O ARCEBISPO DE BOURGES DIANTE DAS SAGRAÇÕES DE 1º DE JULHO – PELO PE. JEAN MICHEL GLEIZE, FSSPX – PARTE 1 DE 2

Sua Excelência D. Sylvain Bataille, na qualidade de Arcebispo de Bourges, considerou oportuno divulgar alguns “pontos de referência para compreender a situação” referente às sagrações episcopais da Fraternidade São Pio X( 1).

Fonte: La Porte Latine – Tradução: Dominus Est

É possível colocar-se acima da Igreja, rejeitar um Concílio que reuniu os bispos de todo o mundo? É possível considerar que, há mais de 60 anos, 7 papas sucessivos, os 8.000 bispos do mundo — com poucas exceções — e a imensa maioria dos sacerdotes e fiéis teriam abandonado a verdadeira fé? Na raiz de todos os cismas, sempre se identifica a mesma tentação: a de acreditar que só se detém a verdade, que só se é fiel, que só se é puro, que só se pode salvar a Igreja.

A unidade da Igreja seria, então, a de uma maioria?… Se fosse esse o caso, já se poderia reverter a questão contra seu autor e perguntar-lhe: “Pode-se rejeitar, em nome do ecumenismo, da liberdade religiosa e da colegialidade, cerca de vinte concílios ecumênicos que reuniram os bispos de toda a história?” Pode-se considerar que, durante quase 2000 anos, 260 papas sucessivos, juntamente com os bispos, os padres e os fiéis, teriam cometido graves erros na fé, desconhecendo os verdadeiros princípios da eclesiologia e da doutrina social?”. A bem ver, sim, se a unidade da Igreja é a de uma maioria, foi justamente a Igreja do Concílio Vaticano II que sucumbiu à tentação de acreditar que é a única detentora da verdade, é precisamente a Igreja desses 7 papas, que há mais de 60 anos pregam uma nova eclesiologia e uma nova doutrina social, que sucumbiram à tentação de acreditar que é a única a ser pura, a ser fiel e a poder salvar as almas. É essa Igreja que seria, de fato, cismática.

Em um sentido mais profundo, e na realidade, a unidade da Igreja não é a de uma maioria, pois não se trata da unidade de um sujeito. É a unidade de um objeto, a da única verdade da verdadeira fé, tal como o Magistério divinamente instituído a recebe de Cristo e dos apóstolos para transmiti-la de geração em geração, e até o fim dos séculos, fiel e infalivelmente, conservando-lhe sempre o mesmo significado. A unidade da Igreja é a da profissão pública e social da verdadeira fé e do verdadeiro culto, sob a direção do governo estabelecido por Deus para esse fim. O fracasso maciço — embora não total — que assola o interior da Igreja desde o último concílio ecumênico é um fato que somos obrigados a constatar: os homens da Igreja, desde o Concílio Vaticano II, afastam-se da verdadeira fé e do verdadeiro culto, sob o pretexto de um ecumenismo destrutivo, em nome de uma falsa liberdade de perdição repetidamente condenada por seus predecessores, na ilusão de uma sinodalidade e de uma colegialidade incompatíveis com a constituição divina da Igreja. E é para permanecer fiel à Igreja, no triplo vínculo de sua fé, de seu culto e de seu governo, que a Fraternidade se opõe a todas essas reformas decorrentes do último concílio, a ponto de tomar as medidas necessárias para perpetuar a transmissão do depósito divino, por meio de um episcopado verdadeiramente católico e fiel.

Isto, com todo o respeito ao Arcebispo de Bourges, não pode estar “em ruptura com a Igreja Católica”. Não, os bispos da Fraternidade não têm a pretensão de arrogar-se um poder ordinário de jurisdição que somente o Papa pode conferir. “Ser bispo”, afirma Dom Bataille, “é ser chamado pelo Papa para entrar no colégio apostólico, ou seja, o colégio dos bispos em torno do sucessor de Pedro”. Encontramos aqui o mesmo sofisma tantas vezes denunciado, que pretende valer-se da ambivalência intrínseca da palavra “bispo” (2). Essa mesma palavra pode, de fato, designar duas realidades bem diferentes: por um lado, o titular do poder de ordem recebido pela consagração episcopal; por outro, o titular do poder de jurisdição recebido pelo ato de vontade do Papa. Os bispos da Fraternidade são o que são no primeiro sentido desse termo, não no segundo. A ruptura só poderia advir de uma usurpação de jurisdição, o que de forma alguma ocorre aqui por parte dos bispos da Fraternidade.

A ruptura, infelizmente, vem da atual liderança da Igreja. Basta consultar o site da Diocese de Bourges para ter uma ideia disso, na página das novas nomeações anunciadas para o mês de setembro de 2026 (3). Em nome da sinodalidade, sem dúvida, onze fiéis leigos — um homem e dez mulheres — foram nomeados responsáveis pelos diversos serviços diocesanos. Entre eles, encontra-se — confiado a uma mulher — um serviço diocesano de ecumenismo, ao qual está vinculado (sob a jurisdição da referida senhora?) um padre responsável pelo ecumenismo. Por fim, nota-se a presença de um cônego delegado episcopal para as celebrações e a pastoral “segundo o rito antigo”, o que relega o verdadeiro culto da Igreja ao status de rito acessório, em perfeita conformidade com o Motu proprio Traditionis custodes. Pode-se bem afirmar: em Bourges, assim como em outros lugares da França e em todo o mundo católico, “o sopro da revolução já passou”…

É justamente para manter o ar puro da verdadeira fé que a Fraternidade quis dar à Igreja novos bispos, na fidelidade à Tradição herdada de Cristo e dos apóstolos ao longo de dois milênios.

Continua…

Pe. Jean Michel Gleize, FSSPX

Notas

  1. https://www.diocese-bourges.org/actualites/16137-les-orderd-inations-episcopales-de-la-fraternite-saint-pie-x-points-de-repere-pour-comprendre-la- situation-editorial-de-monseigneur-bataille/ 
  2. Veja os artigos publicados nas edições de abril, maio e junho do Courrier de Rome
  3. https://www.diocese-bourges.org/actualites/16139-annance-des-nominations-nouvelle-edition/