“A VIRGEM MARIA FACE AO ESPÍRITO DE ASSIS” – CARTA DO SUPERIOR GERAL AOS AMIGOS E BENFEITORES N.º 95

“Alegrai-vos, Maria, pois só vós esmagastes todas as heresias que surgiram no mundo.”

A Santíssima Virgem Maria esmaga as heresias, porque a sua missão maternal consiste em conduzir as almas à vida divina, conduzindo-as a Jesus Cristo, Verdade Encarnada. Ora, a heresia, ao alterar o conhecimento de Deus e de Cristo, atinge a vida sobrenatural na sua própria fonte. Aquela que recebeu a missão de comunicar essa vida às almas deve, portanto, também preservá-las do que as destrói: o erro e a mentira.

Esmagar as heresias é, portanto, para Maria, defender nas inteligências a Verdade do seu Filho, a fim de manter as almas unidas a Ele.

Caros fiéis, amigos e benfeitores,

O espírito de Assis e de Mater Populi Fidelis

Quarenta anos atrás, o papa João Paulo II reunia em Assis os representantes de todas as religiões, para um evento que ia marcar profundamente as almas e tornar-se o funesto paradigma de toda uma série de encontros ecumênicos a serem repetidos ao longo dos anos. Os mais velhos dentre nós se lembrarão talvez de um episódio particularmente significativo: um grupo de peregrinos vindos do sul da Itália tinha chegado a Assis trazendo uma estátua de Nossa Senhora de Fátima, sem entenderem bem o que estava em vias de acontecer ali… Foram barrados pelos organizadores do encontro, alegando que a presença daquela imagem perturbaria o desenrolar das cerimônias previstas.

Há um ano, em 4 de novembro de 2025, o Dicastério para a Doutrina da Fé publicava um texto que suscitou muitas reações, porque pedia explicitamente que o povo cristão evitasse empregar, com relação à Santíssima Virgem Maria, os títulos de Corredentora e de Medianeira de Todas as Graças. Tais títulos são hoje considerados inapropriados, inexatos e, sobretudo, impróprios para expressar adequadamente o dogma católico tal como agora se encontra concebido e revisto.

Esse texto funesto, devastador, tanto pelo seu conteúdo como pelas suas inevitáveis consequências pastorais, acabou no entanto por produzir indiretamente um efeito positivo: o de lançar de novo luz sobre a importância das fórmulas e dos títulos. De fato, a perspectiva modernista, que tende a reduzir o ato de fé a uma experiência pessoal e íntima de Deus, leva ao desprezo das fórmulas, sob o pretexto de que não se pode reduzir e circunscrever a fé mediante o emprego de expressões concretas e “técnicas”, estruturalmente incapazes de expressar uma experiência vivida.

Gostaríamos de aproveitar o triste aniversário do encontro inter-religioso de Assis e da publicação de Mater Populi Fidelis para meditar acerca desse título que é tão belo, e que a liturgia atribui à Santíssima Virgem Maria: aquela que, sozinha, esmaga todas as heresias. “Alegrai-vos, Maria, pois só vós esmagastes todas as heresias que surgiram no mundo”.

Como justificar tal título? Por que razão a Igreja, até na sua liturgia, quer apresentar-nos tal imagem de Maria? À primeira vista, esse título não parece ter ligação direta nem com a maternidade divina, nem com a virgindade perpétua de Maria.

A fim de se medir a beleza e profundidade de tal título, e de apreender todo o seu alcance, é preciso remontar à própria fonte da vida sobrenatural: à vida de Deus, que lhe apraz comunicar às almas, por meio da graça. É à luz dela que poderemos compreender o lugar único da Santíssima Virgem Maria, em quem essa participação da vida divina chega a uma plenitude incomparável.

Que vem a ser a vida divina?

Usemos um pouco de teologia, tentando penetrar, por alguns momentos, na eternidade. A vida divina é o que há de mais simples; porém essa mesma simplicidade é de uma profundidade tal que não somos capazes de a apreender completamente.

«A vida divina não é outra coisa senão um ato de contemplação e de amor pelo qual Deus, contemplando-se por inteiro ao mesmo tempo como soberana Verdade e como soberano Bem, tem o gozo perfeito de si mesmo.»

