
“Seria uma tragédia se a FSSPX fosse completamente excluída, e a responsabilidade recairia principalmente sobre a Santa Sé.”
Fonte: Substack de Diane Montagna – Tradução: Dominus Est
ROMA, 24 de fevereiro de 2026 — D. Athanasius lançou hoje um apelo ao Papa Leão XIV, após o anúncio da Fraternidade São Pio X (FSSPX) de que prosseguirá com as sagrações episcopais, apesar das advertências do Vaticano de que tal ato “constituiria uma ruptura decisiva da comunhão eclesial (cisma)”.
Intitulado “Um apelo fraterno ao Papa Leão XIV para a construção de uma ponte com a FSSPX”, e publicado exclusivamente abaixo, o bispo auxiliar de Astana apela à generosidade pastoral e à unidade eclesial num momento que ele descreve como decisivo para o futuro da relação entre a Santa Sé e a Fraternidade Sacerdotal tradicional.
D. Athanasius já atuou como visitador do Vaticano aos seminários da FSSPX, o que lhe proporcionou uma visão em primeira mão das estruturas, da liderança e dos fiéis da Fraternidade. Seu apelo surge em meio a um intenso debate no mundo católico, com reações que variam de uma esperança cautelosa de reconciliação a renovados apelos por medidas disciplinares.
D. Athanasius adverte o Papa Leão XIV para que não deixe passar este “momento verdadeiramente providencial” sem uma ação decisiva. Ele alerta que renunciar à oportunidade de conceder o mandato apostólico correria o risco de consolidar o que ele chama de uma divisão “verdadeiramente desnecessária e dolorosa” com a FSSPX — uma ruptura que a história não ignoraria facilmente.
Em um momento em que a Igreja fala insistentemente de sinodalidade, amplitude pastoral e inclusão eclesial, Sua Excelência argumenta que a unidade autêntica também deve se estender aos fiéis ligados à FSSPX. A escolha diante do Papa, sugere ele, é se este capítulo da história da Igreja será lembrado como um momento de generosidade na construção de pontes ou de separação evitável.
Segue o texto integral do apelo de D. Athanasius Schneider ao Papa Leão XIV.
Um apelo fraterno ao Papa Leão XIV para que s econstrua uma ponte com a Fraternidade Sacerdotal São Pio X.
Por D. Athanasius Schneider
A situação atual relativa às sagrações episcopais na Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) despertou repentinamente toda a Igreja. Em um período extraordinariamente curto após o anúncio, em 2 de fevereiro, de que a FSSPX prosseguiria com essas sagrações, surgiu um debate intenso e muitas vezes carregado de emoção em amplos círculos do mundo católico. O espectro de vozes nesse debate varia entre compreensão, benevolência, observação neutra e bom senso, até rejeição irracional, condenação peremptória e até mesmo ódio declarado. Embora haja motivos para esperança — e isso não é de forma alguma irrealista — de que o Papa Leão XIV possa de fato aprovar as consagrações episcopais, já estão sendo apresentadas online propostas para o texto de uma bula de excomunhão da SSPX.
As reações negativas, embora muitas vezes bem-intencionadas, revelam que o cerne do problema ainda não foi compreendido com a honestidade e clareza necessárias. Há uma tendência a permanecer na superfície. As prioridades na vida da Igreja são invertidas, elevando a dimensão canônica e legal — isto é, um certo positivismo jurídico — ao critério supremo. Além disso, por vezes há uma falta de consciência histórica a respeito da prática da Igreja em relação às ordenações episcopais. A desobediência é, portanto, equiparada com muita facilidade ao cisma. Os critérios para a comunhão episcopal com o Papa, e consequentemente, a compreensão do que realmente constitui um cisma, são vistos de maneira excessivamente unilateral quando comparados com a prática e a auto compreensão da Igreja na era patrística, a época dos Padres da Igreja.
Neste debate, estão sendo estabelecidos novos quase-dogmas que não existem no Depositum fidei. Esses quase-dogmas sustentam que o consentimento do Papa à sagração de um bispo é de direito divino e que uma consagração realizada sem esse consentimento, ou mesmo contra uma proibição papal, constitui em si um ato cismático. No entanto, a prática e o entendimento da Igreja durante o período dos Padres da Igreja, e por um longo período posterior, contradizem essa visão. Além disso, não há opinião unânime sobre essa questão entre os teólogos reconhecidos da tradição bimilenar da Igreja. Séculos de prática eclesial, bem como o direito canônico tradicional, também se opõem a tais afirmações absolutistas. De acordo com o Código de Direito Canônico de 1917, uma sagração episcopal realizada contra a vontade do Papa era punida não com excomunhão, mas apenas com suspensão. Com isso, a Igreja manifestou claramente que não considerava tal ato como cismático.
