CARTA A UM BISPO DIOCESANO SOBRE VOCAÇÕES

A perspectiva que a Fraternidade São Pio X pode oferecer à Igreja universal no que diz respeito às vocações sacerdotais.

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Fonte: DICI – Tradução: Dominus Est

Monsenhor,

Uma vez que nossa última conversa versou sobre as vocações sacerdotais, permita-me partilhar fraternalmente com o Sr. minha visão sobre o futuro das vocações nas dioceses.

Parece-me que os responsáveis ​​pela pastoral vocacional muito se beneficiariam se meditassem sobre as grandes lições que as comunidades tradicionais extraíram de sua experiência atual: o florescimento das vocações é, antes de tudo, fruto de uma vida de fé coerente, não apenas individual, mas familiar e social, de uma sólida cultura cristã, e não de uma estratégia de comunicação.

Nossa experiência com vocações

Observamos que as vocações surgem onde o sacerdócio é vivenciado como algo elevado e edificante, não como uma mera função, onde sua missão é vista claramente como sobrenatural e necessária — como um instrumento insubstituível da graça de Deus — e não como uma espécie de assistente social ou administrador. Um pároco da diocese me dizia recentemente:  “Nós nos dedicamos à presença e ao encontro. Vemos coisas belas.” Claramente, ele não inspirará nenhuma vocação.

O projeto de vida que lhes oferecemos deve ser sólido, seguro e livre de surpresas desagradáveis. A vida comunitária e fraterna que nossa Fraternidade oferece atrai e tranquiliza os jovens. Além disso, os sacerdotes que irradiam a busca pela santidade e possuem um espírito paterno desempenham um papel significativo em muitas vocações.

Padrões exigentes atraem mais do que o relativismo. Este é o método de Nosso Senhor: “Se queres seguir-me, renuncia a ti mesmo, toma a tua cruz e segue-me“. Um confrade diocesno me disse: “Meu caro amigo, se eu falar assim, esvazio minha igreja. Faço o que posso…” Portanto, apesar de todas as suas boas intenções, certamente ele não inspirará nenhuma vocação.

Em nossa sociedade, marcada pelo individualismo e pela desorientação moral, procuramos formar e acompanhar as pessoas na modéstia, na organização da vida familiar, na catequese, na prática dos sacramentos em família e na fidelidade aos mandamentos. Vocês certamente concordarão que a coerência entre a fé professada e o modo de vida concreto constitui um fator de credibilidade, e não de sectarismo.

Famílias devotas continuam sendo a base dos seminários. As vocações raramente surgem ex nihilo (do nada); elas emergem de um ecossistema denso que muitas dioceses viram enfraquecer nos últimos 40 anos: o de famílias numerosas, com uma prática dominical constante, que se beneficiam de uma catequese séria e de suas próprias escolas.

Em nossa conversa, o Sr. mencionou as dificuldades encontradas com *** (uma antiga comunidade Ecclesia Dei), porque as famílias de lá têm um modelo educacional que as diferencia de outras famílias da diocese. Mas é nessa medida que elas também recrutam para seus seminários. O senhor me disse não concordar com essa opinião, pois a Igreja estaria, em sua opinião, “muito excluída” do mundo, mas…ouso mantê-la. Constato essa realidade com demasiada frequência para escondê-la debaixo do alqueire.

A clareza constrói a compreensão da fé; a ambiguidade a torna confusa, exposta a todos os ventos da doutrina, a interpretações abusivas e, portanto, à dúvida. Jesus dizia: “Que o vosso sim seja sim, que o vosso não seja não; tudo o resto vem do Maligno”. É precisamente essa a nossa atitude em relação ao Concílio Vaticano II e ao Magistério pós-conciliar, e não uma rejeição orgulhosa. A Fraternidade investe muito na formação e na clareza doutrinária, mesmo estando cientes de nossa imperfeição… mas constatamos que nossa linha clara suscita vocações, pois a alma humana necessita de coerência.

