PAULO VI (1887-1978), UM NOVO SANTO?

Pe. Thierry Gaudray, FSSPX – Fonte: Permanencia

No dia 5 de agosto passado, o Papa Francisco falou à multidão reunida na praça São Pedro para a oração do Angelus: “Há quarenta anos, o Beato Papa Paulo VI estava vivendo as suas últimas horas nesta terra. Morreu, de fato, na noite de 6 de agosto de 1978. Recordemos dele com muita veneração e gratidão, à espera da sua canonização, em 14 de outubro próximo. Do céu interceda pela Igreja, que tanto amou, e pela paz no mundo. Este grande Papa da modernidade, o saudemos com um aplauso, todos!

Não há dúvida que, ao canonizar Paulo VI, após tê-lo feito com João XXIII e João Paulo II, Francisco tem a intenção de confirmar os católicos nas novas orientações tomadas pela Igreja desde o Concílio, e dar um novo lustro à liturgia reformada1. Paulo VI foi, de resto, o primeiro papa a lançar mão da canonização dos santos para avalizar o Concílio, anunciando, no dia 18 de novembro de 1965, antes do seu término, portanto, a introdução das causas de beatificação de Pio XII, mas também de João XXIII2.

No entanto, quão opostos eram os julgamentos desses dois papas sobre Monsenhor Montini! Se este último foi um colaborador próximo do Cardeal Pacelli por muitos anos, em 1954 foi afastado de Roma por vontade do Papa Pio XII. O sobrinho de Paulo VI testemunhou que seu tio jamais nutriu a menor ilusão a esse respeito: “para ele, tratava-se de um drama no mais pleno sentido da palavra”3. Ainda que Pio XII não tenha julgado conveniente afastar um substituto nos assuntos ordinários da secretaria de Estado sem lhe conceder uma aparente promoção, a censura não deixava de ser notória. A Sé de Milão era tradicionalmente ocupada por um cardeal, ora “Pio XII não criou mais nenhum cardeal”, e isto “para não ter de designar Monsenhor Montini”4

João XXIII, ao contrário, no dia 4 de novembro de 1958, um pouco antes da cerimônia da sua coroação, escreveu um bilhete para Monsenhor Montini afim de anunciar que esta dignidade lhe seria brevemente conferida5, e sete anos mais tarde, no seu leito de morte, disse: “Meu sucessor será o Cardeal Montini”.  Continuar lendo

A CRISE DA DEMOCRACIA

Resultado de imagem para democraciaNum interessante inquérito promovido pelas revistas norte-americanas U.S. News and World Report, e publicado com grande destaque pelo O GLOBO, desde os dias 18 e 19 do corrente, vem sendo abordado problema da crise, do malogro ou do futuro da “democracia”. Numerosos intelectuais norte-americanos e ingleses, de alto prestígio, como: Professor Samuel P. Huntington — Cientista Político, Professor Charles Frankel — Filósofo, Professor Robert L. Heilbroner — Economista, Professor Max Beloff — Cientista Político, Professor William H. McNeill — Historiador, Professor Michael J. Crozier — Sociólogo, Professor Friedrich A. Hayek — Economista e Professor René Dubos. Cientistas, trouxeram sua contribuição ao debate que, para esses intelectuais, parece assentado em claros postulados aceitos por todos e motivado por mais uma inquietação do mundo moderno, ou pelo menos, do ocidente moderno.

Em primeiro lugar observo que o termo “democracia” sempre demarcado com o artigo “a” que reforça sua determinação designa um conceito quase tão claro e tão unívoco como o de “quadrado”. Ora, desde aqui me parece que esse inquérito aceita, sem sinais de relutância, todos os movediços equívocos que formam a atmosfera cultural de nosso tempo.

Efetivamente, o termo “democracia”, no tumulto provocado por guerras, revoluções, reformas de coisas irreformáveis e mise en question de todos os princípios morais e religiosos, o termo “democracia”, embora pretenda ter permanecido imóvel no mercado das idéias baratas, sofreu deslocamentos semânticos denunciados pelos adjetivos que lhe são anexados: democracia-liberal, democracia-cristã, democracia-popular etc. Mas também sofreu deslocamentos metafísicos mais profundos e mais perturbadores. Na sua primeira e clássica acepção o termo “democracia” significava forma de governo caracterizada pela mais ampla participação do povo — como “monarquia” significava forma de governo de mais concentrada autoridade. No processo revolucionário que, nos últimos quatro séculos, corre nos subterrâneos da História, o termo “democracia” passou a significar uma filosofia de vida, e não apenas uma especial forma de governo. Seria melhor dizer que passou a ser um humanismo, que pretende marcar os eixos essenciais de uma nova civilização que deixara de ser essencialmente cristã, mas ainda tolera ou respeita o cristianismo subsistente como uma opção individual.
Continuar lendo

ESPECIAIS DO BLOG: CATECISMO ANTI-COMUNISTA

Resultado de imagem para ANTICOMUNISMOEm mais um Arquivo Memória de nosso blog, publicamos abaixo os links para o Catecismo Anticomunista, escrito por D. Geraldo de Proença Sigaud.

Nesses posts vemos todos os pontos referentes à essa doutrina diabólica e verificamos a total incompatibilidade dela com a Doutrina Católica.

(O que é o comunismo e o que ele ensina; Atitudes do comunismo perante a religião; Pontos básicos da divergência entre comunismo e catolicismo; A essência do homem é ser trabalhador)

(A revolução e a cristandade; Virtudes que fundamentam a cristandade e paixões que movem a revolução; O proletário é o único homem ideal, segundo o comunismo; A luta de classes; A propriedade, a vida humana e a escravidão do operariado; O papel de satanás; A violência e a liberdade; O materialismo do ocidente prepara o caminho do comunismo; A igreja e os operários)

(O socialismo; A conquista do povo — as elites e a massa; Os pontos mais visados; a reforma agrária; O ideal do comunismo: a sociedade sem classes; o igualitarismo)

O VOTO É OBRIGATÓRIO DO PONTO DE VISTA MORAL?

Resultado de imagem para votoFonte: SSPX USA – Tradução gentilmente cedida pelo nosso amigo Helton Barbosa

É bem verdade que os modernistas consideram a democracia e o direito ao voto uma sacrossanta e imediata consequência da dignidade humana diretamente conectada à sua religião humanista.

Reagindo contra isso, sabedores que somos de quão injusto é o sistema eleitoral, percebendo o quanto a moderna democracia tem como base um falso princípio liberal de liberdade humana, o qual rejeita toda intenção divina e lei moral, conscientes da estreita margem de escolha entre candidatos e também tendo a impressão (embora errada) que o voto de somente uma pessoa não fará uma real diferença em um sistema tão secularizado e inimigo de Deus – podemos facilmente concluir que uma pessoa não é obrigada de todo a votar.

Ainda assim o ensino da Igreja sobre este assunto não é de modo algum novo. Não aprovando o sistema moderno de democracia e seu falso princípio de soberania popular a Igreja, contudo, nos delega o contribuir para o bem comum da sociedade por meio de uma obrigatoriedade legalmente instituída. Este é um princípio bem expressado pelo Papa Pio XII em seu discurso de 20 de abril de 1946 à Ação Católica Italiana:

“O povo é convocado para tomar sempre considerável parte na vida pública de uma nação. Essa obrigação traz consigo graves responsabilidades. Daí a necessidade dos fiéis terem um claro, sólido e preciso conhecimento das suas responsabilidades no âmbito moral e religioso no que diz respeito ao exercício de seus direitos civis e em particular o direito de voto.”

De fato, o Papa Pio XII havia explicado de maneira clara que isso é devido exatamente ao espírito secular e anti-católico que cercam os católicos que estes têm o dever de defender a Igreja através do correto exercício do direito de voto com a finalidade de impedir um mal ainda maior. Ele havia declarado no dia 16 de março de 1946 aos padres paroquiais de Roma: Continuar lendo

A DEMOCRACIA NOS COAGE

Resultado de imagem para democraciaOS DIREITOS E AS OBRIGAÇÕES

Os defensores dos “direitos humanos” entendem, por estas palavras, dois tipos de valores que buscam defender: ora a expressão se refere a problemas de alegadas “torturas” em prisioneiros que eles chamam “políticos” — e nesse caso trata-se de uma campanha que só começou a existir no mundo a partir da derrubada de governos esquerdistas na América Latina — ora dos que se arvoram em defensores dos “direitos humanos” se referem a requisitos “democráticos” da organização social, requisitos esses nascidos das concepções iluministas do século XVIII e que misturam atributos de ordem natural com pretensos direitos de uma lógica materialista presente no humanismo desde a Renascença.

É curioso notar que as grandes ordenações jurídicas do passado da humanidade, desde o Código de Hamurabi, as leis gregas e até as codificações do Direito Romano, sempre se exprimiram antes em termos de mandamentos, proibições ou obrigações quando regulavam a vida dos homens em sociedade; raramente falavam em direitos. Mais nítida ainda se vê que esta é a maneira adequada de encarar a lei ou regra de convivência social, nos mandamentos da lei de Deus, revelada aos antigos hebreus e confirmada nos Evangelhos. Em termos de lei natural, tratadistas católicos modernos, que não puderem furtar-se a influências nefastas do neo-paganismo de nossos dias, costumam conceder que a “pessoa humana”, como eles dizem, tem o direito à vida, aos meios de subsistência condigna etc., maneira de falar que soaria curiosa e estranha a qualquer pensador católico antes do final do século XIV, os quais diriam antes que viver é um atributo da natureza humana, comum aos outros seres vivos e que no caso especial do homem esse atributo, por causa da ordem estabelecida por Deus deve ser obrigatoriamente respeitado, salvo quando em certas situações o dever de respeitar a vida própria impõe a eliminação da vida de um agressor injusto, por exemplo. Também diriam os antigos pensadores católicos que o homem tem por imperativo de sua natureza, o instinto, comum ao dos animais, de procurar sua subsistência e que necessita de um patrimônio que o ajude nisso, cabendo aos demais respeitarem essa necessidade e esse patrimônio mas não formulariam tal atributo ou tal imperativo em termos de um “direito” no sentido que a expressão ganhou, direito que, como perguntou com razão o Prof. Gudin, não se sabe em que guichê ou repartição poderia ser objeto de cobrança individual.

