EM QUE CONSISTE A FELICIDADE DOS BEM-AVENTURADOS NO CÉU

ceuIntra in gaudium Domini tui — “Entra no gozo de teu Senhor” (Matth. 25, 21).

Sumário. Os bem-aventurados contemplando a Deus face a face e conhecendo as suas infinitas perfeições, amam-No imensamente mais que a si próprios e não desejam outra coisa senão verem-No feliz. Sabendo, além disso, que o seu Senhor goza e gozará eternamente uma felicidade infinita, acham nisto a sua complacência e o seu gozo e é este gozo de Deus que constitui o seu verdadeiro paraíso. Habituemo-nos a fazer muitas vezes atos de amor perfeito a Deus, alegremo-nos com o Senhor pela sua felicidade infinita, e assim começaremos a exercer na terra o ofício dos bem-aventurados no céu.

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I. Vejamos o que seja que torna os santos moradores do céu plenamente felizes. A alma do Bem-aventurado, vendo Deus face a face e conhecendo a sua beleza infinita e todas as perfeições que o fazem digno de amor infinito, não pode deixar de O amar com todas as forças e ama-O mais que a si mesma. Mas esquecendo-se de si própria, o seu único pensamento e desejo é ver contente e feliz o seu Deus. Vendo, pois, que Deus único objeto de todos os seus afetos, goza de uma beatitude infinita, esta beatitude de Deus é que constitui o seu paraíso. — Se em um Bem-aventurado pudessem caber coisas infinitas, a vista da beatitude infinita de seu Amado lhe causaria igual beatitude infinita. Mas porque um gozo infinito não pode caber na criatura, fica ao menos tão repleta de alegria que nada mais deseja. É esta a saciedade pela qual suspirava Davi, quando disse: Satiabor, cum apparuerit gloria tua (1) — “Saciar-me-ei, quando aparecer a tua glória”.

Assim se realizará o que Deus diz à alma, dando-lhe posse do paraíso: “Entra no gozo de teu Senhor.” Não diz ao gozo que entre na alma, porque, sendo infinito, não cabe numa criatura. Diz que a alma entre no gozo para participar dele, mas participar de tal forma que fica saciada e repleta. — Portanto entre os atos de amor de Deus, que se podem fazer na oração, não há ato mais perfeito do que o comprazer-se na felicidade infinita de que Deus está gozando. É este o exercício contínuo dos Bem aventurados no céu; de sorte que o que se compraz na felicidade de Deus, começa a fazer cá na terra o que espera fazer no céu por toda a eternidade.

É tão grande o amor para com Deus de que os Bem-aventurados no céu estão abrasados, que se jamais lhes viesse o medo de perderem a Deus ou de não O amarem com todas as forças, assim como O amam, tal temor lhes faria sofrer uma pena igual ao inferno. Mas não; eles estão certos, como o são da posse de Deus, que O amarão sempre com todas as forças e sempre serão amados de Deus e que esse amor recíproco não acabará mais nunca. Meu Deus, pelo amor de Jesus Cristo, fazei-me digno de tamanha ventura. Continuar lendo

ESPECIAIS DO BLOG: CÉU, PURGATÓRIO E INFERNO SEGUNDO SÃO JOÃO BOSCO

Resultado de imagem para são joão boscoEm uma “Operação Memória” de nosso blog, trazemos novamente os três capítulos do Livro: Céu, Purgatório e Inferno, de São João Bosco.

São relatos das visitas que o Santo fez a esses locais, através de “sonhos” que tinham caráter sobrenatural. São 3, de muitos que teve durante toda sua vida, na qual o próprio Santo julgava serem frutos de sua imaginação.

Vale a leitura:

FELICIDADE ETERNA DO CÉU

abcBeati qui habitant in domo tua, Domine; in saecula saculorum laudabunt te – “Bem-aventurados, Senhor, os que moram na tua casa; pelos séculos dos séculos te louvarão” (Ps. 83, 5).

Sumário. No céu a alma verá Deus face a face, conhecerá todas as disposições admiráveis da divina Providência para sua salvação e verá que o Senhor a abraça e a abraça sempre como filha querida; pelo que a alma se embriagará de tal amor, que não pensará mais senão em amar seu Deus. Será esta a sua eterna ocupação: amar o bem infinito que possui, louvá-Lo e bendizê-Lo. Quando nos sentirmos oprimidos pelas cruzes, levantemos os olhos ao céu, e lembremo-nos de que nos está reservada sorte igual, se ficarmos fiéis a Deus.

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I. Na terra, a maior pena das almas que amam a Deus e se acham em desolação, é o receio de não O amarem e de não serem por Ele amados: Nescit homo, utrum amore an odio dignus sit (1) – “ O homem não sabe se é digno de amor ou de ódio”. Mas no paraíso a alma está certa de que ama a Deus, e de que é amada por Ele; vê que está felizmente abismada no amor do seu Senhor e que o Senhor a abraça como querida filha; vê, enfim, que os laços de seu amor são para sempre indissolúveis. – Estas venturosas chamas desenvolver-se-ão mais ainda pelo conhecimento mais perfeito, que então adquirirá, do amor que levou Deus a fazer-se homem e a morrer por nós, do amor que o levou a instituir o Santíssimo Sacramento, no qual  um Deus se faz alimento de um verme.

Demais; verá distintamente todas as graças que Deus lhe prodigalizou, livrando-a de tantas tentações e perigos de condenação. Compreenderá que essas tribulações, doenças, perseguições, revezes, que chamara desgraças e castigos de Deus, foram, ao contrário, manifestações de amor e lances da divina Providência para a levar ao céu. – Verá especialmente a paciência que Deus teve em aturá-la depois de tantos pecados, e as suas misericórdias em enviar-lhe tantas luzes e tantos convites cheios de amor. Do alto desta feliz montanha, verá tantas almas condenadas ao inferno por menos pecados, e a si mesma se verá salva, na posse de Deus, certa de nunca perder no futuro esse bem supremo durante toda a eternidade.

Sempre, portanto, gozará o bem-aventurado dessa beatitude, que durante toda a eternidade e a cada instante lhe parecerá nova, como se então pela primeira vez entrasse a gozá-la. Sempre desejará a sua felicidade e obtê-la-á sempre: sempre satisfeita e sempre desejosa, sempre ávida e sempre saciada. Numa palavra, assim como os réprobos são vasos cheios de ira, assim os escolhidos são vasos cheios de contentamento, de modo que nunca tem coisa alguma a desejar. Pelo que diz Davi: Inebriabuntur ab ubertate domus tuae (2) – “Embriagar-se-ão da abundância de tua casa”. Como se dissesse: A alma, vendo a descoberto e abraçando com transporte o seu soberano Bem, embriagar-se-á de tal sorte de amor, que se perderá felizmente em Deus, isto é, esquecer-se-á completamente de si, e não pensará desde então senão em amar, louvar e abençoar esse bem infinito, que possui. Continuar lendo

OS BENS DO CÉU SÃO INEFÁVEIS

ceuEt audivit arcana verba, quae non licet homini loqui – “Ouviu palavras misteriosas, que não é permitido ao homem referir” (2 Cor. 12, 4).

Sumário. As delícias do paraíso são de tal ordem que é preciso gozá-las para delas fazer alguma idéia. Basta considerarmos que nele reside um Deus onipotente, que se empenha em fazer felizes as almas que ama. Ali não há nada que desagrade; e há tudo quanto possa agradar. Felizes de nós, se tivermos a ventura de nele entrar; mas ao contrário, qual não seria a nossa aflição, se por desgraça nos viéssemos a perder, ao pensarmos que por um nada perdemos uma felicidade eterna.

