O CÉU TOCOU A TERRA

Enquanto o mundo ecoava seu grito de desespero lá fora, num singelo campo de Aparecida, mais de 1.600 peregrinos viram o Céu tocar a terra.

A foto desse pequeno texto não é minha, mas ela representa perfeitamente o que assistimos ontem, dia 16 de maio de 2026, a menos de dois meses de um grande acontecimento que ficará para a história.

Fotos minhas, não as tenho. Só quis contemplar e vivenciar da melhor forma possível um dia de muito esforço físico, de sacrifício, mas também de muito amor.

Quis conhecer novos irmãos, rever os velhos amigos, animá-los, ajudá-los, rir, ouvir e falar em uma convivência saudável e serena, dar glórias a Deus por eles e por mim mesmo, por nossas vidas, tão insignificantes aos olhos do mundo, mas tão amadas por Nosso Senhor.

Confessei-me, e ouvi algo que me atordoou: “a ferida aberta por uma faca jamais vai cicatrizar se continuar a se esfaquear”. É o que precisava! E dou graças pelos padres, pela paciência e fidelidade com as quais nos conduzem sempre na caridade.

Padres fiéis não precisam fazer caretas, nem videozinhos para desocupados. E os padres que nos acompanham são padres homens, verdadeiros heróis da fé. Destemidos, que em muitas situações precisam abandonar a estrutura cooptada, abrir mão de todo conforto material para abraçar o catolicismo de sempre, a verdadeira religião de Nosso Senhor Jesus Cristo, que não divide sua glória com o erro, tampouco está presente no relativismo.

Dito isso, como foi bom ver o padre Wander, como foi bom conhecer o padre Peterson, que logo receberá uma missão, como foi bom receber uma benção do padre Rodrigo de Oliveira antes de eu pegar o ônibus de volta para casa, de ver o padre Henrik, de São José do Rio Preto, sempre animado, ao ponto de fazer os clientes de um bar ao longo do caminho rezarem juntos com os peregrinos – não vi o padre Françoá, que queria conhecer, e o querido Dom Lourenço, que não pôde estar presente.

Foi nesse espírito de fé, uma fé que transborda em vivos sentimentos de alegria, que caminhamos, que recebemos o corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo, em uma missa digna da basílica que já há muito tempo desconhece – ainda que parcialmente – as notas do sagrado.

Não ouvi nenhuma heresia, não vi nenhuma impiedade, nenhuma malícia. Não havia conversas tolas, mundanas, nem liberalidades que conduzem ao pecado. Também não havia despudor, descompostura. Apenas fiéis católicos felizes, todos muito cientes de sua fé, todos gratos pela graça de Deus, que colocou cada um de nós naquele lugar, e que nos faz encher cada vez mais as capelas da Fraternidade São Pio X, uns dos poucos, mas não exclusivos, lugares aonde ainda irradia a luz da verdade e da caridade eterna.

Ao ver aquela pequena multidão fiel e todo esse ambiente católico, entendemos porque nenhum decreto injusto, nenhum castigo inválido poderá nos demover de nossa fé. Não se trata de uma questão de estética, de uma questão de gosto. Não se trata de rezar a missa em latim ou de usar véu. Não se trata de ter muitos filhos, de se comportar com pudor, com modéstia, de ouvir gregoriano – e não só gregoriano -, e apreciar as artes – as verdadeiras artes. Não se trata de elitismo ou de apego ao passado, de rejeição ao moderno – que é diferente de modernista. É algo muito maior, algo que transparece em cada sermão, que revivemos em cada consagração.

E é justamente por isso que nenhum dos adjetivos que ditos católicos andam nos colocando na internet – como a internet virou um esgoto de loucos que se arrogam conhecer tudo -, que a raiva da turba que late enquanto a caravana passa, que nenhum ódio, que nenhum doutor afetado que se perdeu em sua personagem, que nenhuma polêmica ou baixaria digna dos pagãos ou dos hereges nos separará do amor de Deus.

Meus irmãos, quem esteve em Aparecida ontem entende porque não devemos nos perder nesses debates estéreis. Eles não podem nos suscitar nada de bom, porque não são movidos pela caridade e pela verdade, mas pela vaidade, por uma falsa noção de obediência – como Satanás soube dar um golpe entre os católicos, usando a obediência em favor do erro!

Palavras podem comover, mas o testemunho é a nossa maior força. E ainda que não existisse a FSSPX, ou que ela deixasse de existir hoje, continuaríamos católicos. Foi a graça de Deus que nos alcançou.

Desta forma, presentes fisicamente, ontem não éramos 1.600 fiéis indivíduos, éramos milhares formando uma grande família, a família dos filhos de Deus.

E mesmo em casa, em espírito, cuidando dos filhos, dos entes queridos, trabalhando, estudando, viajando, todos estávamos ajoelhados num grande descampado de Aparecida, absortos num silêncio profundo, contemplando os céus se abrirem e os coros angélicos entoarem seus hinos de louvor Àquele que, sobre o madeiro da cruz, de forma incruenta, realiza em cada missa o mesmo e eterno sacrifício, e que nos diz: “Não temas, eis que estou convosco”.

É impossível não chorar!

Robson Carvalho