A aceitação da primazia papal como uma verdade revelada é frequentemente confundida com as formas concretas — formas que evoluíram ao longo da história — através das quais um bispo expressa sua unidade hierárquica com o Papa. Crer na primazia papal, aderir com ele a tudo o que a Igreja ensinou de forma infalível e definitiva e observar a validade da liturgia sacramental é um direito divino. Contudo, uma visão reducionista que equipara a desobediência a uma ordem papal ao cisma — mesmo no caso de uma sagração episcopal realizada contra a sua vontade — era estranha aos Padres da Igreja e ao direito canônico tradicional. Por exemplo, em 357, Santo Atanásio desobedeceu à ordem do Papa Libério, que o instruiu a entrar em comunhão hierárquica com a esmagadora maioria do episcopado, que era, na verdade, ariano ou semiariano. Como resultado, ele foi excomungado. Neste caso, Santo Atanásio desobedeceu por amor à Igreja e pela honra da Sé Apostólica, buscando precisamente salvaguardar a pureza da doutrina de qualquer suspeita de ambiguidade.
No primeiro milênio da vida da Igreja, as sagrações episcopais geralmente eram realizadas sem a permissão formal do Papa, e os candidatos não precisavam ser aprovados por ele. A primeira regulamentação canônica sobre sagrações episcopais, emitida por um Concílio Ecumênico, foi a de Niceia, em 325, que exigia que um novo bispo fosse sagrado com o consentimento da maioria dos bispos da província. Pouco antes de sua morte, durante um período de confusão doutrinal, Santo Atanásio escolheu e consagrou pessoalmente seu sucessor — São Pedro de Alexandria —, a fim de garantir que nenhum candidato inadequado ou fraco assumisse o episcopado. Da mesma forma, em 1977, o Cardeal Servo de Deus Iosif Slipyj sagrou secretamente três bispos em Roma sem a aprovação do Papa Paulo VI, plenamente consciente de que o Papa não o permitiria devido à Ostpolitik do Vaticano na época. Quando Roma tomou conhecimento dessas consagrações secretas, porém, a pena de excomunhão não foi aplicada.
Para evitar mal-entendidos, em circunstâncias normais — e quando não há confusão doutrinal nem um período de perseguição extraordinária — é preciso, naturalmente, fazer todo o possível para observar as normas canônicas da Igreja e obedecer ao Papa em suas justas instruções, a fim de preservar a unidade eclesiástica de forma mais eficaz e visível.
No entanto, a situação atual na vida da Igreja pode ser ilustrada com a seguinte parábola: um incêndio irrompe em uma grande casa. O chefe dos bombeiros permite apenas o uso de novos equipamentos de combate a incêndios, mesmo que eles tenham se mostrado menos eficazes do que as ferramentas antigas e comprovadas. Um grupo de bombeiros desafia essa ordem e continua a usar o equipamento testado e comprovado — e, de fato, o incêndio é contido em muitos lugares. No entanto, esses bombeiros são rotulados como desobedientes e cismáticos, e são punidos.
Para estender ainda mais a metáfora: o chefe dos bombeiros permite apenas aqueles bombeiros que reconhecem o novo equipamento, seguem as novas regras de combate a incêndios e obedecem aos novos regulamentos do quartel. Mas, dada a escala óbvia do incêndio, a luta desesperada contra ele e a insuficiência da equipe oficial de combate a incêndios, outros ajudantes — apesar da proibição do chefe dos bombeiros — intervêm abnegadamente com habilidade, conhecimento e boas intenções, contribuindo, em última análise, para o sucesso dos esforços do chefe dos bombeiros.
Diante de um comportamento tão rígido e incompreensível, duas explicações possíveis se apresentam: ou o chefe dos bombeiros está negando a gravidade do incêndio, tal como na comédia francesa ” Tout va très bien, Madame la Marquise!” ; ou, na verdade, o chefe dos bombeiros deseja que grandes partes da casa queimem, para que ela possa ser reconstruída posteriormente de acordo com um novo projeto.