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Façamos hoje algumas considerações a respeito do paraíso. Mas que diremos nós, se os santos mais iluminados não nos souberam dar uma idéia das delícias que Deus reserva aos seus servos fiéis? Davi não soube dizer outra coisa senão que o céu é um bem infinitamente desejável: Quam dilecta tabernacula tua, Domine virtutum! (1) – “Quão amáveis são os teus tabernáculos, ó Senhor das virtudes!” – Mas vós ao menos, ó São Paulo, vós que, num rapto sublime, pudestes contemplar o céu, dizei-nos alguma coisa do que vistes. Não, responde o Apóstolo, o que vi não se pode exprimir. As delícias do paraíso são mistérios tais que não é lícito referi-los; são tão grandes que é preciso gozá-las para as compreender. Tudo que vos posso dizer é que nunca nenhum homem na terra viu, ouviu, nem concebeu as belezas, as harmonias, os gozos que Deus preparou para os que o amam (2).

Não somos agora capazes de compreender os bens do céu, porque não conhecemos senão os bens desta terra. Se os cavalos fossem dotados de razão e soubessem que seu dono lhe preparou um magnífico banquete, imaginariam de certo que o banquete só seria composto de boa palha, aveia e cevada, porque os cavalos não têm idéia de outros alimentos. É assim que nós pensamos acerca dos bens do céu.

É belo, numa noite de verão, ver o céu semeado de estrelas; é agradável, na primavera, estar junto de um lago tranquilo e descobrir no fundo os bancos de areia recamados de ervas e os peixes que brincam; é delicioso estar num jardim cheio de flores e frutos, onde derivam alguns regatos e esvoaçam e cantam os passarinhos. Então, exclamamos: Oh, que paraíso! Como! Isso será o céu? Os prazeres do céu são totalmente diferentes. – Para deles fazermos uma leve idéia, basta considerarmos que no céu reside um Deus onipotente, todo ocupado em encher de delícias as almas daqueles a quem ama; e por isso, como diz São Bernardo, ali não há nada que desagrade e há tudo quanto agrade; Nihil est quod nolis, totum est quod velis. Continuar lendo

NO CÉU NOS RECONHECEREMOS – SÉTIMA CARTA – PARTE 3

Resultado de imagem para céu catolicoO reconhecimento no Céu é um estímulo para o zelo. – Zelo para o alívio de nossos queridos defuntos. – Zelo para conversão dos pecadores. – Zelo para a nossa própria santificação. – O Céu começa no tempo e continua na eternidade. A glória só fará desenvolver o gérmen da graça. – Nós saberemos tudo o que alguma pessoa fizer em nosso beneficio, e a nossa felicidade, como a sua, será por isso maior. – Cada florão da coroa duma mãe será uma alegria a mais para todos os seus filhos. 

Finalmente, que a esperança de torná-los a ver no Céu, de reconhecê-los e de serdes por eles reconhecida, reanime o vosso zelo e vos faça trabalhar com mais ardor no alívio destas pobres almas, na conversão dos pecadores e na vossa própria santificação.

As almas do Purgatório são tão reconhecidas, que as pessoas que as têm aliviado, têm recebido provas da sua gratidão, antes de se lhes reunirem na bem-aventurança. Foi mesmo concedido muitas vezes a Santa Gertrudes, mui zelosa em aliviar as almas do Purgatório, ver, durante a sua vida, e mesmo entreter-se com aquelas que havia socorrido[126].

Um dia, depois da comunhão, Gertrudes oferecia a adorável Hóstia pelo eterno descanso das almas de todos os parentes dos membros da sua comunidade. Apenas tinha acabado de fazer este precioso oferecimento, quando viu sair das trevas um grande número de almas, semelhantes a faíscas ou estrelas:

“Senhor, exclamou ela, esta multidão de almas é só de nossos parentes?”

– Sou eu mesmo, respondeu o Senhor, o mais próximo de vossos parentes: sou vosso pai, vosso irmão e vosso esposo. Todos aqueles que são especialmente meus, tornam-se, portanto, vossos parentes e aliados, e quero que eles tenham parte nos frutos das orações que fazeis pelos vossos parentes”[127].
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NO CÉU NOS RECONHECEREMOS – SÉTIMA CARTA – PARTE 2

Resultado de imagem para céu catolicoA esperança de nos reconhecermos no Céu é um alivio para a dor. – Exemplo e palavras de Fénelon. – É-nos útil entretermo-nos com os nossos virtuosos e queridos defuntos. – Podemos até invocá-los. – Prática de S. Francisco Xavier, de S. Luís Bertrand, de M. Emery. – As almas do Purgatório pedem por nós. 

Poucos homens têm sido tão sensíveis à perda dos seus amigos, como o amável Arcebispo de Cambrai. Eis uma prova disto nas suas próprias palavras:

“Seria tentado a desejar que todos os bons amigos esperassem para morrerem juntos no mesmo dia. Aqueles que não amam pessoa alguma quereriam enterrar todo o gênero humano com os olhos secos e o coração alegre; tais pessoas, porém, não são dignas de viver. Custa muito ser sensível à amizade; mas aqueles que têm esta sensibilidade envergonhar-se-iam se a não tivessem; desejam antes sofrer do que serem insensíveis”[119].

Vede, todavia, como ele sabia aliviar a sua própria aflição, consolando as pessoas mais angustiadas. Por ocasião da morte do duque de Beauvilliers, seu amigo, escrevia à duquesa:

“Só os nossos sentidos e a nossa imaginação perderam o objeto do nosso amor. Aquele que já não podemos ver, está conosco mais do que nunca. Encontramo-lo incessantemente no nosso centro comum. Ele vê-nos aí, e lá mesmo nos procura os verdadeiros socorros. Conhece melhor, onde está agora, as nossas enfermidades, do que nós mesmos, ele que já não tem nenhuma; e procura os remédios próprios e necessários para a nossa cura. Quanto a mim, eu, que estava privado de o ver desde há tantos anos, falo-lhe, abro-lhe o meu coração e creio encontrá-lo na presença de Deus; e ainda que o tenha chorado amargamente, não posso todavia acreditar que o perdesse. Oh! quanta realidade nesta íntima sociedade!”[120].

Fénelon escrevia ainda à viúva do duque de Chevreuse:

“Unamo-nos de coração àquele que choramos; ele não se ausentou de nós pelo fato de se tornar invisível. Vê-nos, ama-nos e comove-se das nossas necessidades. Chegado felizmente ao porto, ora por nós, que ainda estamos expostos ao naufrágio. E diz-nos com uma voz secreta: Apressai-vos a unirmo-nos. Os puros espíritos vêem, ouvem, e amam sempre os seus verdadeiros amigos no seu centro comum. A sua amizade é imortal, como a fonte donde nasce. Os incrédulos só amam a si mesmos; do contrário, deveriam desesperar-se de perderem para sempre os seus amigos; mas a amizade divina torna a sociedade visível numa sociedade de pura fé; chora, mas consola-se na esperança de tornar a reunir seus amigos no país da verdade, e no seio do próprio Amor”[121]. Continuar lendo

NO CÉU NOS RECONHECEREMOS – SÉTIMA CARTA – PARTE 1

Resultado de imagem para céu catolicoConclusões práticas

O conhecimento das criaturas, comparado ao do Criador, é muito diminuto. – É todavia uma parte da bem-aventurança acidental. – Os bem-aventurados sabem todos os mistérios do passado, e deles se regozijam. – Sabem especialmente o que se refere aos seus parentes e amigos. – Nuvem luminosa dos testemunhos que o provam. – Os contraditores fazem um grande mal.

Tudo quanto vos tenho escrito até aqui não deve fazer-vos esquecer que a essência da bem-aventurança é a clara visão ou a intuição do próprio Deus.

