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Por Dardo Juán Calderón
Fonte: Adelante la Fe – Tradução: Dominus Est
Franca e cordial. Com essa frase as duas partes definem o momento que marca o final das considerações e a inviabilidade da argumentação, dando início aos “fatos”. A sorte está lançada.
Falar que foi franca e cordial não é, de modo algum, hipocrisia diplomática. De um lado e do outro as posições estão marcadas claramente; e sem as ambiguidades a que nos acostumamos até agora, “não pensamos discutir nem o concílio, nem a reforma litúrgica” diz um lado; e o outro “não pensamos aceitar nem o concílio, nem a reforma litúrgica” – mas além desses pontos que documentam e demarcam a liça, ambos sabem que há um abismo espiritual entre os dois, e por isso não cabe irritar-se com uma ninharia. Quiçá me digam que não há “cordialidade” uma vez que há ameaças, mas insisto que a declaração não é mendaz – quem declara sua posição abertamente, abre seu coração. Os anúncios de sanções expressas e definidas não excluem nem a franqueza, nem a cordialidade. Quando a arma não se oculta, todo homem viril agradece a possibilidade de uma boa luta cara a cara, e com coração aberto.
Progressismo e tradicionalismo colocaram as cartas na mesa – e toda a escória que criou o Conservadorismo, de boa ou má fé, para ganhar tempo na esperança de que a confusão permita certa subsistência de meias-verdades, murmuradas por bocas tapadas, em cargos vazios de função mas com algo de prestígio, aguardando que o tempo – um velho traidor – faça o trabalho de que suas vontades fogem.
Claro que o conservador não quer ver, e sempre será cego a tudo o que obriga ao enfrentamento valente, pois não acredita no paradoxo de que “quem perde, ganha”. Duas Igrejas com o mesmo Papa, como já profetizava o Pe. Meinvielle, definem os perfis para entrar plenamente nos tempos decisivos. Com a história, podemos até definir os nomes que antes se arriscavam: a Igreja do Magistério e a Igreja Sinodal. Nomes que se definem pelo que se pensa sobre as fontes da Verdade que salva as almas.
A Igreja do Magistério, ferro bruto primordial forjado no tomismo [1], entende que a Verdade que salva vem da Revelação de Deus feito homem, dada à autoridade apostólica de sua Igreja (não do povo, nem da história), Mãe e Mestra, que se pronuncia de maneira infalível por meio do Pontífice iluminado diretamente pelo Espírito Santo, com declarações certas e dogmáticas, declarações que, para que sejam plenas de certeza, devem ser expressas em linguagem filosófica que conceba a capacidade de definir verdades válidas – válidas sempre e em todo lugar.
A Igreja Sinodal – élan plástico e dinâmico descrito pela filosofia moderna hegeliana – entende que a verdade é uma conquista do homem coletivo na história, por meio de sua aventura existencial, assistido por um espírito que transborda através dos avatares da história, única professora, que se revela por meio de um esforço hermenêutico dos filósofos-teólogos (falsos profetas) que encarnam o espírito de cada época. Que se expressa mediante uma doxa sempre sujeita a novas sínteses, que demanda linguagem suficientemente não assertiva para não represar a dinâmica com fórmulas dogmáticas. O Pontífice é o encarregado de dar continuidade a esse esforço hermenêutico, libertando-o das interferências de interesses mercenários ou de esquemas rígidos. Sua função é metodológica, não magisterial nem dogmática.
Na primeira Igreja, o Papa “define” e obriga, ENSINA. Na segunda, o Papa “ESCUTA” (o que foi dito expressamente poucos dias atrás), direciona, aprende com uma história convertida em ente autônomo IGUALADO À PROVIDÊNCIA DIVINA.
