
Fonte: InfoVaticana – Tradução gentilmente cedida por um amigo
Os chamados redentoristas transalpinos – conhecidos como Transalpine Redemptorists – são uma comunidade de perfil tradicional que, após um período inicial na órbita da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, foi regularizada durante o pontificado de Bento XVI e incardinada em uma diocese da Nova Zelândia. Naquele tempo, aceitaram uma interpretação do Concílio Vaticano II à luz da Tradição e compatível com seu carisma.
Sua vida austera e estrita sensibilidade litúrgica não lhes impediram de se manter dentro da estrutura eclesial – até agora. Uma intervenção disciplinar motivada por denúncias internas, que apontam para práticas extremas em sua vida comunitária, causou uma reviravolta abrupta também no plano doutrinal.
Primeiro o conflito, depois a doutrina
A partir deste momento, reproduziu-se um padrão que aparece com demasiada frequência: o conflito pessoal ou institucional precede à ruptura doutrinal. De repente, o que foi tolerado ou aceito durante anos passa a ser denunciado como ilegítimo. No momento em que tem o calo pisado, subitamente o Concílio Vaticano II deixa de ser defensável, a reforma litúrgica torna-se herética e questiona-se a própria legitimidade do Papa.
O caso das Clarissas de Belorado enquadra-se nesta dinâmica: tensões internas, problemas econômicos e administrativos, e, por consequência, uma súbita guinada doutrinária que culmina em ruptura. Também é o caso do arcebispo Carlo Maria Viganò.
Viganò: a descoberta chegou quando deixou de estar inserido no sistema
Durante anos, como núncio nos Estados Unidos, Viganò não teve problema algum em celebrar a liturgia reformada, com as orações eucarísticas de Bugnini, nem em transitar com total normalidade dentro do sistema que agora denuncia. Estava na cúspide da estrutura diplomática eclesial, plenamente integrado e sem objeções públicas substanciais ao quadro pós-conciliar.
O ponto de inflexão não foi doutrinal, mas pessoal. Quando, em decorrência de suas denúncias (legítimas), sentiu-se marginalizado, quando sua posição dentro do sistema se deteriorou, apareceu a “iluminação”: só então a missa nova passa a ser problemática, o Concílio passa a ser inaceitável e a Sé pode estar vacante.
A sequência é evidente demais para ser ignorada. Ele não descobriu algo novo após um longo processo teológico; redefiniu todo o quadro no momento em que este deixou de sustentá-lo.
Tal mudança transforma seu discurso em algo distinto. Já não é uma crítica estruturada, mas uma reação — e, assim, perde força. Afinal, se durante décadas não houve objeção substancial enquanto havia exercício de poder – e que só aparecem quando o poder desaparece – a suspeita de instrumentalização é inevitável.
O contraste com a FSSPX
Perante esse tipo de trajetória, convém ressaltar a grande diferença em relação à atitude da Fraternidade Sacerdotal São Pio X. Apesar de todas as suas controvérsias, ela desenvolveu uma política deliberadamente prudente para com aqueles que chegam após conflitos pessoais com a hierarquia.
A Fraternidade não integra automaticamente estes perfis justamente porque identifica, melhor que ninguém, esse padrão: quando a adesão não nasce de uma convicção doutrinária consolidada, mas sim de uma reação circunstancial.
Isto marca uma diferença essencial: uma coisa é sustentar por anos uma posição coerente, independente de circunstâncias pessoais, assumindo custos reais. Outra coisa muito diferente é adotar tal posição por consequência de uma ofensa pessoal. No primeiro caso há uma linha argumentativa discutível, mas consistente; no segundo caso, há um pretexto.
O problema não é apenas o que dizem, mas também quando o dizem
O caso dos redentoristas transalpinos insere-se, ao menos aparentemente, neste segundo grupo. Não tanto pelo conteúdo concreto de suas críticas, mas pelo momento em que estas aparecem. Enquanto houve um arranjo institucional, não houve ruptura doutrinária. Quando este arranjo foi rompido por uma situação particular, surgiu a condenação do sistema como um todo.
A conclusão é incômoda, mas clara: quando as grandes objeções teológicas sistematicamente surgem depois de um problema pessoal, o problema não é tanto a doutrina, mas a motivação. E sem uma motivação intelectualmente honesta, o debate deixa de ser teológico e passa a ser uma justificativa a posteriori.
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