O conhecimento das criaturas, acrescentado ao do Criador, parece aos bem-aventurados menos do que uma gota de água lançada no mar. Eles dizem com o filho de Amós: “Todas as nações, todas as famílias dos homens, dos anjos e dos astros, não podem, de modo algum, comparar-se com Deus; elas estão na sua presença como se não estivessem, e pesam tanto na sua balança como se não existissem”. (Is., XL, 15, 17)

Dizem ainda com o filho de Mônica: “Senhor, Deus de toda a verdade, quão desgraçado é o homem que conhece todas as criaturas, e não vos conhece a Vós! Quão afortunado é todo aquele que vos conhece, quando mesmo não conheça mais coisa alguma! Aquele que une estas duas ciências, a do Criador e a das criaturas, não vê aumentar a sua felicidade pelo conhecimento dos seres criados; mas só Vós, ó meu Deus, o tornais feliz”[114].

Nem por isso é menos verdade, como creio ter-vos suficientemente demonstrado, que uma parte da bem-aventurança acidental reservada pelo Senhor a todos os seus escolhidos, consiste no conhecimento das criaturas.

É este um belo ponto de meditação, que o célebre P. Coton não receava de propor a uma rainha de França[115], e que um beneditino também propunha aos seus religiosos para os consolar no momento da morte[116].

Os bem-aventurados sabem todos os mistérios do passado, e alegram-se com um espetáculo que muitas vezes nos entristece.
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NO CÉU NOS RECONHECEREMOS – SEXTA CARTA – PARTE 3

Resultado de imagem para céu catolicoCada um de nós reconhecerá o seu anjo da guarda, e será também reconhecido por ele. – Alegria que disto resultará. – Os santos comparados por Dante com as flores e os anjos, com as faíscas. – Todos os santos comparados a uma rosa somente, e os anjos, às abelhas. – 0 Céu comparado por Jesus Cristo a um banquete. – Troca recíproca entre os anjos e os santos.

As doçuras da santa união formada na Pátria Celeste entre os anjos e os homens, foram-nos desenhados pelos grandes gênios católicos.

Tomás de Aquino faz-nos perceber que os anjos põem uma parte da sua felicidade em reinar cada um com o bem-aventurado que lhe foi confiado, em assentar-se no mesmo trono, em cingir-se, por assim dizer, com a mesma coroa e em fazer juntamente com ele um só coração e uma só alma: pois que todo o homem deve ter no Céu um anjo para reinar com ele, ou, no inferno, um demônio para o atormentar – Habebit in regno Angelum conregnantem, in inferno daemonem punientem[108].

Boaventura diz-nos que a alegria do anjo aumentará pela bem-aventurança do homem que guardou na terra, não só quanto à extensão, visto que cresce o número daqueles com cuja glória se regozija, mas também quanto à mesma intensidade. É verdade que esta não se deve entender da recompensa essencial, mas somente da acidental. Ela explica-se pelo próprio bem dos anjos, pelo bem das criaturas santificadas que eles amam ternamente, e sobretudo pelo bem daquela que lhes está mais intimamente unida, porque foram os ministros da sua salvação e fizeram por ela milhares de ações boas. Por isso se regozijam e se felicitam[109].

Então efetuam-se, entre o anjo da guarda e o bem-aventurado que ele conduziu,  mistérios de amor que não podemos ver nem compreender enquanto as sombras deste mundo não forem dissipadas pelos esplendores dos Céus. O espírito faz passar, perante o homem, o comovente quadro de todos os seus esforços para contê-lo no bem, e conduzi-lo à perfeição; desenrola na sua presença todo o plano da Providência a respeito da obra da sua salvação. O santo responde ao espírito celeste, testemunhando-lhe mil vezes o seu reconhecimento, recordando a confiança com que se lhe recomendava, assegurando-o de que este feliz passado está sempre na sua memória, e que estas doces lembranças são um perfume que ainda respira com delícias, no meio mesmo das alegrias do Paraíso. Continuar lendo

NO CÉU NOS RECONHECEREMOS – SEXTA CARTA – PARTE 2

Resultado de imagem para céu catolicoNão estaremos mais absortos do que os anjos, na contemplação do Criador. – Como eles, contemplaremos as criaturas, e poderemos entreter-nos com elas. – Veremos os condenados. – Reconhecer-nos-emos tão facilmente como se reconhecem os puros espíritos. – Nada teremos de oculto, segundo S Bernardo, S. Gregório e Santo Agostinho. – Todavia os nossos pensamentos, assim como os dos anjos, não serão conhecidos contra nossa vontade. 

Esta mistura dos homens e dos anjos nas mesmas hierarquias e nos mesmos coros, permite-nos responder a algumas dificuldades, cuja solução parece estar na semelhança que teremos com os puros espíritos.

Não existe motivo algum pelo qual devêssemos estar mais absortos na contemplação de Deus do que os próprios anjos. Desde o momento em que eles foram confirmados na graça, gozaram duma perfeita bem-aventurança e ficaram arrebatados de admiração em presença da glória e da majestade do Criador. Não se distraem d’Ele, quando lhes mostram as criaturas que são obra Sua, e que Ele lhes permitiu contemplar e admirar, e quis mesmo que as conduzissem e governassem.

Não estão distraídos, quando nos acompanham durante a nossa peregrinação neste mundo, para nos guardar e sustentar no bom caminho. Não o estão, finalmente, quando se interessam pela conversão dum pobre pecador a ponto de se regozijarem mais da sua volta para Deus do que da perseverança de noventa e nove justos (Luc., XV, 7, 10).

Da mesma sorte, diz Ansaldo, por mais ocupados que estejamos no Céu, da glória e da imensidade do Soberano Bem, poderemos ainda ocupar-nos de todos os nossos amigos; não só dos que tiverem ficado na terra, mas também dos que participarem da nossa felicidade.[98]
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NO CÉU NOS RECONHECEREMOS – SEXTA CARTA – PARTE 1

Resultado de imagem para céu catolicoO homem conhece os anjos, ou a união dos anjos e dos homens no Céu

Deus renovará o Céu e a terra para que gozemos dos seres materiais. – Comparação de S. Tomás. – Comparação de S. João Crisóstomo. – Quanto mais nos fará ele gozar dos puros espíritos! – No Céu, estaremos colocados entre os anjos. – As crianças formarão como que um décimo coro. – Visão de santa Francisca Romana.

SENHORA,

Deus não se contenta de nos conceder somente a bem-aventurança essencial, a visão e o gozo do bem incriado, que é Ele mesmo.

Está tão longe de nos recusar a parte da bem-aventurança acidental, que é o conhecimento e o amor dos nossos parentes e amigos, que multiplicará as alegrias e prazeres para os olhos, língua, gosto, olfato, tato e ouvidos; numa palavra, para todos os sentidos do nosso corpo[90]. “Renovará mesmo o Céu e a terra” (Isai. LXV, 17). – (Apoc., XXI, 1) para que gozemos tanto pelos nossos sentidos como pelo nosso espírito, dos seres privados de razão.

“Se os corpos, disse S. Tomás, nada mereceram por si mesmos, mereceu o homem por eles: mereceu que a glória lhes fosse dada, para aumentar a sua própria glória. Assim, quando alguém adquire uma nova dignidade, é justo que os seus vestidos recebam mais belos ornamentos em testemunho da sua nova glória”[91].

João Crisóstomo emprega duas outras comparações. “Quando um príncipe real, diz ele, toma posse do trono paterno, a ama que o criou não receberá novos benefícios, novas graças? Ora, as criaturas materiais, são nossas amas. Quando um filho deve aparecer em público revestido de alguma dignidade, não tem o pai cuidado para honrá-lo, de dar a seus criados um vestuário mais esplêndido? Assim também quando o nosso Pai celeste nos apresentar no mundo superior, com a branca toga da virilidade, com as insígnias devidas ao nosso grau, aumentará a nossa glória, revestindo dum brilho incorruptível os seres materiais que são nossos servos”[92]. Continuar lendo

NO CÉU NOS RECONHECEREMOS – QUINTA CARTA – PARTE 3

Resultado de imagem para céu catolicoPodemos mesmo excitar-nos ou animar-nos pela esperança de nos unirmos a um amigo junto de Deus. – Grandes santos foram sensíveis a esta esperança. – Confissão de S. Francisco Xavier. – União sobrenatural de dois corações. – Gradação no parentesco espiritual das almas. – Fraternidade inteiramente espiritual e de escolha.

