A CIDADE DA GRAÇA CRISTÃ – PELO PE. CALMEL

50 ANOS DA DECLARAÇÃO DO PE. CALMEL | DOMINUS EST

Retirado do livro: Les Mystères du royaume de la Grâce, Pe. Calmel – Tradução: Dominus Est

Sob mais de um aspecto, a Igreja de Deus pode ser definida como a cidade da graça cristã. Primeiro, no sentido óbvio de que o autor e dispensador de toda a graça, o próprio Jesus, permaneceu presente em sua Igreja por meio da Eucaristia; Ele está presente está alí em virtude de uma presença que não é diminuída e nem atenuada. Jesus em pessoa reside sempre em Sua Igreja, tão realmente presente quanto está presente à direita do Pai, tão realmente imolado quanto no Calvário, embora a presença e a imolação se realizem de modo sacramental. O autor da graça está para sempre presente em sua Igreja, não cessando de alcançá-la por contato sacramental e de cumulá-la de graças. Ele faz isso por meio de seus ministros, em virtude de poderes hierárquicos sobrenaturais, de sorte que a Igreja é constituída ao mesmo tempo como verdadeira cidade e como cidade santa.

A Igreja é ainda cidade da graça, no sentido de que a função própria e reservada dessa sociedade é de ordem sobrenatural; os poderes indestrutíveis conferidos à sua hierarquia asseguram, com a assistência indefectível do Espírito Santo, dois grandes tipos de função: por um lado, manter intacta e explicar a revelação definitiva dada por Nosso Senhor em vista de nossa salvação, de nossa vida segundo a graça; por outro lado, conferir os sacramentos, que são os sinais eficazes da graça, que nos configuram a Jesus Cristo e, ao menos para três deles, nos marcam com um caráter.

De um terceiro ponto de vista, a Igreja pode ser chamada a cidade da graça cristã porque, em virtude da caridade que não cessa de ser derramada em seu coração, em particular por meio dos sacramentos, a Igreja é o templo do Espírito Santo, que permanece nela por inabitação de graça e de amor.

Assim, quer se considere a Igreja como mediadora da verdade e da vida divinas, quer como morada de Deus, sob esses dois aspectos ela é um mistério intrinsecamente sobrenatural. Ela se apresenta como uma sociedade hierárquica e ordenada que transcende as sociedades terrenas e as pátrias deste mundo. Ela as transcende, mas também as purifica e transforma; nada mais deseja do que despertá-las para a ordem temporal cristã, elevá-las ao nível de sociedades cristãs, de cristandades.

O que importa compreender bem em todos os tempos, mas ainda mais nesta hora de trevas em que o modernismo trabalha para dissolver a Igreja por dentro, é que as duas grandezas essenciais da Igreja — morada de Deus, mediadora da salvação — são, aqui embaixo, necessariamente inseparáveis. Sem dúvida, quando a Igreja, tendo alcançado seu Esposo na visão beatífica, tendo passado toda inteira deste mundo para o Pai (Jo. 13, 1), se tiver tornado enfim toda inteira gloriosa, sem dúvida então será a Jerusalém unicamente triunfante; deixará de cumprir sua função de mediação. Como seria ainda mediadora da verdade, se veremos face a face? Ou mediadora da vida divina, se possuiremos sem necessidade de sinais sacramentais? Ou mediadora de um sacrifício propiciatório e suplicante, visto que já não haverá pecado a reparar e seremos consumados no puro amor? A grandeza que faz da Igreja morada de Deus dura por toda a eternidade; a grandeza que faz da Igreja mediadora da salvação não dura mais do que o tempo. Permanece, porém, que, sobre esta terra, até o fim da peregrinação terrestre dos filhos de Adão, até o termo das gerações humanas, a grandeza da vida mística e da santidade, e a presença real eucarística, em uma palavra, a grandeza da Igreja como morada de Deus, adere por toda parte à sua grandeza de mediadora e se sustenta por ela.

Todo o esforço do modernismo consiste em corroer a grandeza da mediação — digamos: da mediação hierárquica — na ideia de que, desse modo, ao fazê-lo, corroeria e destruiria, de uma só vez, a grandeza da santidade, e arruinaria a Igreja como morada de Deus. Na verdade, ele não destruirá nem uma nem outra. Ele não destruirá a Igreja como morada de Deus porque, em primeiro lugar, sua fúria e sua astúcia serão impotentes contra a Igreja enquanto mediadora da salvação.