Há, em torno dessas concepções “humanísticas” que começaram no século XVI, uma gradual mudança de acento tônico nos termos dessa relação social que é a norma da lei. Onde a ênfase natural dos antigos recaia sobre o termo “ligado” pela lei, isto é, aquele sobre quem a lei impera, de quem se quer um determinado comportamento em conformidade com determinada ordem, as concepções que se foram estabelecendo a partir da revolução humanística passaram a emprestar maior atenção e seu principal acento ao outro termo, o termo, digamos beneficiário daquelas obrigações, isto é, os que simplesmente deveriam receber os efeitos da boa ordenação social. Estes passam a ser objeto principal da ênfase e, assim passam a ser titulares de “direitos”. Onde antes imperava a noção de norma, de ordenação, de lei, passará gradualmente a imperar a idéia de reivindicação, de insurreição sob o pretexto de direitos desatendidos, de rebeldia. Não é de espantar que, em conseqüência, os homens se tenham tornado “ingovernáveis” como disse profeticamente, em meados do século passado, o grande pensador espanhol Donoso Cortês. Continuar lendo

ROMA, O QUE FIZESTE DO MARTÍRIO DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO?

Meus caríssimos irmãos,

Eis-nos outra vez reunidos sob o patrocínio de São Pedro e São Paulo, mártires. Como não lançar nossos olhares, pelo pensamento, pelo coração, para Roma? Roma que este Papa e o apóstolo São Paulo regaram com o seu sangue, acompanhados de tantos e tantos mártires. Foi também com emoção que lemos esta manhã as lições do Papa São Leão, que se dirigia assim à Cidade Eterna: 

“Ó Roma, quæ eras magistra erroris facta est discípula veritatis – Ó Roma, tu que eras mestra do erro, que ensinaste o erro, eis que te fizeste serva da Verdade”. 

Que bela palavra: serva da Verdade! E ele acrescentava que esta cidade de Roma reunia todos os erros de todas as nações: Omnium gentium serviebat erroribus

Roma parecia estar a serviço dos erros de todas as nações. Acolhendo todas as divindades, Roma julgava, diz ainda São Leão, que tinha uma grande religião, magnam religionem, porque, precisamente, ela reunia todos os erros, todas as religiões, em seu seio.

Estas palavras de São Leão descrevendo a Roma pagã, a Roma antiga, faz-nos refletir hoje.

Qual é, atualmente, a situação de Roma? O que pensa de nós, reunidos aqui para realizar, assistir ou participar destas ordenações sacerdotais?

Podemos sabê-lo lendo o livro do Cardeal Ratzinger que acaba de ser lançado  e que fala de nós.

O que diz ele de nós? Diz que é espantoso que a Fraternidade Sacerdotal São Pio X seja tão ligada aos papas anteriores ao Concílio – o que para nós é verdadeiramente um testemunho que nos alegra – e que façamos tão grandes reservas aos papas que se seguiram ao Concílio. Se são tão ligados ao papado, porque, espanta-se ele, fazer distinção entre os papas? Continuar lendo

O ACORDO ROMA-MOSCOU

O artigo seguinte trata de uma das páginas mais tristes de nossa história, o acordo Roma-Moscou firmado em 1962. Ele nos ajuda a compreender o porquê do Vaticano ter se calado sobre o comunismo no Concílio, bem como as origens da atual política de simpatia por políticos e personalidades de esquerda. 

Revelado inicialmente pela imprensa comunista, foi confirmado posteriormente por publicações progressistas e comentado no periódico católico “Itinéraires”. Mas ninguém leu, ou se leu, não acreditou, ou se acreditou, deu ao acordo uma interpretação complacente que não mais se pode manter.

**************************

Jean Madiran

A negociação secreta entre a Santa Sé e o Kremlin efetivamente realizou-se. Concluiu-se realmente o acordo. Roma comprometeu-se de verdade. Tudo mostra que o pacto continua em vigor, embora não seja de ontem mas de anteontem. Ele é de 1962. Há 22 anos a atitude mundial da Igreja Católica em face do comunismo está subordinada às promessas feitas aos negociadores soviéticos.

Não revelo segredo algum. Relembro o que todos deviam saber, mas esqueceram, ou jamais souberam ou fingem ignorar. No entanto, publicaram-se, em 1962, três coisas na imprensa comunista e na católica: 1) a existência da negociação; 2) a conclusão do acordo; 3) as promessas feitas pela Santa Sé. O essencial foi dito, escrito, impresso sob completa desatenção. Os comentadores mais bem informados baixaram os olhos pudicamente. Não se registrou nenhum comentário pormenorizado, salvo em “Itinéraires”. Admitindo-se que, na época, a distração, real ou fictícia, foi universal, hoje a ignorância é completa. De sorte que, resumindo o assunto em algumas dezenas de linhas em “Présent” de 30 de dezembro de 1983, provoquei a estupefação dos mais experimentados na matéria e topei freqüentemente com uma incredulidade desdenhosa ou indignada. Era esse o meu resumo: “João XXIII comprometeu-se com o negociador soviético — que era Mons. Nicodemo — a não atacar o povo nem o REGIME da Rússia. Isso era para que Moscou permitisse que os observadores ortodoxos russos comparecessem ao Concílio. Desde então a Santa Sé considera-se ligada pelos compromissos de João XXIII. Já não se nomeia o comunismo em nenhum documento pontifício”. Diante dessas linhas, as pessoas reagiram como se jamais tivessem ouvido falar dessa negociação e dessa promessa. Continuar lendo

NÃO É ESTA A HORA DE JESUS?

Fonte: FSSPX México – Tradução: Dominus Est

Lembram-se, amigos, quando à cabeça da Igreja havia um papa como o Venerável Pio XII? Ou um Padre Pio que nos trazia a certeza de ver Cristo vivo nele? Hoje, não há mais nada. A quem olhamos? A quem vamos? Não seria este o momento perfeito para a hora de Jesus?

Uma Babel como a atual no mundo e na Igreja nunca tinha sido vista antes. Autoridades da Igreja que se calam diante de legisladores que legalizam até aquilo que os antigos se envergonhavam; que propõem instituir “diaconisas”; os melhores católicos muitas vezes “amordaçados”; muitos anticlericais e sem Deus sendo apresentados como modelos… e outras amenidades.

Sacerdotes e Bispos que reduziram sua pregação pouco menos do que a educação cívica; o Credo católico e a Moral abalados por um documento que se chama Amoris laetitia, mas isso deve ser chamado de “Amoris malitia”. Tudo isso e mais ainda deixa as pessoas ainda honestas e amigas da Verdade sem palavras, aterrorizadas, alucinadas.

Sabemos que há reuniões de padres que competem para ver quem diz mais bobagens. Diante de todos, o vazio das igrejas e dos seminários, causado por pelo menos três gerações, abandonadas sem verdadeira catequese. Culpa-se a secularização, o declínio dos nascimentos, como se os homens da Igreja não tivessem a culpa quando, durante mais de 50 anos, mudaram a religião e hoje temos um pastor que não sabe mais quem ele é. As pessoas, que acreditam ou não acreditam, dizem uma só coisa: “Não há nada, tudo foi demolido, não há certezas ou pontos de referência. Não há guias, não há chefes: não há diretrizes de marcha, em uma palavra, não há mais nada”. Continuar lendo

OS PECADOS QUE CLAMAM VINGANÇA AO CÉU

Distrito do México – Tradução: Dominus Est

ALERTA! Há pecados que clamam ao céu!… e são punidos neste mundo. Veremos a seguir o que são e qual o comportamento de um verdadeiro discípulo de Cristo.

“Jesus Cristo é sempre o mesmo: ontem, hoje e por toda a eternidade. Não vos deixeis desviar pela diversidade de doutrinas estranhas. É muito melhor fortificar a alma pela graça do que por alimentos que nenhum proveito trazem aos que a eles se entregam” (Hb 13,8).

Todo homem quer ser feliz e viver em paz. Vive em paz aquele que segue a ordem que Deus colocou no mundo e obedece às leis que regem o mundo para que tudo funcione harmoniosamente. A lei natural é obra de Deus, consiste em fazer o bem e evitar o mal. O bêbado, por não obedecer à lei do seu corpo, com o tempo destrói seu fígado e morre. O motorista que não obedece à lei do trânsito em uma curva perigosa, pode acidentar-se e morrer. Deus criou o homem com inteligência e livre arbítrio. O mau uso da liberdade produz o pecado, e o pecado é a causa de nossos problemas. Hoje, a filosofia liberal subjetivista, fruto do livre exame protestante e maçônico, não leva em consideração as leis da natureza. Os homens que perderam a fé cristã católica, pensam que têm o poder e o direito de transtornar as leis da natureza das coisas; eles pensam que a realidade humana deve obedecer suas ideias, mesmo que sejam falsas. Isso faz com que a sociedade passe a ter sérios problemas. A causa de nossos problemas é o pecado; o remédio é seguir a lei de Cristo e respeitar a lei natural.

O que é o pecado?