A atual crise em torno das sagrações episcopais anunciadas — mas ainda não aprovadas — na FSSPX expõe, diante dos olhos de toda a Igreja, uma ferida que vem ardendo há mais de 60 anos. Essa ferida pode ser descrita figurativamente como um câncer eclesial — especificamente, o câncer eclesial das ambiguidades doutrinárias e litúrgicas.
Recentemente, um excelente artigo foi publicado no blog Rorate Caeli, escrito com rara clareza teológica e honestidade intelectual, sob o título: “A Longa Sombra do Vaticano II: A Ambiguidade como Câncer Eclesial” (Canon of Shaftesbury: Rorate Caeli, 10 de fevereiro de 2026 ). O problema fundamental com algumas declarações ambíguas do Concílio Vaticano II é que o Concílio optou por priorizar um tom pastoral em detrimento da precisão doutrinal. Pode-se concordar com o autor quando ele afirma:
“O problema não é que o Vaticano II tenha sido herético. O problema é que ele foi ambíguo. E nessa ambiguidade, vimos as sementes da confusão que floresceram em alguns dos desenvolvimentos teológicos mais preocupantes da história moderna da Igreja. Quando a Igreja fala em termos vagos, mesmo que involuntariamente, almas estão em risco.”
O autor continua:
“Quando um ‘desenvolvimento’ doutrinário parece contradizer o que veio antes, ou quando requer décadas de ginástica teológica para se reconciliar com o ensinamento magisterial anterior, temos que perguntar: Isto é desenvolvimento, ou é ruptura disfarçada de desenvolvimento?” (Cânon de Shaftesbury: Rorate Caeli, 10 de fevereiro de 2026).
Pode-se razoavelmente supor que a FSSPX não deseja nada mais do que ajudar a Igreja a emergir dessa ambiguidade na doutrina e na liturgia e a redescobrir sua clareza salvadora perene — assim como o Magistério da Igreja, sob a orientação dos Papas, fez inequivocamente ao longo da história após cada crise marcada por confusão doutrinária e ambiguidade.
Na verdade, a Santa Sé deveria ser grata à FSSPX, pois ela é atualmente quase a única grande realidade eclesiástica que aponta de forma franca e pública a existência de elementos ambíguos e enganosos em certas declarações do Concílio e do Novus Ordo Missae. Nesse esforço, a FSSPX é guiada por um amor sincero pela Igreja: se não amassem a Igreja, o Papa e as almas, não empreenderiam essa obra, nem se envolveriam com as autoridades romanas — e, sem dúvida, teriam uma vida mais fácil.
As seguintes palavras de D. Marcel Lefebvre são profundamente comoventes e refletem a atitude da atual liderança e da maioria dos membros da FSSPX:
“Cremos em Pedro, cremos no sucessor de Pedro! Mas, como bem disse o Papa Pio IX em sua constituição dogmática, o Papa recebeu o Espírito Santo não para criar novas verdades, mas para nos manter na fé de todos os tempos. Esta é a definição de Papa feita por Pio IX durante o Concílio Vaticano I. E é por isso que estamos convencidos de que, ao mantermos essas tradições, manifestamos nosso amor, nossa docilidade, nossa obediência ao Sucessor de Pedro. Não podemos permanecer indiferentes diante da degradação da fé, da moral e da liturgia. Isso está fora de questão! Não queremos nos separar da Igreja; pelo contrário, queremos que a Igreja continue!”
Se alguém considera ter dificuldades com o Papa como um dos seus maiores sofrimentos espirituais, isso por si só é uma prova reveladora de que não há intenção cismática. Os verdadeiros cismáticos chegam a se vangloriar de sua separação da Sé Apostólica. Os verdadeiros cismáticos jamais implorariam humildemente ao Papa que reconhecesse seus bispos.
Quão verdadeiramente católicas são, então, as seguintes palavras do Arcebispo Marcel Lefebvre:
“Lamentamos profundamente, é uma dor imensa para nós pensar que estamos em dificuldade com Roma por causa da nossa fé! Como isso é possível? É algo que excede a imaginação, que nunca poderíamos ter imaginado, que nunca poderíamos ter acreditado, especialmente em nossa infância – quando tudo era uniforme, quando toda a Igreja acreditava em sua unidade geral e mantinha a mesma fé, os mesmos sacramentos, o mesmo sacrifício da missa, o mesmo catecismo”.
