NÃO HÁ UNIDADE NA AMBIGUIDADE

Em Bourges (como em vários locais do mundo), nada de ecumenismo para os inimigos do ecumenismo.

Fonte: La Porte Latine – Tradução: Dominus Est

Ao explicar aos fiéis de sua diocese o alcance das sagrações de 1º de julho, Dom Sylvain Bataille, arcebispo de Bourges, insistiu: Não sonhemos com uma unidade de compromisso, fundada na ambiguidade“. A isso, só podemos concordar.

No entanto, na véspera de sua nomeação como Arcebispo de Bourges, em 15 de outubro de 2025, um encontro ecumênico organizado pela diocese foi realizado em sua sede episcopal com o tema: Descobrindo Formas de Orar… com Lutero e Calvino”. Após apresentações sobre Martinho Lutero e John Calvino — uma delas feita pelo presidente da Igreja Reformada de Bourges — seguiu-se uma discussão, e depois uma oração em comum. Durante a discussão sobre a doutrina dos sacramentos, um padre católico presente insistiu no respeito tanto pela teologia protestante quanto pela católica, já que ambas evoluíram: “Em certo momento, tínhamos 12 sacramentos… Nós também evoluímos!”. Nenhuma explicação foi dada para essa afirmação. Tampouco foi mencionada a questão de que a doutrina católica expressa a verdade revelada, enquanto o protestantismo a contradiz. A cortesia ecumênica exige isso.

Deveríamos considerar isso apenas um deslize ocasional, levando em conta que uma conversa informal pode conter imprecisões, ou  até mesmo descuidos?

Infelizmente, a ambiguidade vem de cima. É o decreto Unitatis Redintegratio que, ao encorajar calorosamente o movimento ecumênico, dá o tom.

Primeira ambiguidade: esse movimento, que designa “as iniciativas e ações promovidas e organizados em favor da unidade dos cristãos” (§4), não tem como objetivo a unidade da Igreja, uma vez que é um dado adquirido e afirmado no Credo. Como o ecumenismo se distingue explicitamente da obra de conversão e reconciliação dos indivíduos (§4), o que se entende por “unidade dos cristãos” senão a unidade da Igreja de Cristo? E como é possível manter relações diligentes e cordiais e, ao mesmo tempo, continuar a afirmar a fé, não como uma tradição teológica entre outras, mas como verdade revelada?

Segunda ambiguidade: o decreto afirma que as comunidades cristãs não católicas “não são de modo algum desprovidas de significado e valor no mistério da salvação. O Espírito de Cristo, aliás, não se recusa a usá-las como meio de salvação” (§3). Deveríamos concluir disso que o protestantismo em si é um meio de salvação? Ou a ortodoxia? Mas, visto que consistem respectivamente em heresia e cisma, como isso pode ser sustentado? Ou talvez se encontre a salvação nelas apesar dessa heresia e desse cisma; mas então seria razoável recomendar essas comunidades dessa maneira? E quando protestantes ou cristãos ortodoxos pedem para serem recebidos na Igreja Católica, é concebível que sejam aconselhados a permanecer como estão? Gostaríamos de acreditar que D. Bataille porá fim a qualquer tentativa de unidade nessa ambiguidade. Infelizmente, parece que a unidade e a comunhão na Igreja hoje são buscadas principalmente no rigor jurídico e não na fé.

Pe. Abbé Nicolas Cadiet, FSSPX