A BOCA TRANSBORDA DAQUILO QUE O CORAÇÃO ESTÁ CHEIO

“OS CÃES LADRAM, E A CARAVANA PASSA”

“A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito precede a queda”

Nas últimas semanas, desde o anúncio oficial da Fraternidade São Pio X sobre as sagrações que se realizarão, pela graça de Deus, no dia 1º de julho, em Écône, o mundo intelectual católico entrou em uma verdadeira frenesi, com debates e mais debates sobre a licitude da ação dos sucessores da obra de Dom Marcel Lefebvre.

Debates, aliás, que se pretendem de alto nível, e cujo propósito é esmiuçar as razões, os motivos, os argumentos que têm conduzido nossos superiores em suas decisões.

Aos que não perceberam, praticamente toda a argumentação da Fraternidade São Pio X orbita em torno do estado de necessidade, que, para alguns, não existe, pois não faria sentido aludir a uma situação que já perduraria por quase 40 anos – há situações que cremos que só serão resolvidas com o fim do mundo! -, enquanto, para outros, as razões permanecem, e se agravam a olhos vistos.

Este é o primeiro ponto necessário para entender a questão, e é justamente por isso que há todo um esforço para diminuir, ou até mesmo deslegitimar, as premissas dessa tese.

O segundo é entender que a origem desse estado reside no Concílio Vaticano II e em todas as “reformas” produzidas a partir de seus textos ambíguos.

Ainda que pareçam simples, tais pontos constituem, em todo caso, um tema complexo, sério, que deveria ser exclusivo das mais competentes personalidades no campo teológico e jurídico.

Ocorre que, infelizmente, por razões que fogem à nossa compreensão, ou das quais não podemos fazer um juízo temerário, as autoridades do Vaticano não estão dispostas a levar este debate a cabo. À Igreja que sempre primou pelo debate saudável de tudo aquilo que não é dogmático – e o Concílio Vaticano II se apresenta como não dogmático – sobreveio uma Igreja que está aberta a todo tipo de discussão herética e mundana, mas que rejeita com violência qualquer questionamento que coloque em xeque doutrinas e procedimentos que não têm ligação com a Tradição católica.

Não é difícil perceber que o que os papas de outrora excomungaram, os conciliaristas readmitiram, gerando perplexidade entre os católicos bem formados.

Diante desse cenário, podemos afirmar sem qualquer escrúpulo que a Fraternidade São Pio X, e não só ela, mas principalmente ela, constitui-se num meio providencial para proteger aqueles que não querem fazer parte da destruição da Igreja, uma destruição que é promovida a partir de dentro, por essas mesmas autoridades, que reconhecem o mal, mas temem em nomeá-lo.

Ela, essa pequena Fraternidade, não se arroga ser a catolicidade. Ela propaga o que sempre foi crido no catolicismo, sem rodeios, sem atenuantes. Ensina a verdadeira moral, ministra os verdadeiros sacramentos, diz a Missa segundo o missal romano, cujo rito se desenvolveu, de forma orgânica, dos apóstolos até a Reforma, numa perfeita paz, sendo preservado de qualquer mudança, em razão de Lutero e de seus sectários, por São Pio V, que o codificou e o eternizou na bula Quo Primum Tempore: “Se alguém, contudo, tiver a audácia de atentar contra estas disposições, saiba que incorrerá na indignação de Deus Todo-poderoso e de seus bem-aventurados Apóstolos Pedro e Paulo”.

Guardamos a fé, guardamos a moral, guardamos a catolicidade. Somos católicos, ainda que discordemos parcialmente da autoridade reinante, pois nem ela está acima da verdade.

Assim, desde sua fundação, a Fraternidade São Pio X mantém a mesma conduta, combate pelo mesmo objetivo: a restauração das verdades católicas em seu todo.

Quer dizer que na paróquia da minha esquina não se ensina mais o catolicismo? Não, nunca foi dito isso. Este é o argumento que nos imputam para que as pessoas não se conscientizem sobre os problemas que corroem a fé.

Todavia, dificilmente encontrará uma paróquia onde a verdade não será ensinada junto com o erro, onde o veneno não será inoculado em pequenas doses, em cada cerimônia, transformando os fiéis, aos poucos, sem perceberem, em adeptos de uma religião que não é mais sobrenatural, mas puramente naturalista e relativista. Dirão: tudo salva, tudo é bom, tudo é permitido, o inferno não existe, o que importa é o coração, o que importa é ser feliz, tanto faz a roupa, o linguajar, somos todos filhos do mesmo Pai; a “Igreja” se modernizou, agora ela fala como o mundo, todos somos irmãos, todos os caminhos são válidos, abraçamos a todos os pecadores, independente do arrependimento, abraçamos, abraçamos todos, todos, todos. Infelizmente, menos estes católicos!

