PRIMEIRO DOMINGO DO ADVENTO: A TEMERIDADE DO PECADOR E O DIA DO JUÍZO

Resultado de imagem para juizo finalVidebunt Filium hominis venientem in nube cum potestate magna et maiestate — “Verão o Filho do homem que virá sobre uma nuvem com grande poder e majestade” (Luc. 21, 27).

Sumário. Uma consideração séria nos ensina que não há atualmente no mundo pessoa mais desprezada de que Jesus Cristo; pois é injuriado tão continuamente e com tão desenfreada liberdade, como não o seria o mais vil dos homens. Eis porque o Senhor destinou um dia, no qual virá, com grande poder e majestade, a reivindicar a sua honra. Recorramos agora ao trono da divina misericórdia, para que naquele dia não sejamos condenados pela justiça de Deus.

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I. Considerando bem, não há no mundo atualmente quem seja mais desprezado que Jesus Cristo. Trata-se com mais consideração um aldeão ao ver-se por demais ofendido incessantemente e de caso pensado, como se não pudesse vingar-se quando quisesse. Por isso o Senhor marcou um dia (chamado com razão, na Escritura Sagrada, o dia do Senhor, Dies Domini), quando vai dar-se a conhecer tal como é: Cognoscetur Dominus iudicia faciens (1). Diz São Bernardo, explicando este texto: O Senhor será conhecido quando vier a fazer justiça, ao passo que agora, porque quer usar de misericórdia, é desconhecido. Então esse dia não mais se chama de misericórdia e de perdão, senão dia de ira, dia de tribulação e de angústia, dia de calamidade e de miséria (2).

Conforme nos ensina o Evangelho de hoje, esse dia será precedido de sinais pavorosos. “Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas; na terra os povos estarão angustiados sob o rugido surdo e confuso do mar e das ondas; os homens morrerão com medo dos males que hão de vir sobre o mundo. Por fim, as virtudes dos céus (isto é, na interpretação dos Padres, os nove coros dos Anjos) se comoverão, e então se verá aparecer sobre as nuvens o Filho do homem, com grande poder e majestade”, a reivindicar a glória que os pecadores nesta terra lhe quiseram tirar.

Diz Santo Tomás: “Se, no horto de Getsêmani, com as palavras de Jesus Cristo: Ego sum, caíram por terra todos os soldados que O tinham vindo prender, que será, quando Jesus, sentado para julgar, disser aos condenados: “Aqui estou, sou eu aquele a quem tanto haveis desprezado”…; que será quando pronunciar contra eles a sentença eterna: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno! — Discedite a me, maledicti, in ignem aeternum! (3)”

II. O dia do Juízo, assim como será para os réprobos um dia de pena e de terror, será, ao contrário, para os escolhidos um dia de regozijo e triunfo; porque, então, à vista de todos os homens, as suas beatas almas serão proclamadas rainhas do paraíso e feitas esposas do Cordeiro imaculado. Oh! Que ventura experimentarão os bem-aventurados, quando Jesus, voltando-se para a direita, lhes disser: “Vinde, meus benditos filhos, vinde possuir o reino dos céus que vos foi preparado: possidete paratum vobis regnum!” (4)

Irmão meu, o que será de ti naquele dia? São Jerônimo, quando passava os dias na Gruta de Belém, em continuas orações e mortificações, tremia só em pensar no Juízo universal. O venerável P. Juvenal Ancina, lembrando-se do Juízo ao ouvir cantar a seqüência da Missa de defuntos, Dies irae, dies illa, deixou o mundo e fez-se religioso. E tu, o que fazes para mereceres no dia do Juízo as bênçãos divinas, em companhia dos escolhidos?

Com o intuito de nos preparar para o Santo Natal, a Igreja propõe hoje o Juízo à nossa meditação. Sabendo que Nosso Senhor, na sua primeira vinda, apareceu num trono de graça e que na segunda aparecerá num trono de justiça rigorosíssima, quer que procuremos agora recorrer a Jesus afim de experimentarmos os efeitos de sua infinita misericórdia. Aproximemo-nos com confiança do trono de graça: Adeamus ergo cum fidúcia ad thronum gratiae (5).

Ah! Jesus meu e meu Redentor, Vós que um dia haveis de ser o meu juiz: perdoa-me antes que chegue esse dia. Agora, sois meu Pai, e como tal recebeis na vossa graça um filho que, arrependido, se prostra a vossos pés. Meu Pai, eu Vos amo de todo o meu coração e no futuro não me quero mais afastar de Vós, não quero mais ter a temeridade de voltar a ofender-Vos.

Mas já que conheceis a minha fraqueza, ajudai-me com a vossa graça. “Excitai, Senhor, o vosso poder e vinde em meu auxílio, a fim de que, mediante a vossa proteção, livrado dos perigos iminentes por causa de meus pecados, mereça ser salvo por Vós.” (6) Fazei-o pelo amor de Maria Santíssima. (*II 113.)

  1. Sal. 9, 17.
    2. Soph 1, 15.
    3. Matth. 25, 41.
    4. Matth. 25, 34.
    5. Hebr. 4, 16.
    6. Or. Dom. curr.

Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I – Santo Afonso

A RESSURREIÇÃO DOS CORPOS NO DIA DO JUÍZO

ressEcce mysterium vobis dico: Omnes quidem resurgemus, sed non omnes immutabimur – “Eis que vos digo um mistério: todos certamente ressuscitaremos, mas nem todos seremos mudados” (1 Cor 15, 51)

Sumário. Mortos todos os homens, a trombeta soará e todos ressuscitarão. Todos retomarão o mesmo corpo com que serviram a Deus nesta terra, ou o ofenderam. Que diferença haverá entre os corpos dos escolhidos e dos réprobos! Estes serão negros, horrendos e nauseabundos; aqueles serão alvos, belos e mais resplandecentes que o sol. Meu irmão, qual será a tua sorte nesse dia?… Se quisermos que o nosso corpo apareça dignamente ao lado dos Bem-aventurados, apliquemo-nos a mortificá-lo e a guardá-lo pela penitência, sujeito à alma.

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O Juízo universal será precedido do fogo do céu que devorará a terra e todos os homens que então viverem: Terra et quae in ipsa sunt opera exurentur (1) – “A terra será presa do fogo, com todas as obras que nela se contém”. Palácios, campos, cidades, reinos, tudo deverá ser reduzido a um montão de cinzas. É preciso que esta infecionada habitação dos pecados seja purificada pelo fogo. Eis como deve ser o fim de todas as riquezas, pompas e delícias deste mundo. – Mortos todos os homens, a trombeta soará e todos ressuscitarão: Canet enim tuba, et mortui resurgent(2). Dizia São Jerônimo:

“Todas as vezes que penso no dia do Juízo, tremo pelo corpo todo; julgo ouvir a cada instante esta terrível trombeta: Ressuscitai, ó mortos, vinde ao juízo.”

Ao som desta trombeta, as almas gloriosas dos bem-aventurados descerão do céu, para se unirem aos corpos com que serviram a Deus nesta vida; e as almas infelizes dos condenados subirão do inferno para se unirem aos corpos malditos, com que ofenderam a Deus. – Oh! Que diferença haverá então entre os corpos dos bem-aventurados e os dos réprobos! Os bem-aventurados aparecerão belos, puros, resplandecentes como o sol: Tunc fulgebunt iust sicut sol (3). Feliz de quem nesta vida sabe mortificar a carne, recusando-lhe os prazeres proibidos; ou, para a refrear mais, lhe recusa até os gozos permitidos, como fizeram os santos! Como estará então contente por ter vivido assim um São Pedro de Alcântara, que depois da morte disse a Santa Teresa: Continuar lendo

A ALMA CULPADA DIANTE DO JUIZ DIVINO

juizoOmnes nos manifestari oportet ante tribunal Christi – “Todos nós devemos manifestar-nos diante do tribunal de Cristo” (2 Cor. 5, 10).

