A IMAGEM VIVA

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Fonte: SSPX District of Great Britain – Tradução: Dominus Est

O JOVEM REI

Era uma vez um jovem rei. Ninguém sabia que ele era um rei porque seus antepassados ​​tinham sido derrotados em batalha e o reino havia passado para outras mãos. No entanto, o jovem ainda era legitimamente um rei e tinha autoridade natural e sabedoria, além de cuidar daqueles ao seu redor como se fossem seus súditos. 

Caminhando por uma estreita rua lateral da capital do reino, na parte pobre da cidade, o rei avistou uma criança chorando. A criança não tinha pais e foi abandonada nas ruas para encontrar comida e abrigo. O rei parou, sorriu e deu à criança uma sacola de frutas e iguarias que tinha acabado de comprar em um mercado próximo. Mas tão rápido quanto chegou, o rei desapareceu novamente, deixando a criança admirada e feliz, e perguntando quem era o homem misterioso que tinha sido tão gentil. 

Poucos meses depois, o mesmo aconteceu novamente – quando a criança já tinha perdido a esperança, o rei apareceu do nada e deu à criança uma sacola contendo roupas, um pouco de sabão e muita comida. Desta vez, porém, o rei parou para conversar. A primeira coisa que ele disse foi: “Não tenha medo”. 

Com o passar dos meses, os encontros se tornaram mais frequentes – primeiro quinzenalmente, depois uma vez por semana e então quase todos os dias. O rei trazia tudo o que era bom para a criança – não somente coisas materiais, mas amizade e amor paternal. A vida da criança foi transformada por esses encontros; todos os dias, cada momento ocioso, a criança costumava pensar com felicidade no jovem rei … Continuar lendo

CORAÇÃO DE MARIA, IMAGEM FIEL DO CORAÇÃO DE JESUS

sagraimacMater eius conservabat omnia verba haec in corde suo – “Sua Mãe conservava todas estas palavras em seu coração” (Luc. 2, 51).

Sumário. Todas as qualidades que nos dias anteriores contemplamos no Coração de Jesus acham-se, com as devidas proporções, também no Coração de Maria, sua Mãe. Durante os trinta anos que a Virgem Santíssima conviveu com Jesus, não fez senão estudar continuamente no livro do Coração do Filho. Se, pois, amamos deveras a Maria e queremos ser seus dignos filhos, estudemos igualmente o Coração de Jesus e aprendamos de Nossa Senhora a praticarmos a humildade e o amor para com Deus e para com o próximo.

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Depois da Encarnação do Verbo, a ocupação habitual de Maria Santíssima foi estudar o grande livro do Coração amabilíssimo de Jesus e nesta escola divina fez progressos tão grandes, que se tornou uma imagem fiel de Jesus. Pelo que todos os dotes que nos dias anteriores contemplamos no Coração do Filho, acham-se também, observadas as devidas proporções, no Coração da Mãe.

Com efeito, que coração há mais amável que o Coração de Maria? Coração todo puro, santo, imaculado, perfeito; Coração, em suma, no qual Deus acha as suas delícias, as suas complacências. – Coração ao mesmo tempo tão amante dos homens, que, se todas as criaturas unissem as suas forças, nem de longe conseguiriam igualar o amor de Maria: Amat nos amore invicibili (1) – “Ela nos ama com amor inexcedível”. Este amor de Maria para com o gênero humano, rivalizando com o do Eterno Pai, levou-a a fazer o sacrifício doloroso, de entregar à morte seu Filho inocente. Leva-a continuamente a compadecer-se com ternura maternal das nossas misérias; a socorrer-nos generosamente em nossas necessidades; a ser-nos reconhecida e recompensar fielmente qualquer obra boa feita por seu amor, qualquer palavra dita para glória sua, cada bom pensamento que lhe agrada.

Como retribuição de todos os benefícios que a divina Mãe nos dispensou e ainda continuamente nos dispensa, não exige senão nosso amor; porquanto seu coração, à semelhança do de Jesus, é um coração desejoso de ser amado. – Vê, portanto, quanta aflição deve sentir vendo-se pago com desprezos. Não sejas tu do número daqueles ingratos que assim afligem a nossa terna Mãe. Continuar lendo

FESTA DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS

sagrFidelis est qui vocavit vos, qui etiam faciet – “Fiel é aquele que vos chamou: ele também assim fará” (1 Thess. 5, 24).

