OUTRA MEDITAÇÃO PARA O XVI DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES: O HOMEM HIDRÓPICO E O VÍCIO DE IMPUREZA

hidropSumário. O hidrópico de que fala o Evangelho é figura do libidinoso, por duas razões. Primeiro, assim como o hidrópico, quanto mais bebe, mais sede tem, assim o desonesto nunca se sacia de pecar. Segundo, porque a impureza, por causa da cegueira de espírito e do endurecimento da vontade que acarreta, é tão incurável como a hidropisia. Infeliz do que se deixa dominar por este vício! Todavia não desespere, visto que para Deus nada é impossível.

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I. Todos os enfermos cuja cura milagrosa por Jesus Cristo os evangelistas referem, representam algum mistério. Assim bem se pode dizer que o hidrópico de que fala São Lucas no Evangelho de hoje é uma figura do homem libidinoso. Sim, diz Santo Tomás de Vilanova, porque assim como o hidrópico, quanto mais bebe, mais a sede se lhe aumenta, assim o escravo do maldito vício da desonestidade jamais se sacia de pecar. – Se, pois, de todos os pecados já se pode dizer que, uma vez entrados na alma, nunca ficam muito tempo a sós, isto é muito mais aplicável ao pecado da impureza.

Um blasfemo não blasfema sempre, mas somente quando se encoleriza. Um ladrão não rouba todos os dias, mas somente quando se lhe oferece a ocasião. Mas o desonesto é uma torrente contínua de pecados, de pensamentos, de palavras, de vistas, de deleitações, de maneira que, quando se vai confessar, não pode explicar o número de pecados que cometeu. – Numa palavra, São Cipriano escreve que por este vício o demônio triunfa de todo o homem: do corpo, da alma e de todas as faculdades – Totum hominem agit in triumphum libidinis. A razão disto é porque nesta espécie de pecado é tão fácil tomar um mau hábito, que leva a pecar a natureza já corrompida.

Demais, o pecado desonesto arrasta as mais das vezes a outros crimes; tais como a difamação, o furto, a mentira, o ódio, a ostentação do mesmo vício e especialmente o escândalo, excitando e arrastando os outros a cometê-lo ou ao menos a cometê-lo com menos horror. Ó céus! Que mar imenso de pecados! Se um só pecado mortal é suficiente para condenar o homem ao inferno, qual será o inferno do desonesto que comete e faz cometer tão grande número de pecados? Continuar lendo

XVI DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES: O HOMEM HIDRÓPICO E O CRISTÃO AMBICIOSO

hidroEcce homo quidam hydropicus erat ante illum – “Eis que diante dele estava um hidrópico”. (Luc. 7, 12)

Sumário. O hidrópico, de quem fala o Evangelho, é figura de um cristão que se deixa dominar por uma paixão qualquer e particularmente pelo desejo das honras. Com efeito, o soberbo nunca acha a paz, porque nunca se vê tratado conforme o vão conceito que faz de si mesmo. Se por desgraça nos achamos infectados desta hidropisia espiritual, representemo-nos Nosso Senhor, e contemplemo-Lo reduzido como foi por nosso amor a ser o último dos homens; e envergonhados da nossa ambição, digamos-lhe: Ó Jesus manso e humilde de Coração, fazei o meu coração semelhante ao vosso.

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I. Refere São Lucas que “entrando Jesus num Sábado em casa de um dos principais fariseus, a tomar a sua refeição, eles O estavam ali observando. E eis que diante d’Ele estava um homem hidrópico. E Jesus dirigindo-se aos doutores da lei e aos fariseus, disse-lhes: É permitido fazer cura aos Sábados? Mas eles ficaram calados. Então Jesus, tomando a si o homem, o curou e o mandou embora – Sanavit eum, ac dimisit.

Sob a figura daquele pobre hidrópico, os santos intérpretes vêem a imagem do homem que se deixa dominar por uma paixão qualquer e particularmente pelo orgulho e pelo desejo imoderado das honras e das grandezas. E com razão; pois, assim como o doente de hidropisia é devorado por tamanha sede, que, quanto mais bebe, tanto mais fica assedentado; assim o soberbo nunca tem paz, porque nunca chega a ver-se tratado conforme o vão conceito que forma de si próprio. Até entre as mesmas honras não está contente, porque sempre tem os olhos fitos nos que são mais honrados. – Sempre faltará ao orgulhoso ao menos alguma honra ambicionada, e esta falta atormentá-lo-á mais do que o consolam todas as outras dignidades obtidas. Quanto não era honrado Aman no palácio de Assuero, assentando-se até à mesa do rei! Mas porque Mardocheo não o quis saudar, disse que se julgava infeliz (1).

Meu irmão, examina a tua consciência, e, se achares que, no passado, também tu andaste atrás do vapor das honras vãs, para remédio desta tua enfermidade espiritual, imita o hidrópico do Evangelho e põe-te logo na presença do Senhor. Contempla como Jesus, posto que fosse o filho de Deus, por teu amor se aniquilou, tomando a forma de servo (2), quis por teu amor fazer-se o último dos homens, o mais desprezado e ultrajado (3). E envergonhado da tua ambição, dize-Lhe com amor: † Ó Jesus, manso e humilde de Coração, fazei o meu coração semelhante ao vosso. Continuar lendo

MARIA SANTÍSSIMA, MODELO DE MORTIFICAÇÃO

Resultado de imagem para nossa senhora das doresManus meae stillaverunt myrrham, et digiti mei pleni myrrha probatissima — “As minhas mãos destilaram mirra, e os meus dedos estavam cheios da mirra mais preciosa” (Cant 5, 5).

Sumário. Na Santíssima Virgem tudo estava em perfeita harmonia, porque estava isenta do pecado original e cheia de graça. A carne obedecia prontamente ao espírito; e o espírito a Deus. Contudo ela foi tão amante da mortificação que se tornou um modelo perfeito desta virtude. Quanto mais mortificados não devemos ser nós que temos tantas más paixões a exprimir e quiçá tantas culpas a expiar. E somos tão delicados e tão amantes de nossa comodidade. A continuarmos assim, como nos poderemos gloriar de ser filhos de Maria?

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É uma verdade de nossa fé que a Santíssima Virgem, por ser concebida isenta de pecado, não teve nenhuma desordem interior a combater. Apesar disso, o Senhor quis que em toda a vida ela se portasse de tal forma que se tornou um modelo perfeito de mortificação.

Com efeito, Maria praticou a mortificação interior, conservando o coração sempre desprendido de todas as coisas terrestres: desprendida estava das riquezas, querendo sempre viver pobre e ganhando o sustento com os trabalhos de suas mãos; desprendida das honras, amando a vida humilde e obscura, posto que lhe coubesse o título de nobreza, por ser descendente dos reis de Israel; desprendida afinal dos seus santos pais, porque na idade de três anos os deixou resolutamente para ir encerrar-se no templo.

Quanto à sua mortificação exterior, na verdade é pouco o que a este respeito sabemos; mas esse pouco é mais do que suficiente para a nossa edificação. Maria mortificava de tal maneira a vista, que tinha os olhos sempre baixos, e jamais os fixava em alguém, como dizem Santo Epifânio e São Damasceno, e acrescentam que desde menina foi tão recatada, que admirava a todos. Que direi da escassez do nutrimento e da redundância dos trabalhos? Esta quase excedendo as forças da natureza, aquela lhe quase faltando; esta não lhe permitindo tempo algum livre, aquela continuando os dias em jejum. E quando veio a vontade a refazer-se, a comida foi a mais óbvia só para afastar a morte, não para prestar delícias. Não se deu ao sono senão obrigada pela necessidade, mas quando o corpo repousava, o ânimo vigiava. Continuar lendo

SENTIMENTOS DE UM MORIBUNDO NÃO ACOSTUMADO A PENSAR NA MORTE – PONTO III

Imagem relacionadaPara o moribundo que, durante sua existência, não zelou o bem de sua alma, serão espinhos todos os objetos que se lhe apresentarem.

Espinhos a lembrança dos prazeres gozados, dos triunfos e das vaidades do mundo.

Espinhos a presença dos amigos que o visitem e as coisas que eles lhe recordarão.

Espinhos os sacerdotes que o assistem, e os sacramentos que deve receber, confissão, comunhão e extrema- unção; até o crucifixo que apresentam será como espinho de remorso, porque o pobre moribundo verá na santa imagem quão pouco correspondeu ao amor de um Deus que morreu para salvá-lo.

“Grande foi minha insensatez! — dirá então o enfermo. — Podia ter-me santificado com as luzes e os meios que o Senhor me ofereceu; podia ter levado vida feliz na graça de Deus, e que me resta depois de tantos anos perdidos, senão desconfiança e angústia e remorso de consciência, e contas severas a dar a Deus? Difícil é agora a salvação de minha alma…”

E quando fará ele tais reflexões?… Quando está para se extinguir a lâmpada da vida, quando está a finalizar a cena deste mundo, quando se encontra face a face com as duas eternidades, a feliz e a desgraçada, quando está prestes a exalar o último suspiro, de que dependem a bem-aventurança ou a condenação permanentes, eternas, enquanto Deus for Deus. O que daria então para dispor de mais um ano, um mês, uma semana sequer, em juízo perfeito, porque naquele estado de enfermidade, aturdida a mente, oprimido o peito, alterado o coração, nada pode fazer, nada pode meditar, nem conseguir que o espírito abatido leve a cabo um ato meritório! Sente-se como encerrado num fosso escuro, onde tudo é confusão, onde nada percebe senão a grande ruína que o ameaça e à qual se vê na impossibilidade de fugir… Continuar lendo

JESUS, HOMEM DE DORES

Virum dolorum et scientem infirmitatem – “Um homem de dores e experimentado nos trabalhos” (Is. 53, 3).

