SÓ EM DEUS SE ACHA A VERDADEIRA PAZ

Venit Iesus, et stetit in medio, et dixit eis: Pax vobis — “Veio Jesus, e pôs-se no meio e disse-lhes: A paz seja convosco” (Io. 20, 9).

Sumário. Assim é: só em Deus se acha a verdadeira paz; porque, tendo Deus criado o homem para si, o Bem infinito, só Ele pode fazê-lo contente. Quem quiser gozar esta paz, deve repelir de seu coração tudo que não seja Deus, que feche as portas dos sentidos a todas as criaturas e viva como que morto aos afetos terrestres. É isto exatamente o que o Senhor quis dar a entender aos apóstolos, quando, aparecendo para lhes anunciar a paz, quis ambas as vezes entrar aonde estavam os apóstolos, estando as portas fechadas.

I. Refere São João que, achando-se os apóstolos juntos numa casa, Jesus Cristo ressuscitado entrou ali, posto que as portas estivessem fechadas, e pondo-se no meio, disse-lhes duas vezes: A paz seja convosco. Repetiu as mesmas palavras oito dias depois, aparecendo-lhes mais uma vez, estando fechadas as portas. Pax vobis — “A paz seja convosco”. — Com estas palavras quis Jesus Cristo dar-nos a entender “que Ele é a nossa paz; Ele que dos dois fez um, desfazendo em sua carne, com o sacrifício de sua vida, o inconsistente muro de separação, as inimizades”. (1)

Com efeito: só em Deus se acha a verdadeira paz; porque, tendo Deus criado o homem para si mesmo, o Bem infinito, só Ele pode plenamente satisfazê-lo. Delectare in Domino, et dabit tibi petitiones cordis tui (2) — “Deleita-te no Senhor, e te outorgará as petições de teu coração”. Quando alguém acha as suas delícias só em Deus e não busca coisa alguma fora d’Ele, Deus cuidará em satisfazer-lhe todos os desejos do coração.

Insensatos portanto são aqueles que dizem: Bem-aventurado o que pode gastar dinheiro à vontade! Que pode mandar nos outros! Que pode gozar os prazeres que deseja. Loucura! Bem-aventurado é somente o que ama a Deus, o que diz deveras que Deus só lhe basta. A experiência demonstra bem patentemente, que muitos dos que o mundo chama felizes, por grandes que sejam as suas riquezas e altas as suas dignidades, todavia levam vida infeliz, nunca estão contentes, jamais gozam um dia de verdadeira paz. Ao contrário, tantos bons religiosos que vivem num deserto ou numa gruta, sujeitos a enfermidades, à fome, ao frio, estão contentes e exultam de alegria. E porque? Porque eles só se ocupam com Deus, Deus os consola. Ah! A paz que o Senhor faz provar a quem O ama, está acima de todas as delícias que o mundo pode dar! Pax Dei quae exsuperat omnem sensum (3). Continuar lendo

APARIÇÃO DE JESUS RESSUSCITADO A SUA MÃE MARIA SANTÍSSIMA

Secundum multitudinem dolorum meorum in corde meo, consolationes tuae laetificaverunt animam meam — “Segundo as muitas dores que provou o meu coração, as tuas consolações alegraram a minha alma” (Ps. 93, 19).

Sumário. Era de justiça que Maria Santíssima, que mais do que qualquer outro tomou parte na Paixão de Jesus Cristo, fosse também a primeira a gozar da alegria da sua ressurreição. Imaginemos vê-la no momento em que lhe aparece o divino Redentor glorificado, acompanhado de grande multidão de Santos, entre os quais São José, São Joaquim e Santa Ana. Oh! Que ternos abraços! Que doces colóquios! Alegremo-nos com a nossa querida Mãe e digamos-lhe: Regina coeli, laetare, alleluia — “Rainha dos céus, alegrai-vos, aleluia!”.

Entre as muitas coisas que Jesus Cristo fez e os Evangelistas passaram em silêncio, deve, com certeza, ser contada a sua aparição a Maria Santíssima logo em seguida à sua ressurreição. Nem necessidade havia de referi-la, porquanto é evidente que o Senhor, que mandou honrar pais e mães, foi o primeiro a dar o exemplo, honrando sua Mãe com a sua presença visível. Demais, era de inteira justiça que o divino Redentor glorificado fosse, antes de mais ninguém, visitar a Santíssima Virgem; a fim de que, antes dos outros e mais do que estes, participasse da alegria da ressurreição quem mais do que os outros participara da paixão.