Devemos examinar honestamente as evidentes ambiguidades relativas à liberdade religiosa, ao ecumenismo e à colegialidade, bem como as imprecisões doutrinais do Novus Ordo Missae. A este respeito, recomenda-se a leitura do livro recentemente publicado pelo Arquimandrita Bonifácio Luykx, perito conciliar e renomado estudioso da liturgia, cujo título eloquente é “Uma Visão Mais Ampla do Vaticano II: Memórias e Análises de um Consultor Conciliar”.
Como disse certa vez G.K. Chesterton: “Ao entrarmos na Igreja, somos convidados a tirar o chapéu, não a cabeça”. Seria uma tragédia se a FSSPX fosse completamente excluída, e a responsabilidade por tal divisão recairia principalmente sobre a Santa Sé. A Santa Sé deveria acolher a FSSPX, oferecendo ao menos um mínimo de integração à Igreja, e então continuar o diálogo doutrinal. A Santa Sé tem demonstrado notável generosidade para com o Partido Comunista Chinês, permitindo-lhe selecionar candidatos a bispos — contudo, seus próprios filhos, os milhares e milhares de fiéis da FSSPX, são tratados como cidadãos de segunda classe.
A FSSPX deve ser autorizada a contribuir teologicamente com o objetivo de esclarecer, complementar e, se necessário, corrigir as afirmações dos textos do Concílio Vaticano II que suscitam dúvidas e dificuldades doutrinárias. Isso deve levar em conta também que, nesses textos, o Magistério da Igreja não pretendia pronunciar-se com definições dogmáticas dotadas de nota de infalibilidade (cf. Paulo VI, Audiência Geral , 12 de janeiro de 1966 ).
A Fraternidade São Pio X (FSSPX) faz exatamente a mesma Professio fidei que a feita pelos Padres do Concílio Vaticano II, conhecida como Professio fidei Tridentina-Vaticana. Se, de acordo as palavras explícitas do Papa Paulo VI, o Concílio Vaticano II não apresentou doutrinas definitivas, nem pretendeu fazê-lo, e se a fé da Igreja permanece a mesma antes, durante e depois do Concílio, por que a profissão de fé que era válida na Igreja até 1967 deixaria repentinamente de ser considerada válida como marca da verdadeira crença católica?
No entanto, a Professio fidei Tridentina-Vaticana é considerada pela Santa Sé insuficiente para a FSSPX. A Professio fidei tridentina-vaticanista não constituiria, de fato, “o mínimo” para a comunhão eclesial? Se isso não é o mínimo, então o que, honestamente, se qualificaria como “mínimo”? A FSSPX é obrigada, como condição sine qua non, a fazer uma Professio fidei pela qual os ensinamentos de natureza pastoral, e não definitiva, do último Concílio e do Magistério subsequente devem ser aceitos. Se este é realmente o chamado “requisito mínimo”, então o Cardeal Victor Fernández parece estar fazendo jogos de palavras!
O Papa Leão XIV afirmou nas Vésperas Ecumênicas de 25 de janeiro de 2026, ao término da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, que já existe unidade entre católicos e cristãos não católicos porque compartilham o mínimo da fé cristã: “Compartilhamos a mesma fé no único Deus, Pai de todos os homens; confessamos juntos o único Senhor e verdadeiro Filho de Deus, Jesus Cristo, e o único Espírito Santo, que nos inspira e nos impulsiona para a plena unidade e o testemunho comum do Evangelho” (Carta Apostólica In Unitate Fidei, 23 de novembro de 2025, 12). Ele declarou ainda: “Somos um! Já somos! Reconheçamos isso, experimentemos isso e tornemos isso visível!”
Como conciliar essa declaração com a alegação feita por representantes da Santa Sé e por alguns membros do alto clero de que a FSSPX não está doutrinariamente unida à Igreja, visto que a FSSPX professa a Professio fidei dos Padres do Concílio Vaticano II — a Professio fidei Tridentina-Vaticana?
A concessão de novas medidas pastorais provisórias à FSSPX para o bem espiritual de tantos fiéis católicos exemplares constituiria um profundo testemunho da caridade pastoral do Sucessor de Pedro. Ao fazê-lo, o Papa Leão XIV abriria seu coração paterno àqueles católicos que, de certa forma, vivem à margem da Igreja, permitindo-lhes experimentar que a Sé Apostólica é verdadeiramente uma Mãe também para a FSSPX.