Sumário. Os homens prometem facilmente, mas depois faltam muitas vezes à palavra, ou porque enganaram prometendo ou porque não a podem ou não a querem guardar. Não faz assim Jesus Cristo, que, sendo Deus todo poderoso, não pode enganar nem mudar. Quanto melhor é, pois, ter que tratar com este Coração divino do que com os homens! Ponhamos, porém, a mão na consciência: somos nós fiéis a Deus, assim como ele nos é fiel? Quantas vezes temos já prometido amá-Lo e depois o temos traído!

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Oh! Quanto o belo Coração de Jesus é fiel para com aqueles que Ele chama a seu santo amor! Fiel é aquele que vos chamou: ele também assim fará. A fidelidade de Deus nos dá ânimo para esperar tudo, se bem que nada mereçamos. Depois de expulsarmos a Deus de nosso coração, basta que Lhe abramos a porta para Ele entrar logo segundo a promessa feita: Si quis aperuerit mihi ianuam, intrabo ad illum et coenabo cum illo(1) – “Se alguém me abrir a porta, entrarei em sua casa e ceiarei com ele”. – Se desejamos graças, peçamo-las em nome de Jesus Cristo, visto que Ele nos prometeu que assim as obteremos:Se pedirdes alguma coisa a meu Pai em meu nome, Ele vo-la dará (2). Nas tentações, confiemos nos méritos de Jesus, e Ele não permitirá que os inimigos nos incomodem acima das nossas forças: Fidelis autem Deus est, qui non patietur vos tentari supra id quod potestis (3).

Oh, como é preferível tratar com Deus a tratar com os homens! Quantas vezes estes não prometem e depois faltam à palavra, quer porque enganam na promessa, quer porque depois da promessa mudam de opinião. Non est Deus quasi homo, ut mentiatur; nec ut filius hominis ut mutetur (4). Deus, assim diz o Espírito Santo, não pode ser infiel em suas promessas, porque não pode mentir, sendo a verdade mesma; nem pode mudar de opinião, porque tudo o que quer é justo e reto. Prometeu acolher todo aquele que a Ele se chega; dar auxílio ao que o pede, amar àquele que O ama, e depois não há de fazer? Dixit ergo, et non faciet? Continuar lendo

NOVENA DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS – 2° DIA

Solenidade do Corpo de Deus.

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DEVOÇÃO DE SANTO AFONSO À PAIXÃO DE JESUS CRISTO

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Mihi autem absit gloriari, nisi in cruce Domini nostri Iesu Christi – “Quanto a mim, livre-me Deus de me gloriar, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo” (Gal. 6, 14).

Sumário. Com muita razão a Igreja chama Santo Afonso contemplador assíduo e propagador admirável da devoção à paixão e morte de Jesus Cristo. Foi este o assunto quase contínuo de suas meditações, de seus colóquios públicos e particulares. Se queremos ser devotos verdadeiros e dignos filhos do santo Doutor, sejamos, à sua imitação, devotos da Paixão de Jesus, façamos dela em todas as circunstâncias o assunto habitual de nossas meditações.

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Com muita razão a Igreja (1) chama Santo Afonso contemplador assíduo e propagador admirávelda devoção à paixão e morte de Jesus Cristo. Foi este o assunto mais freqüente, ou antes contínuo, de suas meditações; não deixava passar um dia sem percorrer as estações da Via sacra, e a cada instante lançava um olhar sobre o Crucifixo que tinha no seu quarto, acompanhando o olhar de alguma oração jaculatória de amor. – As suas mortificações e penitências eram sempre mais rigorosas nas sextas-feiras do ano; mas aumentava-as quase até ao excesso na Semana Santa, especialmente nos três últimos dias da mesma. Então via-se Afonso silencioso, pálido e triste, como que fora de si e absorto, na contemplação dos mistérios dolorosos da Paixão do Senhor, da qual a Igreja faz então comemoração especial.

