O DEPÓSITO DA FÉ NÃO SE ALTERA

Publicada em 24 de junho de 2026, a Profissão de fé católica da Fraternidade Sacerdotal São Pio X é apresentada aqui em várias partes. Esta segunda parte relembra que a fé católica não é fruto de uma evolução nem de uma experiência religiosa, mas da adesão à Revelação divina confiada de uma vez por todas à Igreja, que a transmite fielmente por meio da Sagrada Escritura e da Tradição.

I -A Revelação divina, a fé e a Tradição

7 – Creio que Deus, na sua bondade, chamou o homem, pelo dom da graça, a alcançar a visão beatífica. Sustento firmemente e professo que essa exaltação do homem ultrapassa as forças e as exigências da natureza humana, e que é um dom gratuito de Deus, ou seja, um dom sobrenatural.

8 – Creio que Deus não deixou o homem entregue às suas meras forças naturais, mas lhe revelou os mistérios de sua vida divina e do destino sobrenatural a que o chama. Foi por isso que, depois de ter falado outrora aos profetas na Antiga Aliança, falou definitivamente, por meio do seu único Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, na Nova Aliança, com a qual a Revelação divina se completou perfeitamente.

9 – Essa Revelação é a palavra veraz de Deus, confiada à Igreja como um depósito, e proposta aos homens como regra de fé na forma de um corpo de doutrina, onde os mistérios são formulados de uma maneira que os torna inteligíveis e exprimíveis em palavras. A Revelação não é a expressão progressiva de uma consciência religiosa, nem o fruto de uma experiência coletiva da comunidade dos crentes; é a verdade mesma de Deus comunicando-se de modo sobrenatural à inteligência dos homens para a sua salvação.

10 – Creio que o depósito da fé se encerrou com a morte do último Apóstolo. Depois dos Apóstolos, a Igreja não recebe uma nova Revelação, mas guarda, explica, defende e transmite o depósito recebido.

11 – Reconheço nas provas externas da Revelação, em particular nos milagres e nas profecias, sinais certíssimos pelos quais a origem divina da religião cristã é demonstrada de maneira adaptada à inteligência humana em todo tempo e lugar. Reconheço também na própria Igreja, pela sua unidade, santidade, catolicidade, fecundidade e estabilidade invencível, um motivo permanente de credibilidade e um testemunho irrefutável da sua missão divina.

12 – Professo que a fé é a submissão sobrenatural da inteligência, movida pela graça, à verdade revelada exteriormente por Deus. Repousa não na evidência das coisas vistas, nem no juízo privado, nem na experiência do que se vive, mas na autoridade mesma de Deus que fala e que, sendo a Verdade primeira, não pode enganar-se nem nos enganar. A fé não é, pois, nem um sentimento religioso cego, nem uma emoção da alma, nem uma convicção íntima produzida pela consciência pessoal ou coletiva. É a virtude sobrenatural que levanta a inteligência humana e lhe permite conhecer a Deus tal como é, graças ao testemunho que Deus dá de si mesmo, à espera da Sua visão.

13 – Rejeito, por conseguinte, o erro do modernismo, tal como nos assola ainda atualmente, e que reduz a fé a uma experiência interior, a uma aspiração sensível, ou a uma progressiva tomada de consciência da comunidade dos crentes. Tal concepção destrói a própria noção de dogma e torna impossível a obrigação de crer, pondo no lugar da verdade divina a sinceridade subjetiva e abandonando a doutrina às flutuações da história.

14 – Professo também que o depósito da doutrina revelada por Deus está encerrado nas suas duas fontes, que são as Sagradas Escrituras e a Tradição. Professo que a Tradição contém mais de uma verdade revelada por Deus que não se encontra nas Escrituras, e que portanto as Escrituras devem ser lidas e entendidas de acordo com a Tradição .

15 – Professo que as Sagradas Escrituras, cujos livros foram escritos inteiramente, em todas as suas partes, por inspiração do Espírito Santo, é verdadeiramente a palavra de Deus, isenta de qualquer erro e confiada à interpretação autêntica do Magistério da Igreja, segundo a norma da Tradição e segundo a analogia da fé.

16 – Rejeito, portanto, a exegese racionalista, que trata os livros santos como documentos que têm somente o homem por autor, que exclui a priori a possibilidade do sobrenatural, que separa artificialmente o Cristo histórico da fé da Igreja, que dissolve os milagres no símbolo, ou que submete as Escrituras às hipóteses cambiantes e às manipulações dos métodos críticos naturalistas. A verdadeira ciência bíblica deve pôr-se a serviço da inteligência da fé; não lhe cabe erigir-se em regra, em intérprete ou em juiz da palavra de Deus.

17 – Professo, enfim, que a Tradição não é uma memória morta, mas a transmissão viva da doutrina recebida dos Apóstolos. Permanece viva, no que se distingue na Revelação, que está encerrada. Está a um só tempo na atividade do Magistério da Igreja docente e na profissão de fé da Igreja discente, cujo “sentire cum Ecclesia” é o resultado do ensinamento do Magistério. A Tradição pode ser chamada de “viva” não no sentido de que mudaria de significado, mas no sentido de que o Magistério vivo propõe ao longo dos séculos, de maneira sempre mais clara e mais explícita, a mesma verdade com o mesmo significado. O que foi crido por todos, sempre e em todo lugar, como pertencente a fé, não pode ser negado nem posto em dúvida por nenhuma voga teológica, nenhuma pressão pastoral, nenhuma necessidade diplomática, nenhuma pretensa exigência do mundo moderno.