O pecado é uma desobediência voluntária à lei de Deus. Existem dois tipos de pecado: pecado grave e pecado leve. O pecado grave é chamado de mortal, o pecado leve é chamado venial. O pecado mortal separa o homem de Deus e o entrega ao poder do demônio; abre diante dele a porta do inferno eterno. O pecado mortal coloca o homem numa situação anormal, destrói a graça santificante e a caridade, e expulsa o Espírito Santo da alma. Se uma pessoa morre em pecado mortal, sem confissão e sem arrependimento sincero, ela cairá no inferno, que é um lugar de fogo e sofrimento eterno. Há três condições para que um pecado seja mortal: matéria grave, plena advertência de que um pecado é grave e pleno consentimento. Isso significa que eu sei que o mal que quero fazer é algo grave, e mesmo assim, quero fazê-lo ou dou o meu consentimento. Por exemplo, matar, fornicar, adulterar, embriagar-se. Continuar lendo

NA ‘MISSA NOVA’, O SANTO SACRIFÍCIO SE TORNOU A LITURGIA DOS SALVOS

Este capítulo demonstrará que a perspectiva panteísta fornece uma explicação global e coerente às inovações litúrgicas do concílio Vaticano II. Com razão, alguns não deixarão assim de levantar a questão da influência protestante sobre o Vaticano II, mais que visível, aliás, na missa nova. Seríamos os últimos a querer negá-la ou minimizá-la. Porém devemos ver nela a origem última da subversão religiosa? O protestantismo não é ele próprio o vetor de outras influências, que só se revelam progressivamente no desenrolar da história? Ele não é apenas uma etapa na subversão espiritual.

Não buscaremos evidenciar aqui a filiação histórica entre gnósticos, maniqueus, cátaros, albigenses, humanistas, cabalistas, Rosa-Cruzes e maçons, de um lado, e protestantes, do outro. Somente esta enumeração demonstra a extensão das pesquisas a serem conduzidas a termo. Não se pode negar que todos[1] estes movimentos são anteriores à Reforma e não podem provir dela. A influência destas correntes anti-católicas sobre a origem da Reforma, uma semelhança espiritual frequentemente muito profunda com o protestantismo (que este capítulo evidenciará implicitamente) e a convergência dos herdeiros de todas estas forças durante o concílio Vaticano II estabelecem naturalmente um vasto problema. Não tomaremos a iniciativa de resolvê-lo aqui, mencionando somente que ele conduz a conclusões muito perturbadoras sobre a origem do protestantismo e, portanto, do ecumenismo e do Vaticano II.

A proximidade, não mais histórica, mas intelectual, entre os movimentos gnósticos e o protestantismo exige, não obstante, um esclarecimento rápido[2]. Por que tantos elementos do concílio Vaticano II podem ser interpretados tanto em uma perspectiva holística, gnóstica e maçônica, quanto em um âmbito protestante? Por que o ecumenismo, a colegialidade, a liberdade religiosa, a missa nova, a confusão entre a natureza e a graça, figuram naturalmente nestes dois sistemas de interpretação? Devemos resumir aqui umas considerações que mereceriam desenvolvimentos mais amplos. A doutrina maçônica, que é também aquela do Vaticano II, confunde a natureza e a graça, divinizando a natureza. “Esta natureza foi elevada em nós a uma dignidade incomparável. Pois, por sua encarnação, o Filho de Deus se uniu de algum modo a todo homem“. Por sua vez, Lutero confundia a natureza e a graça, destruindo a natureza para deixar subsistir somente Deus: o pecado original, que o batismo não apaga, corrompeu radicalmente o homem. A natureza estando irremediavelmente ferida, não pode o homem fazer nenhum esforço moral. Toda a nossa santificação é obra somente de Deus, e não podemos de modo algum colaborar com ela. Assim os eleitos são justificados somente pela graça de Deus, que lhes imputa a justiça de Cristo, revestindo-os como por um manto de seus méritos. Chega-se assim ao panteísmo por duas vias opostas: seja exaltando e divinizando o homem, seja o rebaixando até  à aniquilação.

Todavia, resta mencionar que, apesar de todas estas semelhanças profundas, o protestantismo não pode por si só justificar a doutrina do Vaticano II: a confusão entre o Criador e a criatura, a salvação universal, a salvação cósmica, a unidade do gênero humano, nossa graça natural e a dignidade humana só podem ser explicadas no âmbito do pensamento holístico. O livre exame protestante só tomará sua amplitude com a doutrina conciliar e gnóstica da revelação interior. Assim, a Reforma aparece como uma simples etapa na transmutação alquímica da cristandade que culminou no concílio Vaticano II. Continuar lendo

BENTO XVI É ACUSADO DE PROPAGAR HERESIAS

Fonte: La Porte Latine – Tradução: Dominus Est

Após as acusações lançadas contra Francisco, que pervertem o Magistério através de pelo menos sete heresias formais, nada menos que dois textos acusam, por sua vez, o teólogo Ratzinger, então Papa Bento XVI, de desvios heréticos evidentes.

O primeiro ataque levantado nos últimos dias contra o teólogo Ratzinger se encontra no livro “Au cœur de Ratzinger, au cœur du monde” (No coração de Ratzinger, no coração do mundo)“, que acaba de ser lançado na imprensa com a assinatura de Enrico Maria Radaelli. O autor é conhecido como o mais fiel discípulo de Romano Amerio (1905-1997), o filósofo suíço que, em 1985, publicou “ Iota Unum“, a acusação mais sistemática e bem argumentada contra a Igreja Católica da segunda metade do século XX, na qual acusa de haverem subvertido os fundamentos da doutrina em nome do subjetivismo moderno. 

O livro de Radaelli acaba de ser publicado pela Aurea Domus, editora de propriedade do mesmo autor, que pode ser comprado por e-mail e também em algumas livrarias em Roma e Milão. 

O que fez com que Radaelli culpasse igualmente a teologia de Ratzinger de ser subversiva foi a leitura e análise de seu trabalho teológico mais conhecido e mais amplamente lido: “Einführung in das Christentum ” (Introdução ao Cristianismo) [publicado em francês sob o título “A fé cristã ontem e hoje]. Publicado pela primeira vez em 1968 antes de ser reeditado dezenas de vezes e traduzido para várias línguas até hoje. 

O segundo, ainda mais frontal – pelo menos no título – é um texto que apoia o livro de RadaelliÉ intitulado ” “L’eresia al potere” (A heresia no poder) e provém de um dos teólogos e filósofos mais renomados, Dom Antonio Livi, Decano Emérito da Faculdade de Filosofia da Pontifícia Universidade Lateranense, Acadêmico Pontifício e Presidente da Associação Internacional de Ciências e Comunicações. 

Na verdade, segundo Mons. Livi, Ratzinger e sua teologia contribuíram significativamente para o surgimento do que chama de “ a teologia modernista e seus desvios heréticos evidentes“, que se tornou cada vez mais hegemônica nos seminários, ateneus pontificais, nas comissões doutrinais, nos dicastérios da Cúria, bem como os níveis mais altos da hierarquia, até o papado. 

Disso resulta que hoje, Francisco não é o único papa a ser alvo de uma “correção” por heresia, pois até mesmo seu antecessor emérito não está salvo. 

Radaelli e Livi figuram entre os primeiros signatários dacorrectiodirigida ao Papa Francisco no verão passado. E hoje igualmente contra Bento XVI. 

*****************************

Nota do Blog: um livro excelente para que se entenda certas acusações e circunstâncias é “Do Liberalismo à Apostasia“, de Mons. Marcel Lefebvre, que pode ser lido clicando aqui.

NOVA PÁGINA DO BLOG – PALESTRAS FSSPX: DVDs À VENDA

Resultado de imagem para fsspx

Prezados amigos, leitores e benfeitores, louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.

Criamos uma página exclusiva aqui no blog para venda dos DVDs das palestras proferidas pelos padres do Priorado da FSSPX em Santa Maria.

blo

Sempre que tivermos novidades nos títulos e mas quantidade disponíveis  essa página será atualizada.

É uma grande oportunidade para instrução/formação pessoal e também conhecimento do trabalho da FSSPX.

Nesse mar de heresias e ambiguidades pós-conciliares, nada melhor que o porto seguro da verdadeira Doutrina Católica.

A IGREJA DO VATICANO II E MARTINHO LUTERO

Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa

É perfeitamente compreensível que haja tantos católicos da tradição chocados com as comemorações do 5º centenário da Revolução Luterana. De fato, é doloroso ver o Vigário de Cristo na Terra, o sucessor de Pedro, encabeçando e incentivando um ditirambo do asqueroso heresiarca.

A mim, pessoalmente, já beirando os 56 anos  de idade e tendo vivido cenas semelhantes nos tempos de João Paulo II, não me causa tanta surpresa ver a hierarquia empolgada com tudo isso. O que me causa mais revolta é ver nossas antigas igrejas, aquelas joias do gótico e do barroco, lugares sagrados e abençoados, ricos de tanto significado para os verdadeiros católicos, abrigando as orgias ecumênicas promovidas por hereges modernistas e luteranos mancomunados na perseguição contra os católicos, como se viu na expulsão de jovens belgas que rezavam o Rosário em desagravo contra a profanação de uma catedral sequestrada para uma esdrúxula cerimônia ecumênica  modernista-luterana.

Entretanto, é preciso dizer que é igualmente compreensível que a Igreja do Vaticano II celebre o 5º centenário da obra nefasta de Martinho Lutero. Afinal, sem Lutero e sua revolução, com todas as suas consequências, não se explica o Vaticano II, seus vários documentos e as múltiplas reformas que dele emanaram.