Para desafogar os afetos de sua devoção e excitá-los também no coração de outros, o Santo falava muitas vezes desta devoção em seus colóquios privados; ensinava-a ao povo em quase todas as suas prédicas, e compôs diversas obras para transfundir à alma de seus leitores as puras chamas de seu amor. – Mais, não contente com isso, quis que todos os pregadores da sua diocese e especialmente os membros de sua Congregação, nunca deixassem de inculcar ao povo a meditação dos sofrimentos de Jesus Cristo. “Nas missões”, dizia o Santo, “são muito úteis os sermões sobre o juízo e o inferno, porque incutem o temor; mas as conversões que provém do temor, são pouco duráveis. Ao contrário, as conversões por meio do amor a Jesus crucificado, são mais fortes e constantes. Quem se afeiçoa a Jesus crucificado, não tem mais medo.” Continuar lendo

FESTA DA ASCENSÃO DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO

ascensao-de-nosso-senhorDominus Iesus, postquam locutus est eis, assumptus est in coelum, et sedet a dextris Dei – “O Senhor Jesus, depois que lhes falou, foi assunto ao céu, e está sentado à direita de Deus” (Marc. 16, 19).

Sumário. Como a águia ensina os filhos a voarem, assim, no mistério de hoje, Jesus Cristo nos exorta a elevarmos o nosso vôo e a acompanhá-Lo ao céu, se não com o corpo, ao menos com nosso afeto. Desprendamos os nossos corações desta terra e suspiremos pela pátria celestial, onde se acha a nossa felicidade: esperando, como diz o Apóstolo, a adoção de filhos de Deus, a redenção do nosso corpo. Entretanto tenhamos sempre diante dos olhos os exemplos da vida mortal do Redentor e imitemos as suas belas virtudes, em particular a sua humildade e doçura.

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O lugar que competia a Jesus ressuscitado, era o céu, que é a morada das almas e dos corpos bem-aventurados. Quis Jesus, todavia, permanecer quarenta dias sobre a terra e aparecer repetidas vezes a seus discípulos para os certificar da sua ressurreição e instruí-los nas coisas relativas à sua Igreja: Loquens de regno Dei (1) – “Falando do reino de Deus”. – Tendo desempenhado esta nobre missão, quis o Senhor, antes de deixar a terra, mostrar-se mais uma vez aos apóstolos em Jerusalém; e depois de lhes exprobrar suavemente a sua dureza, por não acreditarem na sua ressurreição, ordenou-lhes que fossem para o Monte das Oliveiras, o lugar onde tinha começado a sua Paixão, afim de que compreendessem que o verdadeiro caminho para ir ao céu é o dos sofrimentos. Depois, cercado de cento e vinte pessoas, repetiu-lhes mais uma vez o que já lhes havia ordenado, especialmente que fossem pregar o Evangelho pelo mundo inteiro; feito o que o divino Redentor levantou as mãos e os abençoou.

Em seguida, como medita São Boaventura (2), Jesus abraça a sua santíssima Mãe e aperta-a contra o coração, anima e conforta os seus discípulos, que, entre lágrimas, Lhe beijam os pés e com as mãos levantadas e o semblante extraordinariamente majestoso e amável, coroado e vestido como rei, se eleva lentamente ao céu, levando em sua companhia as numerosíssimas almas justas, livradas do limbo. – A esta vista todos os presentes ajoelham novamente e Jesus mais uma vez os abençoa. Afinal uma nuvem subtrai o divino Triunfador à sua vista, e Jesus vai sentar-se à direita do Pai, onde não cessa de ser nosso medianeiro e advogado.

Avivemos a nossa fé, e contemplemos o júbilo que a entrada triunfal de Jesus causou no paraíso: alegremo-nos com o nosso divino Chefe e unamos os nossos afetos aos de Maria Santíssima e dos santos discípulos.