Um dia e duas noites a divina Mãe ficou entregue à dor pela morte do Filho, mas firme e imóvel na fé da ressurreição; e quando começou a alvorecer o terceiro dia, posta em altíssima contemplação, começou com ardentes suspiros a suplicar ao Filho que abreviasse a sua vinda. Continuar lendo

CONFORMIDADE COM A VONTADE DE DEUS A EXEMPLO DE JESUS CRISTO

Descendi de coelo, non ut faciam voluntatem meam, sed voluntatem eius qui misit me — “Eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Io. 6, 38).

Sumário. É tão agradável a Deus o sacrifício da nossa própria vontade, que Jesus Cristo desceu sobre a terra para nos ensinar a maneira de o fazer e em toda a sua vida não fez outra coisa senão dar-nos disso as mais sublimes lições com as suas palavras e com os seus exemplos. Eis, portanto, o que devemos ter em mira em todas as nossas ações: conformar a nossa vontade com a divina, especialmente no que mais repugna ao amor próprio. Vale mais um Bendito seja Deus, dito nas adversidades, do que mil agradecimentos na prosperidade.

É certo que a nossa salvação consiste em amar a Deus, nosso supremo Bem; porque a alma que não O ama, já não vive, mas está morta (1). A perfeição, porém, do amor consiste em conformar a nossa vontade com a divina; pois que, como diz o Aeropagita, o efeito principal do amor é unir as vontades dos que se amam, de sorte que não tenham senão um só coração e uma só vontade.

É isto o que antes de mais nada com as suas palavras e com os seus exemplos veio ensinar-nos Jesus Cristo, que nos foi dado por Deus tanto para ser nosso Salvador como nosso modelo. Pelo que o Apóstolo escreve que as primeiras palavras de Jesus, ao entrar no mundo, foram estas: Ecce venio ut faciam, Deus, voluntatem tuam (2) — “Eis que venho para fazer, ó Deus, a tua vontade”. Meu Deus, recusastes as hóstias e oblações dos homens; não Vos agradaram os holocaustos que Vos ofereciam pelos seus pecados. Quereis que Vos sacrifique morrendo este meu corpo, que Vós mesmo me haveis dado. Eis-me aqui, Senhor, estou pronto para fazer a vossa santíssima vontade. Continuar lendo

DA COMUNHÃO SACRÍLEGA

SACRQui manducat et bibit indigne, iudicium sibi manducat et bibit, non diiudicans corpus Domini — “O que come e bebe indignamente, come e bebe para si a condenação, não fazendo discernimento do corpo do Senhor” (I Cor. 11, 29).

Sumário. Antes de te aproximares da Mesa eucarística, examina sempre a tua consciência, e se por desgraça tiveres remorso de alguma falta grave, purifica a tua alma pela confissão sacramental. Quanto às culpas veniais, esforça-te por tirá-las de tua alma, ao menos as que forem deliberadas, e afasta de ti tudo o que não seja Deus. Ai daquele que comunga indignamente! Torna-se réu do Corpo e do Sangue de Jesus Cristo, e portanto come-O e bebe-O para a sua própria condenação.

I. Consideremos o enorme pecado que comete aquele que se atreve a chegar-se à sagrada mesa com pecado mortal na alma. Este pecado é tão enorme, que São João Crisóstomo, comparando-lhe todos os demais, não acha outro igual, e diz que quem o comete, especialmente sendo sacerdote, é muito pior do que o próprio demônio: Multo daemonio peior est qui, peccati conscius, accedit ad altare. São Pedro Damião explica a razão dizendo: “Se com os outros pecados ofendemos a Deus em suas criaturas, com este ofendemo-Lo em sua própria pessoa.”

Que dirias do perverso que tirando a sacrossanta Hóstia da Âmbula sagrada, a atirasse a um vil monturo? Pior do que isso, diz São Vicente Ferrer, faz aquele que tem a ousadia de comungar sacrilegamente; porque, de certo modo, atenta contra o corpo de Jesus Cristo, obriga esta vítima inocente a morar em seu coração cheio de corrupção, entrega o Cordeiro imaculado nas mãos dos demônios que o insultam da mais horrenda maneira. Continuar lendo

NECESSIDADE DA PERSEVERANÇA

persQui autem perseveraverit usque in finem, hic salvus erit — “Quem perseverar até o fim, será salvo” (Matth. 24, 13).

