REGULAMENTO DE VIDA DO PROF. GIUSEPPE TONIOLO

Giuseppe Toniolo – Wikipédia, a enciclopédia livre

Trecho da “Opera Omnia Di Giuseppe Toniolo”  Volume I, Cidade do Vaticano 1952, págs. 16-23

Tradução: Gederson Falcometa


Na Ordem Espiritual Interior

1. Minhas orações de manhã e à noite: com a leitura em família (quando oportuno e não tarde) de um livro espiritual por poucos minutos – a recitação do viva do terço. O rosário inteiro, a cada sábado e a cada véspera das festas de Maria.

2. Todos os dias (se possível) ouvir a santíssima missa.

3. Frequentar o máximo possível a santíssima comunhão, mesmo várias vezes por semana, conforme o conselho do meu confessor. A confissão toda semana.

4. Todos os dias vinte minutos no máximo (incluindo a preparação e o agradecimento) de meditação, esta última possivelmente após a comunhão e antes de começar o estudo, a fim de colher os frutos da visita de Jesus e renovar os bons propósitos. Transcorrida, porém, a hora habitual para tal fim, e chegada a hora das ocupações ordinárias, renunciar à meditação, suprindo-a naquele dia com aspirações e jaculatórias mais frequentes.

5. Em cada semana consagrar a comunhão e as ações do dia em união com alguma mortificação especial: quarta-feira a São José, sexta-feira ao Sagrado Coração de Jesus, sábado a Nossa Senhora.

6. Todo mês um dia de reforma, e será um domingo de maior recolhimento e orações mais frequentes, no qual se façam as próprias devoções (confissão e comunhão) quase in articulo mortis (na hora da morte), renovando as próprias promessas de servir ao Senhor, como se a vida recomeçasse.

7. Todo ano, possivelmente na Semana Santa, ao menos três dias de exercícios, ou sozinho, ou melhor, reunido com outros, conforme o que for disposto pelo confessor, cuidando para variar e não prolongar excessivamente os atos de piedade, para que o físico e, consequentemente, o moral não sofram. Nesta circunstância, renovar solenemente as promessas batismais.

 8. Comunhão o máximo possível na presença de Deus com grande humildade e confiança. A humildade a ser exercitada para com Deus sobretudo com a obediência aos seus divinos desígnios, pronta, generosa, cega, alegre; para consigo mesmo com a desconfiança de si e com a mortificação (esta mortificação a ser exercitada especialmente de modo espiritual, com o fazer atos de negação da própria vontade e com o silêncio para com os outros); para com o próximo com o esconder e compadecer os defeitos e tratar com ele com mansidão.

 A confiança em Deus, mediante a conservação da serenidade de espírito, ou melhor, alegria, sempre e a qualquer custo; mediante o retomar o fôlego imediatamente após ter-se humilhado e ter brevemente, mas fervorosamente, rezado ao Senhor, em seguida a alguma queda; mediante a operosidade na ordem interior e exterior com toda pureza de intenção, fazendo para tal fim de manhã e renovando durante o dia a consagração de tudo ao Senhor.

9. Não me angustiar se não puder fazer maiores práticas; aliás, não assumir novas sem a permissão do confessor.

Na Ordem Espiritual Exterior

1. Quero dirigir as minhas ações ao cumprimento do dever da caridade para com o próximo, segundo a ordem querida pela razão e pela religião. E, portanto:

2. Oferecer à minha esposa todos aqueles confortos, conselhos, ajudas, exemplos que melhor contribuam para o seu avanço espiritual, e para o comum cumprimento dos deveres de cônjuges e de pais. E no cumprimento de tal propósito demonstrar zelo, unido à discrição, à uniformidade de caráter, mansidão de formas, jovialidade, desenvoltura.

3. Ocupar-me maximamente da educação moral-religiosa dos meus filhos, ao mesmo tempo que confio inteiramente o sucesso dos mesmos ao Coração do meu Jesus, a quem confio a minha família, juntamente com Maria e São José.

4. Usar caridade com a obra e com os conselhos para com o próximo, começando maximamente para com a minha mãe e irmã e cuidando do seu bem-estar moral e religioso e da educação dos meus sobrinhos, quase como se fossem meus filhos. Depois, progressivamente, ter no coração e assistir (sem ofender outros deveres preponderantes) os meus outros parentes e afins, sem esmorecer no propósito, qualquer que seja a correspondência ou o resultado da parte deles.