Sumário. Se queres ver um homem de dores, olha para Jesus Cristo sobre a cruz. Ei-Lo apoiando-se com todo o peso do corpo sobre as chagas das mãos e dos pés traspassados; cada um dos membros sofre a sua dor particular sem alívio algum. Pois bem, se para a nossa Redenção bastava uma só lágrima de Jesus, porque é que Ele quis sofrer tanto? É para nos ensinar tanto a malícia do pecado como o amor que nos tem. E até agora temo-Lo amado tão pouco; temo-Lo mesmo ofendido tantas vezes! Permaneceremos sempre tão ingratos?

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É assim que o profeta Isaías chamou o nosso Redentor: Homem de dores e experimentado nos trabalhos; isto é, experimentado e provado nos sofrimentos. Salviano, considerando as dores de Jesus Cristo, escreve: Ó amor de meu Jesus, não sei como Vos chamar, doce ou cruel. Parece-me que sois ao mesmo tempo um e outro; fostes doce para conosco, amando-nos tanto depois de tantas nossas ingratidões; mas fostes demasiado cruel para com Vós mesmo, aceitando uma vida cheia de dores e uma morte tão cruel para satisfazer por nossos pecados.

Diz o angélico Santo Tomás que, para nos salvar do inferno, Jesus Cristo abraçou a dor mais acerba e o desprezo mais profundo: Assumpsit dolorem summum, vituperationem summam. Para satisfazer por nós a justiça divina, bastava que Jesus sofresse uma dor qualquer; mas não, Ele quis sofrer as injúrias mais ignominiosas e as dores mais cruciantes para nos fazer compreender a malícia dos nossos pecados e o amor que seu Coração nutria para conosco. – Por isso Jesus disse, como escreve São Paulo: Corpus autem aptasti mihi (1) – “Preparastes-me um corpo”. O corpo foi dado a Jesus Cristo exatamente para sofrer. Pelo que a sua carne foi sumamente sensitiva e delicada; sensitiva, de modo que sentia as dores mais vivamente; delicada e tão tenra, que cada golpe no corpo de Jesus abria uma ferida. Numa palavra, o corpo sacrossanto de Jesus foi um corpo formado expressamente para sofrer.

Todas as dores que Jesus Cristo padeceu até o último suspiro, teve-as presentes desde o primeiro instante da sua Incarnação. Viu-as todas e abraçou-as todas de boa vontade para cumprir a vontade de Deus, que desejava fosse Ele sacrificado pela nossa salvação: Tunc dixi: Ecce venio, ut faciam, Deus, voluntatem tuam (2) – “Então disse: Eis que venho para fazer, ó Deus, a vossa vontade”. Foi esta oferta, acrescenta o Apóstolo, que nos alcançou a graça divina: por essa vontade é que temos sido santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez (3). Continuar lendo

DO SAGRADO VIÁTICO

viaticoAmbulavit in fortitudine cibi illius… usque ad montem Dei – “Com o vigor daquela comida caminhou… até o monte de Deus” (3 Reg. 9, 8).

Sumário. Considera, meu irmão, que mais cedo ou mais tarde te acharás nas angústias terríveis da morte. Feliz de ti se tiveres sido devoto a Jesus sacramentado! Acedendo a teu desejo, virá então a visitar-te em tua casa, e não somente para te assistir e defender, senão ainda para te alimentar com a sua carne, e servir-te de guia no caminho do céu. Para obteres tão preciosa graça, renova muitas vezes o protesto de querer receber os sacramentos na vida e na morte. Quando comungares, faze-o por modo de Viatico, e recomenda cada dia a Deus os pobres moribundos.

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I. São muito grandes as angústias dos pobres moribundos, quer por causa do remorso dos pecados cometidos, quer por causa do medo do juízo próximo, quer por causa da incerteza da salvação eterna. É então especialmente que se aparelha o inferno e empenha todas as suas forças para se apoderar da alma que vai passar para a eternidade. Sabe que pouco tempo lhe resta para a ganhar e que, perdendo-a nessa hora, perde-a para sempre. Diz o profeta Isaías que então a casa do pobre moribundo será repleta de espíritos infernais. Implebuntur domus eorum draconibus (1).

Meu irmão, se não morreres de morte improvisa, cedo ou tarde experimentarás essas terríveis angústias. Mas feliz de ti, se tiveres sido devoto de Jesus sacramentado! Muito embora teu estado fosse mais lamentável que o de Lázaro depois de quatro dias de sepultura; muito embora talvez nenhuma pessoa te quisesse assistir: aquele que nunca se incomodou para te visitar no tempo de tua prosperidade, logo que te souber gravemente enfermo, deixará a casa própria para ir à tua; irá, não somente para te assistir e defender, mas além disso para te alimentar com a sua carne virginal.

Entra o sacerdote, e em nome do divino Redentor que ele traz nas mãos, anuncia a paz a essa morada feliz. Em seguida implora para ti misericórdia, indulgência e absolvição de todos os teus pecados; e finalmente, pondo-te sobre a língua a sagrada Hóstia, diz: “Accipe viaticum corporis Domini nostri Iesu Christi. Meu irmão, recebe o viático do corpo de nosso Senhor Jesus Cristo. Ele te proteja contra o inimigo maligno e te leve salvo à vida eterna. Assim seja.” (2) E assim fortalecido com esse manjar divino, à imitação de Elias depois de comer o pão trazido pelo anjo, caminharás com mais presteza para a pátria celestial: “Com o vigor daquele alimento caminhou até o monte de Deus.” (3) Continuar lendo

SENTIMENTOS DE UM MORIBUNDO NÃO ACOSTUMADO A PENSAR NA MORTE – PONTO II

Resultado de imagem para moribundoComo no momento da morte brilham e resplandecem as verdades da fé para maior tormento do moribundo que viveu mal, especialmente se era pessoa consagrada a Deus e que, portanto, tinha mais facilidade e tempo para servi-lo, mais inspirações e melhores exemplos! Ó Deus, que dor sentirá essa pessoa ao pensar e dizer: Repreendi os outros e fui pior do que eles; deixei o mundo, e vivi preso às vaidades e às afeições do mundo!… Que remorsos terá ao considerar que, com as graças que Deus lhe concedeu, não já um cristão, mas até um pagão se tornaria santo! Que dor não sofrerá, recordando-se que menosprezou as práticas de piedade como fraquezas de espírito, e aprovou certas máximas mundanas, frutos de estima e de amor próprio, por exemplo, como a de não humilhar-se, não mortificar-se, não recusar os prazeres que lhes ofereciam.

O desejo dos pecadores perecerá (Sl 111, 10). Quanto desejaremos ter na hora da morte o tempo que agora perdemos!… Refere São Gregório em seus Diálogos, que havia um tal Crisanto, homem rico, mas de maus costumes, o qual, na hora da morte, dirigiu-se aos demônios, que visivelmente apareciam para arrebatar-lhe a alma, gritando: Dai-me tempo, dai-me tempo até amanhã. Mas estes lhe respondiam:

“Insensato! agora pedes tempo? Não o tiveste e perdeste e o empregaste em pecar? E o pedes agora, quando já não há para ti?”

O desgraçado continuava a gritar e a pedir socorro. Havia ali perto um monge, seu filho, chamado Máximo, e o moribundo lhe dizia:

“Ajuda-me, meu filho; Máximo, socorre-me!”

No entanto, com o rosto chamejante, revolvia- se furioso no seu leito, até que, nessa agitação e gritos de desespero, expirou miseravelmente. Continuar lendo

FELICIDADE ETERNA DO CÉU

abcBeati qui habitant in domo tua, Domine; in saecula saculorum laudabunt te – “Bem-aventurados, Senhor, os que moram na tua casa; pelos séculos dos séculos te louvarão” (Ps. 83, 5).

Sumário. No céu a alma verá Deus face a face, conhecerá todas as disposições admiráveis da divina Providência para sua salvação e verá que o Senhor a abraça e a abraça sempre como filha querida; pelo que a alma se embriagará de tal amor, que não pensará mais senão em amar seu Deus. Será esta a sua eterna ocupação: amar o bem infinito que possui, louvá-Lo e bendizê-Lo. Quando nos sentirmos oprimidos pelas cruzes, levantemos os olhos ao céu, e lembremo-nos de que nos está reservada sorte igual, se ficarmos fiéis a Deus.

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I. Na terra, a maior pena das almas que amam a Deus e se acham em desolação, é o receio de não O amarem e de não serem por Ele amados: Nescit homo, utrum amore an odio dignus sit (1) – “ O homem não sabe se é digno de amor ou de ódio”. Mas no paraíso a alma está certa de que ama a Deus, e de que é amada por Ele; vê que está felizmente abismada no amor do seu Senhor e que o Senhor a abraça como querida filha; vê, enfim, que os laços de seu amor são para sempre indissolúveis. – Estas venturosas chamas desenvolver-se-ão mais ainda pelo conhecimento mais perfeito, que então adquirirá, do amor que levou Deus a fazer-se homem e a morrer por nós, do amor que o levou a instituir o Santíssimo Sacramento, no qual  um Deus se faz alimento de um verme.

Demais; verá distintamente todas as graças que Deus lhe prodigalizou, livrando-a de tantas tentações e perigos de condenação. Compreenderá que essas tribulações, doenças, perseguições, revezes, que chamara desgraças e castigos de Deus, foram, ao contrário, manifestações de amor e lances da divina Providência para a levar ao céu. – Verá especialmente a paciência que Deus teve em aturá-la depois de tantos pecados, e as suas misericórdias em enviar-lhe tantas luzes e tantos convites cheios de amor. Do alto desta feliz montanha, verá tantas almas condenadas ao inferno por menos pecados, e a si mesma se verá salva, na posse de Deus, certa de nunca perder no futuro esse bem supremo durante toda a eternidade.

