
Na Espanha, pais ateus ou agnósticos se surpreendem ao descobrir que suas filhas usam medalhas da Virgem Maria e carregam rosários. Uma tendência também observada na França e em outros países, enquanto diversas pesquisas apontam para um renascimento do interesse pelo catolicismo entre as gerações mais jovens.
Fonte: DICI – Tradução: Dominus Est
“Mãe, sou rebelde: compra-me uma medalha da Virgem.” É sob este título provocativo que a jornalista Nuria Labari aborda, no jornal espanhol El País de 17 de outubro de 2026, uma tendência que estão deixando alguns pais perplexos: o retorno de medalhas marianas, crucifixos e rosários entre as adolescentes, inclusive em famílias completamente alheias à religião.
Esses objetos, às vezes encontrados nas gavetas de mães e avós ou entre lembranças da Primeira Comunhão, agora estão sendo oferecidos como acessórios de moda. Nas redes sociais, a tendência tem um nome: Catholic-core, que se apropria de símbolos e estética da tradição católica.
Mas esse retorno da Virgem Maria aos pescoços das meninas não deixa de provocar algumas reações. Nuria Labari relata como pais ateus ou agnósticos tentam explicar às filhas por que elas não deveriam usar símbolos religiosos nos quais não acreditam. A situação inverteu os papéis: antigamente, os pais se preocupavam ao ver seus filhos abandonarem a religião; hoje, alguns temem vê-los se aproximarem dela.
A jornalista, que não vê com bons olhos essa evolução, expressa preocupação com a possibilidade de essas adolescentes acabarem se interessando pelas virtudes da Virgem Maria, como castidade e pureza. Ela chega a imaginar pais se arrependendo dos esforços feitos para proporcionar aos filhos uma educação laica.
Uma tendência que ultrapassa fronteiras
O fenômeno não se limita à Espanha. Já em junho de 2024, o jornal francês Le Monde dedicou uma reportagem sobre o “catholic-core“, essa estética religiosa que se espalha pelo TikTok e Instagram, apresentando rosários, crucifixos, imagens do Sagrado Coração e representações da Virgem Maria. O jornal coletou, em especial, o depoimento de Laurène, uma estudante de 15 anos do ensino médio em Rouen, proveniente de família ateia e não batizada. Seduzida por essa estética, ela transformou completamente a decoração de seu quarto. Julie, uma estudante de 23 anos de Nantes e também ateia, explicou que apreciava o caráter antigo e singular das cruzes que usava.
De acordo com os dados divulgados pelo Le Monde, jovens de 18 a 24 anos na França representaram 70% dos internautas interessados em buscas relacionadas à expressão “estética católica” no Instagram. A popularidade desses itens vai além das redes sociais. O site Aleteia já havia destacad o o ressurgimento de medalhas religiosas e, em novembro de 2022, relatou a história de um lojista cujas vendas de terços aumentaram 40% em apenas um ano.
No Reino Unido, o jornal The Guardian também dedicou um artigo, em maio de 2025, ao retorno dos símbolos católicos na moda. Crucifixos, rosários e referências à iconografia cristã aparecem em coleções de estilistas e nos looks de celebridades populares entre os jovens.
Na Espanha, 45% dos jovens se declaram católicos
Essa renovada visibilidade dos símbolos religiosos ocorre em um momento em que diversos estudos têm observado uma mudança na relação dos jovens com a religião. Na Espanha, o relatório Jóvenes Españoles 2026, publicado pela Fundación SM, revela que a proporção de jovens de 15 a 29 anos que se identificam como católicos, praticantes ou não, aumentou de 31,6% em 2020 para 45% em 2025, representando um aumento de 13,4 pontos percentuais.
O estudo também indica que 38,4% dos jovens entrevistados consideram a religião bastante ou muito importante em suas vidas, o nível mais alto registrado nesta série de pesquisas. Outro estudo, divulgado em setembro pelo InfoVaticana, observou que 34,6% dos católicos espanhóis entre 18 e 24 anos se consideravam praticantes, uma proporção maior do que a observada em várias gerações mais antigas.
Esses resultados, no entanto, não significam um retorno geral à fé católica. Os jovens continuam sendo a faixa etária com a maior proporção de pessoas sem religião. O relatório da Fundación SM revela ainda que, entre os jovens espanhóis que se identificam como católicos praticantes, 60,7% também acreditam no karma, 48,5% na reencarnação e 44,1% em práticas mágicas — todas crenças incompatíveis com a doutrina da Igreja.
Jovens franceses redescobrem a fé sem a presença dos pais
Na França, uma pesquisa realizada em 2025 pela Aleteia e pela Famille Chrétienne com centenas de catecúmenos traz uma nova perspectiva. Entre os entrevistados, 65% não haviam crescido em uma família religiosa e metade afirmou ter descoberto a fé por conta própria. As redes sociais desempenharam um papel na descoberta ou no aprofundamento da fé para 78% dos respondentes.
Essa tendência reflete o crescimento significativo do catecumenato francês. Até a Páscoa de 2026, 13.234 adultos haviam sido batizados, 28% a mais que no ano anterior. Os jovens de 18 a 25 anos representavam 42% desses recém-batizados.
Uma pesquisa realizada com jovens de 16 a 30 anos na Suíça francófona, publicada em 2024 e divulgada no jornal La Vie em julho de 2025, também destacou a importância que os jovens fiéis atribuem à beleza dos ritos, da música e dos sinais visíveis de sua fé. A socióloga Isabelle Jonveaux observou nisso uma busca estética que ajuda a resgatar o significado das práticas religiosas.
Primeiros passos rumo à fé?
Por trás da popularidade das medalhas marianas e dos rosários, o que devemos observar? Uma mera moda passageira, uma busca por identidade ou os primeiros sinais de um retorno à fé? Esses objetos religiosos são, por vezes, reduzidos a simples acessórios, usados sem levar em conta seu significado sagrado, ou até mesmo associados a vestimentas pouco condizentes à modéstia cristã. Mas também podem despertar uma curiosidade religiosa. Resta esperar que essa atração não se limite às aparências e leve os jovens a redescobrir a fé de seus antepassados, a descobrir a oração e a receber os sacramentos.
O fenômeno, de qualquer forma, está atraindo atenção até mesmo em círculos muito distantes da Igreja. Nuria Labari, que defende o aborto e ataca prontamente a moral católica em suas colunas, agora se preocupa com o fracasso das promessas de emancipação feitas aos jovens. “Falhamos“, reconhece ela, antes de concluir com esta alternativa inesperada: “E quando tudo mais falha, o que resta às jovens? Talvez a Virgem Maria. Ou a revolução.”