
Por Dardo Juan Calderón
Fonte: Revista Ultramontano
Por ocasião da publicação do livro “O nascimento da Cultura Cristã” de Rubén Peretó Rivas, publicou-se no site Infocatólica uma entrevista com o autor em que, para além daqueles primeiros tempos da cristandade que a obra percorre, tenta-se uma definição sobre “em que consiste essa cultura” e “quais são os seus momentos mais altos”, partindo do pressuposto de que o entrevistado é um “especialista”. No meio da entrevista, e a modo de conclusão, recorrendo à obra de John Senior, responde à pergunta fazendo um panorama descritivo de todos aqueles fenômenos que constituem essa cultura nos âmbitos artísticos e intelectuais; arquitetura, literatura, pensamento filosófico e teológico de vários autores durante a idade média e, em concordância com a ideia de Senior, dois pontos centrais: primeiro, “a ideia de justiça, de perdão e de humildade, todos derivados do mandamento de amor ao próximo que nos deixou Nosso Senhor Jesus Cristo” e “Em segundo lugar, uma série de tradições e rituais… sobretudo o tesouro enorme da Santa Missa. Todos eles formam parte da cultura cristã e nos identificam como herdeiros e membros dessa cultura. John Senior com acerto afirma que a missa é o centro e o coração da cultura cristã, já que foi em torno da celebração da santa missa onde e como se formou a nossa cultura”.
Tudo muito lindo, sim, sim. Mas não.
Tratando de sair do ambiente esteticista e emotivo em que estes dois autores se instalam, para gozo de seu frívolo mundinho católico, ensaiemos uma resposta mais adequada: a cultura cristã forma-se na consideração e adoção espiritual da Revelação de Nosso Senhor Jesus Cristo e seus Apóstolos, guardada e interpretada pelo Magistério da Igreja – para isso instituída pelo próprio Cristo – que se encarna numa sociedade política que busca o cumprimento das promessas evangélicas, produzindo com este sentido tudo o que é relacionado à vida de uma sociedade concreta na história. Transformando sob uma nova luz todos os elementos culturais positivos das culturas humanas anteriores.
A cultura cristã é o resultado de uma sociedade iluminada, em todas as suas expressões, pela Santa Igreja Católica, Apostólica e Romana.
Neste processo, o elemento central é a “inteligência” que da Revelação faz o Magistério da Igreja, e não podemos esquecer que esse esforço da inteligência tem o seu momento culminante na obra teológico-filosófica de Santo Tomás de Aquino. Com ela podemos entender, apreender e julgar o acerto de todas as expressões culturais pré-cristãs e cristãs que compuseram essa cultura, como também o desacerto da anti-cultura anticristã da modernidade. Dir-me-ão: como fica o Magistério? Pois Santo Tomás não é “revelação”; mas a partir de Santo Tomás todo o Magistério infalível se expressará a partir desta Teologia.
A Revelação, a liturgia – especialmente a Santa Missa – os sacramentos e todos os mistérios da nossa religião têm o seu sustento numa “doutrina”, e são compreendidos e aprendidos (na medida humana possível) na sua maior profundidade possível a partir da Teologia de Santo Tomás, constituindo por isso o “fato” cultural mais importante da cristandade. O que não implica desmerecimento do efeito salvífico que a Celebração dos Mistérios, com o derramamento da graça sobre as almas, sempre produziu desde a sua primeira ocorrência.
Esclareçamos. Há marcos literários, arquitetônicos, musicais etc. dentro da Cultura Cristã. Mas o marco da inteligência, que é a expressão cultural humana primordial, foi Santo Tomás.
E isto é o que não percebem – e até negam – os dois autores que trazemos, Senior e no seu seguimento Peretó Rivas, produzindo e encarnando a ideia de que a mensagem da Revelação não está dirigida em primeiro lugar à inteligência humana, mas às suas emoções. E com isso, desancorando o cultural do inteligente, vindo a encalhar numa espécie de élan estético e até gnóstico, que se liberta do Magistério Eclesiástico para se abrir no caos dos sentimentos, tornando impossível uma restauração da correta intelecção da nossa cultura e da nossa fé, que foi enormemente afetada por esta tendência emotiva, profundamente protestante. Diz na entrevista: “Este ano tive a possibilidade de visitar a catedral de Zamora, um edifício românico, de uma beleza maciça e impactante, construído no século XII. Quando passeava por ela, fria e vazia, dizia-me: ‘Isto é a cultura cristã'”. O que estava vazia, porém quente, era a sua cabeça. Muitos jamais visitaremos a Catedral de Zamora, mas quando leio o Tomismo, digo-me: “Isto é a cultura cristã”, com a cabeça cheia e fria. A catedral é “produto” da cultura católica; a inteligência do traditum é a cultura católica.