Sumário. Meu irmão, puseste agora mãos à obra; começaste a viver bem. Dá por isso graças ao Senhor. Lembra-te, porém, que ao que começa a recompensa é apenas prometida, mas é dada somente ao que persevera até ao fim. Quantos começarem bem, talvez melhor do que tu, mas depois acabaram mal e agora ardem no inferno! Para obteres a perseverança, deves em primeiro lugar pedi-la a Deus, e de teu lado deves empregar os meios mais apropriados.

São muitos os que começam, diz São Jerônimo, mas são poucos os que perseveram. Um Saul, um Judas, um Tertuliano começaram bem, mas acabaram mal, porque não perseveram no bem. Devemos saber, continua o mesmo Santo, que Deus não pede somente o começo de vida boa, mas quer também o fim: o fim é que alcançará a recompensa. — Diz São Boaventura que a coroa se dá somente à perseverança: Sola perseverantia coronatur. Pelo que São Lourenço Justiniani chama a perseverança porta do céu: coeli ianuam. Ora, não poderá entrar no paraíso quem não der com a porta.

Agora, meu irmão, abandonaste o pecado, e crês com razão ter recebido o perdão. És, pois, amigo de Deus; sabe todavia que não estás ainda salvo. E quando estarás salvo? Quando tiveres perseverado até ao fim: Que perseveraverit usque in finem, hic salvus erit. Começaste a viver bem: agradece-o ao Senhor; mas avisa-te São Bernardo que a recompensa celeste é somente prometida ao que principia, mas é somente dada ao que persevera. Não basta olhar só ao fim: é preciso ir após ele até alcançá-lo, segundo a expressão do Apóstolo: Sic currite, ut comprehendatis (1) — “Correi de tal modo que o alcanceis”. Continuar lendo

ITINERÁRIO DE UM CATÓLICO NÃO PERPLEXO

Resultado de imagem para church aloneFonte: DICI –  Tradução: Dominus Est

Final de agosto de 1976, George assistia à missa de Lille que apresentou ao mundo inteiro a luta de Dom Lefebvre pela Tradição. Seu Cura havia ameaçado: “O senhor está seguindo um bispo rebelde que celebra uma missa proibida.”  

Em 1988, ele foi às sagrações episcopais em Ecône, e seu Cura, na missa que ele tinha deixado de ir, o advertiu: “Vocês todos estão cismáticos, o senhor e seus bispos”  

Quando se casou em Saint Nicolas du Chardonnet, o Cura assegurou-lhe que ele não era válido. Ele tinha o costume de confessar a um sacerdote dessa igreja, e seu Cura lhe disse que ele poderia muito bem visitar uma assistente social porque o padre não podia absolver os pecados mais do que ela.

Em 2007, George soube que a Missa Tridentina nunca havia sido ab-rogada, e que há 30 anos ele não participava de uma massa proibida. Em 2009, apesar dos brados furiosos de seu Cura, o bispo que tinha confirmado seus filhos não era mais excomungado.  

Em 2015, o sacerdote que recebe sua confissão, a faz validamente, o que ele não tinha dúvida, mas que deveria acalmar seu Cura – talvez não ao ponto de ir ele mesmo se confessar em St. Nicolas… Neste mês, ele ficou sabendo que o padre o casou validamente e não há nenhuma obrigação de se “casá-lo” novamente, o que certamente permitirá que seu Cura lhe felicite, com algumas décadas de atraso …

George nunca foi um católico perplexo. Hoje ele tem uma certeza: apesar de todas as críticas, ele fez bem em seguir Monsenhor Lefebvre, que transmitiu o que ele mesmo recebeu.

Pe. Alain Lorans

NO CÉU GOZA-SE UMA FELICIDADE PERFEITA

ceuSatiabor cum apparuerit gloria tua  — “Saciar-me-ei, quando aparecer a tua glória” (Ps. 16, 15).

Sumário. Posto que no mundo se encontrem muitas coisas formosas, não são, todavia perfeitas, e sempre deixam alguma coisa para desejar. Se, porém, tivermos a ventura de entrar no céu, o nosso coração estará perfeitamente satisfeito nessa ditosa pátria. Ali nada haverá que possa desagradar, e haverá tudo aquilo que se possa desejar. Ah, meu Jesus! Peço-Vos o céu, não tanto para Vos gozar, como para Vos amar de todo o coração.