Com efeito, a nova eclesiologia conciliar (em contradição com a Satis Cognitum de Leão XIII e a Mystici Corporis de Pio XII), tal como está exposta na Lumen Gentium, com a famosa expressão “a Igreja de Cristo subsiste na Igreja Católica”, é de origem protestante. Está provado e documentado que essa horrível expressão, que tem o único objetivo de empanar  a perfeita identidade da Igreja de Cristo com a Igreja Católica, foi introduzida pelo Dr. Ratzinger, por sugestão de um pastor protestante.

Recorde-se, outrossim, a história da desastrada reforma litúrgica. O escritor Jean Guiton, amigo de Paulo VI, declarou que Paulo VI lhe disse que tinha a intenção de fazer uma reforma litúrgica que abolisse todos os elementos que eram do desagrado dos “irmãos separados”. Por isso mesmo, após o concílio convidou “peritos” protestantes para participar da comissão encarregada da  reforma do missal romano. Disto resultou uma liturgia ambivalente. E hoje não há ninguém com um mínimo de juízo crítico que não reconheça que a missa moderna, como celebrada na maioria das paróquias e tão apreciada pelos católicos renovados, não parece um arremedo do culto protestante. Continuar lendo

AS DIFERENTES POSIÇÕES DO CATÓLICOS NO PÓS-CONCÍLIO

Devido ao grande número de questionamentos que recebemos – desde pessoas que querem, humildemente, entender a posição da FSSPX e crise de fé que abala a Igreja até alguns “grandes sábios de redes sociais” que nos acusam de coisas que, além de nos causar grandes risadas, mostram nitidamente que não entendem nada sobre a Tradição, relinchando jargões já refutados há décadas – republicamos um texto da década de 80, escrito pelos até então “Padres Tradicionalistas de Campos” e que permanece atual, para que cada um, de uma maneira simples, analise sua posição de católicos nessa crise pós conciliar.

AS VÁRIAS POSIÇÕES TOMADAS NA CRISE ATUAL

frame-crise-na-igreja1) PROGRESSISMOse subdivide em diversas categorias:

a) Obediência cega: aqueles que não admitem resistência às autoridades. É a posição mais cômoda na crise atual. Tem vários graus. Há até aqueles que dizem: “Prefiro errar com o Papa a acertar sem ele”“Se o Papa fosse para o inferno eu iria junto”. Peca por excesso: chama-se subserviência. Destes tais dizia São Bernardo: “Aquele que faz o mal, sob o pretexto de obediência, faz antes um ato de rebeldia do que de obediência”.

b) Ultra-progressismo: são aqueles que, seguindo os princípios do Concílio Vaticano II, são mais lógicos e vão até às últimas conseqüências, sendo mais avançados do que as próprias autoridades auto-demolidoras da Igreja, não respeitando os freios que estas, por receio de escândalo, tentam impor. São os que, por exemplo, promovem os cultos afros, na linha da inculturação preconizada por João Paulo II; são os que pregam o ecumenismo total, na linha do encontro ecumênico de Assis; são os que apóiam as invasões de terra e o socialismo, na linha da teologia da libertação, etc.

c) Oficialismo: é a posição daqueles que, talvez pelo receio de serem chamados cismáticos, procuram tranqüilizar a própria consciência dizendo que seguem as autoridades oficiais da Igreja, mesmo quando favorecem à autodemolição. É a tentação da oficialidade, que reconhecemos ser bastante forte e sedutora, como se viu na Paixão de Jesus, quando a grande maioria do povo preferiu ficar do lado das autoridades religiosas oficiais que condenavam injustamente a Jesus, que ficou com poucos amigos fiéis.

Os que defendem tal posição teriam ficado com Aarão, sumo sacerdote oficial escolhido por Deus, que levou o povo a adorar o bezerro de ouro; teriam ficado com Caifás, sumo sacerdote oficial, que condenou a Jesus, teriam ficado com o Papa Libério, que favoreceu ao semi-arianismo e excomungou Santo Atanásio; teriam ficado com o Papa Honório que foi anatematizado pela Igreja, após sua morte, por ter também favorecido à heresia.

d) Conservadorismo: são os tidos como “conservadores”, querem conservar os ritos antigos, sem resistir aos novos ritos e às novas doutrinas instaladas na Igreja. Subdividem-se em:

Bi-ritualismo, “ralliés”: São os que gostariam de conservar a Tradição (Liturgia tradicional) ao mesmo tempo que a obediência às autoridades atuais e aos seus princípios, sobretudo aos princípios inovadores do Concílio Vaticano II, aceitando a legitimidade e exatidão doutrinária do Novus Ordo. Calam-se sobre pontos da doutrina tradicional, como preço pago a serem reconhecidos na Igreja hoje. Neste grupo se incluem o Barroux, a Fraternidade São Pedro, o Instituto Cristo Rei. São os que pleiteiam a “missa do indulto” e o bi-ritualismo, isto é, a legitimidade dos dois ritos, o da Missa tradicional e o da Missa nova.

“Sirismo”: Posição do Cardeal Siri, e dos que se assemelham a ele: “Mesmo que Paulo VI seja um papa pouco ortodoxo, é preciso se submeter a ele. … A nova missa é um castigo de Deus para os padres que celebravam mal a missa antes do Concílio” (Card. Siri). Esta posição consiste em aceitar as novidades da autodemolição por espírito de submissão e sofrer com isso. Obedecer e sofrer. Posição muito espalhada também.

2) SEDEVACANTISMO (de várias gamas: desde os mais extremistas até aos mais moderados): baseia-se no mesmo princípio equivocado anterior de não admitir resistência às autoridades. Levados, talvez, até pelo zelo da ortodoxia na Igreja e não podendo conceber que as autoridades favoreçam à heresia, classificam esses desvios doutrinários como heresias formais e concluem que perderam os seus cargos. Os mais extremistas acham que se deva eleger outro Papa e organizar outra hierarquia. Outros acham que a Igreja visível acabou (=heresia!). Alguns acham que a Igreja está sem Papa desde Pio XII. Dividem-se, porém, sobre a causa exata e a data em que tal coisa aconteceu.

3) CISMÁTICOS (recentes)São aqueles que acham que a Igreja atual falhou, separaram-se dela e elegeram um outro Papa. Assim são, por exemplo, os seguidores da igreja de Palmar de Troya, na Espanha e do movimento de Santa Jovita, no Canadá.

4) NOSSA POSIÇÃO NESSA CRISE: Nós, padres de Campos que formamos a União Sacerdotal São João Batista Maria Vianney, (FSSPX) somos católicos apostólicos romanos. Não somos “lefebvristas”, porque não existe, nem nunca existiu “lefebvrismo”, porquanto Dom Marcel Lefebvre não tinha doutrina própria nem formou uma hierarquia própria. Não somos “tradicionalistas”, no sentido de que “tradicionalismo” identifica um partido na Igreja. Somos fiéis à Tradição da Igreja como todo católico sempre foi e sempre deverá ser. Nem cismáticos, nem excomungados como nos acusam, a fim de impressionar a imaginação coletiva e formar um vazio ao nosso redor.

Esta é a também a posição de Dom Marcel Lefebvre, Dom Antônio de Castro Mayer, Fraternidade São Pio X, e dos fiéis em geral ligados à Tradição.

Fonte: Católicos Apostólicos Romanos – Nossa posição, na atual crise da Igreja – Livreto editado pelos “Padres Tradicionalistas de Campos”, antes do acordo com Roma

Publicado originalmente em dez/2015

A VERDADE DA IGREJA SOBRE A DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E A LIBERDADE

Eis aqui algumas palavras de Mons. Marcel Lefebvre, fundador da FSSPX, sobre algumas verdades da Igreja que incomodam tanto a protestantes como aqueles católicos imbuídos de liberalismo.

Fonte: FSSPX México – Tradução: Dominus Est 

Evidentemente a Verdade da Igreja tem consequências que incomodam os protestantes e também alguns católicos imbuídos de liberalismo. A partir de agora, o novo dogma que ocupará o lugar que correspondia à Verdade da Igreja será o da dignidade da pessoa humana, juntamente com o bem supremo da liberdade: duas noções que se evita definir claramente. Disso resulta que, segundo nossos inovadores, a liberdade de expressar publicamente a religião da própria consciência torna-se um direito estrito de toda pessoa humana e que ninguém no mundo pode proibir. Pouco importa se se trata de uma religião verdadeira ou falsa, ou se promove virtudes ou vícios. O único limite será um bem comum que zelosamente se recusam a definir!

Dessa forma, deverá rever os acordos entre o Vaticano e as nações que, de outra parte, outorgam, com razão, uma situação preferencial à religião católica. O Estado deveria ser neutro em matéria de religião e assim deverá rever muitas constituições de Estado, e não apenas nas nações católicas. Não ocorreu a estes novos legisladores da natureza humana que o Papa também é um chefe de Estado? Irão também convidá-lo a secularizar o Vaticano? Consequência disso seria que os católicos perderiam o direito de agir para estabelecer ou restabelecer um Estado Católico. Seu dever consistiria em manter o indiferentismo religioso do Estado.

Recordando Gregorio XVI, Pio IX qualificou essa atitude de delírio e, mais ainda, de “liberdade de perdição.” (1) Leão XIII abordou o tema em sua admirável Encíclica Libertas. Tudo o que era adequado para sua época, mas não para 1964! Continuar lendo

ANÁLISE DA “NOVA RELIGIÃO”

Resultado de imagem para garrigou lagrangeO título destas páginas, tiradas da obra de Garrigou-Lagrange, é de nossa autoria. Julgamos que, embora escritas em 1928, permanecem impressionantes por sua atualidade e vigor.
A mortificação, assim como a humildade, estabelecidas de um modo permanente na vida religiosa pela prática dos três conselhos evangélicos de pobreza, castidade e obediência, são coisas tão contrárias ao espírito mundano que este se esforçará sempre por negar-lhes a necessidade. O naturalismo prático sempre renascente sob uma outra  forma — que se chame “americanismo” quer “modernismo” — deprecia sempre a mortificação  e com ela os votos religiosos nos quais pretende ver não um nascimento para uma vida nova mas um entrave ao bem que cada um deve fazer em torno de si.
 
