UMA CARTA DE DOM JOSEPH STRICKLAND

Dom Joseph Strickland ofereceu um texto memorável sobre a crise da Igreja e a situação após o anúncio das sagrações, que reproduzimos integralmente.

“A paciência é uma virtude. Mas a paciência não significa assistir a morte do sacerdócio enquanto os responsáveis se recusam a agir. A confiança é necessária. Mas confiar não significa fingir que o silêncio é sabedoria quando não o é. A obediência é santa. Mas obediência nunca significou cooperar com a erosão da Fé.”

Fonte: DICI – Tradução: Dominus Est

A Linha na areia

Todo texano conhece esta história: muito antes de entendermos de política, antes de compreendermos os argumentos, antes de aprendermos a esmiuçar detalhes, aprendemos na escola uma coisa que nos moldou até a medula. Em El Alamo, chegou um momento em que não havia mais cartas a enviar, nem reforços a caminho, nem negociações a tentar. O inimigo estava à porta. Exigia nossa capitulação. E todos sabiam o que a rendição significaria.

Então o comandante – William Barret Travis – reuniu seus homens – não para inspirá-los, não para motivá-los, mas para lhes dizer a verdade. Ele traçou uma linha no chão. De um lado dessa linha estava a segurança – pelo menos por ora. Do outro lado, a morte quase certa. E disse: “escolham”. Apenas um homem recuou. Todos os demais avançaram.

Essa linha na areia não foi traçada para iniciar uma rebelião. Foi traçada para acabar com as ilusões. Cruzá-la não garantia a vitória – somente a fidelidade. E, quer queiramos, quer não, é exatamente essa a situação atual da Igreja.

A Igreja está em uma situação de emergência. Não uma emergência inventada pelos comentaristas, não um estado de espírito fabricado pelas redes sociais, não uma histeria.

Uma emergência real – medida não por sentimentos, mas por fatos. Uma emergência medida pelo silêncio onde deveria haver respostas. Pela tolerância onde deveria haver correção. Pelos pastores que se recusam a denunciar os lobos, enquanto aqueles que simplesmente desejam proteger o rebanho são tratados como um problema.

Serei muito claro: não se trata de pessoas. Não se trata de preferências. Não se trata de apego ao passado. Trata-se de sobrevivência – a sobrevivência não de uma instituição, mas do sacerdócio, dos sacramentos e da Fé católica tal como foi recebida, transmitida e preservada ao longo dos séculos.

Quando homens que contradizem abertamente o ensino católico são tolerados, promovidos e até celebrados, enquanto aqueles que mantém a Tradição são proibidos, afastados ou ignorados, algo está de cabeça para baixo.

Quando a confusão é acolhida e a fidelidade deve mendigar o direito de existir, a autoridade deixou de cumprir aquilo para o qual existe.

E chega um momento em que o próprio silêncio se torna uma resposta.

Quando uma crise é reconhecida, quando um apelo feito com sobriedade e respeito recebe como resposta o silêncio, a demora torna-se uma decisão. A inação torna-se um juízo. A recusa em agir torna-se uma abdicação.

Isso não é teoria. É a história.

A Igreja já conheceu momentos como este antes – momentos em que os homens foram obrigados a agir não porque desejassem o confronto, mas porque a única alternativa era renunciar ao que lhes tinha sido confiado. É por isso que o nome de D. Lefebvre ainda provoca reações tão fortes. Não porque o momento foi confortável, mas porque foi esclarecedor.

Ninguém afirma que essas decisões foram fáceis. Ninguém afirma que foram indolores. Mas foram tomadas com a convicção de que a necessidade estava lá, que esperar mais significaria ver algo essencial morrer.

E hoje nos encontramos novamente em um momento de necessidade.

E não se trata de um grupo específico. Não se trata de uma sociedade específica. Não se trata de um  bispo específico, ou de uma carta, ou de um pedido não respondido. Trata-se de um padrão – um padrão que trata a ortodoxia como uma ameaça, a Tradição como suspeita, e a fidelidade como rigidez, enquanto o erro é louvado como sendo sensibilidade pastoral.

Trata-se de um momento em que as coisas que a Igreja outrora defendia sem reservas devem doravante justificar sua existência. Quando a preservação do sacerdócio é tratado como opcional. Quando a formação dos padres é obstruída. Quando os meios ordinários de continuidade apostólica são discretamente negados.

E nesse estágio, a linha já está traçada. Não por agitadores. Não por rebeldes. Mas pela própria realidade.

Em El Alamo, apenas um homem recuou. Chamava-se Moses Rose. A história não o despreza. Apenas registra sua escolha. É isso que as linhas fazem. Não condenam. Revelam. A linha não cria coragem nem covardia. Ela as expõe.

