
O cardeal Joseph Zen, bispo emérito de Hong Kong, e uma das vozes mais respeitadas do catolicismo asiático, publicou em seu site oldyosef.hkcatholic.com (e também no X) uma reflexão dedicada à situação da FSSPX.
O Caso da FSSPX
Sexta-feira, 2ª Semana da Quaresma
Em relação ao caso da FSSPX, parece que até mesmo os tradicionalistas estão divididos. Isso é compreensível; há dois pontos a considerar.
A.) Um cisma deve ser evitado a todo custo, pois causará danos graves e duradouros à Igreja; mas, por outro lado, B.) uma séria questão de consciência também deve ser respeitada: “Como alguém pode ser forçado a seguir ensinamentos que evidentemente negam a Sagrada Tradição da Igreja?“
Então, como o caso pode ser resolvido?
A FSSPX foi enviada para dialogar com o chefe do Dicastério para a Doutrina da Fé, mas há alguma esperança nesse diálogo?
Lendo a primeira leitura e o salmo responsorial seguinte da missa de hoje, parece-me que podemos ver as coisas desta maneira:
José ─ FSSPX
Irmãos de José ─ Cardeal Tucho
Rúben ─ Papa Leão XIV (talvez com a ajuda de Sua Excelência Schneider)
“Os irmãos de José o odiavam.“
Tucho, que pretende desfazer as tradições da Igreja, como pode não odiar a FSSPX? Ele provavelmente ficará feliz em vê-los excomungados!
Então não há mais esperança?
Aí está Rúben, o bom irmão!
Aí está Leão XIV, o bom Padre!
A unidade da família de Deus lhe é cara! Mas e se seus filhos não aceitarem o Concílio?
O Papa Leão XIV é alguém que ouve! Ele compreende e fará com que seus filhos compreendam que certas coisas perpetradas em nome do chamado “espírito do Concílio“, mas contrárias à Tradição da Igreja, não são do Concílio!
E a Missa Tridentina? Claramente, é um erro querer eliminá-la! O Novus Ordo não respeitou as intenções dos Padres Conciliares (Sua Excelência Atanásio Schneider reuniu ampla evidência a esse respeito).
O Papa Bento XVI, ao falar de uma “reforma da reforma”, admitiu a possibilidade de enriquecimento mútuo das duas formas de liturgia da Missa Romana.
Confiemos no Papa Leão XIV; ele iniciou sua catequese nos Documentos Conciliares; é a eles que todos devemos retornar!
Esse texto, divulgado por ocasião da sexta-feira da segunda semana da Quaresma, recorre ao Evangelho e às leituras da missa do dia para evocar as tensões atuais em torno da Tradição na Igreja.
Fonte: DICI – Tradução: Dominus Est
Nessa meditação, o cardeal Zen aborda diretamente a questão do diálogo entre a Santa Sé e a FSSPX. Inicialmente, recorda que um cisma constituiria um grave prejuízo para a Igreja, e deve ser evitado (a FSSPX não aventa qualquer intenção de causar um cisma: se deseja proceder às sagrações episcopais, é sem a menor intenção cismática, com a única preocupação de assegurar a continuidade de seu apostolado a serviço da Igreja). Além do mais, o cardeal salienta a gravidade do problema de consciência ao qual são confrontados numerosos fiéis ligados à tradição. Fundamentalmente, questiona: “Como se pode obrigar alguém a seguir ensinamentos que negam manifestadamente a santa Tradição da Igreja?”
Um apelo à intervenção do Papa
Em sua reflexão, o cardeal Zen evoca as discussões em curso entre a FSSPX e o Dicastério para a Doutrina da Fé. Contudo, ele se questiona abertamente sobre as perspectivas de tal diálogo nas circunstâncias atuais: “A FSSPX foi enviada a dialogar com o chefe do Dicastério para a Doutrina da Fé. Porém, há um mínimo de esperança nesse diálogo?”
O cardeal não hesita em expressar suas reservas a respeito da direção atual do dicastério, dirigido pelo cardeal Víctor Manuel Fernández, frequentemente chamado de “Tucho”. De acordo com ele, a visão desse último parece dificilmente conciliável com a defesa da Tradição.
Nesse contexto, o cardeal Zen apela implicitamente ao papa Leão XIV, para ele próprio assumir o processo, especialmente quanto às sagrações de bispos previstas pela Fraternidade a fim de assegurar a continuidade de seu apostolado.
A questão da missa tradicional
A reflexão do cardeal também aborda a questão da liturgia tradicional, no centro das tensões atuais. Ele considera que seria errôneo querer suprimir a missa tradicional: “E a missa tradicional? É evidentemente errôneo querer eliminá-la.”
Essas palavras se unem às preocupações de numerosos clérigos e fiéis através do mundo, que mantém a liturgia tradicional como um tesouro espiritual da Igreja e uma expressão autêntica da fé católica.
A verdadeira unidade da Igreja só pode ser construída ao se permanecer fiel à Tradição recebida. Esse apelo do cardeal Zen – apesar de sua preocupação em preservar o Concílio Vaticano II, atribuindo seus desvios a um pretenso “espírito do concílio”, e apesar de seu desejo por uma “reforma da reforma” litúrgica, que tentaria salvar o Novus Ordo – vai de encontro, não obstante, a uma convicção profunda da Fraternidade São Pio X: a fidelidade à Tradição não é uma recusa da Igreja, mas, ao contrário, um serviço prestado à sua unidade e à sua continuidade.
As sagrações episcopais previstas pela Fraternidade se inscrevem nesta perspectiva: assegurar a transmissão do sacerdócio e da fé católica, sem ruptura com a Igreja, na linha da ação conduzida por Dom Marcel Lefebvre.
Neste tempo da Quaresma, os fiéis são convidados a rezar pela Igreja, afim que a unidade se realize não em uma obediência cega, mas na verdade e na fidelidade à Tradição católica.