Prosseguindo, combatemos pela restauração do catolicismo integral, sem ambiguidades. Combatemos em um profundo estado de necessidade, onde as próprias autoridades são incapazes – presumimos – de nomear as fontes dos males que nos atormentam. E em razão disso, para guardar a fé, recorremos a padres que foram formados de acordo com o ensino pré-conciliar, recorremos à Fraternidade São Pio X.

Do ponto de vista prático, é tudo muito simples, ainda que os nossos motivos sejam objeto de debates acalorados.

E aceitamos esses debates, aceitamos dialogar, sem, contudo, renunciar ao que cremos, o que, para a geração mimimi, pode parecer grosseiro. O debate sempre será bem vindo, quando feito com honestidade, com decência.

Aceitamos também a falsa qualificação de cismáticos, de desobedientes – novamente, como Satanás deu um golpe de mestre nos católicos -, de sermos “contra o papa”, aceitamos adjetivos como radtrad. Nada disso nos afeta, não nos diz respeito. As pessoas precisam aprender a separar a intenção – que só Deus conhece – da propaganda de nossos inimigos.

O que não aceitamos, contudo, é a malícia e o mau-caratismo, a mentira – a dos 50% de deserção foi o ápice da fabulação.

E foi justamente isso que sobressaiu, nestes dias, na esgotosfera brasileira, em uma dita página “católica”.

Certo indivíduo histriônico, que entre palavras eruditas e frases bem construídas faz uso de um linguajar digno da pior rodinha de birosca de discípulos Obrolavetianos, quis inocular seu veneno em um ataque ad hominem.

Vejam só! A Fraternidade São Pio X jamais utilizou os pecados das autoridades eclesiásticas para deslegitimar seus argumentos. Os erros promovidos por meio de documentos, encíclicas, bulas ou o que quer que seja são combatidos pelo que são: e não por quem os promove.

E como qualquer organização composta por homens, tal como toda a Igreja – ainda que esta seja de natureza divina -, a Fraternidade São Pio X jamais se apresentou como a morada dos imaculados, de seres que não cometem pecados.

E diferentemente das insinuações e da malícia que o sabichão pretende instilar, em todos os casos de desvios morais de seus padres, as autoridades agiram com prudência e zelo, tal como a Igreja sempre fez – ou seria justo dizer que as autoridades eclesiásticas se constituíram numa fábrica de acobertamento porque agem com prudência?

Além do mais, dói ver um indivíduo consagrado fazer uso da miséria das pessoas para alimentar seu circo dantesco. Constatar que este senhor jamais teve a compaixão e a caridade de pedir àqueles que o idolatram para rezarem por todos os fiéis que ele insensivelmente se alegra em demonizar já deixava qualquer indivíduo de bom senso em alerta. Mas, agora, manipular dramas pessoais para tentar difamar e pousar de vitorioso numa conversa na qual ele fala com as paredes – afinal, debate exige a participação da contraparte -, é o cúmulo!

Utilizar polêmicas atrasadas, como sempre faz, dando ar de novidade e eloquência a assuntos já batidos e refutados no meio tradicionalista europeu – como podem ver nos inúmeros textos aqui publicados -, requentando casos cujas devidas providências foram rigorosamente tomadas; fazer uso de predadores sexuais, psicopatas, embusteiros, efeminados que se escondem atrás da batina para denegrir uma congregação religiosa não é só abjeto, também indica o nível de mau-caratismo daquele que quer gritar pela “imoralidade” dos outros, ao passo que glorifica um “trabalho de limpeza” que só existe em sua percepção subjetiva.

Os casos apresentados por esse senhor – aguardamos o dossiê que ele fará de sua própria diocese, afinal, não se trata de perseguição ou de falta de compaixão, se trata da isenta apresentação de fatos! – não são insignificantes. São escândalos promovidos por traidores. E só! Não diminuem em nada o trabalho institucional da Fraternidade, nem a transformação moral que Deus, por meio de seus padres, opera em milhares de famílias e indivíduos.

Uma árvore podre não pode produzir bons frutos. E os milhões de bons frutos produzidos nas capelas – inclusive elogiados em um dos libelos do sabichão – estão aí para testemunhar contra as maçãs podres que eventualmente surgem em nosso meio. Se querem conhecer a vida real, longe do mundinho imaginário da mente de um doutor qualquer, basta se dirigirem a uma capela, conversar com as pessoas sem os preconceitos estabelecidos, viver em uma comunidade católica tradicional – o uso do qualificativo tradicional busca apenas distinguir os católicos que seguem os ensinamentos pré e pós Concílio. Verão que será libertador.

Por tudo isso, recusamo-nos a fazer parte deste tipo de discussão, ainda que manifestemos nossa consternação. Ela só demonstra que esse senhor não entendeu nada da razão de ser da Fraternidade.

E que esse tipo de procedimento se restrinja à turba emocionada da internet, com seu deus de barro, que aprendeu com o meio político a arte de criar dossiês para tentar diminuir o adversário. Talvez por isso o “trabalho de limpeza” tem sido tão eficiente nas paróquias e dioceses: benditos dossiês!

Robson Carvalho

Um zé-ninguém sem doutorado