TEM PIEDADE DE MIM, Ó DEUS, SEGUNDO A VOSSA MISERICÓRDIA

Devemos aceitar que só na misericórdia de Deus e no seu amor encontraremos apoio, confiança e despreocupações. Essa é a maravilhosa surpresa que cada uma de nossas confissões nos reserva.

Fonte: La Porte Latine – Tradução: Dominus Est

Por que nossas confissões frequentemente se assemelham a monólogos, nos quais o acusador apresenta ao confessor uma série de faltas de importância e significado tão diversos? Esse amontoado indistinto revela uma consciência que não estabelece uma hierarquia entre as faltas.

A confissão não é uma formalidade que se cumpre por hábito ou obrigação. Quando nos aproximamos do confessionário, devemos ter a intenção de ser perdoado e de receber o perdão de Cristo pela virtude de seu sangue. Este sacramento que Nosso Senhor instituiu para nos perdoar é um ato profundamente humano. Graças a ele, Deus suscita e aperfeiçoa interiormente, no coração do pecador, atos de fé viva, de arrependimento e de reparação, e isso no momento mesmo em que pede ao pecador que expresse exteriormente suas disposições através da confissão de seus pecados.

“Lava-me inteiramente da minha culpa … (Salmo 50, 4)”

Não basta que o penitente relate seus pecados. Ele deve confessá-los verdadeiramente, arrepender-se deles e comprometer-se a corrigir-se e reparar o mal. Esses atos são como a água que deve correr sobre a testa para que o batismo aconteça: são necessários, mas são apenas a matéria do sacramento, cuja forma é a absolvição. O que acontece durante a confissão vai muito além das ações do penitente. Essas ações são meramente a matéria do sacramento, cujo propósito é alcançar a contrição perfeita, esse arrependimento “formado” pela Caridade, cujo único princípio é o Amor de Deus ferido pelo pecado. Através das ações do penitente, mas também através de tudo o que envolve a confissão — como a admoestação do sacerdote — Cristo, na absolvição pronunciada, leva o arrependimento inicial do pecador à sua plenitude e completude na Caridade. Este é o ato de Cristo na alma; é uma conversão; é a obra da graça. Claro, dizemos isso em termos abstratos… O que sabemos da nossa conversão real? O que podemos afirmar da obra da graça em nós? Só sabemos uma coisa: quando há conversão, há graça e perdão de Deus, e quando há perdão de Deus, há conversão. Então, que o Bom Deus escolha minha alma!

“Porque eu reconheco a minha maldade, e o meu pecado esta sempre diante de mim. … (Salmo 50, 5)”

Diante dessa incerteza quanto às nossas disposições, certifiquemo-nos de que nossa acusação seja bem-intencionada, simples e verdadeira, feita verbalmente e que envolva todo o nosso ser. Quando um amigo ofende gravemente outro, se o ama verdadeiramente e deseja reconciliar-se, sempre guardará, em maior ou menor grau, a dor interior de tê-lo ofendido, de ter ferido sua amizade generosa e pura. O mesmo acontece com Deus. Essa dor interior por ter ferido a amizade divina é o que os antigos chamavam de compunção. Cultivemos essa bela virtude da compunção em cada momento de nossas vidas. A paz interior, íntima e profunda que a confissão proporciona não é o tipo de tranquilidade sinônimo de uma frivolidade irresponsável, como se os pecados fossem mera poeira na alma e o sacramento, uma espécie de espanador que remove essa poeira; como se tudo se tornasse, num instante e sem esforço, tão limpo quanto um móvel empoeirado. A paz reside, surpreendentemente, na compunção, essa dor cheia de esperança que permanece após o perdão daquele a quem ofendemos.