E a linha diante da qual a Igreja se encontra hoje não pergunta quem está irritado, quem faz barulho, quem é popular. Ela pergunta quem quer permanecer fiel quando a fidelidade tem um preço. Porque há algo pior que a derrota. Pior que ser esmagado. Pior que a morte.

Há a rendição.

Nosso Senhor não traçou Sua linha na areia. Ele a traçou com sangue. Permaneceu em silêncio diante de Pilatos não porque a verdade fosse obscura, mas porque a verdade não negocia com a mentira. Ele não prometeu segurança. Não prometeu conforto. Não prometeu sucesso.

Ele prometeu a Cruz.

E advertiu claramente seus discípulos sobre tudo o que a fidelidade lhes custaria. Portanto, quando falamos hoje sobre linhas divisórias sendo traçadas, não inventamos nada. Encontramo-nos onde os cristãos sempre se encontraram, quando a obediência a Deus e a submissão à confusão divergem definitivamente.

Hoje, pergunto quem é honesto. Não pergunto quem se sente em segurança. Pergunto quem é fiel.

Porque a linha já está aí.

Foi traçada pelo silêncio. Foi traçada pela inversão. Foi traçada pela recusa em agir enquanto a ação é necessária. E a única questão que permanece – a única questão honesta – é: estamos dispostos a cruzá-la? Não com triunfalismo. Não com rebelião. Mas com fidelidade.

A Igreja sobrevive graças aos santos

E os santos sempre souberam o que fazer quando a linha aparece.

Agora direi as coisas de forma clara, porque passou o tempo de fazer rodeios.

Alguns dirão que expressar tais realidades é divisivo. Enganam-se. O que divide é tolerar o erro enquanto se pune a fidelidade. O que divide é impor o silêncio a aqueles que creem no que a Igreja sempre ensinou, enquanto se aplaude aqueles que a contradizem abertamente. O que divide é chamar a confusão de “pastoral” e a clareza de “perigosa”.

E já observamos essa tendência por tempo suficiente para fingir que o contrário já não seja honesto.

Há padres e bispos que desacreditam publicamente o ensino católico sobre o casamento, a sexualidade, a unicidade de Cristo, a necessidade do arrependimento – e não acontece nada. São elogiados por seu “acompanhamento”. E dizem-nos que isto é misericórdia.

Mas quando os padres querem celebrar a Missa como foi celebrada durante séculos, quando querem ser formados segundo a mentalidade da Igreja que produziu os santos, quando querem bispos para que o sacerdócio não se extingua – são tratados como um problema a ser gerenciado.

Isso não é misericórdia. É inversão.

E quando essa inversão é levada diretamente a Roma – com calma, respeito e sem ameaças – e a única resposta é o silêncio, não estamos lidando mais com uma incompreensão. Estamos lidado com uma recusa.

Refiro-me aqui à Fraternidade São Pio X.

Não pedem uma novidade. Não pedem poder. Pedem bispos – porque sem bispos não há sacerdotes, e sem sacerdotes não há sacramentos, e sem sacramentos a Igreja não sobrevive de modo significativo.

Eles pediram. Esperaram. E não receberam nenhuma resposta que refletisse a realidade.

Vou dizê-lo claramente: quando a heresia é tolerada, mas a Tradição é sufocada, algo está terrivelmente errado. Quando aqueles que rompem com a doutrina são bem-vindos, e aqueles que se apegam a ela são tratados como suspeitos, a autoridade traiu seu próprio propósito.

Isso não é rebeldia. É um fato.

Alguns dirão: “Mas é preciso esperar”.

Alguns dirão: “Mas é preciso confiar”.

Alguns dirão: “Mas é preciso ter paciência”.

A paciência é uma virtude. Mas a paciência não significa assistir a morte do sacerdócio enquanto os responsáveis se recusam a agir. A confiança é necessária. Mas confiar não significa fingir que o silêncio é sabedoria quando não o é. A obediência é santa. Mas obediência nunca significou cooperar com a erosão da Fé.

Chega um momento onde continuar esperando se torna uma forma de rendição.

Esse momento chegou.

Conheço pessoas que vão se assustar ao ouvir isso. Dirão que estas palavras são muito duras. Dirão que incomoda as pessoas.

Ainda bem!

Pois uma Igreja que não é sacudida pela verdade já adormeceu.

Nosso Senhor incomodava as pessoas constantemente. Virava mesas. Denunciava a hipocrisia. Advertia os pastores que se alimentam a si mesmos em vez do rebanho. Não falava delicadamente com aqueles que distorciam a verdade sob a proteção de sua autoridade.

E não me interessa uma paz comprada pelo silêncio. Não me interessa uma unidade que exige que mintamos para nós mesmos. Não me interessa uma estabilidade ao preço da rendição.

