FELICIDADE DOS RELIGIOSOS EM MORAREM JUNTO COM JESUS NO SANTÍSSIMO SACRAMENTO

img_2740_editedBeati qui habitant in domo tua, Domine; in saecula saeculorum laudabunt te — “Bem-aventurados, Senhor, os que moram em tua casa; pelos séculos te louvarão” (Ps. 83, 5).

Sumário. Se os mundanos estimam tanto serem chamados pelos reis para habitarem nos seus palácios, quanto mais os religiosos devem estimar o habitarem continuamente com o Rei do céu em sua casa? Meu irmão, já estás morando muito tempo com Jesus Cristo debaixo do mesmo teto; mas que fruto tiraste até agora de sua presença?… Procura ao menos aproveitá-la para o futuro, demorando-te o mais possível a seus pés, expandindo ali os teus afetos, as tuas aflições, os teus desejos de amá-Lo de todo o coração e de O contemplar um dia no céu.

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I. A Venerável Madre Maria de Jesus, fundadora de um instituto em Tolosa, dizia que por dois grandes motivos estimava a sua felicidade de ser religiosa: o primeiro, porque os religiosos são todos de Deus pelo voto de obediência; segundo, porque os religiosos têm a ventura de habitar sempre com Jesus sacramentado. — E na verdade, se os mundanos estimam tanto serem chamados pelos reis para habitarem nos seus palácios, quanto mais os religiosos devem estimar o habitarem continuamente com o Rei do céu na sua casa?

Nas casas religiosas, Jesus se deixa ficar na igreja expressamente para eles, a fim de que O achem a toda hora. Os seculares podem ir visitá-Lo apenas de dia, e em muitas partes só de manhã; mas o religioso acha-O no sacrário sempre que O procure: de manhã, de dia e de noite. Aí pode entreter-se continuamente com seu Senhor, e aí Jesus se compraz em tratar familiarmente com seus amados servos, que Ele para este fim tirou do Egito, isto é, do mundo, para nesta vida lhes fazer companhia, escondido no Santíssimo Sacramento, e na outra, ser-lhes companheiro, mas então descoberto, no céu. A respeito de qualquer casa religiosa pode-se dizer: “Ó beata solidão, em que Deus fala e trata familiarmente com os seus!” (1)

As almas que amam deveras a Jesus Cristo não sabem desejar na terra outro paraíso mais perfeito do que acharem-se na presença de seu Senhor sacramentado, que aí está por amor de quem O procura e visita. Non habet amaritudinem conversatio illius, nec taedium convictus illius (2) — “A sua conversação não tem nada de desagradável, nem a sua companhia nada de fastidioso”. Acha fastio junto de Jesus quem não O ama; mas uma alma que nesta terra pôs o seu amor só em Jesus, acha no Santíssimo Sacramento todo o seu tesouro, o seu repouso, o seu paraíso. Por isso, só pensa em fazer corte a seu Jesus sacramentado e em visitá-Lo o mais que puder, expandindo ao pé do altar os seus afetos, as suas aflições, os seus desejos de amá-Lo e de vê-Lo um dia face a face no paraíso e entretanto cumprir em tudo a sua vontade. Continuar lendo

O GRANDE SEGREDO DA MORTE

abcO mors, bonum est iudicium tuum homini indigenti — “Ó morte, é bom o teu juízo para o homem necessitado” (Ecclus. 41, 3).

Sumário. Durante a vida, as paixões fazem que os bens terrestres pareçam de modo muito diferente do que são; a morte, porém, mostra-os na sua verdade: fumaça, lodo e miséria. Meu Deus! Para que servirão as riquezas, quando não nos restar senão uma simples mortalha? Para que servirão honras e dignidades, quando não tivermos nada senão um cortejo fúnebre? Para que servirá a beleza do corpo, quando nada mais nos ficar senão vermes e podridão? Que grande segredo é o da morte! Como seria bem regrada a nossa vida se o soubéssemos aproveitar bem!

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Oh, quantas pessoas podem repetir a palavra do rei Ezequias: Praecisa est velut a texente vita mea (1) — “A minha vida foi cortada como por um tecelão”. Apenas estão urdindo a tela, isto é, planejando e executando os seus projetos terrestres, combinados com tanta prudência, senão quando vem a morte e põe fim a tudo! Então, ao clarão do último facho, todas as coisas do mundo desaparecem: aplausos, regozijos, pompas e grandezas. — Grande segredo o da morte! Ela nos faz ver o que não vêem os amantes do mundo. As fortunas mais cobiçadas, os postos mais eminentes, os triunfos mais magníficos, perdem todo o brilho, quando considerados no leito da morte. Convertem-se então em indignação contra a nossa própria loucura as idéias que tínhamos formado acerca de certas felicidades ilusórias. A sombra negra e sinistra da morte encobre e obscurece todas as dignidades, sem excetuar as dos reis.

Durante a vida, as paixões fazem que os bens terrestes pareçam muito diferentes do que são; a morte tira-lhes a máscara e mostra o que são na verdade: fumaça, lodo, vaidade e miséria. — Meu Deus, para que servirão na hora da morte riquezas, título, reinos, quando nada nos restar senão um esquife de madeira e uma simples mortalha para nos cobrir o corpo? Para que servirão as dignidades e as honras, quando nada mais tivermos senão um cortejo fúnebre e pomposas exéquias, que de nada valerão à alma, se esta estiver perdida? Para que servirá a beleza do corpo, quando, ainda antes de morrer, se tornar em vermes, podridão e pouco depois em um punhado de pó infecto?

Posuit me quasi in proverbium vulgi, et exemplum sum coram eis (2) — “Ele me reduziu a ser como um provérbio do povo, e estou feito diante deles um exemplo”. — Morre tal ricaço, tal ministro, tal general e sua morte será apregoada por toda a parte; mas se viveu mal, tornar-se-á alvo dos ataques do povo; e como prova da vaidade do mundo e também da divina justiça, servirá para exemplo dos outros. – Na cova estará confundido entre os cadáveres dos pobres: Parvus et magnus ibi sunt (3) — “O pequeno e o grande ali estão”. Que lhe valeu a bela estatura do corpo, agora que não é senão um montão de vermes? Que lhe valeu a autoridade que possuía, agora que seu corpo está condenado a apodrecer numa vala e sua alma a arder no inferno? Continuar lendo

DA PERSEVERANÇA – PONTO I

Resultado de imagem para rezandoQui perseveraverit usque in finem, hic salvus erit – “Aquele que perseverar até ao fim, este será salvo” (Mt 24, 13)

Disse São Jerônimo que muitos começam bem, mas poucos são os que perseveram. Um Saul, um Judas, um Tertuliano, começaram bem, mas acabaram mal, porque não perseveraram como deviam.

“Nos cristãos não se procura o princípio, mas o fim”

O Senhor — prossegue o mesmo Santo — não exige somente o começo da boa vida, quer também seu bom termo; o fim é que alcançará a recompensa. É por isso que São Lourenço Justiniano chama a perseverança de porta do céu. Quem não der com essa porta, não poderá entrar na glória.

Tu, meu irmão, que abandonaste o pecado e esperas, com razão, que tenham sido perdoadas as tuas culpas, gozas da amizade de Deus; todavia ainda não estás salvo, nem o estarás enquanto não tiveres perseverado até ao fim (Mt 10,22). Começaste bem e santamente a vida.

Agradece mil vezes a Deus; mas adverte que, segundo disse São Bernardo, não é ao que começa que se oferece o prêmio, mas sim, unicamente, ao que persevera. Não basta correr no estádio; mas impende prosseguir até alcançar a coroa, conforme a expressão do apóstolo (1Cor 9,24).

Lançaste mão do arado: principiaste a viver bem; portanto, agora mais do que nunca, deves recear e tremer… (Fp 2,12) Por quê?… Porque, se retrocederes (o que Deus não permita) e tornares a trilhar o mau caminho, Deus te excluirá do prêmio da glória (Lc 9,62). Por conseguinte, evita, fortalecido pela graça de Deus, as ocasiões más e perigosas, frequenta os sacramentos, faze cada dia meditação. Serás feliz se assim continuares até que Nosso Senhor Jesus Cristo venha julgar-te (Mt 24,46). Não esperes, no entanto, que, por teres resolvido servir a Deus, cessem as tentações e não voltem a combater-te. Considera o que diz o Espírito Santo: Continuar lendo

FINS DA ORAÇÃO MENTAL

rezandoIn meditatione mea exardescet ignis — “Na minha meditação se acenderá o fogo” (Ps. 38, 4).

Sumário. Para fazer bem a oração mental e tirar proveito dela, é preciso conhecer os seus fins, que são principalmente três: primeiro, a união mais íntima com Deus; segundo, a obtenção das graças necessárias; terceiro, o conhecimento da Santíssima vontade de Deus e a força para executá-la plenamente. Enganam-se, pois, aqueles que deixam de fazer meditação, porque nela não acham consolações ou doçuras. Lembremo-nos bem, que o que não faz oração mental, dificilmente perseverará na graça de Deus e dificilmente se salva.

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I. Para que façamos bem a oração mental e tiremos dela grande fruto para a alma, devemos fixar o fim pelo qual a queiramos fazer. Primeiro, devemos fazer oração para nos unir mais a Deus. O que nos une a Deus, não são tanto os bons pensamentos do espírito, como os atos da vontade, os santos afetos. E são estes afetos que se excitam na meditação: como sejam os afetos de humildade, de confiança, de desapego, de resignação e, sobretudo, os de amor e de arrependimento dos próprios pecados. Os atos de amor, diz Santa Teresa, conservam aceso no coração o fogo do santo amor.

Em segundo lugar, devemos fazer a meditação a fim de alcançarmos de Deus as graças necessárias para progredir no caminho da salvação e especialmente a fim de alcançarmos a luz divina para evitar os pecados e empregar os meios que nos conduzem à perfeição. O grande fruto da oração é excitar-nos a rogar graças, visto que, de ordinário, Deus não concede as graças senão ao que as pedir. Escreve São Gregório: Deus quer ser rogado, quer ser constrangido, quer ser vencido pela importunação. Notemos estas palavras: Vult quadam importunitate vinci — “Quer ser vencido pela importunação”. Para obtermos certas graças mais importantes, às vezes não será bastante que as peçamos; deveremos insistir, e com nossos pedidos obrigar Deus a no-las conceder. Verdade é que em todo tempo o Senhor está pronto para nos atender; mas no tempo da meditação, quando estamos mais recolhidos a Deus, Ele nos concede auxílio com mais liberalidade.

