouco ortodoxo, é preciso se submeter a ele. … A nova missa é um castigo de Deus para os padres que celebravam mal a missa antes do Concílio” (Card. Siri). Esta posição consiste em aceitar as novidades da autodemolição por espírito de submissão e sofrer com isso. Obedecer e sofrer. Posição muito espalhada também.

2) SEDEVACANTISMO (de várias gamas: desde os mais extremistas até aos mais moderados): baseia-se no mesmo princípio equivocado anterior de não admitir resistência às autoridades. Levados, talvez, até pelo zelo da ortodoxia na Igreja e não podendo conceber que as autoridades favoreçam à heresia, classificam esses desvios doutrinários como heresias formais e concluem que perderam os seus cargos. Os mais extremistas acham que se deva eleger outro Papa e organizar outra hierarquia. Outros acham que a Igreja visível acabou (=heresia!). Alguns acham que a Igreja está sem Papa desde Pio XII. Dividem-se, porém, sobre a causa exata e a data em que tal coisa aconteceu.

3) CISMÁTICOS (recentes)São aqueles que acham que a Igreja atual falhou, separaram-se dela e elegeram um outro Papa. Assim são, por exemplo, os seguidores da igreja de Palmar de Troya, na Espanha e do movimento de Santa Jovita, no Canadá.

4) NOSSA POSIÇÃO NESSA CRISE: Nós, padres de Campos que formamos a União Sacerdotal São João Batista Maria Vianney, (FSSPX) somos católicos apostólicos romanos. Não somos “lefebvristas”, porque não existe, nem nunca existiu “lefebvrismo”, porquanto Dom Marcel Lefebvre não tinha doutrina própria nem formou uma hierarquia própria. Não somos “tradicionalistas”, no sentido de que “tradicionalismo” identifica um partido na Igreja. Somos fiéis à Tradição da Igreja como todo católico sempre foi e sempre deverá ser. Nem cismáticos, nem excomungados como nos acusam, a fim de impressionar a imaginação coletiva e formar um vazio ao nosso redor.

Esta é a também a posição de Dom Marcel Lefebvre, Dom Antônio de Castro Mayer, Fraternidade São Pio X, e dos fiéis em geral ligados à Tradição.

Fonte: Católicos Apostólicos Romanos – Nossa posição, na atual crise da Igreja – Livreto editado pelos “Padres Tradicionalistas de Campos”, antes do acordo com Roma

Publicado originalmente em dez/2015

FUMAR MACONHA É PECADO?

Recentemente, tem-se havido uma grande polêmica pelas notícias de várias legislaturas (pelo mundo) propondo ou mesmo legalizando o uso da maconha para uso “recreativo”. Mas, o que é que a Igreja Católica ensina sobre o uso de maconha e outros entorpecentes? Seu consumo é pecado? 

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Fonte: SSPX USA – Tradução: Dominus Est

Oferecemos duas respostas a estas frequentes questões teológicas-morais, extraídas do livro “As Melhores Perguntas e Respostas” (mais de 300 respostas dos 30 anos de perguntas feitas à revista The Angelus).

É pecado fumar maconha?

Nem os impuros, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os devassos, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os difamadores, nem os assaltantes hão de possuir o Reino de Deus” (1Cor. 6,10). A embriaguez é um excesso deliberado no uso de bebidas ou drogas intoxicantes até o ponto de privar-se forçosamente do uso da razão, para satisfazer um desejo desordenado de beber, e não para promover a saúde. Isto é contrário à virtude da Temperança, e, especificamente, à sobriedade. A sobriedade regula o desejo do homem e o uso de produtos tóxicos, e é vitalmente necessária para uma vida moral reta.

A perversão da intoxicação reside na violência cometida contra a própria natureza, privando-a do uso da razão. Quem age assim se priva do que o torna especificamente humano: sua capacidade de pensar. O bêbado, ou neste caso, o drogado, deseja essa perda da razão por uma sensação de libertação que a acompanha, precisamente pela falta de controle da vontade sobre a razão. É antinatural, ao contrário do sono, que também priva o uso da razão mas de uma forma natural.

