PROFESSOR DA DIOCESE DE MAIORCA SOBRE O TEMA DAS SAGRAÇÕES: “NEM CISMA, NEM PECADO”

 

O professor Jaime Mercant Simó(*), sacerdote diocesano de Maiorca — doutor em filosofia e direito tomista, professor do Centro de Estudos Teológicos e diretor da biblioteca diocesana — não é membro da FSSPX. Embora não concordemos com todos os pontos de sua declaração divulgada em X, reproduzimo-la abaixo, pois ela demonstra que as futuras ordenações da FSSPX suscitam, além de suas fileiras, reflexões sérias e fundamentadas.

“…não contribuirei para a injusta e desproporcional “demonização” pública. [da FSSPX]”

Fonte: DICI – Tradução: Dominus Est

Vários dos meus leitores me questionaram sobre as próximas ordenações episcopais da Fraternidade Sacerdotal São Pio X. Aqui está a minha posição, expressa de forma pedagógica na forma de perguntas e respostas:

Os “lefebvristas” cometerão um pecado mortal com essas sagrações episcopais?

— Não, absolutamente não.

Não seria um ato cismático?

— Não, formalmente não é.

Por que formalmente não é?

— Porque, para que ocorra um “cisma perfeito”, deve haver uma clara intenção de cometer um ato cismático e de constituir, com os novos bispos, uma jurisdição hierárquica paralela à existente na Igreja Católica Romana. Ora, neste caso, nenhuma dessas coisas ocorrerá.

Pode ser, ao menos, um ato de desobediência?

— Sim, de fato é, pelo menos materialmente, já que Roma não quer que tais sagrações ocorram.

Então, pecam mortalmente por desobediência?

— Nem isso, porque, neste caso, a intenção das autoridades da FSSPX, dos sagradores e dos futuros sagrados parece correta. Invocam o “estado de necessidade”, que justificaria a “desobediência material”. A este respeito, não temos razões objetivas para duvidar de sua consciência ou de sua correta intenção, que é o bem das almas sob sua responsabilidade.

Mas ocorrerá a excomunhão “latae sententiae”, ou seja, automática e imediata, não é?

— De uma perspectiva canônica, sim, mas, do meu humilde ponto de vista, tal excomunhão seria nula. Acredito que existem razões teológicas e filosófico-jurídicas suficientes para concluir isso, embora eu saiba que muitos canonistas me contradirão em uma visão puramente legalista. No entanto, penso que, além do motivo fundamental do “estado de necessidade”, falta a “razão formal” pela qual essa pena deveria ser aplicada, uma vez que não há intenção objetiva de cisma formal nem de criação de uma jurisdição paralela, repito.

Dom Lefebvre recebeu a pena de excomunhão?

— Sim, como certamente receberão estes bispos, mas a sua excomunhão também foi nula e sem efeito, uma vez que, no plano sobrenatural do Corpo Místico, esse bispo nunca deixou de estar em comunhão com a Igreja.

O que o senhor quer dizer com isso?

— A essência da comunhão é tríplice: doutrinal, sacramental e hierárquica. Considero, portanto, que D. Lefebvre e, por extensão, a FSSPX, não negaram nenhuma dessas três “dimensões essenciais” da comunhão eclesial.

A FSSPX está em comunhão doutrinal?

— Certamente, ela nunca deixou de ensinar aquilo em que a Igreja sempre acreditou.

Mas os “lefebvristas” não questionam sempre os documentos do Concílio Vaticano II?

— Eles não oferecem uma crítica generalizada, como se acredita geralmente, visto que seus textos contêm elementos que fazem parte do “depositum fidei”, mas abordam, com espírito crítico, certas questões “delicadas”, onde a discussão teológica é legítima.

Como o senhor pode afirmar tal coisa?

— Posso afirmá-lo porque a própria “natureza” do Concílio me permite fazê-lo.

O que o senhor quer dizer com isso?

— Quero dizer que o Vaticano II foi um concílio de “natureza pastoral”, não dogmática, e, portanto, não gozou do carisma da infalibilidade, porque em nenhum momento teve a intenção de definir ou condenar algo infalivelmente; essa foi a decisão expressa da maioria dos Padres Conciliares. No entanto, na era pós-conciliar, apesar dessa “natureza pastoral”, alguns pretenderam converter o concílio em um “superdogma”.

“Superdogma”? Isso é desrespeitoso. Por que você está usando a retórica “lefebvrista”?

— Na verdade, estou usando as mesmas palavras que Joseph Ratzinger, que, durante uma visita aos bispos chilenos (1988), usou esses mesmos termos.

Além disso, é verdade que a FSSPX está em comunhão sacramental?

— Seus sacramentos não são apenas válidos, mas são celebrados segundo os ritos tradicionais que a Igreja utiliza desde tempos imemoriais.

Mas é evidente que a FSSPX não está em comunhão hierárquica, certo?

— Embora, no plano canônico, sua “situação institucional” seja irregular e imperfeita, a Fraternidade continua a reconhecer o Papa de Roma como o supremo pastor da Igreja universal. Aliás, reconhece e respeita também a jurisdição de todos os bispos do mundo católico.

Dê-me provas do que o senhor está dizendo?