Por que, dizem, falar tanto em mortificação se o Cristianismo é uma doutrina de vida? Ou tanto de renúncia se o Cristianismo deve assimilar toda atividade humana em lugar de destruí-las? Ou falar tanto de obediência se o Evangelho é uma doutrina de libertação? Tais virtudes passivas não têm maior importância senão para espíritos negativos, incapazes de empreender qualquer coisa e que não têm senão a força da inércia.
 
Por que, acrescentam, depreciar nossa atividade natural? Nossa natureza não é boa? Não vem de Deus? Não se inclina a amar seu Autor mais do que a si mesma e acima de tudo? Nossas paixões ou emoções, isto é, os diversos movimentos de nossa sensibilidade, desejo ou aversão, alegria ou tristeza, etc., não são, do ponto de vista moral, nem boas nem más, só se tornam boas ou más conforme a intenção de nossa vontade que consente nelas, desperta-as, modera-as ou não as modera. E então não há que mortifica-las, cumpre apenas regula-las, são forças a utilizar, não a destruir. Não é este o ensinamento de Santo Tomás, tão diferente, acrescentam, do de tantos outros autores espirituais, notadamente do autor da “Imitação” 1.III,c.54, onde ele trata “dos diversos movimentos da natureza e da graça” em termos tais que fazem pensar naqueles que usarão mais tarde os jansenistas?
 
Por que, continua o naturalismo prático a dizer, combater tanto o julgamento próprio, a vontade própria? É lançar-nos no escrúpulo e pôr-nos em estado de servidão que destrói toda espontaneidade.
Porque condenar a vida do mundo, uma vez que é no mundo que a Providência nos colocou não para o combater mas para melhora-lo? O valor da vida religiosa se mede por sua influência social e para exercer esta influência ela não deve ser coibida por estas preocupações excessivas de renúncia, mortificação, humildade, obediência. Ela deve, ao contrário, deixar se desenvolver ao máximo o espírito de iniciativa, todas as aspirações naturais que nos permitirão compreender as almas do nosso tempo e entrar em contato com este mundo que nós não devemos desprezar mas tornar melhor.

Continuar lendo

FILOSOFIA ECONÔMICA E NECESSIDADES DO HOMEM

A maioria dos biólogos insiste, com razão, sobre a importância da noção de necessidade como elemento determinante das condutas humanas. Não é de admirar que ela se encontre no próprio âmago dos comportamentos econômicos. A polivalência dessa noção e sua diversidade quase inesgotável tornam, contudo, a sua interpretação científica difícil. Com efeito, a necessidade é uma coisa que varia ao extremo, não somente segundo as civilizações, as sociedades e os grupos no tempo e no espaço, mas segundo os indivíduos, em cada instante da sua existência e segundo as circunstâncias em que se achem. Como apreender uma realidade tão particularizada e tão evanescente? Sabemos, com efeito, que não há ciência do individual, só o universal pode ser objeto de ciência. Não admira, portanto, que a noção de necessidade tenha sido o mais das vezes considerada pelos economistas antes como um postulado da pesquisa do que como um objeto da própria pesquisa. Fala-se constantemente da necessidade em economia e se a noção é indispensável para aclarar os fenômenos econômicos, raramente é ela própria aclarada.

Ademais, as necessidades econômicas, que são com toda evidência de ordem material, são, na sua realidade, indissociáveis das outras necessidades humanas de ordem afetiva, intelectual, espiritual, etc… Não existe homem algum sobre a terra que beba ou que coma como se fosse pura e simplesmente a sede de uma reação química.

Afinal, como medir adequadamente uma necessidade sem traí-la, sem fazer evaporar a sua substância essencialmente qualitativa? Ora, a economia moderna, como todas as outras ciências positivas, aliás, tende a tornar-se uma ciência do mensurável.

Achamo-nos pois em presença de um paradoxo epistemológico inaudito: a economia está fundada sobre uma realidade que lhe escapa. Daí por que se erigem ao redor dessa noção fundamental os mais diversos sistemas de interpretação. Desde sua origem, a ciência econômica está dilacerada entre os pólos extremos do “liberalismo” e do “coletivismo”, eles mesmos divididos, e os resultados de sua divisão constituem o objeto de inumeráveis misturas mais ou menos arbitrariamente dosadas. Podemos pois nos perguntar se a economia não está previamente submetida a uma opção inteiramente subjetiva por parte de quem trata de clarificar o seu conteúdo, sendo essa opção mais ou menos camuflada sob uma cortina de fumaça qualquer. A economia se torna assim o campo fechado de intermináveis disputas sobre as quais se enxertam as paixões individuais e sociais. Seu curso real na vida dos homens é abandonado a si mesmo ou submetido a intervenções exteriores à sua natureza por parte de quem possua um meio de poder capaz de influenciá-lo.

O objetivo desta nota é mostrar que é possível superar essa aparente contradição que faz da economia um conhecimento daquilo que ela não conhece. A nosso ver, esta possibilidade não se pode abrir ao nosso espírito senão se chegarmos a orientar para uma necessidade essencial e universal a multiplicidade incoerente e inapreensível das necessidades econômicas e outras. Ora, uma tal drenagem é espontaneamente operada pelo próprio homem, sujeito dessas necessidades diversas. Existe, com efeito, no homem, uma necessidade fundamental para a qual todas as suas outras necessidades convergem: a necessidade de ser feliz. Beatos nos omnes volumus, observava Cícero. E Pascal sublinha que “todos os homens querem ser felizes, mesmo aqueles que querem se enforcar”. A felicidade é o fim último de todas as atividades humanas, quaisquer que elas sejam, e se define como um estado no qual nada falta, em que todas as necessidades do homem estão saturadas. “Uma só coisa é necessária, escrevia com humor e profundeza Chesterton: tudo; o resto é vaidade das vaidades”. Continuar lendo

BREVE CRÔNICA DA OCUPAÇÃO NEO-MODERNISTA NA IGREJA CATÓLICA – PARTE 6

Para ler a Primeira Parte clique aqui.

Para ler a Segunda Parte clique aqui.

Para ler a Terceira Parte clique aqui.

Para ler a Quarta Parte clique aqui.

Para ler a Quinta Parte clique aqui.

AS “NOVIDADES CONCILIARES”, QUINTESSÊNCIA DA NOVA TEOLOGIA

Vamos nos debruçar aqui sobre as “novidades conciliares” em suas grandes linhas, examinando somente alguns textos do Vaticano II, a saber: Lumen Gentium nº 8; Unitatis Redintegratio c. I nº 3; Nostra Aetate;Dignitatis Humanae; Gaudium et Spes e Lumen Gentium c. III. 

Temos de deixar de lado, por razões de concisão, outros documentos importantes do Vaticano II, como por exemplo, Dei Verbum e outros acontecimentos graves decisivos, como as tratativas informais da Santa Sé, por intermédio do cardeal Bea, com os representantes do judaísmo mundial a fim de chegar a uma representação favorável ao judaísmo no documento Nostra Aetate; ou ainda a escandalosa e deliberada ausência de condenação do comunismo (por razões ecumênicas): era a condição posta pelo governo soviético para a presença de representantes do patriarcado ortodoxo de Moscou no Vaticano II como “observadores”, com o abandono da petição apresentada pelos 450 padres conciliares…

Lumen Gentium

A constituição dogmática Lumen Gentium afirma: “… a única Igreja de Cristo […], constituída e organizada neste mundo como uma comunidade subsiste na Igreja católica, governada pelo sucessor de Pedro e os bispos em comunhão com ele”.[1]

Trata-se de uma única palavra: “subsiste”, mas de uma palavra sustentada por uma questão de fé, e uma das mais graves.

A doutrina católica, na verdade, sempre identificou a única, verdadeira Igreja de Cristo com a única Igreja católica romana, excluindo a diversas seitas heréticas e cismáticas que se separaram dela ao longo dos séculos. Trata-se, em última análise, da questão mais importante na vida de cada homem, a da verdadeira religião e da verdadeira Igreja na qual poderemos encontrar a vida eterna. A voz da Tradição e dos Padres da Igreja sempre foi unânime neste assunto.

“O homem não pode se salvar senão na Igreja Católica”. Lembrava Santo Agostinho de Hipona, enquanto que “fora da Igreja Católica ele consegue tudo, menos se salvar. Ele consegue cargos, ele pode receber os sacramentos, pode cantar ‘aleluia’ e responder ‘Amem’, pode ter o Evangelho, ter fé e pregar em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, mas em nenhum lugar além da Igreja Católica ele poderá obter a salvação”[2].