São Bernardo, falando do paraíso, diz: Ó homem, se queres saber o que seja a pátria bem-aventurada, fica sabendo que ali nada há que desagrade, e que se encontra tudo aquilo que se possa desejar; Nihil est quod nolis; totum est quod velis. — Se bem que nesta terra haja alguma coisa que agrada aos nossos sentidos, quantas coisas não há que afligem? Se agrada a luz do dia, aflige a escuridão da noite. Se agradam a amenidade da primavera, a abundância do outono, afligem o frio do inverno e o calor do verão. Acrescentai a isso os sofrimentos na enfermidade, as perseguições da parte dos homens, as privações da pobreza. Acrescentai as angústias interiores, os temores, as tentações dos demônios, as dúvidas da consciência, a incerteza da salvação.

Mas quando os bem-aventurados entram no céu, não terão mais nada a sofrer: Absterget Deus omnem lacrimam ab oculis eorum (1). Deus enxugará de seus olhos todas as lágrimas derramadas sobre a terra; e não haverá mais morte, nem luto, nem clamor, nem mais haverá dor; porquanto as coisas d’outrora desapareceram. — No céu não há doença, nem pobreza, nem incômodos. Deixam de existir a alternação dos dias e das noites, do frio e do calor; é um dia perpétuo e sempre sereno, uma primavera contínua e sempre deliciosa. Ali não há perseguições, nem ciúmes; neste reino de amor, todos os habitantes se amam mútua e ternamente e cada qual goza da ventura dos outros, como se fosse a própria. Não há receios, porque a alma confirmada na graça já não pode pecar; nem perder a seu Deus. Continuar lendo

A RESSURREIÇÃO DOS CORPOS NO JUÍZO UNIVERSAL

ressCanet tuba, et mortui resurgent incorrupti; et nos immutabimur — “A trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados” (I Cor. 15, 52).

Sumário. É um ponto da nossa fé que todos nós ressurgiremos; porém não todos de maneira igual, mas cada um segundo a vida que tiver levado em terra. Felizes de nós, se agora nos aplicarmos à mortificação do nosso corpo, a fim de guardá-lo submisso ao espírito. Retomá-lo-emos ressurgido segundo a medida da idade plena de Cristo e dotado de dons perfeitíssimos. Excederá o sol em claridade, na agilidade os ventos, e em sutileza e impassibilidade será igual aos anjos.

Porque o último fim do homem é a beatitude e ventos, e em sutileza e impassibilidade será igual aos anjos.esta não se pode gozar na vida presente, o Senhor dispôs que se possa obter na outra, onde será eterna. O homem porém, no dizer de Santo Tomás, não seria plenamente feliz, se a alma não se unisse ao corpo, porquanto, sendo o corpo parte natural da natureza humana, a alma dele separada seria apenas uma parte do homem e não o homem inteiro. Por isso é que no derradeiro dia haverá a ressurreição universal: Canet tuba, et mortui resurgent — “A trombeta soará, e os mortos ressuscitarão”.

Ao som da trombeta as almas formosas dos bem-aventurados descerão do céu, para se unirem a seus corpos, com os quais serviram a Deus. Ressuscitarão, como diz São Paulo, em estado de homem perfeito, segundo a medida da idade plena de Cristo (1). Além de serem dotados de sentidos perfeitíssimos, os quais terão cada qual a sua recompensa particular, serão ornados de quatro qualidades ou dotes. Continuar lendo

A RESSURREIÇÃO DE JESUS CRISTO E A ESPERANÇA DO CRISTÃO

ressHaec dies quam fecit Dominus: exultemus et laetemur in ea — “Este é o dia que fez o Senhor; regozijemo-nos e alegremo-nos nele” (Ps. 117, 24).

Sumário. Façamos um ato de fé viva na ressurreição de Jesus Cristo; cheguemo-nos a Ele em espírito para Lhe beijar as chagas glorificadas, e regozijemo-nos com Ele por ter saído do sepulcro vencedor da morte e do inferno. Lembrando-nos em seguida que a ressurreição de Jesus é o penhor e a norma da nossa, avivemos nossa esperança, e ganhemos ânimo para suportar com paciência as tribulações da vida presente. Lembremo-nos, porém, que para ressuscitarmos gloriosamente com Jesus Cristo devemos primeiro morrer com Ele a todos os afetos terrestres.