O consumo de drogas proporciona um meio de fuga ilícito. Além de ser um pecado, manifesta também imaturidade por parte do usuário. Através de um ato de violência contra si mesmo, escapa da responsabilidade da tomada de decisões e do controle em sua vida. Quando essa privação é completa, por exemplo, a ações totalmente contrárias ao comportamento normal, a incapacidade de distinguir entre o bem e o mal, etc., é um pecado grave. “In vino veritas“, diziam os romanos, e não sem razão. Qualquer estado que não seja uma embriagues completa, sem razão suficiente, é em si mesmo um pecado venial, mas mesmo neste caso pode ser um pecado mortal se provoca escândalo, danos à saúde, danos à família, etc. Devemos enfatizar que um homem é responsável por todas as ações pecaminosas cometidas enquanto intoxicado, a qual ele tinha ou deveria ter previsto que aconteceriam.

Segundo Jone-Adelman, na Teologia Moral, o uso de drogas em pequenas quantidades, e apenas ocasionalmente, é um pecado venial se feito sem razão suficiente. Este poderia ser o caso, por exemplo, dos comprimidos para dormir. Obviamente, a perda do uso da razão através dos narcóticos deve ser julgada como o álcool. O uso da maioria das drogas se complica pelo fato de que são ilegais. Isso também significa a vontade do usuário em infringir a lei, um crime contra a justiça social. Isso agrava o pecado. A velocidade com que a droga altera a consciência também agrava seu uso. Esta velocidade poderia ter um maior potencial para privar-se do uso da razão, e, assim, passar para tóxicos mais fortes para um maior efeito.
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ARTIMANHAS DE SATANÁS E DA MAÇONARIA

Resultado de imagem para satanásPe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa

Sabe-se que um dos expedientes mais eficazes de que se vale o inimigo do gênero humano é justamente fingir que não existe. Satanás agradece vivamente, e recompensa copiosamente com bens terrenos, a quantos lhe negam a existência ou lhe diminuem  o poder.

A maçonaria, nas palavras de Leão XIII, é o reino de Satanás. E para alcançar os seus desígnios de destruir completamente toda a ordem religiosa e social, como foi construída pelo cristianismo, e criar  de sua vontade outra completamente diferente, tirando os fundamentos e as normas do naturalismo (cf.  Encíclica Humanum genus de Leão XIII, 1884), a seita maçônica, como um símio, imita Satanás, procurando viver e atuar às ocultas.

A excelente revista francesa Valeurs Actuelles, em sua edição de 6 a 12 de julho próximo passado, publicou uma ampla reportagem sobre a presença e a influência da maçonaria no governo de Emmanuel Macron, com a manchete Macron et les francs-maçons – ses réseaux. Leur influence. Ce qu’ils attendent de lui.

Valeurs Actuelles fala da grande  satisfação dos maçons com a vitória de Macron e da sedução que este exerce sobre os membros da seita, em razão do seu posicionamento liberal, de sua fé na União Europeia, de sua filosofia progressista e seu projeto humanista. E diz que é possível que o chefe de Estado seja um iniciado. O que teria ficado patente no dia de sua vitória, quando se dirigiu ao Louvre ao som do hino da Alegria de Bethoven, partindo da penumbra para a luz, o que constitui um rito iniciático.

Informa também Valeurs Actuelles, citando nomes, que vários membros do seu governo são efetivamente “irmãos” da seita. Diz ainda a revista francesa que o assunto causou preocupação até junto à Nunciatura Apostólica de Paris, a qual preparou um relatório a respeito e comunicou ao Vaticano o problema da pronunciada influência maçônica sobre o candidato Emmanuel Macron, o que levou Francisco a abster-se de qualquer manifestação sobre as eleições francesas. Quando o certo teria sido apoiar abertamente Marine Le Pen da Frente Nacional, que reúne a nata do catolicismo tradicional francês, o qual se distinguiu pelo valor na luta contra o “casamento homossexual”. Continuar lendo

DE PERVERSÃO A DOM DE DEUS. E DEPOIS DE BERGOGLIO?

Resultado de imagem para bergoglioPe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa

Diante dos últimos acontecimentos na Igreja – refiro-me ao sermão do bispo de Caicó, à correspondência do Vaticano sobre o batismo de crianças “educadas” por parceiros homossexuais e à inacreditável declaração de Bergoglio a um bispo canadense: a Igreja não precisa preocupar-se tanto com a escassez de sacerdotes porque o futuro da Igreja está mais na Bíblia do que na Eucaristia -, diante de fatos de uma gravidade assombrosa, creio que não há católico que não se pergunte em seu íntimo que será da Igreja dentro de poucos anos.