Sumário. Têm-se visto criminosos banhados em suor frio, na presença de um juiz terrestre. Que maior terror não deve sentir o pecador diante do tribunal de Jesus Cristo? Ó céus! Verá acima de si o Juiz irritado, por baixo o inferno aberto, a um lado os pecados que o acusam, ao outro os demônios armados para o seu suplício. O Bem-aventurado Juvenal Ancina, impressionado por esta grande verdade, resolveu deixar o mundo e fez-se religioso. Meu irmão, o que farás? Continuarás a viver em teu estado de tibieza?

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É sentimento comum entre os teólogos, que o juízo particular se faz logo que o homem expira, e que no próprio lugar onde a alma se separa do corpo, aí é julgada por Jesus Cristo, que não manda alguém em seu lugar, mas vem ele mesmo para a julgar. Qual não será o espanto daquele que, vendo pela primeira vez seu Redentor, o vir indignado!

Ante faciem indignationis eius quis stabit? (1) – “Diante da face de sua indignação quem é que poderá subsistir?” Este pensamento causava tal estremecimento ao Padre Luiz Dupont, que fazia tremer consigo a cela onde se achava. O Bem-aventurado Juvenal Ancina, ouvindo cantar o Dies irae, e pensando no terror que se há de apoderar da alma ao comparecer em juízo, resolveu deixar o mundo, o que efetivamente fez. – O aspecto do Juiz indignado será o anúncio da condenação: Indignatio regis, nuntii mortis (2). Segundo São Bernardo, será maior sofrimento para a alma ver Jesus Cristo indignado do que estar no inferno.

Têm-se visto criminosos banhados em suor frio na presença de um juiz terrestre. Pison, comparecendo no senado em traje de réu, sentiu tamanha confusão, que a si próprio se deu a morte. Que pena não é para um filho ou para um vassalo ver seu pai ou seu príncipe indignado! Que maior mágoa não deve sentir a alma à vista de Jesus Cristo, a quem desprezou durante toda a vida! Videbunt in quem transfixerunt (3) – “Verão aquele a quem traspassaram”. Esse Cordeiro, tão paciente durante a vida do pecador, então mostrar-se-lhe-á irritado, sem esperança de se deixar aplacar. Pelo que a alma pedirá às montanhas que a esmaguem e a furtem às iras do Cordeiro indignado: Montes, cadite super nos, abscondite nos ab ira Agni (4). Continuar lendo

OITAVO DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES: O FEITOR INFIEL E O DIA DAS CONTAS

feitRedde rationem villicationis tuae; iam enim non poteris villicare – “Dá conta da tua administração; já não poderás ser meu feitor” (Luc. 16, 2).

Sumário. De todos os bens que temos recebido de Deus, não somos donos, senão simplesmente administradores; e na hora da morte teremos de dar contas exatas a Jesus Cristo, o juiz inexorável. É o que nos ensina a parábola proposta no Evangelho deste dia. Examinemos, pois, que uso temos feito até hoje dos talentos recebidos e dos bens da graça, e se acharmos que estivemos em falta, tomemos a resolução de nos emendar quanto antes. Quem sabe, meu irmão, dentro de que breve tempo se nos dirá também: Redde rationem – “Dá conta“?

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I. Dos bens que temos recebido de Deus, nós não somos donos, de maneira que possamos dispor deles a nosso bel prazer, mas somente administradores. Devemos, pois, empregá-los segundo a vontade de Deus e dar à hora da morte conta deles a Jesus Cristo, o juiz inexorável — É isto o que, no dizer dos santos Padres, significa a parábola que no Evangelho deste dia o Senhor propõe à nossa consideração.

“Havia um homem rico”, diz Jesus, “que tinha um administrador, do qual lhe denunciaram que dissipava seus bens. Chamando-o, disse-lhe: Que ouço dizer de ti? Dá conta de tua gestão, porque d’aqui em diante não poderás mais ser administrador.”

Pára aqui um pouco e considera o rigor do juízo divino. Os santos, posto que tivessem feito o melhor uso possível dos talentos que lhes foram confiados e os houvessem feito frutificar, uns dois por um, outro cinco, outro dez (1); posto que tivessem empregado todo o tempo da sua vida em preparar o livro das contas, todavia, quando estavam para passar desta vida para a eternidade, julgaram nada terem feito e tremiam. Continuar lendo

DO JUÍZO UNIVERSAL – PONTO III

Resultado de imagem para juízo universalComeçará o julgamento, abrindo-se os autos do processo, isto é, as consciências de todos (Dn 7,10). Os primeiros testemunhos contra os réprobos serão do demônio, que dirá — segundo Santo Agostinho:

“Justíssimo juiz, sentencia, que são meus aqueles que não quiseram ser teus”

A própria consciência dos homens os acusará depois (Rm 2,15). A seguir, darão testemunho, clamando vingança, os lugares em que os pecadores ofenderam a Deus (Hb 2,11). Virá, enfim, o testemunho do próprio Juiz que esteve presente a quantas ofensas lhe fizeram (Jr 29,23). Disse São Paulo que naquele momento o Senhor “porá às claras o que se acha escondido nas trevas” (1Cor 4,5). Descobrirá, então, ante os olhos de todos os homens as culpas dos réprobos, até as mais secretas e vergonhosas que em vida eles ocultaram aos próprios confessores (Na 3,5). Os pecados dos eleitos, no sentir do Mestre das Sentenças e de outros teólogos, não serão manifestados, mas ficarão encobertos, segundo estas palavras de David:

“Bem-aventurados aqueles, cujas iniquidades foram perdoadas, e cujos pecados são apagados” (Sl 31,1).

Pelo contrário — disse São Basílio — as culpas dos réprobos serão vistas por todos, ao primeiro relancear d’olhos, como se estivessem representadas num quadro. Exclama São Tomás, “Se no horto de Getsêmani, ao dizer Jesus: Sou eu, caíram por terra todos os soldados que vinham para o prender, que sucederá quando, sentado no seu trono de Juiz, disser aos condenados: “Aqui estou, sou aquele a quem tanto haveis desprezado!”

Chegada a hora da sentença, Jesus Cristo dirá aos eleitos estas palavras, cheias de doçura:

“Vinde, benditos de meu Pai, e possuí o reino que vos está preparado desde o princípio do mundo” (Mt 25,34). Continuar lendo

DO JUÍZO UNIVERSAL – PONTO II

Resultado de imagem para juízo universalAssim que os mortos ressuscitarem, farão os anjos que se reúnam todos no vale de Josafá para serem julgados (Jl 3, 14) e separarão ali os justos dos réprobos (Mt 13, 49). Os primeiros ficarão à direita; os condenados, à esquerda… Profunda mágoa sente quem se vê separado da sociedade ou da Igreja. Quanto maior será a dor de ver-se banido da companhia dos Santos! Que confusão experimentarão os ímpios, quando, apartados dos justos, se sentirem abandonados!. Disse São João Crisóstomo que, se os condenados não tivessem de sofrer outras penas, essa confusão bastaria para dar-lhes os tormentos do inferno.

