É A MARIA QUE O SENHOR DEVE A SUA CONVERSÃO

Resultado de imagem para quadro de nossa senhoraUm Padre Missionário foi chamado a visitar um senhor muito idoso, que tivera uma vida perversa.

Ao chegar ao lugar disse-lhe o velho:

– Aqui está, Padre, um pecador abominável.

O Sacerdote atendeu-o em confissão a qual foi ótima.

Depois de sacramentado, quis o ministro de Deus saber o motivo daquela excelente conversão. Ao que ele respondeu:

– Não sei; o pensamento de me confessar começou há dias a bulir comigo.

– Mas esse pensamento, tornou o Padre, deve ter uma causa. Qual será?

– Não sei, Padre, repetia ele todo feliz.

– Foram seus amigos que o animaram à confissão?

– Não tenho amigos, por aqui.

– O senhor freqüentava a igreja?

– Nunca!

Neste momento o missionário deu com os olhos num quadro da Santíssima Virgem pendente da parede.

– Quê, um objeto desses em sua casa? Como se explica isso com sua vida incrédula?

– Sim, meu Padre, e cada dia recito três vezes Ave-Maria diante dele, para obedecer à última vontade de minha mãe ao morrer.

– Pois bem; aí está a solução toda. É s Maria Santíssima que o senhor deve a graça da conversão.

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 Nunca poderemos aqui na terra suficientemente compreender o grau de bondade de nossa Mãe do Céu.

Como Maria Santíssima é boa! – Frei Cancio Berri C. F. M

XXIV DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES: O GRÃO DE MOSTARDA E A IGREJA CATÓLICA

mostSimile est regnum coelorum grano sinapis, quod accipiens homo seminavit in agro suo — “O reino dos céus é semelhante a um grão de mostarda que um homem tomou e semeou no seu campo” (Matth. 13, 31).

Sumário. No Evangelho de hoje a Igreja Católica é comparada a um grão de mostarda; porque, posto que pequena na sua origem, em breve se dilatou de tal modo, que todas as nações se puseram debaixo da sua proteção. Já que temos a ventura de pertencer a esta Igreja, demos graças por isso a Deus. Se, porém, desejamos que a fé nos salve, meditemos freqüentemente nas máximas salutares da fé e façamos por não sermos do número daqueles que, vivendo no pecado ou na tibieza, são membros mortos ou moribundos.

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I. O divino Redentor compara o reino dos céus, isto é, a sua Igreja, a um grão de mostarda que um homem tomou e semeou no seu campo. E com razão; pois, assim como a mostarda é a menor das sementes, assim a Igreja de Jesus Cristo foi na sua origem muito pequena e desprezível aos olhos dos homens. — Pequena e desprezível em seu fundador; que, posto que fosse Deus, quis passar sua vida na obscuridade e nas humilhações e afinal morreu crucificado entre dois ladrões, pelo que dizia o Apóstolo que Jesus foi para os judeus escândalo e para os gentios loucura (1). — Pequena também e desprezível em sua doutrina; porque quanto à fé impõe para crer dogmas superiores e, na aparência, contrários à razão humana; quanto às obras, ensina máximas bastante difíceis e humilhantes: manda-nos sofrer as injúrias, perdoar aos inimigos, renunciar a nós mesmos. — Pequena finalmente e desprezível nos meios para se propagar; pois que para a sua dilatação foram escolhidos doze pobres pescadores, homens sem prestígio e sem instrução: Quae stulta sunt huius mundi elegit Deus (2) — “Deus escolheu o que é insensato segundo o mundo”.

Mas assim como o grão de mostarda, “quando tem crescido, é a maior de todas as hortaliças e se faz árvore, de maneira que vêm as aves do céu e se aninham em seus ramos”, assim também a Igreja de Jesus Cristo, pequena e desprezível na sua origem, com o auxílio de Deus cresceu em breve tempo de tal maneira, que uma multidão de pessoas, e entre estas reis, imperadores e sábios, a ela vieram abrigar-se, achando a verdadeira felicidade. — Meu irmão, dá graças ao Senhor por teres nascido no grêmio desta Igreja; cuida, porém, que não sejas um membro morto ficando no estado de pecado, ou moribundo, vivendo em tibieza voluntária. Continuar lendo

ESPECIAIS DO BLOG: NO CÉU NOS RECONHECEREMOS

Imagem relacionadaEm uma “Operação Memória” de nosso blog, trazemos novamente os capítulos do Livro: No Céu nos Reconheceremos – Cartas de Consolação, do Pe. R. P. Blot, de 1890.

O livro mostra através de histórias e exemplos como será possível o reconhecimento de parentes e amigos no céu.

Aproveitem a leitura.

PRÓLOGO

CARTAS DE CONSOLAÇÃO

DEVOÇÃO A SÃO JOAQUIM E SANTA ANNA, PAIS DE MARIA SANTÍSSIMA

santosGloria filiorum patres eorum — “A glória dos filhos são seus pais” (Prov. 17, 6).

Sumário. São Joaquim e Santa Ana são as pessoas venturosas a quem, depois de Deus, Maria Santíssima é devedora de tudo quanto possui. Infiramos disso quanto lhe deve agradar o nosso amor e veneração para com eles. Se amas a divina Mãe, sê também devoto a seus santos pais. Agradece muitas vezes à Santíssima Trindade os dons, as graças e os privilégios que lhes concedeu, e invoca-os em tuas necessidades. Procura sobretudo imitar as suas virtudes, especialmente o amor que tinham a sua santíssima filha.

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Considera quão agradável deve ser à Santíssima Virgem a devoção a seus santos pais, a quem se reconhece de mil modos obrigada. Conforme uma tradição antiquíssima, São Joaquim e Santa Ana ficaram muitos anos sujeitos à provação da esterilidade. Se finalmente da sua santa união nasceu essa filha celestial, foi porque pelas suas orações, vigílias, jejuns e esmolas fizeram violência a Deus. De modo que com razão se pode dizer que aqueles santos esposos foram duplamente os progenitores de sua filha santíssima.

São Joaquim e Santa Ana foram os primeiros que aqui na terra começaram a amar Nossa Senhora, e, como afirmam São Jerônimo e Santo Epifânio, foi por ordem da Santíssima Trindade que lhe puseram o nome de Maria o qual, pelas suas sublimes significações, já prognosticava os altos ofícios a que era destinada. Foram eles igualmente que lhe deram a primeira educação, e ah, quão esmerada!

Quando depois a virgenzinha chegou a completar três anos, tomaram-na nos braços, e carregando-a alternadamente na longa viagem de Nazaré a Jerusalém, apresentaram-na no Templo, em cumprimento da promessa feita. Este sacrifício custou bastante a seu coração paternal; fizeram-no todavia para se conformarem com a vontade de Deus e para o grande bem que disso devia resultar para a sua amada filha.

Finalmente, quando esses santos personagens morreram, deixaram à Bem-aventurada Virgem todos os seus haveres, e particularmente a casa de Nazaré, na qual o Redentor passou a maior parte de sua vida em submissão a São José e à sua casta esposa. Numa palavra, depois de Deus, é a São Joaquim e Santa Anna que Maria Santíssima é devedora de tudo que tem, e daí se infere quanto lhe deve ser agradável se a ajudarmos no seu tributo de gratidão, praticando a devoção a esses grandes Santos. Continuar lendo

AS TERRÍVEIS CONSEQÜÊNCIAS DO PECADO

Imagem relacionadaDiscípulo — Padre, o senhor disse também que a desonestidade é o pecado que traz
conseqüências horríveis?

Mestre — Infelizmente assim é! As desonestidades tiram as forças de qualquer obra
generosa. Sansão, o mais forte dos homens, porque Deus o dotara de uma força extraordinária, deu-se a um amor impuro e tornou-se o joguete de Dalila, companheira dos seus pecados; por três vezes ela o traiu e o vendeu aos seus inimigos.

As desonestidades idiotizam a mente. Salomão, o mais sábio de todos os reis, perdese junto das mulheres amalecitas e, abandonando o seu Deus, dá-se à idolatria.

As desonestidades viciam o coração de Henrique VIII, o mais cristão dos reis, tendose
apaixonado por Ana Bolena, repudia a rainha sua esposa, abandona a Igreja Católica, faz da Inglaterra uma nação protestante, e morre excomungado pelo Papa.

As desonestidades fazem perder a fé. Se grande número de cristão não crêem, não têm fé, é por causa das desonestidades. De fato quando é que a juventude começa a deixar a oração, a desertar a Igreja, a abandonar os Sacramentos? Justamente quando começa a freqüentar as más companhias, quando se junta às más conversas, às impurezas. Não faz muito tempo, encontrei-me com um médico meu conhecido e o repreendi docemente porque não praticava a religião. “Faça com que eu me case, respondeu, e tornarei a ser católico praticante”. E o que me confessava era verdade: se não tinha fé era por causa das desonestidades.

As desonestidades são a causa dos crimes mais hediondos. As desonestidades estragam a saúde, diminuem as forças, encurtam a vida. A existência de tantos moços fracos, de tantas doenças, de tantas velhices precoces, a multiplicação de hospitais para os débeis, para os raquíticos, para os dementes, para os abandonados, aí estão para atestar quantos danos causam as desonestidades, mesmo à saúde.