Os chamados católicos Ecclesia Dei Adflicta depositam todas suas esperanças em purpurados da ala conservadora como um Sarah ou um Burke ou quem sabe até um Muller (Que conservará este?), na expectativa de que num próximo conclave um deles venha a ser eleito papa e possa sanar a confusão reinante na Igreja, debelar a anarquia crescente e impedir o caos. Desejam um papa Napoleão que, com energia, impeça os excessos e consolide a revolução do Vaticano II e a doure com o brilho de uma aguada liturgia de “São João XXIII”. Almejam só a Pax liturgica.

Sinceramente, não me parece que seja o melhor remédio para o letal câncer modernista que devasta a Igreja. Equivaleria a combater apenas os efeitos, seria um paliativo sem remover as causas do mal.

Neste ponto, cumpre reconhecer que Francisco I é, sim, fiel à letra e ao espírito do Vaticano II. É preciso também reconhecer que a melhor interpretação do Vaticano II, no que diz respeito à ética sexual e familiar, é a que, em linguagem muito simples e acessível a todos, expôs o cardeal Carlo Maria Martini SJ em seu livro Diálogos noturnos em Jerusalém, obra importantíssima para entender bem todo o pontificado de Francisco I. Continuar lendo

A VERDADE DA IGREJA SOBRE A DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E A LIBERDADE

Eis aqui algumas palavras de Mons. Marcel Lefebvre, fundador da FSSPX, sobre algumas verdades da Igreja que incomodam tanto a protestantes como aqueles católicos imbuídos de liberalismo.

Fonte: FSSPX México – Tradução: Dominus Est 

Evidentemente a Verdade da Igreja tem consequências que incomodam os protestantes e também alguns católicos imbuídos de liberalismo. A partir de agora, o novo dogma que ocupará o lugar que correspondia à Verdade da Igreja será o da dignidade da pessoa humana, juntamente com o bem supremo da liberdade: duas noções que se evita definir claramente. Disso resulta que, segundo nossos inovadores, a liberdade de expressar publicamente a religião da própria consciência torna-se um direito estrito de toda pessoa humana e que ninguém no mundo pode proibir. Pouco importa se se trata de uma religião verdadeira ou falsa, ou se promove virtudes ou vícios. O único limite será um bem comum que zelosamente se recusam a definir!

Dessa forma, deverá rever os acordos entre o Vaticano e as nações que, de outra parte, outorgam, com razão, uma situação preferencial à religião católica. O Estado deveria ser neutro em matéria de religião e assim deverá rever muitas constituições de Estado, e não apenas nas nações católicas. Não ocorreu a estes novos legisladores da natureza humana que o Papa também é um chefe de Estado? Irão também convidá-lo a secularizar o Vaticano? Consequência disso seria que os católicos perderiam o direito de agir para estabelecer ou restabelecer um Estado Católico. Seu dever consistiria em manter o indiferentismo religioso do Estado.

Recordando Gregorio XVI, Pio IX qualificou essa atitude de delírio e, mais ainda, de “liberdade de perdição.” (1) Leão XIII abordou o tema em sua admirável Encíclica Libertas. Tudo o que era adequado para sua época, mas não para 1964! Continuar lendo

ANÁLISE DA “NOVA RELIGIÃO”

Resultado de imagem para garrigou lagrangeO título destas páginas, tiradas da obra de Garrigou-Lagrange, é de nossa autoria. Julgamos que, embora escritas em 1928, permanecem impressionantes por sua atualidade e vigor.
A mortificação, assim como a humildade, estabelecidas de um modo permanente na vida religiosa pela prática dos três conselhos evangélicos de pobreza, castidade e obediência, são coisas tão contrárias ao espírito mundano que este se esforçará sempre por negar-lhes a necessidade. O naturalismo prático sempre renascente sob uma outra  forma — que se chame “americanismo” quer “modernismo” — deprecia sempre a mortificação  e com ela os votos religiosos nos quais pretende ver não um nascimento para uma vida nova mas um entrave ao bem que cada um deve fazer em torno de si.
 
