A ABSURDA DEFESA DA FAMÍLIA

AS VIRTUDES DA FAMÍLIA CATÓLICA | DOMINUS EST

Por Dardo Juan Calderón

Fonte: Adelante la fe – Tradução: Dominus Est

No século XX, alertava-se acerca do fato de que a família, como instituição formadora, estava sendo atacada por um sistema liberal individualista, que apontava seus canhões sobre o princípio de autoridade, pilar fundamental de toda instituição. Contudo, ninguém tinha dúvidas sobre as vantagens emotivas de ter uma família e a reprodução tinha seus números mais altos. O que se questionava é se essa família impunha a seu integrante – na qualidade de herdeiro sem benefício de inventário – uma concepção de ordem, uma cosmologia que condicionasse seu recebedor para o resto de sua vida. Aos mais avisados, não se ocultava que essa cosmologia era a essência mesma da instituição, que não era nada além da religião católica – e que, uma vez escamoteada, tudo cairia por seu próprio peso, inclusive a agradável tarefa de se reproduzir. A família é para continuar o religioso, ou se torna uma carga insuportável.

O assunto vinha de um século antes, pensado como estratégia para romper os esquemas sociais estabelecidos pelo “Antigo Regime” mediante o Código Civil Napoleônico que rompia com os patrimônios familiares, debilitando a coesão social e aumentando a pressão do Leviatã. Os confusos desvios monárquicos do corso e seu acordo (vergonhoso) com a Santa Sé, acordo que pariu o ralliement, fez com que muitos católicos perdessem a clara consciência de que o liberalismo atacava concretamente a Ordem Católica, a Cosmologia Católica e o Antigo Regime somente enquanto sustentava o mundo católico; mas poder-se-ia até salvar o sistema monárquico – desde que não fosse católico, como na Inglaterra. Cresceram crendo que a discussão era assunto de políticas em que se devia fazer acordos e acomodar-se, para desse modo poder seguir sendo católicos – mesmo com o mundo sendo diferente.

O século XI deu a entender, para toda Europa, que o Catolicismo poderia ser apagado da história – as lojas festejavam de antemão seu desaparecimento. Mas de modo surpreendente as instituições católicas fizeram força para se sustentar como somente o ser consegue ante o nada – uma força, poderíamos dizer, ontológica –  na qual o mesmo mal ajuda na sobrevivência, como o parasita que não quer matar seu hospedeiro (muitos maçons famosos ditarão sábias máximas familiares). Isso encorajou aos católicos, que não se deram conta do patente: que, em sua luta pela sobrevivência, suas instituições se contorcionavam, se deformavam, como se deforma um corpo na masmorra com pouco ar e luz.

Nosso ser é social é a sobrevivência que busca é também social, esse prisioneiro se pendurava nas grades da janelinha tratando de manter diálogo e de receber o que pudesse de fora – mas o processo distorceu todas as suas formas até tornar as instituições católicas quase irreconhecíveis. Não é preciso ser muito heideggeriano para saber que ser, na condição terrena do pecado, é ser para a morte e não há nada mais absurdo do que resistir. A Igreja saiu da prisão no Concílio Vaticano II já completamente desfigurada. O inimigo havia aprendido a lição que o ser e o bem se sustentam de modo incrivelmente tenaz e ele, o anjo caído, ausência de bem, maldito demolidor (desconstrutor) pode somente, como aquele Maldoror dos cantos do Conde de Lautremont, deformar, enfeiar, desnaturalizar, mas não tem o poder de matar. O fracasso de sua intenção niilista já foi patente com Aquele Nazareno; não é a morte o reino infernal do demônio, mas ele reina no horror de uma vida de oposição e destruição controlada. Aprendeu que não somente Deus não morreu, também não deve morrer; deve ser falsificado.

A família é uma instituição católica, não há nem houve outra família (deixo para outras reflexões o fundamento dessa afirmação) que pudesse ser dita como tal, mesmo nas civilizações antigas. Sua luta por SER, e por ser em sociedade, que é tão louvável no ponto de vista que chamamos ontológico, levou-a a uma brutal desnaturalização e desfiguração por não querer morrer, por não aceitar seu fim. Sua persistência e sua obstinação foram sua cama de Procusto, como aconteceu com a Igreja moderna.

Geme Maldoror: “Pai do céu ajuda, chama as desgraças que podem cair sobre nossa família… mãe, me estrangula… pai, ajuda-me… não posso respirar mais… sua bênção” E com ele podemos concluir com essa súplica inaudita: “Seu coração já não clama mais. Ela morreu no mesmo momento de suas entranhas, fruto que não posso reconhecer mais; está totalmente desfigurado… Minha esposa!… Meu filho!… Recordo um tempo distante no qual fui esposo e pai.”