Na América do Sul e na Guiana existe um animal chamado vampiro, que suga o sangue dos homens enquanto estão adormecidos, e quando está satisfeito, foge, deixando a veia aberta, o que frequentemente causa a morte. Pois bem, as desonestidades sugam o sangue, diminuem as forças, gastam a vida de quem se torna escravo delas. A desonestidade é parecida com a chama de uma vela; ou bem apagamos a chama, isto é desistimos do vício, ou bem acabamos a vela, isto é extinguimos a própria vida. Mas quantos há que não querem acreditar e perdem a juventude, perdem a saúde, a alegria e a paz para ir ao encontro de uma morte precoce e desonrosa! Pensam que vão colher e gozar o perfume das rosas, quando, na verdade não traem senão espinhos venenosos.
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SÉTIMA PALAVRA DE JESUS CRISTO NA CRUZ

jesus-na-cruzClamans voce magna Jesus ait: Pater, in manus tuas commendo spiritum meum — “Jesus, dando um grande brado, disse: Pai, nas tuas mãos encomendo o meu espírito” (Luc. 23, 46).

Sumário. Antes de expirar, soltou Jesus um grande brado para nos dar a entender que morria, não pela malevolência de seus inimigos, mas por sua própria vontade. Entrega o espírito nas mãos de seu Pai e recomendando-Lhe a própria pessoa, recomendando-Lhe juntamente todos os fiéis, que pelos seus merecimentos deviam ser salvos. Se formos devotos da Paixão de Jesus Cristo, oh, que conforto nos darão na hora da morte estas suas palavras: Senhor, em vossas mãos encomendo a minha alma!

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Diz Eutíquio que Jesus soltou esse grande brado para dar a entender a todos que era verdadeiramente o Filho de Deus, visto que chamava Deus de seu Pai. Mas, São João Crisóstomo diz que Jesus bradou em voz alta para tornar patente que não morria por necessidade, mas por sua própria vontade, falando tão alto quanto estava próximo a expirar, o que não podem fazer os agonizantes por causa da grande fraqueza que sentem. — Esta explicação do Santo é mais conforme ao que Jesus Cristo mesmo havia dito em vida, a saber: que pela sua própria vontade sacrificava a vida pelas suas ovelhas e não pela vontade e malícia de seus inimigos: Et animam meam pono pro ovibus meis… Nemo tollit eam a me, sed ergo pono eam a meipso (1).

Acrescenta Santo Atanásio que Jesus Cristo, recomendando-se ao Pai, recomendou-Lhe ao mesmo tempo todos os fiéis que pelos seus merecimentos deviam ser salvos; porquanto a cabeça forma com os membros um só corpo. Pelo que o Santo diz que Jesus entendeu repetir então o pedido feito pouco antes: Pai santo, guarda em teu nome aqueles que me deste, a fim de que sejam um como nós (2).

É o que fez São Paulo dizer, quando estava na prisão: Patior sed non confundor (3) — Suporto estes sofrimentos, mas não tenho pejo deles, porque depositei o tesouro de meus sofrimentos e de todas as minhas esperanças nas mãos de Jesus Cristo e sei que Ele é grato e fiel para com aqueles que padecem por seu amor. — Se Davi já punha toda a sua esperança no Redentor vindouro, quanto mais não o deveremos fazer nós, visto que Jesus já consumou a nossa redenção? Digamos-Lhe, pois, com grande confiança: In manus tuas commendo spiritum meum; redemisti me, Domine Deus veritatis (4) — “Em tuas mãos encomendo o meu espírito; remiste-me, Senhor Deus da verdade”. Continuar lendo

AMOR DE JESUS NA INSTITUIÇÃO DO SANTÍSSIMO SACRAMENTO, ANTES DE IR MORRER

SacramentoDominus Iesus, in qua nocte tradebatur, accepit panem … et dixit: Hoc est corpus meum — “O Senhor Jesus, na noite em que foi entregue, tomou o pão… e disse: Isto é o meu corpo” (I Cor. 11, 23).

Sumário. Porque os testemunhos de amor, dados pelos amigos no momento de morrer, se gravam mais fundo na memória e se conservam mais preciosamente, o Senhor quis instituir a santíssima Eucaristia na véspera de sua morte. Ó prodígio de amor! Os homens preparam para Jesus açoites, espinhos e uma cruz, e ele escolhe exatamente esse tempo para nos dar a prova mais preciosa de seu amor. Este amor de Jesus convida-nos a que lhe correspondamos pelo nosso afeto e façamos alguma coisa por seu amor.

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O Santíssimo Sacramento é um dom feito unicamente por amor. Segundo os decretos divinos, foi necessário para nossa salvação que o Redentor morresse e que, pelo sacrifício de sua vida, satisfizesse à divina justiça pelos nossos pecados. Mas que necessidade havia que Jesus Cristo se nos desse em sustento, depois de sua morte? Assim o quis o seu amor. Se Ele instituiu a Eucaristia, diz São Lourenço Justiniani, foi unicamente para nos fazer compreender o imenso amor que nos tem.

É o que escreve também São João: Sciens Iesus quia venit hora eius (1) — Sabendo Jesus que era chegado o tempo de deixar a terra, quis deixar-nos a maior prova de seu amor, isto é, o dom do Santíssimo Sacramento. Tal é o precisamente o sentido destas palavras: In finem dilexit eos – “Amou-os até o fim”, isto é, segundo a explicação de Teofilato e São João Crisóstomo, extremo amore, summe dilexit eos — “amou-os com amor extremo”. — E observemos o que nota o Apóstolo: o tempo em que Jesus nos quis fazer este donativo, foi o de sua morte: na noite em que foi entregue. Enquanto os homens preparavam açoites, espinhos e uma cruz para o supliciarem, é que o bom Salvador nos quis dar este último penhor de sua ternura.

Mas porque instituiu este sacramento no momento de sua morte, e não antes? Diz São Bernardino que Jesus assim fez, porque os testemunhos de afeto dados pelos amigos no momento da morte, se imprimem mais profundamente na memória e mais preciosamente se conservam. Jesus Cristo, continua o mesmo Santo, já se nos tinha dado por muitos modos: por amigo, por mestre, por pai, por guia, por modelo, por vítima. Restava um último grau de amor, que era dar-se por alimento, a fim de se unir todo a nós, assim como o sustento se une ao que o toma, e é o que fez dando-se-nos no Santíssimo Sacramento. Continuar lendo

QUÃO POUCOS SÃO OS QUE AMAM A CRUZ DE JESUS

Resultado de imagem para carregar cruz de jesusMuitos encontram Jesus e são agora apreciadores de seu reino celestial; mas poucos que queiram levar a sua cruz. Tem muitos sequiosos de consolação, mas poucos da tribulação; muitos companheiros à sua mesa, mas poucos de sua abstinência. Todos querem gozar com ele, poucos sofrer por ele alguma coisa. Muitos seguem a Jesus até ao partir do pão, poucos até beber o cálice da paixão. Muitos veneram seus milagres, mas poucos abraçam a ignomínia da cruz. Muitos amam a Jesus, enquanto não encontram adversidades. Muitos O louvam e bendizem, enquanto recebem d’Ele algumas consolações; se, porém, Jesus se oculta e por um pouco os deixa, caem logo em queixumes e desânimo excessivo.

Aqueles, porém, que amam a Jesus por Jesus mesmo e não por própria satisfação, tanto O louvam nas tribulações e angústias, como na maior consolação. E posto que nunca lhes fosse dada a consolação, sempre O louvariam e Lhe dariam graças.

Oh! Quanto pode o amor puro de Jesus, sem mistura de interesse ou amor-próprio! Não são porventura mercenários os que andam sempre em busca de consolações? Não se amam mais a si do que a Cristo os que estão sempre cuidando de seus cômodos e interesses? Onde se achará quem queira servir desinteressadamente a Deus?

É raro achar um homem tão espiritual que esteja desapegado de tudo. Pois o verdadeiro pobre de espírito e desprendido de toda criatura – quem o descobrirá? Tesouro precioso que é necessário buscar nos confins do mundo (Prov 31,10). Se o homem der toda a fortuna, não é nada. E se fizer grande penitência, ainda é pouco. Compreenda embora todas as ciências, ainda estão muito longe. E se tiver grande virtude de devoção ardente, muito ainda lhe falta, a saber: uma coisa que lhe é sumamente necessária. Que coisa será esta? Que, deixado tudo, se deixa a si mesmo e saia totalmente de si, sem reservar amor-próprio algum, e, depois de feito tudo que soube fazer, reconheça que nada fez.

Não tenha em grande conta o pouco que nele possa ser avaliado por grande: antes, confesse sinceramente que é um servo inútil, como nos ensina a Verdade. Quando tiverdes cumprido tudo que vos for mandado, dizei: Somos servos inúteis (Lc 17,10). Então, sim, o homem poderá chamar-se verdadeiramente pobre de espírito e dizer com o profeta: Sou pobre e só neste mundo (Sl 24,16). Entretanto, ninguém é mais poderoso, ninguém mais livre que aquele que sabe deixar-se a si e a todas as coisas e colocar-se no último lugar.

Imitação de Cristo – Tomás de Kempis

OBRIGAÇÃO QUE TEMOS DE SOCORRER AS ALMAS DO PURGATÓRIO

purgatMortuo non prohibeas gratiam — “Não impeças que a liberalidade se estenda aos mortos” (Ecclus. 7, 37).

Sumário. A caridade cristã não só nos aconselha, mas até nos obriga a socorrermos as almas do purgatório; porquanto são nossos próximos e se acham em grandíssima necessidade. Tanto mais que entre elas podem penar também as almas de nossos pais, parentes e amigos; e, não podendo valer-se por si próprias, recomendam-se a nós por socorro. Que crueldade, pois, não nos apressarmos a socorrê-las, ainda que à custa de algum sacrifício!… Receemos ser tratados depois como nós agora tratamos os outros.

