
“A fidelidade não é estática, é dinâmica, na continuidade da fé que é imutável, mas as situações são sempre novas e o Espírito está incessantemente em ação”…
Fonte: La Porte Latine – Tradução: Dominus Est
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Aos olhos de D. Sylvain Bataille de Bourges (1), a Tradição “não consiste numa herança estática, estagnada e intocável. Pelo contrário, é a transmissão viva da própria fé dos Apóstolos, incessantemente aprofundada sob a orientação do Espírito e vivida em diferentes contextos históricos e culturais” […]“. A fidelidade não é estática, é dinâmica, na continuidade da fé que é imutável, mas as situações são sempre novas e o Espírito está incessantemente em ação”. A iniciativa das sagrações de 1 de julho ficaria, assim, privada de sua principal justificativa.
Aqui encontramos o discurso evolucionista inaugurado pelo Vaticano II e teorizado por Bento XVI, com a ambiguidade que abre as portas a todo tipo de negação, sob o pretexto de aprofundar a compreensão. O parágrafo 17 da Profissão de Fé apresentada em 24 de junho pela Fraternidade dissipa essa ambiguidade:
A Tradição pode ser chamada de “viva” não no sentido de que mudaria de significado, mas no sentido de que o Magistério vivo propõe ao longo dos séculos, de maneira sempre mais clara e mais explícita, a mesma verdade com o mesmo significado(2). O que foi crido por todos, sempre e em todo lugar, como pertencente a fé, não pode ser negado nem posto em dúvida por nenhuma voga teológica, nenhuma pressão pastoral, nenhuma necessidade diplomática, nenhuma pretensa exigência do mundo moderno (3).
Vemos claramente, infelizmente, que a “transmissão viva” à qual se refere Dom Bataille instaura uma forma de praticar a religião que altera o sentido da verdade revelada, sob o pretexto da adaptação. A prática do ecumenismo, por exemplo, insinua cada vez mais o erro do indiferentismo.
No que diz respeito ao culto, o arcebispo de Bourges gostaria de criticar a expressão “missa de sempre”, utilizada por Dom Lefebvre, para justificar as reformas litúrgicas do pós-Vaticano II:
Ainda se celebra a morte e ressurreição de Cristo, e oferece-se aos fiéis o seu sacrifício, mas em formas que evoluíram ao longo dos séculos. O Papa Pio XII implementou reformas litúrgicas significativas na década de 1950, todas aceitas pela Fraternidade São Pio X. É, portanto, incompreensível por que tudo deveria ficar estagnado em 1962.
As reformas de Pio XII nada têm a ver com as de Paulo VI. As primeiras limitam-se a conferir um significado mais profundo, por meio das palavras e dos gestos renovados do rito, à mesma verdade que o culto deve expressar. As segundas “afastam-se de maneira impressionante, tanto no conjunto quanto nos detalhes”, desse mesmo significado, conforme constata o Breve Exame Crítico apresentado na época ao Papa Paulo VI pelos cardeais Ottaviani e Bacci. Diz-se que a Missa é “de sempre“, na medida em que o rito expressa constantemente, através das várias reformas ou restaurações, o mesmo significado exigido tanto pela profissão de fé como pela eficácia do sacramento. Nesse sentido, a Missa está além e fora do tempo, pois ecoa a eterna palavra santificadora de Deus. O mesmo não se aplica às reformas de Paulo VI, que desnaturalizaram esse eco a ponto de torná-lo, a partir de então, a expressão do sentimento da comunidade eclesial, sujeita a todos os caprichos de sua história.