Sempre, portanto, gozará o bem-aventurado dessa beatitude, que durante toda a eternidade e a cada instante lhe parecerá nova, como se então pela primeira vez entrasse a gozá-la. Sempre desejará a sua felicidade e obtê-la-á sempre: sempre satisfeita e sempre desejosa, sempre ávida e sempre saciada. Numa palavra, assim como os réprobos são vasos cheios de ira, assim os escolhidos são vasos cheios de contentamento, de modo que nunca tem coisa alguma a desejar. Pelo que diz Davi: Inebriabuntur ab ubertate domus tuae (2) – “Embriagar-se-ão da abundância de tua casa”. Como se dissesse: A alma, vendo a descoberto e abraçando com transporte o seu soberano Bem, embriagar-se-á de tal sorte de amor, que se perderá felizmente em Deus, isto é, esquecer-se-á completamente de si, e não pensará desde então senão em amar, louvar e abençoar esse bem infinito, que possui. Continuar lendo

DEUS É MISERICORDIOSO, MAS TAMBÉM JUSTO

pecador-1Misericordia enim et ira ab illo cito proximant, et in peccatores respicit ira illius — «A sua misericórdia e a usa ira chegam rapidamente, e em sua ira olha para os pecadores» (Eclo 5, 7).

Sumário. De dois modos o demônio engana os homens e arrasta muitos consigo ao inferno. Depois do pecado arrasta-os ao desespero, por meio da justiça divina; e antes do pecado excita-os a cometê-lo pela esperança da divina misericórdia. Se quisermos desfazer a arte do inimigo, façamos o contrário: depois do pecado, confiemos na misericórdia divina, mas, antes do pecado, temamos a sua justiça inexorável. Como poderia confiar na misericórdia de Deus quem abusa da mesma misericórdia para o ofender?

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I. Diz Santo Agostinho que o demônio engana os homens de dois modos: pelo desespero e pela esperança. Quando o pecador caiu, arrasta-o ao desespero, representando-lhe o rigor da divina justiça; mas antes do pecado, excita-o a cometê-lo pela confiança na divina misericórdia. — Com efeito, será difícil encontrar um pecador tão desesperado que se queira condenar por si próprio. Os pecadores querem pecar, mas sem perderem a esperança de se salvar. Pecam e dizem: Deus é misericordioso; cometerei este pecado e depois irei confessar-me dele. Mas, ó Deus! é assim que falaram tantos que agora estão condenados!

Avisa-nos o Senhor: «Não digas: são grandes as misericórdias de Deus; por muitos pecados que eu cometa, obterei o perdão por um só ato de contrição» (Eclo 5, 6). Não digas assim, avisa-nos Deus; e por quê? Porque a sua misericórdia e a sua justiça vão sempre juntas; e a sua indignação se inflama contra os pecadores impenitentes, que amontoam pecados sobre pecados e abusam da misericórdia para mais pecares: A sua misericórdia e a sua ira chegam rapidamente, e a sua indignação vira-se contra os pecadores. — A misericórdia de Deus é infinita, mas os atos dessa misericórdia são finitos. Deus é misericordioso, mas também é justo. «Eu sou justo e misericordioso», disse um dia o Senhor a Santa Brígida; «mas os pecadores julgam-me somente misericordioso».

Não queiramos, escreve São Basílio, considerar só uma das faces de Deus. E o Bem-aventurado João Ávila acrescenta que tolerar os que abusam da misericórdia de Deus, para mais o ofenderem, não seria mais ato de misericórdia, mas falta de justiça. A misericórdia é prometida ao que teme a Deus, não ao que dela abusa: Et misericordia eius timentibus eum (Luc 1, 50). A justiça ameaça os pecadores obstinados; e assim como Deus, observa Santo Agostinho, não falta às suas promessas, tão pouco faltará a suas ameaças.

II. Meu irmão, escuta o belo conselho que te dá Santo Agostinho: Post peccatum spera misericordiam.Depois do pecado, confia na misericórdia de Deus; mas antes do pecado, receia a sua terrível justiça: Ante peccatum pertimesce iustitiam. Sim, porque é indigno da misericórdia de Deus quem dela abusa para o ofender. Aquele que ofende a justiça, diz Afonso Tostato, pode recorrer à misericórdia; mas a quem poderá recorrer o que ofende a própria misericórdia? Seria zombar de Deus querer continuar a ofendê-lo e desejar depois o paraíso. Avisa-nos, porém, São Paulo, que Deus não consente que zombemos dele: Deus non irridetur(Gal 6, 7).

Ah, meu Jesus, eu sou um daqueles que Vos ofenderam, porque Vós éreis tão bom. Esperai, Senhor, não me abandoneis ainda, já que pela vossa graça espero nunca mais dar-Vos motivo para que me abandoneis. Pesa-me, ó bondade infinita, de Vos ter ofendido e abusado tanto da vossa paciência. Graças Vos dou por me terdes esperado até agora. No futuro, não mais Vos quero trair como no passado.

Vós me suportastes tanto tempo, afim de me verdes um dia cativo amorosamente da vossa bondade. Esse dia já chegou, como espero. Amo-Vos, ó bondade infinita. † Jesus, meu Deus, amo-Vos sobre todas as coisas; estimo a vossa graça mais que todos os reinos do mundo; antes perder mil vezes a vida que perder a vossa afeição. — Meu Deus, pelo amor de Jesus Cristo, dai-me, com o vosso amor, a santa perseverança até à morte. Não consintais que eu torne a trair-Vos, e deixe jamais de Vos amar. — Ó Maria, sois a minha esperança; obtende-me a perseverança e nada mais vos peço. (*II 76.)

 

Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III – Santo Afonso

SENTIMENTOS DE UM MORIBUNDO NÃO ACOSTUMADO A PENSAR NA MORTE – PONTO I

Imagem relacionadaDisponde domui tuae, quia morieris tu, et non vives. – “Dispõe de tua casa, porque morrerás e não viverás” (Is 38, 1)

Imagina que te achas junto a um enfermo a quem restam poucas horas de vida… Pobre enfermo! Considera como o oprimem e angustiam as dores, os desfalecimentos, a asfixia e falta de respiração, o suor frio e o entorpecimento até ao ponto de quase não ouvir, quase não compreender e quase não falar… Entretanto, a sua maior desgraça consiste em que, estando próximo à morte, em vez de pensar na alma
e de preparar as contas para a eternidade, só pensa nos médicos, nos remédios, para se livrar da doença que o vai vitimando. Não são capazes de pensar em outra coisa que em si mesmos, disse São Lourenço Justiniano, falando dos moribundos desta espécie… Mas, certamente, os parentes e amigos lhe manifestarão o perigoso estado em que se acha?… Não; não há entre todos eles nenhum que se atreva a lhe falar na morte e adverti-lo de que deve receber os santos sacramentos. Todos se escusam de lhe falar para não molestá-lo.

Ó meu Deus, dou-vos graças mil porque na hora da morte fazeis que seja assistido pelos queridos confrades de minha congregação, os quais, sem outro interesse que o de minha salvação, me ajudarão a todos a bem morrer.

No entanto, ainda que se lhe não anuncie a aproximação da morte, o pobre enfermo, vendo a confusão da família, as consultas dos médicos, os remédios multiplicados, frequentes e violentos, que aplicam, se enche de angústia e terror, entre contínuos assaltos de receio, desconfiança e remorsos, dizendo de si para si: quem sabe se terá chegado o fim de meus dias?… Quem não sentirá quando, enfim, recebe a notícia da sua morte próxima! Dispõe as coisas de tua casa, porque morrerás e não viverás… (Is 38,1). Que mágoa terá ao saber que sua enfermidade é mortal, que é tempo de receber os sacramentos, de se unir com Deus e de despedir-se do mundo!… Despedir-se do mundo! Mas como?… Há de abandonar tudo, a casa, a cidade, os parentes e amigos, as sociedades, os jogos, os divertimentos?… Sim, tudo. Ante o tabelião, já presente, escreve-se esta despedida com a fórmula: Deixo a tal pessoa; deixo… E que levará consigo? Apenas uma pobre mortalha, que dentro em breve se deverá consumir com ele próprio na sepultura. Continuar lendo

DO AMOR QUE DEUS NOS MOSTROU

111112-RezarNos ergo diligamus Deum, quoniam Deus prior dilexit nos – “Amemos portanto a Deus, porque Deus nos amou primeiro” (1 Io. 4, 19).

Sumário. São inúmeras as provas de amor que o Senhor nos deu. Amou-nos desde a eternidade, tirou-nos do nada com preferência a tantos outros, e, o que mais é, fez-nos nascer num país católico e no seio da Igreja verdadeira. Quantos milhões de homens vivem privados dos sacramentos, da pregação, dos bons exemplos e de tantos outros meios de salvação! A nós Deus quis dar todos estes meios de perfeição, sem mérito algum da nossa parte; prevendo mesmo todos os nossos deméritos. Porque então correspondemos tão mal ao amor de Deus? Porque não o amamos de todo o coração?

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Considera primeiro que Deus merece teu amor, porque te amou antes de ser amado por ti e de todos os seres: In caritate perpetua dilexi te (1) – “Com amor eterno te amei”. Os primeiros que te amaram na terra, foram teus pais; mas só te amaram depois de te terem conhecido. Deus já te amava, antes de existires. Ainda não existiam no mundo nem teu pai, nem tua mãe e já Deus te amava. Não era ainda criado o mundo, e já Deus te amava.