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A caridade cristã não só nos dá o conselho, mas nos impõe a obrigação de rezarmos pelas almas do purgatório. Sim, porque, conforme ensina Santo Tomás, a caridade estende-se não só aos vivos, senão também a todos os que morreram na amizade de Deus; e, além disso, ela pede que socorramos especialmente aqueles próximos que mais precisem do nosso auxílio. Ora, quem dentre os nossos próximos está em tão grande necessidade de socorro, como essas santas prisioneiras? As infelizes ardem continuamente naquele fogo, que as atormenta muito mais do que qualquer fogo terrestre, e fá-las sofrer juntamente toda a espécie de suplícios cruciantes.

Mais. Em cada uma de suas faculdades padecem penas indizíveis. Aflige-as a vista pavorosa dos pecados, pelos quais amarguraram o seu Deus, a quem tanto amam, e atraíram sobre si mesmas as dores acerbas que estão sofrendo. Aflige-as a lembrança dos grandes benefícios recebidos de Deus, quando estavam na terra; e especialmente a lembrança daquelas misericórdias e graças especiais que lhes podiam adquirir mais merecimentos no paraíso, ao passo que só ganharam mais tormento no purgatório, porque não corresponderam às graças com a devida gratidão. Aflige-as finalmente e sobretudo o estarem longe de seu esposo, isto é, de Deus, sem sequer saberem quando terão a consolação de O irem ver.

O que, porém, mais nos deve excitar a aliviarmos essas santas almas é o pensamento de que entre elas penam talvez as almas de nossos pais, irmãos ou outros parentes e amigos e benfeitores; que não se podendo valer a si próprias, porque se acham em estado de satisfação pelas suas faltas, socorrem-se a nós por alívio e dizem-nos com Jó: Miseremini mei, miseremini mei, saltem vos amici mei (1) — “Compadecei-vos de mim, compadecei-vos de mim, ao menos vós que sois meus amigos”. Continuar lendo

SE NÃO TIVESSE LEVANTADO…

Resultado de imagem para rezando camaMorria, certo dia, uma piedosa mãe. Antes de expirar, chamou o único filho e pediu-lhe que nunca omitisse o belo exercício de rezar todas as manhãs e todas as noites três Ave-Marias em honra a Nossa Senhora.

O bom filho prometeu-lho e com fidelidade cumpria a palavra dada. Uma noite, porém, esqueceu-se da piedosa prática. Acordado, após umas horas de sono, lembrando-se do esquecimento, levantou-se e de joelhos disse devotamente as Ave-Marias. Estava ainda de joelhos, quando se abre, de repente, a porta do quarto e entra um sonâmbulo. Vai direto à cama vazia e … enterra um punhal até aos copos no colchão.

Não tivesse se levantado, sem dúvida, teria perdido tragicamente a vida.

Nossa Senhora mostrou como protege os que lhe querem bem.

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A devoção de três Ave-Marias diárias muitíssimo aconselhadas pelos Santos e pregadores realiza maravilhas. Que ninguém omita essa importantíssima prática. E é bom acrescentar depois de cada Ave-Maria a jaculatória: “Ó Maria, minha Mãe, preservai-me do pecado mortal!”

Como Maria Santíssima é boa! – Frei Cancio Berri C. F. M

NECESSIDADE DA ORAÇÃO

rezOportet semper orare et non deficere — “É preciso orar sempre e não deixar de o fazer” (Luc. 18, 1).

Sumário. É certo que Deus, excetuando as primeiras graças, tais como a vocação para a fé ou penitência, nenhuma outra graça concede em regra geral (e menos ainda a perseverança) senão àquele que ora. Pelo que a oração é necessária aos adultos por necessidade de meio, de modo que o que ora, certamente se salva e o que não ora, certamente se condena. Este será o maior motivo de desespero para os réprobos, verem que tão facilmente se podiam salvar pela oração e que não há mais tempo para orar. Meu irmão, como usaste até hoje deste grande meio?

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Afirma São João Crisóstomo que, assim como um corpo sem alma está morto, assim está morta a alma sem a oração. Diz ainda que, assim como a água é necessária às plantas para não murcharem, assim nos é necessária a oração para não nos perdermos. — Omnes homines vult salvos fieri (1) — Deus quer que todos os homens se salvem e não quer que ninguém se perca; mas ao mesmo tempo exige que lhe peçamos as graças necessárias para nos  salvarmos, pois, por um lado, não podemos observar os preceitos divinos e salvar-nos sem a assistência atual do Senhor; e por outro, não nos quer Ele dar graças (ordinariamente falando), se lh´as não pedirmos. O santo Concílio de Trento declarou que Deus não nos impõe ordens impossíveis, visto dar-nos, ou a graça próxima e atual para as cumprirmos, ou a graça de lhe pedirmos essa graça atual.

Ensina-nos Santo Agostinho que, à exceção das primeiras graças, tais como a vocação para a fé ou conversão, Deus nenhuma outra concede (e especialmente a perseverança) senão àquele que ora. — D´aqui concluem os teólogos, com São Basílio, Santo Agostinho mesmo, São João Crisóstomo, Clemente de Alexandria e outros, que a oração é necessária aos adultos por necessidade de meio, de modo que sem a oração é impossível salvarem-se. E o sábio Lessio diz que esta doutrina se deve considerar artigo de fé.

As Sagradas Escrituras são claras: Oportet semper orare — “É preciso orar sempre”. Orate, ut non intretis in tentationem (2) — “Orai, para não cairdes em tentação”. Petite et accipietis (3) — “Pedi e recebereis”. Sine intermissione orate (4) — “Rezai sem cessar”. Estes termos: é preciso, orai, pedi, segundo a opinião comum dos teólogos, de acordo com Santo Tomás (5), têm força de preceito que obriga sob pecado grave, particularmente em três casos: quando se está em pecado, quando se está em perigo de morte e quando se está em grande risco de pecar. Os teólogos ensinam que ordinariamente o que passa um mês ou, quando muito, dois, sem rezar, não está livre de pecado mortal. A razão é que a oração é um meio sem o qual não podemos obter os socorros necessários para nos salvarmos. Continuar lendo

O SORRISO DA IMACULADA

Imagem relacionadaQuatro anos após a definição do dogma da Imaculada Conceição, Nossa Senhora se dignou baixar à terra para confirmar de um modo estupendo a declaração do Papa Pio IX, de santa memória.

Foi em Lourdes, na França, que Nossa Senhora apareceu repetidas vezes à inocente Bernadete e na última aparição disse: Eu sou a Imaculada Conceição.

Quem refere o seguinte episódio não é nenhum devoto, nem sequer bom cristão. Ele escreve:

” Quando já se falava muito das aparições de Lourdes, achava-me em Cauterets, povoação próxima de Lourdes, mais para distrair-me do que para curar-me.

Achei graça ao ouvir que a Virgem sorrira para Bernadete e resolvi ir a Lourdes para ver a Vidente e surpreendê-la na mentira. Fui a casa dos Soubirous e encontrei Bernadete sentada à porta cerzindo umas meias. Pareceu-me o seu rosto bastante vulgar; apresentava sinais de enfermidade crônica ao par de muita doçura. A instâncias minhas contou-me as aparições com toda a simplicidade e convicção.

– Mas é verdade que a Virgem sorriu?

– Sim, sorriu.

– E como sorria?

– A menina olhou-me com ar de espanto, e disse

– Mas , senhor seria preciso ser gente do céu para repetir aquele sorriso.

– Não o poderia repetir para mim? Sou incrédulo e não creio nas aparições.

O rosto de Bernadete tornou-se triste e severo.

– Então julga o senhor que menti?

Senti-me vencido. Não, aquela menina tão cândida não podia mentir. Ia pedir-lhe desculpas, quando ela acrescentou:

– Bem; se o senhor é um pecador, tentarei imitar o sorriso de Nossa Senhora.

A menina ergueu-se lentamente, juntou as mãos e um reflexo celeste iluminou seu rosto. Um sorriso divino, que jamais vi em lábios mortais, encantou os meus olhos… Sorria ainda, quando caí de joelhos, vencido pelo sorriso da Imaculada nos lábios da ditosa Vidente.

Desde aquele dia nunca mais se me apagou da imaginação aquele sorriso divino. Passaram-se muitos anos, mas a sua recordação enxugou-me muitas lágrimas ao perder minha esposa e minhas duas filhas… Parece-me estar só no mundo e vivo no sorriso da Virgem”.

Tesouro de Exemplos – Pe. Francisco Alves

DAS PENAS DO INFERNO

infOmnis dolor irruet super eum — “Toda a sorte de dores virá sobre ele” (Iob 20, 22).

Sumário. É artigo de fé que há um inferno, isto é, uma prisão miserabilíssima toda cheia de fogo, onde cada sentido e cada faculdade do réprobo sofrem uma pena particular. Enquanto fazemos esta meditação, tantos cristãos desgraçados, talvez da mesma idade que nós, talvez conhecidos nossos, estão ardendo nessa fornalha ardente, sem a mínima esperança de saírem de lá. Reflete agora, meu irmão: qual é o estado de tua consciência? Se o Senhor te deixasse morrer na primeira noite, para onde iria a tua alma?

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Considera que o inferno é uma prisão miserabilíssima, toda cheia de fogo. Nesse fogo estão submergidos os réprobos, tendo um abismo de fogo acima de si, um abismo ao redor de si e um abismo abaixo de si. Fogo há nos olhos, fogo na boca, fogo por todos os lados.

