Por Dardo J. Calderón
Fonte: Argentinidad – Tradução: Dominus Est
Do recente intercâmbio epistolar com D. Mário Caponnetto, surgiu a dúvida sobre o uso desses rótulos. Quem é tradicionalista e quem é conservador? A bronca que tomei me fez compreender que, bem ou mal, estou usando os termos em sentido denigrativo, já que em português claro, ser católico é ser tradicionalista, e ser conservador, no fundo, é não ser católico.
Aqueles que puramente nos acusam de “tradicionalistas” colocam-se no ponto que queremos. Declaram-se, com franqueza, que não são católicos, já que a tradição é a fonte essencial pela qual conhecemos a revelação, inclusive acima da Bíblia, que somente é interpretada pela tradição apostólica e pelo magistério tradicional da Igreja. Aqui não há rancor.
Publicamos, agora, um livro de Calderón Bouchet [1] que define, com bastante precisão, o que é o pensamento conservador e o aproxima com o pensamento cantante da Igreja Conciliar. Disso se segue que todos aqueles que querem salvar certa continuidade entre o pensamento do Concílio e a tradição caem, sem dúvidas, nos “pecados” do conservadorismo. Mas, em suma, o que é o conservadorismo? A chave do dilema está na frase do autor destacada pelo prólogo: “O conselho de Jesus: ‘Buscai o Reino de Deus e sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo’, sofrerá nas mentes conservadoras uma transposição que invalida totalmente sua eficácia redentora. O conservador parece aconselhar que, para salvar os acréscimos, é conveniente buscar o Reino de Deus e sua justiça”.
O conservador é um homem que está convencido de que a doutrina católica contém a melhor ordem que se pensou para o homem, e que, para salvaguardar a ordem, deve-se cultivar essa doutrina. Pareceria que a ordem dos fatores não altera o produto, já que seja por uma razão ou por outra, o tipo defende a ordem católica. Não importa se ela é de origem divina, ou se apareceu a um tipo inteligente chamado Paulo de Tarso e foi bem composta pelos homens da Igreja. O fato é que essas crenças são úteis para que o homem dê firmeza à sua existência nessa terra.
O autor nos adverte acerca de um juízo fácil, que seria pensar que esses homens consideram a religião como um assunto útil, mas que não comprometem sua fé. Não é tão simples, muitos deles creem com fé suficiente nos mistérios católicos, mas também creem que a Igreja quis fundar uma civilização e uma cultura para a ordem nessa terra, e que esse esforço civilizacional é o meio que o homem tem para responder a Deus. Na versão de certo “tradicionalismo” que denunciamos, colocam uma tarefa para os leigos e outra para os padres, e que cada um se guie com seus critérios próprios sem que se metam muito com o outro. O velho anticlericalismo que começou com Felipe o Belo.
O cerne do assunto é responder se essa obra civilizatória (que essencialmente se cumpre na política) surge pacificamente da doutrina da fé, ou se entre ambas há tensão e choques inevitáveis, que devem ser resolvidos pelo “sacrifício” de alguma dessas duas atividades.
Esclarecendo… nossa religião vem associada a uma doutrina política? Doutrina que, ao ser seguida, implicaria o cumprimento do mandato evangélico – ao ponto de que podemos “nos esquecer” um pouco desse assunto “misterioso” e seguir as pautas de ordem que nos conduzirão, inevitavelmente, ao cumprimento das promessas? Ou seja, que a política, feita nos cânones estabelecidos, nos leva à salvação. Ou, ao contrário, que essas duas realidades têm uma contradição interna que, cedo ou tarde, nos obrigam a “sacrificar” algo, ou muito, de uma delas para salvar a outra. Dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus é uma fórmula que soluciona o equilíbrio? Ou é uma sentença que marca uma opção preferencial e priva César do que ele acreditava ser seu?
O conservador crê na ordem e reconhece que nenhuma ordem pode prescindir do elemento religioso, para desse modo operar dentro do homem e não ter que se constituir numa tirania. Também crê que o trabalho do homem é conseguir essa ordem social, para depois se apresentar a Deus e ser digno da promessa. Existe, no conservador, uma ideia “aristocratista” ou “elitista”, que o faz concluir que a maioria das pessoas é um tanto simples, e que o que lhes conduzirá à salvação é essa ordem social, que deve ser mantida pelos melhores para a salvação dos “tontos”. Tontos sobre os quais não pode cair uma condenação ou salvação pessoal, mas que são curral, quase inimputáveis, conformados pela ordem social. A eles não se pode pedir nada com pressa; devem ser levados com paciência até o bem ou até o mal, quase inconscientes.
