
Quando os pais se contradizem, a criança aprende depressa a tirar proveito disso.
Fonte: La Porte Latine – Tradução gentilmente cedida pelo nosso amigo André Abdelnor Sampaio
Como todas as noites, sua mãe acompanha os deveres de Claire, uma mocinha bastante inclinada à preguiça, sobretudo quando é preciso aplicar-se e pensar. Por isso, a mãe decide com firmeza, para ajudá-la a vencer seu feio defeito:
— Agora que você entendeu bem, Claire, vai terminar sozinha os seus exercícios de cálculo, e só irá brincar lá fora quando eles estiverem terminados e bem feitos.
Claire suspira, boceja, lança um olhar pela janela, rabisca alguns números vagos no caderno de rascunho, suspira novamente… A mãe não cede:
— Coragem, Claire; vou preparar a mamadeira de Pierre e, quando eu voltar, quero que o primeiro exercício esteja feito.
Assim que a mãe sai, Claire se levanta, corre para a sala, senta-se no colo do pai e lhe pede, com um ar carinhoso:
— Papai, meus exercícios de cálculo são tão difíceis… você não poderia me ajudar?
Aquela cabecinha loira, aquele sorriso sedutor, o rostinho gracioso de sua filha preferida…
— Vá buscar seu caderno, eu vou ajudá-la.
Quando a mãe volta, só pode constatar, descontente, que, mais uma vez, Claire não terá trabalhado sozinha.
Todos perdem
Quem ganhou nessa pequena história? Certamente não Claire, que perdeu uma boa ocasião de crescer na virtude lutando contra seu defeito dominante. Nem sua mãe, que viu sua autoridade minada pelo esposo, ao permitir aquilo que ela acabara de proibir. E menos ainda o próprio pai, cuja fraqueza — ou imprudência — certamente não o fez crescer aos olhos da filha; ela sabe tirar proveito disso, mas, no fundo, passa a ter menos estima, verdadeira afeição e admiração pelo pai, que, nesse caso, não foi suficientemente severo.
Uma mesma linha educativa
As crianças descobrem rapidamente qual dos dois pais é menos exigente ou mais inclinado a ceder aos seus caprichos… e tiram proveito disso! Sim, mas em prejuízo de sua educação. É, portanto, da mais alta importância que os dois esposos harmonizem suas exigências educativas; caso contrário, diminuem ou até mesmo solapam mutuamente sua autoridade.
E, para isso, o melhor meio é reservar tempo para conversar sobre os filhos e sua educação (fora da presença deles, evidentemente!). Qual é o objetivo a alcançar? Qual é o defeito dominante de cada filho? Qual é o meio de ajudá-lo a vencê-lo? Em que ponto convém exigir esforços e em que ponto se pode, momentaneamente, fazer alguma concessão? Eis algumas das questões essenciais sobre as quais é preciso chegar previamente a um entendimento.
Além disso, cada um dos esposos pode então fazer com que o outro se beneficie daquilo que percebeu nos filhos: a mãe, mais intuitiva, adivinhou certa tristeza secreta; o pai, mais direto, não se deixa enganar. Toda a família se beneficia dessa harmonia: os pais ficam mais unidos nessa grande obra da educação, e os filhos são cercados por uma afeição sem falhas, na qual tudo concorre para o seu maior bem.
— Mamãe, vou de bicicleta à casa do Louis. Você deixa?
Estranho, pensa a mãe. Normalmente é o papai quem controla as saídas de bicicleta; por que ele está pedindo a mim? Prudente, ela pergunta:
— Você pediu ao seu pai?
Vianney fica um pouco vermelho.
— Hum… não, não exatamente.
Cada vez mais estranho…
— Pois bem, vá perguntar a ele; eu direi o mesmo que ele.
Vianney não insiste…
E, à noite, a mãe fala sobre o assunto com o esposo. Descobre então que Vianney havia recebido do pai a ordem de ajudá-lo a rastelar a grande alameda, que procurara um meio de escapar da tarefa e que, além disso, o pai considerava que Louis exercia uma péssima influência sobre seu filho. Graças ao bom entendimento entre os dois pais, Vianney é assim mantido no caminho certo, ao menos desta vez.