Cada um dos sentidos sofre a sua pena própria. Os olhos são cegados pela fumaça e pelas trevas, e aterrados pela vista dos outros condenados e réprobos. Os ouvidos ouvem dia e noite urros, gemidos e blasfêmias. O olfato é empestado pelo mau cheiro daqueles inumeráveis corpos infectos. — O gosto é atormentado por uma sede ardentíssima e uma fome devoradora sem jamais obter uma gota de água nem um pedaço de pão. Por isso os desgraçados prisioneiros, ardendo em sede, devorados pelo fogo, cruciados por toda a espécie de tormentos, choram, urram e se desesperam. Mas não há, nem haverá jamais, quem os alivie ou console. Oh inferno, oh inferno! Como é que alguns não querem crer em ti, senão quando se vêem precipitados dentro de ti!

Considera depois as penas que sofrerão as faculdades da alma. A memória será atormentada pelo remorso de consciência. O remorso é aquele verme que está roendo sempre no condenado ao pensar que se condenou por culpa própria, por uns poucos prazeres envenenados. Oh meu Deus! Como se lhe afigurarão aqueles prazeres momentâneos depois de cem, depois de mil milhões de anos? O verme do remorso lhe recordará o tempo que Deus lhe deu para salvação; a facilidade que teve de se salvar; os bons exemplos dos companheiros; as resoluções tomadas, mas não cumpridas. Verá então que não pode mais remediar a sua ruína eterna. Oh meu Deus, meu Deus! Que inferno no inferno será este! — A vontade será sempre contrariada; não terá nada do que deseja e terá sempre aquilo que não quer, isto é, toda a espécie de tormentos. O entendimento conhecerá o grande bem que perdeu, a saber: Deus e o paraíso. – Ó Senhor, perdoai-me, pelo amor de Jesus Cristo! Continuar lendo

A REALEZA DE CRISTO NO CORAÇÃO DE NOSSO COMBATE

Fonte: La Porte Latine – Tradução: Dominus Est

Durante a apresentação da Fraternidade São Pio X, na edição anterior, foi observado o seguinte ponto: “Um outro elemento central da “espiritualidade” da Fraternidade São Pio X é indicado pelos Estatutos em duas discretas frases:

“Eles terão pelo Reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo uma devoção sem limites, compatível com a infinidade de Seu Reino: sobre as pessoas, as famílias e as sociedades. Se eles devem manifestar uma opção política, sempre será no sentido deste Reinado social de Nosso Senhor Jesus Cristo “.

Pareceu-me útil desenvolver este ponto pouco mencionado, por dois motivos principais: 

– O primeiro é o incrível mal entendimento atual da doutrina do Reinado de Cristo, de Cristo Rei, embora o Papa Pio XI, em particular, expôs longa e metodicamente essa doutrina, que é o coração da fé católica. Uma espécie de placa de chumbo caiu nesta parte da doutrina católica, transformando-a em um “buraco negro” na vida cristã. É por isso que esta questão é um pouco mais longa do que o habitual, de forma a dispor de tempo para explicar, mesmo que brevemente, esse elemento do dogma católico. Continuar lendo

XXIII DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES: A FILHA DE JAIRO, A HEMORROÍSSA E A ALMA PECADORA

Polenov-Filha-JairoDomine, filia mea modo defuncta est: sed veni, impone manum tuam super em et vivet – “Senhor, nesta hora acaba de expirar minha filha; mas vem, impõe sobre ela a tua mão, e viverá” (Mat. 9, 18).

Sumário. Meu irmão, se porventura te achares enfermo espiritualmente por causa do pecado, imita a hemorroíssa, da qual nos fala o Evangelho, chega-te a Jesus, na pessoa de seu representante, o sacerdote, no sacramento da penitência. Se, como espero, a consciência não te acusa de pecado grave, imita a confiança de Jairo, e roga ao Senhor faça reviver espiritualmente tantos pecadores teus irmão. Considera, porém, atentamente que não seja daqueles que têm o nome de vivos e estão mortos ou moribundos por causa de sua tibieza.

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I. Refere o Evangelho que, “enquanto falava aos judeus, acercou-se um príncipe, e o adorou dizendo: Senhor, nesta hora acaba de falecer minha filha; mas vem, impõe sobre ela tua mão e viverá. E Jesus, levantando-se, o foi seguindo com os seus discípulos. E eis que uma mulher, que havia doze anos padecia um fluxo de sangue, chegou-se por detrás dele e lhe tocou a fimbria do vestido. Porque dizia consigo: Se tocar ao menos o seu vestido, estarei curada. E, voltando-se Jesus e vendo-a, disse: Tem confiança, filha, tua fé te sarou. E ficou sã a mulher desde aquela hora – “Et salva facta est mulier ex illa hora.

Diz Cornélio a Lapide, que tanto a hemorroíssa como a jovem morta são figuras da alma pecadora, a qual Jesus Cristo quer ressuscitar para a vida espiritual e livrar do desregramento da concupiscência, figurado pelo fluxo de sangue. E São Boaventura, refletindo sobre este trecho do Evangelho, dirige-se ao pecador e diz: “Aquela jovem é tua alma, morta há pouco pelo pecado; converte-te já para Deus: Festina conversionem.” – Portanto, meu irmão se porventura tens ofendido a Deus, imita a fé daquela pobre mulher e chega-te a Jesus, na pessoa de seu ministro, no tribunal da penitência. E não tardes em fazê-lo, porque, se fores adiando, virá talvez sobre ti a ira de Deus e te mandará ao inferno (1).

Se, porém, como espero, não tens pecado grave na alma, imita a Jairo, pai da jovem, e roga ao Senhor venha com a sua graça e faça ressuscitar espiritualmente tantos pecadores, teus irmãos. – Considera todavia atentamente não sejas do número daqueles de quem diz São João: “Tem reputação de que vivem, mas estão mortos”, ou quase moribundos por causa de sua tibieza (2). Continuar lendo

MARIA SANTÍSSIMA, MODELO DE ORAÇÃO

Resultado de imagem para nossa senhora rezandoOportet semper orare et non deficere — “Importa orar sempre e não cessar de o fazer” (Luc. 18, 1).

Sumário. Desde o instante em que a Santíssima Virgem recebeu a vida, e com esta o uso perfeito da razão, começou também a orar e nunca mais deixou de orar até ao seu último suspiro. Se Maria, tão santa e imaculada, foi tão amante da oração, quanto mais nós a devemos amar, que estamos tão propensos ao mal e temos inimigos tão fortes que combater? À imitação de nossa querida Mãe, habitemos com os nossos afetos no céu, nunca percamos de vista a eternidade e seja a oração o nosso único ornato.

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Jamais existiu neste mundo quem com tanta perfeição como a Santíssima Virgem executasse o grande preceito de nosso Salvador:Importa orar sempre e não cessar de o fazer. Pelo que diz São Boaventura, que ninguém melhor que Maria nos pode servir de exemplo e ensinar a necessidade que temos de perseverar na oração.

Primeiramente, como escreve Dionísio o Cartusiano, a oração da Virgem foi toda recolhida e sem distração alguma. Isenta como ficara do pecado original, estava também livre de qualquer afeto terrestre e de todo o movimento desordenado, e todos os seus sentidos estavam sempre em harmonia com o seu bendito espírito. Assim a sua bela alma, livre de todo o empecilho, elevava-se incessantemente a Deus, amava-O sempre e crescia sempre no amor.

A oração da Bem-aventurada Virgem foi além disso continua e perseverante. Desde o primeiro momento em que juntamente com a vida ela recebeu o uso perfeito da razão, começou também a fazer oração. Para melhor se aplicar à oração quis, sendo menina de três anos, encerrar-se no templo, e ali, além das outras horas destinadas à oração, levantava-se sempre à meia noite, como ela mesma disse à santa virgem Isabel, para orar diante do altar do templo.

Com tal fim também, e para sempre meditar nas penas de Jesus, como diz Odilon, Maria, depois da Ascensão do Senhor, visitava muitas vezes os lugares santos da Palestina, ora a Gruta de Belém, onde o Filho nasceu; ora a casa de Nazaré, onde o Filho viveu tantos anos, pobre e desprezado, ora o horto de Getsêmani, onde o filho começou a sua Paixão; ora o pretório de Pilatos, onde foi açoitado e coroado de espinhos; ora o Calvário, onde o viu expirar; e, finalmente, o sepulcro, no qual o acomodou com as suas próprias mãos. — Numa palavra, toda a vida da Santíssima Virgem foi uma oração contínua. E, como conclui o Bem-aventurado Alberto Magno, ela foi excelentíssima nesta virtude, e depois de Jesus Cristo a mais perfeita de todos quantos tem existido, existem ou existirão. Felizes de nós se a soubermos imitar! Continuar lendo

VALOR DO TEMPO – PONTO III

Resultado de imagem para olhando horizonteDevemos caminhar pela via do Senhor enquanto temos vida e luz, porque esta logo desaparece na morte (Lc 12,40). Então já não é tempo para preparar-se, mas de estar pronto (Jo 12,35). Quando chega a morte, não se pode fazer nada: o que está feito está feito… Ó Deus! Se alguém soubesse que em breve se decidiria a causa de sua vida ou morte, ou de toda a sua fortuna, com que ardor não procuraria um bom advogado, diligenciaria para que os juízes conhecessem nitidamente as razões que lhe assistem, e trataria de empregar os meios para obter sentença favorável!… O que fazemos nós? Sabemos com certeza que muito brevemente, no momento em que menos o pensamos, se há de julgar a causa do maior negócio que temos, isto é, do negócio de nossa salvação eterna… e ainda perdemos tempo? Dirá talvez alguém:

“Sou ainda moço; mais tarde me converterei a Deus”.