Haverá filhos separados de seus pais; esposos, de suas esposas; amos, de seus servos… (Mt 24, 40) Dize-me, meu irmão, em que lugar crês que te acharás então?… Queres estar à direita? Abandona, portanto, o caminho que conduz à esquerda.

Neste mundo, têm-se por felizes os príncipes e os ricaços, e se desprezam os Santos, os pobres e os humildes… Ó cristãos fiéis, que amais a Deus! Não vos aflijais por viverdes tão atribulados e vilipendiados neste mundo.

“Vossa tristeza se converterá em gozo” (Jo 16, 20)

Então verdadeiramente sereis chamados bem-aventurados e tereis a honra de ser admitidos à corte de Cristo. Em que celestial formosura resplandecerá um São Pedro de Alcântara, que foi injuriado como apóstata; um São João de Deus, escarnecido como louco; um São Pedro Celestino, que, renunciando ao Pontificado, morreu num cárcere! Que glória alcançarão tantos mártires entregues outrora à crueza dos verdugos! (1Cor 4,5). Que horrível figura, pelo contrário, fará um Herodes, um Pilatos, um Nero e outros poderosos da terra, condenados para sempre!… Ó amigos e cortejadores deste mundo! Ide para o vale, naquele vale vos espero. Ali, sem dúvida, mudareis de parecer; ali, chorareis vossa loucura. Infelizes! Tendes de representar um brevíssimo papel no palco deste mundo e preferis o de réprobos na tragédia do juízo universal! Os eleitos serão colocados à direita, e para maior glória — segundo afirma o Apóstolo — serão elevados aos ares, acima das nuvens, e esperarão com os anjos a Jesus Cristo, que deve descer do céu (1Ts 4, 17). Os réprobos, à esquerda, como reses destinadas ao matadouro, aguardarão o Supremo Juiz, que há de tornar pública a condenação de todos os seus inimigos. Continuar lendo

DO JUÍZO UNIVERSAL – PONTO I

Imagem relacionadaCognoscetur Dominus judicia faciens – “Conhecido será o Senhor, que faz justiça” (Sl 9, 17)

Não há neste mundo, quando bem se considera, pessoa mais desprezada que Nosso Senhor Jesus Cristo. Respeita-se mais a um aldeão que o próprio Deus; porque se teme que esse aldeão, vendo-se injuriado e oprimido, se vingue, movido por violenta cólera. Mas a Deus se ofende e se ultraja sem receio, como se não pudesse castigar quando quisesse (Jó 22, 17).

Por isso, o Redentor destinou o dia do juízo universal (chamado com razão, na Escritura, o dia do Senhor), no qual Jesus Cristo se fará reconhecer por todos como universal e soberano Senhor de todas as coisas (Sl 9,17). Esse dia não se chama dia de misericórdia e perdão, mas “dia da ira, da tribulação e da angústia, dia de miséria e calamidade” (Sf 1, 15). Nele o Senhor se ressarcirá justamente da honra e da glória que os pecadores quiseram arrebatar-lhe neste mundo. Vejamos como há de suceder o juízo nesse grande dia.

A vinda do divino Juiz será precedida de maravilhoso fogo do céu (Sl 96,3), que abrasará a terra e tudo quanto nela exista (2Pd 3,10).

Palácios, templos, cidades, povos e reinos, tudo se reduzirá a um montão de cinzas. É mister purificar pelo fogo esta grande casa, contaminada de pecados. Tal é o fim que terão todas as riquezas, pompas e delícias da terra. Mortos os homens, soará a trombeta e todos ressuscitarão (1Cor 15,52). Dizia São Jerônimo: Continuar lendo

TEMOS DE ESCOLHER ENTRE UMA ETERNIDADE FELIZ E OUTRA INFELIZ

escolhaAnte hominem vita et mors, bonum et malum; quod placuerit ei dabitur illi — «Diante do homem estão a vida e a morte, o bem e o mal; o que lhe agradar, isso lhe será dado» (Ecle. 15, 18).

Sumário. Deus quer certamente que todos os homens se salvem, mas não à força. Por isso Deus põe diante de nós dois caminhos a seguir, deixando a escolha a cada um. Mas, como poderá chegar ao céu quem quiser seguir o caminho do inferno? Avivemos a nossa fé; examinemos atentamente aonde nos leva o caminho trilhado até hoje, e tomemos desde já as providências para nos assegurar a salvação eterna. Deixemos, se for necessário, o mundo: São pequenas todas as cautelas, quando corre risco a eternidade.

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Deus quer certamente que todos os homens se salvem, mas não quer que nos salvemos à força. Deus, diz o Eclesiástico, pôs diante de cada um a vida e a morte; ser-nos-á dado o que escolhermos: Quod placuerit ei dabitur illi. Jeremias diz igualmente que o Senhor pôs diante de nós dois caminhos a seguir, o do céu e o do inferno: Ego do coram vobis viam vitae et viam mortis[1]. — Por isso está escrito: O homem irá para a casa de sua eternidade. Deus diz: ibit, ele irá, para significar que cada qual se dirigirá à morada que escolher; não será levado, mas irá por sua própria vontade. Mas como poderá chegar ao paraíso, o que quer seguir o caminho do inferno?

Coisa estranha! todos os pecadores se querem salvar, e entretanto se condenam por si próprios ao inferno, dizendo sempre: Espero salvar-me. Quem seria tão louco, diz Santo Agostinho, que quisesse tomar veneno na esperança de se curar? Nemo vult aegrotare sub spe salutis. No entanto, quantos cristãos, quantos insensatos se dão à morte pelo pecado, dizendo: Mais tarde pensarei no remédio. Ó funesta ilusão, que tantas almas tem arrastado ao inferno!… Não sejamos tão insensatos; e lembremo-nos de que se trata da eternidade.

Quanto trabalho se não dão os homens para se construírem uma casa cômoda, bem arejada, num sítio salubre, pela lembrança que nela hão de passar toda a vida! Porque, pois, são tão descuidados, quando se trata da casa que lhes será morada eterna? Negotium pro quo contendimus, aeternitas est — «O negócio pelo qual trabalhamos», diz Santo Eucherio, «é a eternidade». Não se trata de uma casa mais ou menos cômoda, mais ou menos arejada: trata-se de habitar, ou num lugar cheio de delícias entre os amigos de Deus, ou no abismo de todos os tormentos entre a chusma infame de tantos celerados, hereges e idólatras. — E isto por quanto tempo? Não por vinte ou quarenta anos, mas por toda a eternidade. É um negócio de alta monta! Não é negócio de somenos; é tudo para nós. Continuar lendo

DO JUÍZO PARTICULAR – PONTO III

Imagem relacionadaEm resumo: para que a alma consiga a salvação eterna, o juízo há de patentear que a vida dessa alma fora conforme a vida de Cristo.

É o que fazia tremer Jó, quando exclamava:

“Que farei quando Deus se levantar a julgar? E quando me perguntar, que lhe responderei?” (Rm 8,29)

Repreendendo Filipe II um de seus criados, que o tinha enganado, disse-lhe apenas estas palavras: É assim que me enganas?…

Aquele infeliz, ao voltar à sua casa, morreu de pesar. Que fará pois, e que responderá o pecador a Jesus Cristo, seu juiz? Fará como aquele homem do Evangelho, que se apresentou ao banquete sem a veste nupcial. Não soube o que responder e calou-se (Mt 22,12). As próprias culpas lhe fecharam a boca (Sl 106,42). A vergonha — diz São Basílio — será então para o pecador maior tormento que as próprias chamas infernais.

