
Tradução gentilmente cedida por Carlos Nougué
Caros perplexos, o problema não é o que fazer diante da dúvida (o que justifica qualquer decisão), mas o que fazer diante da CERTEZA, coisa que compromete e faz perigar até a vida.
Um dos piores males desta farsa modernista é que, assim como não há demônios nem condenados, assim, por conseguinte, tampouco há inimigos. Mesmo entre católicos corretos, costuma-se entender que os inimigos da alma são o Demônio, o Mundo e a Carne, sim, lindíssimo, mas estes inimigos um tanto abstratos se tornam concretos em pessoas. A carne não é algo abstrato, normalmente tem nome e sobrenome, tentadoras formas de encanto. O mundo são instituições e grupos de interesses que nos rodeiam e que nos convocam através de pessoas que têm nome e sobrenome, as quais costumam ser muito agradáveis com gratificações suculentas. E, quanto ao demônio, costuma-se esquecer que há pessoas concretas, “um terço da humanidade”, dirá Monléon (que não é numérico), que trabalham concretamente para o maldito, e estas não nos assaltam pelo lado de amar as coisas, com o pouco bem que trazem em seu ser, mas lá dos abismos do ressentimento, do mal sem bem.
Há inimigos, concretos, com nome e sobrenome, e o católico durante sua existência trava uma batalha contra essas forças, sim, mas também contra essas pessoas concretas que têm nome e sobrenome. E esta civilização afeminada (sem tomar isto como um insulto, mas como um simples diagnóstico, civilização que premia os temperamentos femininos e reprime as reações viris), que entende mal isto de “amar o inimigo”, de que “há que atacar o pecado e não o pecador”, e perdeu a necessária ferocidade, dentro da serenidade, com que há de enfrentá-los. A Cristandade vituperou muitos inimigos designados coletivamente, mas que se encarnavam em homens singulares que havia que enfrentar e derrubar, aos quais, dando-lhes previamente a possibilidade de conversão, havia que mandar para o outro mundo.
Orígenes, que era um bom sujeito, enfrentou Celso e não hesitou em nomeá-lo concretamente no título de sua famosa obra Contra Celso – e que não restem dúvidas. Lembro-me de uma queixa contra mim porque, ao criticar certos erros, eu assinalava os nomes dos que os encarnavam (com a serenidade com que me destaco, é claro), sendo isto uma falta de bon goût. Realmente me repugnam as elipses bélicas, e, como dizia Baudelaire ao recomendar o estilo polêmico, deve-se começar o escrito com um franco “Senhor fulano de tal, o senhor é um filho da tal e qual” e depois desenvolver o tema. Não tolero essa maricagem de “há quem diga…”. Quem o diz?!
No entanto, a primeira coisa que se deve fazer diante de um inimigo é entendê-lo. Estabelecer serenamente uma espécie de empatia, pôr-se em seu lugar e entender bem o que pensa e como o pensa, e, uma vez que o apreendemos, atacá-lo por seus flancos fracos, sem compaixão, e não parar nunca até o final, negando-lhe até sepultura em lugar santo (isto não é conselho de padres nem de velhas beatas).
Pois bem, é uma velha estratégia bélica oferecer uma isca, uma distração com a qual a pessoa se enfurece e se distrai (Pearl Harbour), um cão que late enquanto o dono prepara o verdadeiro golpe, mantendo-se afastado da lide, bem tranquilinho e distante. Nas discussões, costuma ser “um Provocador”, tal como faz Miguel Ayuso com Segovia, o Pe. Olivera Ravasi com o Pe. Higton, Peretó Rivas com o Wanderer, o Poder Oculto com a Ucrânia e o Estado de Israel… ou o Papa Leão com o Tucho Fernández (para que não digam que faltam nomes).
É verdade que muitas vezes não resta outra saída que apalear o cão, mas não se deve tirar o olhar do dono.
O Provocador normalmente é um homem (ou uma ficção, virtual) descartável, cuja ação provém das más baixas paixões e não dos fins propostos pelo verdadeiro protagonista da inimizade. Uma pessoa animada por um ressentimento profundo, por um desses vícios ou pecados que não têm nenhuma forma de bem; não lhe interessa a moça de boas formas, nem as coisas belas que o dinheiro dá, nem a construção de uma nova e idílica sociedade – para bem ou para mal –, senão que só desejam a derrubada do que é bom, por raiva, por uma inveja que não inveja nada concreto, mas que não perdoa a existência do outro, sua nobreza, sua sabedoria, sua construção.