Os números 124 e 125 da profissão de fé apresentada em 24 de junho pela Fraternidade declaram claramente o seguinte:
Professo que missa tradicional romana, celebrada segundo o rito em uso antes da reforma do Novus Ordo Missæ, expressa com incomparável clareza a doutrina católica do sacrifício, do sacerdócio e da presença real. Constato, porém, com grande pesar, que as reformas litúrgicas contemporâneas se afastaram consideravelmente da liturgia tradicional, tanto no seu conjunto como nos detalhes, obscurecendo, assim, o caráter sacrificial e propiciatório da Missa, favorecendo uma concepção democrática do culto, aproximando a expressão litúrgica católica das concepções protestantes, e contribuindo assim de modo preponderante para a perda do senso do sagrado, para a corrupção do espírito cristão, para a diminuição das vocações e para a debilitação geral da fé(4). Rejeito, portanto, toda reforma e todo uso litúrgico que, por omissão, ambiguidade doutrinal ou orientação prática, favoreça a heresia, enfraqueça a fé, se afaste da doutrina católica da missa formulada no Concílio de Trento, ou que desvie os fiéis da adoração devida a Deus. O culto público da Igreja deve expressar sem equívoco a fé católica.
Essa não é, evidentemente, a intenção do arcebispo de Bourges. “A liturgia”, esclarece, aliás, Dom Bataille, “continua sendo a experiência da Salvação para nós, pecadores”. A “experiência”: é uma palavra que aparece constantemente nos discursos pontifícios do pós-Vaticano II. É um dos principais indícios da mudança de rumo que se concretizou na época do concílio. Mudança de eixo bem analisada por Dom Lefebvre logo após as sagrações de 30 de junho de 1988 e que consiste na “passagem do direito da verdade para o direito da pessoa”[5]. Passagem, portanto, do ponto de vista do objeto (ou da realidade tal como se impõe ao ato de inteligência ou de vontade) para o ponto de vista do sujeito.
O evolucionismo assinalado tem seu ponto de partida nesse novo ponto de vista, que é o ponto de vista do personalismo. Foi para defender os direitos da verdade, notadamente por meio da liturgia, que é a expressão do verdadeiro culto da verdadeira religião, que a Fraternidade quis dar à Igreja novos bispos fiéis a essa expressão inalterada da fé da Igreja.
Pe. Jean Michel Gleize, FSSPX
Notas:
- https://www.diocese-bourges.org/actualites/16137-les-orderd-inations-episcopales-de-la-fraternite-saint-pie-x-points-de-repere-pour-comprendre-la- situation-editorial-de-monseigneur-bataille/
- Concílio Vaticano I (1870), Constituição Dogmática Dei Filius , capítulo IV, DS 3020 e cânon 3, DS 3043; Pio IX, na bula Ineffabilis Deus (8 de dezembro de 1864), que proclama o dogma da Imaculada Conceição, manifesta-o muito bem: “Sempre atenta a guardar e defender os dogmas que lhe foram confiados, a Igreja de Jesus Cristo nunca altera nada neles, nunca retira nada, nunca acrescenta nada; mas, lançando um olhar fiel, discreto e sábio sobre os ensinamentos antigos, ela recolhe tudo o que a antiguidade neles depositou, tudo o que a fé dos Padres neles semeou. Ela se empenha em aperfeiçoá-los, em refinar sua formulação, de modo que esses antigos dogmas da doutrina celestial recebam clareza, luz e distinção, mantendo ao mesmo tempo sua plenitude, sua integridade e seu caráter próprio; em suma, de modo que se desenvolvam sem alterar sua natureza e permaneçam sempre na mesma verdade, no mesmo sentido, no mesmo pensamento”
- São Vicente de Lérins, Commonitorium, citado pelo Primeiro Concílio Vaticano (1870), Constituição Dogmática Dei Filius , capítulo IV, DS 3020.
- Veja o Breve exame crítico do Novus Ordo Missae apresentado em 3 de setembro de 1969 ao Papa Paulo VI pelos Cardeais Ottaviani e Bacci.
- Dom Lefebvre, “A Visibilidade da Igreja e a Situação Atual” em Fideliter, número 66, novembro-dezembro de 1988, p. 29.