O esquema da Comissão preparatória do Concílio tinha afirmado com clareza a doutrina eterna, reafirmando que “a Igreja de Cristo é a Igreja Católica”[3]. Os neo-modernistas, ao contrário, conseguiram introduzir no novo texto conciliar o “subsiste” (subsistir), abrindo assim as portas para a demolição da Igreja e a ruína eterna de todos, católicos e não-católicos, através do ecumenismo atual, que considera todas as confissões cristãs heréticas e cismáticas — “ortodoxas”, anglicanas, luteranas, etc. — como já fazendo parte, se bem que não plenamente, da única Igreja de Cristo, na qual a Igreja Católica limitar-se-ia justamente a “subsistir”, sem se identificar com ela de modo exclusivo. Continuar lendo

SINOPSE DOS ERROS IMPUTADOS AO CONCÍLIO VATICANO II

Continuamos nosso trabalho de denúncia dos erros do Concílio Vaticano II. Consideramos ser este tipo de denúncia teológica a única saída, em termos humanos, para a crise que nos atormenta já há décadas, visto que da parte das autoridades do vaticano, os erros continuam a ser ensinados e difundidos. Tanto os Congressos realizados pelo jornal Si Si No No, quanto o recentemente lançado Simpósio de Paris, que deve se repetir de ano a ano, são algumas das iniciativas que temos assistido e que nos permitem aprofundar a análise deste Concílio que, decididamente, não foi católico. Deve ser rejeitado, sim, e o será um dia pela autoridade suprema do Vigário de Cristo. Por enquanto ele ainda é a pedra de tropeço para tantas comunidades religiosas e padres que, acreditando ser possível manter a Tradição e aderir ao Concílio, aceitam acordos que sempre terminaram por inserir estes padres e fiéis no ambiente pervertido, heretizante e modernista que reina no Vaticano.   

A presente Sinopse dos Erros de Vaticano II é a tradução da versão francesa do jornal SiSiNoNo, publicada a partir do número 247, de julho-agosto de 2002.    

RECONSTRUIR A CIDADE CATÓLICA

Resultado de imagem para marcel lefebvre“Liberalismo, por tua causa estou morrendo”, diz a Igreja em sua agonia. Ela pode dizer como Jesus disse aos que vieram prendê-lo: “Esta é a vossa hora e o poder das trevas” (Lc 22, 53). A Igreja está em Getsêmani, mas não morrerá. Tem o aspecto de uma cidade ocupada pelo inimigo, mas a resistência à seita liberal se organiza e fortifica.

Vimos surgir esta seita no século XVI, da rebelião protestante, e  logo se transformar na instigadora da Revolução. Durante um século e meio de lutas sem trégua, os papas têm condenado os princípios e os pontos de aplicação do liberalismo. Apesar disso a seita  continuou seu caminho. Assistimos sua penetração na Igreja, sob a aparência de um liberalismo aceitável, com a idéia de conciliar Jesus Cristo com a Revolução. Depois contemplamos estupefatos a intriga da seita liberal para penetrar na hierarquia católica. Vimos seus progressos até atingir os mais altos postos e seu triunfo no Concílio Vaticano II. Tivemos papas liberais… O primeiro papa liberal,  aquele que ria dos “profetas da desgraça”, convocou o primeiro concílio liberal da história da Igreja. As portas do redil foram abertas e os lobos penetraram e massacraram as ovelhas. Veio um segundo papa liberal, o papa da dupla face, o papa humanista, que derrubou o altar, aboliu o Sacrifício, profanou o santuário266. Chegou finalmente o  terceiro  papa  liberal,  o  papa  dos  direitos  do  homem,  o   papa ecumenista, o papa das Religiões Unidas e que lavou as mãos e cobriu os olhos diante de tantas ruínas, para não ver as chagas sangrentas da Filha de Sion, as feridas mortais da Esposa Imaculada de Jesus Cristo.

Não me resignarei, não assistirei a agonia de minha Mãe a Santa Igreja de braços cruzados. Certamente não compartilho do otimismo beato de alguns sermões: “Vivemos uma época magnífica. O Concílio foi uma renovação extraordinária. Saudemos esta época de transformação cultural! Nossa sociedade se caracteriza pelo pluralismo religioso e pela completa liberdade ideológica. Sem dúvida este ‘avanço’ da História vem novamente acompanhado de algumas contrariedades: prática religiosa nula, contestação a toda autoridade, os cristãos em minoria. Mas vejam quantos benefícios! Os cristãos são o levedo escondido na massa, a alma da cidade pluralista em gestação, vitalmente cristã, são o motor de um mundo novo, mais fraterno, mais pacífico, mais livre!”. Continuar lendo

REMÉDIO CONTRA O LIBERALISMO: RESTAURAR TUDO EM CRISTO

Resultado de imagem para marcel lefebvrePara os grandes males, grandes remédios! O que poderá curar o câncer ou a aids na Igreja? A resposta é clara, é necessário aplicar os remédios que os Papas propuseram contra os erros modernos: a filosofia tomista, a sã teologia e o Direito que resulta de ambas. 

A Sã Filosofia, a de São Tomás de Aquino 

Para combater o subjetivismo e o racionalismo, que são a base dos erros liberais, não farei alusão às filosofias modernas infectadas precisamente de subjetivismo e racionalismo. Não é nem o sujeito, nem seus conhecimentos e nem seus anseios que a filosofia de sempre, e em particular a metafísica, toma por objeto, é o ser mesmo das coisas, é aquilo que é. Com efeito, é o ser com suas leis e princípios, o que nosso conhecimento mais espontâneo descobre. E no seu ápice a sabedoria natural (que é essa filosofia) chega pela teodicéia ou teologia natural ao Ser por excelência, ao Ser subsistente por si mesmo. É este Ser primeiro que o senso comum, apoiado, sustentado e elevado pelas verdades de fé, sugere que seja colocado no topo do real, conforme à sua definição revelada: “Ego sum quis um” (Ex 3, 14): Eu sou aquele que sou. Vocês sabem que quando Moisés perguntou seu nome, Deus lhe respondeu: Eu sou o que sou, o que significa: Eu sou Aquele que é por si mesmo, possuo o ser por mim mesmo. É o “ens a se”: o ser por si mesmo, em oposição a todos os outros seres que são “ens ab alio”: ser por  outroser, pelo dom que Deus lhes fez da existência! Este é um princípio tão admirável, que se pode meditar sobre ele durante horas. Ter o ser por si, é viver na eternidade, é ser eterno. Aquele que tem o ser por  si mesmo sempre teve que tê-lo, o ser nunca poderia havê-lo abandonado. É sempre, foi sempre, será sempre. Pelo contrário, aquele que é “ens ab alio”, ser por outro ser, recebeu de outro, portanto começou a ser em algum momento, portanto começou!

Como esta consideração nos deve manter em humildade! Compenetrarmo-nos do nada que somos diante de Deus! “Eu sou aquele que é, e tu és aquele que não é”, dizia Nosso Senhor a uma santa alma. Como é verdadeiro! Quanto mais o homem absorver este princípio da mais elementar filosofia, melhor sentirá seu verdadeiro lugar diante de Deus.

Somente o fato de dizer: eu sou “ab alio”, Deus é “ens a se”; eu comecei a ser, Deus é sempre. Que contraste admirável! Que  abismo! É por acaso este pequeno “ab alio”, que recebe seu ser de Deus, que teria o poder de limitar a Glória de Deus? Teria o direito de dizer a Deus: tens direito a isto, mas a mais nada? “Reina nos corações, nas sacristias, nas capelas, sim; mas na rua e na cidade não!” Que petulância! Igualmente seria este “ab alio” quem teria o poder de reformar os planos de Deus, de fazer com que as coisas sejam de outra maneira, diferentes de como Deus as fez? E as leis que Deus em sua sabedoria e onipotência criou para todos os seres e especialmente para o homem e a sociedade, teria o desprezível “ab alio” o poder de rechaçá-las a seu capricho, dizendo: “Eu sou livre!”, que pretensão! Que absurda esta rebelião do liberalismo! Vede como é importante possuir uma sã filosofia e ter assim um conhecimento profundo da ordem natural, individual, social e política. Para isto    oensinamento de Santo Tomás de Aquino é insubstituível. Leão XIII os citou em sua encíclica “Aeterni Patris” de 4 de agosto de 1879: Continuar lendo

A AMORIS LÆTITIA E SÃO LUIS DE MONTFORT

A AMORIS LÆTITIA OU A “SABEDORIA” CONCILIAR … OU COMO DISFARÇAR A MENTIRA SOB O MANTO DA VERDADE E O VÍCIO SOB O DA VIRTUDE

Fonte: La Porte Latine – Tradução: Dominus Est

Em 19 março de 2016 foi publicada a Exortação Apostólica Pós-Sinodal Lætitia Amoris, do papa Francisco, sobre o amor na família. Por quê falar sobre este documento pontifício na visão da espiritualidade Montfortnina? Porque o Padre de Montfort lança uma luz singular sobre os problemas apresentados por este documento.

Um lembrete para começar. A “leitmotiv”, a ideia motriz do Vaticano II foi o “aggiornamento” – em latim: accomodatio renovata – isto é, a abertura e adaptação ao mundo moderno. Paulo VI se explicou no discurso de abertura da Segunda Sessão (1963): “que o depósito da doutrina cristã seja conservado e apresentado de forma mais eficaz” e que a doutrina “seja aprofundada e exposta seguindo os métodos de pesquisa e apresentação utilizada pelo pensamento moderno.” Tratava-se assim, para falar em termos simples, de unir a doutrina católica com o ateísmo, o evolucionismo, o modernismo, o liberalismo e a imoralidade do mundo moderno. Esse é o problema fundamental: como explicar a revelação divina, isto é, a fé e a moral católica com o pensamento do mundo atual? Esta é, propriamente, uma tentativa de inventar a quadratura do círculo.

Para utilizar, dessa vez, uma terminologia mais “Montfortnina”, o problema do Concílio Vaticano II foi o casamento da sabedoria divina com a sabedoria mundana. São Luis Maria Grignion de Montfort não trata disso no livro Amor da Sabedoria Eterna, nos números 74-89? O Padre de Montfort explica que o mundo se utiliza “finamente da verdade para inspirar a mentira, da virtude para permitir o pecado e das máximas do próprio Jesus Cristo para permitir as suas” (n° 79). O Padre Grignon precisa também que a sabedoria do mundo é “uma perfeita conformidade com as máximas e modas do mundo … não de maneira grosseira e barulhenta, cometendo qualquer pecado escandaloso, mas de uma maneira fina, enganosa e política; caso contrário não seria mais sabedoria – do ponto de vista do mundo – mas sim libertinagem “(n°. 75). Finalmente, ele define o mundano como alguém “que faz um secreto e funesto acordo entre a verdade e mentira, do Evangelho com o mundo, da virtude com o pecado” (nº 76). Montfort descreveu um século antes (século XIX) a existência do catolicismo liberal, que triunfou no Vaticano II e suas reformas.