Na eternidade, Deus cumpre um só e único ato: contempla constantemente a si mesmo. Contempla o seu ser, contempla a sua infinita perfeição – pois tal é esse Ser: infinitamente perfeito. Essa contemplação do seu Ser Soberano constitui a sua própria vida: se Deus não vivesse assim, simplesmente já não seria Deus.

Ora, ao contemplar essa perfeição infinita, Ele o faz de modo perfeito: a sua inteligência divina contempla o seu Ser divino e o apreende por inteiro, num ato de contemplação único, perfeitamente verdadeiro e sempre idêntico a si mesmo. Dessa forma, ao conhecer perfeitamente o seu Ser divino, contempla-se a si mesmo como soberana Verdade1.

E por outro lado, ao contemplar-se como soberana Verdade, Deus se contempla também como soberano Bem. De fato, o Verdadeiro e o Bem designam uma só e mesma realidade, considerada sob dois aspectos diferentes2: se Deus é o Ser soberano e a soberano Verdade, é portanto também necessariamente o soberano Bem. E nessa contemplação de si mesmo como soberano Bem, Deus ama-se a si mesmo perfeitamente. Do contrário, Deus já não seria Deus.

Em suma, a vida divina não é outra coisa senão um ato de contemplação e de amor pelo qual Deus, contemplando-se por inteiro ao mesmo tempo como soberana Verdade e como soberano Bem, tem o gozo perfeito de si mesmo.

Ora, por mais que se baste a si mesmo, Deus, livremente, escolheu comunicar algo do seu Ser e da sua perfeição a outros que não Ele. Com efeito, a bondade inclina naturalmente a comunicar-se a outrem, a dar se. No caso de Deus, esse livre dom de si, para além de si mesmo, teve por objeto as criaturas; e em particular, certas criaturas a quem Deus não apenas comunicará algo do seu Ser e da sua perfeição, mas também da sua própria vida.

Deus comunica sua vida às almas ao dar-se a conhecer

Uma vez postas estas premissas fundamentais, facilmente se compreende que, a fim de comunicar à alma certa participação na sua vida divina, Deus começa por fazê-la conhecer algo d’Ele mesmo. É justamente para fazê-la viver, para fazê-la participar dessa contemplação d’Ele mesmo, a qual constitui a sua própria vida, que Deus “se revela” encoberto pelo véu da fé.

A alma iluminada pela fé pode conhecer a Deus e, conhecendo-o, amá-lo e servi-lo. É aqui que a fé é necessária. Porque é impossível amar o Bem e aderir a ele, se esse Bem não for de antemão conhecido. Ninguém ama ou deseja o que não conhece.

Essa revelação, porém, não se limitará a fazer com que conheçamos as perfeições de Deus. Fará com que penetremos mais profundamente na intimidade de sua vida, revelando-nos um mistério que a nossa razão por si só jamais poderia descobrir, qual seja, que essa vida divina única é a de três Pessoas distintas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

«É justamente para fazê-la viver, para fazê-la participar dessa contemplação d’Ele mesmo, a qual constitui a sua própria vida, que Deus “se revela” encoberto pelo véu da fé.»

Na vida da Santíssima Trindade, o Pai, conhecendo-se a si mesmo, gera eternamente o seu Verbo, expressão perfeita da Verdade divina, “resplendor da sua glória e a figura da sua substância” (Heb I, 3). O Filho, portanto, é esse Verbo, em quem o Pai se reflete, n’Ele expressando a Verdade eterna. E do Pai e do Filho procede eternamente o Espírito Santo, amor subsistente.

Dessa vida trinitária Deus quer que nós participemos. É, portanto, desse desejo de santificar as almas que provém a Revelação progressiva do Antigo Testamento e, sobretudo, o seu coroamento, com a vinda à terra do Verbo de Deus, Verdade soberana encarnada. Uma vez que Deus se fez homem, aquele que contempla Nosso Senhor contempla, através da sua humanidade, a Deus mesmo: “Quem me viu, viu também o Pai” (Jo XIV, 9); e, por meio desse conhecimento do Pai através do Filho, tem acesso à vida eterna: “A vida eterna é esta: Que te conheçam a ti como o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (Jo XVII, 3).