O que sobretudo devemos pedir na oração é a perseverança e o santo amor. A perseverança não é uma única graça, senão uma corrente de graças, à qual deve corresponder a corrente de nossas orações. Se deixarmos de rezar, Deus deixará de nos dar o seu auxílio e assim nos perderemos. O que não medita, dificilmente perseverará na graça de Deus até à morte. — Devemos rezar e rezar muito, para obtermos de Deus o seu divino amor. Dizia São Francisco de Sales que o santo amor traz unidas consigo todas as virtudes: Venerunt autem mihi omnia bona pariter cum illa (1) — “Juntamente com ela vieram-me todos os bens”. Continuar lendo

O PECADOR DESONRA A DEUS

pecadoPer praevaricationem legis Deum inhonoras — “Pela transgressão da lei desonras a Deus” (Rom. 2, 23).

Sumário. O pecador desonra a Deus, porque, por um vil interesse, por uma indigna satisfação, renuncia à amizade divina. Se ao menos não O desonrasse na sua presença. Mas não, desonra-O ante seus próprios olhos, pois que Deus está em todos os lugares; e, mais ainda, para desonrá-Lo serve-se do mesmo corpo que Deus lhe deu para o glorificar. Que negra ingratidão! Quão amargurado não deve sentir-se o Coração amabilíssimo de Jesus!

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I. O pecador não só injuria a Deus, mas também o desonra: Pela transgressão da lei desonras a Deus. Sim, porque renuncia à graça divina e por uma indigna satisfação calca aos pés a amizade de Deus. Se um homem perdesse a amizade divina para ganhar um trono, ou mesmo o mundo inteiro, com certeza faria um grande mal; porque a amizade de Deus vale mais que o mundo, mais que mil mundos. E porque será que o pecador ofende a Deus? Por um punhado de terra, por um ímpeto de cólera, por um prazer brutal, por uma quimera, por um capricho: Violabant me propter pugillum hordei et fragmen panis (1) — “Eles me desprezaram por um punhado de cevada e por um pedaço de pão”.

Quando o pecador se põe a deliberar se consentirá ou não consentirá no pecado, toma, por assim dizer, nas mãos a balança e vê o que pesa mais: se a graça de Deus, ou essa paixão, essa quimera, esse prazer. Quando por fim consente, declara que, quanto a si, essa paixão, esse prazer, valem muito mais do que a amizade divina. É deste modo que Deus é desonrado pelo pecador! — Deus queixa-se disso pela boca do Profeta, dizendo: A quem me assemelhastes vós, e igualastes? (2) Sou Eu porventura tão vil a vossos olhos, que mereça ser posposto a uma indigna satisfação?

Mais. Dizem São Cipriano e Santo Tomás que, quando o pecador, para satisfazer qualquer paixão, ofende a Deus, converte em divindade essa paixão, porque dela faz seu último fim. De forma que, segundo a palavra de São Jerônimo, uma paixão no coração é como que um ídolo no altar. — Quando Jeroboam se revoltou contra Deus, quis atrair consigo o povo à idolatria, e por isso apresentou-lhes ídolos, dizendo: Ecce dii tui, Israel (3) — “Eis aqui os teus deuses”. De igual modo pratica o demônio: apresenta ao pecador qualquer satisfação desordenada e diz: Que tens tu que ver com Deus? Ei-lo aqui, o teu deus; é este prazer, esta paixão; toma-os e deixa a Deus. E o pecador, dando o consentimento, assim o faz: no coração adora a satisfação em vez de Deus: Vitium in corde est idolum in altare. Continuar lendo

XXI DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES: O SERVO DESUMANO E O PERDÃO DAS INJÚRIAS

abcSic et Pater meus coelestis faciet vobis, si non remiseritis unusquisque fratri suo de cordibus vestris — “Assim vos tratará meu Pai celestial, se do íntimo dos vossos corações não perdoardes cada um a seu irmão” (Matth. 18, 35).

Sumário. O servo descaridoso, a quem o dono perdoou muito e não quis apiedar-se do companheiro que lhe devia pouco, é uma imagem viva daqueles cristãos que não querem perdoar a seu inimigo. Meus irmão, não te creio culpado de tamanho delito; mas considera bem, não sejas do número dos que julgam com severidade os defeitos dos outros e exigem tolerância para os defeitos próprios e talvez maiores. Sendo assim, não tardes em emendar-te; senão, serás julgado com o mesmo rigor e condenado pelo Pai celestial.

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I. No evangelho de hoje, Jesus Cristo compara o reino dos céus a um rei que quis tomar contas aos seus servos. E, “tendo começado a tomar as contas, foi-lhe apresentado um que lhe devia dez mil talentos. Como não tivesse com que pagar, mandou o seu senhor que o vendessem a ele e a sua mulher e a seus filhos, e tudo quanto possuía, para com isto ser pago. O servo, porém, lançando-se-lhe aos pés, o implorava dizendo: Tem paciência comigo, que eu te pagarei tudo. Compadecido então desse servo, o senhor deixou-o em liberdade, e lhe perdoou sua dívida. — Mas tendo saído este servo, encontrou-se com um de seus companheiros que lhe devia cem dinheiros; e, pondo-lhe as mãos, sufocava-o dizendo: Paga-me o que deves. E o companheiro, prostrando-se-lhe aos pés, lhe implorava, dizendo: Tem paciência comigo, que te pagarei tudo. Mas ele não quis; e fez metê-lo em prisão até pagar a dívida: Misit eum in carcerem, done redderet debitum.

Meu irmão, ao ouvir tamanha crueldade, talvez nunca sucedida, sem dúvida te sentes comovido. Quantos há, porém, que se comovem com a parábola e tropeçam na realidade! — Com efeito, Jesus Cristo (figurado pelo rei) mostra-se no tribunal da penitência tão misericordioso para com os cristãos, que basta um ato de contrição para lhes serem perdoadas todas as culpas, representadas pelo débito enorme de dez mil talentos. Ao contrário, os cristãos, (figurados pelo servo descaridoso) são tão exigentes, que, apesar do preceito de Deus, se recusam a perdoar ao próximo as ofensas recebidas, simbolizadas na pequena quantia de cem dinheiros.

Não te quero julgar réu de tamanha desumanidade. Examina, porém, se não és porventura do número daqueles que, deixando-se dominar pela ira, querem que para com eles se use de paciência, sem que eles a tenham de praticar para com os outros; isto é, julgam com rigor os pequenos defeitos dos outros, e exigem condescendência a respeito dos próprios defeitos que são muito maiores. Continuar lendo

GRANDEZA DA MISERICÓRDIA DE MARIA SANTÍSSIMA

Resultado de imagem para nossa senhora da misericordiaTransite ad me omnes qui concupiscitis me, et a generationibus meis implemini — “Passai-vos a mim todos os que me cobiçais, enchei-vos dos meus frutos” (Ecclus. 24, 26).

Sumário. Quando a Santíssima Virgem vivia ainda na terra, já não podia ver algum necessitado semsocorrê-lo. Quanto mais misericordiosa não será agora que está no céu, de onde melhor vê as nossas misérias e nos ama com coração de Mãe! Não nos descuidemos portanto de recorrer a uma Mãe tão boa em todas as nossas necessidades e de pôr nela toda a nossa esperança. Mas, ao mesmo tempo, deixemos de lhe amargurar o coração pela nossa tibieza e pelos nossos pecados.

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I. Considera que Maria é uma advogada tão piedosa, que não só ajuda ao que a ela recorre, mas ela mesma vai à procura dos miseráveis para os defender e salvar. Eis como ela convida a todos, animando-nos a esperarmos todos os bens, se a ela recorrermos: “Passai-vos a mim todos e enchei-vos dos meus frutos.” — “O demônio”, diz São Pedro, “vai sempre ao redor de nós, buscando quem possa tragar”; mas nossa divina Mãe, acrescenta Bernardino de Bustis, vai sempre ao redor de nós buscando a quem possa salvar: Circuit, quaerens quem salvet.

Maria é Mãe de misericórdia porque a piedade que tem de nós faz que de nós se compadeça e procure sempre salvar-nos; assim com uma mãe não pode ver seus filhos em perigo de se perderem e deixar de os ajudar. E quem, depois de Jesus Cristo, pergunta São Germano, interessa-se mais pela nossa salvação do que vós, ó Mãe de misericórdia? — Ela certamente nos ajudará quando a invocarmos e nunca jamais foi alguém por ela desamparado. Isso, porém, não basta a seu Coração piedoso. Como diz Ricardo de São Victor, ela previne as nossas súplicas e procura ajudar-nos antes que nós a invoquemos. Apenas vê alguma miséria, socorre logo e não pode ver algum necessitado sem o ajudar.

A Santíssima Virgem assim praticava desde a sua vida terrestre, como sabemos pelo fato sucedido nas bodas de Caná na Galileia. Vindo a faltar o vinho, ela não esperou até ser rogada; mas, compadecendo-se da aflição e do pejo daqueles esposos, pediu ao Filho que os consolasse dizendo: Vinum non habent (1) — “Eles não têm vinho”; e obteve que seu Filho, por um milagre, convertesse a água em vinho. Pois bem, diz São Boaventura, se foi tão grande a piedade de Maria para com todos quando estava ainda em terra, muito maior sem dúvida será a sua piedade para nos socorrer, agora que está no céu, onde conhece melhor as nossas misérias e mais de nós se compadece. Continuar lendo

QUARTA PALAVRA DE JESUS CRISTO NA CRUZ

cruzEt circa horam nonam clamavit Iesus voce magna dicens: Deus meus, Deus, meus, ut quid dereliquisti me? — “E perto da hora nona deu Jesus um grande brado, dizendo: Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?” (Math. 27, 46.)

