
Fonte: Radio Spada – Tradução: Dominus Est
Enquanto a narrativa oficial da grande mídia (em parte “católica”) retrata um Vaticano misericordioso que tenta uma mediação final com os “rebeldes” de Ecône, os documentos publicados pela Fraternidade São Pio X (FSSPX) contam uma história diametralmente oposta. A recente declaração da Fraternidade, apoiada por uma cronologia documental, revela que o diálogo não está “apenas começando”, mas já foi amplamente experimentado e, na verdade, sabotado por reivindicações romanas teologicamente inaceitáveis. Tudo isso, obviamente, admitindo (e não concedendo) que o diálogo com quem nega os fundamentos da doutrina e da razão seja possível em si mesmo.
O fracasso do “diálogo”: mais do que um encerramento, um ultimato.
A narrativa de um “novo rumo” para o diálogo agora se revela uma operação exploratória. Os documentos revelam que as tentativas de reconciliação fracassaram não por obstinação “lefebvriana”, mas pela imposição de cláusulas que teriam obrigado a FSSPX a renegar os ensinamentos da Igreja e, portanto, sua própria razão de ser.
A carta do Cardeal Müller a D. Fellay (6 de junho de 2017) já havia preparado o terreno para o que se configurava como um verdadeiro ultimato. Nesse texto, o então Prefeito da Doutrina da Fé exigia a plena aceitação do Concílio Vaticano II e a legitimidade da Nova Missa, sem margem para qualquer discussão crítica. A resposta da FSSPX sempre foi clara: a Verdade não pode ser trocada por uma regularização canônica, o que configuraria uma “armadilha” doutrinal, que aliás já mostrou seus frutos desastrosos em outras realidades (ver, por exemplo, o caso de Campos).
Essa incompatibilidade e a vacuidade do “diálogo” foram confirmadas após a carta do Superior Geral (Pe. Davide Pagliarani) a Monsenhor Guido Pozzo, de 17 de janeiro de 2019. As posições são irreconciliáveis: de um lado, a Tradição perene; de outro, uma visão eclesial que abraçou o ecumenismo e o liberalismo condenados por Papas anteriores. O “diálogo” foi interrompido em um ponto de ruptura relacionado à Fé, e não a uma questão burocrática. A proposta — ou melhor, a ameaça — do Vaticano de reabri-lo repentinamente agora, após o anúncio das sagrações (com a cláusula de sua suspensão), mostra que provavelmente o objetivo é outro.
Uma mão estendida? A inversão da realidade: um Vaticano em ruínas versus uma Tradição próspera.
É necessário inverter a perspectiva comunicativa: não é o Vaticano “forte” que estende a mão aos “pobres lefebvrianos” marginalizados. A realidade mostra uma hierarquia em meio a uma crise sem precedentes: igrejas fechando, seminários abandonados, falta de vocações levando à extinção de dioceses inteiras no Ocidente e um caos doutrinário dividindo o Colégio Cardinalício sobre questões fundamentais.
Neste deserto, a FSSPX parece ser uma realidade próspera e em constante crescimento: seminários lotados, famílias numerosas, escolas católicas e uma fidelidade litúrgica que atrai um número cada vez maior de jovens desiludidos com o modernismo. A suspeita, corroborada pelos fatos, é de que o renovado interesse do Vaticano seja uma tentativa equivocada de “normalizar” (isto é, neutralizar) a única voz que ainda denuncia o fracasso da era pós-Vaticano II, buscando absorver os frutos de uma vitalidade que a Roma neomodernista perdeu.
Afinal, estamos falando de um verdadeiro “inverno eclesial” que se manifesta de forma clara:
- A sangria de fiéis e vocações: enquanto as dioceses oficiais fecham paróquias rapidamente, vendem igrejas para transformá-las em centros culturais ou bibliotecas e veem seus seminários abandonados, a FSSPX experimenta um crescimento constante. Os seminários de Ecône, Dillwyn e Zaitzkofen estão cheios de jovens prontos para o sacerdócio, um sinal de que a seiva da Tradição nunca secou.
- Caos doutrinal e litúrgico: O Vaticano hoje se assemelha a uma Torre de Babel teológica, onde documentos ambíguos ou manifestamente errôneos (basta pensar nos excessos sensacionalistas da Fiducia Supplicans ou nos excessos do Caminho Sinodal Alemão, mas sobretudo nas raízes do Vaticano II que sustentam tudo isso) alimentam a confusão e a divisão.
- O fracasso do projeto pós-conciliar: a crise da hierarquia não é apenas numérica, mas também de identidade.
Silenciar, com diálogos inconclusivos sobre questões indiscutíveis, uma voz crítica que lembra ao mundo o que a Igreja sempre foi e o que o Vaticano parece ter esquecido, é simplesmente um caminho impraticável. Estamos diante de um sistema que está se desmantelando e, se há algo a ser feito, é a hierarquia neomodernista que precisaria redescobrir aquela Tradição que outros mantêm intacta.
A instrumentalização da obediência
A declaração da FSSPX deixa claro que ressuscitar propostas antigas, anteriormente rejeitadas, é essencialmente um ato de propaganda. Apresentar a FSSPX na mídia como “obstinada” serve para justificar potenciais medidas repressivas, ocultando o fato de que o acordo fracassou porque Roma transformou a fé em um tema de debate e a obediência em uma aceitação do erro .
Além das Notícias: Ferramentas para Compreender o “Golpe” e a Verdadeira Doutrina
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Conclusões
Os documentos de 2017 e 2019, juntamente com uma dúzia de outros que poderiam ser citados, são claros: ninguém está buscando um cisma. A “farsa” dos malvados “lefebvristas” que rejeitam a mão misericordiosa do Vaticano desmorona sob o peso da realidade: a resistência daqueles que se recusam a descartar a Tradição não é contra o Papado, mas contra a demolição da própria Igreja.