Sabe — respondo — que o Senhor amaldiçoou aquela figueira que achou sem frutos, posto que não fosse estação própria, como observa o Evangelho (Mc 11,13). Com este fato quis Jesus Cristo dar-nos a entender que o homem, em todo tempo, sem excetuar a mocidade, deve produzir frutos de boas obras, senão será amaldiçoado e nunca mais dará frutos no futuro. Nunca jamais coma alguém fruto de ti (Mc 11,14). Assim falou o Redentor àquela árvore, e do mesmo modo amaldiçoa a quem ele chama e lhe resiste… Circunstância digna de admiração! Ao demônio parece breve a duração de nossa vida, e é por isso que não deixa escapar ocasião de nos tentar.

“Desceu a vós o demônio com grande ira, sabendo que lhe resta pouco tempo” (Ap 12,12). Continuar lendo

SEXTA PALAVRA DE JESUS CRISTO NA CRUZ

jesus_na_cruzCum ergo accepisset Jesus acetum, dixit: Consummatum est — “Jesus, havendo tomado o vinagre, disse: Tudo está consumado”. (Io. 9, 30)

Sumário. Consideremos como Jesus moribundo, antes de expirar, percorreu em espírito toda a sua vida. Viu todos os seus trabalhos penosos, as suas dores, as ignomínias suportadas e tudo isso ofereceu-o de novo a seu eterno Pai para a salvação do mundo. Em seguida, virando-se para nós, disse: Tudo está consumado. — Foi como se dissesse: “Ó homens, nada mais tenho a fazer para ser amado por vós; tempo é que afinal resolvais amar-me.” Amemos, portanto, a Jesus e provemos-Lhe nosso amor fazendo e sofrendo alguma coisa por seu amor, assim como Ele fez e sofreu tanto por nosso amor.

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I. Nosso amabilíssimo Jesus, chegado o momento de render o último suspiro, disse com voz moribunda: Tudo está consumado. Pronunciando estas palavras, repassou em seu pensamento todo o decurso de sua vida, viu todos os seus trabalhos, a pobreza, as dores, as ignomínias que tinha sofrido e tudo ofereceu de novo a seu Pai pela salvação do mundo. Depois, voltando-se para nós disse: Tudo está consumado. — Foi como se dissesse: Homens, tudo está consumado, tudo está cumprido; a ora da vossa redenção se completou, a divina justiça está satisfeita, o paraíso está aberto. Et ecce tempus tuum, tempus amantium (1) — Eis-aqui o vosso tempo, o tempo dos que amam. É tempo, enfim, ó homens, de vos resolverdes a amar-me. Amai-me, pois, amai-me; porque nada mais tenho a fazer para ser amado por vós.

Tudo está consumado. Vede, disse então Jesus moribundo, vede o que tenho feito para adquirir o vosso amor. Por Vós tenho levado uma vida cheia de tribulações; no fim de meus dias, antes de morrer, consenti que fosse derramado o meu sangue, que me escarrassem no rosto, que me despedaçassem o corpo, que me coroassem de espinhos; finalmente, sujeitei-me a suportar as dores da agonia sobre este madeiro em que me vedes. Que resta fazer? Uma só coisa: expirar por vós. Sim, quero morrer. Vem, ó morte, eu to permito, tira-me a vida pela salvação de minhas ovelhas, amai-me, amai-me, porque já não posso ir mais longe para me fazer amar.Consummatum est — “Tudo está consumado”.

Amemos, pois, a nosso Jesus, e, conforme à exortação do Apóstolo, provemos-Lhe nosso amor, correndo com paciência generosa ao combate que em vida teremos de sustentar conta os nossos inimigos espirituais; provemos-lho resistindo até ao fim as tentações, a exemplo de Jesus Cristo mesmo, que não desceu da cruz antes de expiar e quis consumar o seu sacrifício até morrer: Per patientiam curramus ad propositum nobis certamen, aspicientes in auctorem fidei et consummatorem Iesum (2) — “Corramos pela paciência ao combate que nos é proposto, olhando para o autor e consumador da fé, Jesus”. Continuar lendo

O QUE TENHA DE FAZER A ALMA NA PRESENÇA DE JESUS NO SANTÍSSIMO SACRAMENTO

santiDelectare in Domino, et dabit tibi petitiones cordis tui — “Deleita-te no Senhor, e te outorgará as petições do teu coração” (Ps. 36, 4).

Sumário. Estas palavras ensinam-nos como temos de nos haver na presença de Jesus no Santíssimo Sacramento. Diante do tabernáculo, agradeçamos ao Senhor os muitos benefícios que nos fez, especialmente o querer Ele ficar conosco sobre o altar; amemo-Lo com todas as nossas forças e ofereçamo-nos a Ele sem reserva. Afinal supliquemos a Jesus Cristo as graças de que necessitamos, principalmente o aumento do amor e a união à sua vontade divina. Oh! Se nós soubéssemos aproveitar bem da companhia de nosso divino amante, em breve seríamos todos santos.

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A condessa de Feria, feita religiosa de Santa Clara, escolheu uma cela donde se avistava o altar do Santíssimo Sacramento, e aí se demorava quase todo o tempo, de dia e de noite. Perguntada sobre o que fazia durante longas horas na igreja, respondeu: “Ah! Eu ficaria ali durante toda a eternidade. Que é o que se faz diante do Santíssimo Sacramento? Agradece-se, ama-se e pede-se.” — Eis ai, meu irmão, um belo método para aproveitares bem o tempo na presença de Jesus no Santíssimo Sacramento.

Em primeiro lugar, agradece-se. És tão agradecido a um parente que veio de longe para te visitar, e não tens uma palavra de gratidão para Jesus Cristo, que desceu do céu, não só para te visitar, mas para estar sempre contigo? Quando, pois, o visitares, antes de mais nada aviva a tua fé, adora o Esposo de tua alma e rende-Lhe graças pela bondade com que por teu amor fixou a sua morada sobre esse altar.

Em segundo lugar, ama-se. Quando São Filipe Neri na sua doença viu o santo Viático em seu quarto, exclamou todo abrasado em amor: Eis ai o meu amor! Eis ai o meu amor! Assim dize tu também, quando vires a sagrada Custódia; multiplica então os atos de amor que tanto agradam a Jesus, e renunciando a toda vontade própria consagra-te a Ele todo e sem reserva, dizendo: Senhor, fazei com que eu sempre Vos ame, e depois disponde de mim como Vos agradar.

Por fim, pede-se. O Venerável Padre Alvarez viu no Santíssimo Sacramento Jesus com as mãos cheias de graças, mas sem achar a quem distribuí-las, porque ninguém ia pedi-las. Portanto, pede-as tu; roga-lhe que te dê força para resistir às tentações, para te emendar de qualquer defeito, para te livrar de alguma paixão… Pede-lhe em particular que aumente em teu coração a chama de seu amor e te conserve bem unido a sua santa vontade, fazendo-te sofrer em paz todos os desprezos e contrariedades. Ah! Se todas as almas fizessem assim e soubessem aproveitar-se bem da companhia de seu divino Esposo, em breve todas se tornariam santas.

Ó meu Jesus, eu vos adoro no Santíssimo Sacramento do altar. Vós sois o mesmo Jesus que um dia por meu amor sacrificastes a vossa vida divina sobre a cruz e agora estais encerrado na Custódia, como em uma prisão de amor. Entre tantos outros que Vos ofenderam menos do que eu, quisestes escolher-me para Vos fazer companhia sobre a terra, a fim de que depois Vos vá amar e gozar sem véu no paraíso. Além disso me convidais a alimentar-me muitas vezes na santa comunhão com a vossa santa carne, afim de me unir todo a Vós e me fazer todo vosso. Meu amado Redentor, que Vos poderei dizer? Agradeço-Vos e espero ir um dia agradecer-Vos no céu por toda a eternidade:Miserircordias Domini in aeternum cantabo(1) — “Eu cantarei eternamente as misericórdias do Senhor”. Sim, meu Jesus, assim espero pelos vossos merecimentos.

Declaro que estou mais contente por ter deixado por vosso amor o mundo e o pouco de que no mundo podia gozar, do que por ser rei de toda a terra. Arrependo-me de Vos ter dado até agora em vossa casa tantos desgostos pelos quais merecia ser expulso. Perdoai-me, ó meu Jesus; com o vosso auxílio d´oravante não será mais assim. Não me quero mais afastar de vossos pés, quero visitar-Vos muitas vezes. A vossa presença me dará forças para desprender-me de todo o afeto que não seja para Vós; perto de Vós lembrar-me-ei sempre da obrigação que tenho de Vos amar e de recorrer a Vós em todas as minhas necessidades. Desejo permanecer sempre a vossos pés e receber-Vos freqüentemente na comunhão, a fim de Vos amar sempre mais e unir-me convosco, meu amado Salvador.

Amo-vos, ó meu Deus, oculto no Santíssimo Sacramento. Por amor meu é que ficais continuamente neste altar; por vosso amor, quero ficar o mais que puder na vossa presença. Aqui encerrado me amais sem cessar e eu também Vos quero amar sem cessar; assim, meu Jesus e meu tudo, estaremos sempre juntos aqui durante a minha vida e depois durante a eternidade no paraíso. — Ó Maria, minha Mãe, rogai a Jesus por mim e consegui-me um grande amor ao Santíssimo Sacramento. (*IV 308.)

  1. Ps. 88, 2.

Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III – Santo Afonso

VALOR DO TEMPO – PONTO II

Resultado de imagem para ampulhetaNada há mais precioso que o tempo e não há coisa menos estimada nem mais desprezada pelos mundanos. Isto deplora São Bernardo, dizendo:

“Passam rapidamente os dias de salvação, e ninguém reflete que esses dias desaparecem e jamais voltam”.