Falei da astúcia do modernismo. É preciso esclarecer. Não se trata de uma astúcia comum e ordinária; trata-se de uma astúcia diabólica. Ela segue por um viés em que não se imagina. O modernismo não empreende um ataque frontal.

Ele não vai negar abertamente que a Igreja seja mediadora da verdade e da graça, que seja dotada de poderes hierárquicos em vista dessa função. Mas o modernismo desliza e se insinua precisamente no ponto em que meios de instituição eclesiástica, suscetíveis de certa variação, se unem ao dado de instituição divina, do qual são o instrumento indispensável. Mesmo, por exemplo, quando o modernismo nega que a Igreja seja depositária infalível e mensageira fiel da revelação de Cristo, não faz dessa negação franca sua arma principal. Julga muito mais hábil — e é de fato mais hábil — omitir habitualmente, relativizar discretamente as fórmulas e os anátemas, isto é, as humildes condições humanas de uma linguagem certa e de um pensamento preciso.

A esse respeito, em sua obra Essai œcuménique, o Pe. Congar diz, na p. 27, a propósito da encíclica Mortalium animae [sic], “há certamente algo de inválido, mas há também algo de válido”. Essa citação destaca bem a tentativa de relativizar o alcance do magistério lançada pela corrente modernista.

Na medida em que consegue isso, é evidente que não há mais necessidade de negar à Igreja o poder de transmitir a verdade sobrenatural; é inútil julgá-la a esse respeito, uma vez que se lhe retira o meio elementar de cumprir seu papel. ‑ O mesmo procedimento se aplica aos poderes hierárquicos. Embora o modernismo não se prive de combater a primazia romana ou a sucessão apostólica dos bispos, ele prefere, e de longe, neutralizá-los sem dar a impressão de fazê-lo, tentando tornar impossíveis as humildes condições instituídas pela Igreja para permitir seu exercício justo e regular; o meio do modernismo aqui é a democratização, batizada de colegialidade, ou seja, todo um sistema rousseauista e revolucionário de reuniões, assembleias e votações, todo um aparato de comissões, que reduzem a primazia romana ou a jurisdição do bispo a nada mais do que uma sombra de si mesma.

Em sua obra Sacerdócio e Laicado na Igreja, ed. du Vitrail, 1947, o Pe. Congar, após criticar a concepção hierarquiológica da Igreja, afirma na página 8: “Nossa geração redescobre e reafirma, no mistério da Igreja, o mistério do Espírito Santo e o mistério do laicato, uma pneumatologia e uma laicologia”.

— É um método semelhante — este método que consiste em insinuar-se na junção entre o que é de instituição divina e o que é de instituição eclesial — que é aplicado à Missa e aos sacramentos. Se esse método tivesse êxito, os sacramentos deixariam de ser os sinais eficazes da graça para se tornarem cerimônias heréticas e vazias. A Missa deixaria de ser, na verdade, o santo sacrifício, para cair ao nível de uma representação religiosa mais ou menos digna. Vê-se muito bem o método seguido para se chegar a esse ponto. Sob o pretexto de que as rubricas e os formulários, os ritos e as orações que cercam e solenizam a forma sacramental não são fixados pelo Evangelho, sob o pretexto de que sofreram variações ao longo dos séculos, alega-se que são puramente humanos. Tornam-nos multiformes, polivalentes, indefinidamente evolutivos ao sabor das urgências pastorais. Depois disso, a forma sacramental, desmantelada dos humildes elementos protetores exigidos pela condição humana, corre o risco profundo de se tornar ineficaz e inválida.