O que é a Amoris Lætitia? Um lembrete da doutrina da indissolubilidade do matrimônio (nos números 52-53, 62, 77, 86, 123 e 178) e, ao mesmo tempo, das afirmações que dão a possibilidade aos divorciados recasados de receberem os sacramentos, quer dizer, à confissão e à comunhão sem conversão, sem arrependimento, sem reparação do escândalo, sem deixar de viver em adultério, sem deixar de pecar (nos números 243, 298-299, 301 305 e especialmente na nota 351). Como prova, o leitor poderá se reportar a duas revistas de fácil acesso, tanto informaticamente como intelectualmente: DICI  n° 345 de 25 de Novembro de 2016 (para compra) e a Courrier de Rome n° 595 de janeiro 2017 (gratuito) .

Montfort, com seu olho de águia, bem viu o cerne do problema que hoje nos ocupa: a sabedoria conciliar consiste em disfarçar (um termo caro ao nosso santo, que aparece várias vezes em seus cantos) a mentira sob o manto da verdade e o vicio sob o da virtude. Assim, a Amoris Lætitia, sob o disfarce de caridade, permite transgredir o Decálogo, sob disfarce de misericórdia permite o adultério, e sob um disfarce pastoral permite o sacrilégio. Aliás, o Sínodo 2018 pode realizar o mesmo truque com celibato eclesiástico para permitir a ordenação de homens casados.

Montfort é verdadeiramente um homem à frente de seu tempo. Isto porque ele mantém a doutrina católica, aquela do Concílio de Trento, que segue a de São Tomás de Aquino. Na verdade, a história nos ensina que, durante este Concílio, dois livros foram colocados sobre o altar: a Bíblia ou Sagradas Escrituras (a Tradição escrita) e a Summa Theologica de São Tomás de Aquino (representando a Tradição Oral ).

E esta doutrina católica, na época, não foi exposta com a ajuda de uma filosofia ateísta, que se opõe à fé católica, mas com a sã filosofia aristotélica-tomista, chamada Philosophia perennis, que é “a Serva da teologia ” (Santo Tomás de Aquino).

Pe. Guy Castelain, sacerdote da Fraternidade Sacerdotal São Pio X

UM LIBERALISMO SUICIDA – AS REFORMAS PÓS-CONCILIARES

Resultado de imagem para marcel lefebvreOs espíritos leais e um mínimo perspicazes, falam de “crise da Igreja”, para assinalar a época pós-conciliar. Antigamente se falou  da “crise ariana”, da “crise protestante”, mas nunca na “crise da Igreja”… Mas infelizmente nem todos concordam com as causas desta tragédia. O Cardeal Ratzinger por exemplo, vê bem a crise, mas desculpa totalmente o Concílio e as reformas pós-conciliares. Começa por reconhecer a crise:

“Os resultados que vieram depois do Concílio parecem cruelmente opostos ao que todos esperavam, começando pelo Papa João XXIII e depois Paulo VI (…). Os papas e os Padres conciliares esperavam uma nova unidade católica, e pelo contrário chegou-se a uma dissensão que, como disse Paulo  VI, parece haver passado da autocrítica à autodestruição. Esperava-se um novo entusiasmo e ao contrário, freqüentemente se chegou ao tédio e ao desalento. Esperava-se um salto à frente e pelo contrário surgiu um processo evolutivo de decadência”248.

Eis a explicação para a crise, dada pelo Cardeal:

“Estou convencido que os estragos que sofremos nestes vinte anos, não se devem ao ‘verdadeiro’ concílio mas ao desencadeamento de forças latentes agressivas e centrífugas no interior da Igreja; e no exterior, devido ao impacto de uma revolução cultural no ocidente, a afirmação de uma classe média superior, a ‘burguesia’ com sua ideologia liberal radical do tipo individualista, racionalista, hedionda”249.

Mais adiante o Cardeal Ratzinger diz o que lhe parece a verdadeira causa “interior” da crise: um anti-espírito do Concílio:

“Já durante as sessões e cada vez mais durante o período seguinte, se opôs um pretendido ‘anti-espírito’. Segundo este pernicioso ‘Konzils-Ungeist’, tudo o que é novo (ou  presumido como tal: quantas antigas heresias têm sido apresentadas durante muitos anos, como novidades) seria sempre melhor do que existe ou do que existiu, qualquer coisa que seja. Este é o anti-espírito, segundo o qual a história da Igreja deveria começar a partir do Vaticano II, considerado como uma espécie de ponto zero”250.

Então o Cardeal propõe uma solução: voltar ao “verdadeiro Concílio”, considerando-o não “como um ponto de partida do qual se afaste correndo, mas uma base sobre a qual é necessário construir solidamente”. Continuar lendo

PAULO VI – PAPA LIBERAL

Resultado de imagem para marcel lefebvreTalvez perguntem, como é possível que o liberalismo tenha  triunfado através dos Papas João XXIII e Paulo VI e mediante o Concílio Vaticano II? Como se pode conciliar esta catástrofe com as promessas feitas por Nosso Senhor à Pedro e à sua Igreja: “As portas do inferno não prevalecerão contra Ela” (Mt 16, 18); “Eu estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo? (Mt 28, 20) Creio que não há contradição efetivamente, na medida em que estes Papas e o Concílio negligenciaram ou recusaram fazer uso da infalibilidade. Deixando de usar este carisma, que lhes é assegurado pelo Espírito Santo sempre e quando o queiram usar, puderam cometer erros doutrinais e com maior razão ainda, deixar penetrar o inimigo na Igreja, graças à sua negligência e cumplicidade. Em que grau foram cúmplices? De que faltas foram culpados? Em que medida sua função fica questionada?

É evidente que a Igreja, um dia, julgará este Concílio, julgará estes Papas. E em especial, como será julgado o Papa Paulo VI? Alguns afirmam que fui herege, cismático e apóstata; outros crêem poder demonstrar que Paulo VI não tinha em vista o bem da Igreja, e portanto não foi papa, é a tese dos “Sedes Vacans”. Não nego que estas opiniões tenham algum argumento à seu favor. Poderão dizer que em trinta anos se descobrirão coisas que estavam ocultas ou se verá melhor elementos que deveriam ter sido mais claros para os contemporâneos, como afirmações deste Papa absolutamente contrárias à tradição da Igreja, etc. Pode ser, mas creio necessáriorecorrer a estas explicações; penso inclusive que é um erro seguir certas hipóteses.

Outros pensam de modo simplista, que havia então dois papas: um, o verdadeiro, estava prisioneiro nos porões do Vaticano, enquanto o outro, o impostor, o sósia, ocupava o trono de São Pedro, para a infelicidade da Igreja. Livros foram escritos sobre “os dois papas”, baseados em revelações de uma pessoa possuída do demônio e em argumentos pseudocientíficos que afirmam, por exemplo, que a voz do sósia não é a do verdadeiro Paulo VI!

Finalmente outros pensam que Paulo VI não foi responsável pelos seus atos, sendo prisioneiro dos que o cercavam, inclusive drogado. Isto estaria corroborado por várias testemunhas de um papa fisicamente esgotado, inclusive necessitando ser amparado, etc… A meu ver é uma solução demasiadamente simples, pois então não teríamos mais que esperar um próximo papa. Mas já tivemos (não falo de João Paulo I, que reinou somente um mês) outro papa, João Paulo II, que prosseguiu ininterruptamente na linha traçada por  Paulo VI. Continuar lendo

VATICANO II – TRIUNFO DO LIBERALISMO DITO CATÓLICO

Resultado de imagem para marcel lefebvreNão creio que me possam chamar de exagerado, quando digo que o Concílio representou o triunfo das idéias liberais; os capítulos anteriores expuseram suficientemente os fatos: as tendências  liberais, as táticas e os êxitos dos liberais no Concílio e finalmente seus pactos com os inimigos da Igreja.

Os próprios liberais, os católicos liberais, proclamam que o Vaticano II foi a sua vitória. Na entrevista com o jornalista Messori, o Cardeal Ratzinger, antigo “especialista” do espírito liberal do Concílio explica como Vaticano II planejou e resolveu o problema da assimilação dos princípios liberais pela Igreja Católica; não diz que terminou em um êxito admirável, mas afirma que a assimilação foi feita:

“O problema dos anos sessenta era adquirir os melhores valores aparecidos na era da cultura ‘liberal’. São valores que mesmo nascidos fora da Igreja, podem encontrar seu lugar depois de depurados e corrigidos, na sua visão do mundo. É o que foi feito”243.

Como se fez isto? Sem dúvida no Concílio, que ratificou os princípios liberais em “Gaudium et Spes” e “Dignitatis Humanae”. Como se fez? Mediante uma tentativa condenada ao fracasso, do  tipo da quadratura do círculo: casar a Igreja com os princípios da Revolução. É precisamente o fim, a ilusão dos católicos liberais.

O Cardeal Ratzinger não se ufana muito da empresa, inclusive julga o resultado com severidade:

“Mas agora o clima é diferente, ficou escurecido em relação àquele que justificava um otimismo sem dúvida ingênuo. Agora é preciso procurar novo equilíbrio”244.