E quanto tempo antes da criação já te amava Deus? Talvez mil anos, mil séculos antes? Escusado é contar anos e séculos: In caritate perpetua dilexi te; ideo attraxi te, miserans tui – “Com amor eterno te amei; por isso, compadecido de ti, te atraí a mim”. Numa palavra, Deus te amou desde que é Deus e desde que se amou a si mesmo, amou-te também. Foi, portanto, com muita razão que a santa virgenzinha Inês respondeu às criaturas que a requestavam: Ab alio amatore praeventa sum – “Outro amante vos precedeu”.

Assim, meu irmão, teu Deus te amou desde a eternidade; e é só por amor de ti que tirou do nada tantas outras criaturas formosas, afim de que te servissem e te recordassem sem cessar o amor que te tem, e o que Lhe deves. O céu e a terra, exclamava Santo Agostinho, tudo me prega, ó meu Deus, quanto sou obrigado a amar-Vos. Quando o Santo olhava o sol, a lua, as estrelas, as montanhas, os rios, parecia-lhe que todas estas criaturas lhe diziam: Agostinho, ama a teu Deus, criou-nos para ti, para ganhar o teu amor. Continuar lendo

XV DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES: O MOÇO DE NAIM E A LEMBRANÇA DA MORTE

jovem_NaimDefunctus efferebatur, filius unicus matris suae – “Levavam à sepultura um defunto, filho único de sua mãe”. (Luc. 7, 12)

Sumário. Que verdade tão importante nos é lembrada pelo Evangelho de hoje! O filho da viúva de Naim era novo, herdeiro único de seu pai, consolação única de sua mãe, amado de seus concidadãos, que por isso acompanhavam o cortejo fúnebre. Provavelmente não pensara que a morte viria surpreendê-lo em tais circunstâncias; mas, assim mesmo colheu-o. Nada, pois, mais certo do que a morte, mas nada mais incerto do que a hora da morte. Ah! Se pensássemos muitas vezes nesta grande máxima, não pecaríamos nunca, e estaríamos sempre preparados para morrer.

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I. Refere São Lucas que “Jesus ia para uma cidade chamada Naim; e iam com ele os seus discípulos e uma grande multidão de povo. E quando chegou perto da porta da cidade, eis que levavam um defunto a sepultar, filho único de sua mãe, que já era viúva, e vinha com ela muita gente da cidade.” Antes de prosseguirmos, meu irmão, reflitamos nesta primeira parte da narração evangélica, e lembremo-nos da morte.

É fora de dúvida que devemos morrer. Cremos nesta verdade, não porque é um ponto da fé, mas porque a vemos também com nossos olhos, pois que cada dia se repete o fato do Evangelho: Ecce defunctus efferebatur – “Um defunto é levado à sepultura”. Se alguém se quisesse iludir pensando que não há de morrer, não seria tido por herege, mas sim por louco, que nega a evidência. – É, pois, certo que havemos de morrer; contra cada um de nós já foi lançada a sentença inapelável: Statutum est hominibus semel mori (1) – “Esta decretado que os homens morram uma só vez.” Mas onde é que morreremos?… Como?… Quando? Ninguém o sabe. “Nada mais certo do que a morte”, diz o Idiota, “e ao mesmo tempo, nada mais incerto do que a hora da morte.”

O filho da viúva de Naim era novo, na flor dos anos, herdeiro único de seu pai; única consolação de sua mãe; amado de seus concidadãos que por isso acompanhavam o cortejo fúnebre. Provavelmente não pensara que a morte o havia de surpreender em tais circunstâncias; mas apesar disso colheu-o. Tal será também a nossa sorte; quem no-lo diz é Jesus Cristo, a verdade mesma: Estote parati; quia qua hora non putatis, Filius hominis veniet (2) – “Estai preparados; porque à hora que não cuidais, o Filho do homem virá. Continuar lendo

MARTÍRIO DE MARIA SANTÍSSIMA AO PÉ DA CRUZ

Stabat autem iuxta crucem Iesu mater eius – “Estava ao pé da cruz de Jesus, sua Mãe” (Io. 19, 25).

Sumário. Do martírio de Maria sobre o Calvário, não é necessário dizer outra coisa senão o que diz São João: contempla-a vizinha à cruz à vista de Jesus moribundo, e depois, vê se há dor semelhante a sua dor. O que mais atormentou a nossa Mãe dolorosa, foi o ver que ela mesma com sua presença aumentava as aflições do Filho e que para grande parte dos homens o sangue divino seria causa de maior condenação. Se Jesus e Maria, apesar de inocentes, sofreram tanto por nosso amor, a nós, que merecemos mil infernos, não desagrade sofrer alguma coisa por amor deles e em satisfação por nossos pecados.

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Admiremos uma nova espécie de martírio; uma Mãe condenada a ver morrer diante de seus olhos, no meio de bárbaros tormentos, um Filho inocente e amado com todo o afeto. Estava ao pé da cruz (de Jesus) sua Mãe. Como se São João dissesse: Não é necessário dizer outra coisa do martírio de Maria: contempla-a vizinha à cruz, à vista do Filho moribundo, e depois vê se há dor semelhante à sua dor.

Mas para que servia, ó Senhora, lhe diz São Boaventura, ires ao Calvário? Devia reter-vos o pejo, pois que o opróbrio de Jesus foi também o vosso, sendo vós sua mãe. Ao menos devia reter-vos o horror de tal delito, como ver um Deus crucificado pelas suas mesmas criaturas. Mas responde o mesmo Santo: Non considerabat cor tuum horrorem, sed dolorem. Ah! O vosso Coração não pensava no seu próprio sofrimento, mas na dor e na morte do amado Filho, e por isso, quisestes vós mesma assistir-Lhe, ao menos para Lhe mostrar a vossa compaixão.

Oh Deus! Que espetáculo doloroso era ver o Filho agonizante sobre a cruz e, ao pé da cruz, ver agonizar a Mãe, que sofria no coração todas as penas que o Filho padecia no corpo! – Eis aqui como a mesma Bem-aventurada Virgem revelou a Santa Brígida o estado lastimoso do seu Filho moribundo, conforme ela o presenciou: “Estava meu amado Jesus na cruz, todo aflito e agonizante; os olhos estavam encovados e meio fechados e amortecidos; os lábios pendentes e a boca aberta; as faces descarnadas, pegadas aos dentes e alongadas; afilado o nariz, triste o rosto; a cabeça pendia-lhe sobre o peito; os cabelos estavam negros de sangue, o ventre unido aos rins; os braços e as pernas inteiriçadas e todo o resto do corpo coalhado de chagas e de sangue.” Ó pobre de meu Jesus! Ó martírio cruel para o coração de uma mãe! Continuar lendo

MORTE DO PECADOR – PONTO III

Resultado de imagem para morte do pecadorCaso digno de admiração! Deus não cessa de ameaçar o pecador com o castigo de uma morte infeliz.

“Virá um dia em que me invocarão e então já não os atenderei” (Pr 1,28)

Esperam, porventura, que Deus dê ouvidos a seu clamor quando estiver na desgraça? (Jó 27,9). Rir-me-ei de sua morte e escarnecerei de sua miséria (Pr 1,26).

“Rir-se Deus significa não querer de usar de misericórdia” (São Gregório).

“A mim pertence a vingança, e eu lhes darei a paga a seu tempo, quando seu pé resvalar” (Dt 32,15).

O mesmo ameaça o Senhor em outros lugares da Escritura, e, não obstante, os pecadores vivem tão tranquilos e seguros, como se Deus lhes houvesse prometido o perdão e o paraíso na hora da morte. É verdade, sempre que o pecador se converter Deus prometeu perdoar. Mas não disse que o pecador se converterá no transe da morte. Pelo contrário, repetiu muitas vezes que aquele que vive em pecado, em pecado morrerá (Jo 8,21-24) e que, se na morte o procurar, não o encontrará (Jo 7,34). É mister, pois, procurar a Deus, enquanto o podemos encontrar (Is 55,6), porque virá tempo em que já não será possível encontrá-lo. Pobres pecadores! pobres cegos que se contentam com a esperança de se converter na hora da morte, quando já não o poderão fazer! Disse Santo Ambrósio:

“Os ímpios não aprenderão a praticar o bem, senão quando já não é tempo”.

Deus quer que todos os homens se salvem; mas castiga os pecadores obstinados. Continuar lendo

JESUS TRATADO COMO O ÚLTIMO DOS HOMENS

jesus_gibson6Vidimus eum… despectum et novissimum virorum – “Vimo-Lo… feito um objeto de desprezo e o último dos homens” (Is. 53, 3).

Sumário. Considera a grande maravilha que se viu um dia na terra: o Filho de Deus, feito homem por amor dos homens, foi desprezado por estes mesmos homens, como se fosse o mais vil de todos, e tratado como doido, bêbado, blasfemador e réu de mil mortes. Meu irmão, representemo-nos bem vivamente o nosso maltratado Senhor: demos-Lhe graças pelo muito que por nós sofreu, consolemo-Lo com nosso arrependimento das injúrias que Lhe fizemos, e digamos-Lhe que por seu amor queremos de hoje em diante suportar com resignação as dores, as humilhações e os desprezos.