5. Depois destas pessoas, ter máxima solicitude pelos meus discípulos, tratando-os como depósito sagrado, como amigos do meu coração, a serem dirigidos nos caminhos do Senhor. Não me deixar guiar nas minhas ações ou na minha conduta para com eles por nenhum motivo de amor-próprio, mas apenas pela caridade e pela glória de Deus.

6. Amar e servir a Igreja, operando nos modos que nos são maximamente indicados pelo Sumo Pontífice. E para tal fim: todo domingo dedicar-me um pouco ao estudo do catecismo, e depois de estudos filosóficos conforme a doutrina tomista. Da fé e da lei cristã católica fazer depois profissão aberta e integral. E, por isso, das questões menos conformes ou pior, opostas a esses deveres, manter um silêncio sério e não equívoco, evitar promovê-las, e quando me encontrar envolvido ou de qualquer forma for necessário e útil expor o próprio pensamento, fazê-lo decididamente, sem reticências, e tomando antes a iniciativa do que ficando na defensiva. E isso com os parentes, com os afins, com os amigos, com os próprios superiores. Depois, ajudar o movimento católico naquelas formas e naquele grau que na minha posição for possível e útil, conforme o aviso disposto pelo meu confessor. Enquanto isso, coadjuvar a boa imprensa, com a aquisição e difusão de jornais sacros, e escrever ocasionalmente algum artigo, dedicando para isso o domingo ou algum dia excepcional de férias.

Na Ordem dos Meus Estudos

1. Quero, com a graça do Senhor, sacrificar neles os meus gostos, a minha curiosidade, as minhas ideias, para não buscar e cumprir neles senão a vontade do meu Senhor, e dirigir todos os meus esforços para o bem da minha alma e dos outros e para a glória do Senhor.

2. Dedicar-me-ei, portanto, em particular à preparação dos meus cursos gerais de economia; a todo o resto (e aos próprios estudos econômicos especiais) de forma secundária, na medida em que aqueles sejam satisfeitos.

Neles terei consideração, como recomenda o pontífice, maximamente aos primeiros princípios filosóficos, e estes farei questão de ilustrar com moderação com fatos histórico-estatísticos e pertinentes a outras ciências, e com uma erudição bibliográfica.

3. Subordinadamente, atenderei àqueles estudos econômicos especiais que o bem maior da instrução, o conselho do confessor, e as circunstâncias de fato, me demonstrarem como conformes à vontade e à glória de Deus.

4. Feita esta escolha, concentrar-me-ei nestes temas, renunciando a todo o resto, não divagando, correndo direto e rapidamente ao fim.

5. Quanto ao método. Usarei moderação na escolha das fontes: algumas excelentes e principais, para serem estudadas a fundo. Se me forem prescritas muitas, primeiro as primárias, depois as secundárias, para serem consultadas de forma complementar. Sem negligenciar os detalhes, coletados de forma sóbria mas com exatidão, ter em vista sobretudo a síntese. De qualquer modo, mesmo que eu me proponha tal moderação, não me angustiarei pelo medo de fazer demais, para depois acabar fazendo pouco ou nada.

6. Aliás, neste aspecto (como naquele da vida espiritual) operar sem angústia, mas fazer muito, fazer sempre, continuamente, sem olhar para trás ou muito para a frente, fazer corajosamente, purificando tal operosidade com as intenções supracitadas, e com aquela especial de que tal ocupação ininterrupta seja um meio de cura das doenças da minha alma.

7. E estudar com simplicidade de intelecto e de coração na presença de Deus, esperando nele que é fonte de toda ciência, e sobre o crucifixo em todas as dificuldades e gravidades da tarefa, muito mais do que contar com os próprios esforços e a ciência dos livros.

8. Antepor ao começar do estudo uma oração ao Senhor e a Maria, sede da sabedoria, e a São Tomás de Aquino, para que a minha mente não seja levada a acolher algo contrário à fé e à doutrina moral cristã, as intenções permaneçam retificadas, o orgulho não se infle.

Assim, ao terminar, um agradecimento, humilhando-me ainda mais diante do bom proveito e do feliz sucesso, resignando-me e humilhando-me, sem, contudo, desanimar diante do insucesso, e atribuindo toda a glória ao Senhor.

9. Dos meus estudos concluídos e a concluir, manter o maior silêncio possível. Dos conhecimentos adquiridos, fazer a menor ostentação possível.