Sumário: Em castigo de nossos pecados, tínhamos merecido que Deus nos abandonasse nos abismos infernais entregues à desesperação eterna. Mas, para nos livrar, quis Jesus tomar sobre si a pena que nos era devida e ser entregue pelo Pai a uma morte sem alívio. Demos graças à bondade divina e em nossas desconsolações espirituais unamos a nossa desolação à de Jesus agonizante; lembremo-nos do inferno merecido e digamos: Senhor, seja feita a vossa santa vontade!

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I. Escreve São Leão, que aquele brado do Senhor não foi uma queixa, mas um ensino: Vox ista doctrina est, non querela. Ensino pelo qual Jesus nos quis mostrar quão grande é a malícia do pecado, que, por assim dizer, obrigou Deus a entregar a uma pena sem alívio seu Filho amadíssimo, unicamente por se ter este encarregado de satisfazer pelos nossos crimes. — Jesus não foi então abandonado pela divindade, nem privado da glória, que fora comunicada à sua alma bendita desde o primeiro instante de sua criação; foi, porém, privado de todo o consolo sensível com que Deus costuma confortar os seus servos fiéis, no meio de seus sofrimentos e foi entregue às trevas, a temores e amarguras, penas essas por nós merecidas. No horto o Getsêmani, Jesus sofreu igual privação da presença sensível da divindade; mas a que sofreu na cruz foi mais completa e mais amargosa.

Mas, ó Pai Eterno, que desgosto Vos deu jamais vosso Filho inocente e obedientíssimo, para o punirdes com uma morte tão amargosa? Vêde como está pregado no lenho, a cabeça atormentada pelos espinhos, como está suspenso em três pregos de ferro, apoiando-se nas mesmas chagas. Abandonaram-No todos, mesmo os seus discípulos; todos ao redor o escarnecem e blasfemam contra Ele; porque é que Vós, que tanto O amais, O haveis também abandonado?

Lembremo-nos que Jesus se tinha encarregado dos pecados de todos os homens. Por isso, muito embora fosse Jesus, quanto à sua pessoa, o mais santo de todos os homens, ou antes a santidade mesma, todavia pelo ônus assumido de satisfazer por todos os pecados, parecia ser o maior pecador do mundo, como tal se fizera réu em lugar de todos e se oferecera a pagar por todos. E já que nós merecíamos ser abandonados eternamente no inferno, entregues à desesperação eterna, Jesus quis ser entregue a uma morte sem consolação alguma, a fim de nos livrar assim da morte. Continuar lendo

JESUS NO SANTÍSSIMO SACRAMENTO, NOSSO BOM PASTOR

santEgo sum pastor bonus — “Eu sou o bom pastor” (Io. 10, 14).

Sumário. O ofício de bom pastor é guiar as suas ovelhas, apascentá-las e defendê-las contra os lobos devoradores. Depois de ter cumprido este tríplice dever durante toda a sua vida terrestre, Jesus continua a cumpri-lo no Santíssimo Sacramento do Altar. Aí Ele nos guia pelos exemplos, defende-nos contra os inimigos espirituais, e alimenta-nos com o seu corpo imaculado. Se quisermos progredir na vida espiritual, nunca percamos de vista o nosso amante Pastor, visitemo-Lo freqüentemente, e lembremo-nos que, se ficarmos perto d’Ele, receberemos os seus mais especiais favores.

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I. O ofício do bom pastor é guiar as suas ovelhas, apascentá-las e defendê-las contra os lobos devoradores. Depois de ter cumprido este tríplice dever durante toda a sua vida terrestre, Jesus Cristo continua a cumpri-lo ainda no Santíssimo Sacramento do Altar. — Em primeiro lugar, lá, de dentro do tabernáculo, Ele nos guia pelos seus exemplos de humildade profunda e de paciência perfeita no meio dos muitos ultrajes que recebe; de grande resignação e de obediência pronta a cada aceno dos sacerdotes; e sobretudo de ardente caridade e zelo extremo pela glória de Deus e salvação das almas.

Jesus não só nos guia, mas nos defende também contra os lobos, isto é, contra os três inimigos formidáveis de nossa salvação eterna, subministrando-nos armas poderosas, para sustentarmos o combate contra as tentações malignas do demônio, contra as máximas perversas do mundo e contra os apetites desregrados da carne corrompida. — Muitas vezes apaga até o ardor das paixões que nos consomem. Pelo que dizia São Bernardo: “Se alguém dentre vós não experimenta mais tão freqüentes nem tão violentos movimentos de ira, de inveja, de luxúria, agradeça-o ao Santíssimo Sacramento, que produziu efeito tão salutar.”

Finalmente, na santíssima Eucaristia Jesus Cristo nos apascenta com o seu corpo imaculado. “Qual o pastor”, pergunta São Crisóstomo, “que apascenta suas ovelhas com seu próprio sangue? As próprias mães dão muitas vezes seus filhos a amas que os nutram. Mas Jesus no Santíssimo Sacramento alimenta-nos com o seu próprio sangue e nos une a si”. — “Ó céus!” exclama o Santo, “nós nos unimos a Jesus e nos tornamos um só corpo e uma só carne com esse Senhor no qual os anjos não se atrevem a fitar os olhos: Huic nos unimur, et facti sumus unum corpus et una caro.” Oh, que Pastor verdadeiramente admirável é Jesus na Santíssima Eucaristia! Continuar lendo

A PERDA DA SALVAÇÃO É UM MAL SEM REMÉDIO

perdaQui poenas dabunt in interitu aeternas a facie Domini — “Os quais, longe da presença de Deus, sofrerão por castigo eterno a perdição (2 Thess. 1, 9).

Sumário. Para todos os males há remédio; só para o condenado não. Morre-se uma vez, e, perdida a alma uma vez, está perdida para sempre e só lhe resta lamentar eternamente a sua perdição eterna, causada pela sua própria culpa. Avivemos, pois, a nossa fé, e lembrando-nos que nos caberá por sorte o céu ou o inferno, tomemos as providências apropriadas para nos assegurarmos a salvação eterna. Sejamos especialmente devotos à Santíssima Virgem e examinemos freqüentes vezes, se por ventura nos temos relaxado nesta devoção.

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I. O negócio da salvação eterna é não somente o nosso negócio mais importante, o nosso negócio único; é, além disso, o nosso negócio irreparável. “Não há falta que se possa comparar à do descuido da salvação eterna”, diz Santo Euquério. Para todos os outros males há remédio. Perdidos os bens, podem-se adquirir outros; perdido o emprego, pode-se obtê-lo de novo; ainda no caso de se perder a vida, contanto que se salva a alma, está tudo reparado. Só o condenado não tem remédio. — Morre-se uma vez; e perdida a alma uma vez, está perdida para sempre: Periisse semel, aeternum est. Só lhe resta gemer eternamente no inferno com os outros infelizes insensatos. Ali o pesar maior que os atormenta é o pensar que para eles acabou o tempo de remediar seus males: Finita est aestas, et nos salvati non sumus (1) — “O estio findou-se e nós não fomos salvos”.

Perguntai a esses sábios do mundo, que já estão mergulhados no abismo de fogo, perguntai-lhes que pensam hoje e se estão contentes por terem feito fortuna na terra, agora que estão condenados a uma prisão eterna. Ouvi o que respondem, gemendo: Ergo erravimus a via veritatis (2) — “Assim, nos desencaminhamos da estrada da verdade”. — Mas para que lhe serve reconhecerem o seu erro, já que não há mais remédio para a sua eterna condenação?

Qual não seria o pesar de um homem que, tendo podido com pequena despesa acudir ao desabamento de sua casa, a encontrasse um dia em ruínas e pensasse em sua negligência, quando não havia mais remédio? Muito maior é a pena que os réprobos sentem, pensando que perderam a alma e se condenaram por sua própria culpa: Perditio tua, Israel; tantummodo in me auxilium tum (3) — “A tua perdição, ó Israel, toda vem de ti; só em mim está o teu auxílio”. Ó céus! Qual não será o desespero de um cristão, no momento em que cair no inferno, quando, vendo-se encerrado nesse lugar de tormentos, refletir na sua desgraça e reconhecer que por toda a eternidade não haverá meio de a reparar! Assim, dirá ele, perdi a alma, o paraíso e Deus; perdi tudo para sempre; e como? Por minha própria culpa! Continuar lendo

DA MISERICÓRDIA DE DEUS

Arthur_Timotheo_da_Costa,_Rezando,_1905,_54,5_x_46,5_Photo_Gedley_Belchior_BragaMisericordia domini plena est terra — “Da misericórdia do Senhor é cheia a terra” (Ps. 32, 5).

Sumário. A bondade é por sua natureza inclinada a comunicar seus bens a outros. Por isso é que Deus, a bondade essencial, tem um extremo desejo de comunicar a sua felicidade, e a sua natureza não o inclina a punir, mas a usar de misericórdia. Esta o fez descer do céu à terra, levar uma vida penosa e, afinal, morrer por nós sobre uma cruz. Não pensemos, pois, que Jesus Cristo nos faça esperar o perdão muito tempo, depois do pecado; contanto que estejamos resolvidos a não o tornarmos a ofender.

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I. A bondade é essencialmente comunicativa, isto é, tende a comunicar seus bens também a outros. Ora, Deus, que de natureza é a bondade infinita, tem um desejo extremo de nos comunicar a sua felicidade. Por isso, não deseja castigar, mas usar de misericórdia para com todos. O castigar, diz Isaías, é uma obra alheia da natureza de Deus, e se manda algum castigo, fá-lo, por assim dizer, contra sua vontade, e como que coagido pela impiedade:Irascetur, ut faciat opus suum, alienum opus eius, ut operetur opus suum; peregrinum est opus eius ab eo(1).

