BEM-AVENTURADOS OS MANSOS, NÃO OS FRACOS!

Jean-Baptiste de La Salle - Wikipedia

Podemos ver claramente que a gentileza não é inata. Ela é aprendida através de uma tríplice formação: formação do coração, formação da mente e formação do discernimento.

Fonte: Foyers ardents, nº 55  – Tradução: Dominus Est

Joãozinho, de três anos, está brincando com carrinhos na sala de estar de seu bisavô, fazendo barulhos tão altos e cansativos que o avô pede aos pais que o levem para brincar em outro lugar.

Ah, não sei se o Joãozinho vai querer… Joãozinho, você poderia ir para o quarto?” Os barulhos continuam mais altos do que nunca.

Ah, desculpe, ele não está me ouvindo, vai se irritar e gritar se eu insistir…” Isso continua até que um tio pega o Joãozinho pela mão, explica que a sala de estar não é uma sala de jogos, motiva-o e cria uma distração indo brincar com ele por alguns instantes no quarto. Quem exerceu a verdadeira virtude da mansidão?

Mansidão e firmeza

São João Batista de La Salle (1651–1719), um grande educador, atribui à mansidão o lugar mais elevado entre as 12 virtudes que exige de um bom professor (1). No entanto, a mansidão não é fraqueza nem tolerância. A mansidão deve ser firme, tendo em vista o bem que se busca alcançar: a prática das virtudes, a santificação, o bem particular de um indivíduo ou o bem comum. Na educação, deve ser combinada com a força para se opor à desordem, a coragem para estabelecer e manter regras de vida equilibradas e a perseverança diante dos obstáculos e fracassos.

Os defeitos opostos à firmeza são facilmente detectados por nossos interlocutores:

  • Tolerância excessiva, a fraqueza de não punir.
  • Inconstância na ação: dar ordens ou ameaças sem agir.
  • Familiaridade excessiva ou excesso de palavras, que geram desprezo e insubordinação.
  • Timidez excessiva, um ar preocupado ou constrangido.

O que é a verdadeira mansidão?

São João Batista de La Salle cita quatro tipos de mansidão A do espírito, que julga sem amargura, sem paixão ou interesse próprio. A do coração, que busca obter as coisas sem obstinação e de maneira justa. A da moral: que envolve conduzir-se segundo bons princípios, sem buscar reformar aqueles sobre os quais não se tem direito, ou assuntos que não nos dizem respeito. Por fim, a da conduta: que consiste em agir com simplicidade, integridade, sem contradizer os outros e com moderação razoável.

É um programa e tanto! Para nos ajudar nesse caminho de imitação de Jesus Cristo, o Santo nos adverte contra os seguintes defeitos:

  • Susceptibilidade: Como reagimos a comentários inoportunos feitos a nosso respeito?
  • Vivacidade e reações impetuosas Atenção, sanguíneos!
  • Humor sombrio, bizarro e rude, com uma atmosfera melancólica. Atenção, melancólicos!
  • Maneiras ríspidas ou desdenhosas, um semblante excessivamente orgulhoso.
  • Palavras duras, ofensivas ou simplesmente tristes.
  • Distúrbios violentos, sanções precipitadas ou intensificadas.

Esses defeitos, opostos a mansidão, ameaçam obviamente o equilíbrio da nossa vida doméstica, a educação dos filhos e até mesmo o nosso sucesso profissional.

Em contrapartida, a verdadeira mansidão se manifestará em maneiras envolventes ou persuasivas, benevolência, sensibilidade e, às vezes, até mesmo em atenção afetuosa para com os outros. Ela elimina do comando sua parte de dureza e austeridade. A insinuação, a persuasão e a gentileza obterão resultados mais duradouros do que a coerção fria ou a violência, porque tocarão o destinatário mais profundamente, em seu intelecto, vontade e coração.

Como praticar a mansidão?

São João Batista de La Salle recomenda algumas ações para a educação das crianças:

  • Corrigir os próprios modos rudes ou grosseiros, que são o oposto da mansidão.
  • Definir regras e ordens equilibradas, levando em consideração habilidades, circunstâncias, personalidades e temperamentos, o momento apropriado, sem perder de vista o objetivo desejado.
  • Ser simples, preciso e paciente: a regra deve ser compreendida e seguida diligentemente, embora sem zelo excessivo.
  • Evitarconversas excessivas e sermões prolongados.
  • Manter uma atenção gentil e vigilante, com igual bondade para com todos.
  • Quando for necessário repreender uma criança, não o faça sob o efeito da raiva! Evite ser amargo, insultá-la ou humilhá-la. O objetivo deve ser que a criança, depois de se acalmar, entenda o erro e aceite a punição.
  • Dê liberdade à criança para expressar suas dificuldades, por exemplo, no trabalho, ouvindo-a realmente, pois isso pode fornecer pistas para ações futuras.
  • Saber elogiar e recompensar, o que incentiva a fazer o bem.
  • Diariamente, tenha uma palavra edificante, fale de uma virtude… O tempo fará o seu trabalho.
  • Aprenda a ser educado! É essencial para viver bem em sociedade.

Podemos ver claramente que a mansidão não é inata. Ela é aprendida por meio de uma tripla formação. Formação do coração para inclinar-se para as virtudes, adquirir bons hábitos, afastar as paixões e os vícios. Formação da mente: amar nossa religião e seus dogmas, falar com justiça e bom senso, agir sabendo discernir o objetivo louvável a ser alcançado e sabendo explicar suas escolhas. Formação do julgamento: julgar a relação entre as coisas, distinguir o bem e o mal em nossa conduta.

Por fim, a mansidão é a virtude dos fortes, daqueles que trilham o caminho para o Reino de Deus e que sabem que, na prática, é preciso repetir o trabalho centenas de vezes!

Hervé Lepère

Notas

(1) As Doze Virtudes de um Bom Professor – São João Batista de La Salle e Irmão Agathon. Um manual prático de 90 páginas.