Finalmente, o juiz pronunciará a sentença:

“Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno!”

Quão terrivelmente ressoará aquele trovão — exclama Dionísio, o Cartuxo…

“Quem não treme à consideração dessa horrenda sentença — observa Santo Anselmo — não está dormindo, mas morto”.

Santo Eusébio acrescenta que será tão grande o terror dos pecadores ao ouvir a sua condenação, que se não fossem já imortais morreriam de novo. Então, — como escreve São Tomás de Vilanova, — já não será tempo de suplicar, já não haverá intercessores a quem recorrer. A quem, efetivamente, hão de recorrer?… Porventura, a seu Deus a quem desprezaram?. Talvez aos Santos, à Virgem Maria?… Continuar lendo

DO JUÍZO PARTICULAR – PONTO II

Resultado de imagem para juízo particularConsidera a acusação e o exame:

“Começou o juízo e os livros foram abertos” (Dn 7,10)

Haverá dois livros: o Evangelho e a consciência.

Naquele, ler-se-á o que o réu devia fazer; nesta, o que fez. Na balança da divina justiça não se pesarão as riquezas, nem as dignidades e a nobreza das pessoas, mas somente suas obras.

“Foste pesado na balança — diz Daniel ao rei Baltasar — e achado demasiadamente leve” (Dn 5,27)

Quer dizer, segundo o comentário do Padre Álvares, que “não foram postos na balança o ouro e as riquezas, mas unicamente a pessoa do rei”. Virão logo os acusadores e em primeiro lugar o demônio.

“O inimigo estará ante o tribunal de Cristo, — disse Santo Agostinho — e referirá as palavras de tua profissão”. “Recordar-nos-á tudo quanto temos feito, o dia e a hora em que pecamos”

Referir as palavras de nossa profissão significa que apresentará todas as promessas que fizemos, que esquecemos e, por conseguinte, deixamos de cumprir. Denunciar-nos-á nossas faltas, designando os dias e as horas em que as cometemos. Depois dirá ao juiz:

“Senhor, eu não sofri nada por este réu; mas ele vos abandonou, a vós que destes a vida para salvá-lo, e se fez meu escravo. É a mim que ele pertence…” Continuar lendo

DO JUÍZO PARTICULAR – PONTO I

Resultado de imagem para juízo particularOmnes nos manifestari oportet ante tribunal Christi – “Porque é necessário que todos nós compareçamos diante do tribunal de Cristo” (2 Cor 5, 10)

Consideremos o comparecimento do réu, a acusação, o exame e a sentença deste juízo. Primeiramente, quanto ao comparecimento da alma perante o juiz, dizem comumente os teólogos que o juízo particular se efetua no mesmo instante em que o homem expira, que no próprio lugar onde a alma se separa do corpo é julgada por Nosso Senhor Jesus Cristo, o qual não delega seu poder, mas vem ele mesmo julgar esta causa.

“Na hora que não cuidais, virá o Filho do homem” (Lc 12,40).

“Virá com amor para os fiéis — disse Santo Agostinho — e com terror para os ímpios”.

Qual não será o espanto daquele que, vendo pela primeira vez o seu Redentor, vir também a indignação divina!

“Quem poderá subsistir ante a face de sua indignação?” (Na 1,6)

Meditando nisto, o Padre Luís de la Puente estremecia de tal modo, que a cela em que se achava tremia com ele. O venerável Padre Juvenal Ancina se converteu ao ouvir cantar o Dies irae, porque, considerando o terror que se apodera da alma quando se apresentar em juízo, resolveu deixar o mundo, o que efetivamente fez.

A indignação do juiz será prenúncio de eterna condenação (Pr 16,14); e fará sofrer mais as almas que as próprias penas do inferno, segundo afirma São Bernardo. Têm-se visto criminosos banhados em copioso suor frio na presença dos juízes terrestres. Pison, em traje de réu, comparecendo no senado, sentiu tamanha confusão e vergonha, que ali mesmo se deu a morte. Que aflição profunda sente um filho ou um bom vassalo quando vê seu pai ou seu amo gravemente indignado!… Mágoa muito maior sentirá a alma quando vir indignado a Jesus Cristo, a quem desprezou! (Jo 19,37). Irritado e implacável, então, se lhe apresentará esse Cordeiro divino, que foi no mundo tão paciente e amoroso, e a alma, sem esperança, clamará aos montes que caiam sobre ela e a ocultem à indignação de Deus (Ap 6,16). Falando do juízo, disse São Lucas: Continuar lendo

A SENTENÇA DA ALMA CULPADA NO JUÍZO PARTICULAR

Resultado de imagem para morte pecadorDiscedite a me, maledicti, in ignem aeternum, qui paratus est diabolô et angelis eius – “Apartai-vos de mim, malditos para o fogo eterno, que está aparelhado para o diabo e os seus anjos” (Matth. 25, 41).

Sumário. Desgraçada da alma cuja vida no juízo não for achada conforme à de Jesus Cristo! Sem demora, o divino Juiz pronunciará contra ela a sentença de condenação eterna – Aparta-te de mim, maldita, para ires arder eternamente no fogo. Meu irmão, agora vivemos em segurança e com indiferença ouvimos falar do juízo; mas quantos há que assim viveram e agora estão no inferno! E quem nos assegura que o mesmo não sucederá conosco? Se a morte nos surpreendesse na primeira noite, qual seria a nossa sentença?

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Desgraçada da alma cuja vida no juízo não for achada conforme à de Jesus Cristo! Tendo um dos cortesãos de Filipe II dito uma mentira a seu amo, este o repreendeu dizendo: “É assim que me enganas?” O desgraçado, ao voltar à casa, morreu de pesar. Que fará pois, que responderá o pecador a Jesus Cristo, seu Juiz?… Fará como aquele homem do Evangelho que, apresentando-se no banquete nupcial sem o vestido conveniente, se calou, não sabendo que responder: At ille obmutuit(1). O próprio pecado lhe fechará a boa e o cobrirá de tal forma de vergonha, que, no dizer de São Basílio, a confusão será então para o pecador um tormento mais horrível que o fogo do inferno.

O divino Juiz pronunciará sem demora a sentença inapelável: Discedite a me, maledicti, in ignem aeternum – “Aparta-te de mim, maldito, e vai arder para sempre no fogo eterno.” Oh, que voz aterradora será esta! Santo Anselmo diz que, “quem não treme a uma voz tão terrível, não dorme, mas está morto”. E Eusébio acrescenta que “tamanho será o espanto dos pecadores ao ouvirem a sua condenação, que morreriam de novo, se pudessem morrer outra vez”.

Então já não há suplicar, já não há recorrer a intercessores. Com efeito, a quem recorrerão? Pergunta São Basílio. Porventura a Deus, a quem desprezaram? Aos Santos? Ou a Maria? Não, pois que então as estrelas, que são os Santos, nossos advogados, cairão do céu; e a lua, quer dizer Maria, perderá a sua luz (2). Diz Santo Agostinho: Maria fugirá da porta do paraíso. – Ó Deus, exclama Santo Tomás de Vilanova, com que indiferença ouvimos falar do juízo, como se não pudesse ser nossa a sentença de condenação, ou como se não tivéssemos de ser julgados! Oh! Que demência é viver seguro em tamanho perigo! Se a morte nos colhesse neste instante, que sorte havia de ser a nossa? Continuar lendo

ACUSAÇÃO DA ALMA NO JUÍZO PARTICULAR

juizoQuid faciam, cum surrexerit ad iudicandum Deus? Et cum quaesierit, quid respondebo illi? – “Que farei quando Deus se levantar para me julgar? E quando me perguntar, que lhe responderei?” (Iob 31, 14.)

