CRETINOS OU CANALHAS?

Por que as cobras mostram a língua?

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Texto escrito pelo nosso amigo Robson Carvalho

Confesso que ao intentar escrever estas linhas, não pude deixar de pensar em dois adjetivos que calham muito bem para a maioria das pessoas de nossos tempos. Não falo das pessoas honestas, que buscam a verdade e a prática das virtudes sem se esconder atrás de estereótipos ou se agarrar à ignorância ou maledicência dos doutos de internet. Falo justamente dos “doutores” de nossos tempos, destes que se arrogam um conhecimento que não possuem, ou que deturpam aquilo que aprenderam de correto a fim de garantir benefícios ou privilégios. Falo principalmente daqueles que fazem, cinicamente, aquilo que condenam, que negam a realidade, a situação objetiva de nossos dias, fingindo que estamos em um país das maravilhas, que a situação atual é corriqueira, comum, normal da história da Igreja.

Eles são um pouco como aqueles que, na política, dos mais variados espectros, com base em fantasmas, em ideologias utópicas, são intolerantes em nome da tolerância, que, em nome da paz e da emancipação dos dogmas, pregam o assassinato de todos aqueles que vão contra suas cartilhas dogmáticas, que, em suma, praticam o que andam chamando de “discriminação positiva”.

No fundo, é tudo hipocrisia. Usam termos e malabarismos intelectuais para justificar o injustificado, para esconder propósitos e intenções nada virtuosas. Mostram os dentes para aqueles que defendem o que sempre foi crido, enquanto abrem as portas e se sentam à mesa com os inimigos da fé, chamando-os de amigos ou dissimulando as verdades católicas para não incomodar os invasores.

É o paradoxo do modernismo – basta ler a Encíclica Pascendi para ver que a maioria dos católicos de hoje são modernistas, inclusive a maioria do clero.

Na teoria, fingem defender uma verdade, enquanto, na prática, no dia a dia, pelo silêncio e o espírito de avestruz, ajudam, contribuem para destruí-la.

É pensando neles que me vieram à mente as duas palavras que intitulam este texto: cretinos ou canalhas? Cretino, do francês cretin, originalmente indicava uma pessoa que, apesar de suas faculdades mentais estarem aquém do normal, tornava-se cristão. Hoje, em um sentido pejorativo, o adjetivo denota aquele que revela uma estupidez, uma inteligência grosseira, sendo sinônimo de imbecil, parvo, tolo. Já canalha designa aquele que age com desonestidade, sendo sinônimo de infame, calhorda, velhaco.

E por que estou dizendo tudo isto?

Ao longo de todo o dia de ontem, o microcosmo católico da internet – como na internet temos sábios! -, foi abalado pela notícia de que a Fraternidade Sacerdotal São Pio X sagrará, em 1º de julho de 2026, alguns bispos. Aparentemente, a sagração ocorrerá novamente sem o consentimento da Santa Sé, tal como em 1988, quando Dom Marcel Lefebvre sagrou 4 bispos em Écone, na Suíça.

Esse consentimento, aliás, foi solicitado em espírito filial. Mas em Roma estão mais preocupados em entronizar Lutero ou Pachamama dentro do território sagrado do que com as necessidades dos fiéis, deixando-os, pelo silêncio ensurdecedor, à deriva. Permitir a sobrevida da FSSPX é colocar em risco o trabalho destruidor em curso. 

Em muitos momentos, aliás, já tentaram isso, criando institutos “tradicionalistas”, com nomes pomposos, cujo único objetivo sempre foi retirar o maior número possível de fiéis e padres da Fraternidade, usando o canto da seria chamado “plena comunhão”. Todos sabemos qual seria o futuro desses institutos com um improvável fim da FSSPX durante a crise que reina!

Ocorre que o cerne da minha questão não é a sagração em si, tampouco o silêncio de Roma, ou qualquer outra coisa senão a situação de anarquia reinante que justifica o Estado de Necessidade.

Vejam, não sou eu que o digo, um simples fiel leigo, imerso em suas atividades diárias, tentando sobreviver num Brasil paganizado que teima em se dizer católico ou cristão, tendo de ver diariamente que as referências do catolicismo tupiniquim são padres cantores sensualizados, carismatizados, numerários da Opus Dei com conta premium nos programas de IA – para quem tudo o que sai de suas bocas é verdadeiro e infalível – ou debatedores que não sabem sacar a espada da verdade diante de protestantes medíocres. São teólogos.

