
“O que Deus quis ao vir até nós, senão mostrar-nos o seu amor? Se até agora não nos esforçamos para amá-Lo, que ao menos não demoremos mais em retribuir-Lhe amor com amor.”
Fonte: DICI – Tradução: Dominus Est
O que não nos aparenta valor atrai pouca atenção. Esse é o destino reservado, com demasiada frequência, ao Evangelho. O fiel católico ouve e lê trechos da Sagrada Escritura todos os domingos na missa. O hábito se instala e, com ele, a falta de atenção. Essa negligência é profundamente prejudicial. Pois o que é a Sagrada Escritura, senão uma sucessão de cartas inspiradas pelo coração de Deus, nas quais Ele se revela às suas criaturas? Para ler essas cartas, é preciso, antes de tudo, possuir o espírito que as inspirou. “A letra mata, mas o espírito vivifica” (2 Cor 3, 6). Sem a fé e a humildade, o texto sagrado permanece mal compreendido, ou carece da atenção necessária. Torna-se, então, letra morta para a alma.
Para evitar essa armadilha, é essencial lembrar-se um fato singular entre todos: Deus escreve ao homem. Deus, na Trindade, digna-se a adaptar-se aos modos de agir do homem, sua criatura, para se dar a conhecer a ele. A simples constatação desse fato demonstra a importância das Sagradas Escrituras na vida de todo cristão. Sobrecarregada pelas muitas preocupações do cotidiano, testada pelas dificuldades da existência ou simplesmente entorpecida pela rotina ou pela mundanidade, a alma fiel chega, às vezes, a esquecer uma verdade que, no entanto, é primordial e fundamental: Deus nos ama, Ele se importa conosco.
A Palavra divina está repleta de exemplos e provas desse amor de Deus por cada um. Ele se manifesta de forma evidente na criação. Deus, então, decidiu livremente compartilhar sua existência, e até mesmo sua vida espiritual, com seres que não existiam. Isso só pode ser explicado por um gesto de amor, pois é preciso amar para dar a vida.
Esse amor também se manifesta na divina providência, que cuida de cada uma de Suas criaturas. “O governo da Providência decorre desse amor divino pelo qual Deus ama os seres que criou: o amor, de fato, consiste principalmente no fato de que o amigo deseja o bem àquele que ama. Portanto, quanto mais Deus ama os seres, mais Ele os envolve com sua providência. A Escritura ensina isso neste Salmo: ‘Deus guarda todos aqueles que o amam’, e o filósofo Aristóteles ensina o mesmo quando diz que Deus cuida de maneira especial, como se fossem seus amigos, dos seres que amam as coisas da inteligência. A consequência disso é que Ele ama sobretudo os seres espirituais: os anjos e os homens.” (Santo Tomás de Aquino, Suma Contra os Gentios, Livro III, Capítulo 90).
Mas existe uma manifestação ainda mais elevada desse amor. Deus não apenas ama o homem a ponto de lhe dar a vida, mas ama cada um dos homens que cria a ponto de dar a própria vida por sua salvação. Pois o homem pecou. Com isso, ele se afastou de Deus e ofendeu a majestade divina. Muitas vezes, o homem se deleita em seus pecados, vícios e defeitos, em uma vida de egoísmo e vaidade. E, no entanto: “Por que motivo, pois, quando nós ainda estávamos enfermos (pelo pecado) morreu Cristo, no tempo determinado, pelos ímpios? Ora é difícil haver quem morra por um justo; ainda que alguém se resolva talvez a morrer por um homem de bem. Mas Deus manifesta a sua caridade para conosco, porque, quando ainda éramos pecadores” (Romanos 5, 6-9). Deus, portanto, manifesta o Seu amor por cada pessoa a ponto de dar a Sua vida. “Nisto conhecemos que Deus nos amou: que deu a sua vida por nós” (1 João 3, 16).
Essas profundas verdades merecem ser meditadas diariamente. O apóstolo São João ofereceu uma admirável síntese delas numa fórmula de profundidade inesgotável, que poderia se tornar o lema de toda alma cristã: “Nós cremos na caridade” que Deus tem por nós (1 João 4, 16). Um cristão é aquele que, na e pela fé, vive pelo amor de Cristo por ele. A mais bela prova do amor de Deus pela humanidade foi, portanto, dar a sua vida. “Ninguém tem maior amor que o daquele que dá a sua vida pelos seus amigos” (João 15, 13).