Vede aquele jogador que perde dias e noites na tavolagem. Perguntai-lhe o que fez e responderá: “Passar o tempo”. Vede o ocioso que se entretém horas inteiras na rua a ver quem passa, ou a falar em coisas obscenas ou inúteis. Se lhe perguntam o que está fazendo, dirá que não faz mais do que passar o tempo. Pobres cegos, que assim vão perdendo tantos dias, dias que nunca mais voltam! Ó tempo desprezado! tu serás a coisa que os mundanos mais desejarão no transe da morte… Queremos então dispor de mais um ano, mais um mês, mais um dia; mas não o terão, e ouvirão dizer que já não haverá mais tempo (Ap 10,6). O que não daria então cada um deles para ter mais uma semana, um dia de vida, a fim de poder melhor ajustar as contas da alma!… Ainda que fosse para alcançar só uma hora — disse São Lourenço Justiniano — dariam todos os seus bens. Mas não obterão essa hora de trégua… Pronto, dirá o sacerdote que o estiver assistindo, apressa-te a sair deste mundo; já não há mais tempo para ti.

Por isso, exorta o profeta a que nos lembremos de Deus e procuremos sua graça antes que a luz se nos extinga (Ecl 12,1-2). Que apreensão não sentirá um viajante ao notar que se transviou no caminho, quando, por ser já noite, não lhe é possível reparar o engano!… Tal será a mágoa na morte do que tiver vivido muitos anos sem empregá-los no serviço de Deus. Continuar lendo

PARA A SALVAÇÃO É NECESSÁRIO O SACRIFÍCIO DA VONTADE PRÓPRIA

sacrificio vontQui facit voluntatem Patris mei, qui in coelis est, ipse intrabit in regnum coelorum — “O que faz a vontade de meu Pai que está nos céus, esse entrará no reino dos céus” (Matth. 7, 21).

Sumário. O que faz a vontade de Deus, entrará no céu; o que não a faz, não entrará. Se portanto quisermos ser salvos, renunciemos à nossa vontade própria, e entregando-a sem reserva a Deus, digamos freqüentes vezes cada dia: Senhor, ensinai-me a cumprir a vossa vontade santíssima; protesto não querer senão o que quereis Vós. Para que estejamos sempre dispostos a cumprir a vontade divina, é utilíssimo que desde de manhã nos representemos as contrariedades que nos possam suceder durante o dia.

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O que faz a vontade de Deus, entrará no céu; o que não a faz, nele não entrará. Alguns fazem depender a sua salvação de certas devoções, de certas obras exteriores de piedade, e entretanto não cumprem a vontade de Deus. Jesus Cristo, porém, diz: “Não todos aqueles que me dizem: Senhor, Senhor, entrarão no reino dos céus; mas entrará somente o que faz a vontade de meu Pai” — Qui facit voluntatem Patris mei, qui in coelis est, intrabit in regnum coelorum.

Portanto, se nos quisermos salvar e chegar à união perfeita com Deus, habituemo-nos a rogar-lhe sempre com Davi: Doce me, domine, facere voluntatem tuam (1) — “Senhor, ensinai-nos a fazer a vossa santa vontade.” Ao mesmo tempo desfaçamo-nos da vontade própria e entreguemo-la toda inteira e sem reserva a Deus. — Quando damos a Deus os nossos bens pela esmola, o alimento pelo jejum, o sangue pela disciplina, damos-lhe a nossa própria pessoa. Eis porque o sacrifício da vontade própria é o sacrifício mais aceito que possamos fazer a Deus; e Deus enriquece de graças ao que o faz.

Porém, para que tal sacrifício seja perfeito, deve ter duas qualidades: deve ser feito sem reserva e constantemente. Alguns dão a Deus a sua vontade, mas com reserva, e semelhante dádiva pouco agrada a Deus. Outros dão a Deus a sua vontade, mas logo em seguida tornam a retomá-la, e estes se expõem a grande risco de serem abandonados de Deus. Por isso, todos os nossos esforços, desejos e orações devem ser dirigidos ao fim de obtermos de Deus a perseverança em não querermos senão o que Deus quer. Habituemo-nos a antever desde de manhã, no tempo da meditação, as tribulações que nos possam suceder no correr do dia e a fazermos continuamente atos de resignação à vontade Divina. Diz São Gregório: Minus iacula feriunt, quae praevidentur — “São menos dolorosas as feridas antevistas”. Continuar lendo

EM QUE CONSISTE A FELICIDADE DOS BEM-AVENTURADOS NO CÉU

ceuIntra in gaudium Domini tui — “Entra no gozo de teu Senhor” (Matth. 25, 21).

Sumário. Os bem-aventurados contemplando a Deus face a face e conhecendo as suas infinitas perfeições, amam-No imensamente mais que a si próprios e não desejam outra coisa senão verem-No feliz. Sabendo, além disso, que o seu Senhor goza e gozará eternamente uma felicidade infinita, acham nisto a sua complacência e o seu gozo e é este gozo de Deus que constitui o seu verdadeiro paraíso. Habituemo-nos a fazer muitas vezes atos de amor perfeito a Deus, alegremo-nos com o Senhor pela sua felicidade infinita, e assim começaremos a exercer na terra o ofício dos bem-aventurados no céu.

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I. Vejamos o que seja que torna os santos moradores do céu plenamente felizes. A alma do Bem-aventurado, vendo Deus face a face e conhecendo a sua beleza infinita e todas as perfeições que o fazem digno de amor infinito, não pode deixar de O amar com todas as forças e ama-O mais que a si mesma. Mas esquecendo-se de si própria, o seu único pensamento e desejo é ver contente e feliz o seu Deus. Vendo, pois, que Deus único objeto de todos os seus afetos, goza de uma beatitude infinita, esta beatitude de Deus é que constitui o seu paraíso. — Se em um Bem-aventurado pudessem caber coisas infinitas, a vista da beatitude infinita de seu Amado lhe causaria igual beatitude infinita. Mas porque um gozo infinito não pode caber na criatura, fica ao menos tão repleta de alegria que nada mais deseja. É esta a saciedade pela qual suspirava Davi, quando disse: Satiabor, cum apparuerit gloria tua (1) — “Saciar-me-ei, quando aparecer a tua glória”.

Assim se realizará o que Deus diz à alma, dando-lhe posse do paraíso: “Entra no gozo de teu Senhor.” Não diz ao gozo que entre na alma, porque, sendo infinito, não cabe numa criatura. Diz que a alma entre no gozo para participar dele, mas participar de tal forma que fica saciada e repleta. — Portanto entre os atos de amor de Deus, que se podem fazer na oração, não há ato mais perfeito do que o comprazer-se na felicidade infinita de que Deus está gozando. É este o exercício contínuo dos Bem aventurados no céu; de sorte que o que se compraz na felicidade de Deus, começa a fazer cá na terra o que espera fazer no céu por toda a eternidade.

É tão grande o amor para com Deus de que os Bem-aventurados no céu estão abrasados, que se jamais lhes viesse o medo de perderem a Deus ou de não O amarem com todas as forças, assim como O amam, tal temor lhes faria sofrer uma pena igual ao inferno. Mas não; eles estão certos, como o são da posse de Deus, que O amarão sempre com todas as forças e sempre serão amados de Deus e que esse amor recíproco não acabará mais nunca. Meu Deus, pelo amor de Jesus Cristo, fazei-me digno de tamanha ventura. Continuar lendo

VALOR DO TEMPO – PONTO I

Resultado de imagem para valor do tempoFili, conserva tempus – “Filho, aproveita o tempo” (Sr 4, 23)

Diligencia, meu filho, — diz o Espírito Santo, — em empregar bem o tempo, porque é a coisa mais preciosa, riquíssimo dom que Deus concede ao homem mortal. Até os próprios gentios tinham conhecimento de seu valor. Sêneca dizia que nada pode equivaler ao valor do tempo. Com maior estimação ainda o apreciaram os Santos. Afirma São Bernardino de Sena que um só momento vale tanto como Deus, porque nesse instante, com um ato de contrição ou de amor perfeito, pode o homem adquirir a graça divina e a glória eterna.

O tempo é um tesouro que só se acha nesta vida, mas não na outra, nem no céu, nem no inferno. É este o grito dos condenados: Oh! se tivéssemos uma hora!”… Por todo o preço comprariam uma hora a fim de reparar sua ruína; porém, esta hora jamais lhes será dada. No céu não há pranto; mas se os bemaventurados pudessem sofrer, chorariam o tempo perdido na sua vida mortal, o qual lhes poderia ter servido para alcançar grau mais elevado na glória; porém, já se passou a época de merecer. Uma religiosa beneditina, depois da morte, apareceu radiante de glória a uma pessoa e lhe revelou que gozava plena felicidade, mas, se algo pudesse desejar, seria unicamente voltar ao mundo para sofrer mais e assim alcançar maior mérito. Acrescentou que de boa vontade sofreria até ao dia do juízo a dolorosa enfermidade que a levou à morte, contanto que conseguisse a glória que corresponde ao mérito de uma só Ave Maria.

E tu, meu irmão, em que empregas o tempo?… Por que sempre adias para amanhã o que podes fazer hoje? Reflete que o tempo passado desapareceu e já não te pertence; que o futuro não depende de ti. Continuar lendo

REMORSO DO CONDENADO POR CAUSA DO BEM QUE PERDEU

condePerditio tua, Israel; tantummodo in me auxilium tuum — “A tua perdição, ó Israel, toda vem de ti; só em mim está o teu auxílio” (Os. 13, 9).

