Pode um cristão viver com dinheiro sujo?
Sermão do VIII Domingo depois de Pentecostes
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
Celebramos o oitavo domingo depois de Pentecostes. O Evangelho nos apresenta uma parábola singular de Nosso Senhor, na qual Ele louva o administrador infiel: aquele que, fraudando ainda mais o patrão, faz esmola com bens que não são seus. E, no entanto, o Senhor louva a sua astúcia — uma “misericórdia”, diríamos entre aspas — e dá um conselho que também soa estranho:
Fazei-vos amigos com o dinheiro da iniquidade — mammona iniquitatis —, para que, quando morrerdes, vos recebam nas moradas eternas.
Mammon é uma palavra de origem semítica para designar o dinheiro. Era costume acrescentar-lhe esse adjetivo — dinheiro da iniquidade —, precisamente neste contexto evangélico.
O dinheiro como “dinheiro da iniquidade”
Alguém poderia pensar que Nosso Senhor, ao pôr o exemplo de um administrador desonesto, quer nos dizer: com maior razão fazei esmola com dinheiro honesto, bem ganho, que seja verdadeiramente vosso. Mas o adjetivo de iniquidade, se se reflete um pouco, corresponde a todo dinheiro. Sempre foi assim; mais ainda em tempos em que as sociedades se desordenam e se afastam da justiça ao se afastarem de Deus.
Se se fizesse a história de cada cédula que chega às nossas mãos, talvez não a pegássemos. Um vendedor — o senhor Pedro, aqui perto —, se vende a quem sabe que é ladrão e que compra com dinheiro roubado, faz de certo modo o mesmo que comprar o roubado. É um dinheiro que talvez tenha custado ao dono uma cabeça rachada, a alma em depressão e aos filhos a miséria; e depois a gente o recebe, ainda que venda a preço justo, dizendo-se: “Eu não o roubei; somente vendo no meu negócio”.
O que ocorre no comércio pode ocorrer de tantas outras maneiras. Quem recebe um salário; a mulher que trabalha na casa de um desonesto ou de um usurário pode receber dele o seu ordenado. Os tratados de moral ensinam que, se há necessidade grave e ela não tem outro lugar onde trabalhar, o trabalho dela é honesto e pode recebê-lo. Mas se pode trabalhar em outra parte, receber um dinheiro mal havido não está bem: é dinheiro da iniquidade.
Também quem recebe hoje o salário do governo — quando se repartem tantas pensões e pequenas ajudas, de que o povo precisa — recebe-o numa ordem social tão estragada, tão injusta. É dinheiro que se reparte, mas que por outro lado se está tirando injustamente: a agricultores, a empresários, com impostos exagerados, com um sistema cada vez mais ideológico. Não julgo aqui casos concretos. São riquezas injustas, mal havidas, que, se há necessidade, podem ser recebidas; mas não deixam de ser dinheiro da iniquidade.
O sistema monetário atual
Tampouco basta pensar que as cédulas novas não têm história e, portanto, seriam mais “sadias”. A própria fabricação de dinheiro sem lastro, que produz inflação, é um modo de tirar — de roubar — um pouco do bolso de cada um. Esse é o dinheiro que se recebe.
O dinheiro que circula por todo o sistema bancário faz parte de um sistema usurário – com maneiras novas de usura, não menos graves que as tradicionais. Hoje tudo funciona assim. Já não se pode receber um salário senão por cartão bancário, e os valores depositados no banco entram nesse mesmo sistema de iniquidade. Sempre foi um pouco assim; hoje, muito mais.
Por algo se vê no Evangelho que Nosso Senhor nunca quis tocar o dinheiro. Várias vezes aparece com clareza: o têm os Apóstolos; entre eles, Judas administra a bolsa apostólica das esmolas e ajudas. O Senhor não a toca. No entanto, é necessário usá-lo. Quando São Pedro deve pagar o imposto que pedem a Nosso Senhor, Ele lhe diz que vá, lance o anzol, e que na boca do primeiro peixe encontrará a moeda com que pagar. Muito provavelmente o Senhor nunca tenha tocado um papel-moeda nem uma moeda; e, de menino, sem dúvida São José teve de se haver com esses negócios. De cada moeda Ele conhecia a história: uma história que, de certa maneira, sempre é de sangue e de lágrimas. Dinheiro da iniquidade.
Necessidade do dinheiro e seu uso moral
Não podemos dizer tão tranquilos que o dinheiro que temos no bolso é completamente honesto: teríamos de fechar os olhos a muita coisa. E, no entanto, é tão necessário ganhá-lo. Há uma obrigação diante de Deus — sobretudo para o pai de família — de ganhar o pão de cada dia, um pão cada vez mais caro. Muitas vezes a mãe, se não há o necessário, deve deixar os filhos; e não convém que falte a presença da mãe no lar, ao menos a maior parte do dia.
É grave sofrer necessidade de saúde, de comida, de vestido, de uma casa que não desabe. Os problemas econômicos rompem com facilidade uma família. O pai de família tem de se preocupar diante de Deus para que, na medida do possível, não seja necessário que a esposa também trabalhe, embora nestas sociedades isso ocorra cada vez mais. O dinheiro é necessário; e, com tudo isso, é dinheiro da iniquidade.