Ao discorrer sobre o Estado de Necessidade, o padre Jean-Michel Gleize, teólogo da FSSPX – como gostaria de um debate entre o padre Gleize ou o padre Calderón com os doutos das Terras Brasilis! -, com farto arcabouço de citações, define-a como sendo: uma situação extraordinária na qual os bens necessários à vida natural ou sobrenatural encontram-se ameaçados a tal ponto que as pessoas ficam obrigadas, para salvaguardá-la, a infringir a lei… Na Igreja, todo o conjunto de leis eclesiásticas está ordenado por definição à pregação da doutrina da fé e à administração dos sacramentos. Se a aplicação da lei se opõe ao objetivo da lei, desejado pelo legislador, essa aplicação não goza mais de legitimidade, porque se coloca em contradição consigo mesma. A fim de obter o objetivo da lei, os cidadãos podem e devem desconsiderá-la, ignorando as autoridades que aplicam a lei a despeito da lei

A questão toda, portanto, longe dos debates estéreis e da gritaria e da ofensa de homens barbados (cretinos ou canalhas?), se resume a saber: existe Estado de Necessidade?

Bom! Meus queridos irmãos, a resposta a esta pergunta não depende da avaliação subjetiva de cada indivíduo.

Não precisam concordar comigo. Não precisam aceitar o que eu falo. Basta olharem atentamente a paróquia que frequentam.

O sacrifício individual, a penitência, a mortificação foi substituída pelo laxismo, pela conveniência. A hombridade, a honradez, a sensatez, o bom senso, a fé, a oração em família, a oração em todos os momentos da vida, o silêncio, a contemplação, tudo foi substituído pelo escracho, pelas gargalhadas, pelas brincadeiras permissivas, pela irreverência, pela falsidade, pelo despudor, pela sensualização, pelo espetáculo, o grito, o barulho, o sensacionalismo, a pirotecnia, o domínio dos sentidos sobre a carne. Os sermões se transformaram em rodas de conversa, com a disseminação de utopias, de notícias, de politicagem. Até mesmo capítulos de novelas ou programas de confinamento destinados a contemplar a baixeza do homem viraram temas para as homilias. Sem contar as piadinhas, os gracejos para animar a plateia.

No fim, pouco importa a santidade das almas, a salvação. Todos vão para o céu! (Menos os católicos que recebem os sacramentos pelos padres da Fraternidade, claro!)

O importante, o que vale hoje, é “se arrepiar”, sentir, “ser cool”.

Jesus Cristo, verdadeiro homem e verdadeiro Deus, não é mais o centro de tudo. Ele foi substituído por um homem adocicado, desconfigurado, irreconhecível para qualquer cristão que viveu até 1965. Um Cristo bobalhão, quase feminista, defensor dos animais, que abençoa a sodomia, que se cala para não incomodar a vaidade e as opiniões na moda.

Afinal, ser cristão pode nos custar o sustento, a carreira promissora, a pretensa reputação!

Tudo isso é estético, certamente, mas reflete um problema muito mais profundo. Só chegamos a esta situação, em um mundo onde o povo católico se reduziu à inexpressão, à inconstância e à ignorância, porque a doutrina, santa e perene, foi mitigada, reduzida, até mesmo escondida para agradar o mundo.

O Concílio Vaticano II é justamente isso, segundo as palavras de seus próprios promotores, uma “modernização”, uma renovação ao mundo contemporâneo.

Ora, como conciliar Cristo e Belial? Como unir o Céu e o inferno? É impossível. Os poderes deste mundo não são, e nunca foram parâmetro para a Igreja e seus fiéis. O mundo jaz sob o maligno, e querer uma renovação ao mundo contemporâneo significa capitular, renunciar à missão divina que foi confiada à Igreja. Não por menos, ainda que mantenha o verniz ou, pelo menos, a pompa, a maior parte da catolicidade não se difere em nada da imagem e das ideias que vemos nos salões de poder mundano.

A esmagadora parte da hierarquia capitulou, e a mitigação da doutrina é a consequência última do abandono da fé. Sem fé, em comunhão com o mundo, nada do mundo sobrenatural tem importância ou faz sentido. É a apostasia.