“Pequei contra ti só, fiz o que e mau diante dos teus olhos, … (Salmo 50, 6)”

A confissão não me livra da sensação de ter ofendido a Deus: “Contra Ti somente, Senhor, pequei”. Ter contrição é ter consciência do pecado, e ter consciência do pecado é ter consciência de Deus. Não basta ter ideias claras sobre o que é pecado para ter consciência do pecado. Se apenas temos consciência de ter violado uma lei, uma regra, um dever, não temos consciência do pecado. Ter consciência do pecado… é uma graça primordial do Bom Deus, que a inicia e planta essa semente na alma do pecador, como uma intuição inicial que precisa ser cultivada. Temos o exemplo de Jó no Antigo Testamento. Atingido por todas as desgraças, ele recebe a visita de seus três amigos, que se esforçam para lhe provar que nada acontece sem uma causa e que seus sofrimentos são o sinal e a consequência de seus pecados. Jó é um homem justo, e ele sabe disso. Com razão, ele “persiste em se considerar justo”. Mas diante de Deus, quem poderia realmente se considerar justo? Então o próprio Deus intervém. Ele não mostra ao seu servo as imperfeições ou pecados que ele possa ter cometido. Não. Deus descreve a ele o seu poder e a sua glória. Jó compreende. Esta é uma graça inicial: a intuição da santidade única de Deus e da sua própria indignidade. Então ele responde ao Senhor: “Meus ouvidos tinham ouvido falar de ti, mas agora os meus olhos te viram. Por isso, me arrependo e me humilho sobre pó e a cinza”. A visão da face de Deus deu a Jó a consciência do seu pecado e o levou ao arrependimento.

São João Nepomuceno confessando a Rainha da Boêmia.

“Eis que te comprazes na sinceridade do coração, e no meu intimo me ensinas a sabedoria … (Salmo 50, 8)”

A consciência do pecado, quando reside na alma, torna a confissão um momento de rara intensidade sobrenatural. É nesse instante que a alma experimenta o perdão de Deus, tão diferente do perdão humano. Quando uma pessoa perdoa outra, perdoa no sentido de renunciar à sua má vontade para com essa pessoa: não olha mais para a ofensa cometida contra ela, não quer mais olhar para ela, esquece a ofensa e, às vezes, até mesmo o ofensor… liberta-se de uma dívida. Aquele que muda no perdão é aquele que perdoa. É por isso que o perdão é muitas vezes doloroso. O perdão humano é um ato generoso, mas limitado. O homem que perdoa tem o poder de mudar o seu próprio coração, de renunciar à sua animosidade, mas não tem o poder de mudar o coração do seu inimigo.

Pelo contrário, é precisamente isso que o perdão de Deus faz. Pois Deus não muda. Ele é Aquele que É. Se dissermos que Deus perdoa, ou não significa nada — o que seria absurdo — ou significa que há uma mudança real, não em Deus, mas naquele que é perdoado. O inimigo de Deus, aquele que ofendeu, torna-se Seu amigo por meio de uma conversão interior do coração, que se origina em Deus. O penitente suspeita disso quando entra no confessionário? No entanto, é isso que acontece sempre que o sacramento é recebido com frutos. O sacramento é o meio que o Bom Deus instituiu para que conheçamos ao mesmo tempo a alegria da graça, do perdão e da conversão.

“O meu sacrificio, o Deus, e um espírito contrito: não desprezaria, o Deus, um coração contrito e humilhado… (Salmo 51, 19)”

Alguns tentam se tranquilizar procurando confessar tudo. É claro que devemos confessar os pecados graves, em número e em detalhes. No entanto, confessar todas as nossas faltas é impossível, tanto metafisicamente quanto psicologicamente. E, no fim das contas, é buscar no ato humano uma segurança que não se adequa às relações de fé que existem entre uma alma e Deus. Na escuridão do confessionário, diante de Deus, compreendemos esta passagem das Escrituras: “Ninguém sabe se é digno de amor ou de ódio”. (Ecl 9,1) Compreendemos a necessidade de nos abandonarmos a Deus. E quanto à sinceridade da nossa confissão, à caridade nela contida? Nossos corações estarão sempre parcialmente obscurecidos. Devemos aceitar essa condição de não enxergar com clareza dentro de nós mesmos. Trata-se menos de falar do que de se arrepender, e só falamos para aperfeiçoar nosso arrependimento. Pois Deus vê tudo, e somente Ele sonda as mentes e os corações. Devemos aceitar que encontraremos apoio, confiança e despreocupação somente na misericórdia e no amor de Deus. Esta é a maravilhosa surpresa que cada uma de nossas confissões nos reserva.

Pe. Vicent Bétin, FSSPX