
Um texto do famoso convertido Pe. Joseph Lémann (1836-1915).
Fonte: Radio Spada – Tradução: Dominus Est
Desde o princípio, a Revolução foi venenosa, mas com arte, com habilidade; imitou e até superou as misturas de Agripina e Locusta .
Revisemos, por um momento, a Roma pagã: Locusta é uma famosa envenenadora da época dos Césares. Primeiro, ela foi incumbida de matar o Imperador Cláudio, a mando de Agripina. Em seguida, foi convocada ao conselho e incumbida de envenená-lo com engenhosidade! Um veneno de ação rápida demais tornaria evidente o assassinato de Cláudio. Um veneno de ação lenta demais lhe daria tempo para perceber o crime e garantir os direitos de Britânico, seu filho. Locusta compreende e encontra algo sofisticado em termos de venenos, que perturbará sua razão e extinguirá lentamente sua vida. Um eunuco fez o infeliz César beber esse veneno, colocando-o em um cogumelo, que ele saboreia com prazer: ele morre atordoado!
Um ano depois, Locusta se livrou de Britânico, que era um obstáculo para Nero. Desta vez, não lhe pediram um veneno lento, tímido e secreto, como aquele que ela havia preparado com tanta elegância para Cláudio, mas sim um veneno ativo, rápido e fulminante. Britânico caiu morto à mesa imperial.
Locusta tinha alunos, Nero permitiu que ela formasse discípulos e mantivesse uma escola de envenenamento. A história e a pintura, de fato, a representam enquanto ela testa seus venenos em escravos desfortunados, alguns dos quais se contorcem a seus pés, outros enlouquecem.
Mas voltemos aos nossos dias atuais…
Quem poderia imaginar que Locusta poderia ser superada? A Revolução fez esse progresso sinistro.
Desde o surgimento do cristianismo no mundo, tudo assumiu uma forma mais elevada, mais espiritualizada, até mesmo o mal, até mesmo o envenenamento. Envenenam-se os espíritos e os costumes, como outrora se envenenavam os corpos: com engenhosidade! Não dizíamos, nos séculos cristãos, “o veneno da heresia”, “o veneno do erro”? A sombra de Locusta, certamente, já pairava sobre os conclaves do maniqueísmo, do arianismo, do calvinismo, do voltairismo; mas, em 1789, a Revolução, inspirando-se na envenenadora e desejosa de superá-la, inventará na ordem intelectual e social algo sofisticado em matéria de venenos, que perturbará a razão e extinguirá lentamente a vida dos povos cristãos. Do que se trata?
Liberalismo
Para perturbar a razão de um povo como os franceses e extinguir lentamente a sua vida, é necessária uma bebida que seja simultaneamente veneno, poção do amor e narcótico:
— o veneno mata;
— a poção do amor embriaga;
— o narcótico te faz dormir.
Todos esses efeitos juntos são necessários para superar a robusta estrutura de uma nação cristã.
Trata-se de matar nela os ideais cristãos, embriagar as almas generosas e adormecer as pessoas honestas: tudo isso simultaneamente. O liberalismo será essa mistura habilidosa, essa bebida terrível. Se o analisarmos, encontraremos três elementos: veneno, poção do amor e narcótico.
- Primeiro, o veneno: assim como nos campos encontramos plantas venenosas, também no campo intelectual encontramos doutrinas malignas e opiniões perniciosas. Por mais que a Igreja tente erradicá-las, elas reaparecem com a mesma facilidade e tenacidade que ervas daninhas: por exemplo, a negação do pecado original; a onipotência da razão, à qual todos devem se submeter; a suficiência das forças humanas para atingir seus próprios fins e a suficiência das forças sociais para guiar os povos. Esses produtos venenosos, próprios de cada época, foram significativamente revelados e disseminados pela filosofia do século XVIII. A Revolução só precisará se abaixar para colhê-los. Eles constituirão o primeiro elemento de sua terrível poção.
- Mais do que veneno, a poção do amor: no tesouro das línguas humanas, existem palavras que tem o poder de excitar, embriagar e apaixonar: são as palavras mágicas da liberdade, da fraternidade e da igualdade. O Evangelho havia purificado essas palavras, explicando-as e, infundindo-as com um fermento divino, sublimando-as a ponto de expressar novas ideias. Enquanto permaneceram ligadas ao Evangelho, penetraram e influenciaram o mundo de uma maneira tanto mais segura e salutar quanto mais doce, equilibrada e respeitosa fosse. Mas eis que no século XVIII, a filosofia se apropria dessas palavras e as explica. Imediatamente elas perdem seu fermento divino e se transformam em uma poção do amor . A Assembleia Nacional, na famosa noite de 4 de agosto de 1789 — que será uma embriaguez sem precedentes na história das nações — experimentaria essa poção. Entraram, assim, como um segundo elemento na bebida sedutora e fatal que pavimentou o caminho para a Revolução.
- O narcótico, enfim, surge como um terceiro elemento. Entre todos os sentimentos que habitam o coração do homem, há um que se destaca por sua grande nobreza quando guiado pela verdade, mas que se torna extremamente perigoso quando inspirado apenas por si mesmo: é o sentimento de tolerância, de indulgência. De fato, quando guiada pela verdade, a tolerância se traduz em compaixão pelas pessoas, mas se recusa a reconhecer seus erros: compaixão pela pessoa, reprovação do erro, tal é a expressão da tolerância católica. Ao contrário, quando inspirada apenas em si mesma, a tolerância, perdendo-se na fraqueza das crenças ou em uma sensibilidade falsa e exagerada, torna-se indulgência tanto para com os erros quanto para com as pessoas, e imprudentemente desculpa tudo: tanto os atos de fraqueza quanto as doutrinas culpáveis. A Igreja sempre subordinou sabiamente esse sentimento à verdade. A filosofia do século XVIII, porém, o separou dela. É então que máximas como estas criam raízes na sociedade: ” A tolerância é a mãe da paz” – “Só a tolerância poderia estancar o sangue que corria de um extremo ao outro da Europa” – “Se Deus quisesse, todos os homens teriam a mesma religião, assim como têm o mesmo instinto moral: sejam, portanto, tolerantes” . Este sistema de tolerância, incentivado e difundido, será o ópio, o narcótico de que a Revolução precisa. Ela o usará para adormecer todas as disputas religiosas e – melhor ainda – para adormecer, se possível, as próprias religiões. Uma multidão de pessoas honestas, pessoas boas, não pedirá nada além do que se entorpecer, adormecer e permanecer neutra, apesar do rigor da ciência teológica. Eis o terceiro elemento da bebida revolucionária!
E assim:
- Onipotência da razão, à qual tudo deve se submeter; suficiência das forças humanas para abrir caminho e suficiência das forças sociais para guiar os povos (veneno).
- As grandes palavras de liberdade, igualdade, fraternidade (poção do amor).
- Sentimento de tolerância mútua não apenas pelas pessoas, mas também pelas doutrinas (narcótico).
Esta é a mistura pérfida que, como nos tempo de Locusta, turva a razão e extingue lentamente a vida. Alguns ficarão embriagados, outros adormecidos, muitos morrerão a longo prazo. Essa mistura receberá, mais tarde, seu nome característico: liberalismo.