I. O grande mistério que em todo o tempo pascal, e especialmente no dia de hoje, deve ocupar as almas amantes de Deus, e enchê-las de dulcíssima esperança, é a felicidade de Jesus ressuscitado. Já meditamos que Jesus, no tempo de sua Paixão, perdeu inteiramente as quatro espécies de bens que o homem pode possuir na terra. Perdeu os vestidos até a extrema nudez; perdeu a reputação pelos desprezos mais abomináveis; perdeu a florescente saúde pelos maus tratos; perdeu finalmente a vida preciosíssima pela morte mais horrível que se pode imaginar. Agora porém, saindo vivo do fundo do sepulcro, recebe com lucro abundantíssimo tudo quanto perdeu.

O que era pobre, ei-Lo feito riquíssimo e Senhor de toda a terra. O que a si próprio se chamava verme e opróbrio dos homens, ei-Lo coroado de glória, assentado à direita do Pai. O que pouco antes era o Homem das dores e provado nos sofrimentos, ei-Lo dotado de nova força e de uma vida imortal e impassível. Finalmente o que tinha sido morto do modo mais horrível, ei-Lo ressuscitado pela sua própria virtude, dotado de sutileza, de agilidade, de clareza, feito as primícias de todos os que dormem com a esperança de ressuscitarem também um dia à imitação de Cristo: Christus resurrexit a mortuis, primitiae dormientium (1) Continuar lendo

OS SETE SALMOS PENITENCIAIS – SALMO CXLII

7Senhor, ouvi a minha oração; pela vossa fidelidade, escutai a minha súplica, atendei-me em nome de vossa justiça.

Não entreis em juízo com o vosso servo, porque ninguém que viva é justo diante de vós.

O inimigo trama contra a minha vida, ele me prostrou por terra; relegou-me para as trevas com os mortos.

Desfalece-me o espírito dentro de mim, gela-me no peito o coração.

Lembro-me dos dias de outrora, penso em tudo aquilo que fizestes, reflito nas obras de vossas mãos.

Estendo para vós os braços; minha alma, como terra árida, tem sede de vós.

Apressai-vos em me atender, Senhor, pois estou a ponto de desfalecer. Não me oculteis a vossa face, para que não me torne como os que descem à sepultura.

Fazei-me sentir, logo, vossa bondade, porque ponho em vós a minha confiança. Mostrai-me o caminho que devo seguir, porque é para vós que se eleva a minha alma.

Livrai-me, Senhor, de meus inimigos, porque é em vós que ponho a minha esperança.

Ensinai-me a fazer vossa vontade, pois sois o meu Deus. Que vosso Espírito de bondade me conduza pelo caminho reto.

Por amor de vosso nome, Senhor, conservai-me a vida; em nome de vossa clemência, livrai minha alma de suas angústias.

Pela vossa bondade, destruí meus inimigos e exterminai todos os que me oprimem, pois sou vosso servo.

Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo. Como era no princípio, agora e sempre. Amém.  

OS SETE SALMOS PENITENCIAIS – SALMO CXXIX

6Do fundo do abismo, clamo a vós, Senhor;

Senhor, ouvi minha oração. Que vossos ouvidos estejam atentos à voz de minha súplica.

Se tiverdes em conta nossos pecados, Senhor, Senhor, quem poderá subsistir diante de vós?

Mas em vós se encontra o perdão dos pecados, para que, reverentes, vos sirvamos.

Ponho a minha esperança no Senhor. Minha alma tem confiança em sua palavra.

Minha alma espera pelo Senhor, mais ansiosa do que os vigias pela manhã.

Mais do que os vigias que aguardam a manhã, espere Israel pelo Senhor, porque junto ao Senhor se acha a misericórdia; encontra-se nele copiosa redenção.

E ele mesmo há de remir Israel de todas as suas iniqüidades.

Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo. Como era no princípio, agora e sempre. Amém.

OS SETE SALMOS PENITENCIAIS – SALMO CI

5Prece de um aflito que desabafa sua angústia diante do Senhor.

Senhor, ouvi a minha oração, e chegue até vós o meu clamor.

Não oculteis de mim a vossa face no dia de minha angústia. Inclinai para mim o vosso ouvido. Quando vos invocar, acudi-me prontamente,

porque meus dias se dissipam como a fumaça, e como um tição consomem-se os meus ossos.