A linha foi traçada.

Ela se manifesta todas as vezes que um padre fiel é punido por fazer o que os santos fizeram. Ela se manifesta todas as vezes que o erro é tolerado porque corrigi-lo seria desconfortável. Ela se manifesta todas as vezes que Roma escolhe o silêncio enquanto a clareza é necessária.

E eis o que deve ser dito em alto e bom tom: tais linhas nunca são traçadas por aqueles que desejam o conflito. São traçadas pela realidade, quando a autoridade se recusa a agir.

Em El Alamo, os homens que cruzaram a linha não pensavam que venceriam. Sabiam que provavelmente perderiam. Cruzaram-na porque se render significaria negar quem eram e abandonar o que lhes confiaram para defender.

Eis a escolha diante da qual a Igreja se encontra atualmente.

Não entre vitória e derrota.

Mas entre fidelidade e abandono.

Entre verdade e declínio controlado.

Entre santos e burocratas.

Não apelo à rebelião. Apelo à honestidade. Não apelo ao caos. Apelo à coragem. Não apelo ninguém a abandonar a Igreja. Apelo a Igreja a se lembrar o que ela é.

Porque se não defendermos o sacerdócio, se não defendermos os sacramentos, se não defendermos a Fé quando isso tiver um preço, então já recuamos diante da linha.

A história também registrará essa escolha.

A Igreja não precisa de mais silêncio. Não precisa de mais demora. Não precisa de mais declarações cautelosas que não dizem nada. Precisa de homens que se posicionem, falem e, se necessário, sofram – sem ilusões.

Pois a linha deixou de ser teórica.

Está aqui.

E cada um de nós – bispo, padre, leigo – já está decidindo qual é a sua posição.

Agora deixarei de explicar.

Porque chega um momento em que a explicação se torna evasiva, e as palavras se tornam um modo de protelar a obediência.

A linha já não consta nos livros de história. Já não é mais teórica. Já não é algo que debatemos em conferências ou atrás de portas fechadas.

Está aqui.

E ela não pergunta qual posição ocupa, nem quantos seguidores tem ou quão cuidadosamente formula suas declarações. Ela pergunta uma única coisa: permanecerá do lado da verdade mesmo quando isso lhe custa algo?

Ora, é isso que devemos dizer no final das contas, sem rodeios nem desculpas: uma Igreja que não defende seu sacerdócio não sobreviverá. Uma Igreja que considera a fidelidade como perigosa e o erro como pastoral já começou a capitular. Uma Igreja que responde às emergências com silêncio escolhe a decomposição no lugar da coragem.

Não é um insulto. Não é uma ameaça. É um diagnóstico. E os diagnósticos servem para despertar as pessoas e chamá-las à ação.

Não existe meio-termo. Não existe um território intermediário seguro onde se possa esperar em silêncio e torcer para que alguém aja. O silêncio em si é um posicionamento. Doravante, esperar é uma decisão.

A linha é traçada todas as vezes que a verdade é obrigada a esperar. Todas as vezes que o erro é desculpado. Todas as vezes que a coragem é punida. Todas as vezes que um pastor se desvia.

E o mais assustador em tais momentos não é que alguns farão a escolha errada. É que muitos escolherão em silêncio – dizendo-se para si mesmos que não escolheram absolutamente nada.

A história não lhes dará razão.

Nem Cristo.

Porque Nosso Senhor não perguntará se estávamos confortáveis. Ele perguntará se fomos fiéis. Ele não perguntará se preservamos a nossa posição. Ele perguntará se carregamos a nossa cruz. Não perguntará se sobrevivemos. Perguntará se amamos a verdade mais do que a nossa própria segurança.

Logo, terminarei esta carta por aqui.

Não com uma estratégia. Nem com um programa. Nem com outra conversa.

Mas com um apelo para se colocar de joelhos.

Se teu coração és sacudido ao me ouvir, não o anestesie. Se estás com raiva, examine o motivo. Se tens medo, admita. Depois, reze – não para que a Igreja se torne mais fácil, mas para que ela se santifique.

Rezem pelos bispos que se pronunciarem mesmo que isso lhes custe tudo. Rezem pelos padres que permanecerem fiéis mesmo quando abandonados. Rezem por Roma – não para que ela gerencie esta crise, mas para que ela encontre uma responta.

E reze por ti mesmo.

Porque a linha já está aqui.

E quando o barulho cessar e as cadeiras pararem de cair por terra, e não restar mais nada para nos escondermos, cada um de nós terá de responder a uma única questão que importa:

Onde estava?

Que o Deus todo poderoso te abençoe e te guarde, em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Dom Joseph E. Strickland

Bispo emérito