A RODA DOS ESCARNECEDORES

(Uma postagem muito triste)

Por Sidney Silveira

Independentemente da posição canônica ou prudencial que alguém tenha acerca da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, transformar uma possível excomunhão – sobretudo envolvendo bispos, sacerdotes e fiéis – em matéria de chiste público é algo profundamente impróprio para um sacerdote.

Na tradição católica, a excomunhão nunca foi entendida como troféu ideológico nem como ocasião para sarcasmo. Trata-se da pena canônica mais grave da Igreja, porque toca a comunhão eclesial. Quando aplicada, portanto, deveria suscitar dor, temor, oração e desejo de reconciliação.

Há uma diferença enorme entre sustentar que determinado ato é ilícito ou cismático (não entro aqui neste mérito) e zombar publicamente da possibilidade de almas verem-se separadas da plena comunhão visível com a Igreja hierárquica.

Além disso, o tom desta publicação do Padre José Eduardo revela algo típico de certos meios “neocons”: uma espécie de espírito faccional, quase partidário, em que a tragédia eclesial passa a ser tratada como munição de disputa intra-católica. E isto é especialmente grave quando parte de um sacerdote, cujo “munus” inclui também ser ministro da reconciliação e homem de gravidade sobrenatural.

Mesmo historicamente, quando houve tensões gravíssimas – pensemos nas crises arianas, no Grande Cisma, nas disputas galicanas ou mesmo nas controvérsias jansenistas –, os grandes homens da Igreja costumavam falar dessas rupturas com tristeza e peso espiritual, não com ironia, e muito menos o fariam com sarcasmo de rede social.

Há ainda um ponto humano e pastoral importante: em regra, padres e fiéis ligados à Fraternidade Sacerdotal São Pio X não são rebeldes profissionais, mas pessoas sinceramente preocupadas com liturgia, doutrina, Tradição e confusão doutrinal contemporânea. Pode-se discordar deles canonicamente; ridicularizá-los, porém, é péssimo sinal revelador do estado d’alma subjacente a semelhante atitude.

O mais paradoxal do texto do sacerdote é precisamente o seguinte: ao pretender defender a autoridade eclesiástica, ele o faz por meio de uma postura pouco sacerdotal, ou, mais exatamente, mundana, marcada por zombaria.

Ora, a autoridade da Igreja não se robustece pelo deboche.

No fundo, diante de qualquer possibilidade de ruptura mais profunda no corpo eclesial, a atitude católica deveria aproximar-se mais do lamento de São Paulo pelas divisões do Corpo de Cristo do que da troça baixa.

São Paulo, ao corrigir erros gravíssimos nas comunidades cristãs, muitas vezes escrevia “com lágrimas”. Essa imagem é muito importante, pois o problema contemporâneo não é haver disputas; sempre houve. O problema é o espírito com que são travadas: sarcasmo, exibição pública, tribalismo e busca de validação instantânea.

Padre, digo-lhe como homem e como fiel católico insignificante que sou: honre a sua batina e não transforme em ocasião de troça aquilo que deveria suscitar na sua própria alma tremor, prudência e oração.

P. S. Não sou fiel da Fraternidade, mas ver esta publicação me causou uma repulsa que há tempos não sentia.

P. S. 2 Não busco “seguidores” nem curtidas em postagens de Facebook ou Instagram, como também não entro em controvérsias internéticas; por isso mesmo meditei acerca de se devia escrever algo sobre essa postagem vergonhosa de um sacerdote que, em tese, tem formação suficiente para perceber que está a assumir uma postura espiritualmente degradante.

P. S.3 A figura do escarnecedor aparece na Sagrada Escritura não apenas como alguém que ri, mas como alguém cuja alma se endureceu a ponto de tratar com desprezo aquilo que deveria suscitar temor, reverência ou prudência.

Logo no início do Saltério há aquela passagem tão conhecida: “Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores.” (Ps 1,1).

O “assentar-se na roda dos escarnecedores” é significativo: o escárnio torna-se um hábito espiritual, quase uma atmosfera moral. O homem já não apenas erra; ele passa a zombar do bem, da verdade, da autoridade divina ou das coisas santas. Os livros sapienciais são particularmente severos neste ponto, e me eximo de citar os textos; apenas digo que o escarnecedor coloca-se psicológica e moralmente acima do objeto de que zomba.

O que é um perigo.

Pode ser uma imagem de texto que diz "Padre PadreJosé José Eduardo @pejoseduardo Tenho uma sugestão litúrgica para a FSSPX. Nas sagrações cismáticas, sacrilegas, ilícitas e ilegais que eles farão contra O mandato do Romano Pontífice e pela qual eles mesmos se excomungarão automaticamente, quando o sagrante principal perguntar: -Tendes O mandato apostólico? A resposta poderia ser: -Tínhamos, mas O gato comeu. Em latim: Habebamus, sed feles comedit. [Garanto que a Santa Sé não estará preparada para argumento tão sólido e invencível]"