Temos aqui um ponto capital: o conhecimento de Nosso Senhor, Verbo feito carne, tornou-se meio necessário, aqui na terra, de conhecer intimamente a Deus. É pela humanidade do Verbo encarnado, e só por ela, que os homens podem ter acesso à vida trinitária e contemplar a Deus: “Ninguém jamais viu Deus; o Filho Unigénito, que está no seio do Pai, ele mesmo é que o deu a conhecer” (Jo I, 18); e por conseguinte, “nós vimos a sua glória, glória como de Filho Unigénito do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo I, 14).

É certo que Deus se dá a conhecer sem qualquer possibilidade de erro. Com efeito se, ao dar-se a conhecer, Deus mesclasse à Verdade qualquer parcela de erro – o que aliás é impossível –, já não haveria meio de as almas se santificarem. No entanto, permanece na fé sempre certa obscuridade: aqui na terra, conhecemos a Deus através de um véu. Na eternidade esse véu será levantado, e o conhecimento próprio da fé cederá lugar à visão beatífica, com o que o nosso conhecimento sobrenatural de Deus passará de um modo imperfeito a um modo perfeito. A fé precede a visão, e existe para prepará-la e conduzir-nos a ela.

«O conhecimento de Nosso Senhor, Verbo feito carne, tornou-se meio necessário, aqui na terra, de conhecer intimamente a Deus. »

Se, pois, Deus santifica as almas e as faz viver pelos meios que em suas linhas gerais acabamos de descrever, qual não terá sido o grau de conhecimento dessa Verdade soberana na alma da Santíssima Virgem Maria?

Veremos que, em Maria, essa contemplação da Verdade corresponde, primeiro, ao seu grau de plenitude de graça, depois, à sua maternidade divina, e, finalmente, à sua missão particular de Medianeira Universal, que implica a tarefa de comunicar a todas as almas o conhecimento íntimo de seu Filho, verdadeiro Deus e verdadeiro homem.

A contemplação da Verdade em Maria, cheia de graça

Com toda a evidência, a santidade de Maria implica um grau de contemplação da Verdade que é inimaginável para qualquer um de nós. De fato, preservada do pecado original e das feridas que ele causa, não corre risco algum de erro. Não há na sua inteligência nenhuma espécie de ilusão, nenhum julgamento errôneo nem precipitado. Nenhuma paixão desordenada vem perturbar ou obscurecer nela a percepção da verdade. A sua contemplação da Verdade não se depara com nenhum obstáculo.

Mas, sobretudo, sua pureza confere à sua inteligência uma capacidade ímpar de penetrar as verdades eternas, capacidade reforçada, ademais, pela presença em sua alma, num grau inimaginável, dos dons sobrenaturais do Espírito Santo; em particular, os dons de inteligência e de sabedoria, graças aos quais pode contemplar as Verdades divinas num grau superior ao dos Querubins e Serafins. Ela é a Sede da Sabedoria.

Em razão da sua plenitude de graça, a sua alma acha-se numa situação totalmente privilegiada e singular. O pecado e o erro são duas realidades que talvez pudessem de algum modo opor obstáculo à sua perfeita contemplação e, portanto, à sua perfeita união com Deus e à sua santidade. Porém, assim como a sua alma não pode ser tocada pela mínima sombra de pecado, e de fato nem sequer por nenhuma imperfeição, por menor que seja, assim também a sua inteligência não pode ser tocada sequer pela menor sombra de erro.

Essa perfeita adesão de Maria à Verdade permite-nos compreender também a perfeição incomparável da sua liberdade. “A Verdade vos fará livres” (Jo VIII, 32): em nenhum outro caso essa palavra de Nosso Senhor encontrou, numa simples criatura, realização tão perfeita quanto em sua mãe. Pois a verdadeira liberdade não consiste na possiblidade de se desviar do bem, senão na capacidade de se mover dentro dele sem estorvos. Ora, sem nenhuma inclinação ao pecado que estorvasse a sua vontade, e não encontrando o seu conhecimento da Verdade e a sua adesão ao Bem nenhum obstáculo, segue-se que a sua liberdade chegava a um grau de perfeição inigualável. Essa impecabilidade, longe de diminuir o seu livre arbítrio, dava-lhe, como o diz Frei Garrigou-Lagrange: “A plena liberdade em ordem ao bem, sem nenhum desvio para o mal”3. De sorte que a sua liberdade, tal como a do seu Filho, dava uma imagem claríssima da liberdade de Deus.