Podeis ainda ir mais longe. Depois de vos terdes primeiramente consolado, de alguma sorte, pela firme esperança de que a vossa amiga oraria mais eficazmente por vós, se fosse a primeira a subir ao Céu, regozijar-vos-eis também de ali vos reunirdes a ela com o pensamento, e lhe direis: Estaremos um dia reunidas no Paraíso, sim, reunidas junto de Deus: quanto mais nos amaremos então!

Mas talvez se encontre alguém que tente repelir violentamente todos estes sentimentos dum coração amoroso, dirigindo-vos esta censura: “Quê! animar a vossa coragem e excitar-vos a sustentar generosamente os combates deste mundo, em parte pela esperança de vos repousardes no Céu sobre o coração das pessoas que amais, não será uma clara e grosseira imperfeição?”

Respondei que os maiores santos foram sensíveis, ainda mais do que vós, a esta esperança, e que desejavam gozar, ainda na eternidade, dos castos abraços de seus amigos. O apóstolo das Índias e do Japão confirma isto mesmo por sua confissão, feita ao fundador da Companhia de Jesus.

“Dizeis, escrevia S. Francisco Xavier a Santo Inácio, no excesso da vossa amizade por mim, que desejaríeis ardentemente ver-me ainda uma vez antes de morrer. Ah! só Deus, que vê o interior dos nossos corações, sabe quão viva e profunda impressão causou em minha alma este doce testemunho do vosso amor para comigo. Cada vez que me lembro dele, e isto acontece muitas vezes, involuntárias lágrimas me rebentam dos olhos; e se a deliciosa idéia de que poderia abraçar-vos ainda uma vez, se apresenta ao meu espírito (porque, por mais difícil que isto pareça à primeira vista, não é coisa que a santa obediência não possa efetuar), encontro-me num instante surpreendido por uma torrente de lágrimas que nada pode fazer parar”[86]. Continuar lendo

NO CÉU NOS RECONHECEREMOS – QUINTA CARTA – PARTE 2

Resultado de imagem para céu catolicoFlor duma especial e santa amizade no Paraíso. – Durar assim para sempre é também da verdadeira amizade, segundo S. Jerônimo. – A santa amizade é o prelúdio ou o gozo antecipado do Céu, segundo S. Francisco de Sales. – Célebre visão de S. Vicente de Paulo. – A continuação da amizade depois da morte consolou S. Gregório Nazianzeno, Santo Agostinho e S. Cipriano. 

Talvez vos pareça que só tenho falado, até aqui, dessa geral amizade que existirá no Céu entre todos os religiosos que vivem na mesma comunidade. Mas não se aplicará com mais razão, tudo o que tenho dito, a essa flor duma especial e santa amizade, que o tempo vê algumas vezes germinar entre dois corações pela virtude do sangue de Jesus Cristo? Crede firmemente que esta flor, depois de ter feito as vossas delícias na terra, continuará a exalar o seu perfume na bem-aventurada eternidade, para embalsamar a corte celeste e dar aos santos mais uma alegria.

Os doutores consideram ainda como essencial à amizade, o poder seguir-nos assim até ao seio de Deus.

A afeição que não possa entrar onde nada penetrará que não seja puro, é indigna do nome de amizade. Diz S. Jerônimo: Amicitia quae desinere potest, vera nunquam fuit – a amizade que pode acabar nunca foi verdadeira[80]. Logo que ela não pode ser eterna, não é real; desde que não merece durar sempre, só é aparente ou impura.

A verdadeira, a sincera, a virtuosa e santa amizade sobrevive a todas as separações da morte, para reunir nas sublimidades do Céu, no ápice da bem-aventurança, os corações e as almas que ela unia neste vale de lágrimas e de misérias. Continuar lendo

NO CÉU NOS RECONHECEREMOS – QUINTA CARTA – PARTE 1

Resultado de imagem para céu catolicoReconhecimento dos amigos ou a amizade no Céu

Todos os santos se têm comprazido no pensamento de reconhecer e amar ainda no Céu os seus amigos. – Sentimentos do B. Etelredo. – Palavras do P. Rapin. – Santo Ambrósio. – O Santo Cura d’Ars. 

SENHORA,

Além do estreito círculo da família, pode a amizade estender a vasta esfera das nossas afeições.

O Homem-Deus quis ter amigos na terra, e dignou-se reuni-los em volta de Si no Céu. A Seu exemplo, os mais santos personagens deixaram dilatar o amor de seu coração; todos tiveram amigos escolhidos entre mil, e todos se têm regozijado com o pensamento de os reconhecerem e amarem ainda na eterna glória.

Também escreveram admiráveis páginas a respeito da verdadeira e perfeita amizade, que é toda espiritual. 

Apenas vos citarei uma que diz particular respeito ao nosso assunto. É do bem-aventurado Etelredo ou Aelredo, contemporâneo de S. Bernardo e abade da ordem dos Cistercienses, na Inglaterra. É uma conversa com um amigo.

Aelredo. Suponhamos que não haja neste mundo pessoa alguma além de vós, e que todas as delícias, com todas as riquezas do universo, estejam à vossa disposição, ouro, prata, pedras preciosas, cidades muradas, acampamentos fortificados por torres, grandes edifícios, esculturas e pinturas. Suponhamos ainda que estejais restabelecido no antigo estado, e que todas as criaturas vos sejam submissas como ao primeiro homem. Pergunto-vos: Todas estas coisas poderiam ser-vos agradáveis sem um companheiro?

Gualter. Não, por certo.

Aelredo. Mas se tivésseis somente um companheiro cuja língua ignorásseis, cujos costumes desconhecêsseis, e cujo coração e espírito vos fossem ocultos? Continuar lendo

NO CÉU NOS RECONHECEREMOS – QUARTA CARTA – PARTE 3

Resultado de imagem para céu catolicoConformidade de sentimento e de linguagem em todos os lugares. – S. Cipriano. – S. Teodoro Estudita. – Elogio que faz de sua mãe. – Cartas de consolação que ele escreve. – Pura alegria dos esposos no Céu. – Santa Francisca Romana e seu filho Evangelista. – Alegria dos pais e dos filhos no Paraíso.

Mas esquecia-me de que prometera percorrer todo o horizonte da Igreja, para vos mostrar a sua conformidade de sentimentos e de linguagem sobre todos os pontos.

Na África, eis S. Cipriano que foi educado no paganismo, e só abraçou a continência depois da sua conversão. Eleito Bispo de Cartago e condenado ao martírio, consolou os fiéis por ocasião duma epidemia que então grassava e que os ameaçava de morte. Que lhes disse ele? Dirigiu-lhes palavras que a Santa Igreja recorda aos seus sacerdotes, na oitava da festa de Todos os Santos. Ei-las:

“Visto que vivemos na terra como estrangeiros e viajantes, suspiremos pelo dia que nos conduzirá à nossa habitação e nos reintegrará no Reino dos Céus. Qual é aquele que, estando exilado, não se apressaria a voltar à sua pátria?

Qual é aquele que, obrigado a regressar por mar aos lares pátrios, não desejaria ardentemente um vento favorável, a fim de poder mais cedo abraçar aqueles que lhe são queridos?