As palavras do Papa Bento XVI devem despertar a consciência daqueles no Vaticano que decidirão sobre a permissão de consagrações episcopais para a FSSPX. Ele nos lembra:
“Ao olharmos para o passado, para as divisões que ao longo dos séculos dilaceraram o Corpo de Cristo, temos constantemente a impressão de que, em momentos críticos em que essas divisões surgiam, os líderes da Igreja não fizeram o suficiente para manter ou recuperar a reconciliação e a unidade. Temos a impressão de que as omissões por parte da Igreja contribuíram para que essas divisões se acirrassem. Este olhar para o passado nos impõe uma obrigação presente: envidar todos os esforços para que todos aqueles que verdadeiramente desejam a unidade permaneçam nela ou a alcancem novamente” (Carta aos Bispos por ocasião da publicação da Carta Apostólica “motu proprio data” Summorum Pontificum sobre o uso da Liturgia Romana antes da reforma realizada em 1970 , 7 de julho de 2007).
“Podemos permanecer totalmente indiferentes a uma comunidade que conta com 491 padres, 215 seminaristas, 6 seminários, 88 escolas, 2 institutos de nível universitário, 117 irmãos religiosos, 164 irmãs religiosas e milhares de fiéis leigos? Devemos permitir que eles se afastem da Igreja? E a grande Igreja não deveria também permitir-se ser generosa, sabendo da sua grande amplitude e da promessa que lhe foi feita?” (Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre a remissão da excomunhão dos quatro bispos consagrados pelo Arcebispo Lefebvre, 10 de março de 2009).
Medidas pastorais provisórias e mínimas para a FSSPX, empreendidas para o bem espiritual de milhares de fiéis em todo o mundo — incluindo um mandato pontifício para consagrações episcopais — criariam as condições necessárias para esclarecer com serenidade mal-entendidos, questões e dúvidas de natureza doutrinal decorrentes de certas afirmações nos documentos do Concílio Vaticano II e do Magistério Pontifício subsequente. Ao mesmo tempo, tais medidas proporcionariam à FSSPX a oportunidade de dar uma contribuição construtiva para o bem de toda a Igreja, mantendo uma clara distinção entre o que pertence à fé divinamente revelada e à doutrina definitivamente proposta pelo Magistério, e o que tem um caráter principalmente pastoral em circunstâncias históricas particulares, estando, portanto, aberto a um cuidadoso estudo teológico, como sempre foi prática ao longo da vida da Igreja.
Com sincera preocupação pela unidade da Igreja e pelo bem espiritual de tantas almas, apelo com reverente e fraterna caridade ao nosso Santo Padre, o Papa Leão XIV:
Santíssimo Padre, concedei o Mandato Apostólico para as sagrações episcopais da FSSPX. Vós sois também o pai de vossos numerosos filhos e filhas – duas gerações de fiéis que, até agora, têm sido cuidados pela FSSPX, que amam o Papa e que desejam ser verdadeiros filhos e filhas da Igreja Romana. Portanto, afastai-vos do partidarismo alheio e, com grande espírito paternal e verdadeiramente agostiniano, demonstrai que estais construindo pontes, como prometestes fazer perante o mundo inteiro quando destes a vossa primeira bênção após a vossa eleição. Não entreis na história da Igreja como aquele que falhou em construir esta ponte – uma ponte que poderia ser erguida neste momento verdadeiramente providencial com generosa vontade – e que, em vez disso, permitis uma divisão ainda maior, desnecessária e dolorosa, dentro da Igreja, enquanto, ao mesmo tempo, decorriam processos sinodais que se vangloriam da maior amplitude pastoral e inclusão eclesial possível. Como Vossa Santidade destacou recentemente: “Comprometamo-nos a desenvolver ainda mais as práticas sinodais ecumênicas e a compartilhar uns com os outros quem somos, o que fazemos e o que ensinamos (cf. Francisco, Por uma Igreja Sinodal, 24 de novembro de 2024)” (Homilia do Papa Leão XIV, Vésperas Ecumênicas para a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos , 25 de janeiro de 2026).
Santíssimo Padre, se Vossa Santidade conceder o Mandato Apostólico para as consagrações episcopais da FSSPX, a Igreja em nossos dias não perderá nada. O senhor será um verdadeiro construtor de pontes e, mais ainda, um construtor de pontes exemplar, pois o senhor é o Sumo Pontífice, Summus Pontifex.
+ Athanásius Schneider, Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Santa Maria em Astana
24 de fevereiro de 2026