— Em todas as missas da FSSPX, sem exceção, os sacerdotes mencionam, no “cânon da Missa”, o Papa e o bispo local.

Não é esse um argumento muito fraco?

— De modo algum. A manifestação mais formal e pública do reconhecimento hierárquico ocorre precisamente na Santa Missa, especificamente no Cânon.

O senhor é lefebvrista ou pró- lefebvrista?

— Nem uma coisa nem outra, senhor; sou independente. Sou simplesmente católico e, como tal, tenho uma mente crítica, ou seja, o bom hábito de usar a razão e o discernimento.

No entanto parece que o senhor concorda com a FSSPX em tudo?

— Não, não concordo. Discordo de certas atitudes e questões, mas estas, a meu ver, são secundárias e incidentais. No que diz respeito ao “essencial”, concordo 100% com a Fraternidade e, portanto, não contribuirei para a sua injusta e desproporcional “demonização” pública.

O senhor pode me dizer o que é essencial?

— O “essencial” é a sua “catolicidade”. Ponto final.

Mas o senhor não está preocupado com a “tendência” dos lefebvristas?

— Estou mais preocupado com a multidão de heterodoxos, blasfemos e sacrílegos que se encontram por toda parte, especialmente na Alemanha. Também me preocupa o duplo padrão que parece existir na aplicação de penas e censuras pela autoridade eclesiástica.

Então, qual solução o senhor vê para o atual problema “lefebvrista” atual?

— Em primeiro lugar, penso que Roma deveria demonstrar benevolência e aceitar formalmente a consagração desses futuros bispos, reconhecendo os frutos espirituais do apostolado da FSSPX. Acredito que isso seria um verdadeiro gesto de misericórdia e inteligência; essas duas coisas não são incompatíveis.

O senhor não tem medo de ser criticado por essas opiniões?

— Não, porque sou um sacerdote da Igreja Católica, não o pastor de uma seita, e, portanto, posso e devo exercer respeitosamente, em minha vida de fé, a verdadeira liberdade dos filhos de Deus.

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(*) O Pe. Jaime Mercant Simó é sacerdote da Diocese de Mallorca, nascido em Palma em 6 de dezembro de 1980 e ordenado no dia 14 de outubro de 2007; membro da Thomas Aquinas International Society; doutor em Estudos Tomistas (Filosofia) pela Universidad Abat Oliba CEU (Barcelona), com prêmio extraordinário de doutorado; doutor em Direito e Ciências Sociais pela UNED (Madri), na especialidade “Filosofia jurídica”; e licenciado em Sagrada Teologia pela Universidade Católica de Toulouse (França), na especialidade “Tradition thomiste et pensée médiévale”.

O primeiro doutorado foi obtido em 15 de maio de 2017, com nota máxima cum laude, mediante a tese doutoral A metafísica do conhecimento de Karl Rahner: análise de “Espírito no mundo”, tendo como orientador o prestigiado tomista Rev. Ignacio Andereggen, doutor em Teologia e doutor em Filosofia, e presidindo o tribunal avaliador Mons. Antonio Livi, decano emérito da Faculdade de Filosofia da Pontifícia Universidade Lateranense de Roma.

O segundo doutorado foi obtido em 27 de novembro de 2024, também com cum laude, com a tese intitulada Os fundamentos filosóficos da doutrina jurídica de Domingo de Soto: análise do tratado “De iustitia et iure”, tendo como orientador o Dr. Juan Antonio Gómez García (UNED), e presidindo o tribunal de defesa o Dr. Sixto Sánchez-Lauro, professor da Universidade de Extremadura e membro da Real Academia de Jurisprudência e Legislação da Espanha.

Entre suas publicações, destacam-se a primeira tese doutoral, A metafísica do conhecimento de Karl Rahner: análise de “Espírito no mundo” (Girona: Documenta Universitaria, 2018, 1069 págs.); Os fundamentos filosóficos da teologia transcendental de Karl Rahner (Roma: Casa Editrice Leonardo da Vinci, 2017, 240 págs.); juntamente com Mons. Antonio Livi e o Dr. Samuele Pinna, O valor doutrinal do ensinamento cristão após o Vaticano II: a interpretação da fé católica segundo Karl Rahner (Roma: Casa Editrice Leonardo da Vinci, 2019, 272 págs.); e a segunda tese doutoral, A filosofia jurídica de Domingo de Soto (Salamanca: UPSA Ediciones, 2025).

A licença canônica em Sagrada Teologia foi obtida em 21 de junho de 2021, com a qualificação de excelente, defendendo a dissertação intitulada Ramon Llull et sa doctrine antiaverroïste de la création devant la question “de aeternitate mundi”. Atualmente realiza, em Teologia, seu terceiro doutorado na mesma Universidade Católica de Toulouse. No âmbito pastoral, é pároco, desde os anos de 2013-2014, das paróquias de Son Servera, Sant Llorenç des Cardassar e Son Carrió. Desde 2020, é professor de Filosofia no Centro de Estudos Teológicos de Mallorca (CETEM), diretor desta Biblioteca Diocesana e membro da Associação de Bibliotecários da Igreja na Espanha (Conferência Episcopal Espanhola)1.