Como a águia ensina seus filhos a voarem, assim, no mistério de hoje, Jesus Cristo nos exorta a elevar o nosso vôo e acompanhá-Lo ao céu, senão com o corpo, ao menos com os afetos. Desprendamos os nossos corações da terra, e suspiremos pela pátria celeste, onde se acha a nossa felicidade: esperando, como diz o Apóstolo, a adoção de filhos de Deus, a redenção de nosso corpo (3). Entretanto, tenhamos sempre diante dos olhos os exemplos da vida mortal do Senhor; imitando a sua humildade e mansidão, o seu espírito de mortificação, a sua caridade e o seu zelo pela glória divina. – Numa palavra, despojamo-nos do homem velho, revestindo-nos das virtudes de Jesus Cristo, que são como que o manto, que, à imitação de Elias, ele deixou para seus discípulos, quando subiu ao céu.

Para vencermos todas as dificuldades que se encontram no caminho do Senhor, recordemos muitas vezes a grande verdade que os anjos ensinaram hoje aos discípulos, que, arrebatados, olhavam o céu, para o qual acabava de subir o seu amado mestre: Jesus Cristo voltará um dia à terra com a mesma majestade e glória, como Juiz dos vivos e dos mortos: Sic veniet, quemadmodum vidistis eum euntem in coelum (4).

Meu querido Redentor Jesus, regozijo-me pelo vosso triunfo glorioso e rogo-vos que arranqueis de meu coração todo o afeto aos bens miseráveis desta terra, para não suspirar senão pelos do paraíso, que vós merecestes para mim pela vossa paixão. – A mesma graça peço de Vós, ó Pai Eterno. “Concedei-me que, assim como creio firmemente que vosso Filho unigênito e nosso Redentor subiu hoje ao céu, assim possa continuamente morar ali com o meu espírito e os meus desejos.” (5) – Fazei-o pelo amor do mesmo Jesus Cristo e pela intercessão de Maria Santíssima. (*VIII 643.)

  1. Act. 1, 3.
    2. Med. vit. Chr.
    3. Rom. 8, 23.
    4. Act. 1, 11.
    5. Or. festi. curr.

Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II – Santo Afonso

A IGREJA ONDE ESTÁ JESUS SACRAMENTADO É O SANTUÁRIO MAIS AUGUSTO

santElegi et sanctificavi locum istum, ut… permaneant oculi mei et cor meum ibi cunctis diebus – “Escolhi e santifiquei este lugar… para nele estarem fixos os meus olhos, e o meu coração, em todo o tempo” (2 Par. 7, 16).

Sumário. Os peregrinos experimentam grande ternura em visitar a Casa Santa de Loreto, ou os lugares da Terra Santa onde Jesus nasceu, habitou, morreu e foi sepultado. Muito maior, porém, deve ser a nossa devoção quando estamos numa igreja em presença de Jesus Cristo mesmo, oculto no Santíssimo Sacramento. Com efeito, não há santuário mais devoto e consolador do que uma igreja a na qual está Jesus sacramentado. Todavia a maior parte dos homens o deixam quase sempre só e abandonado!

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Oh! Que ternura experimentam os peregrinos ao visitar a Casa Santa de Loreto ou os lugares da Terra Santa, a Gruta de Belém, o Calvário, o santo Sepulcro, onde Jesus habitou, morreu, foi sepultado! Mas quanto mais terna não deve ser a nossa devoção quando nos achamos numa igreja, em presença do próprio Jesus, que está no Santíssimo Sacramento! Costumava o Bem-aventurado João de Ávila dizer que não conhecia santuário mais devoto e mais consolador do que uma igreja na qual se acha Jesus sacramentado. Por sua vez o Padre Balthazar Alvares chorava ao ver os palácios dos grandes cheios de gente, e as igrejas, onde está Jesus Cristo, vazias e abandonadas.

Meu Deus! Se o Senhor se tivesse deixado ficar em uma só igreja da terra, por exemplo, na de São Pedro em Roma, e ali quisesse dar audiência só num dia do ano, quantos peregrinos, quantos personagens grandes, quantos monarcas procurariam ter a ventura de se achar ali em tal dia, afim de prestarem homenagem ao Rei do céu, voltado à terra! Que tabernáculo precioso, de ouro e ornado de pedrarias não lhe seria preparado! Com que profusão de luzes não se havia de solenizar em tal dia a permanência de Jesus Cristo! Mas não, diz o Redentor, não quero morar em uma só igreja, nem por um dia do ano somente; não exijo tamanha riqueza nem tantas luzes; quero morar continuamente em todos os tempos e lugares, onde quer que vivam os meus fiéis, afim de que todos me achem com facilidade e sempre, na hora que quiserem. Continuar lendo

DO AMOR QUE SÃO JOSÉ TEVE A JESUS E MARIA

sagrada-familiaIacob autem genuit Ioseph, virum Mariae, de qua natus est Iesus — “Jacó gerou a José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus” (Matth. 1, 16).

