
Fonte: Ultramontano
[Nota do Editor: El Wanderer é um triste blog argentino, produzido por um grupo de tias velhas que sublimaram a hombridade num continuísmo católico bem… “cultural” (é assim que estão chamando essas coisas agora!?). Publicamos este texto, em parte, para que nossos jovens não se individuem seguindo essas dondocas – nem com o carlismo, aliás, que não anda muito melhor.
As damas podem parar de ler agora e ir ler “O Despertar da Senhorita Prim”]
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O Wanderer é um personagem de ficção, atrás do qual se pode supor que haja um ou vários, o que permite traçar um perfil psicológico de quem está por trás. Imagino que é um gordinho nerd, criado por alguma tia solteira, que sofreu na infância os abusos dos garotos esportistas, e com tendências homossexuais reprimidas; depois estudante de alguma faculdade de Filosofia e Letras, onde a companhia majoritariamente feminina finalmente lhe deu paz, por aquilo de as mulheres terem uma fraqueza (nascida do instinto maternal protetor) pelos maricas – com o acréscimo de que a companhia do referido, amena e delicada, não compromete a decência delas em falatórios, nem provoca ciúmes nos seus homens.
As argumentações e o estilo do Wanderer são bastante efeminados e com gosto pelas questões litúrgicas, o que se explica pelo dado principal de que o seu Magister Vitae é Louis Bouyer, ex-pastor luterano, especialista e erudito em liturgia protestante, que “oportunamente” se converteu ao catolicismo para entrar no círculo de liturgistas que confeccionaram a Reforma Litúrgica de Paulo VI, conversão que convinha para que não recaísse a acusação de que intervieram protestantes. Promotor tímido do sacerdócio feminino no Catolicismo, marica se os há (provei-o noutro artigo), mas da velha guarda; os que Pérez-Reverte chama de “p**** de infantaria”, dos sofridos de antes e não dos estridentes de agora. De forma delicada, e não rebolando.
Em literatura chama a atenção a sua marcada preferência pela Srta. Prim, que serve bem a meninas adolescentes de um colégio de freiras, mas é suspeita num varão (nos meus anos moços não se podia nem confessar tal leitura). Enfim, não nego que sou simplista e abrupto, mas pertenço a uma época em que, se você comia com quatro talheres, não limpava a boca na toalha e não molhava o pão na saladeira, era veado. Sem mais. E essa velha e cruel prevenção bem se justifica agora, com tanto sodomita que nos foi servido em modos cuidadosos e asseios refinados.
O ponto é que, em artigo recente, ele despeja todo o seu ressentimento contra a FSSPX porque, com seus modos de “jogador de rúgbi”, provocou uma “reação inversa” dos delicados vaticanistas; os que, uma vez contornado o grosseirão do Bergoglio, estavam no ponto para um rearranjo afetado da Liturgia. Mas nós estragamos tudo. E o argumento apresenta, em alguma medida, certa verdade.
O argumento não é dele. É de Bouyer. Este sustenta que a culpa da avalanche modernista, iconoclasta e grosseira, por uma reação dialética, foi a intemperança do Integrismo Católico Ultramontanista, que já vinha aprontando as suas desde Trento. Os Pios, erva daninha; os loucos como o cardeal Pie, implacáveis diante de qualquer mudança; Delassus e a sua teoria conspiratória; o Vaticano I com a sua turma contrarrevolucionária intolerante e a sua dogmática implacável, herdeiros do obtuso e esquemático Tomás de Aquino. Wanderer apontou São Pio X como um tirano parecido com Bergoglio (depois apagou o artigo) e defendeu o direito de ser católico sem ser tomista. O conservadorismo anglo-saxão já tinha agitado esse argumento, entendendo que a Revolução Francesa foi produto de uma aristocracia (entre nobre e já burguesa) que queria se livrar do Absolutismo. Eles, os conservadores ingleses, tinham feito a Grande Revolução conservadora.
E agora, diz o Wanderer (embora forçando um pouco os argumentos), a história se repete e ele quer provar a tese de Bouyer. Leão era a síntese, para a revolução conservadora, e os rad-trastes integristas o puseram, extorsivamente, entre a espada e a parede com o tema do Concílio Vaticano II (sabendo que é um fato que não podemos rejeitar, porque é história, e a história não se pode mudar), obrigando-o a reagir mais à esquerda ao ter de defender a ordem e, por isso, levando-o a condenar até a Missa Tridentina. Nous les chiens. Que mordemos porque mordemos. (Retenham o argumento da história como “algo que se deve aceitar”.)
Repito: há algo de verdade nisso. Toda resistência que não detém o inimigo provoca um aumento da violência no ataque. Exaspera a luta. Se Cristo tivesse sido um pouco mais condescendente com os fariseus, não teria morrido; Pilatos estava disposto a buscar uma saída.