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Eis a grande maravilha que se viu um dia no mundo: o Filho de Deus, o Rei do céu, o Senhor do universo, foi desprezado como o mais vil de todos os homens. Afirma Santo Anselmo que Jesus Cristo quis ser desprezado e humilhado nesta terra a tal ponto, que os desprezos e as humilhações que sofreu não podiam ser maiores. – Foi tratado como homem de baixa condição: Não é Ele porventura filho de um carpinteiro? (1) Foi desprezado por causa da sua terra: Pode vir de Nazaré alguma coisa boa? (2) Foi tido por doido: Perdeu o juízo, porque o estais ouvindo? (3) Foi tido por glutão e amigo do vinho: Vejam o homem glutão, que bebe vinho (4). Por feiticeiro: É pelo poder do príncipe dos demônios que Ele expulsa os demônios (5). Por hereje: Não dizemos nós bem que és samaritano? (6)

As maiores injúrias, porém, Lhe foram feitas durante a sua Paixão; e particularmente durante a noite em que foi preso pelos Judeus. Quando Jesus declarou ser Filho de Deus, o ímpio Caifás, tratando-O de blasfemo, disse aos demais sacerdotes: “Blasfemou: que necessidade temos agora de testemunhas? Vós mesmos ouvistes a blasfêmia. Que vos parece?” E eles responderam: “É réu de morte.” (7) Então, assim continua o Evangelista, cuspiram-Lhe na face, e o feriram a punhadas, e tratando-o como falso profeta, disseram: “Advinha, Cristo: quem é que te bateu?” (8)

Numa palavra, foi então que se realizou a profecia de Isaías: “Entreguei o meu corpo aos que me feriam, e minhas faces aos que me arrancavam os cabelos da barba; não virei o rosto aos que me afrontavam e cuspiam em mim.” (9) – No meio de tantas ignomínias que nosso Salvador sofreu naquela noite, sua dor foi ainda aumentada pela injúria que Lhe fez Pedro, seu discípulo, renegando-o três vezes, e jurando que nunca o tinha conhecido. Continuar lendo

JESUS NO SANTÍSSIMO SACRAMENTO DÁ AUDIÊNCIA A TODOS E A QUALQUER HORA

viewAd vocem clamoris tui, statim ut audierit, respondebit tibi — “Logo que ouvir a voz do teu clamor, te responderá” (Is 30, 19).

Sumário. Os reis da terra não dão sempre audiência e muitas vezes acontece que o que lhes deseja falar é despedido pelos guardas a pretexto de que não é tempo de audiência e deve vir mais tarde. Jesus, porém, no Santíssimo Sacramento, não faz assim; dá audiência a todos e a toda hora. É por isso que as igrejas estão sempre abertas. Porque então é que nós, que temos a sorte feliz de morar no palácio do Senhor, não aproveitamos melhor a sua condescendência para lhe expor as nossas necessidade e pedir graças?

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Falando do nascimento do Redentor no presépio de Belém, São Pedro Crisólogo diz que os reis da terra não dão sempre audiência, e que, quando alguém lhes deseja falar, muitas vezes acontece que os guardas o despedem a pretexto de que não é tempo de audiência e deve vir mais tarde. O divino Redentor, pelo contrário, quis nascer numa gruta aberta, sem portas nem guardas, para dar audiência a todo o mundo e a toda a hora: Non est satelles qui dicat: Non est hora — “Não  há guarda para dizer que não é a hora”. Isto mesmo faz Jesus no Santíssimo Sacramento. As Igrejas estão continuamente abertas; cada um pode, quando lhe aprouver, ir entreter-se com o Rei do céu.

E lá, Jesus quer que lhe falemos com toda a confiança: por esta razão é que ele se conserva sob as espécies de pão. Se o Senhor aparecesse sobre os altares num trono de luz, como aparecerá no juízo final, quem se atreveria a se aproximar d’Ele? Mas, reflete Santa Teresa, como Ele deseja que lhe falemos e peçamos suas graças cheios de confiança e sem temor, velou sua majestade sob as espécies de pão. Ele deseja, diz também Tomás de Kempis, que falemos a Ele como um amigo fala a seu amigo. Por isso, acrescenta o cardeal Hugo, nos sagrados Cânticos Jesus se chama a si próprio flor dos campos e açucena dos vales: Ego flos campi et lilium convallium (1). As flores dos jardins são encerradas e reservadas; mas as flores dos campos estão à disposição de todos.

Qual não seria a tua alegria, meu irmão, se o rei te chamasse ao seu gabinete e te falasse: Dize-me, que desejas? De que precisas? Amo-te e desejo fazer-te bem. Pois é isto o que Jesus Cristo, o Rei do céu, diz a qualquer que O visita: Venite ad me omnes qui laboratis et onerati estis, et ego reficiam vos (2) — “Vinde a mim, vós todos que sois pobres, enfermos, aflitos: eu posso e quero enriquecer-vos, curar-vos e consolar-vos; é para isto que me conservo sobre os altares”. Continuar lendo

MORTE DO PECADOR – PONTO II

Resultado de imagem para morte do pecadorNão uma só, senão muitas serão as angústias que hão de afligir o pobre pecador moribundo. Verse-á atormentado pelos demônios, porque estes terríveis inimigos empregam nesse transe todos os seus esforços para perder a alma que está prestes a sair desta vida. Sabem que lhes resta pouco tempo para apoderar-se dela e que, escapando-se agora, jamais será sua (Ap 12,12). Não estará ali apenas um só, mais muitos demônios hão de rodear o moribundo para o perder. Dirá um:

“Nada temas, que te restabelecerás”

Outro exclamará:

“Tu, que durante tantos anos foste surdo à voz de Deus, esperas agora que ele tenha misericórdia de ti?”

“Como — intervém outro — poderás reparar os danos que fizeste, restituir as reputações que prejudicaste?”

Outro, enfim, dirá:

“Não vês que todas as tuas confissões foram nulas, sem contrição, sem propósito? Como podes agora renová-las?”

Por outro lado, o moribundo se verá rodeado por suas culpas. Estes pecados, como outros tantos verdugos — disse São Bernardo, acercar-se-ão dele e lhe dirão: Continuar lendo

DA ETERNIDADE DO INFERNO

infEt ibunt hi in supplicium aeternum – “Estes irão para o suplício eterno” (Matth. 25, 46).

Sumário. A eternidade do inferno não é uma simples opinião, mas sim uma verdade de fé fundada no testemunho de Deus na Santa Escritura, na qual se diz repetidas vezes que os desgraçados pecadores, uma vez lançados naqueles abismos, serão atormentados de dia e de noite pelos séculos dos séculos. Se alguém por um dia de divertimento se deixasse condenar a trinta anos de prisão, tê-lo-íamos por louco. Que maior loucura não seria a nossa, se por um momento de vil prazer nos condenássemos a queimar no fogo para sempre? A ficar privados para sempre da posse do soberano bem, que é Deus?

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Se o inferno não fosse eterno, deixaria de ser inferno. A pena que dura pouco, não é grande pena. Quando se rompe a um doente um abscesso, quando a outro se queima uma úlcera, a dor é viva, mas, como passa rapidamente, o tormento não é grande. Que sofrimento porém não seria, se aquela incisão, aquela operação por meio do fogo, continuasse por uma semana, por um mês inteiro? Quando o sofrimento é bastante prolongado, apesar de leve, como uma dor de olhos, uma dor de dentes, torna-se insuportável. – Mas para que falar de sofrimento? Mesmo uma comédia, uma música que se prolongasse muito ou durasse um dia inteiro, não se poderia aturar pelo grande fastio. Que será, pois, do inferno, onde não se trata de assistir à mesma comédia, de ouvir a mesma música, onde não se tem unicamente a sofrer uma dor de olhos ou de dentes, onde não se sente só o tormento de uma incisão ou de um ferro em brasa, mas onde estão reunidos todos os tormentos e todas as dores? E isto, por quanto tempo? Por toda a eternidade! Cruciabuntur die ac nocte in saecula saeculorum (1) – “Serão atormentados de dia e de noite pelos séculos dos séculos”.

Esta eternidade não é simples opinião, mas sim uma verdade de fé, atestada repetidas vezes por Deus nas Sagradas Escrituras. Só no capítulo 9 de São Marcos Jesus Cristo afirma até três vezes que o verme roedor e a consciência dos condenados nunca morrerá: Vermis eorum non moritur; até cinco vezes repete que o fogo que os abrasa, nunca será apagado: Et ignis eorum non extinguitur; e finalmente conclui dizendo: Omnis igne salietur (2) – “Será todo salgado pelo fogo”. Assim como o sal tem a propriedade de conservar as cosias, assim o fogo do inferno, ao mesmo tempo que atormenta os réprobos, produz neles o efeito de sal, conservando-lhes a vida. Desgraçados réprobos! Continuar lendo

A CADA MOMENTO NOS APROXIMAMOS DA MORTE

morteOmnes morimur, et quase aquae dilabimur in terram, quae non revertuntur – “Nós morremos todos, e corremos pela terra como as águas que não tornam mais” (2 Reg. 14, 14).

Sumário. É certo que fomos todos condenados à morte. Todos nascemos com a corda ao pescoço, e a cada passo que damos, aproximamo-nos mais do patíbulo. Que loucura, pois, a nossa, sabermos que havemos de morrer, crermos que do momento da morte depende uma eternidade de gozos ou de penas, e não pensarmos no ajuste das contas e nos meios para ter uma boa morte! Compadecemo-nos dos que morrem subitamente. Porque é, pois, que nos expomos ao risco de nos suceder a mesma desgraça? Quem sabe se este ano não é o último da nossa vida?… Quem sabe se ainda amanheceremos?

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É certo que fomos todos condenados à morte. Todos nascemos, diz São Cypriano, com a corda ao pescoço e,  a cada passo que damos, nos aproximamos mais da morte. Meu irmão, assim como foste inscrito um dia no livro dos batismos, assim serás inscrito um dia no livro dos mortos. Assim como dizes hoje dos teus antepassados: meu falecido pai, tio ou irmão, assim dirão de ti os que vierem depois. Assim como ouviste muitas vezes dobrar os sinos pela morte dos outros, assim outros os ouvirão dobrar pela tua morte.

Que dirias, se visses um condenado à morte caminhar para o suplício galhofando, rindo, olhando para toda a parte e pensando ainda em comédias, festins e divertimentos? E tu, não caminhas neste momento para a morte? E em que pensas? Vê nessa cova teus amigos e parentes, a quem já feriu a sentença. Que horror se apodera dos condenados quando vêem os seus companheiros já mortos e pendentes da forca! Atenta nesses cadáveres, cada um dos quais te diz: Mihi heri et tibi hodie (1) – “Ontem a mim, hoje a ti.” É isto o que te dizem ainda os retratos de teus parentes já mortos, os seus escritos, as casas, os leitos, as roupas que deixaram.