Obrigações de restituição e de caridade
Aquele que rouba deve, por certo, restituir o roubado se quer estar limpo diante de Deus. Quem compra algo roubado — ainda que seja pelo preço devido e não excessivamente barato —, se não tem claro de onde provém o que adquire, e mais ainda se sabe que é roubado, tem obrigação de restituir. Se não se sabe quem é o dono, deve restituir de alguma maneira à sociedade, ao menos mediante obras de misericórdia e esmola. É obrigação moral.
Noutros casos — por exemplo, o da mulher que trabalha na casa de quem ganha mal o dinheiro — não há obrigação de restituir. Contudo, como já se disse, ela não pode permanecer nesse trabalho se não for por necessidade muito grave. Assim que puder viver de outro modo, tem obrigação moral de afastar-se dessa situação. É um dinheiro que não pode desperdiçar; e se há algo além do necessário, há também uma exigência moral de dar o supérfluo em obras de misericórdia.
Tanto pela dificuldade de ganhá-lo — que já obriga a cuidá-lo — quanto, e isto é o que agora aponto, pela injustiça com que se move toda a sociedade, há uma obrigação moral, de ordem distinta segundo a situação de cada um, de não esbanjar o dinheiro. O que se tem um pouco além do necessário traz consigo a obrigação de fazer esmola e de exercer a misericórdia.
Hoje, em sociedades tão injustas, não há nenhum dinheiro de todo claro, embora a todos corresponda, em maior ou menor grau, o adjetivo de iníquo: mammona iniquitatis. Nenhum rico pode estar tranquilo com a sua riqueza. Alguns, pela profissão, pelo comércio ou pelos negócios, ganham dinheiro sem que isso seja de maneira claramente desonesta. Ainda assim, todos têm a obrigação de usar de outro modo esse dinheiro, porque ele está sempre como que manchado de sangue e banhado de lágrimas.
Espírito de pobreza cristão
A necessidade de dar esmola e de usar para o bem dos outros o que não é tão claramente nosso existiu sempre entre os homens; hoje se dá com maior força.
O espírito de pobreza é uma das características mais claras e marcadas de Nosso Senhor. Ele não fez dos jejuns e penitências o traço principal da sua vida, salvo em alguns momentos. Em troca, é patente n’Ele a pobreza, o espírito de pobreza e um certo horror — com toda razão — ao dinheiro. “Bem-aventurados os pobres” é a primeira das Bem-aventuranças, porque deles é o Reino dos Céus. É uma condição permanente do cristão.
Num mundo em que o dinheiro é tão facilmente instrumento do mal e instrumento do demônio — e do qual está profetizado que, na medida em que cresça a iniquidade, será o meio privilegiado para afastar o homem de Deus —, São João nos diz no Apocalipse que, nos tempos do Anticristo, ninguém poderá comprar nem vender sem ter a marca da Besta, a marca do inimigo de Deus.
Obrigação moral de usar bem o dinheiro
O espírito de pobreza e o saber usar as coisas com tanto cuidado são necessários. O dinheiro é condição da vida do homem. É duro estar doente e não ter com que comprar os remédios nem com que ir ao médico; é duro para um pai ver os filhos sofrerem fome ou não ter com que se cobrirem. Essa dureza é fonte de tantos conflitos. O dinheiro é necessário, mas há que usá-lo como dinheiro da iniquidade: com muita sobriedade e com clara consciência de uma grande obrigação moral. Não ficar cômodo quando há um pouco a mais; olhar para os outros; usá-lo não somente para as coisas próprias; não ficar no luxo ou numa comodidade excessiva. Isto vale para todos.
E vale ainda mais para os religiosos e para os sacerdotes que vivem da esmola dos fiéis. Assim como São Pedro, com o seu peixe, já tinha ouvido de Nosso Senhor que seria pescador de homens, sois vós, de certo modo, quem trazeis nas vossas bocas as moedas necessárias para o clero e para a vida religiosa. Quanta obrigação tem o religioso de usar esse dinheiro para Deus, de verdade, com tanto cuidado. Não quero ofender a ninguém: ele não deixa de ser dinheiro da iniquidade, e assim há que usá-lo. Na medida do possível, empregá-lo no necessário — no muito necessário — e, no restante, olhar a necessidade geral da sociedade e dos outros, sabendo que se tem essa obrigação de esmola.
A Providência divina
E Deus nunca nos faltará na sua Providência. «Buscai o Reino de Deus»: tão longe andam os nossos países, nestas sociedades, de que Deus reine nelas. Buscando o Reino de Deus, Nosso Senhor proverá de tudo o mais. Ele sabe que precisamos desse dinheiro da iniquidade.
Administradores infiéis: um pouco o somos todos. Nunca é de todo claro nem de todo nosso. E, no entanto, Nosso Senhor nos diz: saibamos fazer esmola com o dinheiro da iniquidade e assim ganharmos uma morada noutro estado, nas moradas eternas, onde sim haverá toda justiça e santidade.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.