Bouyer, no seu livro Le métier de théologien (O ofício do teólogo), faz um jogo de contraposição entre o “In illo tempore” (naquele tempo) e o “Hic et nunc” (aqui e agora) do Evangelho, e entende que cabe ao teólogo trazer o daquele tempo para o aqui e agora, “revivê-lo”, tarefa mais própria da Liturgia, que é onde de fato se produz essa “revitalização” do antigo. Mas é uma revitalização que deve levar em conta a História e não ser simplesmente um “In illo tempore”, para que possa ser traduzida em hoje e aqui. Ou seja, o típico historicismo liberal. Meu pai chamava isso de “adoração do fait accompli” (o fato consumado), a CRONOLATRIA. E é nesse respeito total aos fatos consumados que supostos “contrarrevolucionários” ou pseudotradicionalistas não querem, diante da Revolução, um “voltar àqueles tempos”, uma Restauração, mas veem a contrarrevolução como uma possibilidade de construir “a próxima etapa da revolução” (na nossa história, entre Rosas e Quiroga se pode notar essa diferença em relação ao constitucionalismo).
A Revolução deve ser aceita na sua irreversibilidade e, por uma dialética paradoxal, convertida no Hic et nunc eterno do Evangelho. Como se verá, diante da Revolução, a postura desses “contrarrevolucionários” ou “pseudotradicionalistas” é ambivalente, pois a aceitação do fato e a sua possível transformação dialética salva certa bondade na própria Revolução, junto com certa maldade. Maurras imputava a Chateaubriand (um grande conservador) essa “ambivalência”, e a resumia numa frase muito expressiva: “o que ele queria eram as ideias da Revolução sem os homens nem as coisas da Revolução”. O autor que aos nossos olhos costuma ser tomado por um grande contrarrevolucionário é, aos olhos de Maurras, o pior dos revolucionários.
Muito parecida é a postura contrarrevolucionária do carlismo ayusista (que tem muito de conservadorismo anglo-saxão) em relação ao “fato” do Concílio Vaticano II. Ambos entendem que a contrarrevolução não designa as forças que “resistem” à Revolução, mas que constroem uma teoria “a partir” da Revolução (ou partindo dela), o que ajuda a fixá-la.
A isso chamam de um “realismo antimoderno” ao estilo do conservadorismo anglo-saxão. Burke dizia: “Não se está reduzido à simples alternativa entre a destruição absoluta ou a conservação do status quo, sem reforma”, o que em política pode ser razoável, desde que os princípios existam e sejam respeitados, mas não diante do Dogma, que não sofre o embate da história, que é Hic et nunc, tal como é In illo tempore.
O Wanderer entende que os padres da FSSPX estão atualizados em toda essa sociologia e, de má-fé, levam os demais a um beco sem saída. “Vamos obrigá-los a se pronunciar em condenação.” “Vamos armar uma armadilha sem deixar saída.” “Temos de fazer parecer que estão contra a Fé, porque odiamos o que eles são, mesmo forçando os argumentos, como no tema da Corredenção de Maria.”
Mas não é assim, não são eles, meu bom amigo! É Cristo o desmancha-prazeres! É a Fé católica que produz esses momentos críticos que nos aparecem como “sem saída”, desesperadores. É o martírio, no qual a única saída é por cima, no qual já nada se espera e só resta a Esperança. É o Bom Deus que nos põe aqui e agora para dar um Testemunho como naqueles tempos.
O homem se constrói na história, para aceitá-la ou para enfrentá-la, e nisso joga a sua eternidade. Foi Hegel quem construiu esse monstro da História diante do qual é preciso ajoelhar-se, e com isso assegurou os resultados da Revolução. E é certo também que aqueles homens extraordinários a quem cabe enfrentar a corrente das “coisas” muitas vezes perdem a paz e se tornam intratáveis. Nem todos temos a santidade de um Monsenhor Lefebvre para enfrentar tranquilos o Monstro da Modernidade. No que me diz respeito, com perdão da autorreferência, bem-vinda essa polarização de gregos e troianos e esse confronto final no qual, como naquele relato que meu pai nos trazia de Os Miseráveis, à semelhança de Cambronne queremos responder ao pedido de rendição com um “Merde!!!”.
E cabe reconhecer que em algo acerta esse pobre rapaz nerd, que vê em nós o “fortão jogador de rúgbi” do colégio que, passado o tempo e já perdidos a vitalidade e o vigor, quer voltar como Proust “Em busca do tempo perdido”, denunciando nisso um certo desespero e pessimismo romântico pelo que perdeu e não será mais, pretendendo despedir-se da história com uns últimos sopapos. Há certa caricatura, mas serve.
O que ele não vê é que, pela nossa vida, pela nossa fé e pelos nossos, às nossas costas já não há parede, há o abismo, e só nos resta firmar-nos nos culhões, não se movendo um milímetro e com cara de quem quer briga, quando apostamos nisso tudo o que temos e amamos, recusando-nos teimosos à tentação daqueles aspectos inebriantes da Revolução que nos permitiriam voltar à terra de ninguém. Tivemos terra “nossa” e fomos de um lugar. Ao contrário do poeta, não correm nas minhas veias gotas de sangue jacobino, mas, devo reconhecer, o meu verso NÃO brota de manancial sereno. Tenho muitos filhos e netos para permanecer tranquilo e pretender ir-me sem responder, como um velho soldado que ficou cercado.
Dizia Bernanos que, “para ser tentado pelo desespero, é preciso antes ter amado”. E pode ser essa a causa da incompreensão de um órfão, solteiro e cosmopolita.