Haverá loucura maior do que saber que se há de morrer e que depois da morte nos espera uma eternidade de alegrias ou uma eternidade de penas; saber que do momento da morte depende um futuro eternamente feliz ou eternamente infeliz: e não pensar em ajustar as contas e em empregar todos os meios para te ruma boa morte: compadecemo-nos dos que morrem subitamente e não se acham preparados para a morte; como é então que não cuidamos em estar preparados, podendo-nos acontecer o mesmo? – Mas cedo ou tarde, prevista ou imprevistamente, quer pensemos nisso quer não, devemos morrer; e a todas as horas, a todos os instantes nos vamos aproximando da nossa forca, quer dizer, da última doença que nos deve fazer sair deste mundo. Continuar lendo

MORTE DO PECADOR – PONTO I

Resultado de imagem para morte do pecadorAngustia superveniente, pacem requirent, et non erit; conturbatio super conturbationem veniet – “Sobrevindo a aflição, procurarão a paz e a não encontrarão; virá confusão sobre confusão” (Ez 7, 25-26)

Os pecadores afastam a lembrança e o pensamento da morte, e procuram a paz (ainda que jamais a encontrem), vivendo em pecado.

Quando, porém, se virem em face da eternidade e nas agonias da morte, já não poderão escapar aos tormentos de sua má consciência, nem encontrar a paz que procuram. Pois, como pode encontrá-la uma alma carregada de culpas, que, como víboras, a mordem? Que paz poderão gozar pensando que em breve deverão comparecer ante Cristo Jesus, cuja lei e amizade desprezaram até então?

“Confusão sobre confusão” (Ez 7,26).

O anúncio da morte próxima, a ideia de se separar para sempre de todas as coisas do mundo, os remorsos da consciência, o tempo perdido, o tempo que falta, o rigor do juízo de Deus, a eternidade infeliz que espera o pecador, todas estas coisas produzirão perturbação terrível que acabrunha e confunde o espírito e aumenta a desconfiança. E neste estado de confusão e desespero, o moribundo passará à outra vida.

Abraão, confiando na palavra divina, esperou em Deus contra toda a esperança humana, e por este motivo foi insigne o seu merecimento (Rm 4,18). Mas os pecadores, por desdita sua, iludem-se quando esperam, não só contra a esperança, mas também contra a fé, quando desprezam as ameaças que Deus faz aos obstinados. Receiam a morte infeliz; mas não temem levar a vida má. Quem lhes dá, pois, a certeza de que não hão de morrer subitamente feridos por um raio? E ainda que tivessem nesse momento tempo de se converter, quem lhes assegura que realmente se converterão? Santo Agostinho teve de lutar doze anos para vencer suas más inclinações. Como é que um moribundo, que teve quase sempre a consciência manchada, poderá fazer facilmente uma conversão verdadeira, no meio dos sofrimentos, das dores de cabeça e da confusão da morte? Digo conversão verdadeira, porque então não bastará dizer e prometer com os lábios, mas será preciso que palavras e promessas saiam do fundo do coração. Ó Deus, que confusão e susto os do pobre enfermo que se descuida de sua consciência, quando se vir oprimido pelo peso dos pecados, do temor do juízo, do inferno e da eternidade! Que confusão e angústia produzirão nele tais pensamentos, quando se achar desfalecido, a mente obscurecida, e entregue às dores da morte já próxima! Confessar-se-á, prometerá, chorará, pedirá perdão a Deus, mas sem saber o que faz. Nesse caos de agitação, de remorso, de agonia e ansiedade, passará à outra vida. Continuar lendo

DA MORTIFICAÇÃO INTERIOR

mulher cat__licaQui autem sunt Christi, carnem suam crucifixerunt cum vitiis et concupiscentiis – “Os que são de Cristo, crucificaram a carne com os vícios e concupiscências” (Gal. 5, 24).

Sumário. É certo que as paixões, dirigidas segundo a razão e a prudência, não somente não causam prejuízo, senão antes trazem proveito à alma. Ao contrário, não sendo bem dirigidas causam ruínas irreparáveis porque escurecem o espírito e não permitem ver nem o bem nem o mal. Eis porque os mestres da vida espiritual recomendam tanto a mortificação interior. Se não quisermos ser dominados pelas nossas paixões, indaguemos qual seja a nossa paixão dominante e esforcemo-nos para a subjugar, lembrando-nos, porém, de que o melhor meio para sermos bem sucedidos é a oração.

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As paixões, por natureza, não são más nem nocivas, e, quando dirigidas conforme a razão e a prudência, não somente não trarão prejuízo, senão proveito à alma. Se, ao contrário, não são bem dirigidas, causam ruínas irreparáveis para o que as segue; pois que escurecem a verdade e não permitem ver o que seja bom e o que seja mau. Por isso o Eclesiástico rogava a Deus que o livre de uma alma escrava das paixões: Animae irreverenti et infrunitae ne tradas me (1) – “Não me entregues a uma alma sem respeito e sem recato”.

Eis em que consiste propriamente a mortificação interior, tão recomendada pelos mestres da vida espiritual: em regular e moderar os movimentos da alma. Muitos põem toda a sua diligência na compostura exterior, no porte modesto e respeitoso, ao passo que no coração conservam afetos pecaminosos contrários à justiça, à caridade, à humildade ou à castidade. São semelhantes aos Fariseus, hipócritas depravados, e em vez de desarraigarem os vícios, encobrem-nos com o manto da devoção. Mas, ai deles! De que serve, pergunta São Jerônimo, abster-se de alimentos e guardar o coração cheio de orgulho? Abster-se de vinho e ficar fora de si pela ira?

Notemos bem que todas as más paixões nascem do amor próprio. É este o inimigo principal que nos ataca e devemos vencê-lo pela abnegação própria, segundo o que ensina Jesus Cristo: Abneget semetipsum (2) – “Renuncie a si próprio”. Enquanto não expulsarmos do coração o amor próprio, não pode entrar nele o amor de Deus. – Dizia a Bem-aventurada Angela de Foligno que tinha mais medo do amor próprio que do demônio, porque o amor próprio tem mais força do que este para nos fazer cair. E Santa Maria Magdalena de Pazzi acrescenta: O nosso pior traidor é o amor próprio; faz como Judas: entrega-nos  com um beijo. Quem o vence, vence tudo; quem não o vence, está perdido. Continuar lendo

XIV DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES: OS DOIS SENHORES E AS ALMAS TÍBIAS

Resultado de imagem para DOIS senhoresNemo potest duobus dominis servire – “Ninguém pode servir a dois senhores”. (Matth. 6, 24)

Sumário. As almas tíbias parecem que querem servir ao mesmo tempo a Deus e ao mundo; a Deus, preservando-se de culpas graves; ao mundo, não fazendo caso das culpas veniais deliberadas. Escutem, porém, estas pobres iludidas, o que diz Jesus Cristo no Evangelho de hoje: “Ninguém pode servir a dois senhores: porque, ou há de amar um e odiar o outro, ou se apagar a um e abandonar o outro”. É como que dizer que cedo ou tarde acabará por cair em culpas graves. Além disso, o desgraçado levará vida infeliz; porque ficará privado tanto dos prazeres do mundo como das consolações celestiais.

I. Quem dera que esta máxima de Jesus Cristo fosse bem compreendida por aqueles que vivem na tibieza voluntária. Os ingratos repartem entre Deus e as criaturas o coração que lhes foi dado para amar a Deus só e ainda é muito pequeno para o amar devidamente. Com outras palavras, eles são tão insensatos que se persuadem que podem servir ao mesmo tempo a dois senhores, tão opostos entre si, como o são Deus e o mundo. Querem servir a Deus, preservando-se de pecados graves; e ao mundo, não fazendo caso das culpas veniais, em que caem por hábito e com advertência.

Tais almas dizem: Os pecados veniais não nos fazem perder a graça divina; por poucos que sejam, impedir-nos-ão de santificarmos; mas assim mesmo nos salvaremos, e é quanto basta. – Mas o que fala assim, ouça o que assegura Santo Agostinho: Ubi dixisti, satis, ibi periisti – Dizes que basta que te salves? Sabe, porém, que desde que disseste basta, começou a tua perdição; porquanto a alma nunca fica no lugar onde caiu, mas vai sempre abismando-se mais e mais. Santo Isidoro dá-nos disso a razão, porque com justiça Deus permite que os que não fazem caso dos pecados veniais, em castigo do seu desleixo e do pouco amor que lhe têm, caiam afinal em pecado mortal.

Demais, é natural que o hábito dos pecados leves incline a alma aos pecados graves, exatamente como certos leves mas repetidos incômodos da saúde corporal acabam por fazer a pessoa cair numa enfermidade mortal e levá-la ao túmulo. – Em suma, persuadam-se bem as almas tíbias, que cedo ou tarde se verificará também nelas a palavra de Jesus Cristo: “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de amar a um e odiar ao outro, ou se apegar a um e abandonar o outro.” Continuar lendo

INCERTEZA DA HORA DA MORTE – PONTO III

Imagem relacionadaEstai preparados” — O Senhor não disse que nos preparemos ao aproximar-se a morte, mas que estejamos preparados. No transe da morte, nesse momento cheio de perturbação, é quase impossível pôr em ordem uma consciência embaraçada. Isto nos diz a razão. Nesse sentido Deus também advertiu-nos, dizendo que não virá então perdoar, mas vingar o desprezo que fizéssemos da sua graça (Rm 12, 19).

