MONS. STAGLIANÒ: “EU, BISPO DA IGREJA CATÓLICA, DIGO-VOS: JOHN LENNON TEM RAZÃO.”

Mons.Antonio Staglianò, presidente da Pontifícia Academia de Teologia, apresentou a famosa canção Imagine, de John Lennon — que nos convida a imaginar um mundo sem paraíso, sem religião e, em última instância, sem Deus — como “a canção mais bela do mundo”, chegando a afirmar: “Eu, bispo da Igreja Católica, digo-vos: John Lennon tem razão.”

Fonte: DICI – Tradução: Dominus Est

O prelado italiano, nomeado chefe da Pontifícia Academia de Teologia pelo Papa Francisco em 6 de agosto de 2022, lidera esta venerável instituição do Vaticano, fundada em 1718 pelo Papa Clemente XI com o objetivo de formar teólogos competentes e promover o estudo da teologia católica. 

Considerada uma das mais antigas academias da Santa Sé, ela deveria ser um local eminente de defesa e transmissão da ortodoxia doutrinária, mas desde o Concílio Vaticano II, e ainda mais desde as reformas de João Paulo II (1999) e depois de Francisco (2023), ela passou por uma profunda reorientação, sendo agora chamada a tornar-se um fórum de discussão para os principais temas conciliares: diálogo com os não crentes, ecumenismo, diálogo inter-religioso, envolvimento em questões sociais e culturais contemporâneas e a ampla participação do “povo de Deus” na reflexão teológica.

“John Lennon tem razão”

Em um breve vídeo publicado em 18 de maio e compartilhado nas redes sociais, Mons. Staglianò declarou: “Vamos abolir a religião, abolir Deus, abolir o paraiso. Quem diz isso? Hum… John Lennon, na canção mais linda do mundo, Imagine, o hino à paz, um hino universal à paz. Ele está certo ou errado? Eu, bispo da Igreja Católica, digo a vocês: John Lennon está certo.”

Lançada em 1971, a canção Imagine convida, de fato, a imaginar um mundo sem paraíso, sem religião e, por fim, sem Deus. Ela se tornou um dos hinos mais conhecidos do humanismo ateísta contemporâneo, baseado na ideia de que as divisões religiosas constituiriam uma das principais causas dos conflitos entre os homens e que a paz poderia ser alcançada através da superação das crenças transcendentais.

Ciente da dificuldade que representa, para um bispo católico, elogiar tal canção, Mons. Staglianò oferece sua própria interpretação. Segundo ele, John Lennon não está condenando todas as religiões, mas apenas aquelas “pelas quais é preciso matar ou morrer”. Ele evoca desde o Valhalla viking até o extremismo islâmico, ou ainda o que chama, de forma depreciativa, de “paraíso católico das Cruzadas“.

O martírio é colocado em questão

A Igreja sempre ensinou que a fé não pode ser imposta pela força e que a violência cometida injustamente em nome de Deus é contrária ao Evangelho. No entanto, as declarações de Mons. Staglianò vão muito além dessa afirmação quando ele declara: “Eu também, tal como John Lennon, não quero uma religião pela qual tenha de matar ou morrer; não quero um paraíso pelo qual tenha de matar ou morrer; não quero um Deus pelo qual tenha de matar ou morrer. E não se preocupem: isto já foi dito, antes de John Lennon, há dois mil anos, por Jesus de Nazaré”

A tradição católica sempre considerou o martírio o testemunho supremo da Verdade, que é Nosso Senhor Jesus Cristo. Desde os primeiros séculos, a Igreja venerou aqueles que preferiram perder a vida a negar a verdadeira fé. O próprio Cristo deu o exemplo desse testemunho ao aceitar livremente a sua Paixão e morte. Da mesma forma, os Apóstolos, os mártires dos primeiros séculos e os inúmeros cristãos perseguidos ao longo da história demonstraram que as verdades da fé valem a pena ser defendidas, mesmo ao ponto de sacrificar a própria vida.