A constituição dessa ordem depende do tempo histórico. Deve mantê-la se existe, mas restaurá-la na medida do possível se não existe, e contando com as possibilidades que concede a realidade em que se vive e os tempos; exigências de toda tarefa humana. Podem ser anos ou séculos. Entretanto, toda essa massa de tontos não pode ser julgada pensando que há responsabilidade total, e a virtude da tolerância se impõe.
Nessa tarefa, o estrito cânon religioso deve ceder. Não se pode exigir do homem imerso numa cultura que se comporte como exige a lei divina. Deve-se esperar um pouco e ser tolerantes até que as boas condições surjam – por responsabilidade dos melhores, que devem atuar com “prudência” [nota do editor: e “sofisticação”].
É diferente o pensamento do homem religioso. Acredita que Deus colocou a todos, tontos e vivos, num momento histórico específico para dar uma resposta, na urgência de nossa curta vida. Para eles, Deus dispôs meios sobrenaturais suficientes para “pular” os condicionamentos históricos; verdadeiros milagres a que se deve recorrer e enormes “imprudências” que se deve cometer, porque não é a “ordem” que salva, mas Deus que salva. E dessa disposição urgente e apaixonada surge ou não uma ordem, ao contrário dos milagres.
Nesse último programa, o homem religioso tem algumas guias de conduta que se bicam com as anteriores, como: a verdade se diz sempre, custe o que custar (ou, se preferem, a mentira não se diz nunca, porque é um pecado absoluto). O homem não deve se apoiar em seus projetos, etc.
No inverno passado, houve algumas formações em La Reja sobre a Idade Média (ou a Cristandade), e podemos assegurar que, quase unanimemente, chegamos à conclusão de que a história justifica tal postura. A Cristandade, como civilização, não foi “buscada”. Pior: era muito improvável.
Acrescento: tinham muito mais possibilidades outros impérios. Deu-se por acréscimo, de modo misterioso, em homens que buscavam sua salvação por meios sobrenaturais. A explicação linear que amarra com cálculo a civilização ocidental, com uma diretriz greco-romana, é uma simplificação que negligencia os detalhes e que denota a condição de simplificar do historiador.
Em suma, e para não ficar muito longo, chamo conservadores aos que, a partir da fé, entendem que se deve guardar uma “prudência” [nota do editor: e “sofisticação”] nos tempos em que estamos. Que castigam o homem de critério religioso em razão da “oportunidade”. A um Muller, por exemplo, que considera mau romper subitamente com a moral católica, mas que considera a FSSPX pior por romper a estratégia calculada.
Considero conservadores a muitos que se dizem tradicionalistas e que intentam uma restauração dos estudos, ou da política, e se declaram “incompetentes” na briga por manter as “fontes da graça” – coisa de padres – como se não fossem essas fontes a base de tudo o mais.
Considero conservadores os que pensam que os “tontos” são rebanho, os que “caritativamente” não querem incomodar, escamoteando a urgência de Cristo em suas vidas para desculpar sua covardia.
Considero conservadores os que se fizeram de bobos com o Concílio Vaticano II, tapando os buracos com hermenêuticas forçadas à espera de que os tempos de rebelião passem (sendo que se tornam piores). Os homens que se perderam nesses tempos não são pobres inimputáveis – estou seguro de que os que se perderam tiveram de Deus toda a graça necessária para se salvar; e há uma cota de responsabilidade para os que se calaram ou se falsificaram por um cálculo de “boa fé”. Burke, inclusive. Livieres idem.
Considero conservadores os que não quiseram ver a enormidade do mal da reforma litúrgica, porque os tirava das rodas de influência social e política nas quais “há tanto para fazer!”, desprezando o Bem que Deus poderia fazer.
Considero conservadores os que reduziram a tradição aos costumes de uma tradição nacional, à nostalgia de um tempo passado. Considero conservadores os que cultivaram um mal-entendido histórico para agregar tontos à sua “boa causa” – não eram tão tontos assim, mas contribuíram para desviá-los.
Considero conservadores os que, desde um esquemático aristotelismo, confundiram o verdadeiro conceito da natureza humana, agregando a ela e à ordem política notas próprias de uma condição preternatural perdida (em especial “a integridade” de razão e conduta) e adiando a urgência do sobrenatural.
Mas todo vício pode ser corrigido. E os meios de correção podem surgir dessa conjuntura, e a que o velho Alberto Falcionelli dava conselhos concretos. Quando tens inimigos à direita e somente dissidentes à esquerda, és conservador.
[1] El conservadorismo anglosajón