A nossa pátria é o Paraíso, e os patriarcas, nossos antepassados, já aí nos precederam. Apressemo-nos, pois, e corramos para ver a nossa pátria e saudar os nossos maiores! Somos esperados por um grande número de pessoas que nos são queridas; somos desejados por uma grande multidão de parentes, de irmãos e de filhos que, seguros da sua imortalidade, se conservam ainda solícitos pela nossa salvação. Ir vê-los, ir abraçá-los, ah! que alegria para nós e para eles![67]”

Entre os gregos, em Constantinopla, um dos campeões mais intrépidos da ortodoxia contra os iconoclastas do Oriente, S. Teodoro Estudita, tinha entrado em religião na idade de vinte e dois anos, sob a direção dum tio materno, a quem sucedeu no governo. Teve a ventura de fazer, na presença de todos os religiosos, o elogio fúnebre de sua mãe, panegírico que o cardeal Mai traduziu e publicou, elogio que um coração amoroso não pode ler sem uma profunda comoção. Apenas soube que a sua enfermidade era mortal, escreveu-lhe uma carta afetuosa e consoladora, em que chegou a dizer: Continuar lendo

NO CÉU NOS RECONHECEREMOS – QUARTA CARTA – PARTE 2

Resultado de imagem para céu catolicoA segurança de se reconhecerem os parentes no Céu tem consolado todos os santos. – O B. Henrique Suso. – S. Tomás de Aquino. – S. Francisco Xavier. – Santa Tereza. – O seu pensar a respeito da felicidade de uma mãe. – Felizes as pais que têm filhos religiosos. 

Esta certeza de uma especial união com os nossos parentes na eterna bem-aventurança, é uma consolação tão pura e tão doce que tem chegado a fazer as delícias dos próprios santos. Por todos os ventos do Céu, do Oriente, do meio dia, do Ocidente e do Setentrião, nos chegam vozes que testemunham esta verdade.

A Alemanha apresenta-nos, entre muitos outros, o B. Henrique Suso, religioso da Ordem de S. Domingos. O seu nome era Henrique Besg, mas preferiu o nome de Suso, que era o de sua mãe, para honrar a sua piedade e recordar-se dela incessantemente[59].

Esta virtuosa mãe morreu numa Sexta-feira Santa, à mesma hora em que Nosso Senhor foi crucificado. Henrique estudava então em Colônia. Ela apareceu-lhe durante a noite, toda resplandecente de glória:

“Meu filho, lhe disse, ama com todas as tuas forças o Deus onipotente, e fica bem persuadido de que Ele nunca te abandonará em teus trabalhos e aflições. Deixei o mundo; mas isto não é morrer, pois que vivo feliz no Paraíso, onde a misericórdia divina recompensou o imenso amor que eu tinha à Paixão de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

– Ó minha santa mãe, ó minha terna mãe, exclamou Henrique, amai-me sempre no Céu, como fizestes na Terra, e não me abandoneis jamais nas minhas aflições!”

A bem-aventurada desapareceu, mas seu filho ficou inundado de consolação[60].

Em outra ocasião viu a alma de seu pai, que tinha vivido muito apegado ao mundo. Apareceu-lhe cheia de sofrimentos e aflições, fazendo-lhe assim compreender os tormentos que sofria no Purgatório, e pedindo-lhe o socorro das suas orações. Continuar lendo

NO CÉU NOS RECONHECEREMOS – QUARTA CARTA – PARTE 1

Resultado de imagem para céu catolicoReconhecimento dos parentes ou a família no Céu

Reflexo dos três principais mistérios da nossa religião na família cristã. – A família recomposta no Céu. – Palavras de Tertuliano. – Exemplo de Nosso Senhor. – Tocante espetáculo que oferecerá o Paraíso. – Jesus e Maria reconhecem-Se. – Maria tem cuidado de Jesus no Sacramento do Seu amor. – Ela conserva sobre o Seu Coração um soberano poder.

SENHORA,

Desejaríeis saber, particularmente, o que acontece à família no Céu, isto é, se Deus ali a recompõe, e se a esperança de possuir vossos parentes na pátria celeste é uma consolação de que possais gozar sem receio, sem escrúpulo e sem imperfeição. Podereis duvidá-lo, quando tantos santos personagens vo-lo afirmam, tanto por seus exemplos como por suas palavras?

Deus coroou de glória e honra a família cristã, e faz brilhar em sua fronte o reflexo dos três principais mistérios da nossa religião. Vede por onde ela começa: – Por um Sacramento que é o sinal sagrado da união do Verbo de Deus com a natureza humana, da união de Jesus Cristo com a sua Igreja, e da união do mesmo Deus com a alma justa.

Quem o disse? Um grande Papa, Inocêncio III[54]. Vede por onde continua: “Maridos, amai vossas mulheres como Jesus Cristo amou a sua Igreja e se entregou por ela; mulheres, amai vossos maridos como a igreja ama a Jesus Cristo e se entrega por Ele”.

Quem o disse? O grande apóstolo S. Paulo (Eph., V, 25).

Vede por onde acaba:  – Pelas relações de origem que os anjos nos enviam, tanto elas nos recordam as da Trindade e nos procuram alegrias; porque o homem é do homem como Deus é de Deus. Homo est de homine, sicut Deus de Deo. Assim o disse um grande doutor, S. Tomás de Aquino[55].

Mas teria mais poder o sopro da morte para destruir esta obra prima, do que a virtude força para lhe conservar o esplendor? E visto que o amor é forte como a morte (Cant., VIII, 6), dar-se-á que a caridade de Deus, que criou a família, que a caridade do homem que lhe santifica o uso, não queira ou não possa refazer eternamente no Céu o que a morte desfez temporariamente na terra? Continuar lendo

NO CÉU NOS RECONHECEREMOS – TERCEIRA CARTA – APÊNDICE

Resultado de imagem para céu catolicoOremos pelos pecadores mesmo depois da sua triste morte

I

Mistérios da graça por ocasião da morte. – Como se podem explicar. – Eficácia das orações feitas pelos pecadores depois do seu falecimento, segundo a opinião do P. de Ravignam. – Testemunho de S. João Crisóstomo. 

SENHORA,

A Igreja não condena pessoa alguma. Publica os seus decretos em que nos declara que esta ou aquela pessoa está no Céu, o que nunca fez a respeito dos condenados.

Tenho a satisfação de saber que lendo vós uma obra que merece toda a consideração, notastes particularmente estas linhas:

“O Padre de Ravignam gostava de falar dos mistérios da graça, que cria passarem-se no momento da morte, e parece ter sido o seu sentimento de que um grande número de pecadores se convertem nos seus últimos momentos, e expiram reconciliados com Deus.

Há, em certas mortes, mistérios de misericórdia e rasgos de graça em que os olhos humanos só vêem golpes de justiça. À luz dum último raio, Deus revela-se algumas vezes a certas almas cuja maior desgraça fora ignorá-lo; o último suspiro, compreendido por Aquele que sonda os corações, pode ser um gemido que implore o perdão”.

O marechal Exelmans, a quem uma queda do cavalo subitamente precipitou no túmulo, não praticava a religião. Tinha prometido confessar-se, mas não teve tempo. Todavia, no mesmo dia da morte, uma pessoa habituada às celestes comunicações acreditou ouvir uma voz interior que lhe dizia:

“Quem conhece a extensão da minha misericórdia? Sabe-se porventura a profundeza do mar e as águas que encerra? Muito será perdoado a certas pessoas que muito ignoram”. Continuar lendo

NO CÉU NOS RECONHECEREMOS – TERCEIRA CARTA – PARTE 4

Resultado de imagem para céu catolicoNo Céu, os bem-aventurados não se afligem pela condenação de pessoa alguma. – Não têm já afeição alguma por um condenado. – Ele não conserva um só elemento de amabilidade. – A vontade dos bem-aventurados é inteiramente conforme à de Deus, mesmo para a reprovação dum amigo, como diz Santa Catarina de Sena, Honório e os teólogos. 

O Céu é amor e luz; não digais, pois: –Imensa será a aflição dum santo ao lembrar-se do parente ou do amigo que jamais irá reunir-se-lhe.

Das sublimidades da glória descobre-se melhor o horror e a justiça de sua condenação.