Sumário. O que mais atormenta o réprobo no inferno é o ver que perdeu o céu e o Bem supremo, que é Deus; e perdeu-O não por qualquer acidente ou por malevolência d´outrem, mas por sua própria culpa.Meu irmão, se no passado nós também tivemos a insensatez de renunciar por malícia própria ao paraíso, remediemo-lo enquanto houver tempo, antes que tenhamos de chorar eternamente a nossa desgraça. Talvez seja este o último apelo que Deus nos dirige.

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O tormento mais feroz do réprobo será reconhecer o grande bem que perdeu. Segundo São João Crisóstomo, os réprobos sentirão mais aflição pela perda do paraíso que pelos tormentos do inferno: Plus coelo torquentur, quam gehenna. — Refere-se que a infeliz Isabel, rainha de Inglaterra, disse: “Conceda-me Deus quarenta anos de reinado e renuncio ao paraíso.” Teve a infeliz esses quarenta anos de reinado; mas que dirá agora, que a sua alma saiu deste mundo? Sem dúvida já não pensa da mesma forma. Como não deve estar aflita e desesperada, ao pensar que, por quarenta anos de reinado, passados em temores e angústias, perdeu para sempre o reino celestial?

Mas, o que por toda a eternidade afligirá mais o réprobo será reconhecer que perdeu o céu e o soberano bem que é Deus, e que o perdeu não por algum mau acidente, nem pela malevolência d´outrem, mas por sua própria culpa. Verá que foi criado para o paraíso, verá que Deus lhe pôs na mão a escolha entre a vida e a morte eterna: Ante hominem vita et mors… quod placuerit ei dabitur illi (1). Verá, pois, que esteve na sua mão, se quisera, o tornar-se eternamente feliz. Mas verá igualmente que de seu motuproprio se quis precipitar nesse abismo de suplícios, de onde nunca poderá sair e de onde ninguém o procurará livrar.

Verá então o miserável que muitas pessoas de seu conhecimento, que passaram pelos mesmos, quiçá por maiores perigos de pecar, chegaram à salvação, ou porque se souberam conter recomendando-se a Deus, ou, se caíram, souberam levantar-se a tempo e dar-se a Deus. Ele, porém, por não ter querido pôr um termo a suas desordens, veio a acabar tão deploravelmente no inferno, nesse mar de tormentos, sem esperança de poder remediar a sua desgraça. Oh, que cruel remorso! Oh, que desespero lancinante! Continuar lendo

XXII DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES: O TRIBUTO DE CÉSAR E A OBRIGAÇÃO DE AMAR A DEUS

cesarReddite quae sunt Caesaris Caesari, et quae sunt Dei Deo — “Daí a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Matth. 22, 21).

Sumário. Para convencer os fariseus da obrigação de pagarem tributo a César, o divino Redentor mostrou-lhes a imagem estampada na moeda com que costumavam pagar o tributo. Lancemos nós também um olhar sobre nós mesmos: consideremos que fomos criados por Deus à sua imagem e semelhança; lembremo-nos mais que no santo batismo nos foi impresso o caráter indelével de discípulos de Jesus Cristo e facilmente chegaremos a esta bela conclusão: Dai a Deus o que é de Deus.

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I. É esta a bela resposta que no Evangelho de hoje Jesus Cristo dá aos fariseus, que, com o intuito maligno de o apanharem em suas palavras, o interrogavam sobre se era ou não lícito pagar tributo: “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.” Por estas palavras quer ensinar-nos que devemos dar aos homens o que lhes é devido; mas quanto ao amor de nosso coração, Ele o quer todo para si.

Isto é de inteira justiça, porque o Senhor não é somente a primeira Verdade, mas, além disso, o supremo Bem. Como, portanto, o nosso entendimento paga a Deus, como à primeira Verdade, o tributo de submissão pela fé, crendo sobre a palavra de Deus coisas que não compreende; assim a nossa vontade deve pagar a Deus, como ao Bem supremo, um tributo de afeto, “amando-O com todo o coração, com toda a alma e com todas as forças” (1). Tanto mais que é unicamente para cativar o nosso amor que Jesus se fez homem, nos remiu com o seu preciosíssimo sangue e morreu sobre a cruz nos mais atrozes tormentos.

Ó meu lastimoso Redentor! Quantos são Vos os que Vos amam? Vejo a maior parte dos homens ocupados em amarem, uns os parentes, outros os amigos, outros até os animais; mas Jesus não é amado; ao contrário, é ofendido e pago com a mais negra ingratidão. — Meu irmão, quero crer que te achas em estado de graça e por isso quero crer que amas Jesus Cristo. Podes, porém dizer que O amas de todo o teu coração?… És porventura um daqueles que, levando vida tíbia, nutrem a ilusão de poderem servir ao mesmo tempo a dois senhores inteiramente opostos, como são Deus e o mundo? — Ah! Lembra-te, assim te direi com São Filipe Neri, que todo o amor que consagramos às criaturas é roubado de Deus; se não cuidarmos em séria emenda, acabaremos cedo ou tarde por o roubarmos todo. Continuar lendo

NECESSIDADE QUE TEMOS DA INTERCESSÃO DE MARIA SANTÍSIMA PARA NOSSA SALVAÇÃO

mariaGens et regnum, quod non servierit tibi, peribit — “A gente e o reino que te não servir, perecerá” (Is. 60, 12).

Sumário. Para a salvação, a graça divina é indispensável. Verdade é que esta graça nos foi merecida por Jesus Cristo, o Medianeiro de justiça; mas a dispensadora da graça é Maria Santíssima, por ser Mãe de Deus. É por isso que o demônio tanto esforço faz para arrancar da alma a devoção à Santa Virgem. O espírito maligno sabe que obstruído este canal de graças, tudo está perdido. Examinemo-nos, pois, se temos devoção verdadeira à divina Mãe e, descobrindo que nos temos relaxado, retomemos o nosso primeiro fervor.

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Que a prática de invocar aos Santos, a fim de nos alcançarem a divina graça, seja não somente lícita, mas também útil, é um ponto da fé. Entre os Santos, porém, que são amigos de Deus, e a Santíssima Virgem, que é sua verdadeira Mãe, há esta diferença, que a intercessão de Maria não é só utilíssima, mas também moralmente necessária, de modo que o Bem-aventurado Alberto Magno e São Boaventura chegam a afirmar que todos os que se descuidam da devoção a Nossa Senhora, não a servem, e conseqüentemente não são por ela protegidos, morrerão todos em pecado mortal e se condenarão: “A gente que te não servir, perecerá”. É esta, diz Soares, a opinião universal da Igreja. (1)

E com razão; porquanto, não sendo nós capazes de conceber um só bom pensamento em ordem à vida eterna, a graça divina nos é indispensável para a salvação. Verdade é que só Jesus Cristo nos mereceu esta graça, por ser Medianeiro de justiça. Mas, para nos inspirar mais confiança de obtermos a graça, e ao mesmo tempo para exaltar sua Mãe Santíssima, Jesus a depositou nas mãos de Maria, e, constituindo-a medianeira de graça, decretou que nenhuma graça fosse dispensada aos homens sem que passasse pelas mãos de Maria.

Numa palavra, diz São Bernardo, Deus constituiu Nossa Senhora como que um aqueduto dos bens celestes que descem à terra e determinou que por meio de Maria recebamos o Salvador que por seu intermédio nos foi dado na encarnação. Vede, pois, conclui o Santo, vede, ó homens, com que afeto de devoção quer o Senhor que honremos à nossa Rainha, refugiando-nos sempre a ela e confiando em seu patrocínio! Continuar lendo

QUINTA PALAVRA DE JESUS CRISTO NA CRUZ

cruzSciens Jesus quia omnia consummata sunt, ut consummaretur Scriptura, dixit: Sitio — “Sabendo Jesus que tudo estava cumprido, para se cumprir ainda a escritura, disse: Tenho sede”. (Io. 19, 28).

Sumário. É dupla a sede que sofre Jesus moribundo: a sede corporal, causada pelo cansaço das caminhadas, pela tristeza interior e pelo muito sangue derramado. Outra sede espiritual, isso é, o desejo da salvação eterna de todos os homens, que O faz anelar maiores tormentos, se for preciso. Ah! Se nos lembrássemos sempre desta dúplice sede do Senhor, não procuraríamos delicadezas supérfluas e esforçar-nos-íamos por reconduzir as almas a Deus. Longe de nos queixarmos das tribulações, desejá-las-íamos maiores por amor de Jesus Cristo.

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I. Quando Jesus estava próximo à morte, disse: Tenho sedeSitio, a fim de nos manifestar a grande sede corporal que experimentava, quer pelo cansaço causado pelas muitas caminhadas, quer pela tristeza interior, mas principalmente pelo muito sangue derramado no horto, na flagelação, na coroação de espinhos e finalmente sobre a cruz, onde corria abundantemente das chagas das mãos e dos pés, como de quatro fontes. — Jesus Cristo quis padecer este tormento pungentíssimo para que compreendamos quão caro lhe custaram a nossa gulodice e intemperança, causadoras de tantas queixas e murmurações nas famílias e nas comunidades sob pretexto de saúde e de necessidade.

Mais do que pela sede corporal foi Nosso Senhor aflito atormentado por uma sede espiritual, nascida, como escreve São Lourenço Justiniani, da fonte do amor: Sitis haec de amoris fonte nascitur. Com efeito, porque é que Jesus, que não faz menção das outras penas imensas padecidas sobre a cruz, se queixa unicamente da sede? Ah, exclama Santo Agostinho, a sede de Jesus Cristo é o desejo de nossa salvação. Jesus, assim acrescenta São Gregório, ama as nossas almas com excesso de amor e por isso almeja que tenhamos sede dele: Sitit sitiri Deus.