Queimando como erva, meu coração murcha, até me esqueço de comer meu pão.

A violência de meus gemidos faz com que se me peguem à pele os ossos.

Assemelho-me ao pelicano do deserto, sou como a coruja nas ruínas.

Perdi o sono e gemo, como pássaro solitário no telhado.

Insultam-me continuamente os inimigos, em seu furor me atiram imprecações.

Como cinza do mesmo modo que pão, lágrimas se misturam à minha bebida,

devido à vossa cólera indignada, pois me tomastes para me lançar ao longe.

Os meus dias se esvaecem como a sombra da noite e me vou murchando como a relva.

Vós, porém, Senhor, sois eterno, e vosso nome subsiste em todas as gerações.

Levantai-vos, pois, e sede propício a Sião; é tempo de compadecer-vos dela, chegou a hora…

porque vossos servos têm amor aos seus escombros e se condoem de suas ruínas.

E as nações pagãs reverenciarão o vosso nome, Senhor, e os reis da terra prestarão homenagens à vossa glória.

Quando o Senhor tiver reconstruído Sião, e aparecido em sua glória,

quando ele aceitar a oração dos desvalidos e não mais rejeitar as suas súplicas,

escrevam-se estes fatos para a geração futura, e louve o Senhor o povo que há de vir,

porque o Senhor olhou do alto de seu santuário, do céu ele contemplou a terra;

para escutar os gemidos dos cativos, para livrar da morte os condenados;

para que seja aclamado em Sião o nome do Senhor, e em Jerusalém o seu louvor,

no dia em que se hão de reunir os povos, e os reinos para servir o Senhor.

Deus esgotou-me as forças no meio do caminho, abreviou-me os dias.

Meu Deus, peço, não me leveis no meio da minha vida, vós cujos anos são eternos.

No começo criastes a terra, e o céu é obra de vossas mãos.

Um e outro passarão, enquanto vós ficareis. Tudo se acaba pelo uso como um traje. Como uma veste, vós os substituís e eles hão de sumir.

Mas vós permaneceis o mesmo e vossos anos não têm fim.

Os filhos de vossos servos habitarão seguros, e sua posteridade se perpetuará diante de vós.

Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo. Como era no princípio, agora e sempre. Amém. 

OS SETE SALMOS PENITENCIAIS – SALMO L

Uma belíssima versão polifônica renascentista desse Salmo pode ser ouvida aqui.

4Tende piedade de mim, Senhor, segundo a vossa bondade. E conforme a imensidade de vossa misericórdia, apagai a minha iniqüidade.

Lavai-me totalmente de minha falta, e purificai-me de meu pecado.

Eu reconheço a minha iniqüidade, diante de mim está sempre o meu pecado.

Só contra vós pequei, o que é mau fiz diante de vós. Vossa sentença assim se manifesta justa, e reto o vosso julgamento.

Eis que nasci na culpa, minha mãe concebeu-me no pecado.

Não obstante, amais a sinceridade de coração. Infundi-me, pois, a sabedoria no mais íntimo de mim.

Aspergi-me com um ramo de hissope e ficarei puro. Lavai-me e me tornarei mais branco do que a neve.

Fazei-me ouvir uma palavra de gozo e de alegria, para que exultem os ossos que triturastes.

Dos meus pecados desviai os olhos, e minhas culpas todas apagai.

Ó meu Deus, criai em mim um coração puro, e renovai-me o espírito de firmeza.

De vossa face não me rejeiteis, e nem me priveis de vosso santo Espírito.

Restituí-me a alegria da salvação, e sustentai-me com uma vontade generosa.

Então aos maus ensinarei vossos caminhos, e voltarão a vós os pecadores.

Deus, ó Deus, meu salvador, livrai-me da pena desse sangue derramado, e a vossa misericórdia a minha língua exaltará.

Senhor, abri meus lábios, a fim de que minha boca anuncie vossos louvores.

Vós não vos aplacais com sacrifícios rituais; e se eu vos ofertasse um sacrifício, não o aceitaríeis.

Meu sacrifício, ó Senhor, é um espírito contrito, um coração arrependido e humilhado, ó Deus, que não haveis de desprezar.

Senhor, pela vossa bondade, tratai Sião com benevolência, reconstruí os muros de Jerusalém.

Então aceitareis os sacrifícios prescritos, as oferendas e os holocaustos; e sobre vosso altar vítimas vos serão oferecidas.

Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo. Como era no princípio, agora e sempre. Amém. 

OS SETE SALMOS PENITENCIAIS – SALMO XXXVII

3Senhor, em vossa cólera não me repreendais, em vosso furor não me castigueis,

porque as vossas flechas me atingiram, e desceu sobre mim a vossa mão.

Vossa cólera nada poupou em minha carne, por causa de meu pecado nada há de intacto nos meus ossos.

Porque minhas culpas se elevaram acima de minha cabeça, como pesado fardo me oprimem em demasia.

São fétidas e purulentas as chagas que a minha loucura me causou.

Estou abatido, extremamente recurvado, todo o dia ando cheio de tristeza.

Inteiramente inflamados os meus rins; não há parte sã em minha carne.

Ao extremo enfraquecido e alquebrado, agitado o coração, lanço gritos lancinantes.

Senhor, diante de vós estão todos os meus desejos, e meu gemido não vos é oculto.

Palpita-me o coração, abandonam-me as forças, e me falta a própria luz dos olhos.

Amigos e companheiros fogem de minha chaga, e meus parentes permanecem longe.

Os que odeiam a minha vida, armam-me ciladas; os que me procuram perder, ameaçam-me de morte; não cessam de planejar traições.

Eu, porém, sou como um surdo: não ouço; sou como um mudo que não abre os lábios.

Fiz-me como um homem que não ouve, e que não tem na boca réplicas a dar.

Porque é em vós, Senhor, que eu espero; vós me atendereis, Senhor, ó meu Deus.

Eis meu desejo: Não se alegrem com minha perda; não se ensoberbeçam contra mim, quando meu pé resvala;

pois estou prestes a cair, e minha dor é permanente.

Sim, minha culpa eu a confesso, meu pecado me atormenta.

Entretanto, são vigorosos e fortes os meus inimigos, e muitos os que me odeiam sem razão.

Retribuem-me o mal pelo bem, hostilizam-me porque quero fazer o bem.

Não me abandoneis, Senhor. Ó meu Deus, não fiqueis longe de mim.

Depressa, vinde em meu auxílio, Senhor, minha salvação!

Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo. Como era no princípio, agora e sempre. Amém.

DOMINGO DE RAMOS: JESUS FAZ A SUA ENTRADA TRIUNFAL EM JERUSALÉM

ramosEcce rex tuus venit tibi mansuetus, sedens super asinam et pullum filium subiugalis — “Eis que o teu Rei aí vem a ti cheio de mansidão, montado sobre uma jumenta e um jumentinho, filho do que está sob o jugo” (Matth. 21, 5).

Sumário. Imaginemos ver Jesus na sua entrada triunfal em Jerusalém. O povo em júbilo lhe vai ao encontro, estende seus
mantos na estrada e juncam-na de ramos de árvores. Ah! Quem teria dito então que o Senhor, acolhido agora com tão grande honra, dentro em poucos dias teria de passar ali como réu, condenado à morte? Mas é assim: O mundo muda num instante o Hosanna em Crucifige. E não obstante isso somos tão insensatos, que por um aplauso, por um nada nos expomos ao perigo de perdermos para sempre a alma, o paraíso de Deus.

I. Estando próximo o tempo da Paixão, o nosso Redentor parte de Betânia para fazer a sua entrada em Jerusalém. Contemplemos a humildade de Jesus Cristo, que, sendo o Rei do céu, quer entrar naquela cidade montado numa jumenta. — Ó Jerusalém, eis que o teu rei aí vem humilde e manso. Não temas que Ele venha para reinar sobre ti ou apossar-se das tuas riquezas; porquanto vem a ti cheio de amor e piedade para te salvar e dar-te a vida pela sua morte.

Entretanto os habitantes da cidade, que, havia já tempos, O veneravam por causa de seus milagres, foram-Lhe ao encontro. Uns estendem os seus mantos na estrada por onde passa, outros juncam o caminho, em honra de Jesus, com ramos de árvores. — Oh! Quem teria dito que o mesmo Senhor, acolhido agora com tanta demonstração de veneração, havia de passar por ali dentro em poucos dias como réu condenado à morte, com a cruz aos ombros!? Continuar lendo

OS SETE SALMOS PENITENCIAIS – SALMO XXXI

2Feliz aquele cuja iniqüidade foi perdoada, cujo pecado foi absolvido.