A Mãe de Deus, contempladora do Verbo Encarnado

É preciso ter bem em mente que a contemplação de que estamos falando, sendo um meio pelo qual Deus comunica a sua própria vida, não se restringe à observação e à admiração das verdades contempladas: é contemplação que vai ela mesmo pouco a pouco transformando as almas, segundo o modelo daquilo que contemplam. Noutras palavras, pela contemplação cristã, Deus vai progressivamente assimilando as almas e transformando-as à imagem de Jesus Cristo. É nesse sentido preciso que São Paulo ensina que “o justo vive da fé” (Rm I, 17).

Ora, a alma que, mais que nenhuma outra, viveu constantemente sob o influxo da fé, na contemplação de Nosso Senhor, é a alma da Santíssima Virgem Maria. Porque a capacidade única e singular da Imaculada de penetrar a Verdade por meio da contemplação, não se funda somente nos dons incomparáveis que ela recebeu, e que a dispõem a uma capacidade intuitiva superior à dos anjos. Há ainda outro elemento, não menos importante, que a põe numa situação totalmente privilegiada, a saber, a sua relação direta e única com a humanidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, em razão da maternidade divina.

«A Santíssima Virgem Maria está ainda mais intimamente unida ao próprio objeto da sua contemplação, na medida em que esse Verbo Encarnado é realmente seu Filho e em que ela é realmente sua mãe. »

Não esqueçamos que essa humanidade, unida ao Verbo, é o meio escolhido pelo Pai para cumprir a plenitude da Revelação. Ora, a Santíssima Virgem Maria está ainda mais intimamente unida ao próprio objeto da sua contemplação, na medida em que esse Verbo Encarnado é realmente seu Filho e em que ela é realmente sua mãe. Essa proximidade chega, além disso, a um grau de todo incomparável, pelo fato de que a humanidade de Nosso Senhor, no seu elemento material, é fornecida exclusivamente pela Santíssima Virgem Maria. Por conseguinte, nunca existiu nem existirá jamais na história uma afinidade tão profunda entre mãe e filho quanto a que uniu Maria e Jesus.

Sem possibilidade de exagero, podemos estabelecer aqui um paralelo muito impressionante entre a geração eterna do Verbo e a geração no tempo de Nosso Senhor. Tal como o Pai, na eternidade, ao contemplar o Verbo, lhe diz: “Eu hoje te gerei” (Sl II, 7) – onde “hoje” quer dizer simplesmente a eternidade –, assim também Nossa Senhora, ao contemplar Nosso Senhor, pode dizer-lhe a todo instante: “Eu sou tua mãe, eu te gerei no tempo”. Parafraseando o Credo, São Leão Magno resume a afinidade única entre a humanidade de Nosso Senhor e Maria numa expressão belíssima e bastante original: “Consubstancial à Mãe” (Sermão 30,6).

Além disso, Maria teve durante trinta anos debaixo dos seus olhos essa humanidade unida ao Verbo, como uma janela divina aberta de par em par diante de sua alma. Todos sabemos que Nosso Senhor quis inculcar a primazia da vida contemplativa sobre a vida ativa. Mas uma segunda razão, não menos profunda, lança luzes sobre esses longos anos passados em Nazaré: oferecer a Maria o templo livre para contemplar, numa intimidade sem-par, o Verbo Encarnado de que Ela era a mãe. Para quê? Decerto, para que fosse cada vez mais santificada e transformada à imagem d’Ele; Mas também para que, nutrida pela contemplação da Verdade que se fizera carne, pudesse posteriormente fazer com que a Igreja vivesse dela.

Maria comunica às almas a vida que recebeu

De fato, esse conhecimento incomparável do Verbo Encarnado não estava destinado a ser sempre privilégio pessoal da Virgem Mãe. A plenitude de graça que Ela recebeu estava também ordenada à sua missão de Medianeira universal: a que recebeu o Cristo e o deu ao mundo continua associada, numa dependência completa de seu Filho, à comunicação dos frutos da Redenção às almas.