Por que, dizem, falar tanto em mortificação se o Cristianismo é uma doutrina de vida? Ou tanto de renúncia se o Cristianismo deve assimilar toda atividade humana em lugar de destruí-las? Ou falar tanto de obediência se o Evangelho é uma doutrina de libertação? Tais virtudes passivas não têm maior importância senão para espíritos negativos, incapazes de empreender qualquer coisa e que não têm senão a força da inércia.
 
Por que, acrescentam, depreciar nossa atividade natural? Nossa natureza não é boa? Não vem de Deus? Não se inclina a amar seu Autor mais do que a si mesma e acima de tudo? Nossas paixões ou emoções, isto é, os diversos movimentos de nossa sensibilidade, desejo ou aversão, alegria ou tristeza, etc., não são, do ponto de vista moral, nem boas nem más, só se tornam boas ou más conforme a intenção de nossa vontade que consente nelas, desperta-as, modera-as ou não as modera. E então não há que mortifica-las, cumpre apenas regula-las, são forças a utilizar, não a destruir. Não é este o ensinamento de Santo Tomás, tão diferente, acrescentam, do de tantos outros autores espirituais, notadamente do autor da “Imitação” 1.III,c.54, onde ele trata “dos diversos movimentos da natureza e da graça” em termos tais que fazem pensar naqueles que usarão mais tarde os jansenistas?
 
Por que, continua o naturalismo prático a dizer, combater tanto o julgamento próprio, a vontade própria? É lançar-nos no escrúpulo e pôr-nos em estado de servidão que destrói toda espontaneidade.
Porque condenar a vida do mundo, uma vez que é no mundo que a Providência nos colocou não para o combater mas para melhora-lo? O valor da vida religiosa se mede por sua influência social e para exercer esta influência ela não deve ser coibida por estas preocupações excessivas de renúncia, mortificação, humildade, obediência. Ela deve, ao contrário, deixar se desenvolver ao máximo o espírito de iniciativa, todas as aspirações naturais que nos permitirão compreender as almas do nosso tempo e entrar em contato com este mundo que nós não devemos desprezar mas tornar melhor.

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AGNOSTICISMO KANTISTA – CRITICISMO TRANSCENDENTAL

Resultado de imagem para kantDo agnosticismo empírico nas suas diferentes modalidades passamos ao agnosticismo subjetivista que reconhece em KANT o seu iniciador nos tempos modernos. Com esta transição variam as razões fundamentais da atitude agnóstica, atenua-se notavelmente a rigidez das primeiras exclusões do positivismo ortodoxo, mas permanece ainda substancialmente idêntico o resultado final, a essência de todo o agnosticismo, constante em afirmar a impossibilidade insanável de chegarmos por via racional a uma certeza da existência de Deus.

Para o empirismo nominalista, os nossos conceitos não passam de simples imagens compósitas; os princípios racionais – e entre eles, o de causalidade – de meras associações de imagens formadas pela experiência dos indivíduos e organizadas biologicamente pela experiência da espécie (SPENCER). Axiomas de valor necessário e universal que nos permitam a certeza de conclusões transcendentes à ordem empírica, não as possuímos. A inteligência não é uma faculdade que pode elevar-se ao conhecimento do ser; seu alcance não ultrapassa o domínio dos fenômenos. Qualquer esforço para altear-nos acima do dado experimental é um querer voar no vazio: tentativa de movimento sem apoio. Esta teoria do conhecimento tolhe-nos pela raiz, com a liberdade soberana dos grandes vôos, a possibilidade de uma demonstração da existência de Deus; não chega, porém, a este resultado fatal sem haver antes destruído a própria razão e comprometido para sempre a possibilidade da própria ciência.

Bem o viu KANT, A ciência, observou ele, não pode viver sem princípios universais e necessários. É antes de tudo um fato: “é fácil mostrar que no conhecimento humano existem semelhantes juízos, necessários e universais, no sentido mais rigoroso”1. É ainda uma exigência a que nos não pudemos furtar sem aluir pela base a certeza dos próprios conhecimentos experimentais: “sem recorrer a exemplos poder-se-ia ainda … demonstrar que estes (princípios) são indispensáveis à possibilidade da própria experiência”2. Uma teoria como a de HUME que reduzisse esta necessidade a uma simples aparência ilusória, fruto do hábito, seria no dizer textual de KANT  “destrutiva de toda filosofia”3.