A centralidade do Sacrifício da Cruz, oferecido em nossos altares durante a Santa Missa, e sua manifestação ritual, são evidentes no Rito Tridentino e forjam almas fortes, impelidas a participar do sacrifício de Cristo. Isso desperta muitas vocações no íntimo de seus corações. É também a coragem do sacerdote que prega a renúncia e a beleza de seu próprio sacrifício, oferecido sem reservas em seu celibato consagrado e batina preta, e ainda assim repleto de alegria como um aleluia em sua Missa. Não digo isso para defender uma posição, mas é uma observação feita após ter acompanhado mais de 220 jovens em seu discernimento vocacional.

A necessidade de sua mediação sacramental — “Eu te absolvo de teus pecados. Este é o meu Corpo, este é o meu Sangue” — jamais poderá ser efetivamente proclamada senão por um sacerdote. Muitos jovens que ingressam no seminário o fazem porque compreendem que, sem o ministério do sacerdote, as almas se perdem. Estão convencidos da absoluta necessidade do sacerdócio.

O sagrado na liturgia gera o sagrado nas almas. A liturgia, ao pretender adaptar-se perfeitamente aos homens de hoje, não apela a essa parte de suas almas. Sim, a liturgia tradicional é menos compreensível de forma direta e, no entanto, atrai cada vez mais pessoas. É a linguagem do sagrado que assume o comando e fala às profundezas da alma, o que as orações ou palavras em voz alta ao longo de toda a liturgia impedem. Nossos antepassados se beneficiaram disso durante séculos e almas profundas surgiram em grande número entre os ignorantes.

Minorias criativas

Dessa forma, permita-me abordar com mais clareza um ponto da nossa conversa. O risco de isolamento sociocultural de que me falava, a dificuldade de articulação com o resto da Igreja universal, podem efetivamente ser perigos, mas a realidade é bem outra: por um lado, esse afastamento é atualmente o que mais protege nossa fidelidade e, portanto, nossa estabilidade e, consequentemente, o recrutamento sacerdotal. Por outro lado, mais da metade dos fiéis da Fraternidade São Pio X são convertidos ou famílias que voltaram à prática cristã por meio do nosso apostolado.

Por fim, as famílias que se beneficiam do nosso ministério não estão isoladas. Elas participam humildemente da reconstrução da Igreja, que envolve não apenas sacerdotes, mas também uma rede comunitária de escolas independentes, centros de acolhimento, movimentos de juventude, iniciativas de solidariedade local, associações culturais e diversas outras redes. Nossa força reside na reconstrução a longo prazo, sem sacrificar princípios em prol de resultados rápidos. É importante destacar que, ao redor da Fraternidade, cerca de 20 congregações religiosas tradicionais com diversas espiritualidades estão se desenvolvendo, reunindo centenas de religiosos e religiosas e demonstrando a notável vitalidade da alma da Tradição.

O senhor sabe que o futuro Bento XVI falava de “minorias criativas” capazes de preservar o coração da fé em tempos de secularização.

Dessa perspectiva, comunidades como a Fraternidade não pretendem transformar imediatamente a sociedade ou a Igreja, mas sim preservar uma doutrina intacta, pura de qualquer adaptação às ideologias modernas; formar sacerdotes solidos e convictos, espiritualmente preparados para uma vida equilibrada no mundo atual; transmitir uma cultura católica verdadeira e bela; reconstruir por meio de uma ação capilar.

Dessa perspectiva, a própria lentidão do processo é um sinal de solidez: formar sacerdotes leva tempo; formar famílias cristãs coesas leva uma geração.

Parece-me meu dever esclarecer-vos estas coisas com toda a humildade, sabendo que, estando abertos à realidade, não estamos apegados às nossas opiniões. Parece-me também que toda esta experiência da Fraternidade São Pio X não é muito diferente da experiência multisecular da Igreja.

Aceite, Monselhor, a expressão do meu respeito religioso e a certeza das minhas orações para que a graça divina seja o fermento da sua obra apostólica.

Pe. Guilherme Gaud, FSSPX