Portanto, dado que a vida sobrenatural começa aqui na terra, pelo conhecimento de Deus encoberto pelo véu da fé, é primordialmente nesse âmbito que se exerce a mediação de Maria. Tendo conhecido a Jesus como nenhuma outra criatura, gera os seus filhos para a vida da fé, introduz as almas no conhecimento de seu Filho, confirma-as na Verdade que Ele revela, e ensina-as a penetrar cada vez mais nos mistérios.

«Sua vocação não é apenas ser um modelo de vida cristã, mas ser também a mãe que comunica essa vida às almas e a protege durante o seu desenvolvimento. »

Assim, Nossa Senhora devia comunicar à Igreja nascente não somente o fruto da sua contemplação, mas, em certo sentido, o próprio exercício – caberia dizer o método – dessa contemplação, chamada a constituir o princípio interior da vida da Igreja. Com efeito, quer seja espiritual, litúrgica ou doutrinal, a atividade da Igreja remonta sempre a um mesmo ato de contemplação, cuja finalidade é santificar as almas e prepará-las para a visão beatífica. Nossa Senhora havia de se tornar, nesta perspectiva, o arquétipo da alma cristã.

Porém a missão maternal de Maria não fica só nisso: uma vez que o seu fim é fazer nascer a fé nas almas, ela não pode permanecer indiferente à necessidade de defender a Verdade. Encarregada de conduzir as almas à Vida, conduzindo-as ao seu Filho, deve também preservá-las de tudo o que possa obscurecer o seu conhecimento de Jesus Cristo e desviá-las d’Ele. Pois o erro, nesta matéria, colocando-se entre a inteligência e a Verdade divina, compromete a vida sobrenatural na sua fonte mesma.

O erro é inimigo da contemplação e, portanto, da santificação

É preciso ter bem claro a necessidade da contemplação como fundamento da vida espiritual. Na concepção modernista, o ato de fé se reduz essencialmente a uma experiência interior e pessoal de Deus, que na prática passa ao largo do conteúdo exterior da Revelação, concepção essa que torna incompreensível e inútil tudo o que dissemos acima.

Ilustremos essa dificuldade com um exemplo concreto. Se já não creio, em termos claros e inequívocos, que a santa Missa é a renovação do sacrifício da Cruz que se faz presente sobre o altar, a minha contemplação e percepção desse sacramento serão alteradas. Consequentemente, a minha maneira de rezar, de celebrar a Missa ou de assistir a ela também mudará. Com o passar do tempo, mudará também a minha concepção do próprio sacrifício da Cruz, porque o ato que o renova terá sido, de certa maneira, desvirtuado na sua significação e na compreensão que eu possa ter dele. Finalmente, o conceito mesmo de Redenção terá sido transformado, sobretudo na sua dimensão expiatória e propiciatória.

«Encarregada de conduzir as almas à Vida, conduzindo-as ao seu Filho, deve também preservá-las de tudo o que possa obscurecer o seu conhecimento de Jesus Cristo e desviá-las d’Ele. »

O mesmo mecanismo entra em ação cada vez que uma verdade revelada é obscurecida ou atenuada: primeiro é afetada a contemplação, depois, a própria vida cristã. Isso de fato corresponde ao que aconteceu na Igreja universal com a missa nova. E este exemplo facilmente poderia ser estendido à perda da fé na realeza de Cristo e nos seus direitos públicos imprescritíveis, ou ainda na necessidade absoluta de passarmos por Nosso Senhor para sermos salvos, o que dá lugar hoje em dia à prática generalizada de um ecumenismo deletério.

Mãe de nossas almas, a Virgem Maria é fundamentalmente antiecumênica

Fica, pois, claro que a Santíssima Virgem Maria, arquétipo da alma cristã e mãe da vida sobrenatural, tem horror ao erro como tem horror ao pecado. Sua vocação não é apenas ser um modelo de vida cristã, mas ser também a mãe que comunica essa vida às almas e a protege durante o seu desenvolvimento.

