
Na edição de 29 de abril de 2026 da revista La Nef, o padre Cyrille, monge de Le Barroux (França), tenta abertamente corrigir Mons. Athanasius Schneider, bispo auxiliar de Astana (Cazaquistão), que lançou um apelo fraterno ao Papa Leão XIV em 24 de fevereiro para construir uma ponte com a Fraternidade São Pio X. Segundo o monge beneditino, parece que, em vez de uma ponte com a Fraternidade, só se pode erguer uma ponte levadiça.
Fonte: DICI – Tradução: Dominus Est
A seu ver, “três elementos cumulativos fazem com que uma desobediência grave se transforme em uma lógica cismática: um elemento objetivo – um ato que, por sua natureza, fere a unidade visível da Igreja –; um elemento subjetivo – a persistência na recusa de se submeter à autoridade do papa que ordena que tal ato não seja praticado –; um elemento eclesiológico – o fato de se colocar em posição de funcionar de maneira autônoma, segundo seus próprios critérios e com sua própria rede hierárquica. Mons. Schneider pode afirmar sinceramente que esses três pontos não se concretizam nas ordenações de Écône ?”
O monge pretende orientar – com unção – o prelado: “Certamente não é minha intenção pôr em causa a sinceridade nem a preocupação com a unidade de Mons. Schneider, mas convidá-lo a uma leitura mais completa dos textos normativos e magisteriais que enquadram este debate, lembrando-se de que, segundo todos os teólogos católicos clássicos, quando o papa se dirige aos fiéis como pastor e doutor de todos os fiéis para julgar um fato dogmático — neste caso, definir se um ato é cismático ou não —, ele invoca a sua infalibilidade.”
Apesar de todas as suas precauções retóricas, o Padre Cyrille assemelha-se muito a Gros-Jean, que instrui o pároco de sua paróquia — um bispo, neste caso, e especialista em patrística: “Mesmo que, hipoteticamente, se admitisse a desobediência direta, o exemplo de Atanasio não poderia ser generalizado para legitimar toda desobediência grave: cada crise tem sua singularidade. O recurso ao passado convida mais à prudência nos julgamentos do que fornece argumentos para justificar tal ou tal posição atual. O anacronismo é um perigo real na história.”
O argumento anacrônico da Fraternidade de São Pedro
No que diz respeito ao anacronismo, parece que são os membros das comunidades ex-Ecclesia Dei os culpados, muito mais do que Mons. Schneider. Conforme destaca o padre Dominique Boulet, prior da Fraternidade São Pio X em Langley (Canadá), em uma carta aberta ao padre Daniel Geddes, sacerdote da Fraternidade São Pedro em Vancouver. Este último é autor de uma série de instruções catequéticas, em seu boletim semanal, sobre o mistério da Igreja.
Ele demonstra considerável erudição, como observa o Padre Boulet: “Ao citar autoridades de peso como os Papas Pio IX, Leão XIII e Pio XI, bem como santos como Santo Agostinho, Santo Afonso de Ligório, São João da Cruz e São Padre Pio, o Padre Geddes tenta demonstrar que os católicos estão sempre obrigados não apenas a reconhecer o Papa, mas também a obedecê-lo em todas as circunstâncias, aconteça o que acontecer”. Mas falta um ponto nessa demonstração: “Ao ler uma exposição tão vigorosa, algo está ausente e merece esclarecimento. É um fato que todos os autores citados neste estudo pertencem ao passado e que nenhum deles teve que confrontar a situação atual que afetou nossa Santa Mãe Igreja nos últimos sessenta anos”.
“Nenhum desses autores poderia sequer imaginar que um dia um papa assinaria uma declaração afirmando que “a diversidade das religiões é desejada por Deus”, como fez o Papa Francisco com a declaração de Abu Dhabi, ou que um papa poderia participar do ritual pagão da Pachamama nos jardins do Vaticano, como também fez este mesmo Papa Francisco em 2019.
“Nenhum desses autores jamais poderia ter imaginado que o Papa Leão XIV, o verdadeiro sucessor de Pedro, pudesse receber oficialmente no Vaticano, com honras, uma mulher vestida com uma batina púrpura e usando uma cruz peitoral, a Sra. Sarah Mullally, a autoproclamada Arcebispa de Canterbury e Primaz da Igreja Anglicana, uma Igreja verdadeiramente herética e cismática.”
Em resumo, o argumento do sacerdote da Fraternidade de São Pedro é anacrônico e desconectado da realidade. O padre Boulet o convida fraternalmente a ampliar sua perspectiva para a situação atual: “Caro padre, tal é a realidade de uma crise sem precedentes na Igreja, onde os erros contra a fé se espalham, infelizmente com a bênção das autoridades romanas! Não estamos em uma situação normal na Igreja, e o senhor deve reconhecer isso. Pare de enterrar a cabeça na terra como uma avestruz que quer ignorar o perigo.”
“Padre, não estamos mais na época do Papa Pio XII, mas sob o pontificado de Leão XIV, um papa que pretende permanecer fiel à herança de seu predecessor, o Papa Francisco, um homem que causou grave dano à Igreja. Essa é a triste realidade que o senhor e eu devemos ter a coragem de enfrentar.”
O Padre Boulet acredita, com razão, que essa abordagem pastoral do avestruz é insustentável, assim como o silêncio diante dos erros atuais: “A Fraternidade São Pio X socorre as almas abaladas pela tempestade da crise da Igreja, oferecendo-lhes doutrina sólida, sacramentos válidos e a liberdade de pregar a verdade e condenar os erros. Mesmo no âmbito de uma paróquia pessoal, como é o caso da Paróquia da Sagrada Família, a Fraternidade de São Pedro não tem a liberdade de ensinar toda a verdade ou de condenar os erros mortais para as almas, pois comprometem a fé sem a qual é impossível agradar a Deus. Os sacerdotes da Fraternidade de São Pedro não podem criticar a Missa Nova. Não podem criticar o Papa, mesmo quando este age em direta oposição à fé, como já aconteceu diversas vezes nos últimos anos.” A única defesa da Fraternidade de São Pedro é afirmar que a Missa tradicional constitui seu próprio carisma, mas não podem dizer que rejeitam o Novus Ordo por razões doutrinais.
“Caro Padre Geddes, não estamos numa situação normal. Nossa Santa Mãe Igreja está numa situação dramática, e o senhor deve reconhecer isso.” E, nesse estado de necessidade, o Padre Boulet concluiu: “A Fraternidade São Pio X não se apresenta como a arca da salvação, mas é como um bote salva-vidas que fornece coletes salva-vidas às almas de boa vontade que desejam escapar do naufrágio.” – Foi isso que o Arcebispo Marcel Lefebvre chamou de “operação de sobrevivência” durante as consagrações de 1988.
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