Sumário. A longa familiaridade de pessoas amantes faz muitas vezes resfriar o amor, porque, quanto mais tratam uns com outros, tanto mais conhecem os defeitos mútuos. Mas não foi assim com São José. Quanto mais convivia com o divino Redentor e com a Santíssima Virgem, tanto mais chegou a conhecer-lhes a santidade. Concluamos disso quanto devia amar aqueles queridos penhores de seu coração, gozando tão longos anos a sua companhia. Roguemos ao santo Patriarca, que nos comunique uma parte de seu amor a Jesus e Maria; e ao mesmo tempo esforcemo-nos por imitá-lo, pela consideração de suas grandezas.

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Considera em primeiro lugar o amor que José teve a Jesus. Já que Deus destinou o Santo a servir de pai ao Verbo humanado, com certeza infundiu-lhe no coração um amor de pai, e de pai de um filho tão amável, e que ao mesmo tempo era Deus. O amor de José não foi, portanto, um amor puramente humano, como o dos outros pais, mas um amor sobre-humano, visto que na mesma pessoa via seu Filho e seu Deus.

Bem sabia José, pela certa revelação divina recebida do Anjo, que o Menino, que via continuamente em sua companhia, era o Verbo divino, feito homem por amor dos homens, mas especialmente dele. Sabia que o Verbo mesmo o havia escolhido entre todos para guarda de sua vida que queria ser chamado seu Filho. Considera, de que incêndio de amor não devia estar abrasado o coração de José, ao considerar tudo isso e ao ver seu Senhor, que lhe servia como oficial, ora abrindo e fechando a loja, ora ajudando-o a serrar a madeira, ora manejando a plaina ou o machado, ora ajuntando os cavacos e varrendo a casa; numa palavra, que lhe obedecia em tudo que lhe mandava, e não fazia nada sem o consentimento daquele que considerava como seu pai.

Que afetos não deviam ser despertados no coração de José, quando o tinha nos braços, o acariciava, ou recebia as carícias daquele doce Menino! Quando escutava as palavras de vida eterna, que foram como outras tantas setas a ferirem-lhe o coração! Especialmente quando observava os santos exemplos de todas as virtudes que o divino Menino lhe dava! — A longa convivência de pessoas que se amam mutuamente, muitas vezes resfria o amor; porque, quanto mais convivem, tanto mais descobrem mutuamente os defeitos. Não foi assim com São José: quanto mais convivia com Jesus, tanto mais lhe descobria a santidade. Conclui disso, quanto deve ter amado a Jesus, cuja companhia gozou, na opinião dos autores, pelo espaço de vinte e cinco ou trinta anos!

Considera em segundo lugar o amor que São José teve à sua santa Esposa. Era ela a mais perfeita entre todas as mulheres, a mais humilde, a mais mansa, a mais pura, a mais obediente e a mais amante de Deus, como nunca houve nem haverá outra entre todos os homens e anjos. Era, pois, merecedora de todo o amor de José, que era tão amante da virtude. Acrescenta a isso o amor com que se via amado por Maria, que certamente preferia no amor seu Esposo a todas as criaturas. José considerava-a como a predileta de Deus, escolhida para ser Mãe do Filho unigênito. Considera quão grande devia, por todos estes títulos, ser o afeto que o coração justo e grato de José devia nutrir para com a sua Esposa amabilíssima.