Um Cristo reinventado

Para justificar sua leitura de Imagine, Mons. Staglianò também atribui a Cristo um discurso no qual ele rejeita explicitamente certos episódios do Antigo Testamento, notadamente os castigos divinos narrados no Livro do Êxodo ou em livros históricos: “Diante do sumo sacerdote, Jesus de Nazaré disse: ‘Afasta da mente a ideia de que meu Abba, meu Deus, meu Pai, tenha matado todos esses primogênitos do Egito, que tenha exterminado todos os cavaleiros e cavalos do exército egípcio, que tenha pedido a Saul que passasse à espada homens, mulheres e crianças. Tire isso da sua mente, porque meu Abba é apenas amor, sempre e somente amor. Com meu Abba, você só pode fazer a paz, a reconciliação e o perdão.”. Jesus Cristo revelaria, portanto, um Deus que é unicamente amor e a quem não se podem atribuir os atos de justiça divina mencionados na Antiga Aliança.

Tal oposição entre o Antigo e o Novo Testamento é inadmissível. A Igreja sempre professou a unidade da Revelação divina. O Deus que fala aos patriarcas, que liberta Israel do Egito e que guia a história da salvação é o mesmo Deus que se revela plenamente em Nosso Senhor Jesus Cristo. Cristo não veio para corrigir ou substituir o Deus da Antiga Aliança, Ele veio para cumprir as Escrituras e manifestar plenamente o plano divino nelas contido: “Não pensem que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim abolir, mas cumprir” (Mt 5,17).

O amor de Deus não se opõe à sua justiça. Esses dois atributos estão harmoniosamente unidos no mistério divino. Reduzir Deus a uma concepção exclusivamente sentimental de amor obscurece diversos aspectos essenciais da Revelação, incluindo o pecado, a necessidade da redenção e o próprio significado do sacrifício de Cristo na cruz.

“Não posso ser um bispo herege.”

Diante de uma série de reações indignadas tanto de leigos quanto de padres escandalizados, Mons. Staglianò, longe de se retratar, ironizou em um novo vídeo publicado em 22 de maio: “Eu, um bispo herege? Esse é um luxo que não posso me dar. Sou bispo e, além disso, com todo o respeito, presidente da Pontifícia Academia de Teologia; portanto, não posso ser um bispo herege. Se alguém pensa que professo heresia, claramente tem alguma confusão doutrinal na cabeça. Como eu poderia ser um herege? Dizendo que não se pode associar violência e castigo à Sagrada Face do Senhor?”

Será que a autoridade na Igreja bastaria, portanto, para tornar infalível e incapaz de heresia aquele que a exerce? Tal raciocínio talvez satisfaça certos defensores de um voluntarismo eclesiológico desligado da realidade, mas dificilmente convencerá os católicos perplexos que, com o catecismo em mãos, constatam, desde o Concílio Vaticano II, a ruptura manifesta de muitos homens da Igreja com o ensinamento tradicional.

Mons. Staglianò já havia sido alvo de críticas severas quando participou, em 16 de fevereiro de 2024, de um encontro a portas fechadas com os dirigentes das principais obediências da maçonaria italiana. Organizada pelo GRIS (Grupo de Pesquisa e Informação Socio-Religiosa) na Fundação Ambrosianeum de Milão, essa reunião contou com a presença, em particular, dos grão-mestres das três principais lojas maçônicas do país, ao lado de vários prelados católicos, entre os quais o arcebispo de Milão, Dom Mario Delpini, e o cardeal Francesco Coccopalmerio.

Um sintoma de uma crise mais profunda.

A poucas semanas das sagrações episcopais previstas pela Fraternidade São Pio X em Écône, essa desconcertante indiferença por parte do presidente de uma instituição tão prestigiosa quanto a Pontifícia Academia de Teologia é mais um exemplo, entre tantos outros, do estado de emergência em que se encontra a Igreja. Essa indiferença que leva, apoiada em uma canção de John Lennon, a questionar pontos tão fundamentais quanto a unidade da Revelação ou o valor do testemunho dos mártires.

A crise atual é uma crise da própria fé, e cada vez mais clérigos e fiéis em todo o mundo estão tomando consciência disso. Diante dessa situação, a Fraternidade São Pio X pretende prosseguir com determinação, no lugar que lhe cabe, sua obra a serviço da Tradição, a fim de transmitir intacto às gerações futuras o tesouro da fé católica, tal como a Igreja sempre acreditou e ensinou ao longo dos séculos.