E a Santa Missa foi a primeira muralha que tentaram derrubar com um discurso de pretenso retorno às origens. Despojaram-na de tudo o que foi sendo desenvolvido ao longo dos séculos, de tudo que tornou a renovação Incruenta do Santo Sacrifício da Cruz uma afronta aos protestantes, aos pagãos, aos ateus.

A Santa Missa virou um espetáculo, e dos piores. Uma ceia protestante, para agradar protestantes. Não por menos, a irreverência a Cristo Eucarístico é gritante, dolorosa, esmagadora. Se realmente cressem que Cristo está presente na Hóstia, não teriam ido tão longe.

Com Traditionis Custodia, se não existisse a Fraternidade, estes mesmos institutos que agora rasgam as vestes com a notícia da sagração seriam reduzidos a nada, a menos que guetos. Sem a Fraternidade, diante dos caprichos do clero, de ordenamentos que mudam conforme o vento – ou da conveniência do freguês -, a Missa, dita Tridentina, seria suplantada para todo o sempre, pois ela é um escândalo para os modernistas.

Diante de tudo isto, como fiel, eu e muitos outros que não somos como avestruzes, que não têm mais estômago para suportar os desvarios, a luxúria e a cretinice reinante nas paróquias, por mais “conservadoras” ou “tradicionais” que se digam, não somos obrigados a aceitar esta situação. Não somos obrigados a renunciar à nossa fé, à fé de nossos antepassados, dos cristãos do Medievo, dos primeiros cristãos, dos apóstolos.

Não somos abrigados a renunciar a Jesus Cristo encarnado no seio da Virgem Maria, que disse seu sim consciente de sua participação na obra da Redenção, na entrega de seu Filho sobre a Cruz, de sua participação silenciosa no sacrifício que seria operado sobre o madeiro, de sua missão de se tornar a nova Eva, de gerar uma multidão de filhos para o Pai, que a desejou como sua Mãe desde sempre.

Ora, quando um Dicastério responsável pela defesa e promoção da fé, contra todo o desenvolvimento orgânico da doutrina católica, que, em muitos casos, leva séculos para eclodir em todo o seu esplendor, diz, num particular esforço ecumênico, que é sempre inoportuno o uso do título de Corredontora para definir a cooperação de Maria, temos o ápice da traição.

Mas estes exemplos não são únicos e isolados, resultantes de uma crise comum de interpretação. E ainda que o fossem, só o fato de querer proibir os fiéis de assistirem à Missa que santificou a Igreja durante, no mínimo, setecentos anos – sim, ela foi codificada em Trento, mas já existia junto com outros ritos -, ou de diminuir o papel de Nossa Senhora na economia da Salvação já constituem motivos para reclamar o Estado de Necessidade.

Mas não para por aí. Também poderíamos citar, além da mitigação da doutrina, da busca desenfreada por um ecumenismo que esvazia a Igreja de sua essência, da loucura em afirmar que todos os caminhos levam a Deus (por que então ser fiel da Igreja católica?), a situação do catolicismo na China ou na Alemanha, o domínio do homossexualismo e da luxúria entre o clero – com seus trejeitos afetados e seus crimes já não tão ocultos (escândalo para todos os fiéis que não querem esconder a verdade com argumentos hipócritas) -, a submissão da hierarquia à perfídia judaica, a promoção da liberdade ao erro, a implantação de uma democracia eclesiástica disfarçada de Sínodo, a promoção de uma igualdade que não encontra razão nas Escrituras, a capitulação ao sensualismo, a adoção de uma linguagem dúbia que distorce o sentido do matrimônio, além de tantas outras loucuras que nascem de mentes doentes e infiéis. A lista é extensa!

Por fim, não me venham dizer que sou herege, cismático, que tomo situações subjetivas como argumentos para provar um Estado de Necessidade que não existiria. Eu não tenho que provar nada. Está tudo à vista.

Sou um simples católico que tem o direito de aprender, viver, confessar, professar e defender tudo o que sempre foi crido, ainda que isso signifique desobedecer àqueles que deveriam ser os primeiros a defender a fé. Se você é contra aquilo que sempre existiu, ou você é um cretino ou um canalha. Qual vai ser?