Meu santo Patriarca, alegro-me com vossa ventura e grandeza, por serdes julgado digno da convivência com Maria Santíssima e de governar como pai a Jesus e de vos fazer obedecer por aquele a quem o céu e a terra obedecem. Ó meu Santo, visto como um Deus vos quis servir, também eu quero pôr-me no número de vossos servos. De hoje em diante quero servir-vos, honrar-vos e amar-vos como a meu senhor. Aceitai-me debaixo de vosso patrocínio e ordenai-me o que quiserdes. Sei que tudo que me queirais impor será para meu bem e para glória de meu e vosso Redentor. São José, rogai a Jesus por mim. Ele certamente não vos negará nada, depois de ter obedecido na terra a todas as vossas vontades. Dizei-Lhe que me perdoe as ofensas que Lhe tenho feito. Dizei-Lhe que me desprenda das criaturas e de mim mesmo, que me abrase em seu amor e depois faça de mim conforme a sua vontade. — E vós, ó Maria Santíssima, pelo amor que vos teve São José, acolhei-me debaixo do vosso manto e rogai a vosso santo Esposo que me aceite como seu servo.

Meu querido Jesus, Vós que para pagar as minhas desobediências, quisestes humilhar-Vos e obedecer a um homem, suplico-Vos pela obediência que na terra mostrastes a São José, concedei-me a graça de obedecer de hoje por diante a todos os vossos divinos desejos. Pelo amor que tivestes a José e pelo que ele Vos teve, dai-me um grande amor a Vós, bondade infinita, digna de ser amada de todo o coração. Esquecei as injúrias que Vos fiz e tende piedade de mim. Amo-Vos, Jesus, meu amor, amo-Vos, meu Deus, e quero amar-Vos sempre. (II 429.)

Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II – Santo Afonso

CONVIVÊNCIA DE SÃO JOSÉ COM JESUS E MARIA

sagDescendit cum eis et venit Nazareth, et erat subditus illis — “Desceu (Jesus) com eles e veio para Nazaré, e lhes estava sujeito” (Luc. 2, 51).

Sumário. Que bela sorte foi a de São José por ter vivido tantos anos em companhia de Jesus e Maria! Naquela família, não se tratava senão da maior glória de Deus; não havia outros pensamentos ou desejos senão a vontade de Deus; não se falava senão sobre o amor que Deus tem aos homens e que os homens devem a Deus. Oh! Se nós também soubéssemos aproveitar-nos da oportunidade, teríamos igualmente a ventura de viver com Jesus, presente na Santíssima Eucaristia. Procuremos portanto visitá-Lo freqüentemente e unamos os nossos afetos aos de Maria e José!

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Jesus, depois de ser encontrado no templo por Maria e José, voltou com eles para a casa de Nazaré, e viveu ali com José, até à morte deste, obedecendo-lhe como a seu pai. Considera a santa vida que José ali levou em companhia de Jesus e Maria. Naquela família não havia outro empenho senão a maior glória de Deus, não havia outro pensamento e desejo senão o agrado de Deus, não se conversava senão sobre o amor que os homens devem a Deus e que Deus tem aos homens; particularmente por ter enviado ao mundo o seu Unigênito para sofrer e terminar a vida num mar de dores e de desprezos pela salvação do gênero humano.

Ah, com que lágrimas de ternura não deviam Maria e José, tão bem entendidos nas divinas Escrituras, falar na presença de Jesus sobre a sua dolorosa paixão e morte! Com que ternura não deviam, conversando, recordar que, segundo a profecia de Isaías, o objeto de seu amor havia de ser um dia o homem de dores e de desprezos; que os inimigos haviam de desfigurá-Lo a ponto de não mais ser conhecido pelo mais formoso que era; que haviam de rasgar-Lhe de tal forma as carnes pelos açoites, que seria como que um leproso todo coberto de chagas e feridas; que seu amado Filho havia de sofrer tudo com paciência, sem querer abrir a boca para queixar-se de tantos ultrajes, que se deixaria levar à morte como um cordeiro, e finalmente seria pregado num madeiro infame entre dois ladrões, para terminar a vida pela força dos tormentos. — Considera que afetos de compaixão e de amor deviam ser despertados por tais colóquios no coração de José. Continuar lendo

JESUS, O BOM PASTOR

bomEgo sum pastor bonus. Bonus pastor animam suam dat pro ovibus suis — “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a sua vida pelas suas ovelhas” (Io. 10, 11).