E Davi dizia: “Ó Deus, desamparaste-nos, e destruíste-nos: tu te iraste, e tiveste piedade de nós. Mostraste ao teu povo coisas duras; deste-nos a beber o vinho de compunção. Deste aos que te temem um sinal, para que fugissem da face do arco.” (2) Como se dissesse: O Senhor se mostrou irado, para que venhamos à resipiscência e detestemos os pecados. Se nos manda algum castigo, é porque nos ama, e, usando de misericórdia na vida presente, nos quer livrar do castigo eterno. — Numa palavra, o Senhor constitui a sua glória em usar de misericórdia e em perdoar aos pecadores: Exaltabitur parcens vobis (3), pois, como diz a Santa Igreja, desta maneira Deus se compraz em manifestar a sua onipotência: Omnipotentiam tuam parcendo maxime et miserando manifestas (4).

Foi esta grande misericórdia que o levou a enviar à terra seu próprio Filho, para se fazer homem, levar trinta e três anos uma vida penosa e finalmente morrer sobre uma cruz, afim de nos livrar da morte eterna: Proprio Filio suo non pepercit, sed pro nobis omnibus tradidit illum (5) — “Não poupou a seu Filho, mas entregou-O por todos nós”. — Pela mesma razão cantou São Zacharias: “Pelas entranhas de misericórdia do nosso Deus, com que nos visitou o Sol nascente do alto.” (6) Por estas palavras, entranhas de misericórdia, entende-se uma misericórdia que procede do íntimo do coração de Deus, porquanto preferiu ver morto seu Filho feito homem a ver-nos perdidos. Continuar lendo

DA SOLIDÃO DO CORAÇÃO

Resultado de imagem para solidãoEcce elongavi fugiens, et mansi in solitudine — “Eis que me afastei fugindo e permaneci na solidão” (Ps. 54, 8).

Sumário. A solidão do coração consiste em só a Deus consagrarmos o nosso amor. Vê-se, portanto, que para esta solidão não se precisa de desertos nem de grutas. Os que por obrigação têm de tratar com o mundo, desde que tenham o coração livre de apegos terrestres, podem gozá-la no meio das ruas e das praças. Numa palavra, nenhuma das ocupações que têm por fim o cumprimento da vontade divina impede a solidão do coração. Devemos, por isso, elevar muitas vezes o nosso espírito a Deus, para o que serve o uso freqüente das orações jaculatórias.

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I. A solidão favorece muito o recolhimento de espírito. Observa, porém, São Gregório que pouco ou nada serve estar com o corpo num lugar deserto e ficar com o coração cheio de pensamentos e afetos mundanos. Para que uma alma pertença toda a Deus, duas coisas são precisas: primeira, desapegar o afeto de todas as criaturas, segunda, consagrar todo o amor a Deus, e é nestas duas coisas que consiste a solidade do coração.

Em primeiro lugar, portanto, é preciso desapegar o coração de todo o afeto terrestre. Dizia São Francisco de Sales: “Se eu soubesse que em meu coração havia uma fibra que não fosse de Deus, quisera logo arrancá-la”. Enquanto se não limpar e purificar o coração de todo o afeto terrestre, não pode nele entrar o amor de Deus para o possuir todo. Pelo seu amor Deus quer reinar em nosso coração, mas quer reinar ali sozinho. Não admite rivais que lhe roubem parte do afeto, que ele com justiça exige todo para si. — Certas almas queixam-se de que em todos os seus exercícios de devoção não acham Deus e não sabem que meios devam empregar para o acharem. Santa Teresa, porém, ensina-lhes o meio acertado, dizendo: Desapega teu coração de todas as criaturas, busca Deus e achá-lo-ás.

Para se separarem das criaturas e tratar somente com Deus, muitos não podem retirar-se para os desertos, conforme talvez quisessem. Compreendamos bem, que para gozarmos da solidão do coração, não são precisos desertos. Os que se virem obrigados a tratar com o mundo, desde que tenham o coração livre de apegos ao mundo, poderão possuir a solidão do coração e estar unidos com Deus até no meio das ruas, das praças e dos tribunais. — É necessário, todavia que o espírito se eleve muitas vezes a Deus, para o que serve o uso freqüente das orações jaculatórias. A respeito destas, escreve São Francisco de Sales que suprem a falta de todas as outras orações, mas que todas as outras orações não podem suprir a falta das jaculatórias. Continuar lendo

XX DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES: O FILHO DO REGULO E AS UTILIDADES DAS DOENÇAS

reguloCredidit ipse et domus eius tota — “Creu ele e toda a sua família” (Jo. 4, 53).

Sumário. Em nossas tribulações não nos é proibido pedirmos a Deus que nos livre delas; mas é necessário que nos conformemos com a sua vontade. Estejamos certos de que Deus não nos envia as cruzes para nossa perdição, mas para nossa salvação e para nos comunicar as suas graças. Vede o bom régulo de quem nos fala o Evangelho. Talvez nunca tivesse pensado em ser discípulo de Jesus Cristo; mas o Senhor atraiu-o a si por meio da enfermidade do filho, e comunica-lhe, a ele e a toda a família, o mais precioso de seus dons, a fé.

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I. Refere São João que, tendo certo régulo vindo pedir a Jesus Cristo que quisesse acompanhá-lo até a casa dele para lhe curar um filho moribundo, o Senhor lhe respondeu: Vai, teu filho está vivo. O régulo creu nesta palavra, e, voltando à casa, soube pelos seus criados que a febre deixara o filho na mesma ora em que Jesus dissera: Teu filho está vivo. Pelo que creu ele e toda a sua família: Credidit ipse et domus eius tota.

Admiremos neste trecho do Evangelho uma disposição amorosa da divina Providência, que “toca de uma extremidade à outra e dispõe todas as coisas com suavidade” (1). Aquele bom régulo talvez nunca tivesse pensado em fazer-se discípulo de Jesus Cristo; mas o Senhor atraiu-o a si por meio da doença do filho e comunica-lhe, bem com à toda a família, o mais precioso dos seus dons, que é o da fé. — É o que Deus quer fazer também a nosso respeito, quando nos envia tribulações e, em particular, a enfermidade.

Em primeiro lugar, Deus no-las envia afim de que nos emendemos de alguma falta; porquanto, na palavra de São Jerônimo, “assim como as coisas materiais são lavadas com sabão, assim as almas se purificam por meio das enfermidades e tribulações”. — Deus no-las envia também para nos consolidar mais na virtude. Por esse meio nos faz, por assim dizer, tocar com a mão a nossa fraqueza, esclarece-nos acerca da nossa vaidade e desapega-nos das coisas terrestres. — Mas, o que é mais importante, as enfermidades, ao passo que diminuem as forças do corpo, reprimem os apetites de nosso maior inimigo, a carne; ao mesmo tempo que nos recordam que a terra é para nós um lugar de desterro, fazem-nos levar uma vida digna de um cristão e estar preparados para a passagem à eternidade. Por isso é que o Eclesiástico disse: Infirmitas gravis sobriam facit animam (2) – “Uma grave enfermidade faz a alma sóbria”. Continuar lendo

DA ORAÇÃO – PONTO III

Resultado de imagem para rezando joelhosConsideremos, finalmente, as condições da oração bem feita. Muitas pessoas rezam e não alcançam nada, porque não pedem como convém (Tg 4,3). Para bem rezar é preciso, primeiro que tudo, humildade.

“Deus resiste aos soberbos, mas aos humildes dá sua graça” (Tg 4,6)

Deus não ouve as petições do soberbo; mas nunca despreza a súplica dos humildes (Ecl 35,21), ainda que anteriormente tenham sido pecadores, “Não desprezarás, Senhor, um coração contrito e humilhado” (Sl 50,19).

Em segundo lugar, é necessária a confiança. “

Ninguém esperou no Senhor e foi confundido” (Ecl 2,11)

Ensinou-nos Jesus Cristo que, ao pedirmos a Deus alguma graça, lhe demos o vocativo de Pai nosso, a fim de que lhe roguemos com aquela confiança que um filho tem ao recorrer ao seu próprio pai. Quem reza com confiança, tudo obtém. Para todas as coisas que pedirdes na oração, tende viva fé de consegui-las e vo-las serão concedidas (Mc 2,24). E quem pode ter receio, diz Santo Agostinho, de ser enganado na sua expectativa, se a promessa lhe foi feita pela própria Verdade, que é Deus? Deus não é como os homens, que, às vezes, deixam de cumprir o que prometem, ou porque mentiram quando prometeram, ou porque mudaram depois de vontade (Nm 23,19). Se o Senhor — acrescenta Santo Agostinho — não quisesse conceder-nos as suas graças, para que nos havia de exortar continuamente a pedir-lhes?. Prometendo, contraiu a obrigação de nos conceder as graças que lhe suplicarmos.

Talvez pense alguém que, por ser pecador, não merece ser atendido.

Mas responde São Tomás que a oração, por meio da qual pedimos graças, não se funda em nossos méritos, mas na misericórdia divina. Continuar lendo

TERCEIRA PALAVRA DE JESUS CRISTO NA CRUZ

CristoCrucificadoDicit matri suae: Mulier, ecce filius tuus. Deinde dicit discipulo: Ecce mater tua: — “Diz à sua mãe: Mulher, eis aí teu filho. Depois diz ao discípulo: Eis aí tua mãe” (Io. 19, 26 et 27).

Sumário: Consideremos como Jesus moribundo, volvendo-se para sua mãe, que estava ao pé da cruz e indicando-lhe pelo olhar o discípulo predileto, lhe disse: Mulher, eis aí teu filho; e depois acrescentou dirigindo-se ao discípulo: Eis aí tua mãe. E assim Maria foi constituída mãe de todos os cristãos e nós fomos feitos seus filhos. Ponhamos, portanto, na Santíssima Virgem, toda a nossa confiança e em todas as necessidades recorramos a ela por socorro. Mas, ao mesmo tempo, provemos pelas nossas obras que somos filhos dignos de seu amor.

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I. Fogem as mães da presença de seus filhos moribundos; o amor não lhes permite assistirem a tal espetáculo, verem-nos sofrer sem que lhes possam trazer alívio. A divina Mãe, porém, quanto mais o Filho estava próximo a morrer, tanto mais se aproximava da cruz. E assim como o Filho sacrificava a vida pela salvação dos homens, ela oferecia a sua dor, compartilhando com perfeita resignação todos os seus sofrimentos e opróbrios. Pelo que o Senhor, volvendo-se para São João, que estava ao lado dela, disse: Mulier, ecce filius tuus. — “Mulher, eis aí teu filho”.