Esse processo de destruição é muito mais perigoso do que uma contestação leal; pode generalizar-se muito mais entre os pastores e os fiéis antes que estes o tenham percebido. Ele pode revestir-se de uma aparência de razão, uma vez que o elemento que se pretende descartar não é de instituição divina. De fato, não se encontra no Novo Testamento nem a organização da Igreja por dioceses, nem o cânone romano-latino, nem a regulamentação do rito da comunhão, nem as fórmulas dogmáticas de Nicéia, Calcedônia ou Trento. Somente se vocês subverterem tudo isso, se sustentarem que tudo isso pode se tornar brinquedo de alguma mutação conciliar e que não há nada a dizer, já que a maioria o aceita, que o mundo o espera e que o progresso histórico o exige; se vocês pensarem e agirem assim, destruirão a função mediadora da Igreja; se vocês alcançassem seu objetivo, a Igreja deixaria de ser o templo de Deus. Como, com efeito, Deus habitaria pela caridade teologal numa Igreja cuja fé fosse incerta, cujo poder de ordem fosse duvidoso e cuja eucaristia fosse herética? E como a fé, privada de definições, não se tornaria incerta? Como o poder de Ordem estaria assegurado, se vacilasse a fé ortodoxa que rege o rito de ordenação? Como a eucaristia não se tornaria herética, se fosse por longo tempo celebrada segundo um formulário e ritos cuja ortodoxia é tão pouco afirmada que os hereges deles se servem muito bem para suas próprias cerimônias? Se a Igreja sucumbisse à tentativa modernista que ataca de viés indiretamente sua função de mediação, tornar-se-ia se tornaria o reino da ausência: não haveria mais caridade, já que a caridade requer a fé e os sacramentos da fé; da mesma forma, não haveria mais presença eucarística nem sacrifício eucarístico, uma vez que a forma desse sacramento, assim como a forma de todos os sacramentos, precisa ser preservada, defendida, solenizada e glorificada por formulários apropriados e cerimônias adequadas e fixas.

O argumento sofístico de que se serve o modernismo é o seguinte: aquilo que na Igreja é de natureza eclesiástica deve ser considerado humano, pura e simplesmente. A conclusão que daí se tira é que isso pode tornar-se qualquer coisa para responder às exigências da história. Falar assim é, antes de tudo, esquecer que, mesmo na cidade profana, o humano e o terreno que constituem a cidade — isto é, o humano e o terreno que são o bem comum político e a organização dos poderes — não podem tornar-se qualquer coisa nem deixar-se levar por qualquer corrente histórica; é esquecer que existe uma natureza da cidade e que o tipo de cidade inventado pela Revolução de 1789 e levado pelo comunismo ao seu ponto culminante é um tipo de cidade contra a natureza. Mas o mais grave no erro em que o modernismo se apoia, sem o dizer, é ignorar que aquilo que declara ser terreno e humano, na santa Igreja, não se reduz ao humano nem ao terrestre; pelo contrário, está ligado a uma ordem de coisas intrinsecamente sobrenatural; é o meio escolhido por uma autoridade assistida pelo Espírito Santo com o objetivo de assegurar a comunicação de uma verdade e de uma vida que não são do homem, mas de Deus. Ora, esse meio, que permite transmitir os bens celestiais, a Igreja não pode transformá-lo à sua vontade nem fazê-lo evoluir ad nutum, porque esse meio deve adaptar-se a um bem celestial preciso e determinado e porque ela o escolheu para isso — A Igreja não pode, portanto, moldar seu governo para organismos semelhantes aos das sociedades secretas porque, além da iniquidade intrinseca desses organismos, eles são incompatíveis com os poderes sobrenaturais que o Senhor lhe conferiu. — A Igreja não pode negligenciar definições e anátemas, nem adotar a linguagem flutuante e fugidia da suposta pastoral posterior ao Vaticano II, porque essa linguagem não só ofende o espírito humano, mas, antes de tudo, não pode ser homóloga à revelação. — A Igreja não pode acomodar-se a ritos indeterminados e polivalentes, porque eles põem em perigo mortal os sacramentos que ela recebe de seu Esposo.

Se tudo na Igreja, exceto o pecado, pertence à Igreja — isto é, a uma cidade de ordem sobrenatural —, não por isso ignoramos que, no que diz respeito às instituições eclesiásticas, nem tudo é, em igual medida, assistido pelo Espírito Santo. Nesse domínio, ao contrário do que é diretamente instituído pelo Senhor, há espaço para o falível, o variável, o modificável e o revogável. Além disso, seria simplista querer introduzir a imutabilidade nesse contexto. Assim, por exemplo, embora o estado de virgindade consagrada, proveniente do próprio Evangelho e inaugurado por Nossa Senhora, não possa ser nem alterado nem abolido, é, por outro lado, impossível que as virgens de Cristo sigam, em todas as épocas, literalmente, a mesma disciplina regular. Sabemos também que o que na Igreja tem origem eclesiástica é também o lugar privilegiado das misturas impuras, das combinações excessivamente humanas e, finalmente, e talvez sobretudo, da prepotência eclesiástica, ou seja, do clericalismo. Basta pensar na maneira despótica com que certos padres impõem as atitudes durante a Missa, sob pretexto de que a Liturgia exige uma atitude litúrgica. E nada diremos da tirania de certos bispos, mesmo antes de ter sido inflada e exacerbada pela colegialidade. É verdade que eles muitas vezes imaginam que toda forma de desobediência às suas ordens ou às suas advertências constitui, por si mesma, obrigatoriamente, um pecado.