Meu pai nos ensinou essa “empatia” que faz compreender cabalmente o pensamento do inimigo; quando falava de Hegel ou do marxismo, iam escutá-lo os canhotos da universidade porque era o único que os fazia compreensível. No entanto, houve algumas personagens da história que lhe causavam nojo: Nero, Rousseau, Robespierre, Fouché, Jean Paul Sartre… Provocadores, simples destruidores, nos quais se devia dar uma boa surra, mas nos quais não se devia perder de vista os interesses de seus senhores.
O Tucho Fernández exibe um desses vícios autodestrutivos que não buscam nenhum bem, a homossexualidade, vício que enche a vida de amargura e torna impossível todo gozo positivo; é um ressentimento que só destrói. Uma Temporada no Inferno, chamou-o Rimbaud; De Profundis, denominou-o Oscar Wilde. E toda a trupe homossexual que é alimentada pela hierarquia vaticana, apoio esse cuja razão muitos não conseguem explicar cabalmente, está posta ali para provocar (como na foto) e monopolizar a reação dos melhores, para demolir sem piedade tudo o que é bom sem que se tente voltar o olhar para o que se perde. Mas são descartáveis. Estão fazendo a faina ingrata para o olhar dos idealistas, dos que não pedem que se façam tais barbaridades porque ainda conservam uma adesão às coisas belas que se podem desejar no pecado, na carne e no mundo. O outro é demoníaco.
Leão XIV põe diante de nós o Provocador, e os conservadores se entretêm. Dois bons Bispos, Viganò e Strickland (já havia acontecido com Martin), explodem contra a onda homossexual na cúria e já é tarde para reagir ao mal principal, que eles toleraram. Muito provavelmente aconteceu com Bento XVI algo muito semelhante. Põe a FSSPX contra esse provocador, que destruiu quase todo o relativo à Virgem para provocar, mas a FSSPX não morde o anzol. Não se entretém demasiado com o cão e se dirige ao dono que não o quer escutar, que se faz de bobo e quer que a coisa exploda contra o Provocador. Que não tem o coração no demônio mas no mundo, do qual quer os bens, como todos os pecadores. Humano, demasiado humano.
O demônio não é bobo, a muito poucos propõe que seja ele o adorado, aos que já se deram por perdidos e buscam o mal pelo mal. Esses serão os Provocadores; o que o maldito propõe é a adoração do Homem, um bem em si mesmo num amor desordenado. E esse amor desordenado é o verdadeiro inimigo que se encarna em pessoas concretas e cuja tentação alcança os “homens de bem”. Até os eleitos poderiam perder-se se não se abreviassem os tempos. Por isso Cristo devia dar o exemplo de entregar o bem humano mais precioso, sua Vida, sua Humanidade.
O bom Roberto de Mattei nos aconselha que, diante da dúvida, adiramos a Leão. Sucede porém que não é só diante da dúvida que o pede ele (a qual, bem moderno, estabelece como situação da inteligência diante de todo este predicamento), mas também diante da certeza (que já dá por impossível). Acusa a FSSPX de subjetivismo por ater-se à dogmática, que é o único objetivo, e ele se faz objetivo por ater-se unicamente à opinião de uma pessoa. As certezas de nossa fé, cunhadas pela doutrina, perdem valor ao serem conservadas por uma pessoa. O real é que tudo isto é para conservar os bens que o atam a ele, os que ele persegue num amor desordenado, por trás da escusa de uma ilusão milenarista de restauração mariana da cristandade que se produzirá amanhã. Um “mistério” que está no futuro e diante do qual se dobra a Revelação, já ocorrida.
A FSSPX estabelece como ponto de colisão a CERTEZA, em pontos inequívocos de doutrina, e a apresenta diante do homem concreto que encarna o erro modernista. Bom Rober Tito, duvida disto? Então está bem iludido. Você é moderno.
Estimados perplexos, o problema não é o que fazer diante da dúvida (o que justifica qualquer decisão), mas o que fazer diante da CERTEZA, coisa que compromete e faz perigar até a vida. A armadilha que nos prepara este bom conservador é que a certeza é impossível mas provém da pessoa concreta de Leão XIV. Não há dogmas, não há doutrina, não há tradição. E o pior: Leão, com o modernismo, disse expressamente que a CERTEZA é impossível, que há “acordos” temporários, deixando tudo numa nebulosa de solução subjetivista, na qual o conservador deixa a substância de sua fé em suspenso… Primeiro círculo do inferno dantesco.