Sol do mundo moral, Deus é o centro cuja atração livremente sujeita mantém nossa alma na órbita da salvação, apesar das paixões que sempre nos impelem a afastar-nos dela.

Das eternas colinas, os santos seguem atentamente as vicissitudes desta luta, cujos resultados devem ocasionar às pessoas que lhes são queridas, o Céu ou o Inferno. Vêem, desde há muito tempo, a divina atração, que é a mesma força da misericórdia, obrar sobre o pecador e vencer resistências insensatas ou culpadas.

Mas, enfim, vêem este pródigo obstinado, este homem que segunda vez crucifica a Jesus Cristo, ceder voluntariamente às seduções do pecado e ao ímpeto das paixões, e sair inteiramente da órbita da salvação. Como um astro extinto ou quebrado, projetado no espaço, corre veloz, afastando-se cada vez mais do seu centro, e chega assim, pela condenação, a uma infinita distância de Deus. Continuar lendo

NO CÉU NOS RECONHECEREMOS – TERCEIRA CARTA – PARTE 3

Resultado de imagem para céu catolicoNão haverá necessidade de desviar os olhos do Criador para ver as criaturas – O Céu não é um êxtase onde se esquecem os parentes e os amigos. – A natureza, no que tem de bom, existirá sempre. – A graça não a repele, mesmo na terra. 

O Céu é luz; não digais pois: –Encontrando-se em Deus em toda a Sua plenitude a perfeição que nos torna amável um ser criado, poder-se-á desviar os olhos do centro dos eternos esplendores e do oceano das perfeições infinitas, para seguir com a vista um raio separado, um pequeno regato?

Os bem-aventurados nunca têm necessidade de desviar os olhos do Criador para reconhecerem uma criatura. É n’Ele, é no Verbo que contemplam ao mesmo tempo o centro luminoso e os raios, o fecundo manancial e os arroios.

“É no Verbo divino, escrevia o autor da Vida dos predestinados, que se verá a verdade claramente, e sem estes véus que nos não deixam vê-la neste mundo em toda a sua pureza e a descoberto.

No Céu já não haverá dúvida, ou incerteza. É neste Verbo que o predestinado verá, como num admirável espelho, este espetáculo do mundo desenvolver-se na mais pequena circunstância de cada sucesso. Será n’Ele que aprenderá a série dos eternos conselhos de Deus nos interesses da Sua glória. Aí divisaremos ao mesmo tempo o presente, o pretérito e o futuro, e marcharemos, com a graça desta luz, nos imensos caminhos da eternidade, sem nos perdermos nem ainda nos afastarmos deles. Continuar lendo

NO CÉU NOS RECONHECEREMOS – TERCEIRA CARTA – PARTE 2

Resultado de imagem para céu catolicoII

Com a ciência cresce no Céu o amor. – Aumento deste mesmo amor. – Palavras de S. Bernardo em diferentes ocasiões. – Doutrina de S. Tomás de Aquino. – Revelação feita a Santa Catarina de Sena. – Harmonia do conhecimento e do amor. – Nem inveja nem ciúme, mas completa resignação.

Ora, no Céu, com a ciência cresce a caridade, o amor.

Assim como o Sol nos envia num só e mesmo raio duas coisas ao mesmo tempo: a luz e o calor; assim também este mútuo conhecimento que Deus permite aos seus escolhidos, é sempre acompanhado de amor. E da mesma forma que se tornariam mais abrasados, à medida que se aproximassem da chama; assim também, quanto mais se aproximam deste grande Deus que é um fogo consumidor (Deut., IV, 24), tanto mais amam e são amados.

A caridade nunca se extingue, diz o Apóstolo, (I Cor., XIII, 8); e este amor infinito, abraça a Deus em sua unidade, a nós mesmos e ao próximo.

E efetivamente não existem duas ou três virtudes da caridade, mas só uma. Se, pois, o amor do justo sobe com ele ao Céu depois da sua morte, se brilha mesmo com um esplendor mais radioso sobre o imaculado horizonte da bem-aventurada eternidade, como um astro que, elevando-se, aumenta os seus esplendores, por que razão deixaria este justo de inflamar-se também em caridade para com todos aqueles que amou santamente na terra? Por que motivo, quando é maior o seu amor para com Deus, e para consigo mesmo, não seria maior também para com o seu próximo?

O santo abade de Claraval chorou a perda de seu irmão Gerardo com uma ternura maravilhosa. Um de seus sermões sobre o Cântico dos Cânticos, não é mais do que uma oração fúnebre a respeito deste irmão querido. Que diz ele sobre este ponto? Atendei e consolai-vos: Continuar lendo

NO CÉU NOS RECONHECEREMOS – TERCEIRA CARTA – PARTE 1

Resultado de imagem para céu catolicoResposta a algumas objeções

I

É perigoso não responder às objeções. – As de que falamos, resultam da idéia falsa ou acanhada que se faz do Céu – O pensamento católico exprimido com felicidade por Dante. – Luzes que os bem-aventurados têm. – Eles não ignoram as nossas necessidades. – Desejo que têm de nos socorrer. – A sua lembrança de tudo.

SENHORA,

Nenhuma das verdades solidamente estabelecidas na Igreja deve ser abalada em nossas almas, por uma ou muitas objeções, cuja solução nos escapa.

“A verdade é do Senhor e permanecerá eternamente”, diz a Escritura (Ps. CXVI, 2); as objeções são do homem, o tempo muda-as, e o sopro da ciência as dissipa.

Todavia, acontece que uma verdade claramente demonstrada, não penetra profundamente em nossa alma, enquanto tivermos uma dificuldade a que não achemos resposta. Algumas vezes mesmo a objeção apodera-se de tal modo do nosso espírito, que chega a expelir dele a verdade.

É o que se deu em muitas pessoas a respeito do objeto de que nos ocupamos. Não sabendo como rasgar o véu de algumas dificuldades que lhes ocultava esta luz tão consoladora, têm dito que não nos reconheceremos no Céu. A sua imprudência poderia comparar-se à dum menino que, não podendo dissipar o espesso nevoeiro, negasse a existência do Sol.

As objeções que vos têm feito, e que me haveis transmitido, resultam de se não formar uma idéia assaz justa e grande do Céu. Continuar lendo

NO CÉU NOS RECONHECEREMOS – SEGUNDA CARTA – PARTE 2

Resultado de imagem para céu catolicoI I

Provas da tradição: o fato simplesmente afirmado por Santo Atanásio, S. Paulino, Santo Agostinho, Honório e Berti – As consolações tiradas deste fato, por Santo Ambrósio para os irmãos; por Fócio para os parentes; por S. Jerônimo, Santo Agostinho e, mais ainda, S. João Crisóstomo, para as viúvas.

A luz despedida sobre este objeto pela tradição católica é tão viva e constante que passa através de todas as nuvens dos sofismas e da preocupação.

Os testemunhos podem dividir-se em duas classes: os que afirmam simplesmente o fato, e os que dele tiram uma consolação.