Provemos o dito. Ambos autores são avessos ao tomismo; aversão expressa de maneiras ambíguas para não serem escandalosos, mas suficientes para se perceber. Peretó diz de maneira camuflada com o seu personagem The Wanderer, num artigo que se intitula “La segunda redención” e que, pela sua importância, publicou duas vezes. O artigo, escrito em 2007, já era frívolo, mas a sua reedição estabelece uma espécie de contumácia na frivolidade. A afirmação que ali se faz é a seguinte: “Posso estar equivocado, mas parece-me um erro a pretensão de constituir a doutrina tomista em regra de juízo da catolicidade de uma pessoa ou de uma doutrina”. Entende o autor que não seria católico tudo o anterior a Santo Tomás, salvo se se entendesse como uma prefiguração do mesmo, e dessa forma a redenção necessariamente se faria tomista e não cristã. Mas não somos tolos: o problema não é se o anterior devia ser tomista, mas se ele, Pereto, deve ser tomista; o seu argumento é sofístico e implica o desgosto de ver-se “atado” pelo Magistério. Retorna aos antigos para demonstrar que se podia ser católico sem ser tomista, logo ele, Pereto, quer ser católico, daqui em diante, sem ser tomista. Podia-se ser cristão sem São Paulo, como Estêvão antes de São Paulo? Com certeza. Mas não depois.
Senior tem o mesmo problema e exprime-o mais rebuscadamente quando ensaia a Restauração da Cultura Cristã, pondo-se na posição de recuperar muitos dos efeitos, mas não a “inteligência” cristã que se decantou no tomismo. Mais ainda: foge do tomismo e descarta-o. Vejamos: “Eu não preconizo nada que se pareça com uma renovação do tomismo”… “não preconizo de modo algum uma volta a Santo Tomás, como não preconizaria a construção de uma réplica do Mont Saint Michel ou de Chartres”. Uma restauração da cultura cristã sem Santo Tomás?! E vêm as desculpas, pondo Santo Tomás nas nuvens, julgando-o incompreensível para a mentalidade contemporânea. Para enfrentar o tomismo, diz-nos, há que percorrer todas as artes liberais, a gramática, a lógica, a retórica, as matemáticas, a música — toda a educação musical! — com a sua história, a literatura, a dança e… a ginástica! “porque a ginástica é o fundamento de todo saber segundo a máxima nihil in intellectu nisi prius in sensu”. Isto é: impossível. Descartado Santo Tomás de toda possibilidade de restauração; ufa! Livramo-nos desse peso!
O que o artigo propõe é a velha e batida postura de um esteticismo católico que transcorre fora do tempo e do espaço, que se perfila na romântica postura de um “caminhante” sem raízes, sem Magistério, que toma e deixa o que lhe agrada ou não, e cujo único critério de catolicidade é uma libérrima relação com um Cristo que encontra nas nuvens e não na encruzilhada histórica em que Ele o pôs, livre para libar das flores do jardim a que mais apraz ao seu “bon goût“. Não quero cair em psicologismos ferinos.
Dizia um bom padre comentando esta passagem de Senior: “seria interessante saber que exercícios de ginástica praticava Santo Tomás antes de escrever a Summa. Tende-se a crer que se contentava com pôr-se de joelhos para recitar ‘o creator ineffabilis…'”. “O estudo de Santo Tomás não requer em absoluto este longo preâmbulo; basta ter bom senso e boa vontade. Há inúmeras passagens acessíveis a todos e bons autores para as mais difíceis, bons comentadores com simpleza: o Padre Emmanuel, Dom Lefebvre com o seu ‘Itinerário Espiritual seguindo Santo Tomás de Aquino'”. No nosso meio abundam excelentes comentários e recomendo-vos os sermões dos padres da FSSPX, de estrita estrutura tomista.
Santo Tomás é perfeitamente acessível e não há restauração possível da Cultura Cristã sem ele, restauração que parte da inteligência da nossa fé a partir do Magistério. A questão litúrgica depende da doutrina que a rodeia e a significa, não do seu valor cultural ou estético julgado pelas emoções que inspira muito subjetivamente. A beleza surge da Verdade, não o contrário.