Sumário. O ofício de um bom pastor não é outro senão guiar as suas ovelhas para bons pastos e defendê-las contra os lobos. Mas, ó meu dulcíssimo Redentor, que pastor levou jamais a sua bondade tão longe como Vós, que quisestes dar a vida por nós, vossas ovelhas, e nos livrastes dos castigos merecidos? Não satisfeito com isso, quisestes ainda, depois da morte, deixar-nos o vosso corpo na santa Eucaristia, para sustento de nossas almas. Quem, pois, não Vos amará com todo o afeto? Mas infelizmente muitos Vos pagam com a mais negra ingratidão.

I. Assim diz Jesus Cristo mesmo no Evangelho deste dia: Ego sum pastor bonus — “Eu sou o bom pastor”. O ofício de um bom pastor não é outro senão guiar as suas ovelhas para bons pastos e defendê-las contra os lobos. Mas, ó meu dulcíssimo Redentor, que pastor levou jamais a sua bondade tão longe como Vós, que quisestes dar o vosso sangue e a vida para salvar as vossas ovelhas, que somos nós, e livrar-nos dos castigos merecidos? Vós mesmo, diz São Pedro, levastes os nossos pecados em vosso corpo pregado na cruz, a fim de que, mortos para o pecado, vivamos para a justiça: pelas vossas chagas fomos curados: Cuius livore sanati estis (1). Para nos curar de nossos males, este bom Pastor tomou a si todas as nossas dívidas e pagou-as com o seu próprio corpo, morrendo de dor sobre a cruz.

Este excesso de amor de Jesus para conosco, as suas ovelhas, fazia Santo Inácio Mártir arder do desejo de dar a vida por Jesus Cristo, dizendo, assim como se lê numa carta sua: Amor meus crucifixus est — “O meu amor foi crucificado.” Quis o santo dizer: Como! Meu Deus quis morrer crucificado por meu amor, e eu poderei viver sem desejo de morrer por Ele? – Com efeito, que grande coisa fizeram os mártires dando a vida por Jesus Cristo, que morreu por amor deles! Ah! A morte que Jesus Cristo padeceu por eles, suavizava-lhes todos os tormentos, os açoites, os cavaletes, as unhas de ferro, as fogueiras e as mortes mais dolorosas. Continuar lendo

APARIÇÃO DE JESUS RESSUSCITADO A SUA MÃE MARIA SANTÍSSIMA

Secundum multitudinem dolorum meorum in corde meo, consolationes tuae laetificaverunt animam meam — “Segundo as muitas dores que provou o meu coração, as tuas consolações alegraram a minha alma” (Ps. 93, 19).

Sumário. Era de justiça que Maria Santíssima, que mais do que qualquer outro tomou parte na Paixão de Jesus Cristo, fosse também a primeira a gozar da alegria da sua ressurreição. Imaginemos vê-la no momento em que lhe aparece o divino Redentor glorificado, acompanhado de grande multidão de Santos, entre os quais São José, São Joaquim e Santa Ana. Oh! Que ternos abraços! Que doces colóquios! Alegremo-nos com a nossa querida Mãe e digamos-lhe: Regina coeli, laetare, alleluia — “Rainha dos céus, alegrai-vos, aleluia!”.

Entre as muitas coisas que Jesus Cristo fez e os Evangelistas passaram em silêncio, deve, com certeza, ser contada a sua aparição a Maria Santíssima logo em seguida à sua ressurreição. Nem necessidade havia de referi-la, porquanto é evidente que o Senhor, que mandou honrar pais e mães, foi o primeiro a dar o exemplo, honrando sua Mãe com a sua presença visível. Demais, era de inteira justiça que o divino Redentor glorificado fosse, antes de mais ninguém, visitar a Santíssima Virgem; a fim de que, antes dos outros e mais do que estes, participasse da alegria da ressurreição quem mais do que os outros participara da paixão.

Um dia e duas noites a divina Mãe ficou entregue à dor pela morte do Filho, mas firme e imóvel na fé da ressurreição; e quando começou a alvorecer o terceiro dia, posta em altíssima contemplação, começou com ardentes suspiros a suplicar ao Filho que abreviasse a sua vinda. Continuar lendo

CONFORMIDADE COM A VONTADE DE DEUS A EXEMPLO DE JESUS CRISTO

Descendi de coelo, non ut faciam voluntatem meam, sed voluntatem eius qui misit me — “Eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Io. 6, 38).