Entre as obras muitas vezes atribuídas a Santo Atanásio, esta glória tão pura do IV século, encontra-se uma que tem por título: Questões necessárias que nenhum cristão deve ignorar. Ora, na resposta à XXII questão lê-se: “Deus concede às almas justas, no Céu, um grande bem, o de se conhecerem mutuamente”.[1]

No fim do mesmo século, S. Paulino, que mais tarde foi Bispo de Nola, escrevia ao seu antigo preceptor, o poeta Ausónio:

“A alma sobrevive ao corpo, e é necessário que ela guarde os seus sentimentos e as suas afeições, tanto quanto a sua vida. Ela não pode esquecer que é imortal. Para qualquer lugar que Nosso Senhor me mande depois da minha morte, levar-vos-ei em meu coração, e o fatal golpe que me separar do meu corpo não porá termo ao amor que vos consagro”.[2]

No século V, o grande Bispo de Hipona dizia a seu auditório: “Conhecer-nos-emos todos no Céu. Pensais vós que me conhecereis, por me haverdes conhecido na terra, mas não conhecereis meu pai, porque nunca o vistes? Repito-vos, conhecereis todos os santos. Eles se conhecerão, não porque vejam a face uns dos outros, mas verão como os profetas costumam ver na terra; ou ainda dum modo bem mais excelente. Verão divinamente. Por isso que estarão cheias de Deus”[3].
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NO CÉU NOS RECONHECEREMOS – SEGUNDA CARTA – PARTE 1

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No Céu todos se conhecem

I

Provas da Sagrada Escritura: a parábola do rico avarento, explicada por Santo Irineu, e sobretudo por S. Gregório Magno. – Fato que ele cita em apoio. O juízo final, base da argumentação de S. Teodoro Studita. 

SENHORA,

Todos os bem-aventurados admitidos no Céu conhecem-se perfeitamente, antes mesmo da ressurreição geral. Provam-no tanto a Sagrada Escritura como a Tradição.

Limitar-me-ei a citar-vos o Novo Testamento, tomando apenas dele a parábola do rico avarento e algumas palavras que se referem ao juízo final.

Está parábola é tão bela que não posso resistir ao desejo de apresentar a vossos olhos as suas passagens principais:

Havia um homem rico que trajava esplendidamente e se banqueteava com magnificência, todos os dias.

Havia também ao mesmo tempo um pobre, chamado Lázaro, deitado à sua porta, todo coberto de úlceras, que desejava ardentemente saciar a fome com as migalhas que caíam da mesa do rico, mas ninguém lhas dava, e os cães vinham lamber as suas feridas.

Ora, aconteceu morrer este pobre, e foi transportado pelos anjos ao seio de Abraão. O rico morreu também e teve por túmulo o Inferno. E quando estava em tormentos, levantou os olhos para o Céu e viu, ao longe, Abraão e Lázaro em seu seio; e, exclamando, diz estas palavras:
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NO CÉU NOS RECONHECEREMOS – PRIMEIRA CARTA – PARTE 4

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Porque Deus só basta aos escolhidos, seguir-se-á que terão a Deus unicamente? – A sua liberalidade em todas as ordens conhecidas prova qual seja a mesma na ordem da glória. – É falso que nos esqueçamos no Céu ou que sejamos insensíveis à felicidade de nos tornarmos a ver. – Palavras de S. Francisco de Sales sobre este mútuo reconhecimento e sobre a alegria que dele resulta. 

Disseram-vos ainda:

“Só Deus é suficiente aos escolhidos!

Sem dúvida, deixando-se ver e possuir por nós, só Deus seria bastante para nos tornar a todos felizes. Mas que se pode concluir daqui?

Se bastava a si mesmo desde toda a eternidade, direis vós que nada criou no tempo e que nós não existimos? O menor sofrimento do Redentor bastava para nos salvar a todos: negareis Sua Paixão e Sua Morte?

A Sua Divindade é suficiente a si mesma: credes que ela não tenha cuidado algum da Sua humanidade?

Descei desta ordem toda divina até à ordem da graça e da mesma natureza, e contai todos os socorros que nos são oferecidos para santificar nossas almas, todas as iguarias que nos são dadas para nutrir nosso corpo, contai todas as flores que ornam a terra e todos os astros que brilham no firmamento, e dizei se o Senhor se contentou de criar para nós o suficiente, ou se passou muito além dele.

E querer-se-ia que na ordem da glória, quando houver de recompensar os Seus fiéis servos, os Seus apóstolos, os Seus mártires, os Seus pontífices, os Seus confessores e as Suas virgens, se limitasse a dar-lhes estritamente o necessário! Continuar lendo

NO CÉU NOS RECONHECEREMOS – PRIMEIRA CARTA – PARTE 3

Resultado de imagem para céu catolicoSerá verdade que os santos só amam a Deus? – Eles amam-se entre si como concidadãos, como irmãos, como dois amigos que vêem todas as perfeições um do outro. – Deus só é cioso do nosso amor de adoração. – O amor recíproco dos santos glorifica-o como Criador, como Pai, como princípio de toda a amabilidade.

Disseram-vos que os santos amariam só a Deus.

Ouvi a resposta do abade Marcos no seu belo livro sobre a felicidade dos santos:

“A pátria celeste é-nos incessantemente apresentada no Evangelho sob o símbolo dum reino, duma sociedade, duma família. Mas uma sociedade, um Estado, uma família não é simplesmente uma aglomeração de individualidades estranhas umas às outras; mas sim uma reunião de seres inteligentes e racionais, obedecendo a leis comuns e obrigatórias para todos, que fazem um só e mesmo corpo da harmônica união destes diversos membros.

Ora, entre todas estas leis, há uma que é salvaguarda, e como que o laço de todas as outras; é a lei da solidariedade social ou fraternal, que ordena a todos se dediquem por cada um, e que cada um se dedique por todos, à proporção das forças e necessidades de cada membro. É, por outros termos, a lei da mútua caridade, a lei do amor.

No Céu nos amaremos como se amam os filhos dum mesmo pai, como irmãos queridos e ternas irmãs; amar-nos-emos, como se amam dois amigos que só se conhecem desde ontem, e cujos corações, apenas se encontraram, se compreenderam e encadearam um no outro, por uma simpatia que sentem ser indestrutível e eterna.

Desde o momento em que nossas almas tiverem penetrado no seio de Deus, encontrar-se-ão abrasadas duma fervente caridade de umas para com as outras. A sua vista e recíproca presença serão como que uma faísca que operará este abrasamento, assim como na natureza física se vê muitas vezes um corpo inflamar outro corpo, somente pelo efeito do choque ou simples contato. Continuar lendo

NO CÉU NOS RECONHECEREMOS – PRIMEIRA CARTA – PARTE 2

Resultado de imagem para céu catolicoBem-aventurança essencial e bem-aventurança acidental. – Três erros sobre esta bem-aventurança acidental citados pelo filosofismo. – Confissão de J. J. Rousseau. – Refutam-se estes três erros.

Gozar plenamente do que temos amado pura e santamente na terra, eis para nós o Céu. Gozar de Deus constitui a bem-aventurança essencial.

Este gozo da criatura que nos tem sido mais querida, sem deixar de ser secundário, torna-se para a alma uma doce consolação, desde que a morte nos arrebata aqueles que mais amávamos; e Deus nos envia, para moderar nossos pesares, a esperança de torná-los a ver, de reconhecê-los, de amá-los ainda muito especialmente no Céu, e de receber deles também os testemunhos duma especial afeição.

Quantas vezes não tem servido esta esperança de remédio a vossas feridas e de alívio a vossas dores?

Mas, eis que muitas pessoas, aquelas mesmas cujos lábios devem guardar a ciência e cujo coração deve ser o depositário da lei (Malach. II, 7) ousaram primeiramente dizer-vos que não nos reconheceríamos no outro mundo, nem mesmo no Paraíso; depois repreenderam, como uma imperfeição, o vosso vivo desejo de possuir no Céu, além do Criador, certas pessoas ternamente queridas, vosso esposo e vossos filhos.

Finalmente, fazem crer ao mundo que a perfeição cristã, mais ainda a vida religiosa, esgota no coração humano a fonte da sensibilidade, para deixá-lo seco e gelado para com seus pais, irmãos ou irmãs e seus amigos.

No Céu tudo se esquece em Deus, dizem elas. Deus não vos será suficiente? Os santos nunca amaram senão a Deus, chamado pela Escritura um Deus cioso (Exod., XXXIV, 14). Continuar lendo

NO CÉU NOS RECONHECEREMOS – PRIMEIRA CARTA – PARTE 1

Resultado de imagem para céu catolicoEstado da questão

É permitido afligir-nos pela morte dos nossos parentes, contanto que não cessemos de esperar. – Testemunho de Santo Agostinho. – Prática da Igreja – Palavras de S. Paulino. – Exemplo de Jesus Cristo.