O ser tende à eternidade e se esquece que deve morrer para transpor sua estreita condição existencial que, embora tacanha, ama a si mesma de todo coração até o ponto de confundi-la com a eternidade. No afã de viver, se torce e tenta o infinito por meio da vida, do bem ou do mal (tanto faz) enquanto se respeite sua vida, vida de mil formas insensatas. Sim, somos seres e seres sociais, mas a morte anulará as duas condições. Todas as coisas para poder alcançar o verdadeiro infinito devem enfrentar essa morte, esse deixar de ser, deixar de ser para morrer sozinhos. A Igreja precisou abandonar sua vontade de vida e enfrentar sua Paixão para poder seguir sendo Igreja e emular seu Fundador, a família deve hoje enfrentar sua Paixão para seguir sendo família. O desejo de viver a todo custo desfigura, a obediência de morrer no momento correto transpõe a uma vida superior, a um novo ser e a uma nova sociedade.

Não se poderá prescindir da família, assim como não se pode prescindir do ser, mas ambas realidades estão se tornando irreconhecíveis em sua vontade de subsistência. A Família ou se sobrenaturaliza ou engendrará monstros. Aquela que ao viver era a célula fundacional do social, hoje em sua gana de sobreviver é uma paródia cruel do humano. Ao saber enfrentar sua Paixão e Morte, seria a primeira fagulha do Céu.

Todos os esquemas defensivos que se buscam para conseguir sua sobrevivência, que outrora foram louváveis, hoje são apenas caretas que enfeiam o rosto. Sua abertura ao social, sua disposição ao econômico, seu interesse por se sustentar apesar dos defeitos humanos, apesar da traição da maternidade e paternidade… antes dirigiam-se para o ideal católico, e hoje são apenas atos desesperados de sobrevivência que cada vez mais a afastam do paradigma. O que era causado pelo amor hoje é produzido pelo espanto.

Os velhos sabemos que há um ponto em que seguir agarrando-se à vida converte a pessoa no ser mais ignóbil que habita a terra. Uma máquina em decomposição concentrada apenas em engolir, defecar e respirar a todo custo, mesmo incomodando a todos. E embora não seja legítimo acabar com a própria vida, tampouco é estendê-la por qualquer meio. A morte só pode ser combatida sem prejuízo da honra quando se é jovem e quando se tem cargas a levar, e por isso não se dá o triste espetáculo da resistência. A morte é mistério, ou é absurda, e se deve escolher. É Cristo quem reina sobre a morte e assim como Ele decidiu sua hora, também temos de deixar que ela eleja a nossa sem tanta admiração. A medicina moderna fez do homem um triste espetáculo com vil final.

Tudo o que é deve deixar de ser em seu momento adequado e todo esforço que se produz além dessa hora destrói a razão e sentido da existência, deixando a recordação do mal gosto da covardia e dando, em seu fim esnobe, razão a todos os inimigos.

A família católica está chegando nesse ponto, perante um mundo que lhe exige a deformidade e ao grotesco para poder existir; está ratificando todas as reprovações que dela faziam seus detratores, não levando a lugar algum inclusive no ponto de vista emotivo. Os pais já nem sequer impõem freios, apenas trabalham e se mantêm dentro do meio social com unhas e dentes, entregando seus filhos a alguns profissionais pagos, provavelmente católicos, metidos na mesma contradição. “Olhai!” dirão “essa é finalmente a família católica!” Uns pobres tipos adotando todos os vícios da modernidade para poder ter o direito de ser. De ser o quê? Uma união para sobrevivência física mesquinha e sobrevivência espiritual retorcida.

É claramente mais lógico o homem atual que não quer repetir o mau modelo do espírito e se aferra a uma vida materialmente cômoda, que não quer se comprometer com ninguém, nem se reproduzir, nem se apaixonar. Não quer essa versão triste e deformada que cada vez dá frutos piores: homens e mulheres que se entregam pela metade, e aos quais ninguém agradece no final.

E então? Então deve-se “guardar a forma” apesar dos piores augúrios e estar dispostos a morrer. A morrer socialmente, a morrer economicamente, a não tentar recorrer a nenhuma das “defesas” que a desnaturalizam: o trabalho moderno, a educação moderna, a religião moderna, todas invenções que queremos emular mas com uma pátina de catolicismo. O ansiado prostíbulo católico. Que faz com que um pai não seja um pai, e uma mãe não seja uma mãe, mas dois profissionais que se imolam para salvar os filhos do ostracismo social, percebendo mais e mais com maior evidência que devem salvá-los de si mesmos; que desnaturalizaram sua família para poder resistir como família. Que no fundo, e na forma, são iguais a todos os outros – exceto no fato de terem se reproduzido, e de que têm de resolver sem muitas ganas nem vocação esse problema.