E eis nitidamente delineada a primeira fronteira que separa o empirismo do kantismo. Não há princípios rigorosamente universais e necessários – proclama o positivismo de todos os matizes de HUME a SPENCER, de COMTE a MILL ou TAINE. Sem estes princípios, revida KANT, não pode haver conhecimento científico; a sua existência é tão certa quanto a da própria ciência.

Até aqui de acordo. A divergência começa na explicação da possibilidade, da natureza e do alcance objetivo destes princípios. A teoria do criticismo transcendental resolve-se, em última análise, no agnosticismo e, também ela, acaba destruindo a própria ciência, ou melhor ainda a razão como faculdade do conhecimento do ser. Para demonstrá-lo, não podemos prescindir de nossa exposição sumária do sistema de KANT. Omitiremos tudo quanto não se refere diretamente ao nosso assunto, e este mesmo, reduzi-lo-emos ao essencial, aliando, quanto possível, a exatidão à clareza.

A razão de ser fundamental da Crítica da Razão Pura é resolver o grande problema que acabamos de propor; a possibilidade e os limites do nosso conhecimento científico. E como não há nem pode haver ciência sem princípios universais e necessários, o fim que se propõe KANT é a explicação destes juízos que o empirismo inconsiderado de HUME comprometera com a sua teoria superficial do associacionismo. De modo geral podemos distinguir duas espécies de juízos: analíticos e sintéticos. Continuar lendo

FILOSOFIA ECONÔMICA E NECESSIDADES DO HOMEM

A maioria dos biólogos insiste, com razão, sobre a importância da noção de necessidade como elemento determinante das condutas humanas. Não é de admirar que ela se encontre no próprio âmago dos comportamentos econômicos. A polivalência dessa noção e sua diversidade quase inesgotável tornam, contudo, a sua interpretação científica difícil. Com efeito, a necessidade é uma coisa que varia ao extremo, não somente segundo as civilizações, as sociedades e os grupos no tempo e no espaço, mas segundo os indivíduos, em cada instante da sua existência e segundo as circunstâncias em que se achem. Como apreender uma realidade tão particularizada e tão evanescente? Sabemos, com efeito, que não há ciência do individual, só o universal pode ser objeto de ciência. Não admira, portanto, que a noção de necessidade tenha sido o mais das vezes considerada pelos economistas antes como um postulado da pesquisa do que como um objeto da própria pesquisa. Fala-se constantemente da necessidade em economia e se a noção é indispensável para aclarar os fenômenos econômicos, raramente é ela própria aclarada.

Ademais, as necessidades econômicas, que são com toda evidência de ordem material, são, na sua realidade, indissociáveis das outras necessidades humanas de ordem afetiva, intelectual, espiritual, etc… Não existe homem algum sobre a terra que beba ou que coma como se fosse pura e simplesmente a sede de uma reação química.

Afinal, como medir adequadamente uma necessidade sem traí-la, sem fazer evaporar a sua substância essencialmente qualitativa? Ora, a economia moderna, como todas as outras ciências positivas, aliás, tende a tornar-se uma ciência do mensurável.

Achamo-nos pois em presença de um paradoxo epistemológico inaudito: a economia está fundada sobre uma realidade que lhe escapa. Daí por que se erigem ao redor dessa noção fundamental os mais diversos sistemas de interpretação. Desde sua origem, a ciência econômica está dilacerada entre os pólos extremos do “liberalismo” e do “coletivismo”, eles mesmos divididos, e os resultados de sua divisão constituem o objeto de inumeráveis misturas mais ou menos arbitrariamente dosadas. Podemos pois nos perguntar se a economia não está previamente submetida a uma opção inteiramente subjetiva por parte de quem trata de clarificar o seu conteúdo, sendo essa opção mais ou menos camuflada sob uma cortina de fumaça qualquer. A economia se torna assim o campo fechado de intermináveis disputas sobre as quais se enxertam as paixões individuais e sociais. Seu curso real na vida dos homens é abandonado a si mesmo ou submetido a intervenções exteriores à sua natureza por parte de quem possua um meio de poder capaz de influenciá-lo.