Mas porque é que Jesus a chamou mulher e não mãe? Pode-se dizer que a chamou mulher, porque estava já próximo à morte e assim lhe falou para se despedir, como se dissesse: Mulher, em breve estarei morto, de modo que ficarás sem filho na terra. Deixo-te, portanto, a João, que te servirá e amará com amor de filho. A razão, porém, mais íntima, pela qual Jesus chamou Maria mulher e não mãe, é esta: quis Jesus assim patentear que é ela a grande mulher predita no livro Gênesis, a qual havia de esmagar a cabeça do orgulhoso Lúcifer.

Disse Deus á serpente: Inimicitias ponam inter semen tuum et semen mulieris (1) – “Porei inimizade entre a tua descendência e a da mulher”. Isso indicava que, depois da perdição dos homens em consequência do pecado e apesar da obra da Redenção, haveria no mundo duas famílias e duas descendências. Pela descendência do demônio é significada a família dos pecadores, pela descendência de Maria é significada a família santa que abrange todos os justos com seu chefe Jesus Cristo. De modo que a Virgem foi destinada a ser mãe tanto da cabeça como dos membros, que são os fiéis. — Queres saber se também és do número dos filhos espirituais de Maria? Examina se és animado pelo espírito de seu filho, Jesus Cristo. Continuar lendo

AS VIRTUDES DO BOM LADRÃO E A SEGUNDA PALAVRA DE JESUS NA CRUZ

ladrAmen dico tibi: Hodie mecum eris in paradiso — “Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no paraíso” (Luc. 23, 43).

Sumário. Observam os santos Padres que o Bom Ladrão, reconhecendo em Jesus crucificado o seu verdadeiro Deus, confessando-O como tal na presença de seus inimigos e recomendando-se-Lhe, deu exemplos das mais sublimes virtudes. Pelo que o Senhor lhe fez com razão a bela promessa de que naquele mesmo dia havia de gozar das delícias do paraíso. Meu irmão, o Senhor não se mudou, e, portanto, se porventura tivéssemos imitado o ladrão em seus desvarios, imitemo-lo também na sua conversão sincera a Deus e também teremos a mesma sorte feliz.

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I. Para que o nome de Jesus Cristo ficasse eternamente difamado, os judeus crucificaram-No entre dois ladrões, como usurpador sacrílego da divindade; cumprindo assim a profecia de Isaías: Et cum sceleratis reputatus est (1). — “Ele foi colocado no número dos malfeitores”. O Senhor permitiu esta malícia diabólica afim de nos dar um belo exemplo de conversão sincera e, ao mesmo tempo, uma prova exímia de sua infinita misericórdia.

Refere São Lucas que dos dois ladrões um ficou obstinado e outro se converteu. Este, vendo que seu companheiro perverso blasfemava contra o Senhor, pôs-se a repreendê-Lo dizendo que eles eram castigados conforme mereceram, mas que Jesus era inocente e não tinha feito mal algum. E depois , volvendo-se para o próprio Jesus, disse: Domine, memento mei, cum veneris in regnum tuum (2). — “Senhor, lembra-te de mim quando entrares no teu reino”. Com estas palavras, reconheceu-O por seu verdadeiro Senhor, e, segundo observa Arnoldo de Chartres, deu provas das mais belas virtudes: Ibi credit, poenitet, praedicat, amat, confidit et orat — “Ele crê, arrepende-se, prega, ama, confia e ora”.

Na cruz, o bom ladrão praticou a fé, crendo, como diz São Gregório, que Jesus Cristo, depois de morto, havia de entrar triunfante no reino de sua glória. Praticou penitência, confessando que merecia a morte e não se atrevendo, na palavra de Santo Agostinho, a esperar perdão antes da confissão de suas culpas. Pregou, exaltando a inocência de Jesus. Praticou, sobretudo, o amor para com Deus, aceitando com resignação a morte em expiação de seus pecados. Pelo que São Cipriano não hesita em chamá-lo verdadeiro mártir, batizado em seu próprio sangue. Felizes de nós, se, tendo seguido o ladrão em seus desvarios, o imitarmos também na sua conversão sincera a Deus!
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DA ORAÇÃO – PONTO II

Resultado de imagem para rezando joelhosConsideramos, além disso, a necessidade da oração. Afirma São João Crisóstomo que, assim como o corpo sem alma está morto, assim quem não reza se acha sem vida. Acrescenta ainda que tanto necessitam as planta de água para não murcharem como nós da oração para nos não perdermos. Deus quer que nos salvemos todos e que ninguém se perca (1Tm 2,4).

“Usa de paciência convosco, não querendo que nenhum pereça, mas que todos se convertam à penitência” (2Pd 3,9)

Quer, porém, que lhe peçamos as graças necessárias para nossa salvação, porque, de um lado, não podemos cumprir os preceitos divinos e salvar-nos sem o auxílio atual do Senhor e, de outro lado, Deus não nos quer dar, ordinariamente falando, essas graças, se lhes não pedirmos. Por esta razão, disse o santo Concílio de Trento que Deus não impõe preceitos impossíveis, porque, ou dá-nos a graça próxima e atual necessária para cumpri-los, ou dá-nos a graça de pedir-lhe essa graça atual. Ensina-nos Santo Agostinho que Deus, exceto as primeiras graças, tais como a vocação para a fé, ou da penitência, todas as demais e especialmente a perseverança, concede unicamente àqueles que as pedem.

Inferem daqui os teólogos, entre os quais São Basílio, Santo Agostinho, São João Crisóstomo, São Clemente de Alexandria e muitos outros, que a oração é necessária para os adultos, como necessidade de meio. Portanto, sem rezar, não é possível salvar-se. E isto, diz o doutíssimo Léssio, se deve considerar artigo de fé.

Os testemunhos da Sagrada Escritura são concludentes e numerosos:

“É preciso orar sempre. Orai, para não caírdes em tentação. Pedi e recebereis. Orai sem cessar” Continuar lendo

JESUS NO SANTÍSSIMO SACRAMENTO, MODELO DE VIRTUDE

santQui appropinquant pedibus eius, accipient de doctrina illius — “Os que chegam a seus pés, receberão da sua doutrina” (Deut. 33, 3).

Sumário. Para a nossa salvação, é mister que no dia do juízo a nossa vida se ache conforme à de Jesus Cristo. Esforcemo-nos, pois, por imitar os exemplos luminosos de virtude que Ele nos dá continuamente no Santíssimo Sacramento da Eucaristia: a sua humildade profunda, a sua mansidão inalterável, aceitando de boa vontade o que Deus manda. Para suprirmos ao que nos falta, ofereçamos a Deus muitas vezes, e particularmente na missa, os merecimentos do divino Redentor.

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I. Consideremos os belos exemplos de virtude que nos dá Jesus Cristo na Santíssima Eucaristia. Inefável é a suapaciência. Ele vê que a maior parte dos homens não O adora neste sacramento, nem O quer reconhecer pelo que é. Já antes da instituição sabia que muitas vezes os homens chegariam a calcar aos pés as hóstias consagradas e a atirá-las sobre a terra, à água e ao fogo.

Mas o que mais Lhe amargura o coração tão sensível, é o ver que também a maior parte dos que n’Ele crêem, em vez de repararem tantos ultrajes pelos seus obséquios, ou vão à Igreja para o ofenderem pela sua irreverência, ou o deixam abandonado sobre os altares, desprovidos às vezes de lâmpada e dos ornamentos necessários. Tudo isso Jesus, escondido sob as espécies eucarísticas, o vê e sabe, e todavia sofre-o com paciência e fica calado. Oh, que exprobração de nossa loquacidade nos momentos de ira!

É igual à humildade de Jesus, pois que em nenhuma obra de seu divino amor se ocultou tanto como no mistério do Santíssimo Sacramento. Para nos inspirar confiança, e ao mesmo tempo, para nos dar um remédio de nosso orgulho, chegou a ocultar a sua Majestade, a esconder as suas grandezas, a consumir e aniquilar a sua vida divina. Pode, portanto, com razão dizer-nos de dentro do tabernáculo: Discite a me, quia mitis sum et humilis corde (1) — “Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração”. Continuar lendo

ENTRADA DA ALMA NO CÉU

entradaLaetatus sum in his, quae dicta sunt mihi: in domum Domini ibimus – “Eu me alegrei no que me foi dito: iremos à casa do Senhor (Ps 121,1)

Sumário. Imaginemos ver uma alma que faz a sua primeira entrada no céu. Ó Deus! Qual será a sua consolação ao entrar pela primeira vez nessa pátria bem aventurada, ao ver os parentes e amigo, os Anjos e os Santos; ao beijar os pés de Maria Santíssima, ao receber os amplexos de Jesus Cristo; ao ser abençoada pelo Pai celestial. Pois bem, é um ponto de nossa fé que gozaremos igual consolação, contanto que vivamos bem, ao menos durante o tempo que ainda nos resta. Ó dulcíssima esperança, tu nos deves confortar no meio das nossas mais duras tribulações.

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I – Oh Deus! Que dirá a alma ao entrar no reino bem-aventurado do Céu? Imaginemos ver morrer essa virgem, esse jovem, que, tendo-se consagrado ao amor de Jesus Cristo, e, chegada a hora da morte, vai deixar esta terra. Sua alma apresenta-se para ser julgada; o Juiz acolhe-a com bondade e lhe declara que está salva. O seu Anjo da guarda vem ao seu encontro e mostra-se todo contente; ela lhe agradece toda a assistência recebida, e o anjo responde-lhe: Alegra-te, alma formosa; já estás salva; vem contemplar a face do teu Senhor.

Eis que a alma se eleva acima das nuvens, acima do firmamento e de todas as estrelas: entra no Céu. Que dirá ao penetrar pela primeira vez nessa pátria bem-aventurada, ao lançar o primeiro olhar sobre essa cidade de delícias? Os Anjos e os Santos saem-lhe ao encontro e lhe dão, jubilosos, as boas vindas. Que consolação experimentará ao encontrar ali os parentes e amigos que a precederam, e os seus gloriosos protetores! A alma quererá prostrar-se diante deles; mas os Santos lhe dirão: Guarda-te de o fazer; porque somos servos como tu: “Vide ne feceris; conservus tuus sum”.