Mas estas observações, acerca do que na Igreja é de origem eclesiástica e acerca do humano que aí facilmente vem alojar-se, às vezes a ponto de o tornar nulo, falhariam seu objetivo se nos desviassem de ver esta verdade primeira: na cidade de Deus, até mesmo os elementos de origem eclesiástica, a menos que sejam ilegítimos, ainda que com aparências contrárias — coisa muito fácil em tempos de infiltração modernista —, esses elementos de origem eclesiástica pertencem ainda à cidade de Deus. — Nos sacramentos, por exemplo, não são apenas a matéria e a forma que se ligam a uma ordem de coisas sobrenatural, mas também, em graus certamente diversos, os formulários e as rubricas.

Se não percebêssemos isso, se colocássemos, não uma distinção, mas uma heterogeneidade entre os dados da Escritura relativos à Igreja e os desenvolvimentos introduzidos pela Igreja para permanecer fiel a esses dados, se víssemos o divino de um lado e, do outro, simplesmente o humano, se considerássemos que, por exemplo, enquanto o texto da Escritura é imutável, as definições de Calcedônia e de Trento são caducas e ultrapassadas, ou que o Cânon da Missa, por ter sido estabelecido pela Igreja, pode ser abandonado às supostas exigências históricas dos pedidos do mundo e do ecumenismo, enquanto a consagração, por vir do Senhor, não deve ser alterada — se tivéssemos essas concepções, deixaríamos de perceber a transcendência do mistério da Igreja. A Igreja, considerada em toda a sua essência, deixaria de ser um mistério; não seria mais reconhecida como uma cidade verdadeiramente sobrenatural. Ela deixaria de ser a Santa Igreja.

A fé da Igreja e sua esperança — os sacramentos da Igreja, seu culto e seu magistério —, seus poderes de ordem e de jurisdição, seus estados de vida, enfim, já não continuarão na Pátria. Só a caridade arderá eternamente. Mas essa caridade eterna, essa caridade que derivará da visão face a face das Três Pessoas, terá sido formada e nutrida na fé e na esperança — pelos ensinamentos do magistério e pela celebração do culto —, antes de tudo pela celebração do Santo Sacrifício e, por fim, no interior de estados de vida determinados. Por sua vez, os ensinamentos do magistério, a celebração dos sacramentos e a fidelidade nos estados de vida terão sido guardados e favorecidos por meio de instituições eclesiásticas que lhes são indispensáveis.

Eis por que esses meios não devem ser considerados como algo extrínseco ao mistério sobrenatural da Igreja, como algo puramente terreno, totalmente acessório, meramente humano, passível de alteração conforme o bel-prazer das colegialidades e comissões, ou de acordo com as quimeras de tal ou tal hierarca. É por isso que faremos o que estiver ao nosso alcance para impedir que esses meios sejam pervertidos e aniquilados, como tem sido praticado desde o Concílio Vaticano II por meio de manobras revolucionárias. Em nossa resistência, temos a certeza de ser fiéis à Igreja, pois esta, embora o modernismo diga o contrário, deseja manter esses meios que lhe são necessários para assegurar sua função de mediação. E ela deseja assegurar sua função de mediação a fim de viver na caridade, para que o Senhor resida nela por meio da habitação do amor e da presença eucarística.

A Virgem Mãe de Deus, a Virgem do Stabat, de Pentecostes e das intervenções milagrosas ao longo da história, a Virgem Maria corredentora preservará na santa Igreja não somente os dados instituídos pelo Senhor, mas também os meios de origem eclesiástica pelos quais a Esposa de Cristo será indefectivelmente, no meio dos homens, ao mesmo tempo mediadora da salvação e morada onde Deus reside, até o dia eterno da Parusia do Bem-Amado