Sumário. É tão agradável a Deus o sacrifício da nossa própria vontade, que Jesus Cristo desceu sobre a terra para nos ensinar a maneira de o fazer e em toda a sua vida não fez outra coisa senão dar-nos disso as mais sublimes lições com as suas palavras e com os seus exemplos. Eis, portanto, o que devemos ter em mira em todas as nossas ações: conformar a nossa vontade com a divina, especialmente no que mais repugna ao amor próprio. Vale mais um Bendito seja Deus, dito nas adversidades, do que mil agradecimentos na prosperidade.

É certo que a nossa salvação consiste em amar a Deus, nosso supremo Bem; porque a alma que não O ama, já não vive, mas está morta (1). A perfeição, porém, do amor consiste em conformar a nossa vontade com a divina; pois que, como diz o Aeropagita, o efeito principal do amor é unir as vontades dos que se amam, de sorte que não tenham senão um só coração e uma só vontade.

É isto o que antes de mais nada com as suas palavras e com os seus exemplos veio ensinar-nos Jesus Cristo, que nos foi dado por Deus tanto para ser nosso Salvador como nosso modelo. Pelo que o Apóstolo escreve que as primeiras palavras de Jesus, ao entrar no mundo, foram estas: Ecce venio ut faciam, Deus, voluntatem tuam (2) — “Eis que venho para fazer, ó Deus, a tua vontade”. Meu Deus, recusastes as hóstias e oblações dos homens; não Vos agradaram os holocaustos que Vos ofereciam pelos seus pecados. Quereis que Vos sacrifique morrendo este meu corpo, que Vós mesmo me haveis dado. Eis-me aqui, Senhor, estou pronto para fazer a vossa santíssima vontade. Continuar lendo

A RESSURREIÇÃO DE JESUS CRISTO E A ESPERANÇA DO CRISTÃO

ressHaec dies quam fecit Dominus: exultemus et laetemur in ea — “Este é o dia que fez o Senhor; regozijemo-nos e alegremo-nos nele” (Ps. 117, 24).

Sumário. Façamos um ato de fé viva na ressurreição de Jesus Cristo; cheguemo-nos a Ele em espírito para Lhe beijar as chagas glorificadas, e regozijemo-nos com Ele por ter saído do sepulcro vencedor da morte e do inferno. Lembrando-nos em seguida que a ressurreição de Jesus é o penhor e a norma da nossa, avivemos nossa esperança, e ganhemos ânimo para suportar com paciência as tribulações da vida presente. Lembremo-nos, porém, que para ressuscitarmos gloriosamente com Jesus Cristo devemos primeiro morrer com Ele a todos os afetos terrestres.

I. O grande mistério que em todo o tempo pascal, e especialmente no dia de hoje, deve ocupar as almas amantes de Deus, e enchê-las de dulcíssima esperança, é a felicidade de Jesus ressuscitado. Já meditamos que Jesus, no tempo de sua Paixão, perdeu inteiramente as quatro espécies de bens que o homem pode possuir na terra. Perdeu os vestidos até a extrema nudez; perdeu a reputação pelos desprezos mais abomináveis; perdeu a florescente saúde pelos maus tratos; perdeu finalmente a vida preciosíssima pela morte mais horrível que se pode imaginar. Agora porém, saindo vivo do fundo do sepulcro, recebe com lucro abundantíssimo tudo quanto perdeu.

O que era pobre, ei-Lo feito riquíssimo e Senhor de toda a terra. O que a si próprio se chamava verme e opróbrio dos homens, ei-Lo coroado de glória, assentado à direita do Pai. O que pouco antes era o Homem das dores e provado nos sofrimentos, ei-Lo dotado de nova força e de uma vida imortal e impassível. Finalmente o que tinha sido morto do modo mais horrível, ei-Lo ressuscitado pela sua própria virtude, dotado de sutileza, de agilidade, de clareza, feito as primícias de todos os que dormem com a esperança de ressuscitarem também um dia à imitação de Cristo: Christus resurrexit a mortuis, primitiae dormientium (1) Continuar lendo