Ela irá depois beijar os pés de Maria, a Rainha do paraíso. Que ternura não experimentará ao ver pela primeira vez essa divina Mãe, que tanto a ajudou a salvar-se! Então a alma verá todas as graças que Maria lhe alcançou. A Rainha celestial abraça-a amorosamente e a conduz a Jesus que a acolhe como esposa e lhe diz: “Veni de Libano, sponsa mea; veni, coronaberis” (“Vem do Líbano, esposa minha; vem, serás coroada”). Regozija-te, esposa querida, passaram já as lágrimas, as penas, os temores: recebe a coroa eterna que te alcancei a preço de meu sangue. Ah, meu Jesus! Quando chegará o dia em que eu também ouvirei de tua boca estas doces palavras? Continuar lendo

DA ORAÇÃO – PONTO I

Resultado de imagem para rezando joelhosPetite et dabitur vobis… omnis enim qui petit, accipit – “Pedi e dar-se-vos-á… porque todo aquele que pede receberá” (Lc 9, 9-10)

Não é só num, mas em muitos lugares do Antigo e Novo Testamento que Deus promete atender aos que se recomendam a ele.

“Clama a mim e ouvir-te-ei” (Jr 33,3)
“Invoca-me… e livrar-te-ei” (Sl 49,15)
“Se pedirdes alguma coisa em meu nome, vô-la será concedida” (Jo 14,4)

Pedireis o que quiserdes e se vos outorgará (Jo 15,7). E assim outros textos semelhantes. Verdade é que a oração é uma, diz Teodoreto; mas ela nos pode alcançar tudo; pois, segundo afirma São Bernardo, o Senhor nos dá, ou a graça que pedirmos, ou outra que julga nos ser mais útil. Por essa razão, o Profeta nos incita a rezar, afiançando-nos que Deus é todo misericórdia para aqueles que o invocam e recorrem a ele (Sl 85,5). Com mais eficácia, nos exorta o apóstolo São Tiago, dizendo que, quando rogamos a Deus, este nos concede mais do que se lhe pede, sem vingar-se das ofensas que lhe causamos (Tg 1,5). Ao ouvir nossas orações, parece esquecer nossas culpas.

Diz São João Clímaco que a oração comove de algum modo a Deus e o obriga a conceder-nos o que lhe pedimos. É violência — escreve Tertuliano — mas violência que agrada ao Senhor e que a deseja de nós, pois, segundo diz Santo Agostinho, maiores desejos tem Deus de prodigalizar-nos os seus bens do que nós de recebê-los, porque Deus, por sua natureza, é a bondade infinita, conforme observa São Leão e se compraz sempre em comunicar-nos os seus bens. Disse Santa Maria Madalena de Pazzi que Deus contrai, de certo modo, obrigações com a alma que o implora, porque ela mesma oferece oportunidade ao Senhor de satisfazer o seu desejo de conceder-nos suas graças e seus favores. David afirmou que esta bondade do Senhor em ouvir-nos, quando lhe dirigimos as nossas súplicas, demonstrava-lhe que ele era o verdadeiro Deus (Sl 55,10). Adverte São Bernardo, que muitos se queixam de que Deus não lhes é propício; com maior razão se lamenta o Senhor de que muitos o ofendem e deixam de recorrer a ele para lhe pedir graças. Nosso Redentor disse, por isso, a seus discípulos: “Até agora nada pedistes em meu nome. Pedi e recebereis, a fim de que vosso gozo seja completo” (Jo 16,24); ou seja: “não vos queixeis de mim, se não tendes sido completamente felizes; queixai-vos de vós mesmos que não me pedistes as graças que vos tenho preparado. Pedi, pois, e sereis satisfeitos”. Continuar lendo

A VIDA PRESENTE É UMA VIAGEM PARA A ETERNIDADE

abcNon enim habemus hic manentem civitatem, sed futuram inquirimus — “Não temos aqui cidade permanente, mas procuramos a futura” (Hebr. 13, 14)

Sumário. Vendo tantos ímpios em prosperidade e tantos justos em tribulação, os próprios pagãos, guiados pela luz da razão, reconheceram que a terra não é nossa pátria, mas somente um lugar de passagem e de merecimento. Quão insensatos, pois, somos, se, sendo cristãos e crendo as verdades da fé, nos afeiçoamos aos bens deste mundo, do qual teremos de sair um dia e, entretanto, nos descuidamos de construir com as boas obras uma morada no outro mundo, onde ficaremos por toda a eternidade!

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I. Vendo que nesta terra tantos ímpios vivem em prosperidade, e tantos justos, ao contrário, em tribulação, os próprios pagão, iluminados unicamente pela luz natural, reconheceram esta verdade que, dada a existência de Deus e sendo Deus justo, deve haver outra vida, onde os maus sejam castigados e os justos recebam o prêmio. Ora, o que os pagãos admitiram, seguindo unicamente a luz da razão, nós, os cristão, reconhecemo-lo pela fé: “Não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a futura.” A terra não é nossa pátria, é apenas um lugar de passagem, por onde, em pouco tempo, nos devemos dirigir à morada da eternidade:Ibit homo in domum aeternitatis suae(1) — “O homem irá à casa de sua eternidade”.

Assim, meu irmão, a casa que habitas não é tua morada; é uma hospedaria, de onde bem cedo e quando menos o imaginares, terá de sair. Sabe que, chegada a hora de tua morte, teus amigos mais caros serão os primeiros a expulsar-te. E qual então será a tua morada? Uma cova será a casa de teu corpo até o dia do juízo; e tua alma irá à casa da eternidade, quer no céu, quer no inferno.

Daí o conselho de Santo Agostinho: Hospes es, transis et vides — “És hóspede; vais passando e vês”. Bem louco seria o viajante que, achando-se de passagem num país, nele gastasse todo o seu patrimônio na compra de uma quinta ou casa, que dentro de breves dias teria de abandonar. Lembra-te, portanto, diz o Santo, que não és neste mundo senão um passageiro; não te afeiçoes ao que vês. Vê e passa; procura uma boa casa na qual terá de morar para sempre. — Se te salvares, feliz de ti! Que bela habitação não é o paraíso! Os mais belos palácios dos monarcas não passam de currais em comparação da cidade celeste, única que se possa chamar toda bela:Urbs perfecti decoris (2) — “Cidade de beleza perfeita”. Pelo contrário, ai de ti se te condenares! Estarias abismado num mar de fogo e de tormentos, desesperado, abandonado de todos e sem Deus. E por quanto tempo? Por toda a eternidade! Continuar lendo

DO AMOR À SOLIDÃO

solidDucam eam in solitudinem, et loquar ad cor eius — “Eu a levarei à solidão e lhe falarei ao coração” (Os. 2, 14).

Sumário. Deus não costuma geralmente falar-nos no meio dos tumultos e negócios mundanos, pelo receio de não ser entendido. Quando quer elevar uma alma a um grau eminente de perfeição, excita-a a que se retire para algum lugar solitário, longe da conversação com as criaturas. Ali é que lhes fala ao coração, as ilumina e abrasa em seu amor divino. Se quisermos, pois, ouvir a voz de Deus, amemos a solidão e procuremos, o mais possível, ter vida retirada afim de tratarmos a sós com Deus.

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I. Deus não se deixa achar nos tumultos do mundo, pelo que os santos procuravam os desertos mais horrendos, as espeluncas mais ocultas, afim de se subtraírem à sociedade dos homens e conversarem a sós com Deus. São Hilarion mudou repetidas vezes de um deserto para outro, sempre em busca do mais solitário, onde não encontrasse pessoa alguma com quem conversar e finalmente morreu num deserto de Chipre, depois de ter vivido ali cinco anos. Quando São Bruno foi chamado pelo Senhor a deixar o mundo, foi, com seus companheiros, ter com São Hugo, bispo de Grenoble, afim de que lhes assinasse em sua diocese um lugar deserto; e São Hugo indicou-lhes a Cartucha, que pela sua atrocidade antes era própria para antro de feras do que para morada de homens.

Certo dia, disse o Senhor à Santa Teresa: “Eu quisera falar a muitas almas; mas o mundo faz tanto tumulto em seu coração, que minha voz não pode ser ouvida.” Deus não fala no meio dos rumores e negócios do mundo, cuidando que, se falasse, não seria ouvido. A voz de Deus são as inspirações santas, as luzes e os convites, com que ilumina os santos e os inflama no amor divino; mas quem não ama a solidão, fica privado desta voz divina.

Deus diz: “Eu a levarei à solidão e lhe falarei ao coração.” Quando Deus quer elevar uma alma a um grau eminente de perfeição, inspira-lhe a idéia de se retirar para algum lugar solitário, e ali, longe das conversações com as criaturas, fala-lhe aos ouvidos, não do corpo, mas do coração, e assim a ilumina e a abrasa em seu divino amor. Pelo que São Bernardo dizia que tinha aprendido a amar a Deus muito mais nos bosques, entre os carvalhos e as faias, do que nos livros e no trato com os servos de Deus. — E São Jerônimo, que deixou as delícias de Roma para se encerrar na Gruta de Belém, exclamava: “Ó solidão bem aventurada, na qual o Senhor trata familiarmente com as almas suas diletas e lhes faz ouvir essas palavras que liquefazem os corações no santo amor!” Continuar lendo

XIX DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES: A PARÁBOLA DO BANQUETE NUPCIAL E A IGREJA CATÓLICA

Simile factum est regnum caelorum homini regi, qui fecit nuptias filio suo — “O reino dos céus é semelhante a um rei que fez núpcias para seu filho” (Matth. 22, 2).

Sumário. Pelo banquete do qual fala o Evangelho de hoje, entende-se a doutrina católica, os sacramentos e a abundância das graças celestiais. Como filhos da Igreja católica, somos do número dos convidados, e portanto, agradeçamos sempre a Jesus Cristo tão grande favor que nos foi concedido com preferência a tantos outros. Cuidemos, porém, que estejamos vestidos da veste nupcial, isto é, da graça santificante, afim de não sermos, cedo ou tarde, lançados às trevas exteriores, no inferno. Quantos cristãos não se perdem, porque as obras não respondem à fé que professam!