São Basílio dá mais outra explicação e diz que Jesus Cristo manifesta a sua sede para nos dar a entender que pelo amor que nos tem, morria com o desejo de padecer por nós, mais ainda do que tinha padecido: O desiderium Passione maius! Meu irmão, lembremo-nos muitas vezes da dúplice sede de Jesus Cristo. Então não procuraremos mais as delicadezas supérfluas e nos esforçaremos por reconduzir as almas ao seio paternal de Deus; em vez de nos lamentarmos das cruzes que Ele nos envia, aceitá-las-emos com resignação e com desejo de carregarmos por seu amor outras cruzes mais pesadas. Continuar lendo

FELICIDADE DOS RELIGIOSOS EM MORAREM JUNTO COM JESUS NO SANTÍSSIMO SACRAMENTO

img_2740_editedBeati qui habitant in domo tua, Domine; in saecula saeculorum laudabunt te — “Bem-aventurados, Senhor, os que moram em tua casa; pelos séculos te louvarão” (Ps. 83, 5).

Sumário. Se os mundanos estimam tanto serem chamados pelos reis para habitarem nos seus palácios, quanto mais os religiosos devem estimar o habitarem continuamente com o Rei do céu em sua casa? Meu irmão, já estás morando muito tempo com Jesus Cristo debaixo do mesmo teto; mas que fruto tiraste até agora de sua presença?… Procura ao menos aproveitá-la para o futuro, demorando-te o mais possível a seus pés, expandindo ali os teus afetos, as tuas aflições, os teus desejos de amá-Lo de todo o coração e de O contemplar um dia no céu.

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I. A Venerável Madre Maria de Jesus, fundadora de um instituto em Tolosa, dizia que por dois grandes motivos estimava a sua felicidade de ser religiosa: o primeiro, porque os religiosos são todos de Deus pelo voto de obediência; segundo, porque os religiosos têm a ventura de habitar sempre com Jesus sacramentado. — E na verdade, se os mundanos estimam tanto serem chamados pelos reis para habitarem nos seus palácios, quanto mais os religiosos devem estimar o habitarem continuamente com o Rei do céu na sua casa?

Nas casas religiosas, Jesus se deixa ficar na igreja expressamente para eles, a fim de que O achem a toda hora. Os seculares podem ir visitá-Lo apenas de dia, e em muitas partes só de manhã; mas o religioso acha-O no sacrário sempre que O procure: de manhã, de dia e de noite. Aí pode entreter-se continuamente com seu Senhor, e aí Jesus se compraz em tratar familiarmente com seus amados servos, que Ele para este fim tirou do Egito, isto é, do mundo, para nesta vida lhes fazer companhia, escondido no Santíssimo Sacramento, e na outra, ser-lhes companheiro, mas então descoberto, no céu. A respeito de qualquer casa religiosa pode-se dizer: “Ó beata solidão, em que Deus fala e trata familiarmente com os seus!” (1)

As almas que amam deveras a Jesus Cristo não sabem desejar na terra outro paraíso mais perfeito do que acharem-se na presença de seu Senhor sacramentado, que aí está por amor de quem O procura e visita. Non habet amaritudinem conversatio illius, nec taedium convictus illius (2) — “A sua conversação não tem nada de desagradável, nem a sua companhia nada de fastidioso”. Acha fastio junto de Jesus quem não O ama; mas uma alma que nesta terra pôs o seu amor só em Jesus, acha no Santíssimo Sacramento todo o seu tesouro, o seu repouso, o seu paraíso. Por isso, só pensa em fazer corte a seu Jesus sacramentado e em visitá-Lo o mais que puder, expandindo ao pé do altar os seus afetos, as suas aflições, os seus desejos de amá-Lo e de vê-Lo um dia face a face no paraíso e entretanto cumprir em tudo a sua vontade. Continuar lendo

COMEMORAÇÃO DE TODOS OS FIÉIS DEFUNTOS

purgSancta et salubris est cogitatio pro defunctis exorare, ut a pecatis solvantur — “É um santo e salutar pensamento orar pelos mortos para que lhes sejam perdoados os seus pecados” (2 Mach. 12, 46).

Sumário. A devoção às almas do purgatório é muito agradável ao Senhor, e utilíssima ao que a pratica. Jesus Cristo ama imensamente estas suas esposas e suspira pelo momento em que as possa estreitar contra o peito; e as santas prisioneiras mostrar-se-ão gratas para aquele que lhes obtém o livramento do seu cárcere ou ao menos algum alívio nas suas penas. Sufraguemos, pois, constantemente as almas do purgatório, particularmente neste mês e neste dia consagrados à sua memória.

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A devoção às almas do purgatório, que consiste em recomendá-las a Deus para que lhes alivie as grandes penas que padecem e as chame em breve para a sua glória, é muito agradável ao Senhor e utilíssima ao que a pratica. Sim, porque Jesus Cristo ama imensamente essas almas; e posto que a sua justiça inexorável o constranja, por assim dizer, a mostrar-se para com elas Juiz severo e exigir que sejam limpas de toda a mancha antes de serem admitidas ao céu, no qual não entrará coisa alguma contaminada — Non intrabit aliquod coinquinatum(1) — , não deixa isso, todavia, de ser um estado de constrangimento. Jesus suspira pelo momento em que poderá apertar contra o peito as suas santas esposas e coroa-las rainhas do seu reino bem-aventurado. — É este um dos motivos pelos quais estabeleceu a comunicação dos santos, quer dizer uma comunicação mútua de bens entre nós e as Igrejas, trinfante e padecente. Além disso impõe-nos Deus o preceito de praticarmos o bem para com os defuntos: Mortuo non prohibeas gratiam(2) — “Não impidas que a liberalidade se estenda aos mortos”.

As santas prisioneiras do purgatório serão gratas àquele que lhes obtém o livramento daquele cárcere, ou ao menos algum alívio das penas e nunca mais se esquecerão daquele que por elas intercedeu. Piamente se pode crer que Deus lhes revele as nossas orações, a fim de que elas orem também por nós. — Verdade é que as almas do purgatório não podem rezar para si mesmas, porque ali se acham como condenadas, que satisfazem pelas suas culpas; todavia porque são muito queridas de Deus, podem orar por nós e obter-nos muitas graças.

Quando Santa Catarina de Bolonha desejava obter alguma graça, recorria às almas do purgatório, e logo se via atendida. Declarou que por intermédio dessas almas alcançou diversas graças que não tinha alcançado por intermédio dos Santos. São inúmeras as graças que os devotos afirmam terem obtido pela intercessão das santas almas do purgatório. Continuar lendo

O GRANDE SEGREDO DA MORTE

abcO mors, bonum est iudicium tuum homini indigenti — “Ó morte, é bom o teu juízo para o homem necessitado” (Ecclus. 41, 3).

Sumário. Durante a vida, as paixões fazem que os bens terrestres pareçam de modo muito diferente do que são; a morte, porém, mostra-os na sua verdade: fumaça, lodo e miséria. Meu Deus! Para que servirão as riquezas, quando não nos restar senão uma simples mortalha? Para que servirão honras e dignidades, quando não tivermos nada senão um cortejo fúnebre? Para que servirá a beleza do corpo, quando nada mais nos ficar senão vermes e podridão? Que grande segredo é o da morte! Como seria bem regrada a nossa vida se o soubéssemos aproveitar bem!

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Oh, quantas pessoas podem repetir a palavra do rei Ezequias: Praecisa est velut a texente vita mea (1) — “A minha vida foi cortada como por um tecelão”. Apenas estão urdindo a tela, isto é, planejando e executando os seus projetos terrestres, combinados com tanta prudência, senão quando vem a morte e põe fim a tudo! Então, ao clarão do último facho, todas as coisas do mundo desaparecem: aplausos, regozijos, pompas e grandezas. — Grande segredo o da morte! Ela nos faz ver o que não vêem os amantes do mundo. As fortunas mais cobiçadas, os postos mais eminentes, os triunfos mais magníficos, perdem todo o brilho, quando considerados no leito da morte. Convertem-se então em indignação contra a nossa própria loucura as idéias que tínhamos formado acerca de certas felicidades ilusórias. A sombra negra e sinistra da morte encobre e obscurece todas as dignidades, sem excetuar as dos reis.

Durante a vida, as paixões fazem que os bens terrestes pareçam muito diferentes do que são; a morte tira-lhes a máscara e mostra o que são na verdade: fumaça, lodo, vaidade e miséria. — Meu Deus, para que servirão na hora da morte riquezas, título, reinos, quando nada nos restar senão um esquife de madeira e uma simples mortalha para nos cobrir o corpo? Para que servirão as dignidades e as honras, quando nada mais tivermos senão um cortejo fúnebre e pomposas exéquias, que de nada valerão à alma, se esta estiver perdida? Para que servirá a beleza do corpo, quando, ainda antes de morrer, se tornar em vermes, podridão e pouco depois em um punhado de pó infecto?

Posuit me quasi in proverbium vulgi, et exemplum sum coram eis (2) — “Ele me reduziu a ser como um provérbio do povo, e estou feito diante deles um exemplo”. — Morre tal ricaço, tal ministro, tal general e sua morte será apregoada por toda a parte; mas se viveu mal, tornar-se-á alvo dos ataques do povo; e como prova da vaidade do mundo e também da divina justiça, servirá para exemplo dos outros. – Na cova estará confundido entre os cadáveres dos pobres: Parvus et magnus ibi sunt (3) — “O pequeno e o grande ali estão”. Que lhe valeu a bela estatura do corpo, agora que não é senão um montão de vermes? Que lhe valeu a autoridade que possuía, agora que seu corpo está condenado a apodrecer numa vala e sua alma a arder no inferno? Continuar lendo