
Papa Leão XIV em frente a obra Diluvium do artista francês JR, na Biblioteca Apostólica Vaticana, em 14 de setembro de 2026.
Fonte: DICI – Tradução: Dominus Est
Um artigo de Robert Morrison, publicado no site Remnant em 4 de setembro, relata que Leão XIV deu início ao seu ciclo catequético para o ano de 2026-2027 recordando que João XXIII, no início do Concílio Vaticano II, denunciou aqueles “profetas da desgraça” que, “embora animados por zelo religioso […] repetem constantemente que nossa época, comparada aos séculos passados, é muito pior…”. O atual papa endossa esse julgamento e convida os fiéis a se engajarem socialmente: “Com Cristo e sustentados pela força de seu Espírito, os fiéis são chamados a assumir a responsabilidade pelas dificuldades de seus irmãos e irmãs, em particular daqueles que são oprimidos pela injustiça, discriminação e violência.”
Ele reforça sua mensagem com uma oração muito pessoal: “Senhor da Vida, Vós nos concedestes a água, fonte de fertilidade, frescor e esperança. Ela sacia a sede, fertiliza a terra e cura feridas. […] Que nosso cuidado com a água seja um sinal de amor ao Criador e um compromisso com a vida dos pobres, educando as novas gerações a valorizá-la e protegê-la. Amém.”
Dito isto, fica mais claro quem são os “profetas da desgraça” do século XXI. Segundo Leão XIV, eles demonstram apenas “passividade e indiferença diante dos acontecimentos, da história e da vida das pessoas, especialmente diante das rápidas e profundas mudanças que vivenciamos hoje”. Enquanto isso, segundo o Padre Yves Congar, com “a Constituição Pastoral Gaudium et Spes […] a Igreja do Vaticano II posicionou-se abertamente no mundo pluralista de hoje; e, sem negar nada de sua grandeza passada, rompeu as amarras que a prendiam às margens da Idade Média”. E acrescentou, sem rodeios: “Não podemos permanecer estagnados em um momento específico da história. Dom Lefebvre fala do ‘reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo sobre os indivíduos, as famílias e as sociedades civis’. Dir-se-ia que se estamos ouvindo Pio X ou Pio XI”(1).
De fato, Pio XI, na encíclica Quas primas, declarou que “ a proliferação de males sobre o mundo decorria do fato de que a maioria dos homens havia afastado Jesus Cristo e sua santíssima lei dos hábitos de sua vida individual, bem como de sua vida familiar e pública” e que, portanto, “jamais poderia surgir uma firme esperança de paz duradoura entre os povos enquanto indivíduos e nações se recusassem a reconhecer e proclamar a soberania de Nosso Salvador”.
Seu sucessor, Leão XIV, não compartilha dessa opinião; ele não se pronuncia sobre o reinado social de Jesus Cristo, mas convida os fiéis a implorarem a graça de Deus para que possam preservar a água com justiça. Da mesma forma, em 1º de outubro de 2025, ele abençoou um bloco de gelo derretendo para alertar o mundo sobre os perigos do aquecimento global. Ontem, uma bênção à água solidificada em gelo; hoje, uma oração pela distribuição justa da água líquida; amanhã, um sermão sobre o vapor d’água… Tal é o magistério “sinodal”, à semelhança da água que ele protege com tanto zelo: cada vez menos substancial, cada vez mais evaporada.
Padre Alain Lorans, FSSPX
(1) Congar, A crise na Igreja e Dom Lefebvre, Cerf, 1976