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I. “O reino dos céus, diz Jesus Cristo, “é semelhante a um rei que fez núpcias para o seu filho, e mandou seus servos chamarem os convidados para as bodas. Mas eles desprezaram o convite, e lá se foram, um para sua casa de campo, outro para o seu negócio. Os outros prenderam os servos que enviara, e, depois de os cobrirem de ultrajes, mataram-nos. Mas o rei, tendo ouvido isto, ficou indignado, e enviando os seus exércitos, exterminou aqueles homicidas, e pôs fogo à sua cidade. Disse então aos seus servos: As bodas estão preparadas; mas os que haviam sido convidados não foram dignos. Ide, pois, às embocaduras das estradas, e a quantos encontrardes, convidai-os para as bodas. E, tendo sabido os seus servos pelas ruas, reuniram todos os que encontraram, bons e maus, e a mesa do banquete ficou cheia de convidados: “Et impletae sunt nuptiae discumbentium.

Segundo a interpretação dos doutores, o rei da presente parábola é o Pai Eterno; o esposo é seu Filho Jesus Cristo; a e a esposa, a Igreja Católica. Pelo banquete nupcial entendem-se a doutrina evangélica, os santos sacramentos e a abundância de todas as graças celestiais. Para este banquete místico fez o Senhor convidar primeiramente os Hebreus, por meio dos profetas e dos apóstolos. Mas, eles, desprezando o convite, maltrataram e mataram os ministros de Deus, e por isso foram expulsos e pereceram na destruição de Jerusalém. E em lugar dos Hebreus foram chamados os gentios, que andavam no caminho largo que leva ao inferno.

Meu irmão, também tu, descendente de antepassados pagãos e sem algum merecimento próprio, pertences ao número destes felizes convidados. Considera, portanto, atentamente o amor especial que Deus te mostrou, agradece-lhe e repara como até agora lhe tens correspondido. Oh! Quantos se tornariam santos, e grandes santos, se lhes tivesse sido dada a mesma abundância de recursos espirituais como a ti! Ao passo que tu há muitos anos talvez estais dormindo na tibieza, e sabe lá Deus se talvez no pecado! Continuar lendo

MARIA SANTÍSSIMA, MODELO DA VIDA SOLITÁRIA E RECOLHIDA

mariaQuae est ista, quae ascendit de deserto… innixa super dilectum suum? — “Quem é esta que sobe do deserto… firmada sobre o seu amado?” (Cant. 8, 5).

Sumário. A Santíssima Virgem amava tanto a solidão, que, sendo ainda criança de três anos apenas, deixou seus pais e foi encerrar-se no templo. Imagina, pois, a que grau de recolhimento e de união com Deus deve ela ter chegado quando, feita Mãe de Deus, teve a sorte feliz de viver tantos anos com Jesus Cristo. Se aspiras a honra de ser filho de Maria, aplica-te com todo o cuidado a sua imitação, levando uma vida solitária e retirada. Por isso, ama o silêncio, conserva-te sempre na presença de Deus, e volve-te muitas vezes a Ele por meio de fervorosas orações jaculatórias.

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I. No tempo do dilúvio, o corvo mandado por Noé fora da arca ficou a comer os cadáveres; mas a pomba, sem pousar em parte alguma, voltou prestes ao ponto de onde partira. Assim, muitos, mandados por Deus a este mundo se detém infelizmente a gozar dos bens terrestres. Não assim a nossa pomba celeste, Maria. Conheceu que o nosso bem, a nossa única esperança deve ser Deus; conheceu que o mundo é cheio de perigos e que aquele que mais cedo o deixa é mais livre dos seus laços. Por esta razão, como afirmam São Germano e Santo Epifânio, a Santíssima Virgem, apenas chegada à idade de três anos, idade em que as crianças desejam mais vivamente a convivência com seus pais, foi encerrar-se no templo, onde melhor pudesse ouvir a voz de seu Deus e, melhor ainda, honrá-Lo e amá-Lo.

Diz Santo Anselmo que, enquanto a Bem-aventurada Virgem vivia no templo, “era dócil, falava pouco, estava sempre recolhida, sempre séria e sem se perturbar. Era, além disso, constante na oração, na leitura da Sagrada Escritura, nos jejuns e em todas as obras de virtude”. Era tão amante do silêncio, que, como ela mesma revelou à Santa Brígida, se abstinha de falar até com os próprios pais.

Não são menos belos os exemplos de recolhimento que a Virgem nos deu, depois de se desposar com o castíssimo São José. Conforme diz São Vicente Ferrer: “Maria não saía de casa senão para ir ao templo; e mesmo então, ia toda recolhida e com os olhos baixos.” Eis porque São Lucas observa que na visita a Santa Isabel: Abiit in montana cum festinatione (1) — “Ela foi com presteza às montanhas”, para ser menos vista em público e fugir o mais possível da sociedade dos homens. Continuar lendo

PRIMEIRA PALAVRA DE JESUS CRISTO NA CRUZ

Resultado de imagem para jesus crucificadoPater, dimitte illis: non enim sciunt quid faciunt — “Pai, perdoai-lhes; pois não sabem o que fazem” (Luc. 23, 34).

Sumário: Ó ternura do amor de Jesus! Os judeus, depois de O pregarem na cruz, injuriam-No e prorrompem em blasfêmias. Ao mesmo tempo, Jesus, movido pelo desejo de salvar a todos, volve-se ao Pai Eterno, roga-Lhe pelos que O crucificaram e procura desculpar o crime. Meu irmão, se pelos nossos pecados temos renovado a crucifixão do Senhor, não desanimemos; porque Jesus nos abrangeu também em sua oração. É, porém, necessário que Lhe imitemos o exemplo, perdoando a nossos inimigos e dando o bem pelo mal.

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I. Ó ternura do amor de Jesus Cristo para com os homens! Os judeus, depois de O pregarem na cruz, injuriam-No, insultam-No e prorrompem em blasfêmias; e Jesus, entretanto, que faz? Jesus, diz Santo Agostinho, não cuida tanto nos ultrajes que recebe da parte daquele povo, como no amor que O faz morrer para o salvar; e por isso, ao mesmo tempo que é injuriado pelos seus inimigos, volve-se ao Eterno Pai, pede perdão para eles e procura desculpar o crime nefando pela ignorância: Pai, perdoai-lhes; porque não sabem o quer fazem.

“Ó maravilha!” exclama São Bernardo; “Jesus Cristo pede perdão e os judeus gritam crucifige— crucifica-O.” E São Cipriano acrescenta: Vivificatur Christi sanguine qui effudit sanguinem Christi — “Recebem a vida pelo sangue de Cristo, aqueles mesmos que derramaram o sangue de Cristo”. Na sua morte, tinha o Senhor tamanho desejo de salvar a todos, que não deixa de fazer participar dos méritos de seu sangue àqueles mesmos que Lho extraem das veias à força de tormentos. Numa palavra, como diz Arnoldo de Chartres, ao passo que os judeus trabalham para se condenarem, Jesus Cristo se empenha em os salvar.

E não ficaram improfícuos os seus empenhos; pelo que, sendo mais poderosa para com Deus a caridade do Filho, do que a cegueira daquele povo ingrato, a oração de Nosso Senhor moribundo fez, como escreve São Jerônimo, que no mesmo momento muitos judeus abraçassem a fé; e, na opinião de São Leão, os milhares de judeus que se converteram pela pregação de São Pedro, foram o fruto da oração de Jesus Cristo.
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DA COMUNHÃO ESPIRITUAL

comunOs meum aperui, et attraxi spiritum — “Abri a minha boca, e atraí o alento” (Ps. 118, 131).

Sumário. A comunhão espiritual consiste num desejo ardente de receber Jesus sacramentalmente e num amoroso amplexo, como se fosse recebido realmente. Esta devoção é um meio eficacíssimo para chegar à perfeição e ao mesmo tempo é uma devoção facílima, porque pode ser praticada todos os dias, por todos, e quantas vezes se quiser, sem ser vista ou observada por pessoa alguma. Pratica-a, pois, com frequência, em particular, na oração mental, na visita ao Santíssimo Sacramento e na assistência à Missa à hora da comunhão do sacerdote.

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I. Segundo Santo Tomás, a comunhão espiritual consiste num desejo ardente de receber Jesus Cristo sacramentalmente e num amplexo amoroso, como se já fora recebido. O santo Concílio de Trento louva muito a comunhão espiritual e convida todos os fiéis a que a ponham em prática. E Deus mesmo, repetidas vezes, tem dado a entender às almas devotas quanto Lhe agrada esta devoção.

Um dia apareceu Jesus a Soror Paula Maresca, fundadora do convento de Santa Catarina de Sena em Nápoles, e mostrou-lhe dois vasos preciosos, um de ouro e outro de prata, dizendo-lhe que o no primeiro guardava as suas comunhões sacramentais e no segundo as espirituais. Em outra ocasião disse o Senhor também à Venerável Joana da Cruz que, sempre que comungava espiritualmente, concedia-lhe uma graça semelhante à que lhe dava na comunhão sacramental. — Mais tocante é o que um autor fidedigno (1) refere de outro servo de Deus. Quando este fazia na missa a comunhão espiritual, sentira a partícula consagrada levar-se-lhe aos lábios e experimentava na alma uma doçura indizível, querendo o Senhor recompensar desta forma o desejo de seu bom Servo.

Por isso todas as almas devotas costumam praticar com frequência o santo exercício da comunhão espiritual. A Bem-aventurada Angela da Cruz, dominicana, chegou a dizer que, se o confessor não lhe tivesse ensinado este modo de comungar, não teria podido viver. Fazia cem comunhões espirituais durante o dia, e outras cem durante a noite. Nem é de admirar, pois que este modo de comungar, sobre ser uma devoção muito proveitosa, é também facílimo e pode ser praticado cada dia por todos, e quantas vezes se quiser. — A já mencionada Joana da Cruz exclamava: “Ó meu Senhor, que bela maneira de comungar é essa! Sem ser vista por ninguém, sem ter de dar conta a meu diretor espiritual, sem dependência de ninguém senão de Vós, que alimentais minha alma na solidão e lhe falais ao coração!” Continuar lendo

A MORTE DO JUSTO É A ENTRADA NA VIDA

morte_del_giusto_gHaec porta Domini, iusti intrabunt in eam — “Esta é a porta do Senhor, os justos entrarão por ela” (Ps. 117, 20).