As grandes questões
Essa harmonia entre os pais, já importante para os pequenos detalhes da existência, é ainda mais primordial quando se trata de questões fundamentais, como as convicções religiosas ou a concepção geral da vida.
A mãe não pratica regularmente ou, quando vai à Missa, vai à Missa nova, porque “é mais perto, entende-se tudo e, além disso, não vamos querer ser diferentes do resto da família”. Quando o pai está presente, é claro que leva os filhos à Missa no priorado, mas seu trabalho o obriga a ausentar-se com frequência. Assim, as crianças ora vão a uma Missa, ora a outra e, às vezes, nem sequer vão à Missa.
Não é difícil, ou até mesmo muito improvável, que, no fim, os filhos venham a ter convicções firmes acerca da prática religiosa e da conduta a seguir na crise da Igreja? Quando a situação chega a esse ponto, convém fazer o melhor que se pode, mas a tarefa educativa torna-se muito mais delicada.
Outro exemplo: o pai procura manter o rumo certo; seria preciso que ao menos os meninos fossem para uma boa escola, onde receberiam auxílio na prática religiosa. Mas a mãe protesta veementemente:
— Internato? Nem pense nisso!
Para evitar um novo conflito, o pai cede… mais uma vez, como já havia cedido quanto à inscrição numa colônia de férias medíocre, ou ao permitir que frequentassem a praia com os primos, ou em tantas outras coisas. Ele faz o que pode, mas como evitar que seja sempre a solução mais fácil que acabe prevalecendo?
Hoje, os filhos cresceram. Jean, o mais velho, vive com uma jovem sem ser casado. Alice casou-se apenas civilmente com um judeu. Adrien, ao menos, casou-se na Igreja, mas na Missa nova; ambos praticam mais ou menos regularmente, porém seus dois filhos frequentam o catecismo da paróquia, e pode-se duvidar de que a fé e a prática religiosa ainda sejam transmitidas por mais uma geração.
Além da oração, que meios de ação ainda restam aos dois pais diante desse desastre, senão os olhos para chorar?
Uma única consolação: Henri, o caçula, que sempre foi muito próximo do pai. Durante toda a juventude, sofreu com a falta de harmonia entre seus pais. Tendo permanecido fiel à Tradição da Igreja, jurou a si mesmo que só se casaria com uma jovem que compartilhasse inteiramente suas convicções, a fim de formar um lar sólido e radiante, capaz de transmitir aquilo que é essencial.
Os seres que a criança ama
Mesmo quando os pais compartilham um mesmo ideal, o entendimento nem sempre é fácil: o hábito, os atritos decorrentes das diferenças entre as psicologias masculina e feminina, os defeitos não combatidos podem, com o passar do tempo, destruir o frescor do primeiro amor.
A criança é então a primeira a sofrer com as desavenças e até mesmo com as discussões que atravessam portas e paredes; sua sensibilidade logo percebe os gestos de impaciência ou de cólera, os silêncios pesados de rancor ou carregados de ameaça. Ansiedade, perturbações do sono e mau desempenho escolar revelarão o sofrimento de seu coração, que vê ameaçadas a estabilidade e a segurança de que tanto necessita para crescer. Os dois seres que ela mais ama no mundo não se entendem…
Felizmente, a Graça do matrimônio está presente para ajudar os pais a viver de acordo com o Sacramento que receberam, para sustentá-los nos sacrifícios inevitáveis e necessários à manutenção da harmonia conjugal. A confissão e a comunhão frequentes repararão as feridas e lhes darão forças para construir, dia após dia, um lar unido.
“Papai e Mamãe são a mesma coisa.” Quando os filhos podem dizer isso de seus pais, isso constitui para eles um motivo de orgulho, uma alegria e uma força para toda a vida.
Irmãs da FSSPX