Ao analisarmos mais atentamente, outras provas desse amor merecem ser destacadas, equão mais comoventes e humanas! Assim, por exemplo, Deus não quer apenas ser adorado e servido, mas também conhecido e amado por suas criaturas. Para isso, Ele deseja revelar a intimidade do mistério da Santíssima Trindade, dessa união inefável e íntima das Três Pessoas, bem como os mistérios da Encarnação de Cristo Jesus e da Redenção que Ele realiza. “É nele que temos a redenção pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo as riquezas da sua graça, a qual derramou abundantemente sobre nós, em toda a sabedoria e prudência; a fim de nos tornar conhecido o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que tinha estabelecido consigo mesmo, de restaurar em Cristo todas as coisas.” (Efésios 1, 7-10).
Além disso, assim como fazemos com alguém que amamos e em quem confiamos, Deus deseja confiar na alma fiel. Dom Delatte explica desta maneira: “Um dos sinais da caridade, do amor puro — o único de que se pode falar na assembleia dos Santos — é compartilhar um segredo.” Quem confia em alguém realiza um ato de íntima confiança; ele entrega o íntimo de sua alma àquele a quem se confia. É assim que as coisas acontecem entre nós, e é assim que acontecem em Deus. Quando o Senhor ama, Ele não consegue mais guardar Seus segredos. O Senhor é de uma fraqueza incomparável, a partir do momento em que ama. O beato Jacopone de Todi, suposto autor do Stabat Mater, contemplando os excessos de amor, as loucuras do Senhor, embriagado pelo sobrenatural, dizia coisas extravagantes. Seus superiores ficaram indignados e o repreenderam. Um dia, o próprio Senhor pareceu repreendê-lo: “Cuidado, calma, é preciso ser discreto; entusiasmo, tudo bem; mas nada dessas exageradas, nada dessas loucuras.” E o bom santo respondeu ao Senhor: “Ah! Senhor, o senhor já fez muitas outras!” Pois é, sim, quando o Senhor ama, ele faz loucuras. (…) De que maneira o Senhor, que nos amava, nos mostrou seu amor? Ele nos disse tudo. A nós, pobres átomos, Ele se entregou por inteiro. Não mais vos chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor. Mas chamei-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo aquilo que ouvi de meu Pai. (João 15, 15)” (Dom Delatte, Contemplando o Invisível , pp. 30-31).
A essas bênçãos somam-se todos os outros dons pelos quais Deus manifesta o seu amor: a sua presença na hóstia todos os dias; o dom do seu sacrifício da cruz renovado nos altares da Missa; o dom da Virgem Maria, sua Santíssima Mãe, a quem Ele verdadeiramente cria como mãe das almas fiéis; e, finalmente, o dom da Igreja, que continua a obra de Cristo e é o seu meio de salvação.
Que resposta dar a um amor assim? Primeiro, recebê-lo com humildade e gratidão; depois, estar profundamente convencido disso pela fé; e, por fim, vivê-lo de maneira habitual. É aí que entra a leitura, repetida e meditada centenas de vezes, do Evangelho. Ela conduz a um conhecimento cada vez mais íntimo de Jesus Cristo: conhecimento de seus pensamentos, de seus julgamentos, de suas palavras, de suas maneiras de agir e de amar. Um simples conhecimento teórico não seria suficiente. O amor verdadeiro pressupõe um conhecimento pessoal e vivido, pois o amor se refere apenas ao que é conhecido, e na medida em que isso é conhecido. Assim, o conhecimento de Cristo torna-se o princípio que ilumina e orienta toda a existência.
Em uma passagem particularmente comovente, o profeta Isaías revela o amor pessoal de Deus por cada alma: “Entretanto eis o que diz o Senhor que te criou, ó Jacob, e que te formou, ó Israel: Não temas, porque eu te remi, e te chamei pelo teu nome; tu és meu… Porque tu te tornaste precioso e glorioso a meus olhos, eu te amei,” (Isaías 43, 1-4). Deus, portanto, chama cada um pelo nome, de maneira muito pessoal. Cabe a cada um responder a esse amor, sobretudo pelo cumprimento fiel e generoso de seus mandamentos. “Aquele que retém os meus mandamentos e os guarda, esse é que me ama. E aquele que me ama, será amado por meu Pai, e eu o amarei (também), e me manifestarei a ele.” (João 14, 21). O amor de Deus é reconhecido por este sinal de caridade. Manifesta-se também no zelo em tornar esta caridade conhecida e amada por aqueles que nos rodeiam, particularmente através da preocupação com a salvação das almas. Como escreve Santo Agostinho: O que Deus quis ao vir até nós, senão mostrar-nos o seu amor? Se até agora não nos esforçamos para amá-Lo, que ao menos não demoremos mais em retribuir-Lhe amor com amor.“
Padre François Delmotte, FSSPX