Sumário. A morte, considerada segundo os sentidos, causa pavor e temor, mas considerada segundo a fé, é consoladora e desejável; porque é a porta da vida, pela qual forçosamente deve passar quem quiser entrar no gozo de Deus. Tal é a graça que Jesus Cristo nos alcançou pela sua morte. Pelo que os santos, enquanto estavam na terra, não desejavam senão sair do cárcere do miserável corpo e entrar no reino celestial. Se nós temos tamanho horror à morte, é porque amamos pouco ao Senhor.

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I. A morte, considerada segundo os sentidos, causa pavor e temor; mas considerada segundo a fé, é consoladora e desejável; porque, como observa São Bernardo, não só é o fim dos trabalhos e o remate da vitória, como também a porta da vida, pela qual deve passar forçosamente quem quiser entrar no gozo e contemplação de Deus: “Esta é a porta do Senhor, os justos entrarão por ela.” — São Jerônimo chamava a morte e lhe dizia: Aperi mihi, soror mea — “Ó morte, minha irmã, se me não abres a porta, não poderei entrar no gozo de meu Senhor”. São Carlos Borromeu, vendo em sua casa um quadro que representava um esqueleto com uma foice na mão, mandou chamar um pintor e ordenou-lhe que apagasse a foice e a substituísse por uma chave de ouro. Queria por este meio inflamar-se mais e mais no desejo da morte, porque é a morte que nos deve abrir o paraíso.

Se um rei, diz São João Crisóstomo, tivesse preparado para alguém uma habitação na sua própria morada e no entretanto o deixasse viver num curral, quanto não deveria esse homem desejar sair do curral para passar ao palácio régio? A alma nesta vida vive no corpo como numa prisão, de onde deve sair um dia para entrar no palácio do céu. É por isso que Davi orava assim: Educ de custodia animam meam (1) — “Livrai a minha alma de sua prisão”. E o santo velho Simeão, quando tinha nos braços o menino Jesus, não lhe soube pedir outra coisa senão a morte, para se ver livre das cadeias da vida presente. Nunc dimittis servum tuum, Domine (2) – “Agora, deixas ir o teu servo”. “Pede que o deixem ir”, diz Santo Ambrósio, “como se fosse retido.”

Qual não foi a alegria do copeiro de Faraó, quando soube por José que dentro em pouco devia sair da prisão e voltar a ocupar o seu posto! E não se regozijará uma alma que ama a Deus, sabendo que dentro em breve vai ser livre da prisão deste mundo e entrar na posse de Deus? É, pois, com razão que a morte dos santos se chama o seu nascimento; visto que pela morte nascem para a vida bem aventurada que nunca terá fim. Continuar lendo

DA VIDA RETIRADA

d9992f7095b6_casperdavidfriedrichVenite seorsum in desertum locum, et requiescite pusillum — “Vinde à parte a um lugar solitário e descansai um pouco” (Marc. 6, 31).

Sumário. Todas as almas que amam o Senhor acham o seu paraíso na vida retirada. Ademais, sabemos que Jesus Cristo quis que, depois dos trabalhos do apostolado, seus discípulos se retirassem para um lugar solitário afim de conversarem só com Deus. Devemos portanto concluir que o retiro para a solidão, feito de tempos a tempos, é necessário a todos, mas em particular aos operários sagrados, afim de conservarem o recolhimento e refazerem as forças para novos trabalhos na conquista das almas. Sem esse retiro, serão poucos os frutos de seus trabalhos apostólicos.

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I. As almas que amam a Deus acham o seu paraíso na vida retirada longe do trato com os homens. A sua conversação (isto é, a conversação com Deus), longe das criaturas, nada tem de desagradável, mas alegria e gozo (1). — Os mundanos têm motivos para fugirem da solidão, porque na solidão, onde não os absorvem os divertimentos ou ocupações terrenas, mais vivamente se fazem sentir em seus corações os remorsos da consciência. Eis porque procuram alívio ou pelo menos distração na conversação com os homens; mas quanto mais procuram alívio entre os homens ou nos negócios mundanos, tanto mais acham espinhos e amarguras.

O mesmo não sucede às almas amantes de Deus, porque na solidão acham um doce companheiro, que as consola e regozija mais do que a companhia de todos os parentes ou amigos e mesmo dos primeiros personagens do mundo. Diz São Bernardo: Nunquam minus solus, quam cum solus — “Nunca me vejo menos só do que quando estou só e longe dos homens; porque então acho Deus que fala comigo e eu por minha vez estou mais atento em ouvi-Lo e mais disposto a unir-me a Ele.” Continuar lendo

DO NEGÓCIO DA ETERNA SALVAÇÃO

cruzRogamos autem vos, fratres… ut vestrum negotium agatis — “Nós vos rogamos, irmãos… que trateis de vosso negócio” (I Thess. 4, 10 et 11).

Sumário. O negócio da nossa eterna salvação é para nós não só o negócio mais importante, mas o único que nos deva preocupar; porque, se o errarmos uma vez, está tudo perdido e perdido para sempre. Mas ó maravilha, todos os que possuem a fé reconhecem que é assim e, contudo, entre os cristãos são poucos os que tratam seriamente de um negócio tão importante. Ponhamos a mão na consciência e se por ventura sejamos do número desses descuidados, resolvamos emendar-nos depressa, custe o que custar.

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I. O negócio da nossa salvação eterna não só é para nós o mais importante, mas o único que nos deve preocupar; porque, se o errarmos, está perdido tudo. O pensamento da eternidade bem meditado basta para fazer um santo. O servo de Deus P. Vicente Carafa dizia que, se todos os homens se lembrassem, com viva fé, da eternidade da vida futura, a terra se tornaria um deserto; pois que ninguém se ocuparia ainda com os negócios da vida presente.

Oh! Se todos tivessem sempre diante dos olhos a grande máxima ensinada por Jesus Cristo: “De que serve ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua alma?” (1). Foi esta a máxima que levou tantos homens a deixarem o mundo; tantas virgens nobres e até de sangue real, a se encerrarem num convento; tantos anacoretas a irem viver nos desertos; e tantos mártires a darem a vida pela fé. Lembravam-se de que, se perdessem a alma, todos os bens deste mundo de nada lhes poderiam servir na vida eterna. — Eis porque o Apóstolo escreveu a seus discípulos: “Nós vos rogamos, meus irmãos…, que trateis de vosso negócio.” (2) De que negócio é que falava o Apóstolo? Falava daquele negócio cuja perda acarreta a perda do reino eterno do paraíso e o ser lançado num abismo de tormentos que nunca jamais terão fim.

Tinha, pois, razão São Filipe Neri em chamar de loucos a todos aqueles que nesta vida só cuidam de riquezas e dignidades e pouco se importam com a salvação da alma. Todos eles, dizia o Bem aventurado João de Ávila, mereceriam ser encerrados num hospício de alienados: Como? (quis dizer o Bem-aventurado) Vós credes que há uma eternidade de penas para os que O ofendem; e apesar disso ainda o ofendeis? Continuar lendo

XVIII OITAVO DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES: A CURA DO PARALÍTICO E A CAUSA DAS TRIBULAÇÕES

Curacin_del_paraltico_Murillo_1670Confide, fili: remittuntur tibi peccata tua — “Filho, tem confiança, perdoados te são os pecados” (Matth. 9, 2).

Sumário. De ordinário, a causa de todas as tribulações, e especialmente das enfermidades, são os pecados. Eis porque o Senhor, como refere o Evangelho, antes de restituir ao paralítico a saúde do corpo, lhe restituiu a da alma, concedendo-lhe o perdão dos pecados. Portanto, se quisermos que Deus nos livre das aflições que nos oprimem, arranquemos primeiro a raiz, isto é, o pecado. Aconselhemo-lo igualmente a nosso próximo em suas tribulações.

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I. Quando alguém ofende a Deus, provoca todas as criaturas a castigarem-no, e especialmente aqueles de que abusa para ofender o Criador. Sucede então o mesmo, diz Santo Anselmo, que quando um escravo se revolta contra seu senhor: excita a indignação não só de seu senhor, como também de toda a família. – Deus, porém, sendo um Senhor de infinita misericórdia, contém as criaturas afim de que não castiguem o réu; mas quando vê que este não faz caso das ameaças, serve-se delas então para se desafrontar. De modo que, de ordinário, a causa de todas as tribulações e especialmente das enfermidades corporais, são os pecados: Qui delinquit, incidet in manus medici (1) — “Aquele que peca, virá a cair nas mãos do médico”.

Esta verdade nos é revelada com bastante clareza no fato do Evangelho de hoje. Um paralítico pediu a Jesus Cristo a saúde, e Jesus, antes de curar corporalmente, curou-lhe a alma dizendo: “Filho, tem confiança; perdoados te são os pecados.” Porque é que Jesus procedeu assim? Responde Santo Tomás: Porque o Senhor, como bom médico, quis primeiro arrancar a causa da enfermidade que eram os pecados, e depois tirar a própria enfermidade, que era efeito deles. É este também o motivo porque o Senhor, depois de curar aquele outro enfermo na piscina de Bethsaida, o qual estivera doente por trinta e oito anos, o exortou a não pecar mais, afim de que não lhe acontecesse coisa pior. Ne deterius tibi aliquid contingat. (2)

Escuta, pois, meu irmão, o belo conselho que te dá o Espírito Santo, para quando tu também estiveres oprimido pelas tribulações: “Filho, em tua enfermidade (e o mesmo se diga de qualquer tribulação) faze oração ao Senhor e Ele te curará. Aparta-te do pecado, endireita as tuas ações, purifica o teu coração de todo o delito,… e depois dá lugar ao médico.” (3) Continuar lendo