Portanto o equilíbrio ainda não foi encontrado, vinte anos depois! Entretanto continua a procura: é a ilusão liberal de sempre! Continuar lendo

UM CONCÍLIO PACIFISTA

Resultado de imagem para marcel lefebvreO diálogo e a livre procura proposta pelo Concílio, são sintomas característicos do liberalismo do Vaticano II. Quiseram inventar novos métodos de apostolado para os não cristãos, deixando de lado o espírito missionário. É o que chamei de “apostasia dos princípios”, que caracteriza o espírito liberal. Ainda mais, o liberalismo que impregnou o concílio chegou até à traição, assinando a paz com os inimigos da Igreja. Quiseram fazer um concílio pacifista.

Lembrem como João XXIII, em sua alocução de abertura do Concílio, expôs a nova atitude que a Igreja devia ter com respeito  aos erros que ameaçavam a doutrina: recordando que a Igreja nunca deixou de se opor aos erros e que freqüentemente os havia condenado com grande severidade, o Papa deixou claro, diz Wiltgen239, que agora a Igreja prefere “utilizar o remédio da misericórdia antes que o rigor, e julgava oportuno, nas  circunstâncias atuais, expor com mais amplidão a força de sua doutrina do que recorrer às condenações”. Não se trata somente de expressões lamentáveis que manifestam um pensamento bastante confuso, mas de um programa que expressa o pacifismo que caracterizou o Concílio.

É necessário, dizia-se, fazer a paz com os maçons, a paz com os comunistas, a paz com os protestantes. Deve-se acabar com estas guerras intermináveis, esta hostilidade permanente!

É o que havia dito Mons. Montini, então substituto na Secretaria de Estado, quando em uma de minhas visitas à Roma nos anos cinqüenta lhe pedi a condenação do “Rearmamento Moral”; ele respondeu: “Ah, não se deve estar sempre condenando, condenando! A Igreja parecerá uma madrasta!” Estas foram as palavras usadas  por Mons. Montini, substituto do Papa Pio XII. Ainda me lembro como se fosse hoje. Portanto, não mais condenações, não mais anátemas! Pactuemos! Continuar lendo

ANÁLISE DA CARTA DA COMISSÃO ECCLESIA DEI SOBRE OS MATRIMÔNIOS DOS FIÉIS DA FSSPX

Fonte: DICI – Tradução: Dominus Est

Os casamentos na FSSPX são válidos e incontestáveis

No dia 1º de setembro de 2015, o Papa anunciou que todos os fiéis que se confessassem, durante o Ano Santo da Misericórdia, aos padres da Fraternidade São Pio X receberiam uma “absolvição válida e lícita de seus pecados.” Em um comunicado de imprensa publicado naquele mesmo dia, a Casa Geral da FSSPX agradeceu ao Papa recordando que: “No ministério do sacramento da penitência, ela sempre se apoiou, com toda a certeza, na jurisdição extraordinária conferida pela Normae generales do Código de Direito Canônico. Por ocasião do Ano Santo, o Papa Francisco quer que todos os fiéis que desejam se confessar aos padres da Fraternidade São Pio X possam fazê-la sem serem importunados“.

Em 20 de novembro de 2016, a Carta Apostólica do Papa Francisco, Misericordia et misera (nº. 12) estendeu para além do Ano da Misericórdia a faculdade de confessar concedida em 1º de setembro de 2015. (o Esclarecimento da FSSPX a respeito lê-se aqui). Se a situação de crise que atravessa a Igreja, infelizmente, continua a mesma, a perseguição que privava injustamente os padres e fiéis da jurisdição ordinária cessou, desde que foi concedida pelo Sumo Pontífice.

Em 4 de abril de 2017 foi publicada uma carta do Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e do Presidente da Pontifícia Comissão Ecclesia Dei dirigida aos Ordinários das Conferências Episcopais. O Cardeal Gerhard Ludwig Müller recordou a decisão do Papa Francisco de conceder a todos os padres [da Fraternidade] poderes de confessar validamente os fiéis a fim de assegurar a validade e a legalidade do Sacramento que eles administram.” Em seguida, anunciou as novas disposições do Santo Padre, que com o mesmo espírito “decidiu autorizar os Ordinários locais a também conceder a permissão para a celebração de casamentos de fiéis que seguem a atividade pastoral da Fraternidade.”(o comunicado da Casa Geral da FSSPX a respeito lê-se aqui). Continuar lendo

A LIBERDADE RELIGIOSA DO VATICANO II – PARTE 3

Resultado de imagem para marcel lefebvreII 

Vaticano II e a Cidade Católica 

Procuremos encerrar o assunto. A Declaração conciliar sobre liberdade religiosa se mostra desde logo contrário ao Magistério constante da Igreja225, e também não se situa na direção dos direitos definidos pelos últimos Papas226. Pelo que vimos, ela também não se apóia em nenhum fundamento revelado. Por último, é importanteexaminar se ela se acha de acordo com o sprincípios católicos que regem as relações da cidade temporal com a religião. 

Limites da Liberdade Religiosa 

Para começar, o Vaticano II afirma que a liberdade religiosa deve-se restringir aos “justos limites” (DH. I), “de acordo com as regras jurídicas (…) conformes à ordem moral objetiva, que são requeridas para salvaguardar eficazmente os direitos de todos (…) a autêntica paz pública (…) assim como a proteção devida à moralidade pública” (DH. 7). Tudo isto é muito razoável, mas deixa de lado a questão essencial que é a seguinte: o Estado não tem o dever, e por conseguinte o direito de salvaguardar a unidade religiosa das pessoas na Religião verdadeira, e de proteger as almas católicas contra o escândalo e a propagação do erro religioso, e somente por isso limitar o exercício dos cultos falsos e inclusive proibi-los, se necessário?

Tal é a doutrina exposta com veemência pelo Papa Pio IX na “Quanta Cura”, onde o pontífice condena a opinião daqueles que, contrariamente à doutrina da Escritura, da Igreja e dos Santos  Padres, não temem afirmar que “o melhor governo é aquele em que não se reconhece ao poder a função de reprimir por sanções, aos violadores da Religião católica, salvo se o exigir a paz pública (PIN. 39, Dz. 1690). O sentido óbvio da expressão “violadores da Religião católica”, é: aqueles que exercem publicamente um culto diferente  do católico, ou que não observam publicamente as leis da Igreja. Pio IX ensina portanto, que o Estado governa melhor quando reconhece em si mesmo o ofício de reprimir o exercício público de cultos falsos,  somente  pelo  motivo  de  serem  falsos  e  não  apenas  para salvaguardar a paz pública; somente pelo motivo de que contrariam  a ordem cristã e católica da Cidade, e não porque a paz e a moralidade públicas possam ser afetadas.

Por isso deve-se dizer que os “limites” fixados pelo Concílio à liberdade religiosa são como poeira nos olhos que oculta o seu defeito radical, que é o de não levar em conta a diferença entre a verdade e o erro. Contra toda justiça, pretende-se atribuir o mesmo direito à verdadeira religião e às falsas, e artificialmente procura-se limitar os prejuízos por meio de barreiras que estão longe de satisfazer às exigências da doutrina católica. De bom grado compararia “os limites” da liberdade religiosa aos muros de segurança das auto-estradas, que servem para conter os veículos quando o motorista perdeu o controle deles. Seria preferível entretanto, certificar-se antes se estão dispostos a respeitar os regulamentos de trânsito.  Continuar lendo

A LIBERDADE RELIGIOSA DO VATICANO II – PARTE 2

Resultado de imagem para marcel lefebvreLiberdade Religiosa, Direito Natural à Imunidade? 

Sem invocar a tolerância, o Concílio definiu um simples direito natural à imunidade: o direito de não ser perturbado no exercício do próprio culto, qualquer que seja.

A astúcia ou pelo menos o procedimento astuto, era evidente: por não poder definir um direito ao exercício de todo culto, pois este direito não existe para os falsos cultos, empenharam-se em formular um direito natural somente para a imunidade, que sirva aos adeptos de todos os cultos.

Assim todos os “grupos religiosos” (inocente qualificativo para esconder a Babel das religiões) gozariam naturalmente da imunidade a toda coação em seu “culto público à divindade suprema” (por Deus!, de que divindade se trata?) e também se beneficiariam do “direito de não ser impedidos de ensinar e manifestar sua fé (que  fé?) publicamente, oralmente ou por escrito” (DH. 4).

É imaginável maior confusão? Todos os adeptos de todas as religiões, tanto da verdadeira como das falsas, absolutamente reduzidos ao mesmo pé de igualdade, gozariam de um mesmo  direito natural, sob o pretexto de que se trata somente de um “direito à imunidade”. É por acaso concebível? É mais do que evidente que os adeptos das falsas religiões, somente por este título, não gozam de nenhum direito natural à imunidade. Permitam-me ilustrar esta verdade com um exemplo concreto: se vocês quisessem impedir a oração pública de um grupo muçulmano na rua, ou perturbar seu culto em uma mesquita, pecariam talvez contra a caridade e seguramente contra a prudência, mas não fariam  a estes crentes nenhuma injustiça. Não se sentiriam feridos em nenhum dos bens a que têm direito, nem em nenhum de seus direitos a estes bens211; em nenhum de seus bens, porque seu verdadeiro bem não é exercer sem coação seu culto falso, mas poder exercer um dia  o verdadeiro; em nenhum de seus direitos, pois eles têm  precisamente o direito de exercer o “culto de Deus em particular e em público”212 e a não ser nisso impedidos, mas o culto de Alá não é o culto de Deus! Realmente Deus revelou, Ele mesmo, o culto com que quer ser honrado exclusivamente, que é o da  Religião católica213.

Por conseguinte, se na justiça natural não se prejudica de nenhum modo a estes crentes ao impedir ou perturbar seu culto, é porque não têm nenhum direito natural de não serem perturbados em seu exercício. Continuar lendo