Sumário. Logo que o homem expira, assentar-se-á contra ele o juízo. Virão depois os acusadores, particularmente o demônio, que o tentou durante a vida e o Anjo da guarda, cujas inspirações desprezou. Jesus Cristo mesmo, que a tudo esteve presente, será, ao mesmo tempo, testemunha e juiz. Dize-me: que responderemos a tais acusadores se tivermos a desgraça de morrer em pecado?… E se a morte nos colhesse nesta noite, qual seria a nossa sentença?

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Logo que o homem expira, assentar-se-á contra ele o juízo e serão abertos os livros (1). Esses livros serão dois: o Evangelho e a consciência. No Evangelho se lerá o que o culpado devia fazer; na consciência, o que tiver feito. – Na balança da divina justiça, não se pesarão as riquezas, nem a dignidade, nem a nobreza das pessoas, mas tão somente as obras. Pelo que Daniel disse ao rei Baltazar: Appensus es in statera, et inventus es minus habens (2) – “Foste pesado na balança e achou-se que tinhas menos do peso”. Notai bem, comenta o Padre Alvarez: não é o ouro, nem o poder de rei que está na balança, mas unicamente a sua pessoa.

Virão depois os acusadores e em primeiro lugar o demônio. O espírito maligno agora engana-nos com mil astúcias; mas ali, diz Santo Agostinho, perante o tribunal de Jesus Cristo: recitabit verba professionis nostrae, representará todas as obrigações que havíamos assumido e deixado de cumprir. Obiciet in faciem nostram, denunciar-nos-á todas as faltas, marcando o dia e a hora em que as cometemos. Depois, segundo diz o mesmo Santo, dirá ao Juiz: Senhor, por este culpado eu não sofri bofetadas como Vós, nem açoites, nem qualquer outro castigo e contudo ele Vos virou as costas, a Vós que morrestes pela sua salvação, para se fazer meu escravo; é, pois, justo que seja meu. Ordenais, pois, que seja todo meu, já que não quis ser vosso: Iudica esse meum qui tuus esse noluit.

Virá em seguida como acusador o Anjo da Guarda, que, na palavra de Orígenes, dirá: Senhor, durante tantos anos me empenhei junto dele, mas desprezou todas as minhas admoestações. Então sucederá o que diz Jeremias; os próprios amigos serão contra a alma culpada: Omnes amici eius spreverunt eum (3). Continuar lendo

QUEM DESEJA A SALVAÇÃO DEVE TEMER A CONDENAÇÃO

inferCum metu et tremore vestram salutem operamiui – “Trabalhai em vossa salvação com medo e tremor” (Phil. 2, 12).

Sumário. Avisa-nos São Paulo que devemos trabalhar em nossa salvação não só com medo, mas com tremor, visto que se trata da eternidade. Se na hora da morte estivermos na graça de Deus, tudo estará seguro: seremos felizes para sempre. Se, ao contrário, a morte nos achar em pecado mortal, com que desespero confessaremos: Desviei-me do caminho e já não há remédio em toda a eternidade! Meu irmão, aproveitemo-nos do aviso. Quem sabe se esta meditação não é para mim o último convite… Quem sabe se não morreremos repentinamente!

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São Paulo nos previne que devemos trabalhar em nossa salvação não só com medo, mas com tremor; porquanto quem não teme e treme pela sua salvação, não se salvará:Cum metu et tremore vestram salutem operamini. Um rei da Sicília, para fazer compreender a um simples cidadão o receio que o dominava no trono, o mandou sentar à mesa com uma espada suspensa por um fio delgado sobre a cabeça, de modo que, nesta terrível situação, mal podia comer um bocado. Coisa igual se dá conosco: todos nós estamos em semelhante perigo, pois que, de um instante para outro, pode cair sobre nós a espada da morte, da qual depende a nossa eterna salvação.

Trata-se da eternidade. Si ceciderit lignum ad austrum aut ad aquilonem, in quocumpque loco ceciderit, ibi erit (1) – “Se a árvore cair para a parte do sul ou para a do norte, em qualquer lugar onde cair, aí ficará”. Se na morte nos acharmos na graça de Deus, qual não será a alegria da alma, que então poderá dizer: “Tudo está seguro, já não posso mais perder a Deus, serei feliz para sempre!” Mas se a morte achar a alma em estado de pecado, com que desespero não exclamará: “Ergo erravimus! (2) Desviei-me do caminho e para a minha aberração já não há remédio em toda a eternidade!”

Foi este receio que fez o Bem-aventurado João de Ávila, apóstolo de Espanha, dizer quando lhe anunciaram a aproximação da morte: “Oxalá tivesse mais um pouco de tempo para me preparar para a morte!” Foi o mesmo temor que fez o Abade Agathon dizer, posto que morresse depois de longos anos de penitência: “Que será feito de mim? Quem conhece os juízos de Deus?” Santo Arsênio tremia igualmente à vista da morte, e perguntando-lhe seus discípulos a causa, respondeu: “Meus filhos, este temor não é novo em mim, tive-o sem cessar durante toda a minha vida.” Mais que ninguém tremia o santo homem Jó, quando exclamava: Quid faciam, cum surrexerit ad iudicandum Deus? (3) – “Que farei, quando o Senhor se levantar para me julgar? E Quando me interrogar, que lhe responderei?” E tu, meu irmão, que poderias responder a Jesus Cristo se ele te deixasse morrer neste instante e te chamasse perante o seu tribunal? Continuar lendo

A RESSURREIÇÃO DOS CORPOS NO JUÍZO UNIVERSAL

ressCanet tuba, et mortui resurgent incorrupti; et nos immutabimur — “A trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados” (I Cor. 15, 52).

Sumário. É um ponto da nossa fé que todos nós ressurgiremos; porém não todos de maneira igual, mas cada um segundo a vida que tiver levado em terra. Felizes de nós, se agora nos aplicarmos à mortificação do nosso corpo, a fim de guardá-lo submisso ao espírito. Retomá-lo-emos ressurgido segundo a medida da idade plena de Cristo e dotado de dons perfeitíssimos. Excederá o sol em claridade, na agilidade os ventos, e em sutileza e impassibilidade será igual aos anjos.

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Porque o último fim do homem é a beatitude e ventos, e em sutileza e impassibilidade será igual aos anjos.esta não se pode gozar na vida presente, o Senhor dispôs que se possa obter na outra, onde será eterna. O homem porém, no dizer de Santo Tomás, não seria plenamente feliz, se a alma não se unisse ao corpo, porquanto, sendo o corpo parte natural da natureza humana, a alma dele separada seria apenas uma parte do homem e não o homem inteiro. Por isso é que no derradeiro dia haverá a ressurreição universal: Canet tuba, et mortui resurgent — “A trombeta soará, e os mortos ressuscitarão”.

Ao som da trombeta as almas formosas dos bem-aventurados descerão do céu, para se unirem a seus corpos, com os quais serviram a Deus. Ressuscitarão, como diz São Paulo, em estado de homem perfeito, segundo a medida da idade plena de Cristo (1). Além de serem dotados de sentidos perfeitíssimos, os quais terão cada qual a sua recompensa particular, serão ornados de quatro qualidades ou dotes.

