
Infelizmente, o cardeal caiu no “sirismo” (*), o erro do arcebispo de Gênova de uma obediência excessiva que impediu a maioria dos católicos de se opor à ocupação modernista da Igreja.
Fonte: Vitis Vera – Tradução: Dominus Est
O jornal Il Foglio, notoriamente pró-Israel e pró-americano (para dizer o mínimo), publicou um texto do Cardeal Sarah no qual o cardeal lançava uma espécie de apelo à Fraternidade São Pio X para que renunciasse à sagração de novos bispos. É interessante que um jornal ultra-sionista se preocupe com uma questão eclesiológica complexa e se posicione contra a Fraternidade. Mas, além desse aspecto, que merece uma análise mais aprofundada, um ponto no raciocínio de Sarah é interessante: o cardeal se baseia no exemplo batido do Padre Pio que, injustamente suspeito e combatido (entre outros, pelo Pe. Agostino Gemelli), foi proibido de ouvir confissões de penitentes por 12 anos, ordem que respeitou fielmente. A Fraternidade hoje, segundo ele, deveria fazer o mesmo.
No entanto, Sarah desenvolve um raciocínio falho por quatro razões:
– Em primeiro lugar, na época da perseguição a Padre Pio, não havia uma situação de grave e universal necessidade como a que a Igreja vive hoje. Portanto, se um frade, por mais santo que fosse, fosse injustamente proibido de ouvir confissões, havia muitos outros frades e padres em todos os lugares capazes de suprir sua ausência no confessionário.
– Em segundo lugar, Padre Pio não era o superior de uma ordem religiosa. Era responsável apenas por si mesmo. Muito diferentes são as responsabilidades e os deveres de um superior de uma Ordem que, se no plano pessoal deve estar pronto a sofrer qualquer ofensa ou perseguição, mesmo injusta, como superior deve pensar no bem comum (sempre diante do estado de grave necessidade mencionado anteriormente) dos confrades e dos fiéis. Na minha humilde opinião, para dar um exemplo e fazer uma comparação, o excelente superior dos Franciscanos da Imaculada, quando iniciou a longa comissão (na realidade, a destruição prática da própria ordem), errou ao confundir a obediência pessoal à injustiça com a obediência, como superior, à ordem injusta de, substancialmente, desvirtuar e destruir a ordem. Ele estava errado – creio eu – porque não reconheceu o estado de necessidade, não sendo capaz de dizer, como Padre Pio, que, em geral, a maioria dos confessores era confiável em sua tarefa e que a doutrina e o catecismo eram cridos e fielmente ensinados por todos os pastores.
– Em terceiro lugar, na época da perseguição de Padre Pio, a autoridade da Igreja (Papa e Bispos) não estava tão tragicamente afetada pelo modernismo como está hoje; não havia uma difusão universal do modernismo entre o clero. O problema específico atual é que a própria autoridade muitas vezes expressou, ainda que em documentos falíveis que não possuem a natureza de verdadeiros atos magisteriais, ideias contrárias ao que a Igreja sempre ensinou.
– Em quarto lugar, o Cardeal Sarah esquece que se pode pecar contra a virtude da obediência tanto por falta quanto por excesso: e obedecer a uma ordem injusta (dada a grave necessidade) que impediria as almas de se santificarem e os seminaristas de serem bem formados significaria pecar por excesso de obediência.
Em suma, o erro em que o Cardeal Sarah incorreu pode ser definido como “sirismo”(*), derivado do nome do Cardeal Siri, um grande tomista e homem de fé inabalável. Diante das enormidades do Concílio Vaticano II e de suas decisões pós-conciliares, ele se curvou às decisões do Papa em todos os momentos, mesmo quando estas violavam claramente a Tradição e o bem comum, precisamente em nome da autoridade e da obrigação de obediência absoluta e cega que nada tem de católica. Não é por acaso que Siri foi um dos inimigos mais ferrenhos de D. Lefebvre.
(*) “Sirismo”: Posição do Cardeal Siri, e dos que se assemelham a ele: “Mesmo que Paulo VI seja um papa pouco ortodoxo, é preciso se submeter a ele. … A nova missa é um castigo de Deus para os padres que celebravam mal a missa antes do Concílio” (Card. Siri). Esta posição consiste em aceitar as novidades da autodemolição por espírito de submissão e sofrer com isso. Obedecer e sofrer.