De que a deve proteger? De tudo o que a entrave, fira ou destrua, ou seja, da heresia e do pecado. Agora podemos entender mais profundamente o que quer dizer esmagar a cabeça da Serpente, daquele é “homicida desde o princípio” (Jo VIII, 44) e inimigo da Vida. Onde quer que Satanás espalhe a morte por meio da mentira e do pecado, Maria protege a vida, conduzindo as almas à Verdade e à graça.

Esmagar a cabeça da Serpente é também, portanto, desmontar as suas mentiras: todos os erros que impedem as almas de conhecerem na sua plenitude a Verdade divina, de contemplarem a sua Beleza e de se prepararem para a possuir eternamente. Pois Satanás persegue em todas as suas obras um mesmo objetivo: separar a inteligência da Verdade, a fim de separar a alma de Deus.

De modo algum pode a Santíssima Virgem tolerar que o seu Filho, Verdade Encarnada, seja considerado como um caminho a mais entre outros para se ir ao Pai; de modo algum poderia tolerar que a Verdade e o erro sejam tratados em pé de igualdade, em nome da dignidade humana e da falsa liberdade de escolher entre o verdadeiro e o falso. Ninguém como Nossa Senhora está ciente de que deixar que as almas escolham entre Jesus e Barrabás, é enganá-las e desprezá-las.

Ninguém tanto como a Virgem Maria pode fazer suas as palavras com que Nosso Senhor respondeu aos judeus: “A obra de Deus é esta: que acrediteis naquele que enviou” (Jo VI, 29). A essa obra ela está associada de maneira única, com Mãe de Deus: é por meio dela que o Filho enviado pelo Pai faz sua entrada no mundo.

Eis por que é a grande ausente nas cerimônias ecumênicas: incomoda, não pode ser convidada. A mensagem que traz é incompatível com o espírito de Assis: a afirmação inflexível dos direitos exclusivos de seu Filho, o Cristo Rei, sobre todas as almas – noutras palavras: os direitos da Verdade diante do erro, e as prerrogativas da Igreja diante das outras religiões. Se lhe fosse dado tomar a palavra, necessariamente recordaria aos homens, enquanto Mãe e Rainha, que é preciso escolher: “Ou meu Filho ou os outros!”.

Eis por que, entre os títulos mais belos e mais gloriosos que a liturgia – e portanto a Igreja – confere a Maria, figura o seguinte: “Aquela que sozinha esmaga todas as heresias”. Título que convém maravilhosamente àquela que recebeu a missão e o meio de fazer nascer em nós a vida divina – que é Nosso Senhor mesmo – e de nos conduzir à santidade.

«Esmagar a cabeça da Serpente é também, portanto, desmontar as suas mentiras.»

Só ela, portanto, na confusão atual de um modernismo triunfante, é que pode obter para as nossas almas a graça de serem preservadas do erro e da indiferença – esta última sendo ora o que leva ao erro, ora o que dele decorre: o fruto mais maduro e mais pernicioso do espírito de Assis.

Só a Virgem é que pode conduzir as inteligências de novo à Verdade eterna, e convertê-las, fazendo-as conhecer a Deus e adorá-lo “em espírito e em verdade” (Jo IV, 24).

Ela só é que, finalmente, pode fazer com que os homens de Igreja recobrem o zelo dos papas, dos mártires e dos confessores, prontos a tudo para defenderem a Fé católica e para manifestarem diante do mundo a sua pureza, que é, no tempo e na história, reflexo da mesma pureza da Verdade eterna.

Deus os abençoe.

Menzingen, 4 de novembro de 2026

Pe. Davide Pagliarani

Notas:

(1) A verdade é a perfeita adequação da inteligência à realidade que ela conhece. Ora, em Deus o poder da inteligência é infinito, bem como a realidade a que se aplica: o próprio Ser de Deus. Por tal razão, Deus é a suprema Verdade.

(2)O Verdadeiro é o Ser enquanto conhecido pela inteligência; o Bem é o Ser enquanto desejado ou possuído pela vontade.

(3) Fr. Reginaldo Garrigou-Lagrange, OP, A Mãe do Salvador e Nossa Vida Interior, cap. II, art. III: “Maria esteve isenta de toda falta, mesmo venial?”. Tradução de Ricardo José Bellei, disponível em: http://www.permanencia.org.br/drupal/node/5552.