Na primeira, o Logos, o Verbo, fez-se carne em Cristo de uma vez por todas, recuperando por meio de sua Paixão, de seu Sacrifício (ponto culminante), a relação com o Pai ofendido. Mas esse Verbo é Mistério que se saboreia e que entra na inteligência na medida em que ela se supera, entrando na vida da graça que emana do Sacrifício, e na medida em que espera seu desvelo total na Vida Futura. Aquisição de lucidez que não é aventura humana, mas Cristã (de Cristo em nós), pois o pecado não nos permite a elevação a Toda a Verdade de Deus (nem sequer à nossa verdade) – exceto pela docilidade e humilde obediência à Autoridade, que mostra todas as suas consequências e produções históricas, necessárias para a boa vida, por meio Magistério Infalível dos Papas. Papas que dão luta até a morte entre duas Cidades antagônicas, a Igreja e o Mundo, cidades que vivem histórias muito diferentes – uma que se converterá em Esplendor e outra que terminará em catástrofe espiritual e material; e vemos ambas crescer ou se esconder na aventura de nossas vidas.
Na segunda, o “logos” é um processo de revelação progressiva do Mito Cristão (já não mistério inalcançável, mas aventura que recebe significação do mito evangélico na infância da história, e que o espírito humano conquistará na maturidade de sua história). Mito expresso pela Escritura e “significado”, não realizado, na vida de Cristo, cujo ápice é a ressureição e a iluminação pelo espírito de todo o mundo (ao qual deve “amar-se apaixonadamente” [2]), durante o percurso de uma história que é a mesma para todos, claro que sofrendo dores de parto em um processo dialético, história da qual todos esperamos um mesmo final universal. Mito que deve ir sendo cancelado com a chegada da maturidade humana (para muitos não mais intelectual, nem moral, mas tecnológica).
Causou muito desgosto o recente e atrevido início da derrubada do “Mito Mariano”, mas não nos damos conta que foi muito mais violenta, embora difícil de captar, a derrubada do Mito “Cristo oferecimento” pelo Cristo Cósmico do jesuitismo teillardiano.
Não consigo entender quem sustenta um “desencontro de magistérios contraditórios”, quando o assunto é, à luz de uma leitura superficial da filosofia que a eles inspira, do liberalismo que lhes vicia e das claras afirmações de suas principais cabeças, UMA DEFECÇÃO TOTAL DA FUNÇÃO MAGISTERIAL E MATERNAL DA IGREJA. O assunto é Magistério contra Hermenêutica da História.
O fato de os dois batalhões tenham se definido dentro da cúpula da Igreja não elimina os esforços do irenismo conservador para buscar falsas soluções sincretistas, pactadas com descontentamento e recuo. Mas os tempos se aceleram e a confusão provocada pela falta de Magistério durante esses intermináveis setenta anos não somente estragou a boa e sã doutrina no conservadorismo – provocando loucuras inexplicáveis em suas cabeças – mas, por ineludível consequência, sua moral foi perdendo a âncora dos princípios seguros e caiu em relativismo e moral de situação. Não posso deixar de recordar a “Conclusão” do pe. Meinvielle em sua obra “Da cabala ao progressismo”.
Deparamo-nos com uma total incompreensão da honra e da coragem católicas, tendo de ouvir (como se fossem bons conselhos) as propostas vergonhosas de astúcia e duplicidade – o “não lanceis a sorte”. E estamos nos esforçando para evitar a indignação pelo insulto que escondem – não a um só, mas a todos aqueles que, no Coliseu, na Vendeia, nas serras do heroico México ou da católica Espanha, não hesitaram em dar o sangue por muito menos do que hoje nos tiram.
Ou a incompreensão do “Estado de Necessidade”, quando o estado de necessidade diz respeito a salvação das almas dos outros. A frase lhes parece uma astúcia (provavelmente não têm filhos, nem amor viril), pois para eles há as mil escapatórias covardes e burguesas que permitem uma vidinha acomodada nesse mundo tíbio. Até que a tempestade passe, pensam eles. Ou até que sejam cuspidos de Sua boca, penso eu.
Notas:
[1] O autor, evidentemente, considera todo pensamento correto como conatural ao tomismo, inclusive o que veio antes de Santo Tomás. Os editores pensam o mesmo, ao contrário de certos idiotas palpiteiros de rede social.
[2] Referência a este “maravilhoso” livro de Josemaria Escrivá. Considerem o contrário de uma indicação – uma anti-indicação – porque este blog é decente.