Justo castigo — disse Santo Agostinho — para aquele que não quis salvar-se quando pôde; agora, quando quer, não o pode”. Dirá todavia alguém: Quem sabe? talvez nesse momento me converta e me salve.

Mas quem é tão néscio e se lança num poço dizendo: Quem sabe? atirando-me, talvez fique com vida e não morra? Ó meu Deus, que é isto? Quanto o pecado cega o espírito e faz perder até a razão! Quando se trata do corpo, os homens falam como sábios, e como loucos, quando se trata da alma.

Meu irmão, quem sabe se esta reflexão que lês será o último aviso que Deus te envia? Preparemo-nos sem demora para a morte, a fim de que não nos encontre de improviso. Santo Agostinho disse que o Senhor nos oculta a última hora da vida com o fim de que todos os dias estejamos preparados para morrer (Hom. XIII). São Paulo nos previne que devemos procurar a salvação não só temendo mas tremendo (Fl 2, 12). Conta Santo Antonio que certo rei da Sicília, para manifestar a um particular o grande medo com que se sentava no trono, o fez sentar à mesa com uma espada suspensa sobre sua cabeça por um fio delgado, de sorte que o convidado, vendo-se nessa terrível situação, mal podia levar à boca uma migalha de alimento. Todos estamos em semelhante perigo, já que dum instante para outro pode cair sobre nós a espada da morte, resolvendo o negócio da eterna salvação. Continuar lendo

MARIA SANTÍSSIMA ALCANÇA A PERSEVERANÇA PARA SEUS DEVOTOS

mariaQui operantur in me non peccabunt — “Os que trabalham por mim não pecarão” (Ecclus. 24, 30)

Sumário. Se é verdade que todas as graças passam pelas mãos de Maria, também será certo que só por meio de Maria poderemos esperar e conseguir a graça suprema da perseverança final. Se nos quisermos salvar, sejamos devotos desta querida Mãe; recorramos a ela em todas as nossas necessidades; e quando os demônios nos vierem tentar, como os pintainhos ao ver no ar o milhafre, vamo-nos meter debaixo do seu manto. Mas ai de nós, se resfriarmos nesta devoção! Porquanto, assim como é impossível que se condene um verdadeiro devoto da Virgem, assim é igualmente impossível que se salve o que não for protegido por ela.

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A perseverança é um dom todo gratuito de Deus, que nós não podemos merecer. Todavia, como ensinam Santo Agostinho e outros, podemos obtê-la pela oração, e pela oração quotidiana, porque ela não é dada toda de uma vez, mas dia a dia. Ora, se é verdade que todas as graças que Deus nos concede passam pelas mãos de Maria, segundo a palavra de São Bernardo: Totum nos habere voluit per Mariam — “Deus quis que tivéssemos tudo por meio de Maria”; também será certo que só por meio de Maria poderemos esperar e conseguir a graça suprema da perseverança.

Certamente a conseguiremos, se com confiança a pedirmos sempre a Maria, mas especialmente no tempo das tentações. Ela mesma, como lhe faz dizer a santa Igreja, promete-a a todos os que fielmente a servem: Os que obram por mim, não pecarão. E em outro lugar: Mea est fortitudo, per me reges regnant (1) — “Minha é a fortaleza, por mim reinam os reis”. Minha é a fortaleza, diz Maria; Deus depositou na minha mão este dom, tão indispensável para vencer os inimigos espirituais, para que eu o conceda aos meus devotos. É por minha mediação que os meus servos reinam e dominam sobre todos os seus sentidos e paixões, e assim se fazem dignos de reinarem eternamente no céu.

Ao contrário, pobres das almas que deixam de ser devotas de Maria e de se recomendar a ela em todas as ocasiões. Diz Santo Anselmo, que assim como aquele que se recomenda a Maria e por ela é olhado com amor, não se pode perder, tampouco é possível que se salve o que não é devoto de Maria e por ela protegido. — São Francisco de Borja perguntou certa vez a uns noviços, de que Santo eram mais devotos, e achando que alguns não tinham devoção especial a Maria, avisou ao Mestre dos noviços que olhasse com mais atenção para aqueles desgraçados; e sucedeu que todos perderam miseravelmente a vocação, e quiçá com esta também a alma. Continuar lendo

CORAÇÃO AFLITO DE JESUS, CONSOLADO PELO ZELO DAS ALMAS

sagraDominus Deus consolabitur in servis suis – “O Senhor Deus será consolado em seus servos” (2 Mach. 7, 6).

Sumário. A causa única da aflição do Coração de Jesus é a perdição das almas que o ultrajam em vez de o amar: por conseguinte, a consolação que Ele requer, é que procuremos ganhar-Lhe as almas. Esforcemo-nos, pois, por consolar este Coração amabilíssimo; e se mais não pudermos fazer, roguemos-Lhe que envie à sua Igreja ministros zelosos. Roguemos-Lhe muitas vezes pelos pobres pecadores, em particular pelos que estão em agonia e têm de morrer hoje. Ensinemos tão salutar devoção também aos outros.

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Feliz o cristão que, compadecendo-se das penas de Jesus, procura também aliviá-las. A causa única das aflições deste Coração amabilíssimo é a ingratidão dos homens e a perdição das almas que o ultrajam em vez de O amar; por conseguinte, a consolação que Ele requer, é que procuremos ganhar-Lhe as almas. É a perdição delas que Lhe arrancou tantas lágrimas; é para resgatá-las, que deu seu sangue. Aquele que salva uma alma, enxuga de alguma sorte as lágrimas de Jesus e impede que seu sangue seja derramado em pura perda.

Nem se diga que isso é o ofício somente dos sacerdotes; porquanto quem fala assim prova que bem pouco amor tem a Deus. Si Deum amatis, rapite omnes ad amorem Dei. Se amas a Deus, dizia Santo Agostinho, atraí todos ao amor de Deus. E Jesus mesmo, aparecendo à Venerável Soror Serafina Capri, lhe disse: “Ajuda-me, por tuas orações, a salvar as almas, ó minha filha.” – Persuadamo-nos de que todos os discípulos do Coração de Jesus devem zelar pela sua honra, e os que não o fazem deverão um dia, como dizia Santa Maria Madalena de Pazzi, dar conta a Deus de tantas almas, que talvez não se houvessem condenado, se as tivessem recomendado a Deus em suas orações.

Portanto, na oração mental, na ação de graças depois da comunhão, na visita ao Santíssimo Sacramento, não deixemos nunca de recomendar a Deus os pobres pecadores, os infiéis, os hereges e todos os que vivem longe de Deus. Oh! Quantas almas devem sua conversão menos aos sermões dos pregadores do que às orações das almas fervorosas! – Considerando que pelos sacerdotes vem ao povo a salvação ou a perdição, a benção ou a maldição, roguemos ao mesmo tempo e com insistência a Deus, que envie à sua Igreja ministros santos que, com verdadeiro zelo, atendam à salvação das almas. Continuar lendo

OS ADORADORES DE JESUS SACRAMENTADO

SacramentoGustate et videte, quoniam suavis est Dominus – “Provai e vede quão suave é o Senhor”(Ps. 33, 9).

Sumário. Entre todas as devoções, a devoção de Jesus sacramentado é, sem dúvida, depois da recepção dos sacramentos, a primeira, a mais agradável a Deus e a mais proveitosa para nós. Por isso é que todos os santos ardiam de amor a esta dulcíssima devoção. Não te pese, pois, meu irmão, abraçá-la também, e abreviando tuas conversações com os homens, vai freqüentemente entreter-te com Jesus e comunicar-lhe as tuas necessidades. Ganharás talvez mais, num quarto de hora de oração diante do Santíssimo Sacramento, que em todos os mais exercícios devotos do dia.

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A fé ensina, e nós somos obrigados a crer, que na Hóstia consagrada está realmente Jesus Cristo, sob as espécies de pão. Mas devemos ao mesmo tempo estar persuadidos que Ele reside em nossos altares, como sobre um trono de amor e misericórdia, para dispensar as suas graças e mostrar-nos o amor que nos consagra. Quanto são, portanto, agradáveis ao Coração de Jesus os que o visitam freqüentemente e se comprazem em fazer-Lhe companhia nas igrejas! Jesus Cristo ordenou a Santa Maria Madalena de Pazzi que o visitasse trinta e três vezes por dia. E esta esposa tão amada obedecia-Lhe fielmente, aproximando-se do altar o mais que podia.

Deixemos falar as almas devotas, que vão freqüentes vezes entreter-se como o diviníssimo Sacramento e digam-nos os favores, as luzes, as chamas de amor que ali recebem e o paraíso de que gozam em presença do Deus eucarístico. O servo de Deus, Padre Luiz la Nuza, famoso missionário, desde jovem e secular, amava tão ardentemente Jesus Cristo, que parecia não poder afastar-se da presença de seu amado Senhor. Sentia ali tantos encantos que, tendo-lhe seu diretor proibido que ali passasse mais de uma hora, a violência que se devia fazer para obedecer e desprender-se de Jesus Cristo era tal, que parecia uma criança arrancada ao seio materno.

São Luiz de Gonzaga tinha também recebido proibição de ficar diante do Santíssimo Sacramento; e, passando junto do tabernáculo e sentindo-se atraído a ficar, pelos suaves encantos de seu Senhor, violentava-se para se retirar e na ternura do seu amor exclamava: Recede a me, Domine, recede – “Afastai-Vos de mim, Senhor, afastai-Vos”. Era ali ainda que São Francisco Xavier encontrava o repouso após as grandes fadigas nas Índias: consagrava o dia ao bem das almas e a noite passava-a em oração perante o Santíssimo Sacramento. São Francisco de Assis, apenas sentia qualquer aflição, ia imediatamente comunicá-la a Jesus na santa Eucaristia. – Numa palavra, lê as vidas dos santos e verás que todos eram cheios de ardor por esta tão doce devoção, convencidos de que não é possível encontrar na terra tesouro mais amável do que Jesus na Eucaristia. Continuar lendo

INCERTEZA DA HORA DA MORTE – PONTO II

Resultado de imagem para cemitérioO Senhor não nos quer ver perdidos. Por isso, com ameaça de castigo, não cessa de advertir-nos que mudemos de vida.