10. Em todo este trabalho mental, manter a maior serenidade de espírito e a maior ordem possível, à imitação de São Tomás de Aquino.

Na Ordem da Vida Física

1. Tendo em vista o nexo que (em mim particularmente pela fraqueza do meu organismo) intercede entre o bem-estar físico e o espiritual, proponho-me a usar atenção, não excessiva e angustiosa, mas razoável e cuidadosa ao meu próprio regime corporal.

2. E em particular: evitar esforços físicos e mentais extraordinários (sem uma necessidade), para que não se siga uma reação excessiva, buscando o proveito dos estudos mais pela ordem e continuidade do que por uma excepcional intensidade ou prolongamento.

3. Não prolongar excessivamente nenhuma ocupação, incluindo as próprias orações. Antes, interromper brevemente, variar e retomar as diversas espécies de trabalhos.

4. Dedicar ao sono pelo menos sete ou sete horas e meia à noite, descansar um pouco após o café da manhã e o almoço. Antecipar o repouso à noite e ser, depois, matutino.

5. Do alimento fazer uso regularmente, antes pouco e frequentemente; o mesmo para as bebidas. De resto, não comer fora do método, evitar as guloseimas, as requintadas e no modo de comer manter todas as formas da sobriedade. Em todo caso, porém, não pensar nem antes, nem depois se porventura falhei de alguma forma a este programa, mantendo fixo, ao invés, o querer, no ato prático (e sem preocupação), tirar do alimento o melhor sustento para o meu bem-estar físico ligado ao cumprimento do dever.

6. Todos os dias, pelo menos três horas entre passeio e distração, especialmente à noite. A cada quinze dias, aproximadamente, um passeio e distração particular. Em geral, manter-me alegre e brincalhão.

7. No verão, evitar trabalhos de estudo intenso. No outono, dedicar quinze dias contínuos ao absoluto repouso do estudo, ocupando-os o mais possível em passeios, distrações, conversas, trabalhos manuais e leituras agradáveis ao intelecto e ao espírito. Além disso, algum outro dia de suspensão parcial de estudos conforme as circunstâncias.

8. Formar, portanto, tanto para a vida ordinária, quanto para as distrações outonais (mas em especial para a primeira) um programa e horário correspondente. E depois ser fidelíssimo em executá-lo (salvo impedimentos não aparentemente, mas absolutamente necessários, nos quais eu me comportarei com resignação e serenidade), sem considerações  sociais ou familiares, sem excessiva condescendência ao meu gosto ou desgosto, à boa ou má vontade, aos pequenos incômodos do espírito e do físico.

9. Todos os dias, antes de retomar as ocupações ordinárias, examinar-me juntamente com os progressos ou defeitos espirituais do dia anterior, também do cumprimento mais ou menos exato do programa e horário, e renovar o propósito, com a ajuda de Deus.

Em Geral

No cumprimento dos meus deveres, seja da ordem espiritual interior e exterior, seja do meu estado, seja da minha própria vida física, devo e quero seguir estas normas gerais:

1. Desconfiar continuamente de mim e confiar o exato cumprimento ao Senhor, dedicando a minha vida e as minhas operações todas as manhãs e repetidamente durante o dia ao Sagrado Coração de Jesus, a Maria Imaculada, a São José..

2. Seguir a norma age quod agis (faz o que fazes), recolhendo-me inteiramente na ordem de operações que de vez em quando executo.

Removerei, portanto, tudo o que atenua esta concentração de faculdades: as agitações de espírito, as angústias, as dúvidas. No meio destas, rezarei brevemente, mas fervorosamente a Deus, sem olhar de frente para aqueles incitamentos à distração, oferecer-me-ei ao Senhor com todos os meus pensamentos e afetos, dispostíssimo a fazer a sua vontade, desprezá-los-ei e retomarei o trabalho.

3. Serei pronto no deliberar, pronto, ágil, fervoroso no executar, correndo direto ao objetivo, sem voltar atrás, sem arrependimentos, repetições de atos.

4. Oh! O Senhor deve ser servido com grande zelo, com grande coragem, com perseverança, com confiança e com alegria; mas primeiro no cumprimento dos deveres ordinários e comuns (segundo o próprio estado) o mais completo e exato; e depois, somente depois, em todo o resto, segundo o julgamento e a ordem aconselhada pelo confessor.