O objetivo desta nota é mostrar que é possível superar essa aparente contradição que faz da economia um conhecimento daquilo que ela não conhece. A nosso ver, esta possibilidade não se pode abrir ao nosso espírito senão se chegarmos a orientar para uma necessidade essencial e universal a multiplicidade incoerente e inapreensível das necessidades econômicas e outras. Ora, uma tal drenagem é espontaneamente operada pelo próprio homem, sujeito dessas necessidades diversas. Existe, com efeito, no homem, uma necessidade fundamental para a qual todas as suas outras necessidades convergem: a necessidade de ser feliz. Beatos nos omnes volumus, observava Cícero. E Pascal sublinha que “todos os homens querem ser felizes, mesmo aqueles que querem se enforcar”. A felicidade é o fim último de todas as atividades humanas, quaisquer que elas sejam, e se define como um estado no qual nada falta, em que todas as necessidades do homem estão saturadas. “Uma só coisa é necessária, escrevia com humor e profundeza Chesterton: tudo; o resto é vaidade das vaidades”. Continuar lendo

A TEMPERANÇA, VIRTUDE DESAPARECIDA

Resultado de imagem para temperança virtudeRefletir, publicar, escrever sobre a temperança é hoje um desafio. A palavra desapareceu do vocabulário do homem médio, assim como do vocabulário da “elite” intelectual, laica ou religiosa. Quanto a nós, a última vez que a escutamos foi no início do século, em nossa infância, quando o professor instava-nos, à saída da escola, a aderir à uma “sociedade de temperança” ― como as muitas que então havia na Bélgica ― cuja específica finalidade era combater, não as incontáveis formas da intemperança, mas o alcoolismo, que afligia um pouco por toda parte, particularmente na classe operária. O petit Robert dá a ela apenas dois sentidos; um, “didático”: moderação em todos os prazeres do sentido; outro, “corrente”: moderação no beber e no comer, mais especialmente no consumo de bebidas alcoólicas. Ambos se volatilizaram tanto da linguagem da sociedade contemporânea como da terminologia dos moralistas contemporâneos. À exceção de alguns “paleotomistas”, cuja leitura ainda faz nossas delícias, não a encontramos em parte alguma durante um meio-século, nem mesmo nas conversas.

Não podemos sequer dizer com Valéry que «toute chose m´est claire à peine disparue; ce qui n´est plus se fait clarté». Além da palavra que a designa, é a realidade mesma da virtude da temperança que se evaporou da alma dos homens entregues às delícias da “sociedade de consumo” e, daqui a pouco ― ou mesmo, a partir de agora ― aos suplícios da moderna economia materialista em plena crise. Os cristãos ― os católicos ― não escapam desse saldo negativo, tanto no ensino que recebem quanto em sua conduta. A este respeito, estamos em situação idêntica a do fim do Império Romano, tal como veementemente a descrevia Santo Agostinho: «onde encontrar quem, diante de tais monstros de avareza, orgulho e luxúria1, cuja iniqüidade, cuja impiedade execrável constrange Deus a flagelar a Terra, conforme antiga ameaça, quem, volto a perguntar, seja perante eles o que deve e com eles conviva como é preciso conviver com semelhantes almas? Quando se trata de esclarecê-los, censurá-los e, mesmo, repreendê-los e corrigi-los, com bastante freqüência, funesta dissimulação nos detém, ou preguiçosa indiferença, ou respeito humano incapaz de afrontar alguém já de si perturbado, ou temor a ressentimentos que poderiam causar-nos prejuízo e prejudicar-nos no tocante a esses bens temporais cuja possa nossa cupidez cobiça, cuja perda nossa fraqueza receia.»2

Para que fosse diferente, seria preciso que a temperança fosse professada como virtude e mesmo como virtude cardeal que, apesar do lugar que ocupa, depois da justiça, da prudência e da força, não deixa de intervir, se exercida, em quase todas finalidades da vida cotidiana do homem. Como estamos distantes disso! Ora, a temperança é uma virtude, i. é, no sentido esquecido da palavra, uma disposição natural que inclina ao que é segundo a razão: o nome mesmo de “temperança” o indica, pois significa uma certa moderação, um “temperamento”, ou, em termos precisos, uma certa “medida no julgamento e na conduta”; enfim, uma “solução adequada” aos problemas que envolvem os prazeres que o homem não deixa de experimentar no curso de sua vida3. Continuar lendo