“Se não vos converterdes, vibrará sua espada” (Sl 7, 13)

Vede – disse me outra parte – quantos são os desgraçados que não quiseram emendar-se, e a morte repentina os surpreendeu quando não esperavam, quando viviam despreocupados, julgando terem ainda muitos anos de vida (1 Ts 5, 3). Disse-nos também:

“Se não fizerdes penitência, todos haveis de perecer”.

Por que tantos avisos do castigo antes de infligi-lo, senão porque quer que nos corrijamos e evitemos morte funesta. Quem dá aviso para que nos acautelemos, não tem a intenção de matar-nos – disse Santo Agostinho.

É mister, pois, que preparemos nossas contas antes que cegue o dia do vencimento. Se durante a noite de hoje devesses morrer, e ficasse decidida assim a tua salvação eterna, estarias bem preparado? Quanto não darias, talvez, para obter de Deus a trégua de mais um ano, um mês, um dia sequer! Por que agora, já que Deus te concede tempo, não pões em ordem tua consciência? Acaso não pode ser este teu último dia de vida?

“Não tardes em te converter ao Senhor, e não o adies, porque sua ira poderá irromper de súbito e no tempo da vingança te perderás” (Ecl 5, 7) Continuar lendo

A RESSURREIÇÃO DOS CORPOS NO JUÍZO

ressEcce mysterium vobis dico: Omnes quidem resurgemus, sed non omnes immutabimur – “Eis que vos digo um mistério: todos certamente ressuscitaremos, mas nem todos seremos mudados” (1 Cor 15, 51)

Sumário. Mortos todos os homens, a trombeta soará e todos ressuscitarão. Todos retomarão o mesmo corpo com que serviram a Deus nesta terra, ou o ofenderam. Que diferença haverá entre os corpos dos escolhidos e dos réprobos! Estes serão negros, horrendos e nauseabundos; aqueles serão alvos, belos e mais resplandecentes que o sol. Meu irmão, qual será a tua sorte nesse dia?… Se quisermos que o nosso corpo apareça dignamente ao lado dos Bem-aventurados, apliquemo-nos a mortificá-lo e a guardá-lo pela penitência, sujeito à alma.

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O Juízo universal será precedido do fogo do céu que devorará a terra e todos os homens que então viverem: Terra et quae in ipsa sunt opera exurentur (1) – “A terra será presa do fogo, com todas as obras que nela se contém”. Palácios, campos, cidades, reinos, tudo deverá ser reduzido a um montão de cinzas. É preciso que esta infecionada habitação dos pecados seja purificada pelo fogo. Eis como deve ser o fim de todas as riquezas, pompas e delícias deste mundo. – Mortos todos os homens, a trombeta soará e todos ressuscitarão: Canet enim tuba, et mortui resurgent(2). Dizia São Jerônimo:

“Todas as vezes que penso no dia do Juízo, tremo pelo corpo todo; julgo ouvir a cada instante esta terrível trombeta: Ressuscitai, ó mortos, vinde ao juízo.”

Ao som desta trombeta, as almas gloriosas dos bem-aventurados descerão do céu, para se unirem aos corpos com que serviram a Deus nesta vida; e as almas infelizes dos condenados subirão do inferno para se unirem aos corpos malditos, com que ofenderam a Deus. – Oh! Que diferença haverá então entre os corpos dos bem-aventurados e os dos réprobos! Os bem-aventurados aparecerão belos, puros, resplandecentes como o sol: Tunc fulgebunt iust sicut sol (3). Feliz de quem nesta vida sabe mortificar a carne, recusando-lhe os prazeres proibidos; ou, para a refrear mais, lhe recusa até os gozos permitidos, como fizeram os santos! Como estará então contente por ter vivido assim um São Pedro de Alcântara, que depois da morte disse a Santa Teresa: Continuar lendo

DO GRANDE MAL QUE É O DESAFETO DE DEUS

pecSimiliter autem odio sunt Deo impius et impietas eius ― “O ímpio e a impiedade são igualmente odiosos a Deus” (Sap. 14, 9).

Sumário. Considera quão grande é a ruína que traz consigo o pecado mortal. Faz-nos primeiro perder todos os merecimentos anteriormente adquiridos, por grandes e imensos que sejam. Além disso, de filho de Deus torna o homem escravo de Lúcifer; de amigo querido, inimigo sumamente odioso; de herdeiro do céu, um condenado ao inferno. Se os anjos pudessem chorar, chorariam de compaixão vendo a desgraça de uma alma que comete pecado mortal e perde a graça de Deus. E nós ficaremos indiferentes?

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Consideremos o miserável estado de uma alma em pecado mortal. Vive separada de Deus, seu soberano bem, de tal sorte que não pertence a Deus, assim como Deus não pertence a ela: Vos non populus meus, et ego non ero vester (1). Não só já não é dela, mas aborrece-a e condena-a ao inferno. ― O Senhor não odeia nenhuma das suas criaturas, nem mesmo as feras e as víboras: Nihil odisti eorum quae fecisti (2). Mas o Senhor não pode deixar de odiar os pecadores. Sim, porque Deus odeia necessariamente o pecado, que é seu inimigo inteiramente contrário à sua vontade, e assim odiando o pecado, deve necessariamente odiar também o pecador que se conserva unido ao pecado; Similiter autem odio sunt Deo impius et impietas eius ― “O ímpio e a sua impiedade são igualmente odiosos a Deus”.

Oh céus! Se alguém tem por inimigo um príncipe da terra, não pode mais dormir tranqüilo, receando com razão a cada instante a morte. E o que tem por inimigo a Deus, como pode viver em paz? À ira de um príncipe pode-se fugir, já buscando esconderijo numa floresta, já ausentando-se para outro país; mas quem pode escapar às mãos de Deus? As vossas mãos, Senhor, exclamava Davi, quer eu suba aos céus, quer desça aos inferno, alcançar-me-ão em toda a parte: Etenim illuc manus tua deducet me (3).

Desgraçados pecadores! Eles são amaldiçoados por Deus, amaldiçoados pelos anjos, amaldiçoados pelos santos, amaldiçoados até na terra por todos os sacerdotes e religiosos que todos os dias, ao recitar o Ofício divino, pronunciam esta maldição: Maledicti qui declinant a mandatis tuis (4) ― “Amaldiçoados os que se apartam dos teus mandamentos”. ― Além disso, o desafeto de Deus traz consigo a perda de todos os merecimentos. Ainda que algum tivesse merecido tanto como um São Paulo Eremita, que viveu 98 anos numa gruta; tanto como um São Francisco Xavier, que conquistou para Deus milhões de almas; tanto como o apóstolo São Paulo, que, segundo São Jerônimo, adquiriu mais merecimentos que todos os outros apóstolos: se cometesse um só pecado mortal, perderia tudo: Omnes iustitiae eius, quas fecerat, non recordabuntur (5) ― “De nenhuma das obras de justiça que tiver feito, se fará memória”. Continuar lendo

INCERTEZA DA HORA DA MORTE – PONTO I

Imagem relacionadaEstote parati, quia qua hora non putatis, Filius hominis veniet – “Estai prevenidos, porque na hora em que menos pensais virá o Filho do Homem” (Hb 9, 27)

É certíssimo que todos devemos morrer, mas não sabemos quando.

“Nada há mais certo que a morte. – diz Idiota – porém nada mais incerto que a hora da morte.” Meu irmão, estão fixados ano, mês, dia, hora e momento em que terás que deixar este mundo e entrar na eternidade; porém nós o ignoramos. Nosso Senhor Jesus Cristo, a fim de estarmos sempre bem preparados, nos disse que a morte virá como um ladrão, oculto e de noite (1Ts 5, 2). Outras vezes nos exorta a que estejamos vigilantes, porque, quando menos o esperamos, virá Ele a julgar-nos (Lc 12, 40). Disse São Gregório que Deus nos oculta, para nosso bem, a hora da morte, a fim de que estejamos sempre preparados para morrer. Disse São Bernardo: a morte pode levar-nos em qualquer momento e em qualquer lugar; por isso, se queremos morrer bem e salvar-nos, é preciso que a estejamos esperando em qualquer tempo ou lugar.

Ninguém ignora que deve morrer; mas o mal está em que muitos veem a morte a tamanha distância que a perdem de vista. Mesmo os anciãos mais decrépitos e as pessoas mais enfermas não deixam de alimentar a ilusão de que hão de viver mais três ou quatro anos. Eu, porém, digo o contrário: Devemos considerar quantas mortes repentinas vemos em nossos dias. Uns morrem caminhando, outros sentados, outros dormindo em seu leito. É certo que nenhum deles julgava morrer tão subitamente, no dia em que morreu. Afirmo, ademais, que de quantos no decorrer deste ano morreram em sua própria cama, e não de repente, nenhum deles imaginava que devia acabar sua vida neste ano. São poucas as mortes que não chegam inesperadas.

Assim, pois, cristãos, quando o demônio te provoca a pecar, pretextando que amanhã confessarás, dize-lhe: Quem sabe se não será hoje o último dia da minha vida? Se esta hora, se este momento, em que me apartasse de Deus, fosse o último para mim, de modo que já não restasse tempo para reparar a falta, que seria de mim na eternidade? Quantos pobres pecadores tiveram a infelicidade de ser surpreendidos pela morte ao recrearem-se com manjares intoxicados e foram precipitados no inferno? Continuar lendo