Em primeiro lugar, os corpos dos bem-aventurados serão impassíveis; por isso não somente estarão livres da morte e da corrupção, mas também de qualquer lesão, de sorte que, se fossem enviados ao inferno, nenhuma pena poderiam padecer. — Em segundo lugar serão sutis, isto é, como que espiritualizados, de forma que a alma governará o corpo à maneira de espírito, porque este lhe obedecerá perfeitamente. — Em terceiro lugar os corpos dos bem-aventurados serão ágeis, podendo ser movidos e levados pela alma para qualquer parte, sem obstáculo, com máxima e quase imperceptível ligeireza. — O quarto dote finalmente será a claridade, em virtude da qual o corpo glorificado despedirá de si uma luz admirável, muito mais brilhante do que a do sol, mas sem deslumbrar a vista. — Se, além disso, alguém tiver dado a vida por Jesus Cristo, ou conservado intacta a açucena da pureza, ou pela pregação tiver sido para outros mestres da salvação, receberá a auréola de Mártir, de Virgem ou de Doutor. — Feliz daquele que, mortificando-se na vida presente, for digno de receber um dia em seu corpo todos esses dons, que agora nem sabemos avaliar devidamente! Continuar lendo

SENTENÇA DOS ESCOLHIDOS E DOS RÉPROBOS NO JUÍZO UNIVERSAL

juizo-finalVenite, benedicti Patris mei, possidete paratum vobis regnum… Discedite a me, maledicti, in ignem aeternum — “Vinde, benditos de meu Pai, possui o reino que vos está preparado… apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno” (Matth. 25, 34 – 41).

Sumário. No Juízo final, a fim de que os réprobos sintam mais a grandeza do bem que perderam, será primeiro pronunciada a sentença dos escolhidos. E enquanto estes entrarem triunfantes no paraíso, o divino Juiz se voltará para os réprobos, e amaldiçoando-os, condená-los-á a se afastarem d’Ele para queimarem no fogo eterno. Meu irmão, com a vida que vais levando, qual das duas sentenças julgas que naquele dia será a tua?

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São Bernardo diz que no Juízo universal Jesus pronunciará primeiramente a sentença dos justos, chamando-os à glória do paraíso, a fim de que os réprobos sintam maior pena à vista do que perderam. Jesus Cristo, pois, voltar-se-á para os escolhidos, e com o semblante cheio de benevolência lhes dirá: Venite, benedicti Patris mei — “Vinde, benditos de meu Pai”. São Francisco de Assis, sabendo por uma revelação que era predestinado à glória, não podia conter a alegria. Qual não será então a alegria dos que ouvirem estas palavras do Juiz: “… Vinde, filhos benditos, entrai no reino que vos espera; não tendes mais nada a sofrer, nada mais a recear; estais salvos, e salvos por toda a eternidade. Abençôo o sangue que por vós derramei, e abençôo as lágrimas que vós derramastes sobre os vossos pecados. Vamos ao paraíso onde juntos permaneceremos eternamente.” A Santíssima Virgem abençoará também os seus dedicados servos e os convidará a acompanhá-la à celeste morada; e assim cantando aleluia! aleluia! Os escolhidos entrarão triunfantes no paraíso, para possuírem, louvarem e amarem eternamente a Deus.

Ao contrário, os réprobos voltados para Jesus Cristo dir-Lhe-ão: Que será feito de nós, desgraçados? — Vós, assim dirá o Juiz eterno, já que haveis recusado e desprezado a minha graça: Discedite a me, maledicti, in ignem aeternum — “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno”. Discedite: apartai-vos, nunca mais vos quero ver nem ouvir. Maledicti, ide, malditos, ide, já que haveis desprezado a minha benção. — Mas para onde, Senhor, para onde devem ir estes desgraçados? In ignem, para o inferno, onde devem arder em corpo e alma. Mas, por quantos anos ou por quantos séculos? O que? Anos? Séculos? In ignem aeternum, por toda a eternidade, enquanto Deus for Deus. Continuar lendo

PREPARAÇÃO PARA A ORAÇÃO MENTAL – MEDITAÇÃO VI – JUÍZO UNIVERSAL

Resultado de imagem para juízo universalVamos conversar com Deus sobre o importantíssimo negocio da salvação das nossas almas; porem, para que os nossos infernais inimigos não nos embaracem, armemo-nos primeiro com o sinal da Cruz, dizendo com vivíssima fé: Pelo sinal da Santa Cruz, etc…

Feito o sinal da Cruz, digamos:

Espíritos tentadores e demônios malditos apartem-vos de mim e deste lugar para as profundezas do inferno, e não me estorveis nesta oração, dirigida para a honra e glória de Deus, e salvação da minha alma.

Façamos atos da presença de Deus.

Eu creio meu Deus e Senhor, firmemente, que vós estais aqui presente, dentro de mim, penetrando no meu interior, presenciando ainda os mais ocultos pensamentos do meu coração, sem que eu me possa esconder aos vossos puríssimos olhos; porém (prostrem-se) prostrado por terra com o corpo e com a alma, unido ao mesmo pó, me humilho na vossa divina presença desejo adorar-vos como adora a Maria Santíssima, os anjos e os santos do céu e os justos da terra: – Porem, ai de mim, oh meu Deus! Eu pequei, Senhor, perdoe-me, que eu proponho de me emendar e de não tornar mais a pecar. (levantem-se da prostração)

Ato de petição

Pai Eterno pelo sangue de Jesus Cristo e pelas dores de Maria Santíssima conceda-me as luzes, auxílio e graças para fazer bem e com fruto essa meditação. (Rezar um Pai Nosso e Uma Ave Maria)

Leiam-se agora os pontos da meditação, um de cada vez; e quando se encontrarem esses pontinhos (…) deve-se parar por algum tempo, a fim de se ponderar bem o sentido do que se tiver lido; e depois de cada ponto se ficará em silencio, meditando, pelo menos, dez minutos, de maneira que a meditação dos três pontos perfaça, pelo menos, meia hora; e ultimamente se darão graças ao Senhor.

Breve método da oração

Meditação VI – Juízo Universal

Ponto 1º – Considera que lá na madrugada do dia ultimo do mundo se ouvirá o terrível som de uma trombeta, cujo eco ressoará nos quatro cantos do mundo e fará ouvir por toda a parte estas terríveis palavras: << Levantem-se os mortos, vinde a juízo!… Tudo obedecerá a esta ordem, a terra lançará de si os corpos; o inferno vomitará todos os condenados; o céu ouvirá também os seus santos. As almas irão tirar do sepulcro seus corpos já de novo organizados; e todas as criaturas, tais como andarão neste mundo lá caminharão para o vale de Josaphah. Reunidos ai os povos de todo mundo, tremendo de sustos, cheios de terror, verão abrirem-se os céus de par em par, e sair essa inumerável multidão de anjos a acompanhar o Rei da Glória, que, á maneira de um relâmpago, que, fuzilando do oriente alumia até ao ocidente, aparecerá para devassar de todo o mundo!… Mandará abrir logo esses livros, onde estão carregados os pecados, e tudo se lerá publicamente, sem que oculte o mínimo pensamento. Oh! Que confusão será então a tua, quando esse pecado vergonhoso, que agora ocultas até ao próprio confessor, for sabido e conhecido por todo o mundo!?… Procura risca-lo do livro por meio da penitencia, para então participares da misericórdia. Continuar lendo

A SEPARAÇÃO DOS ESCOLHIDOS E DOS RÉPROBOS NO JUÍZO FINAL

juizoExibunt angeli, et separabunt malos de medio iustorum — “Sairão os anjos e separarão os maus do meio dos justos” (Matth. 13, 49).