SENHORA,

A morte descarregou o seu terrível golpe junto de vós, sobre as pessoas que vos eram mais caras. A vossa dor é extrema, e é legítima, ainda que não duvideis da eterna salvação daqueles cuja falta lamentais.

Por que motivos vos será proibido chorar por vossos parentes e amigos que adormecem no Senhor, contanto que, seguindo o conselho do Apóstolo, vos não entristeçais como os que não têm esperança? (I Thess. IV 12).

Santo Agostinho comentava assim estas palavras:

“É natural entristecermo-nos com a morte daqueles que nos são caros, pois que a natureza tem horror à morte, e a fé nos ensina que ela é um castigo do pecado.

A tristeza é uma necessidade: Hinc itaque necesse est ut tristes simus, quando aqueles que amamos deixam de existir. Porque, ainda que saibamos que nos não abandonam para sempre, como aconteceria se devêssemos ficar sempre na terra, mas que nos precedem pouco tempo, porque estamos destinados a segui-los talvez muito breve; todavia, como não contristaria o sentimento do nosso amor a inexorável morte que se apodera do nosso amigo?

Que seja permitido, pois, aos corações amantes entristecerem-se com a morte das pessoas amadas, contanto que haja um remédio para esta dor e uma consolação para estas lágrimas, na alegria que a fé nos faz gozar, assegurando-nos da sorte de nossos queridos defuntos, que se apartam somente por algum tempo de nós e passam a melhor vida.”[2] Continuar lendo

NO CÉU NOS RECONHECEREMOS – INTRODUÇÃO – VANTAGENS DESTA PUBLICAÇÃO

Resultado de imagem para céu catolicoEsta esperança é-nos dada ainda por Monsenhor Wicart, Bispo de Laval:

“Li, diz ele, com muito prazer e fruto o seu livro – No Céu nos Reconheceremos.

Continuai, meu bom Padre, a escrever obras tão piedosas e atraentes ao mesmo tempo; muitas pessoas vos deverão a felicidade de se resolverem a marchar com passo firme no caminho que conduz à pátria celeste, onde se tornarão a encontrar para viverem eternamente em Deus”.

O sr. Hamon, pároco de S. Sulpício, escrevia-nos assim:

“O seu agradável opúsculo é muito próprio para consolar tantas pobres almas aflitas, que, tendo gozado na terra a felicidade de amarem certas pessoas queridas, têm dificuldade em conceber que se possa ser feliz longe delas.

Sem dúvida, Deus só, basta ao coração; mas a parte sensível da nossa alma tem repugnância de se elevar a esta verdade; e se o conhecimento que tivermos uns dos outros no Céu não aumentar a felicidade essencial no seio de Deus, a esperança deste conhecimento aumentará imensamente a nossa consolação nesta vida. É o fim que vos propusestes, e que haveis perfeitamente conseguido.

O seu livro é, pois, uma boa obra, um verdadeiro ato de caridade que lhe agradeço pela minha parte”.

O bem que produziu este opúsculo prova-se por cinqüenta mil exemplares em língua francesa, espalhados no espaço de quatro anos; pelas numerosas traduções feitas no estrangeiro; pelos novos opúsculos que suscita cada ano sobre o mesmo objeto, e por fatos que nos têm sido contados muitas vezes. Continuar lendo

A GLÓRIA IMENSA QUE GOZAM NO CÉU OS RELIGIOSOS

ceuOmnis qui reliquerit domum, vel fratres, aut sorores, aut patrem, aut matre… propter nomem meum, centuplum accipiet, et vitam aeternam possidebit – “Todo o que deixar por amor de meu nome, ou os irmãos, ou as irmãs, ou o pai, ou a mãe… receberá o centuplo, e possuirá a vida eterna” (Matth. 19, 20).

Sumário. O paraíso é chamado coroa de justiça, porque ali o Senhor premia conforme o merecimento de cada um. Considera, portanto, qual será a glória reservada aos bons religiosos que sacrificaram tudo por amor de Deus e em particular a própria vontade que é o sacrifício mais agradável. Um religioso ganha pela observância de sua regra mais em um mês do que uma pessoa secular ganha num ano inteiro por todas as suas mortificações e orações.

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Considera em primeiro lugar que o religioso, morrendo em sua ordem, dificilmente se condena. Diz São Bernardo: “É fácil o caminho da cela ao céu. Raras vezes alguém desce da cela ao inferno.” A razão disso é, como diz o Santo, que “dificilmente um religioso persevera até à morte se não é do número dos eleitos ao paraíso”. Pelo que São Lourenço Justiniano chamava a religiãoporta do paraíso, grande sinal de predestinação.

Considera, além disto, que no dizer do Apóstolo, o paraíso é coroa de justiça; porque Deus, ainda que remunere todas as nossas boas obras mais abundantemente do que elas merecem, todavia premia à proporção dos merecimentos de cada um: Reddet unicuique secundum opera eius (1) – “Retribuirá a cada um segundo as suas obras“. Disso se pode concluir quão grande será a recompensa que Deus dará no céu aos bons religiosos se atenderdes aos grandes merecimentos que eles todos os dias vão adquirindo. O religioso dá a Deus todos os bens que possuia na terra e se contenta em viver realmente pobre sem possuir coisa alguma. O religioso renuncia ao afeto dos parentes, dos amigos e da pátria, para se unir mais a Deus. O religioso mortifica-se continuamente privando-se de muitas coisas que poderia gozar no século. Continuar lendo

NO CÉU NOS RECONHECEREMOS – INTRODUÇÃO – JUÍZO QUE DELA FAZEM ALGUNS EMINENTES BISPOS E SACERDOTES

Resultado de imagem para céu catolicoMas conviria tratar um objeto tão mavioso em presença duma geração a quem o trovão da divina vingança e os estilhaços do raio dificilmente despertam do seu letargo?

Monsenhor Malou, Bispo de Burges, respondendo a um amigo, escrevia-lhe:

“Acabo de ler o opúsculo No Céu nos Reconheceremos. Pergunta-me o que penso a seu respeito. Todas as obras que tratam do Céu, da sua felicidade, da sua eternidade, etc., causam-me muito prazer, porque são estas que em nossos dias produzem nas almas o maior bem. Outrora recolhiam-se maiores frutos, ao que parece, falando da Morte, do Juízo e do Inferno. O temor tinha então mais poder do que o amor. Hoje o amor é mais poderoso para converter os corações.

É, pois, o amor que convém inspirar, não só para firmar os justos, mas também para converter os pecadores.

O objeto de que trata este livro é cheio de interesse. Responde a uma pergunta que as pessoas piedosas nos dirigem repetidas vezes: ‘Reconhecer-nos-emos no Céu?’ Sim, certamente, reconhecer-se-ão reciprocamente as almas e se amarão, e este amor fará parte da felicidade acidental do Céu. Segundo a minha opinião, o autor é exato e nada exagera. Se tem algum defeito, é, talvez, o de não ter esgotado o assunto de que se propôs tratar.”

O autor diz que o sábio prelado entra, depois disto, em considerações que lhe teriam sido dum grande auxílio se quisesse tratar este assunto debaixo doutro ponto de vista e com mais extensão; mas que, por uma parte, pessoas muito autorizadas o aconselharam a conservar neste opúsculo a sua primitiva filosofia; e que, por outra, a nobre senhora, a quem foram dirigidas estas cartas de consolação, tinha rendido naquela ocasião a sua bela alma a Deus, e que por isso lhe não era permitido acrescentar novas cartas às antigas, mas que unicamente lhe parecera conveniente completar estas, porque junto às orações que vão no fim deste opúsculo, lhe aumentarão muito interesse. Continuar lendo