Feliz o homem a quem o Senhor não argúi de falta, e em cujo coração não há dolo.

Enquanto me conservei calado, mirraram-se-me os ossos, entre contínuos gemidos.

Pois, dia e noite, vossa mão pesava sobre mim; esgotavam-se-me as forças como nos ardores do verão.

Então eu vos confessei o meu pecado, e não mais dissimulei a minha culpa. Disse: Sim, vou confessar ao Senhor a minha iniqüidade. E vós perdoastes a pena do meu pecado.

Assim também todo fiel recorrerá a vós, no momento da necessidade. Quando transbordarem muitas águas, elas não chegarão até ele.

Vós sois meu asilo, das angústias me preservareis e me envolvereis na alegria de minha salvação.

Vou te ensinar, dizeis, vou te mostrar o caminho que deves seguir; vou te instruir, fitando em ti os meus olhos:

não queiras ser sem inteligência como o cavalo, como o muar, que só ao freio e à rédea submetem seus ímpetos; de outro modo não se chegam a ti.

São muitos os sofrimentos do ímpio. Mas quem espera no Senhor, sua misericórdia o envolve.

Ó justos, alegrai-vos e regozijai-vos no Senhor. Exultai todos vós, retos de coração.

Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo. Como era no princípio, agora e sempre. Amém.

JESUS É APRESENTADO AOS PONTÍFICES E POR ELES CONDENADO À MORTE

condAt illi, tenentes Iesum, duxerunt ad Caiphan principem sacerdotum — Eles, prendendo a Jesus, O levaram a Caifás, príncipe dos sacerdotes (Matth. 26, 57).

Sumário. Imaginemos ver a Jesus Cristo perante o tribunal de Caifás. Ali é esbofeteado, tratado de blasfemador, declarado réu de morte, e como tal, maltratado de mil modos. Jesus, porém, no meio de tantos opróbrios, nada perde de sua serenidade e doçura, e parece que com o seu silêncio nos diz: Se quiserdes desagravar-me das injúrias que me fazem, suportai por meu amor os desprezos, assim como eu os suporto por vosso amor.

Eis que o Redentor é levado como em triunfo à presença de Caifás, que já O estava esperando, e vendo-O diante de si, só e desamparado de seus discípulos, ficou cheio de contentamento. Minha alma, contempla o teu Senhor, que ali está todo humilde e manso. Contempla o seu belo rosto, que, no meio de tantas injúrias e desprezos, não perdeu a sua serenidade e doçura. O ímpio pontífice interroga Jesus sobre seus discípulos e sobre sua doutrina para achar algum pretexto de condenação. Jesus responde-lhe com humildade: “Eu não falei em segredo, mas em público; todos estes que aqui estão podem dar testemunho do que eu falei”. Senão, quando depois de uma resposta tão justa e tão branda, um algoz mais insolente avança do meio da chusma e, tratando Jesus de atrevido, lhe dá uma forte bofetada dizendo: “É assim que respondes ao sumo sacerdote?” Ó Deus, como pôde uma resposta tão humilde e tão modesta merecer tão grave insulto?

Entretanto, o Conselho procurava testemunhas para o condenar à morte; mas não encontravam; pelo que o pontífice vai novamente buscar matéria de condenação nas palavras de nosso Salvador mesmo, e lhe diz: Adiuro te per Deum vivum, ut dicas nobis, si tu es Christus Filius Dei (1) — “Eu te conjuro, pelo Deus vivo, que nos digas, se tu és o Cristo, o Filho de Deus”. O Senhor, ouvindo que O conjuravam em nome de Deus, confessa a verdade e responde: “Sim, eu o sou: e um dia me verás, não tão desprezível como estou agora diante de ti, mas assentado num trono de majestade como juiz de todos os homens, acima das nuvens do céu”. Ouvindo estas palavras, o pontífice, em vez de prostrar-se com o rosto em terra para adorar a seu Deus, rasga seus vestidos e diz: “Para que mais precisamos de testemunhas? Acabais de ouvir a blasfêmia. Quid vobis videtur? (2) — “Que vos parece?” E todos os outros sacerdotes responderam que sem dúvida alguma Ele era réu de morte. — Ah, meu Jesus, o mesmo disse também vosso Eterno Pai, quando Vos oferecestes a expiar os nossos pecados. Meu Filho, disse, já que queres satisfazer pelos homens, és réu de morte, e por isso é necessário que morras. Continuar lendo