Sumário. Quando todos os homens estiverem reunidos no vale de Josafá, virão os anjos separar os réprobos dos escolhidos. Estes ficarão à direita e aqueles serão, para sua confusão, impelidos para a esquerda. Oh, que triste separação! Meu irmão, de que lado nos acharemos nesse dia? À direita com os escolhidos, ou à esquerda com os condenados? Se quisermos estar à direita, deixemos o caminho que conduz à esquerda.

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Assim que os homens tiverem ressuscitado, ser-lhes-á intimado que se dirijam todos ao vale de Josafá, para serem julgados. Quando todos estiverem ali reunidos, virão os anjos e separarão os réprobos dos escolhidos: Exibunt angeli, et separabunt malos de medio iustorum. Os justos ficarão à direita, e os condenados serão impelidos para a esquerda. — Que mágoa não sentiria quem fosse banido da sociedade ou da Igreja! Mas que dor muito maior não sentirá, quando se vir expulso da companhia dos Santos! Unus assumetur, et alter relinquetur(1) — “Um será tomado, e outro será desprezado”. Diz São Crisóstomo que, se os réprobos não tivessem outra pena a sofrer, esta confusão já seria para eles um suplício infernal.

Atualmente no mundo são julgados felizes os príncipes e os ricos; e são desprezados os santos que vivem na pobreza e humildade. Ó cristãos fiéis, vós que amais a Deus, não vos aflijais porque neste mundo viveis desprezados e em tribulações: Tristitia vestra vertetur in gaudium (2) “A vossa tristeza se há de converter em alegria”. Então se dirá que vós sois os verdadeiros felizes, e tereis a honra de ser proclamados os cortezãos da corte de Jesus Cristo.

Que brilhante figura não fará então um São Pedro de Alcântara, que foi vilipendiado como apóstata! Um São João de Deus, que foi tratado como insensato! Um São Pedro Celestino, que morreu numa prisão depois de ter abdicado o papado! Que honra receberão então tantos mártires, cruciados aqui pelos algozes! Tunc laus erit unicuique a Deo (3) — “Então cada um terá de Deus o louvor”. Que horrível figura, pelo contrário, não fará um Herodes, um Pilatos, um Nero, e tantos outros grandes da terra, agora condenados! — Ó partidários do mundo, espero-vos no vale de Josafá. Aí mudareis sem dúvida de sentimentos; aí deplorareis a vossa loucura. Infelizes! Por uma curta aparição no teatro deste mundo, tendes de fazer depois o papel de condenados na tragédia do juízo final. Continuar lendo

PREPARAÇÃO PARA A ORAÇÃO MENTAL: MEDITAÇÃO IV – JUÍZO PARTICULAR

Resultado de imagem para juízo particularVamos conversar com Deus sobre o importantíssimo negocio da salvação das nossas almas; porem, para que os nossos infernais inimigos não nos embaracem, armemo-nos primeiro com o sinal da Cruz, dizendo com vivíssima fé: Pelo sinal da Santa Cruz, etc…

Feito o sinal da Cruz, digamos:

Espíritos tentadores e demônios malditos apartem-vos de mim e deste lugar para as profundezas do inferno, e não me estorveis nesta oração, dirigida para a honra e glória de Deus, e salvação da minha alma.

Façamos atos da presença de Deus.

Eu creio meu Deus e Senhor, firmemente, que vós estais aqui presente, dentro de mim, penetrando no meu interior, presenciando ainda os mais ocultos pensamentos do meu coração, sem que eu me possa esconder aos vossos puríssimos olhos; porém (prostrem-se) prostrado por terra com o corpo e com a alma, unido ao mesmo pó, me humilho na vossa divina presença desejo adorar-vos como adora a Maria Santíssima, os anjos e os santos do céu e os justos da terra: – Porem, ai de mim, oh meu Deus! Eu pequei, Senhor, perdoe-me, que eu proponho de me emendar e de não tornar mais a pecar. (levantem-se da prostração)

Ato de petição

Pai Eterno pelo sangue de Jesus Cristo e pelas dores de Maria Santíssima conceda-me as luzes, auxílio e graças para fazer bem e com fruto essa meditação. (Rezar um Pai Nosso e Uma Ave Maria)

Leiam-se agora os pontos da meditação, um de cada vez; e quando se encontrarem esses pontinhos (…) deve-se parar por algum tempo, a fim de se ponderar bem o sentido do que se tiver lido; e depois de cada ponto se ficará em silencio, meditando, pelo menos, dez minutos, de maneira que a meditação dos três pontos perfaça, pelo menos, meia hora; e ultimamente se darão graças ao Senhor.

Breve método da oração

Meditação IV – Juízo particular

Ponto 1º – Considera que no mesmo instante que a tua alma sair do corpo, há de comparecer em juízo perante o tribunal de Jesus Cristo. E que confusão, que anciã, que angustia será a tua, se, quando comparecer em juízo, estiveres em pecado?… Que sustos, que temores, quando teus olhos se encontrarem com aquela divina face, em que descarregava bofetadas todas as vezes que cometias as culpas?… Como poderás suportar a face de um Deus irado, se um santo Jó, sendo inocente, prefere antes esconder-se no fundo do inferno?… E quanto não crescerá o teu susto, e se argumentará o sobressalto, quando o Supremo Juiz pedir conta das ações da tua vida, e for apresentado todo o horror dos pecados em que caíste? Ai, que será de ti em um aperto tão terrível! Os demônios acusando todas as tuas maldades, o Anjo da tua guarda confirmando as suas acusações, Maria Santíssima apresentando o seu coração rasgado pelos golpes desses punhais que sobre Ela descarregaste com os teus pecados, e seu filhos Jesus Cristo, também coberto de chagas, te mostrará o sangue escorrendo das feridas que tu ainda a pouco agravaste com os teus pecados! Oh! Não passes por este ponto sem o considerares bem!… Muda de vida, e pede a Maria e Jesus que sejam propícios naquela hora. Continuar lendo

VINDA DO DIVINO JUIZ E EXAME NO JUÍZO FINAL

Juizo_final_-_marten_de_vosVidebunt Filium hominis venientem in nubibus coeli, cum virtute multa et maiestate — “Eles verão o Filho do homem, que virá sobre as nuvens do céu com grande poder e majestade”(Mt.  24, 30).

Sumário. Eis que se abrem os céus e os anjos vêm assistir ao juízo trazendo as insígnias da Paixão de Jesus Cristo, e especialmente a Cruz. Vêm depois os santos apóstolos e todos os seus imitadores; vem a Rainha dos Santos, Maria Santíssima, e por fim o eterno Juiz mesmo, que, sentado num trono de majestade e de luz, procederá ao exame. Reflitamos aqui: O que será de nós nesse dia? Que desculpas poderemos alegar, se por ventura formos condenados?

