
Não é ao sacerdote que nos confessamos, mas ao próprio Jesus; o sacerdote é apenas um instrumento. Quão bondoso Jesus era para com aqueles que se aproximavam dele!
Fonte: Le Seignadou – Tradução: Dominus Est
“Tendo proferido estas palavras, soprou sobre eles e disse-lhes: “Recebei o Espírito Santo. Aqueles a quem perdoardes os pecados, ser-Ihes-ão perdoados; aqueles a quem os retiverdes, ser–Ihes-ão retidos.” (João 20, 22-23).
Eis o poder extraordinário que Nosso Senhor Jesus Cristo deu aos seus Apóstolos e aos seus sacerdotes: apagar os pecados em Seu Nome. Ele providenciou um remédio tão eficaz e acessível quanto o mal e o pecado que abundavam no mundo.
O sacramento da penitência, comumente chamado de “confissão”, é uma obra de justificação e santificação. Destina-se a perdoar os pecados cometidos após o batismo. Santo Tomás de Aquino chama-o de “a segunda tábua de salvação”.(1) No coração do sacramento, por meio do sacerdote, seu instrumento livre e consciente, é o próprio Jesus quem age diretamente sobre a alma. Ele apaga as manchas do pecado e vivifica a alma com a vida sobrenatural da graça santificante. Essa graça tem dois aspectos: é “curativa” e “elevadora”; isto é, cura as feridas do pecado pessoal e eleva a alma a uma vida cristã mais perfeita. Essa é a parte de Jesus no sacramento da penitência.
Mas a obra da justificação também requer uma parte do penitente que confessa seu pecado. Sob o impulso da graça atual, a alma do pecador deve lamentar sinceramente suas faltas. Que juiz perdoaria um culpado sem arrependimento? Assim, uma boa confissão requer boa preparação. Antes de ir ao confessionário, examinemos nossa consciência a respeito de nossas falhas habituais, as tendências e ações que percebemos não estarem em conformidade com a vontade de Deus. Devemos nos julgar como Deus nos julga. Ao fazê-lo, evitemos o escrúpulo que destrói a vida espiritual; o escrúpulo que vê o mal onde não existe e exagera a culpa é uma falta de confiança em Jesus, um indício de falta de simplicidade e equilíbrio, às vezes até mesmo uma sugestão diabólica.
O Catecismo do Concílio de Trento exige que “a acusação seja clara, simples e sincera… de modo que nos revele ao sacerdote tal como nos conhecemos”. Mas especifica que “aqueles que demonstram discrição e modéstia em sua acusação não podem ser louvados em demasia”. Basta confessar ao sacerdote nossos pecados tais como aconteceram, com a simplicidade de nossos corações. Não devemos ocultar um pecado cometido no passado por falsa vergonha. Não é ao sacerdote que nos confessamos, mas ao próprio Jesus; seu sacerdote é apenas um instrumento. Quão bondoso Jesus era com aqueles que se aproximavam dele! Quanta condescendência e misericórdia ele demonstrava aos pobres pecadores nos caminhos da Palestina! É Ele ainda quem está no confessionário hoje quando nos confessamos; ele continua sendo tão bondoso, condescendente e misericordioso.
A contrição é essencial ao sacramento da confissão; para ser eficaz, deve ser interior e habitual. Para receber a graça do sacramento, basta ter atrição, isto é, arrependimento pelos nossos pecados por medo das punições que merecem. Mas esse temor servil deve, pouco a pouco, transformar-se em temor filial, que se arrepende do pecado por amor a Nosso Senhor Jesus Cristo e ao nosso Pai dos dois. Com ele, desenvolve-se a firme resolução, a vontade firme de nos opormos ao pecado e de permanecermos corajosos em nossas resoluções. Ao sair do confessionário, não devemos simplesmente dizer a nós mesmos: “Pronto, estou a salvo por duas semanas!”. Infelizmente, ainda teremos que lutar, porque as consequências do pecado original permanecem em nós.
Finalmente, mesmo que o pecado seja perdoado, permanece em nós uma desordem causada por ele. A falta moral foi perdoada, mas nossa alma está ferida; sofreu uma desordem que precisa ser reparada. Essa desordem requer satisfação ou reparação; a penitência dada pelo confessor e aceita pelo penitente é suficiente para a validade da absolvição. Mas a reparação completa de nossas injustiças pode levar tempo. É por isso que as almas no purgatório permanecem lá até que a punição devida ao pecado seja suportada e essas almas sejam perfeitamente purificadas. A satisfação é alcançada não apenas pela penitência sacramental imposta pelo confessor, mas se completa pela oração diária, pelos sacrifícios oferecidos e pelas privações aceitas em espírito de reparação pelos nossos pecados.
Assim, o sacramento da penitência, a “segunda tábua de salvação”, requer que os atos do penitente sejam realizados corretamente para dar frutos: confissão simples e completa dos pecados cometidos, arrependimento sincero das faltas e firme propósito de combatê-las com coragem, reparação generosa das faltas pela penitência sacramental e prática diária da virtude da penitência. Tudo isso fazemos sob o olhar de Jesus, depositando em seu Coração todo o nosso coração para receber a alegria de ser perdoados.
Pe. Louis-Edouard Meugniot, FSSPX
Nota:
(1) Ilia, q. 84, art. 6