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Considera como a divina Justiça julgará todos os povos no vale de Josafá, quando, no fim do mundo, ressuscitarem os corpos para receberem, juntamente com a alma, a recompensa ou o castigo, segundo as suas obras. Eis que já se abrem os céus, e os anjos vêm assistir ao juízo, trazendo as insígnias da Paixão de Jesus Cristo, segundo Santo Tomás. Aparecerá sobretudo a Cruz:E então aparecerá o sinal do Filho do homem, e todos os povos da terra se lastimarão em pranto(1). Diz Cornélio a Lapide: Ao verem a Cruz, como chorarão nesse dia os pecadores, que em vida não cuidaram da sua salvação eterna, que tanto custou ao filho de Deus! Assistirão também, na qualidade de assessores, os santos apóstolos e todos os seus imitadores, que juntamente com Jesus Cristo julgarão as nações. Fulgebunt iusti, indicabunt nationes (2) — “Os justos refulgirão e julgarão as nações”. Virá assistir igualmente a Rainha dos Santos e dos Anjos, Maria Santíssima.

Aparecerá enfim o eterno Juiz, num trono de majestade e de glória: Et videbunt Filium hominis venientem in nubibus coeli, cum virtute multa et maiestate — “Eles verão o Filho do homem, que virá sobre as nuvens do céu com grande poder e majestade.” A vista de Jesus regozijará os eleitos, mas para os réprobos será maior tormento que o inferno mesmo, diz São Jerônimo. Por isso exclamava Santa Teresa: Meu Jesus, infligi-me qualquer outro castigo, mas não me deixeis ver nesse dia a vossa face indignado contra mim. E São Basílio acrescenta: Superat omnem poenam confusio ista: esta vista será o mais horrível de todos os tormentos. Então cumprir-se-á a profecia de São João: os condenados rogarão às montanhas que caiam sobre eles e os livrem da vista do Juiz irritado. Abscondite nos a facie sedentis super thronum et ab ira Agni (3).

Principia o julgamento. Manuseiam-se os processos, isto é, põe-se a descoberto a consciência de cada um:Iudicium sedit et libri aperti sunt(4) — “Assentou-se o juízo e abriram-se os livros”. As primeiras testemunhas chamadas a depor contra os réprobos, serão os demônios, que (segundo Santo Agostinho) dirão: “Deus de justiça, mandai que seja nosso aquele que de nenhum modo quis ser vosso.” Testemunhas serão em segundo lugar as próprias consciências: dando-lhes testemunho a própria consciência (5). Outras testemunhas, a clamarem vingança, serão as paredes da casa onde Deus foi ofendido pelos pecadores: Lapis de pariete clamabit (6). Continuar lendo

MORTE DO JUSTO – PONTO III

Resultado de imagem para morte do justoA morte não é somente o fim dos nossos trabalhos, senão também a porta da vida, como disse São Bernardo.

Necessariamente, deve passar por esta porta quem quiser entrar a ver a Deus (Sl 117,20). São Jerônimo dirigia à morte esta súplica: Ó morte, minha irmã, se me não abres a porta, não posso ir gozar da presença do meu Senhor! (Ct 5,2).

São Carlos Borromeu, tendo visto em um dos seus aposentos um quadro que representava um esqueleto com a foice na mão, mandou chamar o pintor e ordenou-lhe que substituísse aquela foice por uma chave de ouro, querendo assim inflamar-se mais do desejo de morrer, porque a morte nos abre o céu e nos proporciona a visão de Deus.

Disse São João Crisóstomo que, se um rei tivesse mandado preparar para alguém suntuosa habitação no seu próprio palácio, e, no entanto, os mandasse viver num estábulo, quanto esse homem não desejaria sair do estábulo para ir morar no palácio régio!… Assim, nesta vida, a alma do justo, unida ao corpo mortal, se sente como num cárcere, donde há de sair para habitar o palácio dos céus; é por esta razão que David dizia:

“Livrai minha alma da prisão” (Sl 141,8).

E o santo velho Simeão, quando tinha nos braços o Menino-Jesus, não lhe soube pedir outra graça, senão a da morte, a fim de ver-se livre do cárcere desta vida:

“Agora, Senhor, despede o teu servo…” (Lc 2,29), isto é, adverte Santo Ambrósio, — pede ser despedido, como se estivesse preso à força”.

Por essa mesma graça suspirava o Apóstolo, quando dizia: Continuar lendo

MORTE DO JUSTO – PONTO II

Resultado de imagem para morte do justoDeus lhes enxugará todas as lágrimas dos seus olhos, e não haverá mais morte (Ap 21,4). Na hora da morte, o Senhor limpará dos olhos de seus servos as lágrimas que derramaram na vida, em meio dos trabalhos, temores e perigos contra o inferno. O maior consolo de uma alma amante de seu Deus, quando sente a proximidade da morte, será pensar que em breve estará livre de tanto perigo de ofender a Deus, como há no mundo, de tanta tribulação espiritual e de tantas tentações do demônio. A vida presente é uma guerra contínua contra o inferno, na qual sempre corremos o risco de perder a Deus e a nossa alma.

Disse Santo Ambrósio que neste mundo caminhamos constantemente entre redutos do inimigo, que estende laços à vida da graça.

Este perigo fez exclamar a São Pedro de Alcântara, quando se achava agonizando:

“Retirai-vos, meu irmão, — dirigindo-se a um religioso que, ao prestar-lhe serviço, o tocava com veneração — retirai-vos, pois vivo ainda e por consequência estou em perigo de me perder”

Por este mesmo motivo se regozijava Santa Teresa cada vez que ouvia soar a hora do relógio; alegrava-se por ter passado mais uma hora de combate, dizendo:

“Posso pecar e perder a Deus em cada instante de minha vida”.

É por isto que todos os Santos sentiam consolo ao saberem que iam morrer: pensavam que em breve se acabariam os combates e os perigos e teriam assegurada a inefável dita de jamais poder perder a Deus. Lê-se, na vida dos Padres, que um deles, de idade avançada, na hora da morte, ria-se enquanto seus companheiros choravam. E como lhe perguntassem o motivo de seu contentamento, respondeu:

“E por que é que chorais, sendo que vou descansar de meus trabalhos?”.

Também Santa Catarina de Sena disse ao morrer: Continuar lendo

MORTE DO JUSTO – PONTO I

Resultado de imagem para morte do justoPretiosa in conspectu Domini mors sanctorum ejus. – “É preciosa na presença de Deus a morte de seus Santos” (Sl 115, 15)

Considerada a morte à luz deste mundo, nos espanta e inspira temor; mas, segundo a luz da fé, é desejável e consoladora. Parece terrível aos pecadores; mas aos olhos dos justos se apresenta amável e preciosa.

“Preciosa, — disse São Bernardo — porque é o termo dos trabalhos, a coroa da vitória, a porta da vida”.

E, na verdade, a morte é termo de penas e trabalhos. O homem nascido de mulher vive curto tempo e está sujeito a muitas misérias (Jó 14,1). Eis aí o que é a nossa vida, curta e cheia de misérias, enfermidades, inquietações e sofrimentos.

Os mundanos, desejosos de longa vida — diz Sêneca — que procuram senão mais prolongado tormento? (Ep 101). Que é continuar a viver — exclama Santo Agostinho — senão continuar a sofrer? A vida presente — disse Santo Ambrósio — não nos foi dada para repousar, mas para trabalhar, e, por meio destes trabalhos, merecer a vida eterna (Serm. 45). Com razão, afirma Tertuliano que Deus abrevia o tormento de alguém, quando lhe abrevia a vida. Ainda que a morte tenha sido imposta por castigo do pecado, são tantas as misérias desta vida, que, como disse Santo Ambrósio — mais parece alívio o morrer do que castigo.

Deus chama bem-aventurados aos que morrem na sua graça, porque acabam os trabalhos e começam a descansar. Continuar lendo